quinta-feira, 9 de julho de 2026

FÁBULA: A OSTRA E O CARANGUEJO - LEONARDO DA VINCI - COM GABARITO

 Fábula: A Ostra e o Caranguejo

 

        Uma ostra estava apaixonada pela Lua. Sempre que a Lua cheia brilhava no céu ela passava horas olhando-a boquiaberta.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg_ef4cH0lETORz6cdkjUk_lq_aqpxjEhRKA0n1v5NadXWZvg0qHTMvTNqMmGLmEPrroM0_ouHyo-WVodIxr_afCi9P1hvCRMnItsXwZtgT4i3BcMURlmRz4r2JNKgk3wpHOqqGKGM-_UUA_3FkpQ7GWPGO9GG9gfA6K7_ywmK-iAzrnvaNin6ER4nUp6w/s320/a-ostra-e-a-perola.jpg


        Um caranguejo viu, de seu posto de observação, que durante a Lua cheia a ostra ficava completamente aberta, e decidiu comê-la.

        Na noite seguinte, quando a ostra se abriu, o caranguejo colocou um pedregulho dentro da concha.

        A ostra, imediatamente, tentou fechar-se novamente, porém o pedregulho impediu que assim o fizesse.

        Moral: Isso acontece a qualquer pessoa que abra a boca para contar seus segredos. Há sempre um ouvido à escuta.

 

Leonardo da Vinci. Fábulas de Leonardo Da Vinci (Século XV).

 

Entendendo a fábula:

 

01 – Por que a ostra ficava com a concha completamente aberta durante a Lua cheia?

      A ostra estava apaixonada pela Lua. Por isso, sempre que a Lua cheia brilhava no céu, ela passava horas olhando para o alto, boquiaberta de admiração, o que a fazia abrir totalmente sua concha.

 

02 – O que o caranguejo planejou fazer ao observar o comportamento da ostra?

      O caranguejo percebeu que, ao ficar maravilhada com a Lua, a ostra se esquecia de sua segurança e ficava vulnerável. Ele aproveitou essa distração e decidiu que iria comê-la.

 

03 – Qual foi a estratégia utilizada pelo caranguejo para impedir que a ostra se protegesse?

      Na noite seguinte, assim que a ostra se abriu para olhar a Lua, o caranguejo colocou rapidamente um pedregulho dentro da concha dela, impedindo que ela conseguisse se fechar totalmente de novo.

 

04 – De acordo com a fábula, o que a ostra deveria ter feito para evitar o ataque do caranguejo?

      Ela deveria ter sido mais cautelosa e não ter se exposto tanto. Ao abrir totalmente sua concha e revelar sua vulnerabilidade (ou seu "segredo"), ela deu ao caranguejo a oportunidade perfeita para atacá-la.

 

05 – Como a moral apresentada no texto relaciona o comportamento da ostra com a vida humana?

       A moral alerta que o mesmo acontece com as pessoas que "abrem a boca" para contar seus segredos a qualquer um. Assim como o caranguejo usou a abertura da ostra para destruí-la, sempre existem pessoas mal-intencionadas ("ouvidos à escuta") prontas para usar nossos segredos e vulnerabilidades contra nós.

 

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

FÁBULA: A OSTRA E O CAMUNDONGO - LEONARDO DA VINCI - COM GABARITO

 Fábula: A Ostra e o Camundongo

 

        Uma ostra viu-se, juntamente com um grande número de peixes, dentro da casa de um pescador, pouco distante do mar.

        -- Vamos todos morrer – pensou a ostra ao ver seus companheiros espalhados pelo chão, quase asfixiados.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi00WZQ5r4PARyKkAr1MDEp3HjVAjHxIYcAd-QqyNGl9j7uM3oGTWRSA7fNdNSYeUcQ39orlDBytv6cLfqvOuR77noB5n6_cKKzX378QIeQvMFb94cyYsahzDl1W6_DPvQ5jOm5XjWg2kQ_TmsswiKFDsXPTo5oXO_zUFGvdcugSRJzaYj375m0RBPhrEI/s320/images.jpg


        Um camundongo veio passando.

        -- Escute, camundongo! – disse a ostra – será que você pode fazer favor de me levar para o mar!

        O camundongo olhou para a ostra: era grande e bonita. Devia ser deliciosa.

        -- Certamente – respondeu o camundongo, decidido a comê-la – mas você precisa abrir sua concha, porque assim, fechada desse jeito, não posso carregá-la.

        A ostra abriu cautelosamente a concha e o camundongo imediatamente meteu o focinho para abocanhá-la. Porém, em sua pressa, enfiou demais a cabeça e a ostra fechou-se, prendendo o roedor pelo pescoço. O camundongo deu um grito. Um gato ouviu, veio correndo e devorou-o.

        Moral: A ganância cega e a pressa excessiva levam à própria ruína.

 

Leonardo da Vinci. Fábulas de Leonardo Da Vinci (Século XV).

 

Entendendo a fábula:

 

01 – Onde a ostra se encontrava no início da história e qual era o seu maior temor?

      A ostra estava dentro da casa de um pescador, que ficava pouco distante do mar. Ao ver os peixes espalhados pelo chão e quase asfixiados, seu maior temor era que todos eles — inclusive ela — fossem morrer.

