quinta-feira, 15 de agosto de 2019

POEMA: CORRENTE DE FORMIGUINHAS - HENRIQUETA LISBOA - COM GABARITO

POEMA: Corrente de formiguinhas

Caminho de formiguinhas
fiozinho de caminho.
Caminho de lá vai um,
atrás de uma lá vai outra.
Uma, duas argolinhas
corrente de formiguinhas.

Corrente de formiguinhas,
centenas de pontos pretos,
cabecinhas de alfinete
rezando contas de terço

Nas costas das formiguinhas
de cintura fininhas.
Pesam grandes folhas mortas
que oscilam a cada passo.
Nas costas das formiguinhas
que lá vão subindo o morro
igual ao morro da igreja,
folhas mortas são andores
nesta procissão dos Passos.
Henriqueta Lisboa. O menino poeta: obra completa. São Paulo: Peirópolis, 2008. p. 20.
Fonte: Livro - Para Viver Juntos - Português - 6º ano - Ensino Fundamental- Anos Finais - Edições SM - p.132.
  Glossário
Andor: objeto utilizado para carregar imagens nas procissões.
Procissão dos Passos: manifestação, cortejo religioso realizado anualmente na cidade de Recife.

Entendendo o poema
1) Qual oposição é revelada pelos adjetivos utilizados para caracterizar o corpo das formigas e as folhas?
Corpo das formigas: "fininho" folhas: "grandes".

 2) A oposição apresentada pelo uso dos adjetivos sugere um modo de ser das formigas. Que modo de ser é esse? Justifique sua resposta.
 As formigas são fortes e destemidas. Pois diante de um corpo "fininho" e pequeno, elas não desistem de carregar a folha que é muito maior do que elas.

3) O adjetivo fininhas, utilizado para caracterizar a cintura das formigas, está no diminutivo. Que sentido esse uso acrescenta no poema?
Além de indicar a fragilidade da formiga, esse uso revela afetividade do eu lírico em relação às formigas.

4) Qual oposição é revelada pelos adjetivos utilizados para caracterizar o corpo das formigas e as folhas?
A formiga é pequena, frágil, enquanto as folhas são grandes e pesadas para as formigas.

5) A oposição apresentada pelo uso dos adjetivos sugere um modo de ser das formigas. Que modo de ser é esse? Justifique sua resposta.
O uso dos adjetivos sugere que as formigas trabalham de forma intensa, pois, mesmo pequenas e aparentemente frágeis, carregam grandes folhas.


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

POEMA: ELA E EU - MÁRIO QUINTANA - COM GABARITO

POEMA: ELA E EU
                     Mário Quintana

A minha loucura está escondida de medo embaixo da minha cama
Ou dançando em cima do meu telhado
E eu estou sentado serenamente na minha poltrona
Escrevendo este poema sobre ela.

Mário Quintana. A cor do invisível. 2. ed. São Paulo: Globo, 2006. p. 53.
Fonte: Livro - Para Viver Juntos - Português - 6º ano - Ensino Fundamental- Anos Finais - Edições SM - p.218.
Entendendo o poema
1)   Quais são as palavras, no poema, que se referem à primeira pessoa do discurso?
Minha, meu, eu.

2)   No verso “Escrevendo este poema sobre ela”, a quem a palavra ela se refere?
À loucura. Ela é um pronome pessoal da terceira pessoa do caso reto.

3)   Há um contraste entre a atitude do eu lírico e a atitude de quem ele chama de ela. Como esse contraste está representado no poema?
O contraste está representado pela serenidade do eu lírico (sentado na poltrona) e pela agitação da loucura (dançando em cima do telhado).



ANEDOTA: DEGUSTAÇÃO DE VINHO EM MINAS - AUTOR DESCONHECIDO


DEGUSTAÇÃO DE VINHO EM MINAS



- Hummm…

- Eca!

- Eca?! Quem falou Eca?

- Fui eu, sô! O senhor num acha que esse vinho tá com um gostim estranho?

- Que é isso?! Ele lembra frutas secas adamascadas, e enevoa as papilas de lembranças tropicais atávicas…

- Putaquepariu sô! E o senhor cheirou isso tudo aí no copo?!

- Sou um enólogo laureado. E o senhor?

