quinta-feira, 4 de junho de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: OS QUADRINISTAS ATUAIS - FRAGMENTO - LEILA R. IANNONE E ROBERTO A. IANNONE - COM GABARITO

Artigo de opinião: Os quadrinistas atuais – Fragmento

        Do final dos anos 60 para cá, quadrinistas brasileiros têm lançado personagens interessantes: O Pato de Ciça (uma das pocas desenhistas de sucesso entre nós); Capitão Cipó, de Daniel Azulay; Rango, de Edgar Vasques, e muitos outros.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgZgCj7stmMvhNLh6I8vdpj1cqmCCW5H1S8TigHr4K4Wllzjh5qbXHBgYlR2UU7uxt85MezxH6eDz7zrMZcvCPaXeWyf9X0PneCaQBzKGGrykLIREkd2AHnxcx3MdU4AD9bgp-U_u4qKfE8SXY9FeaMrWCLnOvEQgoRoIZAqwv7xkJKfzhJYevXMXcYz0I/s1600/pato.jpg
 

        Capitão Cipó, considerado uma obra-prima dos quadrinhos brasileiros, estreou como tira diária no jornal Correio da Manhã, em 1968. É uma sátira ao Super-Homem. O personagem, mistura desse herói com o Batman, carrega, em seu cinto de utilidades, um monte de quinquilharias, como pípulas anticoncepcionais, bombons e isqueiros sem fluido. Quando não está atuando como herói, o Capitão Cipó usa o disfarce de Irineu Pedrosa, um apresentador de televisão.

        Infelizmente, não temos espaço suficiente para detalhar toda a produção brasileira. Esperando não cometer muitas injustiças, vamos mencionar os artistas que estão em maior evidência. Assim, citamos Angeli, que nos brindou com os personagens Skrotinhos, Rê Bordosa e Bibelô, entre outros; Laerte, com a série Piratas do Tietê, uma crítica aos nossos costumes; e Glauco, criador dos Neuras, Geraldão e Dona Marta. [...]

        Devem-se registrar, também, Alain Voss, Miguel Paiva e Sérgio Macedo, autores que fazem sucesso na Europa com personagens tipicamente brasileiros.

Leila R. Iannone e Roberto A. Iannone. O mundo das histórias em quadrinhos. São Paulo, Moderna, 1994.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 166.

Entendendo o artigo:

01 – O autor menciona que o Capitão Cipó é uma sátira a heróis norte-americanos conhecidos. De que maneira as características desse personagem constroem essa sátira?

      A sátira é construída pela ironia e pelo contraste com os heróis originais. Em vez de possuir apetrechos tecnológicos ou armas poderosas como o Batman, o Capitão Cipó carrega em seu cinto de utilidades "quinquilharias" cotidianas e inúteis para o combate ao crime, como pílulas anticoncepcionais, bombons e isqueiros sem fluido. Além disso, seu alter ego, Irineu Pedrosa, é um apresentador de televisão, ironizando o disfarce tradicional de identidades secretas discretas.

02 – Qual é a justificativa apresentada pelo autor para não aprofundar a análise de toda a produção de quadrinhos brasileira no texto?

      O autor justifica que não o faz por falta de espaço suficiente no texto ("Infelizmente, não temos espaço suficiente para detalhar toda a produção brasileira"). Para contornar essa limitação e tentar não cometer injustiças, ele opta por focar a abordagem nos artistas que estão em maior evidência no momento.

03 – De acordo com o texto, qual é a principal característica ou objetivo da série Piratas do Tietê, da quadrinista Laerte?

      A principal característica da série Piratas do Tietê descrita no fragmento é o seu caráter satírico e social, funcionando explicitamente como uma crítica aos costumes da sociedade brasileira.

04 – O fragmento cita os autores Alain Voss, Miguel Paiva e Sérgio Macedo. Qual é o diferencial do trabalho desses artistas destacado pelo autor?

      O diferencial desses autores é o sucesso internacional alcançado por eles. O autor destaca que eles conseguem fazer sucesso no continente europeu utilizando personagens que carregam uma identidade e características tipicamente brasileiras.

05 – A partir da leitura do primeiro parágrafo, o que o autor sinaliza sobre a presença feminina no cenário de sucesso dos quadrinhos brasileiros até o momento de escrita do texto?

      O autor sinaliza que a presença feminina em patamar de destaque era uma exceção na época. Ao mencionar a personagem "O Pato", de Ciça, ele faz o parêntese de que ela é "uma das poucas desenhistas de sucesso entre nós", evidenciando que o meio era majoritariamente dominado por homens.

 

  

LENDA: DO SENHOR JUSTO DA PIEDADE - GENTIL MARQUES - COM GABARITO

 Lenda: Do Senhor Justo da Piedade

         Como sempre acontece, o espírito do povo joeira e adorna a tradição a seu bel-prazer. Das várias versões que conheço referentes à fundação da igreja do Senhor Jesus da Piedade, em Elvas, prefiro a que vou contar.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi8LaJZvh6IHhZTHLalW-xOxPxUk3Npnv2oBc3WgsxTBnDFpRBdlQZSNUjkcQsX48bcYIS1-hKqnm5OKl6cFugY1Ss5mcBvhyViSBpVpSJWrQezMsHtoAZ2ZV3s5cruErt5s5O9LFWheTt4t_V2XtvLNo1rlZxG9lVrM76AjRPeeIG_sVCSQCLVIPjmRRQ/s320/piedade.png 


        Ali, na estrada praticamente deserta, havia apenas um tosco cruzeiro, a assinalar o caminho. E no cruzeiro, um Cristo batido pelas chuvas e pelos ventos era o único farol de Fé a iluminar os viandantes desnorteados.
        Ora, certa tardinha, vinham por aquela mesma estrada pai e filho, que regressavam de uma romaria. Vinham a discutir.