 

02 – Que pedido a ostra fez ao camundongo quando este passou por perto?

      A ostra implorou para que o camundongo fizesse o favor de levá-la de volta para o mar, na esperança de salvar sua vida.

 

03 – Qual era a verdadeira intenção do camundongo ao aceitar ajudar a ostra?

      A intenção do camundongo não era ajudar. Ao ver que a ostra era grande e bonita, ele achou que ela devia ser deliciosa e decidiu que iria comê-la. Por isso, exigiu que ela abrisse a concha, inventando a desculpa de que não conseguiria carregá-la fechada.

 

04 – Como a ostra conseguiu se defender do ataque do camundongo?

      Quando a ostra abriu a concha cautelosamente, o camundongo enfiou a cabeça com muita pressa para abocanhá-la. Percebendo o perigo, a ostra fechou-se rapidamente, prendendo o roedor pelo pescoço.

 

05 – Qual foi o destino final do camundongo após ficar preso na concha?

      Ao ficar preso pelo pescoço, o camundongo deu um grito de dor ou desespero. Um gato que estava por perto ouviu o barulho, veio correndo e devorou o camundongo.

 

POEMA: MÃE - MÁRIO QUINTANA - COM GABARITO

 Poema: Mãe 

            Mário Quintana

 

Mãe... São três letras apenas

As desse nome bendito:

Também o Céu tem três letras...

E nelas cabe o infinito.

 
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiIq5s4rcdrT2aOHNvj38Ceh8JwhbKbN2FDxdxeQj8zgCMxJIRcQdFiNRAAehQV_9fY9zKcPEp0skKPGwU8lRaazi8BE9pkyTJZsJCR2tdwej4gD2XAS2sbYK6f8rYvzRfRr9goIEj1PmJW_1rtWvKgD9dO87IUvNNfuzSaDiHKdOHYVhgTGI3tBlqvkz0/s320/maxresdefault.jpg 



Para louvar nossa mãe,

Todo o bem que se disse

Nunca há de ser tão grande

Como o bem que ela nos quer...

Palavra tão pequenina,

Bem sabem os lábios meus

Que és do tamanho do Céu

E apenas menor que Deus!

Mário Quintana. Mãe.

 

Entendendo o poema:

01 – Qual é a associação que o poeta faz com o número de letras da palavra "Mãe"?

      O poeta destaca que a palavra "Mãe" tem apenas três letras e faz uma analogia com a palavra "Céu", que também possui três letras. Com isso, ele mostra que, apesar de ser um nome curto, carrega um significado imenso.

02 – De acordo com a primeira estrofe, o que cabe dentro das três letras da palavra "Céu" (e, por extensão, na palavra "Mãe")?

      O poeta afirma que nessas três letras "cabe o infinito", sugerindo que o amor e a importância da mãe não têm limites ou barreiras, assim como o próprio universo.

03 – Como o poeta compara os elogios do mundo com o amor real que uma mãe sente?

      Na segunda estrofe, ele diz que todo o bem que as pessoas já disseram para louvar as mães nunca será tão grande quanto o bem (o amor e o carinho) que a própria mãe deseja e sente por seus filhos. O amor materno supera qualquer homenagem em palavras.

04 – Na última estrofe, o que os "lábios" do eu lírico sabem sobre a palavra mãe?

      Os lábios sabem que a palavra "mãe", embora seja "tão pequenina", tem a grandeza e o "tamanho do Céu", sendo superada em importância e magnitude apenas por Deus.

05 – Qual é a mensagem central ou o tema principal do poema de Mário Quintana?

      O tema central é a grandiosidade e a infinitude do amor materno. O poema exalta a figura da mãe como algo sagrado e imensurável, mostrando o contraste poético entre a simplicidade de uma palavra de apenas três letras e a imensidão do sentimento que ela representa.

 

 

POEMA: RETRATO DE MÃE - RAMÓN ÁNGEL JARA RUZ - COM GABARITO

 Poema: Retrato de Mãe

              Ramón Ángel Jara Ruz

Uma simples mulher existe que,
pela imensidão de seu amor, tem um pouco de Deus
pela constância de sua dedicação, tem muito de anjo;
Que, sendo moça, pensa como uma anciã;
sendo velha, age com as forças todas da juventude:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj4HRZbbo0ux-GzOkR3MoT7iQPt2j3y2jkQxLgCXy_dCZOZk15Cb2LtVRtoX1g0qIwdWhtxWtBtrqIdvNhTBXlrqS22WvmOCE4W14Uuee6pdxLjlX9AneTLkC52BWgYOe0aiwnSeLm3XchsV51eIAixCBmOiNoq33OuXSWz4idfHa5wocV_iH0qMG-ZZSg/s320/images.jpg



Quando ignorante, melhor que qualquer sábio
desvenda os segredos da vida;
quando sábia, assume a simplicidade das crianças;
pobre, sabe enriquecer-se com a felicidade dos que ama;
rica, empobrece-se para que seu coração
não sangre ferido pelos ingratos;
forte, estremece ao choro de uma criancinha;
fraca, entretanto, se alteia com a bravura dos leões;

Viva, não lhe sabemos dar valor,
porque à sua sombra todas as dores se apagam;
morta, tudo o que somos e tudo o que temos
daríamos para vê-la de novo, e dela receber
um aperto de seus braços, uma palavra de seus lábios.

