domingo, 22 de março de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: DO BOM USO DO RELATIVISMO - LEONARDO BOFF - COM GABARITO

 Artigo de Opinião: Do bom uso do relativismo

                              Leonardo Boff

Hoje pela multimídia, imagens e gentes do mundo inteiro nos entram pelos telhados, portas e janelas e convivem conosco. É o efeito das redes globalizadas de comunicação. A primeira reação é de perplexidade que pode provocar duas atitudes: ou de interesse para melhor conhecer que implica abertura e dialogo ou de distanciamento que pressupõe fechar o espírito e excluir. De todas as formas, surge uma percepção incontornável: nosso modo de ser não é o único. Há gente que, sem deixar de ser gente, é diferente. Quer dizer, nosso modo de ser, de habitar o mundo, de pensar, de valorar e de comer não é absoluto. Há mil outras formas diferentes de sermos humanos, desde a forma dos esquimós siberianos, passando pelos yanomamis do Brasil até chegarmos aos sofisticados moradores de Alfavilles onde se resguardam as elites opulentas e amedrontadas. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhH4l5oHnotC088QVUBOsP15HUcRur8H109xHQc16J9vm0-X5KaJyYXNd2cUPNGR3Sr6l0tulah2aTLz4qsOaCHGFKVGTw7Qc3T8wSkl9ReGt6lNdzjEe_wJAisS5WWjS4ezImNtGTaW60Pau5a49uUDuw7ZIbFba90zmF3x-n0kVDqupAQmNyyJQKWB7g/s1600/relativismo1-6d330290.jpg


O mesmo vale para com as diferenças de cultura, de língua, de religião, de ética e de lazer. Deste fato surge, de imediato, o relativismo em dois sentidos: primeiro, importa relativizar todos os modos de ser; nenhum deles é absoluto a ponto de invalidar os demais; impõe-se também a atitude de respeito e de acolhida da diferença porque, pelo simples fato de estar-ai, goza de direito de existir e de co-existir; segundo, o relativo quer expressar o fato de que todos estão de alguma forma relacionados. Eles não podem ser pensados independentemente uns dos outros porque todos são portadores da mesma humanidade. Devemos alargar, pois, a compreensão do humano para além de nossa concretização. Somos uma geosociedade una, múltipla e diferente. Todas estas manifestações humanas são portadoras de valor e de verdade. Mas é um valor e uma verdade relativos, vale dizer, relacionados uns aos outros, auto-implicados, sendo que nenhum deles, tomado em si, é absoluto. Então não há verdade absoluta? Vale o every thing goes de alguns pós modernos? Quer dizer, o “vale tudo”? Não é o vale tudo. Tudo vale na medida em que mantém relação com os outros, respeitando-os em sua diferença. Cada um é portador de verdade, mas ninguém pode ter o monopólio dela. Todos, de alguma forma, participam da verdade. Mas podem crescer para uma verdade mais plena, na medida em que mais e mais se abrem uns aos outros. Bem dizia o poeta espanhol António Machado: ”Não a tua verdade. A verdade. Vem comigo buscá-la. A tua, guarde-a”. Se a buscarmos juntos, no diálogo e na cordialidade, então mais e mais desaparece a minha verdade para dar lugar a Verdade comungada por todos. A ilusão do Ocidente é de imaginar que a única janela que dá acesso à verdade, à religião verdadeira, à autêntica cultura e ao saber crítico é o seu modo ver e de viver. As demais janelas apenas mostram paisagens distorcidas. Ele se condena a um fundamentalismo visceral que o fez, outrora, organizar massacres ao impor a sua religião e, hoje, guerras para forçar a democracia no Iraque e no Afeganistão. Devemos fazer o bom uso do relativismo, inspirados na culinária. Há uma só culinária, a que prepara os alimentos humanos. Mas ela se concretiza em muitas formas, as várias cozinhas: a mineira, a nordestina, a japonesa, a chinesa, a mexicana e outras. Ninguém pode dizer que só uma é a verdadeira e gostosa e as outras não. Todas são gostosas do seu jeito e todas mostram a extraordinária versatilidade da arte culinária. Por que com a verdade deveria ser diferente?

