quinta-feira, 9 de maio de 2019

POEMA: TABACARIA - FERNANDO PESSOA - COM QUESTÕES GABARITADAS

Poema: TABACARIA
          
    Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
[...]
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
[...]
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
[...]
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
[...]
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa:
Ática, 1944 (imp. 1993). - 252. Obra poética, cit. p. 362-6.
Entendendo o poema:
01 – O eu lírico do poema faz considerações a respeito de si mesmo, de sua identidade e de sua relação com o mundo.
a)   Como o eu lírico se sente diante da realidade em que vive?
Sente-se desagregado, não compartilha os valores da realidade.

b)   Tendo como referência a questão da identidade individual e social de cada ser humano, explique a crítica e a autocrítica existente nestes versos: “Quando quis tirar a máscara, / Estava pegada à cara”.
O autor refere-se às máscaras que cada um de nós usa socialmente. No caso do eu lírico, quando quis romper com essas convenções e ser ele mesmo, já havia perdido sua própria identidade.

02 – De acordo com o texto, o que significa as palavras:
·        Algibeira: bolso.
·        Dominó: túnica com capuz e mangas para disfarce de mascarados no carnaval.

03 – No texto, são feitas três referências à metafísica. Metafísica (além da física), no sentido habitual, é todo conhecimento ou especulação filosófica relacionados com o ser ou com sua transcendência. No poema, é com certo desprezo que o eu lírico trata a metafísica, como no verso “Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates”.
a)   Apesar disso, o eu lírico pratica a metafísica no poema? Justifique.
Sim, pois suas reflexões sobre o ser – a identidade, o sentido da vida, o futuro do mundo, et. – são temas metafísicos.

b)   Qual a vantagem, segundo a visão expressa no texto, em comer bombons, como faz a menina, ou ser como “o Esteves sem metafísica”?
Essas pessoas são o que são e, por não terem despertado para certos problemas da existência, não ficam filosofando, vivem de forma natural e simples.

c)   Com base na opinião do eu lírico sobre a metafísica, explique os sentidos dos versos: “Se eu casasse com a filha da minha lavadeira / Talvez fosse feliz”.
Provavelmente, a filha da lavadeira é uma pessoa simples, como o Esteves. Se o eu lírico se casasse com ela, talvez aprendesse a ser simples também e a não complicar as coisas. Esse pensamento é apenas uma especulação, pois a consciência e irreversível.

04 – Observe que, na 5ª estrofe, o eu lírico faz uma verdadeira “viagem” mental, especulando sobre seu próprio futuro e sobre o futuro do mundo. Suas reflexões são interrompidas por um fato concreto; um homem (Esteves) entra na tabacaria, fazendo com que a “realidade plausível” caia sobre o eu lírico. Este, agora “acordado”, diz: “Semiergo-me enérgico, convencido, humano, / E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário”.
a)   Com base nesses versos, levante hipóteses: É provável que eu lírico pretendesse tratar de temas metafísico ou de temas reais? Por quê?
De temas reais, pois se ergue “enérgico” e “humano”, o que pressupõe uma interação com o mundo concreto, real.

b)   Ele conseguiu seu objetivo? Justifique.
Não, pois, conforme afirma, tenciona escrever “versos em que digo o contrário”, o que nos leva a crer que acabou escrevendo versos metafísicos.

c)   Ao dizer, então, que “a metafísica é uma consequência de estar mal disposto”, o eu lírico está blefando ou não? Por quê?
Está blefando, pois obviamente, para o eu lírico, ela não é apenas resultado de uma indisposição física, e, sim, parte integrante de um ser que está em crise com o mundo e consigo mesmo.


TEXTO: SANGUE PARA TESTEMUNHAS DE JEOVÁ - REVISTA ISTO É - COM GABARITO

Texto: Sangue para testemunhas de Jeová

        “As testemunhas de Jeová proíbem seus fiéis de receberem transfusões de sangue.
        Para impedir a morte em fiéis dessa crença cientistas belgas desenvolveram uma técnica com o qual é possível aumentar o número de glóbulos vermelhos (células do sangue que carregam o oxigênio) e reciclar o sangue do paciente, descartando a necessidade de uma transfusão.
        A nova técnica foi realizada com sucesso em um paciente que era testemunha de Jeová e precisava de um transplante de fígado”.