- Cebesta, eu não! Mas que isso aqui tá me cheirando iguar à minha egüa lá isso tá!

- Valei-me São Mouton Rothschild!

- O senhor me desculpe, mas eu vi o senhor sacudindo o copo e enfiando o narigão. Tá gripado, é?

- Não, meu amigo, são técnicas de degustação. Eu posso ser seu mestre na arte enológica. O senhor aprenderá como segurar a garrafa, sacar a rolha, deitar o vinho e, então…

- E intão moiá o biscoito, né? Tô fora, seu frutinha adamascada!

- O querido não entendeu. O que eu quero é introduzi-lo no…

- Mais num vai introduzi mais é nunca! Desafasta, coisa ruim
!

- Calma! O senhor precisa conhecer nosso grupo de degustação. Hoje, vamos apreciar uns franceses jovens…

- Hã-hã… Eu sabia que tinha francês nessa história lazarenta…

- O senhor poderia começar com um Beaujolais!

- Num beijo lê, nem beijo lá! Eu sô é ómi, safardana!

- Então, que tal um encorpado?

- Ocê tá brincano com fogo…

- Ou, então, um suave fresco!

- Seu moço, tome tento, que a minha mão já tá com vontade de meter um tapa na sua cara desavergonhada!

- Já sei: iniciemos com um brut, curto e duro. O senhor vai gostar!

- Num vô não, fio de um cão! Num vô, memo! Num é questão de tamanho e firmeza, não, seu fióte de brabuleta. Meu negócio é outro, qui inté rima com brabuleta.

- Então, vejamos, que tal um aveludado e escorregadio?

- E que tal a mão no pédovido, hein, seu fióte de Belzebu?

- Pra que esse nervosismo todo? Já sei, o senhor prefere um duro e macio, acertei?

- Eu vô acertá um tapão nas suas venta, engulidô de rôia!

- Mole e redondo, com bouquet forte?

- Agora, ocê pulô o corguim! É um, é dois,é treis! Num corre, não, fiodaputa! Vorta aqui que te arrebento, sua bicha fedorenta !


MENSAGEM ESPÍRITA: NÃO TE ENTREGUES A DOR - CHICO XAVIER - EMMANUEL - PARA REFLEXÃO

MENSAGEM ESPÍRITA: NÃO TE ENTREGUES A DOR - CHICO XAVIER - EMMANUEL


Não te esqueças do ensinamento do Mestre: — “Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha”.

Se a dor te visita o coração, improvisando tempestades de lágrimas em teu campo interior, não te confies ao incêndio do desespero, nem ao gelo da lamentação.
Recorda o tesouro do tempo, retira-te da amargura que te ocupa, indebitamente, e trabalha servindo. O trabalho é um refúgio contra as aflições que dominam a alma. O serviço aos semelhantes gera valoroso otimismo.

Se a incompreensão te impôs férrea grade ao espírito, através da qual ninguém, por agora, te identifica o ideal ou os propósitos elevados não te demores acariciando o fel da revolta.
Lembra o favor sublime do tempo, trabalha e serve. O trabalho acrescenta as energias. O serviço a todos revela divina sementeira.

Se a calúnia chegou ao teu círculo, estendendo sombras tenebrosas, não te afundes no lago fervente do prato, nem te embrenhes na selva do sofrimento inútil.
Reflete na bênção das horas, trabalha e serve. O trabalho reconforta. O serviço aos outros anula os detritos do mal.

Se erraste, instalando escuro remorso no centro do próprio ser, não te cristalizes na inércia e nem te enlouqueças, soluçando e gemendo em vão.
Medita na glória dos minutos, trabalha e serve. O trabalho reajusta as forças do espírito. O serviço ao próximo reconquista o respeito e a serenidade perante a vida.

Se a enfermidade e a morte varrem-te a casa, não te relegues ao acabrunhamento, qual se foras um punhado de lixo.
Pensa na dádiva dos dias, trabalha e serve. O trabalho é uma esponja bendita sobre as mágoas do mundo. O serviço no bem de todos é um milagre renovador.

Na luta e na tranquilidade, no sofrimento e na alegria, na tristeza ou na esperança, segue agindo e auxiliando.
Trabalhar é produzir transformação, oportunidade e movimento. Servir é criar simpatia, fraternidade e luz.

