quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

CRÔNICA: TEMPO E A MEMÓRIA - WALCYR CARRASCO - COM GABARITO

 Crônica: Tempo e a Memória

               Walcyr Carrasco

OUTRO DIA OBSERVEI UMA FOTO minha, quando bebê. Um garoto gordinho, de chocalho na mão. Sei que sou eu. Ao mesmo tempo existe um certo estranhamento. Não me lembro de quando andava de gatinhas. Abro um livro da minha infância. Alice no País das Maravilhas. As ilustrações em preto-e-branco estão pintadas com lápis de cor. Fui eu! 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLqijmY23Zneuk1oojCMammZpiDG7-oLctNRxwOOs7nPEBJhX6PH_XJdzGRWgeM7roLcZth8jmWddzXwLrDTsCcSRiF6jjtQ2LXZ_j-8kJtz9dXBVKdCIRJoPqZproT0gIhTk72GRYfnV_DUJOtLKTuKNKyH1XexOIrOGrRUD3hQynQBWKWuCgLXvMPRE/s320/BEBE.jpg


Tive um ursinho de pelúcia, também. Não sei onde foi parar. Decidido a ser médico, eu lhe aplicava injeções. Acabou destruído, o coitado! Eu adorava o ursinho, como deixei desaparecer? O início de um novo ano é simbólico. Sempre se faz uma certa retrospectiva. Flashes passam pela minha cabeça. Um ano-novo em Ubatuba, quando eu era adolescente. Uma festa agitada. Andava com uma turma da qual não tenho mais notícia. Havia uma carioca, chamada Marcy. 

Só a conheci naquela passagem de ano... ou terá sido na seguinte, em Parati? Entre meus guardados há uma foto da garota. Um sorriso enorme. Não soube mais dela. A sua alegria, nunca esqueci. Tento imaginar. Como estará agora, uma mulher madura, com filhos? O que a vida lhe reservou? Um marido, uma separação? Terá ido viver fora do país? O sorriso permanece o, mesmo? Tive um grande amigo, Nelson, lá pelos vinte anos. Artista gráfico. Passei dois anos vivendo fora do país. Só nos escrevemos no começo. Quando voltei, perguntei dele a conhecidos comuns.

— Sumiu. De um dia para o outro não se teve mais notícia. A mulher procurou por todo lado. Foi na época da ditadura militar. Nunca soube que tivesse envolvimento político. Seria um segredo seu? Ou simplesmente largou tudo? Saiu de casa para ir ao cinema e nunca mais voltou? A pergunta dói. Sumiu ou foi sumido? E minha amiga Malu, psicóloga? Íamos dançar sempre. Não perdíamos festas. Só a vi muito tempo atrás, em um lançamento de livro. Beijou-me e pediu: — Não desapareça. Prometi ligar na semana seguinte. Há anos. Resta a vaga informação de que ela fez doutorado. Será que ainda dança? Outro psicólogo, o Ercílio. Gostava de psicodrama. Continuará acreditando em um modo de vida alternativo? Ou transformou-se em um homem formal? Há gente que nos acompanha a vida toda. Tenho uma amiga desde a infância. Não nos falamos muito. Outro dia, depois de uns cinco anos, ela me ligou.

— Estou com um problema afetivo. Preciso de um conselho e só tenho você a quem recorrer. Ficamos duas horas ao telefone. No final, ela agradeceu, aliviada.

— E bom ter com quem falar. Passo anos sem ver o Pérsio e o Raul, a Sônia e a Míriam. Se nos encontramos, começamos a conversar como se tivéssemos nos visto a noite anterior. Certas amizades são assim, não? A gente fica um tempo enorme sem se ver. Quando se encontra, retoma do ponto em que parou. Não consigo deixar de pensar, ao começar um ano, nas coisas que poderia ter feito. Quis ser pintor, e há uma tela horrenda que perpetrei aos onze anos. Médico. Leitor de taro. Fica uma certa lamentação pelos amigos que nunca mais vi. Por tudo que poderíamos ter vivido juntos. Também, outras pessoas entraram na minha vida. Olhando em torno, eu penso que essa é a grande vantagem dos anos. A gente forma famílias não só de sangue. Mas de pessoas que nos acompanham, de perto ou de longe, sempre em um caminho do coração. Vejo a foto de um bebê que fui. Pergunto-me.

— A vida é apenas uma grande recordação? Vem a resposta, como se o bebê da foto conversasse comigo.

— É uma continuidade. Você de hoje é fruto do de ontem. Sorrio. A entrada de um novo ano mostra que a vida continua. Passado, presente e futuro se misturam, com muita coisa boa para acontecer.

Entendendo o texto

Enredo e Foco Narrativo:

01. Qual é o principal tema abordado na crônica "O Tempo e a Memória"?

      A) Amizade.

      B) Infância.

     C) Retrospectiva.

     D) Ano-novo.

Personagens:

02. O que aconteceu com o ursinho de pelúcia do autor quando ele era criança?

      A) Foi doado.

      B) Foi perdido.

      C) Foi destruído.

      D) Foi guardado.

Tempo e Espaço:

03. Em que época o autor menciona ter passado dois anos vivendo fora do país?

     A) Na infância.

     B) Na adolescência.

     C) Na juventude.

     D) Na idade adulta.

Tipo de Linguagem:

04. Como o autor se refere à sua tentativa de ser médico na infância?

     A) "Coitado!".

     B) "Perpetrei".

     C) "Horrenda".

      D) "Sorrio".

Memórias e Recordações:

05. O que o autor observa ao começar um novo ano?

    A) Fotografias antigas.

     B) Flashes de eventos passados.

     C) Pinturas feitas na infância.

     D) Livros de sua juventude.

Enredo e Desenvolvimento:

06. Por que o autor se sente estranhado ao olhar uma foto de sua infância?

     A) Não reconhece a si mesmo.

     B) Não lembra de andar de gatinhas.

     C) Não gosta das ilustrações do livro.

     D) Não encontra seu ursinho de pelúcia.

Personagens e Desfechos Misteriosos:

07. O que aconteceu com o amigo Nelson?

    A) Envolvimento político.

    B) Largou tudo e sumiu.

    C) Mudou-se para o exterior.

    D) Virou médico.

Desenvolvimento de Personagens:

08. O que a amiga Malu fez depois de anos sem se verem?

    A) Doutorado.

    B) Desapareceu.

    C) Tornou-se médica.

    D) Escreveu um livro.

Reflexão sobre a Vida:

09. Como o autor descreve a vida ao observar a foto de um bebê que ele foi?

     A) Como uma grande lamentação.

     B) Como uma continuidade.

    C) Como uma recordação passageira.

    D) Como uma mistura de passado e futuro.

Conclusão e Tema Central:

10. O que a entrada de um novo ano representa para o autor?

    A) Fim das recordações.

    B) Continuidade da vida.

    C) Perda de amizades.

    D) Lamentação pelo passado.

 

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