domingo, 3 de novembro de 2019

CRÔNICA: ME DÁ A SUA MÃO - HELENINHA BORTONE - COM GABARITO

Crônica: Me dá a sua mão
               Heleninha Bortone

        Marcos convivia com seus sonhos, numa casa grande demais para seu tamanho. Uma casa que tinha tudo. Piscina, quarto de brinquedos, um pai, uma mãe, duas irmãs moças e quatro empregados.
        Da porta da entrada da casa até o portão era um espaço enorme de jardins e grama. O portão dava para a rua. Lá sim, era animado. Carros passando, gente carregando pacotes, sorveteiros gritando, meninos brincando, muitas coisas alegres. Este era o mundo do outro lado do portão da casa de Marcos.
        Ele passava horas agarrado às grades bonitas. Um dia arriscou uma pergunta, com o coração aos pulos:
        -- Menino, onde você mora?
        Um garoto um pouco maior que ele se aproximou do portão e com a maior naturalidade respondeu:
        -- Moro longe. Você mora nesta casa aqui?
        -- Moro.
        -- Bacana, sua casa, né?
        -- É. Quer entrar?
        -- Quero.
        Marcos correu contente a pedir ao Luís que abrisse o portão. Mas não conseguiu fazer seu novo amigo entrar.
        Marcos voltou ao portão muito sem jeito, não sabendo o que dizer ao menino. Vinha triste e com raiva do Luís. Não entendia ainda que o motorista só cumpria ordens.
        -- Olha, menino, eu procurei a chave do portão mas não achei.
Volta outra hora, tá bom?
        -- Não faz mal. Eu pulo o portão. Pode?
        -- Pode.
        -- Como é seu nome?
        -- Marcos, e o seu?
        -- Meu nome é Zeca. Puxa, você deve ser muito rico, heim? Você tem tudo que quer?
        -- Não.
        -- Ah, então não é rico. Gente rica tem tudo que quer.
        Passaram um bom tempo brincando. Agora, era hora de ir embora, antes que alguém o visse. Marcos disse ao amigo que voltasse outras vezes.
        No quarto dia de espera, Marcos ouviu uma voz vinda do portão.
        -- Marquinhoooo!
        O amigo tinha voltado. Marcos saiu em disparada. Feliz.
        -- Pula logo o portão. Entra.
        Nesse momento, o carro de Dona Lúcia encostava.
        -- Quem é esse menino, Marcos?
        -- É o Zeca, meu amigo.
        Zeca desistiu da subida. Voltou para trás.
        -- Menino, sabia que é muito feio pular o portão da casa dos outros?
        Zeca fez que sim com a cabeça.
        -- Pois então vá para sua casa. Aqui não é pra brincar mais viu?
        Zeca abanou a mão para o Marcos e se afastou.
        -- Quantas vezes te pedi para não conversar com os meninos de rua?
        -- Mas Zeca não é um menino de rua.
        -- Por que você não faz amigos na escola? Podia trazê-los aqui para brincar. Será possível que tenho que te colocar no colégio o dia inteiro? Quem sabe assim você faz amigos...
        Marcos chorou. Foi para o quarto. Enxugou as lágrimas, mas não adiantou. A tristeza não secou.
        A vida voltou ao que era antes. Da escola para casa, televisão, brinquedos, sempre sozinho.
        Numa 2ª feira, quando todos haviam saído, Marcos aproveitou para brincar no portão. Pegou dois carrinhos e imaginando estradas e pontes passou algum tempo. De repente surge o Zeca.
        -- Oi, Marcos, tudo bom?
        -- Oi.
        -- Não vim antes porque não queria que você levasse castigo por minha causa. Vamos brincar?
        -- De que jeito?
        -- Ué, um dum lado do portão, outro do outro. Me dá um carrinho. Você fica com o outro. Vamos imaginar que do meu lado é uma rua, do seu é outra.
        Fizeram isso. Brincaram por mais de meia hora.
        Deste dia em diante Zeca só chegava quando via que Marcos estava sozinho.
        Marcos andava feliz. Pensava: "Puxa, o Zeca é a melhor pessoa do mundo. Nem se importa de ficar de fora do portão". É bem verdade que cansava os braços brincar pela grade, mas valia a pena. Valia a pena qualquer sacrifício para ter o amigo.
        -- Zeca, amanhã à noite acho que vai dar pra você entrar.
        -- Como?
        -- Tem festa. O portão vai ficar aberto. Quando você perceber que já entrou uma porção de pessoas, entra também e me espera no jardim.
        -- Marcos, topa fazer um *trato*?
        -- Topo. Que trato?
        -- De ser amigo pro resto da vida.
        Marcos esticou o braço, deu a mão para o amigo e "fecharam" o compromisso.
        -- Sabe, quando eu crescer vou abrir esse portão.
        -- Claro, aí ninguém vai dizer nada, né?
        Tudo aconteceu conforme o combinado. Zeca entrou, sentou no banco e esperou. Marcos não demorou chegar. Se jogou nos braços do amigo para um abraço.
        Mas o inesperado aconteceu. Dona Lúcia.
        -- Marquinhos, esse não é o menino que vi em cima do portão?
        -- É.
        -- E você menino, não disse que fosse embora? Você é maior que o Marcos, pensei que tivesse mais juízo.
        Marcos continuava agarrado à mão do Zeca.
        -- Marcos, como é que você traz pra casa uma pessoa que não conhece, filho?
        Nesse instante Marcos começou a se defender.
        -- Mãe, o Zeca é meu amigo. Meu único amigo. Aqui não tem ninguém pra brincar comigo. Eu gosto dele. O Zeca faz comida em casa, ajuda a tia e ainda vem todo dia brincar. Pensa que não cansa ficar de braço esticado no portão? Essa casa é muito grande, cabe muito bem o Zeca e eu. O Zeca não é um menino de rua. Lembra aquele carro vermelho? Dei pra ele. E ele já me deu 26 bolinhas de gude. Ele joga, ganha e me dá. Nunca aprendi a jogar. Como é que posso aprender com aquela grade no meio? Pode me colocar no colégio o dia inteiro. Lá também deve ter portão. Fizemos um trato de ser amigos pro resto da vida. O Zeca, mãe... O Zeca é o meu próximo, viu?
        Dizendo isso, Marcos pegou a mão do Zeca e iam se encaminhando para o portão.
        Dona Lúcia tinha um nó na garganta e os olhos cheios d'água. Disse baixinho ao marido:
        -- Chame esses meninos de volta... parecem tão iguais...