Entendendo o texto

01.Segundo o primeiro parágrafo, qual é a principal causa da nossa convivência atual com imagens e pessoas do mundo inteiro?

a. O efeito das redes globalizadas de comunicação e da multimídia.

b. A vontade das pessoas de morarem em outros países.

c. O aumento do turismo em massa para o Brasil.

d. A leitura de livros antigos sobre diferentes culturas.

02. O autor afirma que a percepção de que nosso modo de ser não é o único é "incontornável". O que isso significa no contexto do texto?

a. Que podemos facilmente ignorar as outras culturas.

b. Que é impossível não perceber que existem outras formas de viver além da nossa.

c. Que as outras culturas são menos importantes que a nossa.

d. Que todos os seres humanos pensam e comem da mesma maneira.

03. Qual é o primeiro sentido de "relativismo" apresentado pelo autor?

a. Que cada um deve viver isolado em seu próprio mundo.

b. Que as elites devem ser protegidas em condomínios fechados.

c. Que nenhum modo de ser é absoluto e todos merecem respeito e acolhida.

d. Que a nossa cultura é a única que possui a verdade total.

04. O autor utiliza a expressão "vale tudo" para explicar o relativismo?

a. Sim, ele defende que qualquer comportamento é aceitável, mesmo sem respeito.

b. Sim, ele acredita que não existem regras na sociedade moderna. c. Não, ele afirma que apenas a cultura ocidental tem as regras corretas.

d. Não, ele diz que "tudo vale" apenas na medida em que se mantém a relação e o respeito pela diferença do outro.

05. Qual é a crítica que Leonardo Boff faz ao "Ocidente" no texto?

a. A ilusão de achar que o seu modo de ver e viver é a única janela para a verdade.

b. Que o Ocidente não tem tecnologia suficiente para a comunicação.

c. O fato de o Ocidente gostar muito de culinária estrangeira.

d. A falta de interesse do Ocidente em organizar guerras e massacres.

06. Para explicar o bom uso do relativismo, o autor faz uma comparação com qual área do conhecimento humano?

a. A Engenharia, comparando os povos a grandes construções.

b. A Culinária, mostrando que existem várias cozinhas gostosas e verdadeiras.

c. A Medicina, comparando a verdade a um remédio para a alma.  d. O Esporte, dizendo que a vida é uma competição entre as nações.

07. No final do texto, ao citar o poeta António Machado, qual é a mensagem transmitida sobre a "Verdade"?

a. Que cada pessoa deve guardar sua verdade e nunca compartilhá-la.

b. Que a verdade não existe e ninguém deve procurá-la.

c. Que a verdade pertence apenas aos poetas e escritores famosos.

d. Que a verdade é algo que se busca junto, no diálogo e na convivência.

 

 

 

CAUSO: O CONTADOR DE CAUSO - GLOBO.COM/CAIPIRA/ - COM GABARITO

 CAUSO:  O contador de causo

 Se depender de Seu Ico, saci existe, ara

  Era um matuto dos bons e vivia num rancho do Rio Pardo, perto de Cajuru. Seu Ico era o apelido dele. Acreditava em tudo que via e ouvia. E tinha opiniões muito firmes sobre coisas misteriosas. Adorava contar casos de assombração e outros bichos:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiLJK7nSfYUq_5vCdkZhmqFzqBZ605xftBfBAw4Zp92hdqCBEI4L3Il_R7p7vqYjb1rg3urLsoCaZHhOb9P79iUX5gS2XftIRfXcwlYkbL0uV_U0I6BiyZ_PUoaIBpF5m4fpjTzSiyB1sgjuekznZI97E0lG-KFezpiwFsUHLG3ug5lerCTLGRtYE6HYSg/s1600/SACI.jpg


  - Fui numa caçada de veado no primeiro dia da quaresma! Ai ! ai! Ai! Num pode caçá na quaresma, mas eu num sabia. Aí apareceu a assombração! Arma penada do outro mundo. E os cachorro disparo. Foro tudo pro corgo pra modi fugi da bicha... Veado que é bão nem nu pensamento, pruque eis tamem pressintiru a penúria passanu ali tertu!

  - Mas era assombração mês Esse mundo é surtido!

  - Pois no mundo sortido do seu Ico também tinha saci!

  - Quando é o que o senhor viu saci, seu Ico?