                                                             Revista Isto É, 26 maio 1999.
Entendendo o texto:

01 – Exponha seu ponto de vista sobre a proibição imposta às Testemunhas de Jeová.
      Resposta pessoal do aluno.

02 – Retire do texto quatro exemplos de substantivos uniformes e classifique-os quanto ao gênero.
      Testemunha (masculina e feminina): substantivo sobrecomum; (seus) fiéis e (suas) fiéis, (os) cientistas e (as) cientistas, (o) paciente e (a) paciente: substantivos comuns de dois gêneros.

03 – Que tipo de substantivo uniforme não aparece no texto? Dê três exemplos.
      Os substantivos epicenos, que se referem a animais: a borboleta macho / a borboleta fêmea; o mosquito macho / o mosquito fêmea; a tartaruga macho / a tartaruga fêmea.

04 – Explique por que na quarta linha o substantivo técnica é acompanhado pelo artigo uma e na oitava é acompanhado pelo artigo a (a nova técnica).
      Na terceira linha, ainda não se conhece a técnica de se aumentarem os glóbulos vermelhos, por isso usou-se o artigo indefinido; já na oitava linha, o leitor sabe de que técnica se trata. Assim, já se pode especificar o substantivo por meio do artigo a.


TEXTO: SERRA GAÚCHA - FONTE: INTERNET - COM GABARITO

Texto: Serra Gaúcha

        Serra Gaúcha: você vai se apaixonar por ela!

        Com colonização europeia, belíssimas paisagens, rico folclore, parques e praças, oportunidades de práticas de esportes radicais e uma gastronomia invejável, a Serra Gaúcha proporciona aos seus visitantes momentos únicos e uma viagem inesquecível. Formada por grandes ou pequenas, colônias ou industriais, todas turísticas, as cidades da Serra se destacam por seus vinhos, gastronomia, cultura e belezas naturais.
        Este é um destino indicado para todas as idades, pois reúne diversos atrativos, os quais agradam desde os mais jovens até os mais experientes, e consequentemente, mais exigentes!

                                               Retirado de uma página da internet.
Entendendo o texto:

01 – no texto, predominam passagens descritivas. Considerando a finalidade a que se destina, ou seja, atrair a atenção de possíveis visitantes, por que isso ocorre?
      Porque é necessário ressaltar os aspectos positivos do lugar.

02 – Na descrição da Serra Gaúcha apresentada nesse prospecto turístico, sobressai que tipo de característica?
      As características físicas, ligadas à descrição das paisagens naturais ou urbanas.

03 – Que elementos das cidades gaúchas são destacados pelo prospecto?
      Os vinhos, a gastronomia, a cultura e as belezas naturais.

04 – Se esse fosse um prospecto para uma viagem ao Nordeste do Brasil, que características você acha que seriam ressaltadas?
      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: No caso do Nordeste, a exuberância da natureza e as belas praias são, em geral, os aspectos mais destacados.

05 – A quem se destina esse prospecto?
      Aos possíveis turistas interessados em visitar o Sul.

06 – Observando o site, é possível notarmos que as imagens ocupam tano ou mais espaço que os textos verbais. Na sua opinião, por que isso ocorre?
      Porque as imagens mostram o que o texto descreve, e são fundamentais no prospecto turístico porque confirmam visualmente o que é escrito a respeito dos lugares.

07 – Se você tivesse de criar um prospecto turístico de sua cidade, para atrair turistas vindos de outras regiões do Brasil, a que aspectos daria destaque? Por quê?
      Resposta pessoal do aluno.