Não exijam de mim que diga o nome dessa mulher,
se não quiserem que ensope de lágrimas este álbum
porque eu a vi passar no meu caminho.

Quando crescerem seus filhos,
leiam para eles esta página;
eles vos cobrirão de beijos a fronte
e vos dirão que um pobre viandante,
em troca de suntuosa hospedagem recebida
aqui deixou para todos
o retrato de sua própria MÃE...

Ramón Ángel Jara Ruz. Tradução de Guilherme de Almeida. Fonte: A BÍBLIA DO OTIMISMO – R. STANGANELLI.

Entendendo o poema:

01 – Na primeira estrofe, com quais figuras divinas e celestiais o poeta compara a mãe e quais características justificam essas comparações?

      O poeta a compara com Deus e com um anjo. O que justifica ter "um pouco de Deus" é a imensidão de seu amor, enquanto o que a faz ter "muito de anjo" é a constância de sua dedicação.

02 – A segunda estrofe trabalha fortemente com oposições de idade e sabedoria. Como o poema descreve a maturidade e a força da mãe nesses versos?

      O poema mostra que a mãe transcende o tempo e a lógica:

      Sendo moça, ela tem a maturidade e o pensamento de uma anciã;

      Sendo velha, ela age com a energia e as forças da juventude;

      Quando ignorante (sem estudos formais), ela desvenda os segredos da vida melhor que qualquer sábio;

      Quando sábia, ela mantém a pureza e a simplicidade de uma criança.

03 – Como a mãe reage diante da riqueza, da pobreza e do sentimento de gratidão das pessoas que ama?

      Sendo pobre materialmente, ela se sente rica e preenchida apenas com a felicidade daqueles que ama. Sendo rica, ela prefere "empobrecer-se" (despir-se de orgulho ou de bens) para proteger seu próprio coração de ser ferido e sangrar pela ingratidão alheia.

04 – De que maneira o texto contrasta a força física e a sensibilidade emocional da mãe?

      O autor usa uma bela metáfora animal e humana: mesmo sendo forte, ela é sensível o bastante para estremecer ao ouvir o choro de uma criancinha; por outro lado, mesmo nos momentos em que está fraca, ela tira forças do fundo da alma e se alteia com a bravura e a coragem dos leões para defender os seus.

05 – Qual é a dolorosa contradição que o eu lírico aponta sobre a forma como tratamos a mãe em vida versus após a sua morte?

      O poeta afirma que, enquanto a mãe está viva, muitas vezes não sabemos dar o devido valor a ela, pois sua presença protetora faz com que todas as nossas dores sumam facilmente (nos acostumamos com o conforto). Porém, quando ela morre, sentimos um vazio tão imenso que daríamos tudo o que somos e temos apenas para ter mais um abraço ou ouvir mais uma palavra dela.

06 – Por que o autor se recusa a revelar explicitamente o nome da mulher de quem está falando na quarta estrofe?

      Ele diz que não quer que exijam o nome dela para não chorar e "ensopar de lágrimas este álbum". O autor se emociona profundamente ao lembrar que viu essa figura sagrada passar em seu próprio caminho, indicando uma saudade dolorosa e pessoal.

07 – Quem é o "pobre viandante" mencionado no final e qual foi o pagamento que ele deixou pela hospedagem recebida?

      O "pobre viandante" (ou viajante) é o próprio poeta. Como agradecimento pela "suntuosa hospedagem" (o acolhimento, carinho e teto que recebeu na vida), ele deixou como pagamento aquela página escrita, que nada mais é do que o retrato universal e eterno de sua própria MÃE.

 

NOTÍCIA: POBRE MENINO WINNIE - FRAGMENTO - MARLEINE COHEN - COM GABARITO

 Notícia: Pobre menino Winnie – Fragmento

         A espessa fumaça levantada pelo bombardeio aéreo sobre Liverpool, Inglaterra, mal tinha se dissipado naquele 9 de outubro de 1940, quando, às 18h30, o choro de um recém-nascido ecoou nos corredores do Oxford Street Maternity Hospital.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigVSUpJX_zAumsgJ0RoP3KwCdxbzvgCxArIlw1M6jxw7LJAMGc7UvrLGbMG5HolZAKLYwkhLdZyJZg0_JTNRHTPwO3BVP9QOfhVgRLQQDsMMplbo0cyEW8m_3B-HFqNEOFZYj4FQhc-4GB-lVDVnqOsUMCbdZx3LhKV_1DUrjoSVH31Sj1QNuIFVH-cac/s320/pobre-menino-rico-3.jpg


        Depois de um complicado trabalho de parto, Julia Stanley — uma típica jovem dona de casa de classe média baixa — dava à luz seu primeiro filho, o menino John Winston, para quem o pai Alfred, marinheiro e músico amador, só acenaria para desejar as boas-vindas do outro lado do oceano.

        Apesar de ausente — naquele e em tantos outros anos —, Fred cuidou de garantir a linhagem e o provento do guri, assim que ele nasceu: algo portentoso, seu nome de batismo, John Winston Lennon, era uma homenagem ao bisavô Jack (John) Lennon, que havia integrado o grupo musical Andrews Robertson's Kentucky Ministrels, e ao prestigiado primeiro-ministro Winston Churchill, que, naquele tempo, zelava pela soberania da Grã-Bretanha e conduzia os destinos da nação, num mundo ameaçado pelo nazismo.