        — Já te disse, José, que não deves proceder assim. Um rapaz da tua idade tem de portar-se como deve ser. De outro modo irás por mau caminho.

        O rapaz mostrou-se azedo.

        — Sabe que mais? Estou farto dos seus sermões. Fartíssimo! Julga que sou algum gaiato? Já tenho barba na cara, não o esqueça?

        O homem retorquiu, zangado:

        — E isso leva-te a deixares de ser meu filho?

        O rapaz encolheu os ombros.

        — Claro que não. Mas não estou disposto a andar agarrado pelos cueiros, como se fosse um mocinho!

        — E que és tu, afinal, senão uma criança? Pelo menos a maneira como te portaste hoje de manhã assim o prova.

        O rapaz teve outro gesto de enfado.

        — Lá vem o pai outra vez com a mesma história! Que raio! Não sabe falar noutra coisa!

        O sangue subiu às faces do velho.

        — José, tem respeito pelo teu pai! Já tenho alguns anos em cima de mim, mas possuo ainda a mão bastante leve para...

        O rapaz interrompeu-o.

        — Deixe-se de lérias! Isso deve ser do vinho que bebeu a mais...
        A cólera quase superou o homem.

        — Que dizes, tratante? Insinuas que estou bêbedo? Tu é que bebeste demais! Parecias um odre sem fundo. E talvez fosse por isso que me quiseste roubar!

        O rapaz deu um salto de desespero.

        — Que está para aí a dizer? Olhe que a paciência tem limites! Já lhe afirmei que só quero aquilo que é meu! Ou pensa que todo o dinheiro da venda lhe pertence?

        O homem gritou:

        — Pois pertence! Enquanto for vivo, quem governa o dinheiro sou eu!

        — Histórias da carochinha! Já não vou nisso, deixei de andar de olhos tapados! Já sabe: daqui em diante quero o meu dinheiro, para o governar como entender, ouviu bem?

        — Endoideceste?

        — Não, não endoideci quero o meu dinheiro! E que isto fique dito de uma vez para sempre!

        Nesse momento preciso, pai e filho iam passando junto do velho cruzeiro. E aos ouvidos do rapaz soou uma voz semivelada:

        — Teu pai tem razão. És o seu filho. Deves-lhe obediência. Terás de seguir sempre os seus conselhos…

        O rapaz voltou-se, surpreendido.

        — De quem é esta voz? Foi vossemecê quem falou?

        O homem também se mostrou admirado:

        — Falar, eu? Agora não disse nada… Não me deste tempo para isso!
        Mas já o pai escutava, por seu turno, um murmúrio ao seu ouvido:

        — Não sejas severo em demasia com o teu filho. Lembra-te de que já não é criança. Trata-o como um homem igual a ti, e ele compreender-te-á.

        O homem olhou o filho.

        — Quem está aqui a falar?

        — Eu não! Também ouviu uma voz?

        — Ouvi. Mas... aqui não está mais ninguém. A não ser...

        — A não ser o quê?

        Pai e filho olharam a imagem do Cristo de pedra. Mas logo o rapaz retorquiu, enfadado:

        — Não me diga que julga que a fala vem dali.

        E apontava com um arremesso de cabeça a imagem do Cristo.

        — Sabe-se lá!

        — Agora vejo que está realmente bêbedo!
        O pai voltou a gritar:

        — Cala-te, imbecil!

        — Imbecil será vossemecê!

        A cólera tingiu de vermelho as faces do velho.

        — Ainda hoje não te livras de uma sova!

        Num ar rufião, o rapaz provocou-o:

        — Ora experimente!

        Os insultos seguiram-se. Mas continuaram caminhando, deixando para trás o Cristo de pedra. E porque ambos iam toldados pelo vinho, o inevitável aconteceu. O dinheiro voltou a ser o fulcro da discussão. Como o pai negasse, o rapaz fez menção de lho tirar. O primeiro empurrão surgiu. O agredido respondeu. E num instante os dois homens lutavam como se não fossem do mesmo sangue. Como se o próprio vento tivesse ficado surpreendido, uivou na encruzilhada, batendo forte, também, no rosto dos contendores. O velho caiu por terra. O rapaz vencera. Sacou das algibeiras do pai todo o dinheiro e abalou correndo, deixando o pai a gemer dolorosamente.