TEXTO: FESTA DE IEMANJÁ - MARCELO XAVIER - COM QUESTÕES GABARITADAS

Texto: FESTA DE IEMANJÁ
         
                      Marcelo Xavier

        Cinco horas da manhã do dia 2 de fevereiro. O bairro do Rio Vermelho, em Salvador, acorda com um foguetório daqueles. Está começando mais uma festa de Iemanjá, e vai durar o dia todo. As primeiras pessoas chegam, com seus  presentes para a rainha do Mar. São perfumes, espelhos, flores, brinquedos, colares, pulseiras. No barracão dos pescadores, os organizadores recebem as oferendas, que vão colocando em grandes balaios redondos. Algumas baianas jogam água-de-cheiro na cabeça do povo. Outras dançam, girando e cantando pontos de candomblé, ao som de atabaques, agogôs, tambores e pandeiros. O sol brilha sobre tudo, como o mais ilustre dos convidados. O mar espera, paciente. Ele sabe que, ao final da tarde, como sempre, todos aqueles presentes vão acabar em suas águas. O mar é a casa de Iemanjá portanto, a festa é dele, também.
        O presente principal é arrumado com todo carinho, por um grupo de pessoas. Trata-se da escultura de um enorme golfinho, cercado de bonecos, espelhos e outros presentes menores.
        A certa altura do dia, a fila de oferendas parece uma enorme serpente, enfeitada de flores, arrastando-se lentamente na direção do barracão. No corpo dessa fila-serpente tem gente de todo tipo. A maioria se veste de branco. Na cabeça, lenços e chapéus. Nas mãos, os presentes para Iemanjá.
        Toda a região é tomada pelos cheiros, gostos e sons da festa: são vendedores de fitinhas coloridas, colares, comida, bebida, flores; baianas, com seus tabuleiros, e bandos de devotos.
        Às quatro horas da tarde, como bem sabia o mar, os balaios, carregados de presentes e de flores, são levados para os barcos, junto com o presente principal. Ao som de palmas, vivas, batuques e cantos, o cortejo parte para o alto-mar, onde vão ser deixados os presentes.
        No bairro de Rio Vermelho, festa continua até o amanhecer.

    XAVIER, Marcelo. Festas – O folclore do Mestre André. Belo Horizonte: Formato, 2000.

Entendendo o texto:
01 – O autor começa e termina o texto com palavras ou expressões que indicam tempo. Transcreva essas palavras ou expressões.
      Cinco horas da manhã do dia 2 de fevereiro / amanhecer.

02 – No terceiro parágrafo, não há indicação precisa do momento em que se forma uma enorme fila:
a)   Transcreva a expressão que justifica essa afirmativa.
“A certa altura do dia...”

b)   A que o autor compara a fila? O que permite a ele fazer essa comparação? 
O autor compara a uma enorme serpente. Possivelmente, o que o leva a fazer essa comparação é o formato sinuoso dela, como o de uma serpente. Também o tamanho da fila e o dato de ela arrastar-se lentamente, igualzinho a uma serpente, permitiram que o autor fizesse essa comparação.

03 – No quarto parágrafo, há a referência a três órgãos dos sentidos. Que órgãos são esses?
      Olfato (cheiro), paladar (gosto), audição (som).

04 – Releia de “Festa de Iemanjá”, o trecho a seguir: “Às quatro horas da tarde, como bem sabia o mar, os balaios, carregados de presentes e de flores, são levados para os barcos, junto com o presente principal. Ao som de palmas, vivas, batuques e cantos, o cortejo parte para o alto-mar, onde vão ser deixados os presentes.”
a)   De que fato o mar tinha conhecimento?
Do horário costumeiro em que as oferendas são levadas para os barcos que irão até alto-mar, onde elas serão lançadas.

b)   Leia o quadro a seguir com atenção:
Personificação é um recurso pelo qual o escritor atribui atitudes e sentimentos humanos a seres inanimados.
Podemos dizer que no trecho acima ocorre personificação? Justifique.
Sim. Atribuem-se características humanas a um elemento da natureza, o mar.

05 – Pela leitura do texto, é possível sabermos como acontece a “Festa de Iemanjá”: o autor explica as etapas dessa festa. Releia o texto e diga em quantas etapas se divide a festa de Iemanjá.
      A “Festa de Iemanjá” divide-se em três etapas: 1ª parte: o início, às cinco horas da manhã. 2ª parte: a organização das oferendas e a partida do cortejo de barcos para o mar. 3ª parte: a festa que se segue à partida e que se estende noite adentro.