Chico Xavier – Emmanuel


NOTÍCIA: ANIMAIS ÓRFÃOS ADOTAM BRINQUEDOS PARA SIMULAR ACONCHEGO DE MÃE - PRISCILA SERDEIRA - COM GABARITO


TEXTO: Animais órfãos adotam brinquedos para simular aconchego de mãe


Animais órfãos que são resgatados da natureza estão recebendo tratamento diferenciado para serem reintroduzidos com mais segurança à floresta. Um grupo de biólogos do Instituto Brasileiro de Recursos Naturais Renováveis (Ibama) descobriu que os filhotes conseguem encontrar, em animais de pelúcia, o mesmo aconchego dos “braços da mãe”.
Diferente dos animais que são resgatados já na fase adulta e que geralmente têm mais dificuldade para retornarem ao seu habitat, a estratégia de uso das pelúcias visa oferecer um futuro normal para a vida silvestre dos animais filhotes.
A analista e bióloga ambiental do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama, Natália Lima, explica como ocorre essa adaptação. “O filhote precisa do colo da mãe até conseguir andar com as próprias pernas. A gente costuma vê-los sempre agarrados ao colo das mamães. Então, quando eles são separados delas, filhotes ainda, eles sofrem muito. A pelúcia simula uma situação maternal e esses pequenos órfãos se agarram a ela de uma maneira única”, disse.
“Assim como acontece na natureza, na situação em que os filhos desgrudam das mães quando se sentem mais confiantes para andar sozinhos, nós estamos tentando reproduzir a mesma situação aqui. Claro, os ursinhos de pelúcia não substituem a mãe do animal, mas simulam, como se fossem uma mãe postiça” acrescentou Lima.
A estratégia com animais de pelúcia já vinha sendo testada em outros estados, como em centros de triagem de silvestres nos zoológicos do Rio de Janeiro e São Paulo. Foi através desse estudo que um grupo do Cetas do Ibama resolveu aplicar a ideia aqui, no Amazonas.
Atualmente o Ibama cuida de seis filhotes, desses, cinco usam os animais de pelúcia constantemente, que são: uma preguiça real, um mico-de-cheiro, um macaco parauacu, um macaco prego e um gato mouriço, todos com idades de três a seis meses de vida.
Segundo informações do Ibama, O processo de reabilitação desses filhotes leva em média sete a oito meses. Em caso de onças ou gatos silvestres, o prazo pode levar de oito a nove meses, dependendo da imunidade do animal.
Outros animais
Diariamente o Ibama recebe animais silvestres de todas as idades e todas as espécies. Só no ano passado, foram contabilizados 524 animais entregues no instituto. A analista conta que, quando o processo de reabilitação acusa que o animal não tem condições de voltar para a floresta, eles são destinados para zoológicos.
“Geralmente quando o animal chega aqui já na fase adulta, é muito raro que ele consiga se readaptar à vida silvestre, na floresta. Nesses casos, eles são enviados para zoológicos que tenham estrutura para recebê-los com o maior conforto, mantendo o contato com o ser humano”, disse.
Lima ressalta ainda que boa parte desses animais só conseguem sobreviver com a presença de seres humanos. “Às vezes são animais que foram criados por alguma pessoa e, não podendo mais criar, a pessoa devolveu. Nesse caso não é mais possível introduzi-los em floresta”, salientou.
Doe ‘um animal a outro animal’
A campanha para doação de animais de pelúcia aos filhotes órfãos levados para Ibama começou ainda no ano passado, mas de forma tímida, apenas entre os funcionários do instituto. A arrecadação foi boa, a estratégia deu certo, então o grupo do Cetas resolveu ampliar a ação e começar a divulgação nas mídias e redes sociais.
No último dia 20 de janeiro, a campanha tomou força. Há pouco mais de duas semanas de divulgação, o órgão já recebeu mais de 30 pelúcias, além de lençóis, toalhas e outros objetos.
“A campanha superou todas as nossas expectativas, ouço bons comentários pela atitude. Tem gente trazendo até o que a gente nem precisa e, neste caso, a gente devolve, mas é bom saber que as pessoas estão sendo solidárias. Esses animaizinhos são como crianças abandonadas e muitos conseguem enxergar isso, fico feliz”, afirmou a analista ambiental do Ibama, Natália Lima.
A campanha continua por tempo indeterminado e quem quiser doar, basta dirigir-se a sede do Ibama, na rua Ministro João Galvez de Souza, Km 1 BR-319, Distrito Industrial.

