quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

CRÔNICA: AMAI O PRÓXIMO, ETC... MARINA COLASANTI - COM GABARITO

 Crônica: Amai o próximo, etc... 

               Marina Colasanti

Atendo o telefone na minha casa. “Victor está?” diz a voz do outro lado sem sequer um alô, um por favor, nada. Eu, amável, informo que Victor não está nem pode estar porque não mora aqui. O outro bate o telefone na minha cara. Dois minutos, e o telefone toca novamente. “Quero falar com Victor” vem a mesma voz. “O senhor é muito mal-educado”, ataco logo para não lhe dar tempo de desligar. “Acabou de ligar, nem me agradeceu, nem me pediu desculpas, e bateu com o telefone. Como já lhe disse, Victor não mora aqui.” A voz se faz mais mansa, “A senhora, desculpe. Muito obrigado.” E desliga.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEguGwyGMXUH_zwlkVpxnQlnhHzjEfN-xVyXMNSdwwW0wwYUECVsWWr4TfCh5Dc8VS4-IpaJys7myF3I6I7qxiUUCQESu0Vo0NGYKR_Gb0G_Hy2ytUu39zo6s2aY41-3ufvP_ZueO3RriTLkjP50K3Iz3PiBDKj4BqVOURqSGUR2SuuTJ20VA5oLPpJJv3w/w212-h227/boas-maneiras.jpg


Exulto. Ponto a favor da educação. Pois, se com medo de infringir-lhe as regras, sempre me abstenho de reprimendas desse tipo, é justamente para mantê-las vivas – as regras, não as reprimendas – que convém fazê-las.

Digo obrigada à caixa do supermercado, que não me responde. Peço por favor ao funcionário do guichê que nem levanta os olhos para a minha pessoa. Dou bom-dia ao sujeito do açougue que parece não entender de que dia ou de que qualidade estou falando. Sou uma otária? Não, sou uma resistente.

Minha amiga Claudine de Castro, socialite das mais elegantes, publicou um livro de etiqueta. Uma graça o livro, bem-humorado,  prático.  Fui  ao  lançamento.  Todos  ali  éramos  veteranos  praticantes  daquilo  que  se  chamava  “boas maneiras”. Um bando de micos-leões-dourados, pensei. Ameaçados de extinção. Uma amiga comum comentou que daria o livro ao sobrinho, ela não precisava. “Os jovens”, acrescentou, “andam muito mal-educados”.

Os jovens? Não  era  jovem o  senhor  bem vestidérrimo que quase  me segurou no  meio  da rua,  interrompendo minha marcha célere, para pedir orientação a respeito de um endereço. Orientação fornecida, o cavalheiro, que certamente não fazia jus à definição, partiu sem dizer água vai. E fiquei eu, no resto da manhã, irritada pela brutalidade.

No Japão, a primeira expressão que me ensinaram quando cheguei foi sumi-masen. Equivale ao nosso por favor. Para ajudar-me a gravar essa chave fundamental em qualquer situação, sugeriram que lembrasse da nossa tão frequente corrupção e dissesse em português: sumiu mais cem. Cravou-se, indelével, na minha memória. E dela lancei mão infinitas vezes, com aquela segurança com que se saca um ás da manga. Nunca conheci povo tão bem-educado. Todos te atendem sorridentes. Todos te ajudam. Ninguém te esbarra. Ninguém te esbarra mesmo em meio à multidão. E multidão é coisa frequente no Japão. Sem grandes antropologismos, podemos deduzir que a viver em tantos em país tão pequeno ou se entredevoravam ou se educavam. Preferiram educar-se.

Entre nós, os livros de etiqueta como o de Claudine vendem feito pão. Ânsia de educar-se para sobreviver? Não, necessidade de aprender as regras para ascender. Os recém-chegados às mesas de muitos talheres – e há sempre levas novas que chegam e mesas novas são postas – querem saber que garfo pegar. Pena que o garfo certo não seja fundamental, ou sequer importante, para a boa educação. Boa educação sendo, por exemplo, aquela que as pessoas da roça, de tão poucos talheres e tão pouca comida no prato, praticam com doçura e naturalidade. Cumprimentar o desconhecido com quem se cruza na trilha, coar café ou oferecer água ao visitante que chega. Dar atenção.

