Crônica: O chefe político e o seu eleitor
Lima Barreto
Seu
doutor, eu vim incomodá-lo; mas precisava muito ficar bem com minha
consciência.
–
Que há?
–
Eu não voto no doutor Rui.
–
Como você vai votar no Epitácio?
–
Nem num nem noutro.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj0Gwsd8DhhF5XRAOb3qomZBaWBy5IFbKO_rYBsC5r9RtV97yEyrzyv7VaQUnjihWyvuavrcJxuG3lVXk1sgPAgnTkff_PiXsKTpfBCibIxc_3jJHwYDOs-d2DWuKwmYz-ScL3CVlzSYSknQ8fI0EruuzIneclS_t88vlhk7UZRMDuUdbeX-Xr6MIQqONo/s1600/images.jpg –
Você está ficando indisciplinado; não é mais o correligionário disciplinado de
antigamente. Que diabo foi isso?
–
Eu não tenho sido companheiro para você?
–
Sim senhor. Devo ao doutor todos os obséquios desta vida, pelo que lhe sou
muito agradecido. Foi o doutor que abaixo de Deus, salvou a Marocas, minha
mulher, sem cobrar nada... Quando foi o enterro do meu filho Dodoca, o doutor
me ajudou muito...
–
Isso tudo não vem ao caso. Falemos...
–
Não; vem sim, doutor! Quero que o senhor não pense que sou mal agradecido. Se
estou empregado, devo ao doutor e...
–
Se você continuasse no partido, podia subir ou nós arranjávamos uma
equiparação ou mesmo um aumento de vencimentos; mas...
–
Continuo no partido, doutor...
–
Como? Você não vota conosco...
–
Mas não voto no outro.
–
É o mesmo.
–
Não é doutor.
–
É sim Felício! Em política, quem não é por mim é contra mim. Você sabe disso,
não é?
–
É e não é. Não estou contra o senhor não senhor! É que me deu uma coisa cá
dentro e eu...
–
Que foi que deu em você?
–
Eu me explico, tanto mais que tenho pensado muito no caso. O senhor quer me
ouvir?
–
Ouço, mas você não demora muito.
–
Não demoro não senhor.
–
Conte lá a história.
–
Vou contar. Trata-se – não é verdade? – de escolher o homem que vai governar
isto tudo. Quero dizer que ele vai governar todos os brasileiros, inclusive eu.
–
Daí?
–
Espere doutor! Pensei, então, eu cá com os meus botões: vou escolher uma pessoa
que deve mandar em mim, na minha mulher, nos meus filhos, na minha casa até –
preciso cuidado. Não é doutor?
–
Mais ou menos, é, pois há a lei que ...
–
Isto de lei é história. Quem governa é ele mesmo...
–
Vamos adiante.
–
Um homem que vai ter tanto poder sobre mim, sobre os meus e sobre as minhas
coisas para ser escolhido por mim mesmo, deve ser meu conhecido velho.
Voluntariamente pela minha própria vontade, vou escolher um dono para mim, e
sendo assim o meu dever é estar inteirado do sujeito que é – não acha?
–
Sim, não há dúvida. Mas você sabe bem quem é o Rui, penso eu.
–
Conheço. É um homem muito inteligente...
–
A maior glória do Brasil.
–
É um grande talento.
–
É um gênio.
–
Sei de tudo isto doutor. Mas daí não posso concluir que ele possa mandar-me.
–
Porque?
–
Pode ser caprichoso, implicante ...
–
Ora!
–
Quer dizer que ele nunca me enxergará, não é?
–
Não é bem isso...
–
Ele pode não me enxergar, mas um dia enxerga outro por ele, e lá estou eu a
braços com um homem de veneta.
–
Não digo que ele seja...
–
E o Epitácio?
–
Esse ouço dizer que também é inteligente, doutor, tem sido muita coisa...
–
Mas não é o Rui.
–
Sei, doutor. Rui Barbosa não tem igual.
–
Mas porque você não vota nele?
–
Não voto porque não o conheço intimamente, de perto, como já disse ao senhor.
Antigamente...
–
Você não pensava assim – não é?
–
É verdade; mas, de uns tempos a esta parte, dei em pensar.
–
Faz mal. O partido...
–
Não falo mal do partido. Estou sempre com ele, mas não posso por meu próprio
gosto dar sobre mim tanta força a um homem, de que eu não conheço o gênio muito
bem.
–
Mas, se é assim, você terá pouco que escolher a não ser, nós colegas e nós
amigos de você.
–
Entre esses eu não escolho, porque não vejo nenhum que tenha as luzes
suficientes; mas tenho outros conhecidos, entre os quais posso procurar a
pessoa para me governar, guiar e aconselhar.
–
Quem é?
–
É o doutor.
–
Eu?
–
Sim, é o senhor.
–
Mas, eu mesmo? Ora...
–
É a única pessoa de hoje que vejo nas condições e que conheço. O senhor é do
partido, e votando no senhor, não vou contra ele.
–
De forma que você...
–
Voto no senhor, para presidente da república.
–
É voto perdido...
–
Não tem nada; mas voto de acordo com o que penso. Parece que sigo o que está no
manifesto assinado pelo senhor e outros. “Guiados pela nossa consciência e
obedecendo o dever de todo republicano de consultá-la”...