Priscila Serdeira. Disponível em:http://acritica.uol.com.br/amazonia/manaus-amazonas-amazonia_0_1076892322.html.Acesso em: 27 abr.2015.
Fonte: Livro - Para Viver Juntos - Português - 6º ano - Ensino Fundamental- Anos Finais - Edições SM - p.122/123/124.

PARA ENTENDER O TEXTO

1)   Qual é o principal fato que a notícia relata?
A notícia relata o fato de animais órfãos estarem recebendo um tratamento diferenciado para serem reintroduzidos com mais segurança na floresta.

2)   As hipóteses levantadas antes da leitura do texto se confirmaram?
Resposta pessoal.
3)   Para explicar a estratégia utilizada pelo IBAMA, a bióloga Natália Lima comenta sobre uma situação vivida pelos filhotes na natureza. Qual é essa situação? E como é reproduzida pelo Cetas?
Na natureza, os filhotes precisam ser transportados no colo da mãe até andarem sozinhos. No Cetas, para reproduzir essa situação de segurança e aconchego oferecido pela mãe, os biólogos dão aos filhotes órfãos bichos de pelúcia.

4)   Na notícia, há falas da bióloga Natália Lima, do Ibama.
a)   Reproduza duas dessas falas.
“O filhote precisa do colo da mãe [...] se agarram a ela de maneira única”; “Assim como acontece na natureza [...] uma mãe postiça”.

b)   Por que há a inserção dessas falas na notícia?
As falas da bióloga dão credibilidade à notícia e oferecem  explicações que ampliam o fato relatado.

domingo, 11 de agosto de 2019

POEMA: NESTA PEDRA - PAULO LEMINISKI - COM GABARITO


POEMA: NESTA PEDRA
              
   Paulo Leminiski

Aqui
nesta pedra
alguém sentou
olhando o mar

O mar
não parou
pra ser olhado

foi mar
pra tudo quanto é lado
[...]

Paulo Leminski. Em Fred Góes e Álvaro Marins (Org.). Melhores poemas de Paulo Leminiski . São Paulo: Global,2001. p.44.
Fonte: Livro - Para Viver Juntos - Português - 6º ano - Ensino Fundamental- Anos Finais - Edições SM - p.214.
Entendendo o poema
1)   O eu lírico fala de alguém que se sentou para olhar o mar em uma pedra. É uma pedra qualquer? Explique.
Entende-se que o eu lírico fala de uma pedra específica, que está perto dele no espaço.

2)   Se trocarmos a expressão “nesta pedra” por “nas pedras”, o sentido continua o mesmo? Justifique sua resposta.
Embora a palavra aqui continue dando a indicação de que as pedras encontram-se próximas ao eu lírico, a expressão “nas pedra” torna-as indeterminadas, não sendo possível saber em que pedras, especificamente, o alguém a quem o poema se refere sentou-se.

3)   O eu lírico mostra uma oposição entre movimento e ausência de movimento. Como isso é representado no poema?
A pedra e a pessoa que parou para ver o mar representam a ausência do movimento. O mar representa o movimento: ele quebrou na pedra e se espalhou para todos os lados.