        Abandonado pelo filho no caminho deserto, o homem levantou-se depois de algum esforço. Chorando copiosamente, voltou para trás até junto do cruzeiro. Aí caiu de joelhos. Soluçava alto, como desvairado. Depois, um pouco mais sereno, sentindo viva a união do seu espírito ao Espírito Divino de Cristo, implorou:

        — Oh meu Jesus! Tu, que também foste homem, abaixa o Teu olhar sobre mim e derrama sobre o velho que hoje sou a Tua Misericórdia! O meu filho, aquele que eu criei, roubou-me e faltou-me ao respeito. É um ladrão e talvez um assassino, pois pouco se lhe dá que eu morra para aqui, abandonado. Não sei voltar à terra onde vivi. Mas não queria morrer sabendo que ele é um ladrão. Salva-me, pois, e salva-o a ele! Salva o meu filho, e eu Te juro que todo o meu dinheiro será para construir aqui, neste local, uma capelinha digna de Ti, ó meu Senhor Jesus! Salva-nos! Desce o Teu olhar sobre nós, ó Jesus de tanta Piedade!

        O vento zuniu mais forte sobre o silêncio que as palavras do homem deixaram ao extinguir-se. Mas logo outras palavras se ouviram:

        — Tem fé, e ser-te-á dada a salvação!

        O homem gritou:

        — Senhor! E ele? E o meu filho?

        A voz tornou, complacente:

        — Escuta o seu apelo... Ele vem implorar-te perdão. Sê razoável...

        Perdoa as ofensas, como desejas que o Pai Celeste perdoe as tuas!

        O homem curvou a cabeça. Chorava. De súbito ouviu-se uma voz que vinha de longe e se aproximava cada vez mais:

        — Pai, meu pai, onde está?... Responda-me, meu pai!

        O coração do homem bateu com violência. E gritou, rouquejando:

        — Filho! Estou aqui... junto ao cruzeiro!

        O rapaz acorreu. Agarrou as mãos do pai e implorou:

        — Por amor de Deus, perdoe-me e esqueça o que fiz! Eu devia estar louco! Se soubesse como sofro!

        O homem encostou a cabeça grisalha ao ombro do filho, chorando. Mal se ouviram as suas palavras de perdão. Por fim, desencostou-se. Já não chorava. Perguntou, movido por uma estranha curiosidade:

        — Filho! Porque voltaste?

        O rapaz respondeu como se estivesse a recordar um sonho:

        — Se soubesse o que me aconteceu! Quando ia a fugir, caí num barranco. Tão alto que nem sei como não me feri. Mas não conseguia sair de lá. De repente, senti medo. Um medo estranho. Tinha a sensação de ter caído vivo no Inferno. Foi nessa altura que me lembrei da voz que ouvi quando passámos por este cruzeiro. Então pedi ao Senhor Jesus que me salvasse, em troca do meu sincero arrependimento!

        Calou-se o rapaz por alguns instantes. Depois, continuou:

        — Mal havia feito este propósito... sem bem saber como... senti forças para erguer-me do barranco e vir até aqui!

        O vento levou até à imagem de pedra do Senhor Jesus esta elevação da alma de um pai agradecido:

        — Obrigado, meu Deus! Obrigado pela Vossa Piedade, meu Senhor Jesus Cristo!

        Pouco tempo depois, a promessa feita em circunstâncias tão dramáticas, num local ermo e batido pelo vento, foi cumprida pelos dois alentejanos. Ali mandaram construir uma capelinha. Mais tarde, essa capela humilde nascida de um voto transformou-se na igreja sumptuosa que hoje existe em Elvas, em memória do Senhor Jesus da Piedade.


Gentil Marques 

Entendendo a lenda:

01 – No início da narrativa, antes do clímax do conflito, pai e filho ouvem uma voz semivelada junto ao cruzeiro. De que maneira os conselhos dados por essa voz individualmente a cada um refletiam a raiz do problema que eles enfrentavam?

        A voz aborda diretamente a falha de postura de ambos no relacionamento familiar. Para o rapaz, a voz reforça a necessidade de respeito e obediência, combatendo a sua soberba e insolência juvenil. Para o pai, o conselho é de moderação, sugerindo que ele reconheça a transição do filho para a idade adulta e evite a severidade excessiva. O conflito existia justamente porque nenhum dos dois conseguia equilibrar esses papéis: o filho exigia independência com agressividade e o pai tentava impor autoridade com base no autoritarismo e no controle financeiro.

02 – O dinheiro é o fulcro (o ponto central) da discussão entre pai e filho. Explique como a questão financeira revela visões de mundo diferentes entre as duas personagens antes da reconciliação.

      O dinheiro simboliza o poder e a transição de autonomia. Para o pai, a gestão do dinheiro representa a manutenção da sua autoridade e liderança familiar ("Enquanto for vivo, quem governa o dinheiro sou eu!"). Para o filho, o dinheiro da venda é o passaporte para a sua independência e a afirmação de que deixou de ser criança. A disputa financeira materializa o choque de gerações, onde o pai se recusa a abrir mão do controle e o filho tenta tomá-lo à força, sem maturidade para dialogar.

03 – Descreva o cenário natural em que a história se passa e disserte sobre como os elementos da natureza (como o vento e a tempestade) funcionam como um espelho do estado psicológico das personagens.

      A lenda se passa em uma estrada praticamente deserta, marcada por um tosco cruzeiro e condições climáticas adversas. Os elementos da natureza funcionam como um reflexo patético da intensidade dramática da cena. Conforme a fúria e o orgulho das personagens aumentam, o vento "uiva na encruzilhada" e bate forte em seus rostos, emoldurando a violência física entre pai e filho. Mais tarde, quando o homem se ajoelha para rezar, o zunido forte do vento sublinha o silêncio e a solidão de seu desespero, mostrando que o ambiente externo acompanha o tumulto interno dos corações dos protagonistas.