     Me dá a sua mão. Heleninha Bortone.
Fonte: Livro – Encontro e Reencontro em Língua Portuguesa – 5ª Série - Marilda Prates – Ed. Moderna, 2005 – p. 91-5.
Entendendo a crônica:

01 – Reescreva as frases, substituindo as palavras destacadas por um sinônimo do quadro abaixo:

Desacordo – acordo – vivia junto – queria – previsto – imprevisto – responsabilidade – renúncia.

a)   Marcos convivia com seus sonhos.
Marcos viva junto com seus sonhos.

b)   Valia a pena qualquer sacrifício para ter o amigo.
Valia apena qualquer renúncia para ter o amigo.

c)   Marcos, topa fazer um trato?
Marcos, topa fazer um acordo?

d)   Mas o inesperado aconteceu.
Mas o imprevisto aconteceu.

02 – Onde os meninos se encontram?
      No portão da casa de Marcos.

03 – Como era o mundo em que Marquinhos vivia?
      Morava numa casa muito grande, que tinha tudo, piscina, quarto de brinquedos, um pai, uma mãe, duas irmãs moças e quatro empregados.

04 – Por que o “mundo do lado de lá do portão” era muito melhor do que o seu mundo?
      Porque era animado. Havia muito movimento e alegria.

05 – Identifique, no primeiro parágrafo, uma expressão que comprove que Marquinhos era rico.
      “... numa casa grande demais para seu tamanho”.

06 – Você percebe a diferença entre as expressões “meninos de rua” e “meninos da rua”? Justifique sua resposta e indique que palavras fazem essa diferença.
      Meninos de rua são meninos que geralmente vivem nas ruas. Meninos da rua são meninos que moram numa determinada rua.

07 – Um acontecimento no início da história muda a rotina de Marcos. Que acontecimento é esse?
      O contato com Zeca.

08 – “O amigo tinha voltado. Marcos saiu em disparada. Feliz.” Um conflito interrompe a felicidade de Marcos. Identifique-o.
      O fato de a mãe proibi-lo de ver o Zeca.

09 – “Deste dia em diante Zeca só chegava quando via que Marcos estava sozinho. Marcos andava feliz.”
a)   Uma nova rotina foi estabelecida. Identifique-a.
Marcos não brinca sozinho. Brinca com Zeca.

b)   Desde o começo da história, a rotina de Marcos mudou. O acontecimento que causou essa mudança ainda é o mesmo? Justifique sua resposta.
Sim, pois o acontecimento é o contato com Zeca.

10 – “Mas o inesperado aconteceu”. A que o texto se refere?
      Ao fato de sua mãe descobrir que os dois continuavam amigos.

11 – Qual a influência do acontecimento inesperado sobre o conflito (a proibição da mãe de Marcos)?
      A descoberta da mãe de Marcos.

12 – O último parágrafo determina uma nova mudança. Identifique-a.
      Determina a solução do conflito.

13 – O texto “Me dá a sua mão” é narrativo. Ele pode ser dividido em 5 etapas. Com base nas respostas das questões anteriores, relacione os acontecimentos às etapas a seguir:

·        Situação inicial: Marcos brinca triste e sozinho.

·        Quebra da situação inicial: Marcos conhece Zeca.

·        Estabelecimento de um conflito: A mãe de Marcos proíbe a amizade com Zeca.

·        Clímax (momento de maior tensão na narrativa): A mãe de Marcos descobre que estava sendo desobedecida.

·        Solução do conflito ou estabelecimento de uma nova situação: A mãe de Marcos resolve permitir a amizade.

14 – Quais são as personagens dessa narração?
      Marcos, seu pai, sua mãe, Luís, Zeca.

15 – Que qualidades você atribuiria ao Zeca? E ao Marcos? Justifique sua resposta.
      Resposta pessoal do aluno.

16 – As características comuns as duas personagens são imaginação fértil e criativa, igualdade no modo de pensar. Justifique essa afirmação através do texto.
      Para superar as dificuldades, as personagens encontram soluções criativas como brincar através do portão.

17 – Zeca disse: “—Não vim antes porque não queria eu você levasse castigo por minha causa”. Que sentimento demonstra Zeca com esse gesto?
      De preocupação, amor ao próximo, justiça.


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