CONTO: A MOÇA QUE PEGOU A SERPENTE - YVES PINGUILLY - COM GABARITO

Conto: A moça que pegou a serpente
      

     Yves Pinguilly

        Sia era a mais bonita da aldeia. Era tão alta que nem precisava ficar na ponta dos pés para o azul do céu lhe afagar a cabeça. Suas formas eram tão redondas que se poderia pensar que ela tinha nascido da semente mágica de uma cabaça.
        Todos os rapazes da aldeia sonhavam se casar com ela. Todos haviam oferecido ao pai de Sia dinheiro, caules açucarados de sorgo, amendoins inhames, milhete, voandzu... Mas Sia nunca escolhia: nenhum dos rapazes lhe agradava o bastante...
        Como todos os anos, chegou a chuva das mangas, e os homens foram cuidar da sua lavoura. A tia de Sia lhe disse:
        -- Vamos passear na selva que fica em volta das nossas roças. Se encontrarmos um rapaz que queira lutar com você, como é o costume, aceite. Se ele conseguir deitar você no chão, como uma esposa, então você terá de se casar com ele.
        Elas foram passear, a tia cantando:
                Sia vem pra rir
                e vai rir
                Quem vai conseguir
                derrubar Sia?
        Largando a daba, os rapazes vieram um depois do outro tentar derrubá-la no chão. Nenhum conseguiu derrotar a bela Sia. Ou era comprida demais para os braços deles, ou redonda demais para as mãos deles.
        Numa roça havia um rapaz lindo, lindíssimo, mas que escondia sua boniteza sob uma pele de leproso. O rapaz parecia estar coberto de lepra, da ponta dos dedos das mãos à ponta dos dedos dos pés. Ele tinha acabado de despertar de um cochilo quando Sia se aproximou com a tia. O rapaz disse a ela:
        -- Lapya, Sia. Sabe, tenho vontade de te pegar, como um galo tem vontade de pegar um grão de milhete!
        -- Para que ela seja sua, você tem que ser mais forte que ela e conseguir deitá-la de costas no chão – respondeu a tia, – Se for capaz, ela será sua esposa.
        O rapaz levou Sia à sombra de uma palmeira-de-leque, cuja folhagem eriçada e crespa murmurava sacudida pela brisa. Sia e o leproso se engalfinharam, e o rapaz ganhou. Estendeu Sia por inteiro na sombra que a palmeira fazia no chão.
        -- Você venceu porque minha roupa me atrapalhou. Espere aí, vamos lutar de novo.
        Ela tirou a blusa comprida e o pagne. Eles voltaram a lutar, e o rapaz outra vez deitou Sia de costas no chão.
        -- Você ganhou por causa dos meus enfeites que me atrapalharam. Espere aí, vamos lutar de novo.
        Ela tirou as pulseiras dos pulsos e dos tornozelos, assim como seus colares de contas brancas e o cinto de contas vermelhos. Voltaram a lutar, e pela terceira vez foi o rapaz leproso que venceu. Sia chorou tanto, que alguém até pensaria que as lágrimas escorriam não só dos olhos, mas também das orelhas, da boca, do nariz e do coração.
        -- O que está feito, feito está. Este leproso será seu esposo.
        A tia voltou sozinha para a concessão e, pouco depois, Sia voltou à aldeia acompanhada do rapaz leproso, seu marido.
        O tempo passou, mas nenhuma noite Sia quis dormir junto do marido. Todas as noites ela punha entre sua esteira e a dele uma porção de cabaças cheias d’água. Assim separada, ela podia dormir e sonhar.
        Quando preparava a comida ela fazia, para ela e para algumas vizinhas, com farinha bem branca um lindo bolinho, bem volumoso, com um belo buraco no meio para o molho. Para o marido, ela cozinhava mais farelo que farinha, e servia numa cabaça rachada.
        O marido leproso não dizia nada.
        No dia da festa da aldeia, o marido de Sia resolveu que tinha chegado a hora. Foi à tulha atrás da casa, tirou a pelo de leproso e escondeu-a debaixo dos grãos de milhete. Feito isso, esgueirou-se até um canto da selva eu conhecia bem. Lá chegando, acendeu uma bela fogueira. As chamas num instante ficaram altas e ardentes. Então ele jogou no fogo uma pedra que tinha escolhido, e logo a pedra se transformou num lindo cavalo.
        O marido de Sia foi então até um pé de farroba, trepou na árvore e sacudiu os galhos. Várias farrobas caíram e, ao tocarem o chão, transformaram-se em jovens guerreiros, de zagaia em punho e nádegas cobertas por uma bela pele de cabrito.
        Sia, que tinha deixado a festa da aldeia para dar um breve passeio na selva, tropeçou num toco de pau.