        Em breve, porém, a distância entre Julia e Fred selaria — a pedido dela — a definitiva separação entre eles e, a partir de 1942, o dinheiro para o sustento do pequeno John minguou. [...]

        Imersa em dificuldades financeiras, Julia — que, naquele momento, já trabalhava, bebia e fumava — se viu à deriva diante da tarefa de educar o menino. Preferiu casar-se novamente e entregar a tutela de John à irmã Mary Elizabeth — a tia Mimi — e seu marido George Smith, um austero casal de meia-idade que não tinha filhos.

        Coube assim ao tio George ensinar o pequeno John Winston a ler e escrever e levá-lo vez ou outra ao cinema. [...]

        Assim, antes de completar 6 anos, John Lennon já tinha provado o dissabor de ser abandonado pelos pais e vivia com os tios no bairro de Woolton, na 251, Menlove avenue, local de grande concentração de médicos e advogados e distante apenas 5 quilômetros da casa da mãe.

        — Eu era um autêntico menino suburbano, cheiroso e bem-cuidado, meio palmo acima da classe social de Paul, George e Ringo, que viviam em moradias subsidiadas pelo governo. Nós, não: tínhamos nossa casa e nosso jardim. Assim, eu era algo como um fruto proibido, em comparação com eles... — contaria mais tarde John, com suas próprias palavras.

        Apesar disso, e desce muito cedo, Lennon se tornou "o garoto que os pais não queriam ao lado de seus filhos": tinha apenas 6 anos quando foi expulso pela primeira vez de uma creche porque aterrorizava as menininhas. [...]

        Os anos 50 arrebataram este jovem transviado, acentuaram seu sarcasmo e irreverência e o lançaram definitivamente no submundo: John Lennon vestiu-se de couro e se empapuçou de gomalina, abraçou o skiffle, mistura de rock e música popular inglesa que virou mania na Grã-Bretanha, ganhou da tia Mimi um violão e enfrentou a primeira morte na família — a do tio George, em 1953, cuja ausência incentivou sua mãe Julia a se aproximar um pouco mais dele, numa relação de franca e despretensiosa camaradagem. Coube a ela, então, lhe ensinar os primeiros acordes de guitarra e encorajá-lo a seguir adiante com a música.

        — Isso é bom como hobby, mas você nunca vai ganhar a vida assim. — instruía a tia Mimi, ao ver o sobrinho dedilhar o instrumento até sangrar os dedos.

        Mas o rock expressava seu inconformismo, sua dor.

        E lhe trazia de volta a companhia da mãe — até que o ano de 1958 a extirpou definitivamente de sua vida, depois que um policial bêbado chamado Eric Clague a atropelou na frente de casa e a matou aos 44 anos de idade, no dia 15 de julho. [...]

        John Lennon tinha então 17 anos:

        — Minha primeira lembrança da vida é a de um pesadelo — confessaria, amargurado, na autobiografia dos Beatles.

De fato, o sonho ainda estava em gestação.

 

COHEN, Marleine. John Lennon. São Paulo: Globo, 2007. p. 23-25. (Col. Personagens que Marcaram Época)

 

Entendendo a notícia:

01 – Sob quais condições históricas marcantes John Lennon nasceu e qual a origem do seu nome completo?

      John Lennon nasceu em Liverpool no dia 9 de outubro de 1940, logo após um bombardeio aéreo em plena Segunda Guerra Mundial. Seu nome completo, John Winston Lennon, foi uma dupla homenagem: "John" veio de seu bisavô Jack (John) Lennon, que fora músico, e "Winston" foi uma homenagem ao então primeiro-ministro britânico Winston Churchill, que liderava o país contra o nazismo.

02 – Por que a mãe de John, Julia, entregou a tutela do menino para os tios e quem eram eles?

      Após a separação e o sumiço do dinheiro enviado pelo pai (Alfred), Julia enfrentou graves dificuldades financeiras. Como já trabalhava, bebia e fumava, ela se viu incapaz de educar o filho sozinha. Optou por casar-se novamente e entregar a tutela de John à sua irmã, Mary Elizabeth (tia Mimi), e ao marido dela, George Smith, um casal austero de meia-idade que não tinha filhos.

03 – Como John Lennon definia a sua própria classe social na infância em comparação com os outros futuros membros dos Beatles?

      Ele se definia como um "autêntico menino suburbano, cheiroso e bem-cuidado", afirmando estar meio palmo acima da classe social de Paul, George e Ringo. Enquanto os outros viviam em moradias subsidiadas pelo governo, John morava com os tios em uma casa própria com jardim em um bairro nobre (Woolton), o que o fazia se sentir um "fruto proibido" perto deles.

04 – Como foi a divisão de papéis entre a tia Mimi e a mãe (Julia) no início da trajetória musical de John na adolescência?

      A relação foi marcada por incentivo e ceticismo:

      A mãe (Julia): Após a morte do tio George em 1953, ela se reaproximou de John, ensinou-lhe os primeiros acordes na guitarra e o encorajou na música.