06 – Você já participou ou costuma participar de alguma celebração como a festa de Iemanjá? Em caso afirmativo, faça um breve relato sobre a experiência da festa: o que há nela, quais as etapas ou partes em que se divide, o que ocorre durante as celebrações.
      Resposta pessoal do aluno.

07 – Em seu caderno, transcreva do texto “Festa de Iemanjá”, o que se indica em cada item a seguir:
a)   Um substantivo masculino plural que significa cestos.
Balaios.

b)   Um substantivo masculino singular que significa religião introduzida no Brasil por africanos escravizados.
Candomblé.

c)   Um substantivo feminino plural que significa dádivas, presentes.
Oferendas.

d)   Um substantivo masculino singular que significa procissão, acompanhamento.
Cortejo.

08 – No trecho abaixo, retirado do texto, as palavras em destaque atribuem ações e características de seres animados ao mar. Portanto, estão empregadas em sentido figurado. Escreva frases empregando cada uma dessas palavras destacadas em sentido próprio, isto é, atribuindo essas ações e características a um ser animado: “O mar espera, paciente. Ele sabe que, ao final da tarde, como sempre, todos aqueles presentes vão acabar em suas águas.”
      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: O trabalhador espera, paciente, na fila do ônibus. Ele sabe que, no início da noite, como sempre, estará em casa.

09 – Na segunda linha do texto, o autor emprega a palavra foguetório.
a)   O que ela significa?
Grande quantidade de foguetes que estouram ao mesmo tempo.

b)   Veja como ela é formada: foguete+ório.
Compare com a palavra consultório (consulta+ório). O elemento -ório tem o mesmo significado nas duas palavras?
Não. Em foguetório, indica grande quantidade; Em consultório, indica lugar.




terça-feira, 7 de maio de 2019

FILME(ATIVIDADES): ETERNAMENTE PAGÚ - NORMA BENGELL - COM SINOPSE E QUESTÕES GABARITADAS

Filme(ATIVIDADES): ETERNAMENTE PAGÚ

Data de lançamento desconhecida (1h 40min)
Criador(es): Norma Bengell
Gênero Drama
Nacionalidade Brasil

SINOPSE E DETALHES

        Fins dos anos vinte, Pagú ainda não tem vinte anos e já encanta os meios intelectuais avançados de São Paulo, da mesma forma que escandaliza os conservadores. É apresentada aos membros da ala radical do movimento modernista, liderada por Oswald de Andrade, brilhando entre estrelas não menos cintilantes, como a pintora Tarsila do Amaral. Pagú e Oswald se amam. Têm um filho, militam no Partido Comunista, fundam um jornal. Pagú vai à Argentina, onde encontra Luiz Carlos Prestes. Participa de uma greve em Santos e é presa pela primeira vez. Em seguida, parte numa viagem pelo mundo, deixando Oswald e o garoto e sempre convivendo com artistas e militantes de esquerda.

Entendendo o filme:

01 – De que se trata este filme?
      Mostra a trajetória de Pagú, sua luta, talento e insatisfação dessa mulher visionária, indignada com os abusos do governo de Getúlio Vargas, com a exploração do proletariado e com a hipocrisia da burguesia brasileira.

02 – Pagú tem um talento literário permeado com versos e frases, mas no filme destaca um outro lado de Pagú, qual?
      Sua militância política – a participação em comícios e greves; o sofrimento durante as prisões e as viagens pelo mundo.

03 – Quem foi “Pagú” e o que fez ela de tão importante?
      Patrícia Rehder Galvão, conhecida pelo pseudônimo de Pagú, (São João da Boa Vista, 9 de junho de 1910 – Santos, 12 de dezembro de 1962), foi uma escritora e jornalista brasileira. Militante comunista, teve grande destaque no movimento modernista iniciado na década de 20.
      Em 1935 é presa em Paris como comunista estrangeira, com identidade falsa, e é repatriada par o Brasil.

