quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CRÔNICA: O CHEFE POLÍTICO E O SEU ELEITOR - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: O chefe político e o seu eleitor

            Lima Barreto

 

        Seu doutor, eu vim incomodá-lo; mas precisava muito ficar bem com minha consciência.

        – Que há?

        – Eu não voto no doutor Rui.

        – Como você vai votar no Epitácio?

        – Nem num nem noutro.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj0Gwsd8DhhF5XRAOb3qomZBaWBy5IFbKO_rYBsC5r9RtV97yEyrzyv7VaQUnjihWyvuavrcJxuG3lVXk1sgPAgnTkff_PiXsKTpfBCibIxc_3jJHwYDOs-d2DWuKwmYz-ScL3CVlzSYSknQ8fI0EruuzIneclS_t88vlhk7UZRMDuUdbeX-Xr6MIQqONo/s1600/images.jpg


        – Você está ficando indisciplinado; não é mais o correligionário disciplinado de antigamente. Que diabo foi isso?

        – Eu não tenho sido companheiro para você?

        – Sim senhor. Devo ao doutor todos os obséquios desta vida, pelo que lhe sou muito agradecido. Foi o doutor que abaixo de Deus, salvou a Marocas, minha mulher, sem cobrar nada... Quando foi o enterro do meu filho Dodoca, o doutor me ajudou muito...

        – Isso tudo não vem ao caso. Falemos...

        – Não; vem sim, doutor! Quero que o senhor não pense que sou mal agradecido. Se estou empregado, devo ao dou­tor e...

        – Se você continuasse no partido, podia subir ou nós ar­ranjávamos uma equiparação ou mesmo um aumento de venci­mentos; mas...

        – Continuo no partido, doutor...

        – Como? Você não vota conosco...

        – Mas não voto no outro.

        – É o mesmo.

        – Não é doutor.

        – É sim Felício! Em política, quem não é por mim é contra mim. Você sabe disso, não é?

        – É e não é. Não estou contra o senhor não senhor! É que me deu uma coisa cá dentro e eu...

        – Que foi que deu em você?

        – Eu me explico, tanto mais que tenho pensado muito no caso. O senhor quer me ouvir?

        – Ouço, mas você não demora muito.

        – Não demoro não senhor.

        – Conte lá a história.

        – Vou contar. Trata-se – não é verdade? – de escolher o homem que vai governar isto tudo. Quero dizer que ele vai governar todos os brasileiros, inclusive eu.

        – Daí?

        – Espere doutor! Pensei, então, eu cá com os meus botões: vou escolher uma pessoa que deve mandar em mim, na minha mulher, nos meus filhos, na minha casa até – pre­ciso cuidado. Não é doutor?

        – Mais ou menos, é, pois há a lei que ...

        – Isto de lei é história. Quem governa é ele mesmo...

        – Vamos adiante.

        – Um homem que vai ter tanto poder sobre mim, sobre os meus e sobre as minhas coisas para ser escolhido por mim mesmo, deve ser meu conhecido velho. Voluntariamente pela minha própria vontade, vou escolher um dono para mim, e sendo assim o meu dever é estar inteirado do sujeito que é – não acha?

        – Sim, não há dúvida. Mas você sabe bem quem é o Rui, penso eu.

        – Conheço. É um homem muito inteligente...

        – A maior glória do Brasil.

        – É um grande talento.

        – É um gênio.

        – Sei de tudo isto doutor. Mas daí não posso concluir que ele possa mandar-me.

        – Porque?

        – Pode ser caprichoso, implicante ...

        – Ora!

        – Quer dizer que ele nunca me enxergará, não é?

        – Não é bem isso...

        – Ele pode não me enxergar, mas um dia enxerga outro por ele, e lá estou eu a braços com um homem de veneta.

        – Não digo que ele seja...

        – E o Epitácio?

        – Esse ouço dizer que também é inteligente, doutor, tem sido muita coisa...

        – Mas não é o Rui.

        – Sei, doutor. Rui Barbosa não tem igual.

        – Mas porque você não vota nele?

        – Não voto porque não o conheço intimamente, de perto, como já disse ao senhor. Antigamente...

        – Você não pensava assim – não é?

        – É verdade; mas, de uns tempos a esta parte, dei em pensar.

        – Faz mal. O partido...

        – Não falo mal do partido. Estou sempre com ele, mas não posso por meu próprio gosto dar sobre mim tanta força a um homem, de que eu não conheço o gênio muito bem.

        – Mas, se é assim, você terá pouco que escolher a não ser, nós colegas e nós amigos de você.

        – Entre esses eu não escolho, porque não vejo nenhum que tenha as luzes suficientes; mas tenho outros conhecidos, entre os quais posso procurar a pessoa para me governar, guiar e aconselhar.

        – Quem é?

        – É o doutor.

        – Eu?

        – Sim, é o senhor.

        – Mas, eu mesmo? Ora...

        – É a única pessoa de hoje que vejo nas condições e que conheço. O senhor é do partido, e votando no senhor, não vou contra ele.

        – De forma que você...