04 – Após ser agredido e roubado pelo próprio filho, o pai recorre à oração. Quais são os dois pedidos principais que ele faz ao Senhor Jesus e o que essa prece revela sobre os seus sentimentos paternos?

      O pai pede a sua própria salvação (conforto e direção na solidão) e, principalmente, a salvação de seu filho, implorando para que ele não permaneça no erro como um ladrão ou assassino. Essa prece revela que, apesar da profunda dor, humilhação e violência sofridas, o amor paterno sobrepujou o orgulho e o desejo de vingança. O pai prioriza a restauração moral e espiritual do filho em detrimento da punição, demonstrando um espírito de sacrifício e misericórdia que ecoa a própria figura do Cristo a quem ele roga.

05 – A voz divina impõe uma condição ao pai para que ele receba a salvação que tanto pedia. Que condição é essa e qual a sua importância teológica ou moral dentro do contexto da lenda?

      A voz exige que o pai perdoe as ofensas do filho, utilizando o princípio de que para receber o perdão divino (do Pai Celeste), o ser humano deve primeiro ser capaz de perdoar o seu semelhante ("Perdoa as ofensas, como desejas que o Pai Celeste perdoe as tuas!"). Do ponto de vista moral e teológico, essa condição quebra o ciclo de ódio e violência. Ela estabelece que a verdadeira piedade e a salvação não vêm de barganhas ou promessas puramente materiais, mas sim de uma transformação interna baseada na empatia, no amor e na reconciliação.

06 – O rapaz decide voltar para os braços do pai após viver uma experiência traumática. Explique o que aconteceu com ele durante a fuga e de que forma esse evento operou o seu arrependimento.

      Durante a fuga, o rapaz caiu em um barranco profundo e, embora não tenha se ferido gravemente, viu-se incapaz de sair. O isolamento e a escuridão do local provocaram um medo avassalador, fazendo-o sentir como se tivesse caído "vivo no Inferno". Esse choque de realidade e a vulnerabilidade física desarmaram a sua soberba arrogante. Diante do desespero, ele se lembrou da voz misteriosa do cruzeiro e compreendeu a gravidade do seu ato, convertendo o seu medo em um sincero propósito de arrependimento e pedido de perdão.

07 – A lenda cumpre a função tradicional de explicar a origem de um monumento real. Com base no desfecho do texto, explique a promessa feita e como ela originou a Igreja do Senhor Jesus da Piedade em Elvas.

      No momento de maior desespero, o pai jurou que, se ele e o filho fossem salvos daquela ruína moral e física, utilizaria todo o seu dinheiro para construir uma capelinha digna no exato local do velho cruzeiro. Após a reconciliação milagrosa promovida pela fé, pai e filho cumpriram o voto construindo uma humilde capela naquele ermo alentejano. Com o passar do tempo e a devoção popular, essa estrutura inicial foi ampliada e modificada, transformando-se na "igreja sumptuosa" que hoje existe em Elvas, perpetuando a memória do milagre da piedade e do perdão familiar.

 

 

MÚSICA(ATIVIDADES): EU NUNCA POSSO PERDER - FRAGMENTO - PALAVRA CANTADA - COM GABARITO

 Música (Atividades): Eu Nunca Posso Perder – Fragmento

          Palavra Cantada

Eu nunca posso perder um dia pra você ganhar
Eu nunca posso perder um dia pra você ganhar

É mais fácil um camelo correr pelo fundo de uma agulha

Mais fácil o rádio patrulha vê ladrão e não prender

Mais fácil gelo ferver sem a pedra desmanchar

Mais fácil burro falar e uma pedra se mover

Do que o Frank perder para o Nazah ganhar

 
 
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgVHS6UeGA9UKOM_ycHTFXMA8ejyW07Zx9KCQEMzFbivrGCT9NFtF3_YXgwwpPR-mSBjfzYGGqWW_l_5aE3lDhYjOKZbWbjYXRv2aZrIyiMsVzIAQMcXAZC2Oqkpr-rQivJC7B4uA9gbtFbHt0XMg4WuXuEtcp057HFuDykqgNfvjkvKgnZuytMu8dDaqQ/s1600/MUSICA.jpg

 

Nazah não pode perder para o Frank ganhar

E eu nunca posso perder um dia pra você ganhar

E é mais fácil velho de cem anos se casar com uma donzela
É mais fácil uma cadela ter seu filho e fazer cama
É mais fácil aeroplano pelos ares não voar
É mais fácil o mar secar, um boi aprender a ler
Do que o Nazah perder para o Frank ganhar

Eu nunca posso perder um dia pra você ganhar
Eu nunca posso perder um dia pra você ganhar

Olha é mais fácil um cavalo estudar numa escola
Soltar pipa, jogar bola, viajar pra São Paulo
É mais fácil até um galo bater asa e voar
Mais fácil mudo cantar e gravar até um CD
Do que o Frank perder para o Nazah ganhar

[...]

É mais fácil um pecador fazer água virar vinho
É mais fácil um passarinho virar disco voador
É mais fácil um pastor um dia parar de pregar
Um professor ensinar sem ter aprendido ler
Do que o Nazah perder para o Frank ganhar

Mas eu não vou perder um dia pra você ganhar
E eu também não vou perder um dia pra você ganhar
.