04 – Como se pode definir o comportamento a escritora, jornalista e ativista política Patrícia Rehder Galvão (Pagú)?
      Uma mulher visionária, inovadora, dedicou sua vida à luta pela igualdade e justiça social e chocou a sociedade paulistana por ser irreverente, liberada e politizada. Era vista como extravagante e rebelde.
     




ROMANCE: TIETA DO AGRESTE -(FRAGMENTO) - JORGE AMADO - COM GABARITO

Romance: Tieta do Agreste - Fragmento
      

Minuciosa descrição do confuso desembarque de Tieta, a filha pródiga ou Antonieta Esteves Cantarelli, a viúva alegre
                                Jorge Amado

        Na primeira fila, a família, tristeza expressa nos olhares, nas lágrimas, nos trajes. Um passo à frente dos demais, o velho Zé Esteves, mascando fumo. Em seguida aos enlutados parentes, o reverendo, os meninos do catecismo, as pessoas gradas, dona Carmosina, buquê em punho, o colorido alegre das flores destoando do crepe e do choro – essa criatura para aparecer passa por cima dos sentimentos mais sagrados, indigna-se Perpétua, por baixo do véu preso ao coque, a lhe cobrir o rosto. Depois, as beatas e o resto da população.
        A marinete se aproxima, Jairo ao volante, poucos passageiros. Para Jairo dia magro, para Agreste dia gordo, dia de matar o carneiro pascoal, de foguetório e festa em honra da filha pródiga, não fosse ela viúva em nojo e dor. Cabem somente luto e lágrimas, cantoria de igreja.
        As conversas cessam, Peto se alteia na ponta dos pés, assim a tia desembarque ele cairá fora, arrancará os sapatos. A marinete estanca num rumor cansado de juntas e molas.
        Peto conta os passageiros que descem: seu Cunha, um, o casal de roceiros, dois, três, dona Carmelita, quatro, a criada, cinco, esse eu nunca vi, seis, nem esse, sete, seu Agostinho da padaria, oito, a mulher dele, nove, a filha, dez, a tia Antonieta e a moça vão ser os últimos. Mesmo Jairo salta antes, carregado de maletas e bolsas das esperadas viajantes. Com Jairo fazem onze, agora doze, é ela, por fim.
        Será ela? Peto fica em dúvida. Não pode ser, a tia deve estar de luto, véu fúnebre tapando o rosto, igual à mãe, não pode ser de maneira alguma essa artista de cinema, Gina Lollobrigida. Na porta, sobre o degrau, majestosa, Antonieta Esteves – Antonieta Esteves Cantarelli, faça o favor, exige Perpétua. Deslumbrante. Alta, fornida de carnes, a longa cabeleira loira sobrando do turbante vermelho. Vermelho, sim, vermelho igual à blusa esporte, de malha, simples e elegante, marcando a firmeza dos seios volumosos dos quais se vê apreciável amostra através da gola de botões abertos. A calça Lee azul colada às coxas e à bunda, valorizando volumes e reentrâncias, que volumes! que reentrâncias! Os pés calçados com finos mocassins havana. O único detalhe escuro em todo o traje da viúva são os óculos esfumaçados, lentes e armação quadradas, o podre do chique, assinados por Christian Dior. O espanto dura uma fração mínima de tempo, um tempo imenso, uma eternidade.
        Peto, vitorioso, exclama:
        -- A tia não está de luto, Mãe. Posso tirar os sapatos e a gravata?
        Antonieta, paralisada sobre o degrau, na porta do ônibus: diante dela a família de luto pela morte de Felipe, o inolvidável esposo, e ela em tecnicolor, em azul e vermelho, blusa aberta, esportivas calças Lee, ai, meu Deus, como não pensara em luto? Estudara cada pormenor e os discutira com Leonora, meticulosamente. Esquecera o mais importante. Mas já Zé Esteves cospe o pedaço de fumo e estende os braços para a filha pródiga:
        -- Minha filha! Pensei que não ia mais te ver mas Deus quis me dar essa consolação antes da morte.