        – Voto no senhor, para presidente da república.

        – É voto perdido...

        – Não tem nada; mas voto de acordo com o que penso. Parece que sigo o que está no manifesto assinado pelo senhor e outros. “Guiados pela nossa consciência e obedecendo o dever de todo republicano de consultá-la”...

        – Chega Felício.

        – Não é isso?

        – É, mas você deve concordar que um eleitor arregimentado tem de obedecer ao chefe.

        – Sei, mas isto é quando se trata de um deputado ou senador, mas para presidente, que tem todos os trunfos na mão, a coisa é outra. É o que penso. Demais...

        – Você está com teorias estranhas, subversivas...

        – Não tenho teoria alguma, doutor. Consultei a minha consciência e a minha gratidão, e voto no senhor.

        – Mas... já sou deputado.

        – Que tem? Sobe mais um posto, ganha mais...

        – Não preciso, já ganho na clínica muito.

        – Com o lugar de deputado? Então pra que quis ir para a Câmara?

        – Para nada.

        – Doutor, eu decididamente não compreendo nada disto. Essa política é mesmo igual aos mistérios dos padres... Passe bem.

O Malho, Rio, 1-4-1919.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o conflito principal estabelecido no diálogo entre o "doutor" (chefe político) e o seu eleitor, Felício?

      O conflito surge do fato de Felício decidir não votar nos candidatos oficiais indicados pelo partido para a presidência (Rui Barbosa e Epitácio Pessoa). O chefe político enxerga essa decisão como um ato de insubordinação partidária e rompimento de fidelidade ("quem não é por mim é contra mim"). Por outro lado, Felício argumenta que sua decisão se baseia em uma busca por coerência moral e na sua própria consciência, desafiando a lógica tradicional do voto cabresto e da disciplina cega do partido.

 

02 – Como a crônica retrata as práticas do clientelismo e do coronelismo da Primeira República no Brasil?

      A crônica evidencia o clientelismo por meio das alusões às trocas de favores entre o "doutor" e Felício. O chefe político lembra ao eleitor a ajuda prestada em momentos difíceis (atendimento médico da esposa, custos do enterro do filho e indicação para o emprego público). Em contrapartida, esperava-se a obediência cega no momento do voto. O chefe encara o voto não como um direito de escolha cívica do eleitor, mas como uma obrigação de retribuição ou subserviência partidária.

 

03 – Qual é a lógica utilizada por Felício para recusar o voto nos candidatos renomados como Rui Barbosa e Epitácio Pessoa?

      Felício argumenta que o Presidente da República exercerá um enorme poder direto sobre a vida do cidadão e de sua família. Para ele, inteligência ou reputação nacional (atributos de Rui e Epitácio) não garantem que esses líderes conheçam ou respeitem o eleitor comum. Felício defende que só deveria votar em alguém de cujo caráter e comportamento íntimo ele tivesse conhecimento direto e pessoal. Como não conhece os candidatos nacionais "de perto", prefere não lhes dar tal poder.

 

04 – Qual é a ironia contida na decisão de Felício em votar no próprio "doutor" para Presidente da República?

      A ironia reside no fato de Felício usar a própria retórica do partido ("obedecendo o dever de todo republicano de consultar sua consciência") e sua gratidão pessoal para votar em seu chefe local. Embora Felício acredite estar sendo plenamente coerente e gratificado, do ponto de vista do sistema político o seu voto no "doutor" é considerado um "voto perdido", já que o chefe não é candidato ao cargo. O gesto de Felício desarma o político, revelando que a lógica puramente formal do discurso partidário contraria o sentido prático cobrado nas urnas.

 

05 – De que forma o chefe político reage à autonomia de pensamento de Felício e o que essa reação revela sobre o sistema eleitoral da época?

      O chefe político reage com estranhamento e acusa Felício de estar "indisciplinado" e adotando "teorias estranhas, subversivas" simplesmente porque o eleitor começou a pensar por conta própria. Essa reação revela que, na Primeira República, a autonomia e o exercício crítico da cidadania por parte das classes populares eram vistos pelas elites políticas como uma ameaça ou uma anomalia, já que a manutenção do poder dependia do controle rígido sobre a massa votante.

 

06 – Como a frase final de Felício — "Essa política é mesmo igual aos mistérios dos padres..." — sintetiza a visão do cidadão comum sobre a política institucional?

      A frase expressa o perplexo distanciamento do cidadão humilde em relação às contradições e negociatas da política profissional. Felício percebe que a política não opera com base na lógica moral ordinária ou na transparência, mas em um conjunto de dogmas, rituais e interesses ocultos (à semelhança dos "mistérios da religião") que fogem à compreensão das pessoas comuns e servem apenas para manter as elites no poder.

 

07 – Análise o papel da linguagem e do tom na crônica de Lima Barreto para a construção da crítica social.

      Lima Barreto utiliza um diálogo dinâmico e coloquial para contrapor dois mundos: o da política formal e burocrática (representado pelo "doutor") e o da vida concreta e do bom senso popular (representado por Felício). O tom predominantemente irônico e bem-humorado desconstrói as pretensões da elite política da época, mostrando como a pretensa racionalidade do sistema eleitoral da Primeira República era, na verdade, pautada por contradições, interesses pessoais e ausência de verdadeira representatividade democrática.