[...]

Composição: Francisco Salustiano dos Santos, Nazareno Salustiano dos Santos. Canções do Brasil – “O Brasil cantado por suas crianças”. Palavra Cantada, 2001, p. 74-75.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 101-102.

Entendendo a música:

01 – Qual é o tema central ou a principal disputa narrada na letra da música?

      O tema central é uma disputa acirrada entre dois personagens, Frank e Nazah, onde nenhum dos dois aceita a possibilidade de perder para o outro. A letra reforça a ideia de uma rivalidade em que a vitória de um sobre o outro é considerada algo praticamente impossível de acontecer.

02 – O que os personagens querem dizer quando repetem que "é mais fácil" certas coisas absurdas acontecerem do que um perder para o outro?

      Eles utilizam o recurso da hipérbole (exagero) para mostrar que a derrota de um deles é algo totalmente inacreditável e fora de cogitação. Ao listar situações impossíveis na realidade, eles enfatizam a extrema confiança que têm em si mesmos e a recusa absoluta em aceitar a derrota.

03 – Cite três exemplos de situações absurdas ou impossíveis mencionadas no texto para ilustrar a teimosia dos competidores.

      O texto está repleto de imagens absurdas. Três exemplos são:

      Um boi aprender a ler.

      Um mudo cantar e gravar um CD.

      Um passarinho virar um disco voador.

04 – Além das figuras de Frank e Nazah, quem mais entra na disputa de acordo com o refrão da música?

      O próprio eu lírico (quem canta a música) entra na disputa diretamente com o ouvinte ou com o seu interlocutor, como mostra o refrão: "Eu nunca posso perder um dia pra você ganhar". Isso transforma a música em um jogo ou desafio direto entre quem canta e quem escuta.

05 – Como a música termina no último trecho apresentado e qual é a conclusão dos dois lados?

      A música termina sem que nenhum dos lados ceda. Ambos reafirmam sua posição obstinada com as frases: "Mas eu não vou perder um dia pra você ganhar / E eu também não vou perder um dia pra você ganhar". Isso mostra que a competição continua empatada e nenhum deles pretende desistir.

 

 

terça-feira, 2 de junho de 2026

CONTO: LENDA DOS ESTREMOÇOS - GENTIL MARQUES - COM GABARITO

Conto: Lenda dos Estremoços

         O sol, um sol quente, abrasador, caía implacável sobre o carro onde viajava um homem, uma mulher e uma criança. Este grupo vinha de longe, dos contrafortes da serra. Ódios políticos tinham atirado esta família para a estrada sem fim. O calor apertava. A sede torturava-os. O pó punha-lhes a boca gretada e a língua áspera. Precisavam descansar, fugir ao sol dessa planície imensa que ficava para além do rio Tejo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgiInzXAGAfNqfpL-VA35iZrq4WKuQFtDaVgvxx6g7_1hBGRmA5VMIeX2kr1tvSdICTaDzWWppspbBwTSJ29xl2V5xxWz1eI4INzCEmg_UvFcTUChSddxLgvoLjHDYZsQiAHNU6Q3aJwDhygqsXfkowTGJIlRbivKqAi5McQMdqU2r5N0MaBd4kHT7BPTg/s320/Estremo%C3%A7os.jpg



        De súbito apareceu uma sombra larga, acolhedora, como um oásis no deserto. O homem refreou o andamento dos cavalos que puxavam a carruagem. Gritou contente para a mulher:

        — Olha que árvore! Que bela! Que majestosa!

        A mulher concordou:

        — É das mais belas que tenho visto!

        Curiosa, a pequenita filha do casal perguntou logo:

        — Mãezinha, como se chama esta árvore?

        Foi o pai quem respondeu:

        — Creio que é um tremoceiro! Não tem, aparentemente, grande importância… Mas a verdade é que oferece uma sombra bem acolhedora!

        A criança olhou os pais. E arriscou:

        — E se ficássemos aqui? Já estou tão cansada… e com tanto calor…

        O homem sorriu:

        — Tens razão, minha filha! Vamos ficar por aqui… Pelo menos estaremos à nossa vontade, livres de inimigos e de más vizinhanças… Vamos! É necessário levantarmos a nossa tenda de campanha, antes que anoiteça.

        A pequenita pulou imediatamente para o solo. Na sua imaginação aquela sombra era o Paraíso…

        — Eu também quero ajudar! Vai ser tão bom… Não teremos que voltar a andar de carro por estes caminhos com tanto sol e tanta poeira!...

        O homem desceu também, acariciou a cabeça da filha e olhou em redor. Lentamente. Atentamente.

        — Isto é grande! Mas não vejo ninguém... Tanto melhor!

        E, na manhã seguinte, quando o Sol veio dar os bons dias ao tremoceiro, encontrou erguida uma barraca de campanha, como que a proclamar a independência dos foragidos naquela terra de liberdade...

        Porém, uma visita inesperada surgiu também, aos primeiros clarões do Sol. Era um velho forte e autoritário, arrimado a um grosso bordão. Havia cólera na sua voz ao interpelar os recém-chegados:

        — Com que direito entrastes nos meus domínios?

        O outro homem sentiu-se ofendido com aquele tom e indagou com altivez:

        — E quem sois vós para me fazerdes semelhante pergunta?

