Artigo de opinião: Geração Canguru
Gilberto Dimenstein
Ao mapear novas tendências de consumo
no Brasil, publicitários acreditam ter detectado a "Geração Canguru".
São jovens bem-sucedidos profissionalmente, têm entre 25 e 30 anos de idade e
vivem na casa dos pais. O interesse neles é óbvio: compõem um nicho de
consumidores com alto poder aquisitivo.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj25MSf4vvsp1lDHGYNh9fO_kni_fWpdeuMM_z8L3j7T_PNI7_qqF_8r-b7m8ycvrm8cIPz8LBW6wzrLmJF_SA7Xhx5SSVeAs3y8ZMbyZviUTIGFcQR5JdBkBObtJdpbk_nd7YY8NT8wBC4lZOzNgNPlubcZ1F5FMOub9PT7plelpFnBNxIA4B4Z3ucWQk/s1600/CANGURU.jpg
Ainda na "bolsa" da mãe, eles
mostram que mudaram as fronteiras entre o jovem e o adulto. Até pouquíssimo
tempo atrás, um marmanjão de 30 anos, enfiado na casa dos pais, seria visto
como uma anomalia, suspeito de algum desequilíbrio emocional que retardou seu
crescimento.
O efeito "canguru" revela que
pais e filhos estão mutuamente mais compreensivos e tolerantes, capazes de lidar
com suas diferenças. Para quem se lembra dos conflitos familiares do passado,
marcados pelo choque de gerações, os "cangurus" até sugerem um grau
de civilidade. Não é tão simples assim.
Estudos de publicitários divulgados nas
últimas semanas indicam um lado tumultuado – e nem um pouco saudável – dessa
relação familiar. Por trás das frias estatísticas sobre tendência do mercado, a
pergunta que aparece é a seguinte: até que ponto os brasileiros mais ricos
estão paparicando a tal ponto seus filhos que produzem indivíduos com baixa
autonomia?
Ao investigar uma amostra de 1.500 mães
e filhos, no Rio e em São Paulo, a TNS InterScience concluiu que 82% das
crianças e dos adolescentes influenciam fortemente as compras das famílias. A
pressão é especialmente intensa nas classes A e B, cujas crianças, segundo os
pesquisadores, empregam cada vez mais a estratégia das birras públicas para
ganhar, na marra, o objeto de desejo.
Com medo das birras, as mães tentam,
segundo a pesquisa, driblar os filhos e não levá-los às compras, especialmente
nos supermercados, mas, muitas vezes, acabam cedendo. Os responsáveis pelo
levantamento da InterScience atribuem parte do problema ao sentimento de culpa.
Isso porque, devido ao excesso de trabalho, os pais ficam muito tempo longe de
casa e querem compensar a ausência com presentes.
Uma pesquisa encomendada pelo Núcleo
Jovem da Abril detectou que muitos dos novos consumidores vivem uma ansiedade
tamanha que nem sequer usufruem o que levam para casa. Já estão esperando o
produto que vai sair. É ninfomania consumista. Jovens relataram que nunca
usaram, nem mesmo uma vez, roupas que adquiriram. Aposentam aparelhos
eletrodomésticos comprados recentemente porque já estariam defasados.
Psicólogos suspeitam que essa atitude
seja uma fuga para aplacar a ansiedade e a carência, provocadas, em parte, pela
falta de limite. Imaginando-se modernos, pais tentam ser amigos de seus filhos
e, assim, desfaz-se a obrigação de dizer não e enfrentar o conflito. O
resultado é, no final, uma desconfiança, explicitada pelos entrevistados, ainda
maior em relação aos adultos.
Outro estudo, desta vez patrocinado
pela MTV, detectou um início de tendência entre os jovens de insatisfação
diante de pais extremamente permissivos. Estão demandando adultos mais pais do
que amigos. Para complicar ainda mais a insegurança das crianças e dos
adolescentes, a violência nas grandes cidades leva os pais, compreensivelmente,
a pilotar os filhos pelas madrugadas, para saber se não sofreram uma violência.