  - Ara! Vi a famia toda, num foi um saci só... Tinha o saci, a sacia gravi, e os sacizim em riba da mãe, tudo,pulano numa perna

  - E o que eles fizeram ou disseram pro senhor?

  - Nada... O Saci cachaço inda ofereceu brasa pro meu paero. Gardicido! Eu disse... e entrei pra dentro modi num vê mais as tranquera...

  - E mula-sem-cabeça? Ah, seu Ico garante que existe:

  - Essa eu nu nca vi, mas ouvi o rinchando dela umas par de veis... E otro que eu tamem vi foi o tar de lobisome! Ê bicho fei! Mais num feis nada...desvirô num cachorro preto e sumiu presse mundão de meu Deus. Agora, em um dia de prescaria, aparece muito é caboclo d'água. Um caboquim pretim e jeitado que mora dentro do rio...Ah, e tem que vê tamém o caapora. Bichu fei! E o curupira! Vichi Maria, é fei dimais, tem pé virado pa trais...

  - E com tudo isso o senhor ainda se arrisca a ir pro meio do mato, seu Ico?

  - Pois vô sem medo! Qué sabe? – Dá uma gargalhada rouca e faz um ar maroto. – Qual! Tenho muito, mais muito mais medo é de gente vivo!

                                                                                                                                                                                                                                                   Globo.com/caipira/

Entendendo o texto

 01. A linguagem utilizada por Seu Ico no texto ("pruque", "num pode caçá", "pa trais") é um exemplo de:

a. Linguagem culta, utilizada em documentos oficiais e livros técnicos.

b. Linguagem coloquial regional, que reproduz a fala característica do interior ou do "matuto".

c. Gíria moderna utilizada por jovens em grandes cidades.

d. Linguagem estrangeira traduzida incorretamente para o português.

02. Segundo o relato de Seu Ico, por que a "assombração" apareceu durante a sua caçada de veado?

a. Porque ele estava caçando em uma propriedade que não era dele.

b. Porque os cachorros dele começaram a latir muito alto e acordaram os bichos.

c. Porque ele esqueceu de oferecer brasa para o pito do saci.

d. Porque ele saiu para caçar no primeiro dia da Quaresma, período em que, segundo a crença popular, não se deve caçar.

03. Sobre o encontro com o Saci, Seu Ico afirma algo incomum para as lendas tradicionais. O que ele viu de diferente?

a. Ele viu o saci voando em cima de um pássaro gigante.

b. Ele viu uma família inteira de sacis, incluindo uma "sacia" grávida e filhotes.

c. Ele viu um saci que tinha duas pernas em vez de uma.

d. Ele viu o saci se transformando em um lobisomem preto.

04. O personagem descreve vários seres do folclore brasileiro. Qual das características abaixo ele atribui ao Curupira?

a. Um bichinho preto e jeitado que mora dentro do rio.

b. Uma mula que solta fogo pelo pescoço e rincha alto.

c. Um bicho muito feio que possui os pés virados para trás.

d. Um cachorro preto que some no mundão de Deus.

05. Ao final do texto, Seu Ico revela qual é o seu verdadeiro medo. Qual é esse medo?

a. Ele tem pavor de encontrar o Curupira sozinho na mata fechada. b. Ele tem medo de que os sacis voltem para pedir mais brasa.

c. Ele confessa que tem muito mais medo de "gente viva" do que das assombrações.

d. Ele tem medo de pescar e encontrar o caboclo d'água no rio.

 

 

 

CONTO: O ENCANTAMENTO - BARROS FERREIRA - COM GABARITO

CONTO: O ENCANTAMENTO

                Barros Ferreira

    Júlio olhou. Ali estava a cena de que muito ouvira falar e lhe contestava a veracidade. No alto da copa retorcida de uma goiabeira, estava um bem-te-vi aflito, condenado à morte. Um fio invisível prendia-o e puxava-o inexoravelmente. Ele piava numa extrema aflição. Sabia que ia morrer, mas não conseguia libertar-se.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiNcOXqgSs4mMprP8H5aPHumiTnTK4p6yYLWlktUv0EfAKIOa8vpTD23FfQCdiPmAiTJJKmLY9UHsMKkDuuV_C02L03dFxFNj9yfumPU-fm1gElbiFOaKtUovRyUzqvOsUDuqnVxWM-znsQCFnB-T3zj2VRxKaaI6B5hGc4kmEGYAUIR_op-aQlanGUasA/s320/BEM%20TE%20VI.jpg
 