 

 

ENTREVISTA: SOU PERFECCIONISTA - FRAGMENTO - MOACYR SCLIAR - COM GABARITO

 Entrevista: Sou perfeccionista – Fragmento

           Moacyr Scliar

        [...]

        -- Como foi a sua infância?

        -- Passei minha infância num bairro de emigrantes pobres, em Porto Alegre, ouvindo as histórias que meus pais e nossos vizinhos contavam, sobre a Europa e sobre suas primeiras experiências no Brasil.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjX6QpCkLip2zBTHodQv9BTkGHzqEvH1QARRP3b-0qO1S8XgJIiG3EghK2x_aRXsy3x92Q3OhbOIGFhbfFWFh2W2e0A10LmIVPQnVwAdw1G_qjl9dPXNpKJzv-kRx2jpJGhHR2A_I25hqUyLOUl_Cq8jYIFEm9q9hKXW5V9MX3ShY23dnbC-tIQHBAC9jE/s320/images.jpg


        -- Como começou a escrever?

        -- Desde pequeno (fui alfabetizado muito cedo por minha mãe, que era professora primária), eu rabiscava historinhas, que mostrava com muito orgulho aos adultos. Meu primeiro texto, aliás, foi uma autobiografia – muito curta, pois o autor não teria então mais de sete anos, e escrita em papel de pão, o único disponível. Depois comecei a publicar nos jornaizinhos do colégio, de clubes, e, bem mais tarde, na imprensa de Porto Alegre.

        -- Você segue algum método para escrever?

        -- Trabalho muito. Tenho de conciliar minha atividade de escritor com a de médico de saúde pública, e, além disso, meu método de trabalho é complicado. Parto de uma ideia qualquer – originária de uma figura real ou imaginada, de um incidente, de um fato histórico, de uma notícia de jornal – e sobre ela começo a escrever, ao acaso, trechos que podem ser o começo de uma história, ou o meio, ou o fim. Quando estas anotações chegam a um certo volume, redijo a primeira versão da narrativa. Sempre a mão. Acredito ser a mão um instrumento mais sensível para a palavra escrita. Depois é que datilografo, uma, duas, três ou mais vezes, até que o texto me pareça razoavelmente bom. Sou um perfeccionista que busca a palavra certa e o ritmo exato.

        -- E o que você sente quando escreve?

        -- Na narrativa propriamente dita, deixo voar minha imaginação, mas tenho bem presente que literatura deve se referir, sempre, ao ser humano em sua dimensão social, histórica, política. Não recuso o humor, porque nada me parece mais desagradável que uma narrativa carrancuda.

        [...]

In: Clarice Lispector e outros. Para gostar de ler. 3. ed. São Paulo, Ática, 1988. v. 9, p. 9.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 112.

Entendendo a entrevista:

01 – De que maneira o ambiente da infância e a figura materna de Moacyr Scliar influenciaram o seu surgimento como escritor, segundo o texto?

      A infância de Scliar em um bairro de imigrantes pobres em Porto Alegre o expôs desde cedo à tradição oral, ouvindo histórias sobre a Europa e a adaptação ao Brasil. Além disso, a presença de sua mãe, que era professora primária, foi determinante para sua alfabetização precoce, permitindo que ele começasse a escrever pequenas histórias e autobiografias desde os sete anos de idade.

02 – Explique como Moacyr Scliar organiza seu processo de escrita inicial, desde a ideia motivadora até a elaboração do primeiro rascunho.

      Scliar inicia seu processo criativo a partir de um estímulo variado (fato histórico, notícia de jornal, figura real ou imaginada). A partir da ideia inicial, ele escreve trechos de forma fragmentada e não linear (podendo ser o início, o meio ou o fim da história). Apenas quando acumula um volume razoável dessas anotações é que redige a primeira versão completa da narrativa, que é feita sempre à mão.

03 – Por que Moacyr Scliar prefere escrever a primeira versão de seus textos à mão antes de datilografá-los? Como essa prática se relaciona com a sua autoavaliação como "perfeccionista"?

      Scliar prefere a escrita manual por considerar a mão um "instrumento mais sensível para a palavra escrita". O processo de reescrita e datilografia (que ele repete várias vezes) reflete seu perfeccionismo, pois ele reescreve até encontrar "a palavra certa e o ritmo exato" para o texto, demonstrando rigor estético com a linguagem.

04 – Qual o principal desafio de rotina mencionado por Scliar em relação ao seu trabalho literário e como ele o descreve?

      O principal desafio é conciliar a carreira literária com sua profissão de médico de saúde pública. Isso exige muito trabalho e torna o seu método de produção ainda mais complexo e laborioso.

05 – De acordo com a entrevista, quais são os compromissos fundamentais que a literatura deve ter com o leitor e a sociedade, e qual recurso estilístico o autor utiliza para evitar um tom pesado?