–
Chega Felício.
–
Não é isso?
–
É, mas você deve concordar que um eleitor arregimentado tem de obedecer ao
chefe.
–
Sei, mas isto é quando se trata de um deputado ou senador, mas para presidente,
que tem todos os trunfos na mão, a coisa é outra. É o que penso. Demais...
–
Você está com teorias estranhas, subversivas...
–
Não tenho teoria alguma, doutor. Consultei a minha consciência e a minha
gratidão, e voto no senhor.
–
Mas... já sou deputado.
–
Que tem? Sobe mais um posto, ganha mais...
–
Não preciso, já ganho na clínica muito.
–
Com o lugar de deputado? Então pra que quis ir para a Câmara?
–
Para nada.
–
Doutor, eu decididamente não compreendo nada disto. Essa política é mesmo igual
aos mistérios dos padres... Passe bem.
O Malho, Rio, 1-4-1919.
Entendendo a crônica:
01 – Qual é o
conflito principal estabelecido no diálogo entre o "doutor" (chefe
político) e o seu eleitor, Felício?
O conflito surge
do fato de Felício decidir não votar nos candidatos oficiais indicados pelo
partido para a presidência (Rui Barbosa e Epitácio Pessoa). O chefe político
enxerga essa decisão como um ato de insubordinação partidária e rompimento de
fidelidade ("quem não é por mim é contra mim"). Por outro lado,
Felício argumenta que sua decisão se baseia em uma busca por coerência moral e
na sua própria consciência, desafiando a lógica tradicional do voto cabresto e
da disciplina cega do partido.
02 – Como a crônica
retrata as práticas do clientelismo e do coronelismo da Primeira República no
Brasil?
A crônica
evidencia o clientelismo por meio das alusões às trocas de favores entre o
"doutor" e Felício. O chefe político lembra ao eleitor a ajuda prestada
em momentos difíceis (atendimento médico da esposa, custos do enterro do filho
e indicação para o emprego público). Em contrapartida, esperava-se a obediência
cega no momento do voto. O chefe encara o voto não como um direito de escolha
cívica do eleitor, mas como uma obrigação de retribuição ou subserviência
partidária.
03 – Qual é a lógica
utilizada por Felício para recusar o voto nos candidatos renomados como Rui
Barbosa e Epitácio Pessoa?
Felício argumenta
que o Presidente da República exercerá um enorme poder direto sobre a vida do
cidadão e de sua família. Para ele, inteligência ou reputação nacional
(atributos de Rui e Epitácio) não garantem que esses líderes conheçam ou
respeitem o eleitor comum. Felício defende que só deveria votar em alguém de
cujo caráter e comportamento íntimo ele tivesse conhecimento direto e pessoal.
Como não conhece os candidatos nacionais "de perto", prefere não lhes
dar tal poder.
04 – Qual é a ironia
contida na decisão de Felício em votar no próprio "doutor" para
Presidente da República?
A ironia reside
no fato de Felício usar a própria retórica do partido ("obedecendo o dever
de todo republicano de consultar sua consciência") e sua gratidão pessoal
para votar em seu chefe local. Embora Felício acredite estar sendo plenamente
coerente e gratificado, do ponto de vista do sistema político o seu voto no
"doutor" é considerado um "voto perdido", já que o chefe
não é candidato ao cargo. O gesto de Felício desarma o político, revelando que
a lógica puramente formal do discurso partidário contraria o sentido prático
cobrado nas urnas.
05 – De que forma o
chefe político reage à autonomia de pensamento de Felício e o que essa reação
revela sobre o sistema eleitoral da época?
O chefe político
reage com estranhamento e acusa Felício de estar "indisciplinado" e
adotando "teorias estranhas, subversivas" simplesmente porque o
eleitor começou a pensar por conta própria. Essa reação revela que, na Primeira
República, a autonomia e o exercício crítico da cidadania por parte das classes
populares eram vistos pelas elites políticas como uma ameaça ou uma anomalia,
já que a manutenção do poder dependia do controle rígido sobre a massa votante.
06 – Como a frase
final de Felício — "Essa política é mesmo igual aos mistérios dos
padres..." — sintetiza a visão do cidadão comum sobre a política
institucional?
A frase expressa
o perplexo distanciamento do cidadão humilde em relação às contradições e
negociatas da política profissional. Felício percebe que a política não opera
com base na lógica moral ordinária ou na transparência, mas em um conjunto de
dogmas, rituais e interesses ocultos (à semelhança dos "mistérios da
religião") que fogem à compreensão das pessoas comuns e servem apenas para
manter as elites no poder.
07 – Análise o papel
da linguagem e do tom na crônica de Lima Barreto para a construção da crítica
social.
Lima Barreto
utiliza um diálogo dinâmico e coloquial para contrapor dois mundos: o da
política formal e burocrática (representado pelo "doutor") e o da
vida concreta e do bom senso popular (representado por Felício). O tom
predominantemente irônico e bem-humorado desconstrói as pretensões da elite
política da época, mostrando como a pretensa racionalidade do sistema eleitoral
da Primeira República era, na verdade, pautada por contradições, interesses
pessoais e ausência de verdadeira representatividade democrática.