   Embaixo, de cabeça erguida e coleante, estava uma jararaca. Seu olhar fixo prendia o pobre bem-te-vi, que não conseguia livrar-se daquele encantamento. O réptil forçava o pássaro a descer. Hipnotizara-o. Mantinha-o preso desde o momento em que a ave, curiosa, baixara o olhar para verificar a origem do farfalhar, que se levantava do chão. Os dois olhares cruzaram-se. O réptil prendeu o pássaro. Fulminara-lhe a vontade. Não podia mais voar. E piando plangentemente pulou para o ramo que estava logo abaixo do seu pequeno corpo.

     Júlio teve ímpetos de matar a cobra. Mas um desejo cruel de assistir ao desfecho o manteve imóvel.

     O bem-te-vi deu novo pio e novo salto. Não era mais o seu canto vibrante, agudo, que traspassava a mata. Tinha algo de um grito plangente, de um apelo de socorro que quebrasse o mortal encantamento. Júlio teve pena do pássaro. Sabia que bastaria uma pedrada ou apenas um grito pra libertar o bem-te-vi, pois a serpente procuraria ver de onde partia o perigo. Também o réptil estava sujeito ao medo. E desde que voltasse a cabeça interromperia a sujeição hipnótica. A ave poderia fugir. Mas a sua curiosidade era maior. Queria ver o fim.

    E esse não tardou. O bem-te-vi soltou um pio ainda mais plangente e com as asas abertas pousou no chão.

    A jararaca moveu-se lentamente, num avanço cauteloso. Estava agora a pouco mais de um metro da ave aterrorizada.

   Mentalmente, Júlio torceu para que o pássaro reagisse e levantasse voo. Supunha, ainda, que a ave não percebera o réptil, confundido com o chão devido ao desenho da pele e cor de massapé. Mas não havia possibilidade de engano. A jararaca conseguira hipnotizar a ave, quando acertara o seu frio olhar, mortal, no olhar do pássaro, que imprudentemente espiara do alto para verificar o que era aquela mancha amarela a mover-se. E fora como se uma flecha lhe penetrasse no cérebro, matando- lhe a vontade. A fome do réptil mantinha-o preso, com firmeza. O bem-te-vi soltou mais um pio triste. A cobra avançou mais um palmo.

    No íntimo de Júlio, travou-se dura batalha entre a misericórdia e a curiosidade. O coração pulsava-lhe doidamente. Parecia ouvir-lhe as pancadas como se fosse na pele de um tambor. O pássaro desengonçado, o bico aberto, as asas distendidas, deu um passo em direção à jararaca, soltando o pio estrídulo, que traduzia o desespero do condenado à perda da vida.

   Foi então que no coração de Júlio reboou urna pancada mais forte. Venceu o sentimento de solidariedade com os mais fracos. Deitou a mão frenética a um galho seco. O estalido forte do lenho que parte foi acompanhada de um berro!        — Desgraçada!

 Ao mesmo tempo, o galho partido caía pesadamente no tronco da jararaca, que ficou aturdida.

  Quebrara-se o encanto malévolo.

  O bem-te-vi, liberto do olhar, que o mantinha cativo, ruflou as asas e disparou num voo fulminante, como flecha saída do arco. Surpreendida e contundida, a cobra desfez as suas roscas e coleou com rapidez a refugiar-se em um lugar de capim alto, onde ficaria mais segura.

   Erguendo o olhar para o céu, onde grossas nuvens eram tangidas pelo vento, Júlio exclamou, satisfeito consigo mesmo:

 — Puxa! Foi mesmo na horinha!