      Para Scliar, a literatura deve sempre se referir ao ser humano em suas dimensões social, histórica e política. Para evitar que a narrativa se torne "carrancuda" ou excessivamente pesada ao tratar desses temas, ele recorre ao uso do humor como recurso estético e narrativo.

 

 

CRÔNICA: A REVOLTA DO MAR - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: A revolta do mar

           Lima Barreto

 

        A última e formidável ressaca que devastou e destruiu grande parte da Avenida Beira-Mar merece considerações especiais que não posso deixar de fazer. O Mar tinham os antigos como sendo um dos cinco elementos da Natureza; do Mar, afirmam os sábios modernos, veio toda a vida. É assim o Mar um deus tutelar da nossa espécie. Nós lhe devemos tudo ou quase tudo. Não fora o Mar, ainda a Terra estaria muito por conhecer; ele é o meio mais eficaz de comunicação entre os povos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhZajE3lm6QTvUxY50sMaPFILxBV9WzBjl-jNxVj1HY_DWjxV1KyI_j2TaAREOZlDFl7I8g3C-FW1InUXARAIknTy1KXECRFZg2hbl6KGxE8rEvyAQjUYiwLc4bATOYSkkNAsCGkOy6HMcot-MUhFedbGmxenuN4jZuhJsfvPRrNkymaJT81Uri6TUfomA/s1600/images.jpg


        Vence-se mais facilmente a mesma distância por mar do que por terra. Desde tempos imemoriais, é o campo das grandes audácias e dos grandes audaciosos.

        O Mar é um deus ou um semideus.

        Como tal, tem merecido desde os tempos homéricos o louvor dos grandes poetas. Ele é a maravilha da Terra, a maior delas. Ainda agora recebo um livro de poesias – Asas no azul – de Mário José de Almeida – que abre com este lindo soneto sobre o monstro:

 

ÂNSIA DO MAR

Vibra, escachoa o oceano, brame, investe
para o amplo azul – noite e dia – não cansa
a onda que na praia se destrança
e da alvura da espuma se reveste.

 

Dentro do sonho, envolto na esperança
de inda atingir a placidez celeste,
o mar se arroja, torvo se abalança
nas asas colossais do sudoeste…

 

E parece que o mar se espraia
de praia a praia, ovante ramifica
o mesmo anelo – anseio de Himalaia.

 

À noite, à luz da lua que desponta
a onda em sua fala comunica
todo o queixume que a outra prata conta.

 

        Mas, os grosseiros homens do nosso tempo, homens educados nos cafundós escusos da City londrina ou nos gabinetes dos banqueiros de Wall Street, onde se fomenta a miséria dos povos, não lhe quiseram ver a grandeza, o mistério e a divindade, a sua palpitação íntima. O Mar, como a vida humana, não podia deixar de ser também um bom campo às suas “cavações” ou “escavações” e trataram de explorá-lo.

        De há muito que ele havia marcado os seus limites com a terra; de há muito que ele dissera a esta: o teu domínio para aí e daí não passarás.

        Tais homens, porém, embotados pela sede de riquezas não perceberam bem isto; e, a pretexto de melhoramentos e embelezamentos, mas, na verdade, no intuito de auferirem gordas gratificações de banqueiros, trataram de estrangulá-lo, de aterrá-lo com lama. Diziam eles que tal faziam, para tornear belos passeios, como se o Mar por si só não fosse Beleza.

        No começo, entraram por ele adentro com timidez; ele deu uns pequenos avisos de que não deveriam continuar. Os homens de negócios não viram tais avisos; não pressentiram o que eles continham, porque não entraram no mistério das Cousas. Tomaram-se de audácia e foram levando além o propósito de comprimir o mar, a fim de ganharem boas gorjetas.

        O mar nada disse e deixou-os, por alguns meses, encherem-no de lama. Um belo dia, ele não se conteve. Enche-se de fúria e, em ondas formidáveis, atira para a terra a lama com que o haviam injuriado.

Publicado originalmente na revista Careta, 23 de julho de 1921.

 

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o evento que motiva a reflexão de Lima Barreto na crônica "A revolta do mar"?

      O ponto de partida da crônica é uma forte ressaca marítima que atingiu e destruiu trechos da Avenida Beira-Mar, no Rio de Janeiro. A partir desse desastre natural, o autor desenvolve uma reflexão crítica sobre a relação entre o progresso urbano, a exploração financeira e o desrespeito às forças da natureza.

 

02 – De que maneira o autor personifica e diviniza o mar no início do texto?

      Lima Barreto retrata o mar como um "deus ou semideus tutelar da nossa espécie", atribuindo-lhe papel fundamental na origem da vida e na integração entre as civilizações. O cronista ressalta sua grandeza, mistério e beleza, lembrando que o oceano é celebrado por poetas desde a Antiguidade homérica como a maior maravilha da Terra.

 

03 – Qual é a função da inclusão do soneto "Ânsia do Mar", de Mário José de Almeida, na estrutura da crônica?

