Crônica: As descontroladas
JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgZrjmclQnGXumjDfjUrd-eeF4OD9ts8u17wl9BS73NmyJQ64lPytzLoM6nqOZe2c3ztYPtAY3oFF0XWInIn_v6S1FuL1iQnwKX8u_XKHIdXnpxxIZ3YNiRFeHjlYdYH9tijpzJ_Pzyp0qC1YhCKMcm4_SkzEDO9P3i9_uhOdQQkgBZ47I3EW08Of460wY/s1600/mulheres.jpgElas já atenderam por vários nomes. Uma “uva”
era aquela que, de tão suculenta e bem-feita de curvas, devia abrir as folhas
de sua parreira e deliciar os machos com a eternidade de sua sombra. Há
cem anos as mulheres que circulam pela Rio Branco já foram chamadas de tudo e, diga-se
a bem da verdade, algumas atenderam. Por aqui passou o “broto”, o “avião”,
o “violão”, a “certinha”, o “pedaço”, a “deusa”, a “boazuda”, o “pitéu”, a
“gata” e tantas outras que podem não estar mais no mapa, como as mulatas do
Sargentelli, mas já estão no Houaiss eletrônico. Houve um momento que, de tão
belas, chegaram a ficar perigosas. Chamavam-nas “pedaço de mau caminho” ou
“chave de cadeia”. Algumas, de carne tão tenra, eram “frangas”.
Havia, de um modo geral, um louvor respeitoso
na identificação de cada um desses tipos que sucederam as melindrosas. Gosto de
lembrar daquela, ali pelo início dos 60, que era um “suco”. Talvez porque
sucedesse o tipo de “uva” e fosse tão aperfeiçoada no inevitável processo de
evolução da espécie que já viesse sem casca e, principalmente, sem os caroços.
Sempre prontinhas para beber. De uns tempos para cá, quando se pensava que na
esquina surgiria um vinho de safra especial, a coisa avinagrou. As mulheres
ficam cada vez mais lindas mas os homens, na hora de homenageá-las, inventam
rótulos de carinho duvidoso. O “broto”, o “violão” e o “pitéu” na versão arroba
ponto com 2000 era a “popozuda”. Depois, software 2001, veio a “cachorra”, a
“sarada”. Pasmem: era elogio. Algumas continuavam atendendo.
Agora está entrando em cena, perfilada num funk
do grupo As Panteras — um rótulo que, a propósito, notou a evolução das “gatas”
—, a mulher do tipo “descontrolada”. (...). Não é exatamente o que o
almofadinha lá do início diria no encaminhamento do eterno processo sedutivo, mas,
afinal, homem nenhum também carrega mais almofadas para se sentar no bonde.
Sequer bondes há. Já fomos “pães”. Muito doce, não pegou. Somos todos
lamentáveis “tigrões” em nossa triste sina de matar um leão por dia.
Elas mereciam verbetes melhores, que se lhes
ajustassem perfeitos, redondos, como a tal calça da Gang. A língua das ruas
anda avacalhando com as nossas “minas”, para usar a última expressão em que as
mulheres foram saudadas com delicadeza e exatidão — dentro da mina,
afinal, cabe tanto a pepita de ouro como a cavidade que se enche de
pólvora para explodir e destruir tudo o que estiver em cima.
A deusa da nossa rua, que sempre pisou os
astros distraída, não passa hoje de “tchutchuca marombada” ou “popozuda
descontrolada”. É pouco para quem caminha nas pedrinhas portuguesas como se São
Pedro fosse sobre as águas bíblicas. Algumas delas, uvas do vinho sagrado,
santas apenas no aguardo da beatificação vaticana, provocando ainda maior
alvoroço, alumbramento e estupefação dos sentidos.
O que as mulheres
procuram na bolsa: crônicas. Rio de Janeiro: Record, 2004.
Entendendo
o texto
01. Qual é o tema
principal da crônica de Joaquim Ferreira dos Santos?
a.
A história da construção da Avenida Rio Branco no Rio de Janeiro.
b. A evolução das gírias e apelidos usados pelos homens para se
referirem às mulheres ao longo do tempo.
c.
Uma crítica severa ao uso de calças jeans de marcas famosas. d. Um
estudo científico sobre a botânica, comparando mulheres a uvas e flores.
02.
Segundo o texto, qual era o nome dado às mulheres elegantes que circulavam na
Rio Branco há cerca de cem anos?
a.
Popozudas.
b.
Tchutchucas.
c. Melindrosas.
d.
Minas.
03. O autor menciona que,
nos anos 60, surgiu o termo "suco". Por que ele considera que essa
gíria indicava uma "evolução" em relação ao termo "uva"?
a.
Porque o suco é mais caro que a uva no mercado.
b. Porque, metaforicamente, o "suco" já viria pronto, sem
casca e sem caroços.
c.
Porque as mulheres daquela época não gostavam de comer frutas.
d.
Porque o termo "suco" era usado apenas para mulheres que moravam no
campo.
04. O autor faz uma
crítica aos apelidos mais recentes, como "cachorra",
"popozuda" e "descontrolada". Qual é essa crítica?
a.
Ele acha que esses nomes são mais bonitos e modernos que os antigos.
b.
Ele acredita que esses nomes ajudam as mulheres a serem mais respeitadas.
c.
Ele defende que as gírias atuais são mais precisas cientificamente.
d. Ele afirma que esses rótulos são de "carinho duvidoso" e menos delicados que os do passado.
05.
Ao falar sobre o termo "mina", o autor explica que essa expressão era
exata e delicada. Por que ele faz essa comparação? a. Porque as mulheres
trabalhavam em minas de carvão naquela época.
b. Porque a palavra "mina" pode representar tanto algo
valioso (pepita de ouro) quanto algo perigoso e explosivo (pólvora).
c.
Porque as mulheres são frias e duras como as pedras das minas.
d.
Porque é uma gíria que só existe na cidade de Belo Horizonte.
06. Como o autor descreve
a mudança nos apelidos dados aos homens ao longo do tempo?
a. Explica que os homens passaram de "pães" para
"tigrões", o que ele considera lamentável.
b.
Diz que os homens sempre foram chamados de "almofadinhas".
c.
Afirma que os homens não usam mais gírias entre si.
d.
Diz que os homens agora são chamados de "vinhos de safra especial".
07. No último parágrafo, o
autor compara o caminhar das mulheres nas "pedrinhas portuguesas" a
um evento bíblico. Qual é a intenção dessa comparação?
a.
Mostrar que as calçadas do Rio de Janeiro estão mal cuidadas.
b.
Criticar as mulheres que não sabem andar de salto alto.
c.
Sugerir que todas as mulheres deveriam frequentar a igreja.
d. Exaltar a beleza e a elegância das mulheres, elevando-as a uma
figura quase divina ou sagrada.
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