Brincar nas ruas está desaparecendo da paisagem urbana, ajudando a formar seres
obesos, presos ao computador.
Há pencas de estudo mostrando como a
brincadeira, dessas em que nos sujamos, ralamos o joelho na árvore, ajuda a
desenvolver a criatividade, o senso de autonomia e de cooperação. É um espaço
de estímulo à imaginação.
Todos sabemos como é difícil alguém
prosperar, com autonomia, se não souber lidar com a frustração. Muito se estuda
sobre a importância da resiliência – a capacidade de levar tombos e levantar
como um elemento educativo fundamental.
Professores contam, cada vez mais, como
os alunos não têm paciência de construir o conhecimento e desistem logo quando
as tarefas se complicam um pouco. Por isso, entre outras razões, os alunos
decepcionam-se rapidamente na faculdade que exige mais foco em poucos assuntos.
Os educadores alertam que muitos jovens
têm dificuldade de postergar o prazer e buscam a realização imediata dos
desejos; respondem exatamente ao bombardeamento publicitário, inclusive na
ingestão de álcool, como vamos testemunhar, mais uma vez, nas propagandas de
cerveja neste verão. Daí o risco de termos "cangurus" que fiquem cada
vez mais na bolsa (e no bolso) dos pais.
P.S. – Em todos esses anos lidando com
educação comunitária, posso assegurar que uma das melhores coisas que as
escolas de elite podem fazer por seus alunos é estimulá-los ao empreendedorismo
social. É um notável treino para enfrentar desafios. Enfrentam-se em asilos,
creches e favelas os limites e as carências. Conheci casos e mais casos de
alunos problemáticos que mudaram sua cabeça ao desenvolver uma ação comunitária
e passaram, até mesmo, a valorizar o aprendizado curricular.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/colunas/gd121205.htm
Entendendo o artigo:
01 – De acordo com o texto, quem faz parte da
chamada "Geração Canguru"?
A) Crianças que gostam de animais selvagens e
da natureza.
B) Jovens de 25 a 30 anos,
bem-sucedidos, que ainda moram na casa dos pais.
C) Pais que decidem morar na casa dos filhos
para ajudá-los com as despesas.
D) Pessoas que viajam muito para a Austrália a
trabalho.
02 – Por que o autor utiliza o termo
"Canguru" para descrever esses jovens?
A) Porque eles são muito rápidos e atletas como
os cangurus.
B) Porque eles gostam de se vestir com roupas
esportivas.
C) Porque, assim como o filhote de
canguru, eles continuam "na bolsa" (dependendo) dos pais por mais
tempo.
D) Porque eles têm o hábito de saltar de um
emprego para outro.
03 – Segundo o artigo, qual é um dos motivos
para os pais darem tantos presentes e não imporem limites aos filhos?
A) O desejo de que os filhos se tornem
colecionadores de objetos caros.
B) A falta de dinheiro, que os faz comprar
apenas o necessário.
C) O sentimento de culpa por passarem
muito tempo longe de casa devido ao trabalho.
D) A orientação dos psicólogos para que os pais
sejam apenas amigos dos filhos.
04 – O texto menciona que o excesso de mimos e
a falta de limites podem causar um problema nos jovens. Que problema é esse?
A) O aumento da inteligência e da criatividade.
B) A dificuldade de lidar com
frustrações e a baixa autonomia (capacidade de se virar sozinho).
C) O desejo de sair de casa o mais rápido
possível para morar sozinho.
D) A melhora no desempenho escolar e nas tarefas
difíceis.
05 – Qual é a crítica principal que o autor faz
em relação ao consumo dos jovens atuais?
A) Que os jovens compram apenas o que é
essencial para a sobrevivência.
B) Que os jovens estão comprando
demais, às vezes sem nem usar o que levam para casa (consumismo exagerado).
C) Que os jovens não sabem usar a internet para
fazer compras.
D) Que os jovens preferem economizar dinheiro
para o futuro.
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