        O velho bateu com o bordão na terra:

        — Sou o dono de tudo isto... de todo este plaino... Do tremoceiro, que plantei por minhas mãos... das árvores que há em redor...

        — E nós somos viandantes... ou para melhor dizer: perseguidos injustamente por delitos que não cometemos...

        O velho resmungou, num ar de suspeita:

        — Talvez assassinos… ou ladrões...

        Desta vez, com grande espanto do próprio velho, foi a criança quem o interrompeu, numa vozita indignada:

        — Senhor! Estais a insultar meus pais e eu não poderei admitir-vos...

        O senhor daquela terra sorriu, irónico, mas a sua voz perdeu o tom colérico:

        — O quê? A formiga já tem catarro? Era o que faltava… uma fedelha a atravessar-se no meu caminho!

        O viandante curvou-se:

        — É uma criança que fala pela voz da verdade! Não tendes o direito de insultar-nos!

        Então, a cólera voltou a apossar-se do velho. A sua expressão tornou-se dura:

        — Fora daqui! Ouvis bem? Fora daqui! Não vos quero ver mais nos meus domínios!... Saireis a bem... ou à força!

        Altivo, o homem que viera de longe retorquiu:

        — Pois já que nos ameaçais... dir-vos-ei que só à força sairemos... se tiverdes poder para isso!

        O grosso bordão do velho bateu com mais vigor ainda na terra.

        — Já que assim o quereis... assim o tereis! Os meus homens não tardarão a expulsar-vos!

        E, ditas estas palavras, ele voltou costas, meteu-se na velha carroça que o esperava — e abalou...


        Mas, pouco tempo depois, voltou com muitos homens armados. A família que viera de longe e acampara ali para encontrar paz e descanso recolheu apressadamente à sua carruagem. A vida estava em perigo e era necessário, mais uma vez, defendê-la.
Com voz cansada e triste, a pobre mãe murmurou numa queixa:

        — Meu Deus! Porque somos tão perseguidos? Não fizemos mal algum e todos nos odeiam! Porquê, meu Deus?... Porquê?

        Mas já o marido lhe recomendava, enérgico:

        — Defende tu aí essa entrada... Eu ficarei aqui a aguentá-los! Não se dirá que um fidalgo como eu se rendeu pela força...

        Um grito abafado veio cortar-lhe o pensamento. Ele olhou a mulher que mostrava uma expressão apavorada.

        — A nossa filha?... A nossa filha onde está, que não a vejo?

        Ele inquietou-se:

        — Mas... vi-a há pouco, junto de ti!

        — Sim… enquanto estávamos descansando... Mas agora... Agora não sei dela!...

        O homem rangeu os dentes:

        — Ah, miseráveis! Se derramam uma gota de sangue que seja da minha filha, hão-de pagar-mo bem caro!

        Entretanto, indiferente ao perigo, a criança tinha atravessado por entre os homens armados e avançara, devagar, como um pequeno gato, ao encontro do velho chefe. Quando este a viu perguntou, espantado:

        — Tu? Aqui? Como ousaste?

        A pequenina sorriu com candura:

        — Com a ajuda de Deus, meu senhor... Preciso falar-vos!

        — Falar comigo?

        Havia desconfiança na voz do velho.

        — Ah! Não será uma armadilha?

        A rapariguinha abriu os olhos num espanto. Num espanto e num sorriso.

        — Armadilha? Oh... Não! Não poderia fazer-vos mal... Sou tão pequena ainda...

        O velho pareceu cair em si. Franziu as espessas sobrancelhas esbranquiçadas e a sua voz soou melhor aos ouvidos da menina:

        — Perdoa-me! Tens razão! Portei-me agora com insensatez. Diz lá o que pretendes...

        Ela mostrou-se alegre.

        — Sabei, senhor… que estive a pensar numa coisa!...

        — Tu... a pensar? E que foi?

        — Ora... Pensei que em volta duma árvore tão bonita como aquele tremoceiro podia construir-se uma povoação também bonita e grande... capaz de causar inveja às outras povoações...

        Foi a vez do velho sorrir à criança.

        — Não é mal pensado! Mas como havemos de a construir?

        — Com boa amizade e paz.

        O velho repetiu as mesmas palavras. Pensativo. Como num eco do seu próprio pensamento.

        — Com boa amizade e paz…

        Então a pequenita prosseguiu com entusiasmo, vendo que a luta se mantinha suspensa, esperando ordem de ataque.

        — Sabei que o meu pai é um grande construtor. A minha mãe ajuda-o em tudo… Se o senhor quisesse… eles poderiam construir aqui uma cidade, dirigindo e aproveitando o trabalho dos seus homens…

        O velho olhava-a espantado. Meneava a cabeça como que duvidoso do que ouvia.

        — Ora esta! Uma catraia como tu... com uma ideia tão grande! Donde te veio semelhante pensamento?

        Ela sorriu, ingénua.

        — Foi Deus Nosso Senhor quem mo deu!

        Houve um momento de silêncio, em que o olhar do velho ficou a perder-se no vasto horizonte. Depois, tomado de súbita energia, gritou para os seus homens:

        — Basta! Pensei melhor e não atacaremos… Podem retirar-se. Daqui em diante, todos seremos bons amigos e companheiros!