      A citação do soneto serve para contrastar a dimensão poética, sublime e respeitosa com que a arte enxerga o mar em oposição à visão utilitarista e insensível dos "homens de negócios". A poesia reforça a ideia do mar como uma força viva e cheia de sentimentos ("queixume", "ânsia", "esperança"), preparando o terreno para a crítica aos que o veem apenas como objeto de exploração.

 

04 – Como Lima Barreto caracteriza os responsáveis pelas obras de aterro e expansão urbana na Beira-Mar?

      O cronista caracteriza esses indivíduos de forma pejorativa como "grosseiros homens do nosso tempo", formados nos bastidores do capital financeiro ("City londrina" e "Wall Street"). Ele os descreve como gananciosos, insensíveis à beleza natural e movidos unicamente pelo desejo de lucro, "cavações" e gratificações concedidas pelos grandes banqueiros.

 

05 – Qual é o verdadeiro motivo, segundo o cronista, por trás das obras apresentadas como "melhoramentos e embelezamentos" urbanos?

      Segundo o autor, a justificativa oficial de criar "belos passeios" e promover o embelezamento da cidade era apenas um pretexto superficial. A real motivação do empreendimento era financeira: enriquecer especuladores, empreiteiros e banqueiros por meio do aterro e do estrangulamento do espaço marítimo.

 

06 – Como o autor explica a reação violenta do mar contra as intervenções humanas?

      O mar é apresentado como uma entidade que estabelece limites claros à terra. Diante da insistência dos homens em ignorar seus avisos iniciais e cobri-lo de lama para fins comerciais, o oceano reage com fúria. A ressaca que devasta a Avenida Beira-Mar é retratada como um ato de resposta e "revolta", no qual a natureza devolve à terra a lama com que foi agredida.

 

07 – Qual é a crítica central da crônica em relação à postura da sociedade moderna frente à natureza?

      A crítica central reside na denúncia da arrogância e do materialismo da civilização moderna, que tenta subjugar as forças naturais em nome do lucro imediato e da especulação imobiliária. Lima Barreto alerta que a falta de sensibilidade para compreender o "mistério das coisas" e o desrespeito aos limites do meio ambiente resultam inevitavelmente em tragédias e na reação destrutiva da própria natureza.

 

CRÔNICA: COM O LIRÓ - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: COM O LIRÓ

            Lima Barreto

 

        Ultimamente só tenho nas minhas estrebarias um único animal: é a égua Scherazade. Antigamente, porém, isto é, há uns anos passados, havia nela, além dos animais de tiro, mais dois de sela: a Elisabeth e o Zadig. Scherazade é uma linda égua negra de meio sangue, com grandes olhos e porte altivo. Comprei-a ao conhecido criador e cronista esportivo Brioni Júnior por dez contos de reis, no que fiz bom negócio. Elisabeth era uma linda peça de um pelo alazão, liso e brilhante; era de um quarto de sangue. O Zadig não tinha sangue algum.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7v50aS8-8CIfE8M_lCLumLHdqr7zJtoEOopaojjQAcDmlzTGWikS9zSwqthGX-c1dB-Y49fshlx27BlBP_OyZZosOUlsz4vzc_edKVDuOu1jSfzAjelSqos78-fj6O56nEv9IUw0SYRVab7rtyrWTYa6dQGHdA-a0V_4J43RLi_JItDtj7Dn0qrDt_6M/s320/images.jpg


        Por causa deles, vim a conhecer o Liró, meu vizinho, funcionário público, também amador de animais; mas ao jeito da terra. Ele só gosta de animais nacionais – crioulos; e dessas nossas selas rebarbativas, cheias de pelegos e anteparos, e dos nossos arreios faiscantes de prata.

        Habitualmente, passeamos a cavalo, pela manhã, pelos arredores das nossas casas. Uma manhã destas brumosas e frias, saímos nós a dar uma volta nas nossas alimárias. Ele, no Caboclo – um “pampa” marchador que devia ser magnífico, se não estivesse ao lado da soberbia da minha Scherazade. Era uma manhã feia, úmida e nublada. O Rio, cheio de Sol e luz, é uma alegria; mas, como estava naquela manhã, é uma sepultura.

        Seguimos o nosso destino que era ir até a cachoeira dos Urubus, na Boca do Mato. O subúrbio, em geral, é feio; mas, a parte que entesta com a montanha, tem trechos surpreen­dentes. Fomos e íamos conversando. Eu lhe contava histó­rias de cavalos célebres, do famoso Bayard, do paladino Ro­lando, do Bucéfalo de Alexandre; do Rocinante de d. Quixote, etc., etc. Pareceu-me, entretanto, que ele não me ouvia com atenção a conversa. Perguntei-lhe:

        – Liró, em que pensas?

        Nós atravessamos um resto de capoeira em que as raras árvores eram enriquecidas de verdura pela folhagem dos cipós abundantes.

        Ao ouvir a minha pergunta, Liró sobressaltou-se e logo disse:

        – Nesse negócio de candidaturas.

        – Tens interesse em algum dos candidatos?

        – Nenhum.

        – Então porque pensas nesse desinteressante negócio?