      A tia Mimi: Embora tenha lhe dado um violão, era cética e dizia a famosa frase: "Isso é bom como hobby, mas você nunca vai ganhar a vida assim", enquanto via o sobrinho dedilhar até sangrar os dedos.

05 – Qual foi a segunda grande tragédia familiar que abalou a vida de John Lennon aos 17 anos?

      Foi a morte trágica de sua mãe, Julia, em 15 de julho de 1958. Ela foi atropelada e morta aos 44 anos na frente de casa por um policial bêbado chamado Eric Clague. Essa perda precoce extirpou Julia definitivamente da vida de John, intensificando a amargura que ele carregava desde a infância.

 

CONTO: AS AREIAS DA ENSEADA - SALUSTIANO SOUZA - COM GABARITO

 Conto: As areias da Enseada

           Salustiano Souza

 

        O ônibus riscava o asfalto com seus faróis acesos e na minha imaginação ia muito veloz. Eu olhava embevecido a mata que recobria as margens da rodovia, as poucas casas que povoavam Araquari e o céu que começava a tingir-se de alaranjado, prenunciando mais um dia ensolarado no verão.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjbUFxMPfdzN6GySJzq-e1tZ4OmGl_p3AeyLZORpQlzvZ4k4Uc1lCjEW5XBfxuwFEF90UPkAN6BdbpdtJEE8emHtUBXSV8U1hiVHUY1ZT0ebsy_jNifAMcn6gIcgpm87Kx8yX-scEhURjjEX28-TbW3GcOUdZ6ZxzyNW_n9SYxpXlfiUsMYnz8PEFMjypk/s320/images.jpg


        O ônibus parou na fila de carros e todos se levantaram. Olhamos com curiosidade o trem que atravessava a pista, fiquei contando os vagões, na época ainda havia vagões de passageiros, mas naquela hora estavam vazios. O pessoal estava animado, as cestas, caixas e bolsas rolavam pelo corredor nas freadas bruscas e manobras radicais, denunciando que o Beca, motorista maluco que levava os alunos para a Escola Técnica Tupy, era mesmo maluco.

        Sentia um pouco de sono, afinal eu me levantara várias vezes na noite para espiar o céu, com medo de perder a hora e com uma ansiedade incomum. Tinha pouco mais de treze anos, estava começando o curso de mecânico ajustador no Senai e com um misto de alegria e ansiedade aceitara o convite para a excursão da família de um amigo de lá, o Dagoberto, para passar o domingo na praia da Enseada. O ônibus ia lotado, todos os parentes do Dagoberto estavam lá, uma grande festa.

        Sonhos espocaram nas noites que antecederam a partida. Eu praticamente não conhecia praia, apesar de morar em Joinville. Lembranças do mar tinha pouco, algumas parcas passagens por Barra Velha onde via o espetáculo do mar descortinar-se na descida do morrinho e uma vez em Balneário Camboriú, levado pela mão de meu pai, olhando com inveja as crianças que brincavam na areia. Queria molhar os pés, mas ele não deixou. E nem televisão tínhamos para mitigar o desejo que tanto me fascinava de ver o mar.

        Por isso o sonho agora era mais intenso, o desejo mais incontido. Me imaginava correndo na areia da praia, chutando a água, exatamente como vira as crianças fazerem, há muitos anos atrás. Antes de dormir naquela noite acalentei o último sonho que antecede a realização de um desejo. Acordei muito cedo e às cinco e meia da manhã cheguei de bicicleta na frente da casa deles, lá no Itaum. O cheirinho do café misturava-se com a algazarra da família se reunindo.

        O sol agora nascia soberbo, espelhando-se nas águas plácidas do canal do Linguado. A mãe do Dagoberto distribuía orelha de gato. Humm, uma delícia. De repente um estranho barulho, um pneu furou. Quase todo mundo desceu, não tinha muita gente para ajudar, mas para dar palpites estava cheio. Olhei com interesse uma prima do Dagoberto, afinal a puberdade transpirava por todos os poros. Senti que seus olhos fugidios manifestaram interesse.

        A viagem recomeçou e eu comecei a dividir meus sonhos de ver o mar com os sonhos de conhecer melhor aquela garota.

        -- Chegamos em São Francisco, gritou alguém quando fizemos a curva e entramos no Bairro Laranjeiras. Olhei para a janela, procurando o mar, mas só via casas e árvores.

        -- Cadê o mar, perguntei, e todos riram.

        -- Calma menino, mais meia hora e nós chegamos, falou uma das mulheres.

        Logo à frente, a polícia, ao lado da igreja, parou o ônibus. Examinou documentos, conversou com o Beca e fez pouco caso da minha impaciência. Liberou o ônibus, não sem antes ganhar umas orelhas de gato da mãe do Dagoberto.

        Nunca imaginara que a praia pudesse ser tão longe. Mais mato, mais asfalto, e por fim um pedaço de estrada de chão. 

        -- A praia, ouvi o grito quando já saboreava as nesgas de mar que apareciam no meio das árvores. Na Enseada da minha infância havia uma ou outra casa esparsa, porque os prédios vieram anos depois. A praia era quase selvagem.