Dar atenção é a essência da boa educação. Só isso. Em vez do humilde “por favor”, deveríamos dizer: peço a sua atenção. Pois não é favor algum atender o semelhante que precisa de nós. E nenhum contato pode ser gentil sem atenção. No entanto, em todas as línguas, quando se quer ser educado é por favor que se pede, ou desculpas, pois está estabelecido que necessitar do outro, tirar o outro do seu rumo por instantes é algo quase inconveniente, pelo qual devemos nos penitenciar. Convenhamos, há um erro de base. Ou, se quisermos ir um pouco mais além no sentido desses mínimos encontros, há uma lamentável regra de desamor.

(In: Manuel da Costa Pinto, org. Crônica brasileira contemporânea. São Paulo: Moderna, 2005. p. 176-9.)

Vocabulário

célere: ligeiro, veloz.

exultar: exprimir grande alegria.

indelével: o que não se pode apagar ou eliminar.

Entendendo o texto

01.A crônica é um gênero que, como afirma o crítico Manuel da Costa Pinto, explora “fatos do dia a dia [...], acontecimentos que propiciam momentos de nostalgia, enternecimento ou indignação”.

a.   Qual é o fato do dia a dia que serve de tema para a crônica lida?

              É a falta de educação das pessoas.

b.   Como a narradora se sente diante do comportamento das pessoas?

              Ela se sente indignada.

02. As reflexões da narradora sobre a atitude das pessoas no dia a dia permitem fazer inferências sobre o que ela considera ideal, em termos de relacionamento social. Deveria ter cumprimentado a pessoa que atendeu, com uma saudação como bom dia ou boa tarde, ou dizer quem era e o que desejava

a.   Como deveria ter agido a pessoa que ligou para a casa da narradora?

Deveria ter cumprimentado a pessoa que atendeu, com uma saudação como bom dia ou boa tarde, ou dizer quem era e o que desejava e ter agradecido pela resposta atenciosa.

b.   Como a narradora esperava que os interlocutores reagissem diante das palavras gentis proferidas por ela no supermercado, no guichê e no açougue?

Esperava que as pessoas respondessem com expressões como de nada, bom dia, etc. e, principalmente, tivessem dado atenção a ela.

03. Uma amiga da narradora afirma: “Os jovens andam muito mal-educados”.

a.   Que exemplo a narradora usa para refutar a opinião da amiga?

              O exemplo de um senhor bem-vestido que pediu a ela uma informação na rua e não agradeceu.

b.   Releia este trecho: “Orientação fornecida, o cavalheiro, que certamente não fazia jus à definição, partiu sem dizer água vai.”

             A afirmação de que o homem partiu “sem dizer água vai” quer dizer, no contexto, que ele saiu de supetão, sem avisar ou agradecer, o que não corresponde ao comportamento de um verdadeiro cavalheiro.

04.  Qual é a atitude inicial da narradora ao atender o telefone?

     A) Desliga imediatamente.

     B) Informa que Victor não está com educação.

     C) Pede desculpas ao interlocutor.

05.  Por que a narradora se sente exultante após o segundo telefonema?

      A) Victor retornou a ligação.

      B) A pessoa agradeceu educadamente.

     C) Ela repreendeu a falta de educação.

06.  Como a narradora define a si mesma ao tratar pessoas sem educação?

     A) Otária.

     B) Educada.

     C) Resistente.

07.  O que a amiga Claudine de Castro publicou sobre etiqueta?

       A) Um livro de receitas.

       B) Um livro de poesias.

       C) Um livro de etiqueta.

08.  Por que a narradora chama as pessoas no lançamento do livro de "micos-leões-dourados"?

      A) Elegância.

     B) Extinção.

     C) Boas maneiras.

09. Segundo a amiga da narradora, quem anda muito mal-educado?

     A) Os jovens.

     B) Os adultos.

     C) Todos.

10.  Qual é a expressão japonesa equivalente ao "por favor"?

     A) Konnichiwa.

    B) Sayonara.

    C) Sumi-masen.

11.  O que a narradora compara a "sumi-masen" em português para ajudá-la a lembrar?

     A) "Sumiu mais cem."

     B) "Comi bastante."

     C) "Sai mais cedo."

12.  Como a narradora descreve o povo japonês em relação à educação?

     A) Educado.

     B) Agressivo.

    C) Desinteressado.

13.  Qual é a essência da boa educação, segundo a narradora?

      A) Cumprimentar formalmente.

     B) Usar talheres corretamente.

     C) Dar atenção ao semelhante.

 

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