        – Porque dizem que o novo presidente vai demitir em massa os funcionários públicos.

        – Estás doido, Liró! Ele não fará isso...

        – Porque?

        – Porque não há Estado sem um grande corpo de funcio­nários.

        Desde o Império Romano até o Britânico que se tem verificado que a existência do Estado supõe a de uma chusma de funcionários.      Ainda mais: o duque Audiffret-Pasquier disse até: “Morrem os impérios, nascem as repúblicas; mas as se­cretarias ficam”. Deve ser isto mais ou menos. O que, po­rém, ressalta do pensamento do duque, sejam quais forem as suas palavras, é essa capacidade da burocracia, em atravessar regimes diversos, com uma inalterabilidade que lhe dá o aspecto de um verdadeiro fenômeno natural.

        – Dizem também que ele quer acabar com a aposentadoria. E possível?

        – Liró: a aposentadoria é coisa constitucional. Para que ele acabasse com a aposentadoria, teria que violar a Constituição. O Senhor Bernardes, por mais capaz, não terá esse to­pete. Ele é mineiro e não mete mão em cumbuca. Irá para o Catete, se for; aparará mais os seus fraques, aumentará o número dos seus pince-nez e assinará decretos de... nomea­ções.

        – Irá mesmo? Ou será o Nilo?

        Ia dizer “não sei”, quando um porco, subitamente, atravessou na nossa frente, de um lado para outro da estrada.

        Nossos cavalos se espantaram. Liró foi ao chão; eu, porém, fiquei firme na sela.

        Depois que Liró recavalgou, eu lhe disse:

        – Vê tu como são as coisas. Montas muito melhor do que eu. Tua sela, à mexicana, é cheia de segurança no arção e no sant’antônio. Entretanto, tu foste ao chão e eu fiquei em cima da Scherazade. Como é isto?

        – Não sabes de uma coisa que o povo diz por aí: mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga.

Careta, Rio, 23-7-1921.

Entendendo a crônica:

01 – Como a crônica contrapõe o perfil do narrador ao de seu vizinho Liró no que diz respeito à montaria e aos hábitos de passeio?

      O narrador possui uma inclinação mais cosmopolita e literária, montando uma égua de meio-sangue negra (Scherazade) e citando montarias históricas e mitológicas ao longo do trajeto. Já Liró é retratado como um apreciador das tradições locais: é funcionário público, prefere cavalos crioulos nacionais (como seu pampa Caboclo) e utiliza selas rebarbativas ornamentadas com pelegos e prata ao estilo tradicional do país.

 

 

02 – Qual é o motivo da preocupação de Liró durante o passeio e de que forma o narrador busca tranquilizá-lo?

      Liró demonstra apreensão em relação às disputas presidenciais por conta do boato de que o futuro presidente demitiria os funcionários públicos em massa e extinguiria as aposentadorias. O narrador o tranquiliza recorrendo à história e à teoria política, citando a célebre máxima do Duque Audiffret-Pasquier de que as repúblicas e impérios passam, mas a burocracia das secretarias permanece inalterada como uma força permanente do Estado.

 

03 – De que maneira o narrador caracteriza a figura do candidato Arthur Bernardes e sua relação com a Constituição?

      O cronista ironiza o perfil cauteloso do político mineiro Arthur Bernardes, afirmando que ele jamais violaria a Constituição para extinguir a aposentadoria por ser um homem prudente que "não mete a mão em cumbuca". Com humor, o autor prevê que, caso assumisse o Palácio do Catete, Bernardes se limitaria a ajustar a vestimenta, usar seus pince-nez e assinar decretos ordinários de nomeação.

 

04 – Qual incidente interrompe a conversa política dos cavaleiros e quais foram as suas consequências imediatas?

      A discussão sobre a eleição entre Bernardes e Nilo Peçanha é bruscamente interrompida quando um porco cruza a estrada na frente dos animais. O susto faz com que os cavalos se espantem, arremessando Liró ao chão, enquanto o narrador consegue se manter firme sobre a sela de sua égua Scherazade.

 

05 – Qual é a ironia contida na queda de Liró e como ele justifica o acontecimento?

      A ironia reside no fato de Liró ser um cavaleiro muito mais experiente do que o narrador e utilizar uma sela no estilo mexicano, projetada para dar maior firmeza e segurança ao montador. Diante do paradoxo de ter caído mesmo sendo superior na arte da montaria, Liró recorre ao saber popular e encerra o debate citando o ditado: "mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga".

 

 

 

 

ENTREVISTA: ENCONTRO DE DUAS CULTURAS - FRAGMENTO - JEAN DE LÉRY - COM GABARITO

 Entrevista: Encontro de duas culturas – Fragmento

           Jean de Léry

        Jean de Léry (1534-1613), foi um missionário calvinista que viveu entre os Tupinambá do Rio de Janeiro no século XVI, na chamada França Antártica. Deixou-nos um importante relato de tudo o que viu e ouviu, sendo sua obra uma das principais fontes para o conhecimento dos Tupinambá do século XVI.

