CRÔNICA: MULHER DE SEGURAR NAVIO
Fernando Sabino
Prometi apanhá-lo com meu carro às duas e meia em ponto. Às três e quinze sai da estação de Saint Pancras o ônibus que o levará às docas de Londres. Ele embarca para Portugal hoje, com tod a família.
Encontro-o já à porta do edifício onde mora, em Kensington, cercado de malas por todos os lados. Começo a rir, digo-lhe que desista: no meu carro não caberá tanta mala. Ele me olhou com um sorriso desalentado de quem acha que brincadeira tem hora. Com jeito vai - assegura-me.
Para começar, não sabe o que fazer com o embrulho quadrado e chato que tem na mão - um quadro que está levando de presente para o pai. Acaba deixando-o à porta do edifício, e, com minha ajuda, põe-se a transportar a bagagem para dentro do carro.
Em pouco já não há quase espaço vazio: mala traseira, bancos, tudo abarrotado. E neste instante surge à porta sua jovem mulher, cmo sempre tranquila, repousada e repousante, com aquela suavidade das antigas mães de família, para quem tudo há de dar certo. Não se preocupem, que vamos todos aí dentro - assegura-nos, quando o marido já sugeria um táxi suplementar, difícil de se conseguir assim à última hora.
Chegam agora a governanta e as duas crianças, que se multiplicam por três, correndo e brincando. Ele não perde tempo e vai tratando de enfiá-las no carro. Depois chega a vez dos adultos. Tira-se uma mala, entra um, ajeita-se, entra outro, todos se acomodam, agora é o carrinho da criança, a porta não se fecha. Sobrou uma mala, não têm importância, vai no colo - e ele desaparece a meu lado sob um imenso saco de viagem. Há nessa partida um vago ar de fita cômica que atrai a atenção do leiteiro junto ao caminhão, sorrindo do outro lado da rua. Mal consigo me mexer na direção, ao movimentar o carro. Mas estaremos na estação às três e quinze. Deus seja louvdo. A menos que ...
- Vamos voltar - exclama ele, já a meio caminho.
Era o que eu temia.
- O quadro. Esquecemos o quadro, lá na porta da rua.
A mulher comparece com a solução.
- Não há tempo. Toma um táxi que a gente vai indo e te espera lá. Eu seguro o ônibus.
Esta extraordinária observação, feita com tamanha naturalidade, me deixa assombrado. Ele , sem uma palavra, sai do carro e se manda pela rua atrás de um táxi. Enquanto prosseguimos, ponho em dúvida a capacidade de quem quer que seja de interferir no horário de um ônibus na Inglaterra: segura o ônibus como?
- Já segurei um navio, então não posso segurar um ônibus?
Conta-me então que seu tio deveria embarcar num transatlântico italiano, foi despedir-se dele no cais. E até o último momento, nada do tio. Telefona para ele do próprio navio, ficou sabendo que não lhe haviam avisado uma antecipação da hora de partida. Mas isso é um desaforo - decidiu ela: pois pode vir que o navio espera. Quis falar com o comandante, não foi atendida. Os alto-falantes de bordo pediam a retirada imediata dos visitantes, era o último sinal. Os oficiais mandaram retirar a escada. Antes que a escada fosse completamente recolhida, ela se precipitou, desceu alguns degraus e se viu suapensa no espaço, como num imenso trampolim. Lá embaixo a multidão, já acenando despedidas, completava, nariz para o ar, aquele espetáculo de circo: a mulher era passageira? Queria subir ou descer? Ela não queria nada, e era o que repetia teimosamente para oficiais e marinheiros que a intimavam aos berros a sair dali: daqui não saio, daqui ninguém me tira - esperam chegar meu tio. Tiveram de esperar: tirá-la à força era perigoso, acabria todo mundo n'água. Esperaram meia hora até que chegasse o tio, com a mulher, filhos, carrinho de criança, gaiola de papagaio - mais ou menos como hoje. E, envergonhadíssiomo, por pouco desiste de embarcar quando finalmente lhe baixaram a escada, sob aplauso da multidão.
Olho-a furtivamente pelo espelhinho do carro. Vejo uma confusão de malas, embrulhos, crianças cercando o rosto familiar desta brasileira tranquila. Nunca pensei que ela fosse mulher de segurar navio. Quanto mais se vive mais se aprende.
Tudo ajeitado no ônibus, fico à espreita, olho pregado na esquina. Ela não parece preocupada. Começo a temer pel sorte deste motorista alto, ossudo, de cabelos grisalhos e extremamente inglês que já consulta o relógio e vai se ajeitar ao volante, para dar partida. Mal desconfia ele que está correndo o risco de entrar para a História, como protagonista de um extraordinário acontecimento nos anais do império Britânico. São exatamente três e quinze.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhQnVcjK3BNB05xaNDEBg0xzE_463vjERHrvvw1G9IfVd3vtfm1F6Hd9WHOqZazF5CWOUY4q-kFasKJLGSwHid8tsdGwF-QKI8c-ee7uUgtcKQO9kGcUdx7PYkxr3638UGtVr4QmFRIjRLGQYzX-L9GU16LvdZYP2bxrM6FsQ5J1y5G7xlc-9qzvdyk2lk/s1600/NAVIO.jpgRespiro com alívio, ao ver, no último segundo, meu amigo saltar de um táxi e vir correndo com o quadro na mão. Mal teve tempo de entrar, eo ônibus já se afasta, a família acenando alegremente.
Volto para casa pensativo, com aquela esquisita sensação de quem fica. Mas em breve voltarão das férias. E então certamente ficarei sabendo, caso tenham esquecido mais alguma coisa, como o ônibus se desviou de sua rota para que fossem buscá-la em casa.
Fernando Sabino. A inglesa deslumbrada. Rio de Janeiro. Sabiá, 1967. p. 41-5.
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