Conto: Calunga – Fragmento
Jorge de Lima
As
primeiras chuvas tinham feito poças ao redor da casa, tinham enchido os
barreiros onde os sapos-cururus badernavam. Lula saiu com a lâmpada para ver os
sapos cantar. Os seus passos possuíam essa orientação maravilhosa, meio trôpega
mas certa, dos passos dos sonâmbulos. Os insetos despertados pela luz vieram
rodar em torno da lâmpada. Vieram borboletas escuras, besouros, baratas-d’água,
mosquitos. O homem estranho com sua lâmpada parecia ter um mundo luminoso na
mão, em redor do qual uma população alada formigava. Parou à beira dum
barreiro. A saparia espantada mergulhou na água suja. O coro esquisito ficou
mudo de repente. O homem de alma mudada pela doença parou, esperando, sentado
no chão frio.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiuBySWZA-8cHb1jsyTWAMnkqTGaJgDTfkfd2S7C6wEnRHIu-tTFPrsoUhY-G63gSPDe1gXMv_9XfvfH2yq-uuxT7Wue1N76Z8G_xLLlq6U7pjE-h0YI8ckcHVA2tEQ7hg4cewbAbksK8VMAiTnNzILQu2KJN-pY18xNYM4IMS3HkTwxMUBLum95XCxS00/s547/images.jpg Estava
imóvel como a superfície do barreiro. A lâmpada embaciada pelo hálito da noite
entretinha agora uns poucos insetos fanáticos da luz. Tudo quieto, o primeiro
cururu surgiu na margem, molhado, reluzente na semi-escuridade. Engoliu um
mosquito, baixou a cabeçorra, tragou um cascudinho, mergulhou de novo e,
bum-bum, soou uma nota soturna do concerto interrompido. Em poucos instantes o
barreiro ficou sonoro como um convento de frades. Vozes roucas, foi-não-foi,
tam-tans, bum-buns, choros, esgoelamentos finos de rãs, acompanhamentos
profundos de sapos respondiam-se. Os bichos apareciam, mergulhavam,
arrastavam-se nas margens, abriam grandes círculos na flor d’água. Lula estava
realmente num outro mundo, que era o mundo noturno de sua ilha, confinado,
sonoro, povoado de vozes e de seres que não se viam durante o dia.
Daí
a pouco, dentro da bruta escuridão, surgiram dois olhos luminosos,
fosforescentes como dois vaga-lumes. Um sapo-cururu grelou-os e ficou
deslumbrado, com os olhos esbugalhados, presos naquela boniteza luminosa. Os
dois olhos fosforescentes se aproximaram mais e mais, como dois pequenos
holofotes na cabeça triangular da serpente. O sapo não se movia, fascinado. Sem
dúvida queria fugir, previa o perigo porque emudecera mas já não podia andar,
imobilizado, os olhos feíssimos, agarrados aos olhos luminosos e bonitos como
um pecado. Num bote a cabeça triangular abocanhou a boca imunda do batráquio.
Ele não podia fugir àquele beijo. A boca fina do réptil arreganhou-se
desmesuradamente, envolveu o sapo até os olhos. Ele se baixava dócil, entregando-se
à morte tentadora, apenas agitando docemente as patas sem provocar nenhuma
reação ao sacrifício. A barriga disforme e negra desapareceu na goela dilatada
da cobra. E num minuto as perninhas do cururu lá se foram ainda vivas para as
entranhas famintas. O coro imenso continuava sem dar fé do que acontecia a um
dos seus cantores. Surgiu uma outra cobra e segurou outro compadre sapo,
deglutia-o porém com protestos apenas suaves do bicho que gemia uma coisa
diferente de seu bum-bum habitual, agora mais canto, com uns tons de resignação
diante da força do mais poderoso.
Jorge de Lima, trecho do romance
"Calunga".
Entendendo o conto:
01 – Como o
personagem Lula é descrito ao sair de casa e qual é a sua relação com a lâmpada
que carrega?
Lula é descrito
como um homem de "alma mudada pela doença", com passos vacilantes,
porém certos, semelhantes aos de um sonâmbulo. Ele carrega uma lâmpada que
atrai diversos insetos da noite, fazendo-o parecer um homem com "um mundo
luminoso na mão", em torno do qual a população alada formigava.
Assim que a luz
de Lula chega à beira do barreiro, a saparia se assusta e mergulha na água
suja, fazendo com que o coro de coaxares fique mudo de repente. A quietude só é
quebrada depois que Lula se senta e permanece imóvel no chão frio, até que os
sapos voltam a emergir e retomar o concerto.
03 – Como o autor utiliza a sonoridade para descrever o ambiente noturno no segundo parágrafo?
O autor utiliza
onomatopéias (como "bum-bum", "tam-tans",
"foi-não-foi") e comparações ("sonoro como um convento de
frades") para dar vida à atmosfera do barreiro. Ele combina vozes roucas,
choros e esgoelamentos finos de rãs com o tom grave dos sapos, mostrando como o
ambiente noturno da ilha se transforma em um mundo confinado e intensamente
ruidoso.
A serpente atrai
o sapo com seus olhos fosforescentes, que parecem dois vaga-lumes ou pequenos
holofotes. O sapo fica fascinado e deslumbrado pela beleza daquela luz, sendo
paralisado pelo medo e pelo fascínio. Ele reconhece o perigo e emudece, mas
perde a capacidade de reagir ou fugir, entregando-se docemente ao bote e à
deglutição do réptil.
O ataque
simboliza a crueldade e a inevitabilidade das leis da natureza (a cadeia
alimentar e a força do mais poderoso sobre o mais fraco). Enquanto os sapos são
devorados um a um com gemidos de resignação, o coro do barreiro continua
coaxando sem perceber o destino trágico de seus "cantores", evidenciando
a indiferença do ciclo natural diante da morte individual.
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