        Uma vez, um velho me perguntou:

        -- Por que vocês, mair e peró, vêm buscar lenha de tão longe para se aquecer? Vocês não têm madeira em sua terra?

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh3SeE7jTWPMihik-BQjz5M0jlXNxAdB3U4u4k0HXR64w3Cem0Dz0_KXpx2nGQGZ0oaEx5qXKTo_ij7hgbH6Qpk63-rS1K0xVGnkZ5H6yf3m_MtZ0yvRj0haRIkQIFefNsrSrDRxCB6V0rpmiYw-51KMYWrf5rA5xIDU66LtMLfSh52xTyxfxcjHtrAjxw/s320/images.jpg


        Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos. Como ele pensava, mas dela tirávamos tinta para tingir.

        -- E vocês precisam de muita? – perguntou o velho imediatamente.

        -- Sim – contestei-lhe –, pois em nosso país existem negociantes que possuem panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias que vocês nem imaginam e um só deles compra todo o pau-brasil que vocês têm, voltando com muitos navios carregados.

        -- Ah! – retrucou o selvagem –, mas esse homem tão rico, de que me fala, não morre?

        -- Sim – disse eu –, como os outros.

        -- E quando morre, para quem fica o que deixa?

        -- Para seus filhos, se ele tem, ou para seus irmãos ou parentes próximos – respondi.

        -- Na verdade – continuou o velho, que como se vê não era nenhum ignorante –, vejo que vocês, mair, são uns grandes loucos, pois atravessam o mar e sofrem grandes problemas, como dizem quando aqui chegam. E no fim trabalham tanto para amontoar riquezas para seus filhos e parentes. A terra que os alimentou não será capaz de alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos. Mas estamos certos de que, depois de nossa morte, a terra nos sustentou os sustentará também, e por isso descansamos sem maiores preocupações.

        [...]

Jean de Léry. Viagem à terra do Brasil. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 1961. p. 153-4. In: Benedito Prezia e Eduardo Hoornaert. Brasil indígena: 500 anos de resistência. São Paulo, FTD, 2000. p. 105.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 115.

Entendendo a entrevista:

01 – Qual era a suposição inicial do ancião Tupinambá a respeito do motivo pelo qual os europeus navegavam de tão longe para buscar o pau-brasil, e como Jean de Léry corrigiu esse pensamento?

      O ancião Tupinambá imaginava que os europeus realizavam a longa viagem para buscar madeira com a finalidade simples de se aquecerem no inverno (queimá-la). Jean de Léry o corrigiu explicando que a madeira não servia como combustível para o fogo, mas sim para extrair tinta com a qual tingiam tecidos e tecidos de luxo na Europa.

02 – Por que a lógica do acúmulo de bens para herança familiar, explicada por Jean de Léry, pareceu sem sentido e "loucura" para o ancião Tupinambá?

      Para o ancião, acumular grandes quantidades de bens a ponto de enfrentar viagens perigosas e sofrimento no mar não fazia sentido, uma vez que a riqueza acumulada não impede a morte do homem. Além disso, na visão do indígena, a terra é geradora contínua de recursos básicos de subsistência, sendo plenamente capaz de sustentar as gerações futuras sem a necessidade de acúmulo material prévio.

03 – Compare a relação com a terra e com os recursos naturais demonstrada pelo comerciante europeu e pela sociedade Tupinambá no texto.

      O comerciante europeu enxerga a terra e seus recursos (como o pau-brasil) através da ótica mercantilista e mercantil, focando na exploração em larga escala para gerar lucro, comércio e herança. Já o indígena Tupinambá tem uma visão comunitária e sustentável, vendo a terra como uma provedora natural que garante a sobrevivência diária no presente e no futuro, dispensando o desgaste e as ansiedades geradas pelo acúmulo ilimitado.

04 – No trecho "continuou o velho, que como se vê não era nenhum ignorante", o que a observação de Jean de Léry revela sobre a visão que os europeus da época costumavam ter sobre os povos originários?

      A frase revela o preconceito prévio e a visão etnocêntrica comum entre os europeus do século XVI, que frequentemente consideravam os povos indígenas incultos ou incapazes de raciocínio complexo. Ao ressaltar que o ancião "não era nenhum ignorante", Léry reconhece a profundidade crítica e a sabedoria filosófica do raciocínio indígena, surpreendendo-se com a coerência da argumentação do ancião.

05 – Como o ancião Tupinambá contrapõe a tranquilidade do modo de vida indígena à inquietação e aos sacrifícios do modo de vida europeu?

      O ancião argumenta que os europeus passam por grandes privações, perigos e trabalho exaustivo apenas para amontoar bens antes de morrer. Em contrapartida, os Tupinambá, embora amem igualmente seus pais, mães e filhos, vivem sem preocupações excessivas ("descansamos sem maiores preocupações") porque confiam que a terra continuará sustentando seus descendentes da mesma forma que os sustentou.

 

       

CRÔNICA: FEIRAS LIVRES - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: FEIRAS LIVRES

            Lima Barreto

 

        Não há dúvida alguma que a aproximação do procurador do consumidor é negócio proveitoso para os níqueis deste último.