        De cima do degrau da marinete, Antonieta reconhece o pai. O pai e o bordão. É o mesmo, o mesmíssimo cajado que cantou em suas costas naquela noite de fim do mundo. Um frouxo de riso sobe dentro dela, não consegue contê-lo, estremece, incontrolável som a romper-lhe a boca, apenas tem tempo de encobrir o rosto com as mãos, antes de saltar. Acorrem todos a consolar a viúva em pranto, filha pródiga afogando os soluços nos braços do pai, comovente instante. Nem Perpétua se deu conta. Elisa chora e ri, de repente desafogada, a irmã sendo como imaginara, sem tirar nem pôr. Única a estranhar o curioso som inicial, dona Carmosina aproxima-se com as flores tão de acordo com o traje de viagem de Tieta.
        Enquanto Tieta vai de abraço em abraço, disputada pelas irmãs, pelo cunhado, pelos sobrinhos – tire os sapatos, meu lindo, fique à vontade –, presa aos beijos sem conta, às lágrimas de Elisa, na porta da marinete de Jairo aparece a mais formosa, a mais doce e sedutora donzela, esbelta juventude, uma sílfide como logo reconheceu e proclamou o vate De Matos Barbosa. Parada, a contemplar a emocionante cena, emocionada ela também. Encantadora no slaque delavê, boné da mesma fazenda rodeado de cabelos loiros, acinzentados pela poeira, Peto reconhece a própria mocinha dos filmes de caubói. Um murmúrio de admiração percorre a rua, Tieta, desprendendo-se dos beijos de Elisa, apresenta:
        -- Leonora Cantarelli, minha enteada, minha filha, não tem diferença.
        Dona Carmosina volta-se para Ascânio Trindade e o surpreende embevecido. E agora, amigo? Leonora amplia o meigo sorriso, abarcando a todos, detendo-se em Ascânio a fixá-la, atoleimado.
        -- Feche a boca, Ascânio, e vá ajudar a moça a descer – ordena dona Carmosina.
        Adianta-se Ascânio, oferece a mão à paulista: seja bem-vinda às terras de Agreste, pobres, sadias e belas, perdoe o atraso e o desconforto. Ricardo põe o joelho em terra para pedir a bênção à tia mas ela o ergue e o toma nos braços, beija-lhe as faces: meu padreco mais garboso!
        Após compreensível indecisão, o padre Mariano resolve, não vai perder, por uma questão de protocolo, o difícil trabalho de adaptação da letra de uma ladainha e de quinze dias de ensaios.
        Faz um sinal, os meninos do catecismo cantam:
        “Vestida de negro
         Ela apareceu
         Trazendo nos olhos
         As cores do luto.
         Ave! Ave!
         Ave Antonieta!”
        [...]
        Ei-la em Sant’Ana do Agreste, em meio à família em luto, a ouvir os meninos do catecismo; obrigada, Padre. De todo o coração. Do mar, chega a brisa da tarde, vem saudá-la. Com ajuda de Sabino, Jairo desembarca as malas, a bagagem viaja no teto da marineti, coberta com lona grossa como se alguma cobertura adiantasse contra a poeira do caminho.
        -- Vamos minha filha. – Convida Zé Esteves oferecendo o braço, apoiando-se no bastão.
        -- Para minha casa. – Tenta comandar Perpétua em meio aos destroços da violada compunção.
        Cabe-lhe a culpa, a mais ninguém. Como pudera imaginar Tieta vestindo luto por marido? Fizera da irmã a sua igual, como se dinheiro, alta sociedade, casamento com paulista rico e comendador do Papa pudessem consertar quem nasceu torta, rebelde a códigos, leis e respeito humano, sem régua nem compasso.
                                      Rio de Janeiro. Record. 1977. p. 92-5.
Entendendo o romance:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:
·        Grado: graúdo, importante.
·        Nojo: luto.
·        Inolvidável: inesquecível.
·        Sílfide: feminino de silfo, o mesmo que gênio do ar; figura vaporosa.
·        Marineti: ônibus.