        Mal parou o ônibus eu corri para água. Na pressa esqueci de tirar o único tênis que tinha, um kichute, e a calça boca sino. Parei com água nas canelas, as ondas brincando de molhar meus joelhos, o olhar embevecido não conseguia abarcar aquela imensidão de água. Fiquei ali parado, sem saber o que fazer, aquele movimento das ondas marulhando no encontro com a areia, ah, aquilo era divino.

        Fechei os olhos e lembrei do poema de Casimiro de Abreu, Deus. Como havia sonhado com aquele momento! A alegria era imensa, não sabia o que fazer, fiquei ali, extasiado, com um sorriso abestalhado, vendo o sol dançar em miríade de cores naquela efervescência de ondas.

        -- Vem! falou a prima do Dagoberto, pegando na minha mão. – Vai colocar um calção!

Salustiano Souza. Fevereiro/2015.

 

Entendendo o conto:

01 – Qual era o principal motivo da ansiedade e da insônia do narrador na noite anterior à viagem?

       O narrador estava extremamente ansioso porque teria a oportunidade de passar o domingo na praia da Enseada. Apesar de morar em Joinville, ele praticamente não conhecia o mar (tinha apenas lembranças vagas de infância) e não tinha televisão em casa para saciar seu desejo de vê-lo. Por isso, passou a noite acordando para olhar o céu, com medo de perder a hora.

02 – Quem era Dagoberto e como o narrador se juntou àquela excursão?

      Dagoberto era um amigo do narrador, colega do curso de mecânico ajustador no Senai. O narrador, que na época tinha pouco mais de treze anos, aceitou o convite da família de Dagoberto para se juntar a eles em um ônibus lotado de parentes para a viagem de domingo.

03 – Quem era "Beca" e como o seu comportamento no volante é descrito no conto?

      Beca era o motorista do ônibus, conhecido por também levar os alunos para a Escola Técnica Tupy. Ele é descrito de forma bem-humorada como um "motorista maluco" que fazia "freadas bruscas e manobras radicais", fazendo com que as cestas, caixas e bolsas da excursão rolassem pelo corredor do veículo.

04 – Que quitute a mãe de Dagoberto distribuiu durante a viagem e em qual momento ele serviu como uma "moeda de troca"?

      A mãe de Dagoberto distribuía orelha de gato (um doce frito tradicional). Além de ser saboreado pelos passageiros durante a parada para trocar o pneu furado, o quitute foi usado para agradar os policiais que pararam o ônibus para examinar os documentos ao lado da igreja, ajudando na liberação da viagem.

05 – Além do desejo de ver o mar, que outro interesse surge no coração do narrador durante o trajeto?

      Durante a parada para consertar o pneu furado próximo ao canal do Linguado, o narrador, que estava no início da puberdade, nota o interesse mútuo nos "olhos fugidios" de uma prima de Dagoberto. A partir dali, ele passa a dividir seus pensamentos entre o sonho de ver o mar e o desejo de conhecer melhor a garota.

06 – Como era a paisagem da praia da Enseada na época da infância do narrador, segundo o relato?

      A praia era descrita como "quase selvagem". Naquela época, a Enseada tinha apenas uma ou outra casa esparsa na orla, bem diferente do cenário atual, já que os prédios e a urbanização só vieram muitos anos depois.

07 – Tomado pela emoção ao chegar, que descuido o narrador cometeu ao correr para a água e quem o "desperta" daquele transe?

      Devido à imensa pressa e ao êxtase de finalmente ver o mar, o narrador correu para a água esquecendo-se de tirar a calça boca de sino e o seu único par de tênis (um kichute). Quem o desperta daquele estado de transe e contemplação é a prima de Dagoberto, que pega na mão dele e diz: “Vem! Vai colocar um calção!”.

NOTÍCIA: E, ENTÃO, O SONHO ACABOU - FRAGMENTO -MARLEINE COHEN - COM GABARITO

 Notícia: E, então, o sonho acabou – Fragmento

 

        Na segunda metade dos anos 60, mudanças palpáveis marcaram a forma como os Beatles passaram a se apresentar — num prenúncio do que viria a acontecer.

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        Os rapazes dispensaram o corte de cabelo característico e os ternos iguais e cada qual tratou da própria aparência como bem entendia. John assumiu a miopia e substituiu as lentes de contato pelos óculos; Paul cobriu as faces com uma barba cerrada. A nova aparência dos Beatles permitiu não só trazer à tona a verdadeira personalidade de cada um, como também acentuar as diferenças entre eles: assim, de alguma forma, a unidade dos Beatles se rompeu.

        Não bastasse, a banda decidiu abandonar os shows e se concentrar na produção em estúdio. Essa decisão, que culminou com um último espetáculo no Candlestick Park, em São Francisco, Estados Unidos, no dia 29 de agosto de 1966, foi mal recebida pelos críticos. Na ocasião, Brian Epstein também se queixou: "O que será do empresário de uma banda de rock que não se apresenta ao vivo?". [...]

        Os Beatles só voltaram a se reunir em 1969, em torno do projeto Get back, um filme-documentário que pretendia registrar todo o processo de gravação de um álbum. John, Paul, George e Ringo também estavam inclinados a fazer um show ao vivo, ao final das gravações.

