Crônica: Epidemia polissilábica
Otto Lara Resende
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg75ympSr7WAdI-6mYb39z1SJpzRU9MpNFrzeZDpH8yimv8jE9xqNR70S4jrFwsCR_5mOSFoThYNhPgcbMSNsPQVsGS2Zm2bqhmGwUfth5IU6Is7dmOt4DpPWdffOQnx7tCEKd_QsEuy_aWsUhppF0sXg6WUvo53Ww9Bj9-axTwBzEfEe7Rk26EeY0XdVM/s320/cronicas-otto-lara-resende.jpg
A maior delas, como aprendemos na remota infância, tem até governado o
Brasil. É essa mesmo: inconstitucionalissimamente. Depois deste advérbio, no
seu hoje modesto pioneirismo, apareceram verdadeiros bondes vocabulares.
Autênticos minhocões. São cada vez mais numerosos e compridos, como a composição
ferroviária que transporta minérios. A perder de vista, todos têm de cinco
sílabas para cima. São centopeias de tirar o fôlego e de destroncar a língua.
Na
porta do Jockey, depois do almoço, um sujeito conversava outro dia, sereno,
sobre a atratividade do investimento superavitário. Temi pela sua digestão, se
é que não foi vítima de uma congestão. Ou de um insulto cerebral. Mas há
pessoas insuscetíveis de insulto, sobretudo cerebral. É o caso do cidadão que
discorreu sobre o obstaculizado caminho que o Brasil tem de percorrer, se
quiser alcançar um nível de competitividade num cenário de internacionalização
do livre-cambismo.
Até a carta-testamento do Getúlio, obstaculizar não tinha
feito a sua aparição triunfal. Dizem que foi ideia do Maciel Filho, que tinha
este vezo nacionalista da palavra complicada. Na verdade, é difícil inovar o
jargão político. Para atacar José Américo de Almeida, história antiga, Benedito
Valladares lançou no mercado a palavra boquirroto. Logo os adversários disseram
que era soprado pelo Orozimbo Nonato, um íntimo do Vieira e do Bernardes.
Arrazoava com um cunho seiscentista.
Enfim, tudo hoje em dia gera distorções. Gerar
é um verbo-ônibus. Serve para tudo. Confiemos, porém, que a seu tempo, a nível
de país, na expressão abominável que hoje é corrente, a solução seja
equacionada. A desestabilização extrapola de qualquer colocação. Longe de mim o
catastrofismo, mas no caminho polissilábico em que vamos, a ingovernabilidade é
fatal. E talvez passemos antes pela platino-dolarização contingencial. (Folha
de S. Paulo, 22/07/91)
Entendendo o texto
01. No início do texto, o autor cita Paulo
Rónai e um professor da Sorbonne para introduzir o tema da "crise".
Segundo a tese de Pedro Gomes, apresentada e defendida por Otto Lara Resende,
qual é a natureza específica dessa crise?
a. Uma crise de falta de termos técnicos para
descrever a economia moderna.
b. Uma crise semântica causada pela ausência
total de palavras no vocabulário dos jovens.
c. Uma crise "polissilábica",
caracterizada pelo uso excessivo de palavras muito longas e complexas.
d. Uma crise política gerada pela incapacidade
de traduzir dicionários estrangeiros.
02. O autor utiliza metáforas como "bondes
vocabulares", "autênticos minhocões" e "centopeias de tirar
o fôlego" para se referir a certas palavras. O que essas figuras de linguagem
revelam sobre a opinião do autor?
a. Admiração pela criatividade da língua
portuguesa em criar termos extensos.
b. Crítica ao tamanho exagerado e à
artificialidade de certas palavras modernas.
c. Apoio ao uso de termos ferroviários dentro
do jargão político brasileiro.
d. Desejo de que a língua se torne mais
complexa para alcançar o nível internacional.
03. Ao mencionar expressões como
"atratividade do investimento superavitário" e
"internacionalização do livre-cambismo", qual é a intenção principal
do cronista?
a. Demonstrar erudição e conhecimento sobre o
mercado financeiro.
b. Exemplificar como o discurso
técnico e burocrático se tornou refém da "epidemia" de palavras
longas.
c. Defender que o Brasil só alcançará
competitividade se utilizar um vocabulário mais robusto.
d. Mostrar que a digestão humana é afetada pela
leitura de jornais de economia.
04. O texto menciona que o verbo
"gerar" tornou-se um "verbo-ônibus". O que essa
classificação significa no contexto da crítica de Otto Lara Resende?
a. Que é um verbo que deve ser usado apenas por
pessoas que utilizam transporte público.
b. Que é uma palavra de movimento que
impulsiona a economia do país.
c. Que é um verbo de sentido vago e
genérico, usado excessivamente para substituir termos mais precisos.
d. Que é a palavra mais comprida e difícil de
pronunciar encontrada no dicionário.
05. Qual é a conclusão satírica (irônica) que o
autor apresenta no último parágrafo sobre o futuro do Brasil diante desse
cenário linguístico?
a. O país se tornará uma potência se adotar o
"livre-cambismo" linguístico.
b. A simplificação do dicionário é a única
forma de salvar a economia.
c. O uso de termos como
"desestabilização" e "ingovernabilidade" levará o país a
uma "platino-dolarização contingencial".
d. A solução para os problemas do país será
finalmente "equacionada" através de seminários na Sorbonne.
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