                                                                         (Barros Ferreira)

Entendendo o texto 

01. No início do texto, o bem-te-vi é descrito como "condenado à morte". Por que ele não conseguia voar para longe?

a. Porque ele estava com uma das asas quebradas por causa de um galho.

b. Porque ele estava sob um "encantamento" ou hipnose causado pelo olhar fixo da jararaca.

c. Porque ele decidiu que queria enfrentar a cobra para proteger seu ninho.

d. Porque ele estava preso em um visgo invisível colocado por caçadores

02. Qual foi o conflito interno vivido pelo personagem Júlio ao observar a cena?

a. Ele estava em dúvida se matava a cobra para comê-la ou se a deixava fugir.

b. Ele sentia medo de que a cobra o atacasse caso ele se aproximasse.

c. Ele travou uma batalha entre a misericórdia (pena do pássaro) e a curiosidade cruel de ver o final da cena.

d. Ele não sabia se o bem-te-vi era um pássaro verdadeiro ou apenas uma ilusão da mata.

03. O texto afirma que a jararaca também estava "sujeita ao medo". O que seria necessário para quebrar o encanto hipnótico sobre o pássaro?

a. Que o pássaro fechasse os olhos por alguns segundos.

b. Que algo fizesse a serpente voltar a cabeça, interrompendo o contato visual.

c. Que o sol se escondesse atrás das nuvens, escurecendo a mata. d. Que Júlio desse comida para a cobra para que ela perdesse a fome.

04. Como o comportamento do pássaro mudou à medida que ele descia da goiabeira?

a. Seu canto tornou-se um pio plangente, um grito de socorro de quem perdeu a vontade própria.

b. Ele começou a cantar mais alto e vibrante para assustar a jararaca.

c. Ele ficou em silêncio absoluto para tentar se esconder entre as folhas.

d. Ele começou a bicar os próprios pés para tentar acordar do sono.

05. O que finalmente motivou Júlio a agir e interromper a cena?

a. O medo de que a cobra ficasse ainda maior depois de comer o pássaro.

b. O barulho de outras pessoas chegando na mata.

c. O fato de a cobra ter tentado atacar o próprio Júlio.

d. A vitória do sentimento de solidariedade com os mais fracos sobre a sua curiosidade.

06. De que forma Júlio conseguiu libertar o bem-te-vi?

a. Ele deu um tiro de espingarda na cabeça da jararaca.

b. Ele jogou um galho seco no tronco da cobra e soltou um berro, quebrando a concentração dela.

c. Ele subiu na goiabeira e pegou o pássaro com as mãos.

d. Ele assobiou tão alto que a cobra ficou atordoada com o som.

07. Qual foi o desfecho da história para os dois animais envolvidos?

a. O bem-te-vi fugiu em um voo veloz e a cobra se refugiou, ferida e surpresa, no capim alto.

b. O bem-te-vi atacou a cobra depois de liberto e a jararaca morreu. 

c. A cobra conseguiu picar o pássaro antes de Júlio intervir, mas Júlio a matou depois.

d. Júlio levou o bem-te-vi para casa para cuidar dele e a cobra fugiu para a floresta.

 

  

POEMA: AI, PALAVRAS, AI, PALAVRAS - CECÍLIA MEIRELES - COM GABARITO

 POEMA:  Ai, palavras, ai, palavras

Que estranha potência a vossa!

 

Todo o sentido da vida

Principia a vossa porta:

O mel do amor cristaliza

Seu perfume em vossa rosa;

Sois o sonho e sois a audácia,

Calúnia, fúria, derrota...

 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgG7dawaA1IAin602_HpAV4G_kkQDWXcU__vfEop_cwEZvZOuYR4Z8PkAMa1puGSQI-NBnc54TSWvaz8TmOVIc86c7UB158OpbrmrpUZbSeTOhkLAhBtgmmkyLV7q36L1M9xtWaIzYBgwJyl0YSvOtrgTM6FiyvbEZU2eUn1_dgYdVztmEyI8l_gZyeGeA/s1600/PALAVRAS.jpg

A liberdade das almas,

ai! Com letras se elabora...

e dos venenos humanos

sois a mais fina retorta:

frágil, frágil, como o vidro

e mais que o aço poderosa!

Reis, impérios, povos, tempos,

pelo vosso impulso rodam...

 

MEIRELES, C. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985 (fragmento).

 

Entendendo o texto

01. Logo no início do poema, o eu lírico utiliza uma interjeição ("Ai") e se dirige diretamente às palavras. Qual é o sentimento principal expresso em relação a elas?

a. Indiferença, pois as palavras não têm poder sobre a vida real.

b. Raiva, porque o autor esqueceu as palavras que desejava escrever.

c. Tédio, por considerar que falar é uma perda de tempo.

d. Admiração e espanto diante da "estranha potência" que as palavras possuem.