        Foi com esta tenção que o senhor Dulfe instituiu as fei­ras livres que atualmente se realizam em várias partes deste Rio de Janeiro.

Fonte https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhFLmx-4T-DEQzq4UFqxW_6Yn1MmqqiGPQc1xV7RE3ntqZoWAuQNrfq3AMpsVJkHkFdmqvqsTWAV6zjD4QLIJa9NEYOMj1tqo0LYcsdumjiowAnlQiW34yeHSjHQlYaIlp85BDU0OlgBWxNthJr4kKvngLcdISCQKRs-fhNI1i3sfdHkTRdW-P5kzOTY-8/s320/images.jpg


        Nas minhas vizinhanças, isto é, no Méier, há uma delas. Lá fui ter. Não era muito cedo. Não me levanto às pri­meiras horas do dia, embora seja pobre. Fui às oito horas da manhã. Que lindeza de moças e senhoras!

        Nunca as vi tão lindas nem mesmo na Rua do Ouvidor que frequento desde os dezesseis anos quando me matriculei na Escola Politécnica.

        Naturalmente, um homem como eu, estando em feira livre e vendo tanta moça bonita, havia de ficar contente.

        Não aconteceu isto, porém, porque encontrei um ferrabrás que logo implicou comigo.

        Esse vagabundozinho dos subúrbios é um tipo lá daquelas bandas que a gente não sabe como vive. Toma uns ares de valentão e não faz nada.

        A vida corre-lhe fácil e, sem dificuldades e aborrecimentos, vai comendo o seu feijão e carne seca. Aparece um dia, entretanto, um outro tipo que não está disposto a res­peitar-lhe semelhante lordismo, logo ele se esvai. Foi o que aconteceu com este tal de Bragalhães que vivia com a função feminina de vender “bruxas” de pano e serragem.

        Fiquei admirado que essas feiras livres de gênero de primeira necessidade, isto é, arroz, feijão e carne seca, fossem também negócio de brinquedos, tal e qual as de Leipzig, mas me contive.

        Embora não tivesse exprimido o meu pensamento, esse tal de Bragalhães, compreendeu-me e me interpelou. Aí que foi a história! Nunca ando armado, nem gosto de armas; ele, porém, que é muito valente, tanto assim que tem prontuário na polícia, honra que não me cabe, puxou canhão quatrocen­tos e vinte e quis fazer um disparo. O tal de Bragalhães, porém, não o sabia disparar. Está aí um desastre.

        Neste momento chega o Tácito de Morais Wernes, tenente-coronel do Exército, acompanhado do seu cabo de peça, ca­pitão Bartolomeu Klier, e logo regulam o canhão, põem-no em posição e fazem o disparo. Bragalhães foi pelos ares...

Careta, Rio, 16-7-1921.

Entendendo a crônica:

01 – Qual foi o objetivo inicial da criação das feiras livres no Rio de Janeiro e como o narrador avalia essa medida?

      As feiras livres foram instituídas com a intenção de aproximar o produtor direto do consumidor, eliminando intermediários para baratear o custo dos alimentos. O narrador reconhece que a medida tinha um propósito financeiramente benéfico para o cidadão comum ("negócio proveitoso para os níqueis"), mencionando inclusive a feira do seu próprio bairro, o Méier.

 

02 – Que elemento chama a atenção do cronista ao chegar à feira do Méier por volta das oito horas da manhã?

      O narrador fica impressionado com a beleza das moças e senhoras que frequentavam a feira. Ele chega a comparar a presença feminina do local com a da tradicional Rua do Ouvidor — ponto de encontro nobre da cidade que ele frequentava desde jovem —, afirmando que nunca as tinha visto tão lindas.

 

03 – Como o autor caracteriza o tipo suburbano denominado "Bragalhães" e a sua ocupação na feira?

      Bragalhães é caracterizado como um "ferrabrás" e "vagabundozinho dos subúrbios": um sujeito sem ocupação clara que posava de valentão, vivendo sem grandes esforços e ostentando um falso "lordismo". Na feira, ele exercia uma atividade vista pelo autor como curiosa para o ambiente: a venda de "bruxas" (bonecas) de pano e serragem.

 

04 – De que maneira o texto faz transição do tom realista e cotidiano para o absurdo surreal no conflito com o feirante?

      A narrativa abandona o registro do cotidiano urbano e ganha contornos de sátira nonsense quando o conflito interpessoal escala bruscamente. Em vez de uma faca ou navalha (comuns na época), o valentão puxa um "canhão quatrocentos e vinte" para atacar o cronista. O absurdo se completa com o feirante não sabendo operar a própria artilharia pesada em meio aos feijões e brinquedos.

 

05 – Como se resolve o confronto entre o narrador e o feirante no desfecho da crônica?

      A contenda se encerra com a chegada repentina do tenente-coronel Tácito de Morais Wernes e de seu cabo de peça, o capitão Bartolomeu Klier. Os militares assumem o comando do armamento, regulam a posição do canhão e efetuam o disparo contra Bragalhães, fazendo o falso valentão "ir pelos ares".