        -- Ai! Ui! Toco, por que você machucou meu pé? Espere só, vou pegar um machado e vou te rachar no meio.
       -- Não faça isso! Sente aqui e escute bem. Sou um toco velho, não comprei minha sabedoria, aprendi tudo o que sei com a minha longa vida.
        Sia sentou-se e escutou.
        -- Se você espiar na tulha do seu marido, vai ver uma coisa que te deixará de boca aberta.
        Sia foi correndo ver. Descobriu a pele de leproso! Sem pensar duas vezes, correu para o meio da aldeia e atirou a pele na fogueira da festa. Foi então que reconheceu o marido. Ele dançava, mais lindo que o mais lindo dos lindos, no meio de uma roda de moças. Diante dele, seus guerreiros tomavam conta do seu cavalo. Ela o viu dançar de braço colado, de ombro colado, de corpo colado, com as mais bonitas moças da aldeia. Com os olhos arregalados de espanto, contemplou demoradamente a cena, sem dizer nada a ninguém, voltou para casa, para socar milhete e preparar uma farinha bem branquinha. Neste instante o marido, que continuava dançando, sentiu um punhado de cinzas bater em seu rosto. Eram as cinzas da sua pele de leproso, que tinha queimado. Bateu palmas para chamar seus guerreiros e seu cavalo.
        -- Vamos embora, conheço essas cinzas.
        Montou no cavalo e jogou seus guerreiros no ar. Eles caíram no pé de farroba e viraram de ovo belas farrobas. Chegando à sua cada, deixou o cavalo ir embora, oferecendo-lhe a liberdade de virar pedra de novo. Entrou em casa.
        -- Sia, minha mulher, estou com calor e com sede.
        Sem demora ela lhe serviu uma água bem fresquinha numa magnífica cabaça, toda envernizada e entalhada.
        -- Ué, agora você me serve água fresca numa bonita cabaça?
        Ele bebeu e indagou:
        -- Tem alguma coisa para comer aqui?
        Sia lhe ofereceu um delicioso bolo de mel e o bolinho de milhete numa cabaça novinha.
        -- Sua beleza não mudou, Sia, mas seus modos agora são outros.
        Uma estação das águas e uma estação da seca passaram.
        O marido da Sia, que era o mais bonito homem de todos os homens bonitos desde que tinha se livrado da pele de leproso, disse-lhe um belo dia:
        -- Agora vou aceitar o que você me pede há duas estações; como você mantém seus novos modos, vou aceitar ser um verdadeiro marido, com o qual você vai dormir todas as noites para ter filhos. Assim, nunca vão botar na sua cabeça e nos seus ombros as pedras brancas reservadas às mulheres cuja barriga não cresce. Mas...
        -- Mas?
        -- Tem uma condição. Primeiro você vai ter de ir na selva pegar uma cobra nova e botar na cabaça em que serve meu bolinho de milhete. É essa a sua prova!
        No dia seguinte, Sia foi para a selva, depois de preparar um bolo doce que carregou na cabeça, numa cesta. Não demorou a avistar, debaixo de uma pedra chata, uma bela cobra. A cobra estava sem dúvida de tocaia, esperando que algum rato do alagado se aventurasse por ali. De longe, Sia atirou um pedaço de bolo para a serpente. A serpente saboreou o pedaço inteiro. Como parecia gostar, Sia atirou o resto, e a cobra comeu tudo com prazer. Pouco depois a serpente dormia, acariciada pelo sol.
        Pé ante pé, Sia se aproximou. Enfiou cuidadosamente a mão debaixo da pedra chata e pegou a cobra, que era um pouco menos comprida e menos grossa que seu braço. Botou a cobra adormecida na cesta e voltou para casa, de modo a chegar antes do anoitecer.
        De noite, ela pôs a cobra na cabaça do marido. Quando o bolo e o molho ficaram prontos, ela cobriu com eles a cobra e, logo em seguida, seu marido jantou.
        Desde aquela noite, eles viveram perfeitamente unidos. Logo, logo a barriga de Sia inchou, como para imitar o redondo do sol; logo, logo um lindo menino saiu da barriga para descobrir o Céu e a Terra.
        -- Meu marido, você me causou muitos sofrimentos e muito medo, quando quis que eu pegasse uma cobra para a sua cabaça. Agora é você que tem de me escutar...
        -- Sim?
        -- Pegue a zagaia e mate um búfalo. Vamos comer a carne, e nosso filho vai dormir no couro bem seco do bicho. Se você fizer o que peço, nós dois vamos comer melhor o bolinho de lágrimas.
        O marido de Sia matou um búfalo, e o que Sia quis foi feito.
        Ela disse e redisse então às moças da aldeia:
        -- Mesmo se vocês acharem seu marido feio, nunca devem desprezá-lo.

