quarta-feira, 4 de novembro de 2026

CONTO: CALUNGA - FRAGMENTO - JORGE DE LIMA - COM GABARITO

 Conto: Calunga – Fragmento

          Jorge de Lima

 

        As primeiras chuvas tinham feito poças ao redor da casa, tinham enchido os barreiros onde os sapos-cururus badernavam. Lula saiu com a lâmpada para ver os sapos cantar. Os seus passos possuíam essa orientação maravilhosa, meio trôpega mas certa, dos passos dos sonâmbulos. Os insetos despertados pela luz vieram rodar em torno da lâmpada. Vieram borboletas escuras, besouros, baratas-d’água, mosquitos. O homem estranho com sua lâmpada parecia ter um mundo luminoso na mão, em redor do qual uma população alada formigava. Parou à beira dum barreiro. A saparia espantada mergulhou na água suja. O coro esquisito ficou mudo de repente. O homem de alma mudada pela doença parou, esperando, sentado no chão frio.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiuBySWZA-8cHb1jsyTWAMnkqTGaJgDTfkfd2S7C6wEnRHIu-tTFPrsoUhY-G63gSPDe1gXMv_9XfvfH2yq-uuxT7Wue1N76Z8G_xLLlq6U7pjE-h0YI8ckcHVA2tEQ7hg4cewbAbksK8VMAiTnNzILQu2KJN-pY18xNYM4IMS3HkTwxMUBLum95XCxS00/s547/images.jpg


        Estava imóvel como a superfície do barreiro. A lâmpada embaciada pelo hálito da noite entretinha agora uns poucos insetos fanáticos da luz. Tudo quieto, o primeiro cururu surgiu na margem, molhado, reluzente na semi-escuridade. Engoliu um mosquito, baixou a cabeçorra, tragou um cascudinho, mergulhou de novo e, bum-bum, soou uma nota soturna do concerto interrompido. Em poucos instantes o barreiro ficou sonoro como um convento de frades. Vozes roucas, foi-não-foi, tam-tans, bum-buns, choros, esgoelamentos finos de rãs, acompanhamentos profundos de sapos respondiam-se. Os bichos apareciam, mergulhavam, arrastavam-se nas margens, abriam grandes círculos na flor d’água. Lula estava realmente num outro mundo, que era o mundo noturno de sua ilha, confinado, sonoro, povoado de vozes e de seres que não se viam durante o dia. 

        Daí a pouco, dentro da bruta escuridão, surgiram dois olhos luminosos, fosforescentes como dois vaga-lumes. Um sapo-cururu grelou-os e ficou deslumbrado, com os olhos esbugalhados, presos naquela boniteza luminosa. Os dois olhos fosforescentes se aproximaram mais e mais, como dois pequenos holofotes na cabeça triangular da serpente. O sapo não se movia, fascinado. Sem dúvida queria fugir, previa o perigo porque emudecera mas já não podia andar, imobilizado, os olhos feíssimos, agarrados aos olhos luminosos e bonitos como um pecado. Num bote a cabeça triangular abocanhou a boca imunda do batráquio. Ele não podia fugir àquele beijo. A boca fina do réptil arreganhou-se desmesuradamente, envolveu o sapo até os olhos. Ele se baixava dócil, entregando-se à morte tentadora, apenas agitando docemente as patas sem provocar nenhuma reação ao sacrifício. A barriga disforme e negra desapareceu na goela dilatada da cobra. E num minuto as perninhas do cururu lá se foram ainda vivas para as entranhas famintas. O coro imenso continuava sem dar fé do que acontecia a um dos seus cantores. Surgiu uma outra cobra e segurou outro compadre sapo, deglutia-o porém com protestos apenas suaves do bicho que gemia uma coisa diferente de seu bum-bum habitual, agora mais canto, com uns tons de resignação diante da força do mais poderoso.

Jorge de Lima, trecho do romance "Calunga".

Entendendo o conto:

01 – Como o personagem Lula é descrito ao sair de casa e qual é a sua relação com a lâmpada que carrega?

      Lula é descrito como um homem de "alma mudada pela doença", com passos vacilantes, porém certos, semelhantes aos de um sonâmbulo. Ele carrega uma lâmpada que atrai diversos insetos da noite, fazendo-o parecer um homem com "um mundo luminoso na mão", em torno do qual a população alada formigava.

 02 – Qual é a reação imediata dos sapos no barreiro quando Lula aproxima sua luz do local?

      Assim que a luz de Lula chega à beira do barreiro, a saparia se assusta e mergulha na água suja, fazendo com que o coro de coaxares fique mudo de repente. A quietude só é quebrada depois que Lula se senta e permanece imóvel no chão frio, até que os sapos voltam a emergir e retomar o concerto.

03 – Como o autor utiliza a sonoridade para descrever o ambiente noturno no segundo parágrafo?

      O autor utiliza onomatopéias (como "bum-bum", "tam-tans", "foi-não-foi") e comparações ("sonoro como um convento de frades") para dar vida à atmosfera do barreiro. Ele combina vozes roucas, choros e esgoelamentos finos de rãs com o tom grave dos sapos, mostrando como o ambiente noturno da ilha se transforma em um mundo confinado e intensamente ruidoso.

 04 – De que maneira o primeiro sapo é capturado pela serpente e qual é o efeito que a luz dos olhos do réptil produz sobre ele?

      A serpente atrai o sapo com seus olhos fosforescentes, que parecem dois vaga-lumes ou pequenos holofotes. O sapo fica fascinado e deslumbrado pela beleza daquela luz, sendo paralisado pelo medo e pelo fascínio. Ele reconhece o perigo e emudece, mas perde a capacidade de reagir ou fugir, entregando-se docemente ao bote e à deglutição do réptil.

 05 – Qual é o significado simbólico do ataque das serpentes aos sapos no contexto do ecossistema do barreiro?

      O ataque simboliza a crueldade e a inevitabilidade das leis da natureza (a cadeia alimentar e a força do mais poderoso sobre o mais fraco). Enquanto os sapos são devorados um a um com gemidos de resignação, o coro do barreiro continua coaxando sem perceber o destino trágico de seus "cantores", evidenciando a indiferença do ciclo natural diante da morte individual.

  

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