02. O poema afirma que as palavras são "o mel do amor", mas também "calúnia, fúria, derrota". O que essa oposição de ideias revela?

a. Que o autor está confuso e não sabe o que as palavras significam.

b. A natureza dual das palavras: elas podem ser usadas tanto para o bem quanto para o mal.

c. Que as palavras só servem para contar mentiras e ofensas.

d. Que o amor é a única coisa que as palavras conseguem explicar.

03. No verso "frágil, frágil, como o vidro / e mais que o aço poderosa!", encontramos uma figura de linguagem chamada Antítese (ideias opostas). O que essa comparação quer dizer?

a. Que as palavras quebram fisicamente quando são ditas com força.

b. Que o aço é o único material que pode resistir ao poder de um livro.

c. Que, embora as palavras pareçam simples e delicadas (frágeis), elas têm uma força capaz de mudar destinos e derrubar impérios.

d. Que o vidro é mais caro que o aço, assim como as palavras bonitas.

04. De acordo com a estrofe que menciona "Reis, impérios, povos, tempos", qual é o papel das palavras na história do mundo?

a. Elas são o impulso que faz as sociedades e a história se movimentarem e mudarem.

b. Elas são apenas barulhos que desaparecem com o tempo.

c. Elas servem apenas para os reis darem ordens aos seus soldados.

d. Elas impedem que os povos conheçam a verdade sobre o passado.

05. O verso "A liberdade das almas, ai! Com letras se elabora..." sugere que:

a. A liberdade só existe para as pessoas que sabem desenhar letras bonitas.

b. O pensamento, a escrita e a comunicação são ferramentas fundamentais para a conquista da liberdade humana.

c. A alma não precisa de palavras para ser livre, apenas de silêncio.

d. As letras são correntes que prendem as almas em livros antigos

ARTIGO DE OPINIÃO: JUVENTUDE E PARTICIPAÇÃO - LUÍS DE LA MORA - COM GABARITO

 ARTIGO DE OPINIÃO: Juventude e Participação

                                       LUÍS DE LA MORA

 Inicialmente, gostaria de destacar que toda avaliação é feita a partir de uma comparação. Neste caso, essa comparação poderia ser feita em duas direções. Uma delas em relação a outras faixas etárias e a outra em relação à juventude de épocas passadas. Em relação à primeira dimensão, me parece que o comportamento político da juventude não seja diferente do de outras faixas etárias. Os que avaliam como baixa a participação política da juventude atual não podem afirmar que seja diferente da participação política das outras faixas. Existem parcelas da população passivas (e entre elas há jovens e também adultos), assim como existem parcelas da população com alta taxa de participação política, e entre elas podemos igualmente identificar jovens e adultos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj_0-JVLKgRvUN5R7oIXbU6TNhXygRI7rGJWc0IqnYTnHcBZciRsPVah2HoiVSVTx-EHlRPFL19msGKtU4ML2T1jvIgp9MPl83HO5rfXWfHN_mO8Ro9D8EDw4at4sYHADs-1I3FM6GviU1pylfsZS4eJhk4pnja6yhhvZrRim4bSxEuGZjLZ91m_PMkbfI/s320/JOVEM.jpg


Logo, uma comparação entre faixas etárias não nos leva a concluir que seja baixa a participação política da juventude. Agora, em relação à outra dimensão, a comparação entre juventudes de épocas diferentes, podemos constatar diferenças que aparentemente levem algumas pessoas a afirmações do tipo “a juventude atual não está com nada”, “antigamente os jovens tinham maior consciência e atuação política”. E aqui, novamente, devemos analisar a questão por partes. Jovens alienados e passivos sempre existiram ao lado de jovens conscientizados e ativos politicamente.

Deve-se reconhecer que a proporção entre essas duas categorias muda com o tempo, tem épocas em que a proporção de jovens ativos se amplia e em outras épocas diminui. Mas esse aumento ou diminuição é uma expressão da sociedade como um todo e não de uma determinada faixa etária. Se numa época a parcela de jovens cresce e se torna mais intensa, é porque esse mesmo fenômeno se manifesta na sociedade como um todo.  comportamento juvenil expressa as tendências gerais da sociedade como um todo. A grande diferença está nos meios de que dispõem os jovens para desenvolver sua consciência crítica ou para manifestar sua postura política. Aí, sim, registramos mudanças radicais em relação a outras épocas.