        Durante o trabalho, porém, a tensão entre os integrantes da banda aumentou novamente e o filme só fez documentar, na prática, o seu esfacelamento. No fim do filme, os músicos decidiram improvisar um palco no telhado do estúdio e tocar algumas músicas para os pedestres que circulavam nas calçadas. Naquele dia, nem mesmo a polícia conseguiu interromper a apresentação.

        O projeto Get back não agradou e foi arquivado. Pouco depois, foi lançado com outro nome: Let it be.

        Os Beatles se reuniram novamente, e pela última vez, nos estúdios da Apple para gravar o álbum Abbey road — o disco mais vendido do grupo. Em março de 1970, Paul McCartney dava uma entrevista anunciando o fim dos Beatles. [...]

        Sete anos depois — mais de um bilhão de discos vendidos, 13 álbuns lançados, turnês fantásticas e os maiores prêmios da indústria do entretenimento —, o sonho terminava. John, Paul, George, Ringo: uma sinfonia acabada.

 

COHEN, Marleine. John Lennon. São Paulo: Globo, 2007. p. 64, 75. (Col. Personagens que Marcaram Época).

Entendendo a notícia:

01 – A partir de 1966 e 1967, os Beatles abandonaram o visual padronizado de "mop-tops" (terninhos e cabelos de cuia). Como essa mudança na aparência dos integrantes refletiu a evolução da banda em sua fase final?

      A mudança estética, marcada pelo uso de barbas, cabelos compridos e roupas coloridas/psicodélicas, simbolizou a busca por identidades individuais e a transição de "ídolos adolescentes" para artistas sérios e experimentais. Essa liberdade visual acompanhou a complexidade de suas composições no estúdio, mostrando que o grupo não estava mais preso às expectativas da indústria fonográfica ou ao marketing de massa inicial.

02 – Explique os motivos que levaram os Beatles a decidirem interromper as apresentações ao vivo após o show no Candlestick Park em 1966 e qual foi a principal consequência dessa escolha para a sonoridade do grupo.

      Os motivos incluíram a exaustão das turnês mundiais, a histeria das fãs que impedia os músicos de ouvirem o que tocavam e a impossibilidade técnica de reproduzir ao vivo as experimentações sonoras criadas em estúdio. A principal consequência foi o foco total na produção em estúdio, resultando em álbuns revolucionários como Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, onde a banda pôde explorar camadas sonoras complexas sem se preocupar com a execução imediata no palco.

03 – O projeto Get Back (1969), que visava um retorno às raízes do rock e resultou no filme e álbum Let It Be, é frequentemente lembrado pelo clima de tensão. Descreva os principais fatores que geraram o desgaste entre os membros durante esse período.

      As tensões foram alimentadas pelo rigor e controle excessivo de Paul McCartney na direção musical, o desinteresse e apatia de John Lennon (frequentemente acompanhado por Yoko Ono, cuja presença constante incomodava os outros membros), a insatisfação de George Harrison por ter suas composições ignoradas e o ambiente frio e impessoal dos estúdios de Twickenham. O projeto expôs que a democracia interna do grupo havia ruído.

04 – Apesar das crises internas profundas, os Beatles se reuniram uma última vez para gravar Abbey Road. Como esse álbum é avaliado em termos de produção e qual o significado de sua recepção para o encerramento da carreira da banda?

      Abbey Road é avaliado como uma das obras-primas da produção musical, caracterizado pelo uso inovador do sintetizador Moog e pelo famoso "medley" no lado B. O álbum foi um estrondoso sucesso crítico e comercial, provando que, apesar das brigas pessoais, a sinergia musical do grupo permanecia intacta. Ele serviu como uma "despedida digna" e polida, gravada após o caos das sessões de Let It Be.

05 – Como ocorreu o anúncio oficial do fim do grupo em 1970 e quais foram os sentimentos conflitantes envolvidos entre John Lennon e Paul McCartney nesse processo?

      O anúncio oficial foi feito por Paul McCartney em abril de 1970, através de um comunicado de imprensa para promover seu primeiro álbum solo, onde afirmava não prever novos trabalhos com os Beatles. John Lennon sentiu-se traído pelo anúncio, pois ele já havia comunicado internamente sua saída meses antes (o "divórcio"), mas fora convencido a manter segredo por razões comerciais. O desfecho foi marcado por mágoas públicas e batalhas judiciais que selaram o fim definitivo do "sonho".

 

 



ARTIGO DE OPINIÃO: INTERNETÊS - AMEAÇA À LÍNGUA PORTUGUESA - KARLA HANSEN - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Internetês – Ameaça à Língua Portuguesa

                Karla Hansen

 

        Quem tem acesso à rede mundial de computadores, não dispensa o “internetês” para escrever suas mensagens ou se comunicar nas salas de bate-papos virtuais. No entanto, o que parecia uma brincadeira de adolescente está abalando o coração, já tão cansado, dos professores da língua portuguesa. O assunto também já ganhou as páginas dos jornais e tem alimentado calorosos debates entre acadêmicos, escritores e jornalistas. Basicamente, o debate tem dividido os interessados entre os que são contra e os que são a favor. De um lado e do outro existem os exagerados e alarmistas de plantão. Entre os que são contra, por exemplo, um argumento bem forte é o de que o “internetês” é mais que uma degradação da língua, um verdadeiro atentado infame a ela.

