quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

CRÔNICA: DOIS AMIGOS E UM CHATO - STANISLAW PONTE PRETA - COM GABARITO

Crônica: Dois amigos e um chato
                 
                 Stanislaw Ponte Preta

   Os dois estavam tomando um cafezinho no boteco da esquina, antes de partirem para as suas respectivas repartições. Um tinha um nome fácil: era o Zé. O outro tinha um nome desses de dar cãibra em língua de crioulo: era o Flaudemíglio.
        Acabado o café o Zé perguntou: — Vais pra cidade?
  — Vou — respondeu Flaudemíglio, acrescentando:  
— Mas vou pegar o 434, que vai pela Lapa. Eu tenho que entregar uma urinazinha de minha mulher no laboratório da Associação, que é ali na Mem de Sá.
        Zé acendeu um cigarro e olhou para a fila do 474, que ia direto pro centro e, por isso, era a fila mais piruada. Tinha gente às pampas.
        — Vens comigo? — quis saber Flaudemíglio.
        — Não — disse o Zé: — Eu estou atrasado e vou pegar um direto ao centro.
        — Então tá — concordou Flaudemíglio, olhando para a outra esquina e, vendo que já vinha o que passava pela Lapa: — Chi! Lá vem o meu… — e correu para o ponto de parada, fazendo sinal para o ônibus parar.
        Foi aí que, segurando o guarda-chuva, um embrulho e mais o vidrinho da urinazinha (como ele carinhosamente chamava o material recolhido pela mulher na véspera para o exame de laboratório…), foi aí que o Flaudemíglio se atrapalhou e deixou cair algo no chão.
        O motorista, com aquela delicadeza peculiar à classe, já ia botando o carro em movimento, não dando tempo ao passageiro para apanhar o que caíra. Flaudemíglio só teve tempo de berrar para o amigo: — Zé, caiu minha carteira de identidade. Apanha e me entrega logo mais.
        O 434 seguiu e Zé atravessou a rua, para apanhar a carteira do outro. Já estava chegando perto quando um cidadão magrela e antipático e, ainda por cima, com sorriso de Juraci Magalhães, apanhou a carteira de Flaudemíglio.
        — Por favor, cavalheiro, esta carteira é de um amigo meu —disse o Zé estendendo a mão.
        Mas o que tinha sorriso de Juraci não entregou. Examinou a carteira e depois perguntou: — Como é o nome do seu amigo?
        — Flaudemíglio — respondeu o Zé.
        — Flaudemíglio de quê? — insistiu o chato.
        Mas o Zé deu-lhe um safanão e tomou-lhe a carteira, dizendo: — Ora, seu cretino, quem acerta Flaudemíglio não precisa acertar mais nada!

                                                      Stanislaw Ponte Preta
Entendendo a crônica:

01 – O que nos diz o narrador sobre o nome de cada um dos amigos?
      Um tinha o nome fácil: era Zé. O outro tinha um nome desses de dar cãibra em língua de crioulo: era Flaudemíglio.

02 – Por que os dois amigos não pegaram o mesmo ônibus?
      Porque Flaudemíglio tinha que entregar a urinazinha da mulher no laboratório.

03 – Retire do texto a passagem em que, ironicamente, o narrador se refere ao comportamento do motorista do 434.
      “O motorista, com aquela delicadeza peculiar à classe, já ia botando o carro em movimento, não dando tempo ao passageiro para apanhar o que caíra.”     

04 – É possível, pelo texto, descobrir o sentido da expressão “mais piruado”?
      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: mais cheia de gente.

05 – Como o narrador caracteriza o chato que surge na crônica?
      Como cidadão magrela e antipático e, ainda por cima, com sorriso de Juraci Magalhães.

06 – Qual a razão apresentada pelo Zé para pôr fim à chatice do cidadão magrela?
      “— Ora, seu cretino, quem acerta Flaudemíglio não precisa acertar mais nada!”     

07 – Você já passou por um apuro semelhante ao narrado nesse texto? O que aconteceu?
      Resposta pessoal do aluno.


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