Atualmente, os jovens têm acesso aos meios de comunicação que permitem ampliar a velocidade e a abrangência da transmissão de ideias, o que oferece facilidades nunca antes disponíveis para a expressão política da juventude.

A minha resposta pode parecer otimista e tenho plena consciência de que ela é. Os jovens da atualidade não são diferentes dos jovens de outras épocas, aceitam ou rechaçam valores, assumem ou não atitudes políticas com a mesma postura dos jovens do passado, a diferença não está no grau e sim na forma. Não muda o caminho, muda a forma de caminhar.

 LUÍS DE LA MORA

Adaptado de www.cipo.org.br

 Entendendo o texto

01. Qual é o argumento do autor ao comparar a participação política dos jovens com a de outras faixas etárias (adultos)?

a. Ele afirma que os jovens participam muito mais do que os adultos.

b. Ele defende que o comportamento político da juventude não é diferente do de outras idades, havendo pessoas ativas e passivas em ambos os grupos.

c. Ele acredita que os adultos são os únicos que possuem consciência política real.

d. Ele sugere que os jovens deveriam parar de se comparar com os adultos.

02. O que o autor pensa sobre frases como "a juventude atual não está com nada" ou "antigamente os jovens eram mais ativos"?

a. Ele analisa que jovens ativos e passivos sempre existiram em todas as épocas.

b. Ele concorda totalmente, pois acha que os jovens de hoje são alienados.

c. Ele acredita que antigamente não existiam jovens alienados.

d. Ele afirma que a juventude de hoje é a primeira a ter consciência política.

03. Segundo o texto, quando a parcela de jovens ativos cresce em uma determinada época, isso é sinal de que:

a. Os jovens decidiram mudar sozinhos, sem influência de ninguém.

b. As escolas passaram a obrigar os alunos a protestar.

c. Os adultos deixaram de participar para dar lugar aos mais novos.

d. Esse fenômeno de maior participação está acontecendo na sociedade como um todo.

04. Qual é a "grande diferença" apontada pelo autor entre a juventude de hoje e a de épocas passadas?

a. O grau de inteligência dos jovens, que aumentou muito.

b. Os meios disponíveis (como a comunicação e tecnologia) para desenvolver a consciência e manifestar opiniões.

c. O fato de que hoje os jovens não gostam mais de política.

d. A coragem, que era muito maior nos jovens do passado.

05. Como o acesso aos meios de comunicação modernos influencia a expressão política da juventude atual?

a. Atrapalha a transmissão de ideias, pois causa muita confusão.

b. Faz com que os jovens prefiram apenas diversão em vez de política.

c. Permite ampliar a velocidade e a abrangência da transmissão de pensamentos e críticas.

d. Garante que todas as ideias transmitidas sejam verdadeiras.

06. O que o autor quer dizer com a frase final: "Não muda o caminho, muda a forma de caminhar"?

a. Que os jovens estão perdidos e não sabem qual caminho seguir.

b. Que as estradas antigamente eram mais difíceis de percorrer do que as de hoje.

c. Que a política mudou tanto que o caminho antigo foi destruído.

d. Que os objetivos e a postura política continuam os mesmos, o que mudou foi o jeito (os meios) de agir.

07. O autor se define como alguém "otimista" em relação ao tema. Por que ele tem essa visão?

a. Porque ele acha que os jovens de hoje são perfeitos e nunca erram.

b. Porque ele acredita que os jovens mantêm a mesma essência de busca por valores do passado, apenas usando novas ferramentas. c. Porque ele não conhece os problemas da juventude atual.

d. Porque ele acredita que a política vai deixar de existir no futuro.

 

 

 

 

 

ARTIGO DE OPINIÃO: PROMOÇÃO X MITIFICAÇÃO DA LEITURA - BRITTO. L.L. E BARZOTTO V.H. - COM GABARITO

 ARTIGO DE OPINIÃO: PROMOÇÃO X MITIFICAÇÃO DA LEITURA

                                                     (BRITTO, L. L. e BARZOTTO, V. H.