                                          Yves Pinguilly. Contos e Lendas da África. São Paulo: Companhia das letras, 2005. p. 177-187.
Fonte: Livro - Para Viver Juntos - Português - 6º ano - Ensino Fundamental- Anos Finais - Edições SM - p.64/65/66/67.
Entendendo o conto:
01 – Qual é o problema de Sia no começo da história?
      Ela não consegue encontrar um pretendente que lhe agrade para se casar.

02 – Para que Sia se case, sua tia a orienta a seguir um costume da aldeia:
a)   Qual é esse costume?
Um pretendente deve lutar com a mulher com a qual queira se casar; se ele conseguir deitá-la de costas no chão, ela se torna sua esposa.

b)   Por que um dos pretendentes precisou repetir o ritual (o costume) três vezes?
Porque o pretendente venceu Sia, porém ela não queria se casar com ele, que, aparentemente, era leproso; então, ela propôs outras duas lutas.

03 – No conto, há três situações importantes em que as personagens fazem exigências. Copie a ação e complete-as com essas exigência.
·        Sia se casará com quem...: Lutar com ela e deitá-la no chão.

·        Para Sia ter o belo rapaz como marido, ela terá de...: Capturar uma serpente nova e coloca-la dentro de uma cabaça.

·        Para que Sia e o marido vivam bem, ela pede a ele que...: Mate um búfalo para que eles comam a carne e usem o couro para o filho dormir.

04 – O rapaz que consegue se casar com Sia apresenta algumas características comuns às personagens de contos populares. Que características são essas?
      Ele apresenta poderes mágicos, usa um disfarce, é muito belo, tem um lindo cavalo e conquista uma bela esposa.

05 – Quais ações do rapaz demonstraram que ele tem poderes especiais?
      Ele se disfarça de leproso, joga pedras na fogueira e as transforma em um cavalo, transforma farrobas em guerreiros.

06 – A narrativa se passa em uma aldeia próxima a plantações e a uma floresta na África. Transcreva um trecho em que se pode perceber isso.
      “[...] os homens foram cuidar da sua lavoura” / “Numa roça havia um rapaz lindo [...]” / “—Vamos passear na selva que fica em volta das nossas roças”.

07 – Releia os seguintes marcadores de tempo presentes no conto lido.
I – “Como todos os anos, chegou a chuva das mangas [...]”.
II – “Uma estação das águas e uma estação da seca passaram [...]”
        Que informações esses marcadores fornecem a respeito do espaço em que fica a aldeia? Consulte o glossário para responder à questão.
      Os marcadores fornecem características das estações do ano da região: chuvosa e seca.

08 – Leia o significado das palavras a seguir:
·        Cabaça: fruto da cabaceira que serve de recipiente para alimentos e água.
·        Sorgo: planta parecida com o milho.
·        Lapya: expressão equivalente a “bom dia!”.
·        Tulha: depósito de cereais.
·        Milhete: tipo de cereal.
·        Voandzu: alimento parecido com o amendoim.
·        Pagne: pedaço de tecido que se amarra à cintura, canga.
·        Zagaia: azagaia, lança de madeira.

Como essas palavras ajudam a caracterizar o espaço onde se passa a história?
      Elas ajudam a caracterizar o espaço, pois descrevem aspectos culturais próprios do lugar em que as personagens vivem, no caso, a África.

09 – Ao final do conto, há um ensinamento de Sia.

a)   Qual é esse ensinamento e a quem é dirigido?
O ensinamento é “Mesmo se vocês acharem seu marido feio, nunca devem desprezá-lo” e dirige-se as moças da aldeia.

b)   O que levou Sia a concluir tal ensinamento?
Tudo que Sia viveu ao longo da narrativa a levou a perceber que havia errado em desprezar seu marido por causa das aparências.

c)   Você conhece outras histórias que trazem algum ensinamento? Cite uma.
Resposta pessoal do aluno.

10 – Há alguma relação entre o ensinamento transmitido pelo conto “A moça que pegou a serpente” e o cotidiano que você vive? Justifique sua resposta.
      Resposta pessoal do aluno.