        E nesse mesmo dia, com grande jubilo do casal foragido — que voltara a ter junto de si a filhinha adorada mas ignorava ainda tudo quanto se havia passado — o velho chefe procurou o marido e a mulher. Porém desta vez chegou sorrindo:

        — Venho em missão de paz e amizade!

        A mulher respondeu-lhe, já com voz serena:

        — Sede bem-vindo, senhor!

        Afável também, o homem que viera de longe quis demonstrar o seu desejo de confraternização.

        — Tomai um pouco de sombra do tremoceiro!

        O velho acrescentou intencionalmente:

        — Do «nosso» tremoceiro — quereis dizer!

        — Como?

        — De hoje em diante, o tremoceiro pertencerá a todos nós... Sei que sois um grande construtor e vós, senhora, extraordinária ajudante...

        O homem interrompeu-o, perplexo:

        — O quê?... Decerto estais enganado, senhor! Fui, sou e serei unicamente um fidalgo... E esta é a minha esposa, à face de Deus e dos homens!

        — Mas... a vossa filha disse-me...

        Houve um leve sorriso nas expressões do casal.

        — Compreendo agora, senhor! A nossa filha tem uma imaginação prodigiosa e vós… acreditastes...

        O velho olhou a criança. Ela encolheu-se um pouco, entre envergonhada e receosa...

        — Uma fedelha destas a enganar um velho como eu! Mal posso acreditar...

        Mas a sua voz tinha um tom bonacheirão. Cheirava a simpatia. E a pequena ladina pareceu ficar logo mais à vontade. Segurou carinhosamente nas mãos do velho e falou devagar, espiando as reações dele:

        — Oh, meu Senhor... eu não vos enganei... Reparai no que vos disse:

        Com o auxílio de todos, poderemos construir uma grande povoação à volta do tremoceiro... Pois não é verdade?

        O velho voltou a sorrir.

        — Tens razão... O que é preciso é haver boa amizade e paz!

        E sublinhou, puxando-a para si com ternura:

        — Hoje mesmo começaremos todos a construir a nossa terra!
        Dentro em breve, o sonho da rapariguita começou a transformar-se em realidade. Com a ajuda de todos, trabalhando esforçadamente de sol a sol, a povoação ia criando as suas primeiras casas e a sua primeira rua.

        Agora, sim, graças à esperteza e à iniciativa da filhinha, o casal foragido sentiu que conquistara de novo a felicidade.

        E a estimular ainda mais os infatigáveis obreiros da nova povoação, o velho chefe voltou alvoroçado duma das suas viagens habituais.

        — Escutai, amigos! Escutai! Boa nova para todos nós! El-rei D. Afonso III acedeu a dar foral à nossa terra!

        Foi uma alegria. Houve abraços e beijos. Vivas e palmas. Dançou-se e cantou-se, como se todos fossem irmãos.

        Depois, o velho chefe reuniu-os de novo e falou solenemente:

        — Temos de dar um nome à nossa terra... Um nome bonito, sonante, que fique para a posteridade... Qual deve ser esse nome?

        As opiniões começaram logo a dividir-se. Cada um dava a sua ideia. E a ideia de cada um era sempre melhor do que as ideias dos outros... Depressa se estabeleceu a barafunda, até que o velho chefe, com a sua autoridade incontestada, resolveu intervir:

        — Calai-vos! Assim nada conseguiremos. A mim, parece-me que só há aqui uma pessoa capaz de nos indicar um nome bonito... Sabeis a quem me refiro, com certeza. A ela devemos a ideia feliz da fundação da nossa terra. Pois que nos dê também um nome para ela.

        Todos se voltaram para a rapariguita. De acordo. Esperando. Um pouco intimidada por tão grave responsabilidade, mas sempre sorrindo, como fazia nas ocasiões de perigo, a menina avançou por entre os homens e as mulheres que a olhavam ansiosamente e falou. Falou sem tremer a voz. Falou como se estivesse a repetir uma lição já decorada:

        — Bem... Se desejam que seja eu a dar o nome à nossa terra... parece-me que o melhor é pôr-lhe um nome que lembre aquela árvore a que devemos tão boa sombra... Foi a única que sempre aqui nos acompanhou, tal como o Sol e como a Lua... Eu acho portanto que a nossa terra se deve chamar Estremoços!

        Houve um momento de pasmo. E de silêncio. A rapariguita falara tão bem, tão bem, que estavam todos maravilhados.

        E foi afinal o velho chefe quem tomou a palavra em nome de todos:

        — Muito bem!... A garota falou como uma pequena sábia... Na verdade, devemos dar à nossa terra o nome do fruto abençoado que tanto nos ajudou. Os estremoços foram o pão nosso de cada dia...

        Pois também nós seremos sempre leais aos bons estremoços!
E a terra ficou a chamar-se Estremoços — ou, melhor ainda, a Terra dos Estremoços, como então se designavam em linguagem popular os tremoços de hoje... E o seu brasão inicial compôs-se precisamente de um tremoceiro, tendo por cima o escudete das quinas e em redor o Sol e a Lua... a perpetuar assim pelos séculos fora as palavras daquela garota de imaginação prodigiosa que falara, de facto, como uma menina sábia...

        Depois, com o correr dos tempos, tudo se foi alterando... O nome dos estremoços passou a ser apenas tremoços... E a Terra dos Estremoços (ou de Estremoços, como a designaram mais tarde), acabou por se transformar na cidade de Estremoz, que se ergue hoje, altaneira, em pleno distrito de Évora, como uma sentinela do Alentejo.