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        O escritor Deonísio da Silva chamou de “besteirol” o novo “idioma” e classificou o fenômeno como “assassinato a tecladas” da língua portuguesa. Segundo o escritor, nunca se escreveu tanto como nesses tempos de correspondências eletrônicas, mas para ele estão “botando os carros na frente dos bois”. Ou seja, esses adolescentes têm acesso à internet e ao celular, mas não à norma culta da língua escrita.

        Nas palavras de Deonísio: Os pequenos burgueses tinham internet e celular, mas não dominavam a língua escrita. E por isso criaram a deles. Nada espantoso. Também os habitantes das periferias não dominam a norma culta da língua e criam suas gírias, devidamente circunscritas a cada grupo de usuários. Para resumir, o escritor defende que o “internetês” é um sintoma da grave falência educacional, que por sua vez, gera a exclusão dos jovens ao mundo letrado ao qual só poucos têm acesso.

        Combatendo serenamente essa tese, Marisa Lajolo é uma das que não veem nada de grave na invenção dos adolescentes. Ao contrário, ela acredita que a nova escrita na Internet está promovendo um “surto de poliglotas”. Na sua opinião, o “internetês” é apenas mais uma linguagem usada pelos jovens para se comunicarem entre si, considerados, por ela, poliglotas pela capacidade de se expressar de maneira diferente com seus pais, professores e com os demais interlocutores da comunidade. Dessa forma, para a escritora, isso demonstra criatividade dos adolescentes em criar um código próprio, que reforça a identidade dos mesmos.

        Sérgio Nogueira aconselhou os professores a não se assustarem, mas procurarem conhecer a linguagem. Ele admite que esse é um “fenômeno natural”. Para ele, o problema maior a ser atacado pelos professores é mesmo o domínio da linguagem padrão.

        Há, do outro lado, entusiastas febris. Pessoas afirmam que o “internetês” veio revolucionar a língua portuguesa e chegam a oferecer um “curso de língua de internetês”, no qual estão traduzidas as principais expressões da “língua” num “dicionário”.

        Seguindo o bom senso do professor Sérgio Nogueira, alguns professores de língua portuguesa já tiveram a iniciativa de promover, em sala de aula, atividades com o dialeto. Não se trata de rejeitar, diminuindo-lhe a importância, ou de elevar aos céus, atribuindo-lhe poderes para “revolucionar” ou mesmo ameaçar a língua portuguesa. Essas experiências em sala de aula têm a qualidade de reconhecer o fenômeno e explorá-lo, mostrando sua dimensão real.

        Dessa forma, é possível que o “internetês” ainda dê o que falar. Mas, com o vocabulário reduzido de que ele dispõe, é provável que o debate, assim como a própria vida do novo dialeto, não sejam capazes de ir muito longe.

Karla Hansen. Internetês – Ameaça à Língua Portuguesa.

 

Entendendo o artigo:

01 – De acordo com o texto, qual é a principal justificativa do escritor Deonísio da Silva para criticar o "internetês"?

      Deonísio da Silva defende que o "internetês" é um sintoma da grave falência educacional. Para ele, os jovens criaram esse novo código porque, embora tenham acesso à tecnologia (internet e celular), não dominam a norma culta da língua escrita. Ele compara o fenômeno às gírias das periferias e afirma que isso gera a exclusão dos jovens do mundo letrado.

02 – Como a escritora Marisa Lajolo se posiciona em relação ao fenômeno e o que significa o "surto de poliglotas" mencionado por ela?

      Marisa Lajolo se posiciona contra as teses alarmistas e não vê gravidade na invenção dos adolescentes. Ao falar em um "surto de poliglotas", ela se refere à capacidade dos jovens de alternar sua forma de se expressar: eles conseguem usar o "internetês" entre si, mas sabem se comunicar de maneira diferente com pais, professores e outros interlocutores, demonstrando criatividade e fortalecimento de sua identidade.

03 – Qual é o conselho dado pelo professor Sérgio Nogueira aos educadores e onde ele enxerga o verdadeiro problema a ser combatido?

      Sérgio Nogueira aconselha os professores a não se assustarem e procurarem conhecer a nova linguagem, classificando o "internetês" como um "fenômeno natural". Para ele, o foco principal e o maior problema a ser atacado pelos professores não é a existência do dialeto da internet, mas sim garantir que os alunos dominem a linguagem padrão (a norma culta).

04 – Como o texto descreve a postura dos "entusiastas febris" (os defensores exagerados) do internetês?

      O texto aponta que, no extremo oposto dos críticos, existem entusiastas que afirmam que o "internetês" veio para revolucionar a língua portuguesa. O exagero chega ao ponto de pessoas oferecerem um “curso de língua de internetês”, incluindo um “dicionário” com a tradução das principais expressões desse dialeto virtual.

05 – Qual é a conclusão da autora, Karla Hansen, sobre o futuro do debate e a relevância a longo prazo do "internetês"?

      A autora conclui que, devido ao vocabulário reduzido de que o "internetês" dispõe, é muito provável que tanto o debate caloroso quanto a própria vida útil desse novo dialeto não sejam capazes de ir muito longe. Além disso, ela elogia os professores que usam o fenômeno em sala de aula de forma equilibrada, sem demonizá-lo nem glorificá-lo, apenas mostrando sua dimensão real.