02 – Seguindo a tradição da literatura oral nordestina, o texto é apresentado pelo narrador. A apresentação, em destaque, é feita de modo imparcial ou deixa transparecer opiniões do narrador? Justifique.
      A apresentação evidencia as opiniões do narrador, como se nota nas expressões “confuso desembarque” e “viúva alegre”.

03 – Sant’Ana do Agreste é uma cidade pequena, de hábitos provincianos. Quando deixou a cidade, Tieta era apenas uma moça simples e namoradeira.
a)   Que fato ligado à chegada de Tieta demonstra o provincianismo da cidade?
A recepção preparada para Tieta, uma pessoa “importante”: com a presença de todos os “grados” da cidade, honrarias, flores, ladainha ensaiada; o pai à frente, depois os familiares, depois, as demais pessoas do povo.

b)   Levante hipóteses: Se Tieta era uma pessoa comum antes de partir da cidade, por qual razão ela tem uma recepção tão especial na sua volta?
Porque todos pensam que ela se tornou milionária ao se casar com um industrial paulista.

04 – Por influência de Perpétua, todos da família esperam Tieta de luto pesado. Até o Padre, com uma ladainha adaptada, preparara uma homenagem para a viúva em nojo e dor. Entretanto, Tieta não aparece em trajes de luto.
a)   De acordo com o texto, por que isso ocorreu?
Tieta se esquecera desse “detalhe”.

b)   Como as pessoas reagem a esse fato? Justifique com um exemplo.
As pessoas se espantam, e o Padre fica confuso, não sabendo se dá ou não o sinal para os meninos cantarem a ladainha.

c)   Que significado tem esse fato para Perpétua, considerando-se o juízo que vinha fazendo da irmã distante?
Perpétua percebe que a irmã não mudara seu jeito de ser.

05 – Releia estes dois fragmentos:
        “Um frouxo de riso sobe dentro dela, não consegue contê-lo, estremece, incontrolável som a romper-lhe a boca, apenas tem tempo de encobrir o rosto com as mãos, antes de saltar.”
        “Será ela? Peto fica em dúvida. Não pode ser, a tia deve estar de luto, véu fúnebre tapando o rosto, igual à mãe, não pode ser de maneira alguma essa artista de cinema, Gina Lollobrigida. Na porta, sobre o degrau, majestosa, Antonieta Esteves – Antonieta Esteves Cantarelli, faça o favor, exige Perpétua.”

a)   O primeiro fragmento, o que se depreende da personalidade de Tieta?
Tieta é irreverente e livre; não se prende às normas sociais.

b)   De acordo com o segundo fragmento, Perpétua insiste em acrescentar ao nome da irmã o sobrenome do falecido: Cantarelli. O que esse fato possibilita depreender a respeito da personalidade dessa personagem?
Perpétua é interesseira; faz questão de vincular o nome da irmã ao de um suposto industrial rico.

06 – Como se caracteriza a linguagem empregada no texto?
      É simples e direta, com palavras e expressões populares, como “dia gordo”; “foguetório”; “cantou em suas costas”; etc.



POEMA: POESIA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

PoemaPoesia
          Carlos Drummond de Andrade

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Carlos Drummond de Andrade. ANDRADE, C. D. Alguma Poesia,
Belo Horizonte, Edições Pindorama, 1930.
Entendendo a poema:

01 – O que o eu lírico nos confessa ou revela nesses versos?
      Ele revela sua luta com as palavras, a obsessão de achar o termo exato para expressar seus sentimentos, termo que, muitas vezes, persiste em não surgir, foge do pensamento ou da ideia que não se forma, apesar de estar tão próximo.

02 – Por que aquele momento é de tão forte presença poética para o eu lírico?
      Apesar de não conseguir dar forma aos seus sentimentos, esses estão tão presentes e intensos que preenchem seu mundo interior completamente.

03 – Retire do texto versos que formam um período composto por coordenação.
      Ele está cá dentro; e não quer sair.

04 – Quais são as orações coordenadas que possuem conjunções coordenativas, no poema?
      “No entanto ele está cá dentro / Inquieto, vivo. / E não quer sair. / Mas a poesia deste momento / Inunda minha vida inteira.”