Gentil Marques 

Entendendo o conto:

 

01 – No início do conto, quais as circunstâncias adversas que motivaram a viagem da família e qual a importância do tremoceiro no momento em que decidem interromper a jornada?

      A família encontrava-se em fuga devido a perseguições motivadas por "ódios políticos" em sua terra natal, nos contrafortes da serra. Eles viajavam sob um sol escaldante e abrasador na planície além do rio Tejo, sofrendo com o pó do caminho, o cansaço e uma sede torturante. O tremoceiro surge nesse cenário como uma "sombra larga e acolhedora", funcionando como um verdadeiro oásis no deserto. A imponência e o frescor da árvore oferecem o alívio físico imediato que a família precisava, motivando-os a montar ali a sua tenda de campanha para se sentirem, finalmente, livres de inimigos.

02 – Ao confrontar a família na manhã seguinte, o velho proprietário demonstra hostilidade. Como a filha do casal reage a essa agressividade e de que forma essa primeira interação prefigura o papel que a criança desempenhará na história?

      Quando o velho acusa a família de ter invadido as suas terras e insinua que eles poderiam ser ladrões ou assassinos, a criança reage com extrema indignação e coragem, interrompendo-o para defender a honra de seus pais. Embora o velho responda inicialmente com ironia ("A formiga já tem catarro?"), a intervenção da menina desarma temporariamente o tom colérico do proprietário. Essa primeira interação prefigura que a criança, apesar de sua aparente fragilidade, possui uma maturidade, audácia e senso de justiça incomuns, indicando que ela seria a chave para a resolução dos conflitos futuros.

03 – Diante da iminência de um ataque armado liderado pelo velho proprietário, a criança adota uma estratégia inusitada. Explique a "mentira ingénua" que ela conta ao velho e qual era o seu objetivo real.

      Ao caminhar destemidamente em direção ao velho chefe entre os homens armados, a menina utiliza-se de uma estratégia de persuasão baseada na imaginação. Ela afirma que seu pai é um "grande construtor" e sua mãe uma excelente ajudante, sugerindo que, em vez de guerrearem, eles deveriam se unir para construir uma grande e bela povoação ao redor do tremoceiro. O objetivo real da criança era paralisar o ataque iminente e salvar a vida de seus pais, substituindo o cenário de violência por uma proposta de cooperação, paz e amizade mútua.

04 – Como o casal reage quando descobre a história inventada pela filha e como o velho proprietário lida com o fato de ter sido, de certa forma, "enganado" por uma criança?

      O casal reage com surpresa e um leve sorriso, esclarecendo prontamente ao velho que o homem é, na verdade, um fidalgo e não um construtor, justificando que a filha possui uma "imaginação prodigiosa". O velho proprietário, ao perceber que acreditou na história de uma "fedelha", mostra-se inicialmente incrédulo, mas reage de forma bonacheirão e simpática. Longe de ficar furioso, ele abraça a ideia da menina com ternura, reconhecendo que a essência da proposta — construir uma comunidade baseada na amizade e na paz — era válida e necessária, independentemente do disfarce inicial.

05 – A lenda menciona um importante marco histórico e político que impulsionou o desenvolvimento da nova povoação. Que marco foi esse e como ele alterou o status da comunidade que estava sendo erguida?

      O marco histórico e político foi a concessão do foral àquela terra por parte de El-rei D. Afonso III. O foral era um documento real de extrema importância na Idade Média, pois garantia autonomia jurídica, administrativa e privilégios aos moradores da nova comunidade. Esse ato real oficializou a existência da povoação, transformando o assentamento informal de foragidos e trabalhadores locais em uma vila formalmente reconhecida pela Coroa, o que gerou imenso júbilo, celebração e um sentimento de irmandade entre todos.

06 – Explique os argumentos utilizados pela menina para sugerir o nome de "Estremoços" para a nova terra e como o velho chefe complementou essa escolha.

      A menina sugeriu o nome "Estremoços" argumentando que a comunidade deveria homenagear a árvore (o tremoceiro) que lhes havia garantido a sombra acolhedora no momento mais difícil de suas vidas, destacando que ela foi a única companheira constante da família, junto com o Sol e a Lua. O velho chefe apoiou e complementou a escolha acrescentando uma razão prática e de sobrevivência: os frutos da árvore (os "estremoços", na linguagem popular da época) funcionaram como o "pão nosso de cada dia" para os trabalhadores durante o esforço da construção, justificando a lealdade da comunidade àquela planta abençoada.

07 – A narrativa conecta elementos lendários à realidade histórica e geográfica de Portugal. De acordo com o desfecho do texto, como a antiga "Terra dos Estremoços" se reflete na geografia e na heráldica atuais?

      A lenda explica que a herança daquela época se reflete diretamente na identidade da atual cidade de Estremoz, localizada no distrito de Évora, no Alentejo, cujo nome atual é uma evolução linguística de "Estremoços" (antiga designação popular para tremoços). Além disso, a narrativa justifica a composição do brasão original da cidade, que trazia a representação de um tremoceiro encimado pelo escudete das quinas (símbolo de Portugal) e ladeado pelo Sol e pela Lua, imortalizando graficamente os elementos naturais citados pela menina sábia na fundação da terra.