Crônica: Conversinha Mineira
—
É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?
— Sei dizer não senhor: não tomo café.
— Você é dono do café, não sabe dizer?
— Ninguém tem reclamado dele não senhor.
— Então me dá café com leite, pão e manteiga.
— Café com leite só se for sem leite.
— Não tem leite?
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi3MxlOiVPKBWIZnbhGmT4n9tP4Anprm3Nt3YMy8s53wKO_v_Z6Z1papMHAT-4JEtN_QbpPvEzKTlq8Pqeoeyl41h0UKE6DcTfZ9vYyqIeSdQ1nAmGzEYYC9FfZNigjRY-HASrfJ4OXyKnB2keoy3-nwboFZBg2PKCBytIveQoXddxgLJQfn4JE3gQFX08/s320/Coffee_with_milk_(563800).jpg— Hoje, não senhor.
— Por que hoje não?
— Porque hoje o leiteiro não veio.
— Ontem ele veio?
— Ontem não.
— Quando é que ele vem?
— Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que devia vir em geral não vem.
— Mas ali fora está escrito “Leiteria”!
— Ah, isso está, sim senhor.
— Quando é que tem leite?
— Quando o leiteiro vem.
— Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?
— O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?
— Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?
— Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.
— E há quanto tempo o senhor mora aqui?
— Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.
— Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?
— Ah, o senhor fala da situação? Dizem que vai bem.
— Para que Partido? — Para todos os Partidos, parece.
— Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.
— Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida...
— E o Prefeito?
— Que é que tem o Prefeito?
— Que tal o Prefeito daqui?
— O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.
— Que é que falam dele?
— Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.
— Você, certamente, já tem candidato.
— Quem, eu? Estou esperando as plataformas.
— Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?
— Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí…
(SABINO. Fernando. A mulher do vizinho. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1962.)
Entendendo o texto
01. A principal
característica do comportamento do dono do estabelecimento durante a conversa
é:
a. A agressividade ao responder ao
freguês.
b. A precisão e clareza em fornecer
informações.
c. A ambiguidade e a esquiva nas respostas (o jeito
"mineiro").
d. O entusiasmo em vender seus produtos.
02. No trecho "Café
com leite só se for sem leite", percebe-se o uso de:
a. Um paradoxo
(contradição) que gera humor.
b. Uma metáfora sobre a qualidade do
café.
c. Uma hipérbole para exagerar a falta de
produtos.
d. Uma personificação dos objetos da
leitaria.
03. Sobre a política
local, o que podemos afirmar sobre a opinião do dono do café?
a. Ele é um fervoroso apoiador do atual
Prefeito.
b. Ele demonstra total
desinteresse e não se compromete com nenhum lado.
c. Ele está decidido a votar no candidato
cujo retrato está na parede.
d. Ele conhece profundamente as
plataformas políticas da cidade.
04. O efeito de humor na
passagem sobre o tempo em que o personagem mora na cidade ("Vai para uns
quinze anos [...] não sou daqui") reside no fato de que:
a.
Quinze anos é pouco tempo para conhecer uma cidade.
b. O personagem esqueceu a própria idade.
c. Mesmo morando lá por quinze anos, ele se
recusa a se considerar "daqui" para evitar dar informações.
d. Ele está mentindo para o freguês sobre
sua origem.
05. O título
"Conversinha Mineira" e o uso de termos como "Uai" e
"Esse trem todo" indicam que o texto busca explorar:
a. A norma culta da língua portuguesa.
b. O regionalismo e a
variação linguística.
c. A linguagem técnica de comerciantes.
d. O desrespeito à língua escrita.
06. No diálogo sobre o
leiteiro, o dono do café afirma: "Só que no dia que devia vir em geral não
vem". O que essa fala revela sobre a organização do estabelecimento e a
rotina daquela cidade?
Revela uma rotina imprecisa e informal. O estabelecimento não tem um controle rigoroso sobre seus fornecedores, e a vida na cidade parece seguir um ritmo próprio, onde o "dia certo" não é garantia de que algo vá acontecer.
07.
Explique por que existe uma ironia na presença da placa escrita
"Leiteria" na frente do estabelecimento, considerando o diálogo entre
o freguês e o atendente.
A ironia reside no fato de o local se chamar "Leiteria" (estabelecimento que vende leite e derivados), mas não possuir leite disponível há dias porque o leiteiro não aparece. O nome do local cria uma expectativa no cliente que não é correspondida pela realidade.
08.
Ao final da crônica, o freguês aponta um retrato de candidato na parede. Qual é
a reação do dono do café e o que isso reforça sobre a personalidade dele?
Ele reage com surpresa fingida ou desentendimento ("Uê, gente:
penduraram isso aí..."). Isso reforça sua personalidade esquiva; ele evita
assumir a responsabilidade até pelo que está dentro do seu próprio comércio
para não ter que se comprometer com uma opinião política.
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