 

Este é o quadro: crendo que a questão da leitura é um problema pessoal, de gosto e interesse, que pode ser resolvido através do estímulo e do proselitismo*, constrói-se um movimento em que, na tentativa de interferir no comportamento dos sujeitos, de modo a fazê-los leitores, se combinam sedução e persuasão intelectual, através da vinculação da leitura ora a um valor maior (leitura de ilustração; leitura redentora) ora a um apelo emocional (leitura hedonista; leitura de entretenimento), e da criação de estratégias e ambientes favorecedores de "práticas leitoras" (sensibilização, ambiência, atração, contação de história, dramatização, etc.).

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEghQ9373zey1qqIyOLLLmNDicmQ9UbBS1F4B5-s3tWhuehKyfhIGh-NF-U2TLkmxZZo6hHLVQW_Awf1Z3BXZI5keqougwkCv4apEKiY1j7qFV3PJEvy80gLQcbmaUVqt_K8kxws4IUaflEOZsWU5avl2BvYbD_8NogKhPdbu2ZGhVPC5ITl3gu2KxrvnGA/s1600/LEITURA.jpg


A promoção da leitura, vista desde uma perspectiva não-ingênua, é um problema político e não apostólico. O leitor não é um sujeito desarraigado de sua condição de classe, que encontra na leitura uma forma de redenção individual. O que está em questão é o direito do cidadão de ter acesso (material e intelectual) à informação escrita e à cultura letrada e não um comportamento de avaliação subjetiva. Ninguém fica necessariamente bom porque lê, nem faz sentido apelos morais para que as pessoas leiam. (...)

Do mesmo modo que, no que diz respeito à saúde, cabe ao Estado garantir uma rede de atenção integral ao cidadão (hospitais, médicos, medicamentos) e garantir o investimento em pesquisa e produção, compete ao Estado garantir o direito à leitura, através da instalação de bibliotecas, salas de leitura e aparelhamento das escolas; da formação e remuneração apropriada aos profissionais ligados à leitura (bibliotecários, professores); e do estímulo à produção intelectual cultural e científica. (...)

Se queremos promover a leitura efetivamente, como bem público, como marca de cidadania, temos de abandonar visões ingênuas de leitura e investir no conhecimento objetivo das práticas de leitura e num movimento pelo direito de poder ler. O excluído de fato da leitura não é o sujeito que sabe ler e que não gosta de romance, mas o mesmo sujeito que, no Brasil de hoje, não tem terra, não tem emprego, não tem habitação.

A questão da leitura na sociedade contemporânea é uma questão político-social e não de gosto ou prazer!

 

(BRITTO, L. L. e BARZOTTO, V. H. "Em Dia: Leitura & Crítica". Campinas: Associação de Leitura do Brasil, agosto de 1998.)

Entendendo o texto

01. De acordo com o texto, qual é a visão "ingênua" que se tem sobre a leitura?

a. Que a leitura é um direito de todos os cidadãos garantido pelo Estado.

b. Que a leitura é um problema de gosto pessoal que se resolve apenas com estímulos e festas.

c. Que a leitura deve ser ensinada apenas nas bibliotecas públicas. d. Que ler é importante para conseguir um bom emprego no futuro.

02. Os autores afirmam que a promoção da leitura não deve ser vista como algo "apostólico", mas sim como um problema:

a. Religioso e espiritual.

b. Emocional e de entretenimento.

c. Político e de direito do cidadão.

d. De falta de criatividade dos professores.

03. O que o texto defende que o Estado deve fazer para garantir o direito à leitura?

a. Obrigar todas as pessoas a lerem pelo menos um livro por mês. b. Criar propagandas na TV dizendo que ler faz as pessoas ficarem bonitas.

c. Instalar bibliotecas, equipar escolas e pagar bem os professores e bibliotecários.

d. Distribuir apenas livros de romance e contos de fadas para as crianças

04. Segundo o texto, quem é o verdadeiro "excluído" da leitura no Brasil?

a. O cidadão que não tem acesso a direitos básicos como terra, emprego e habitação

b. A pessoa que sabe ler, mas prefere ver televisão ou jogar videogame.

c. O estudante que não gosta de ler os livros clássicos da literatura.

d. Os professores que não têm tempo de ler durante o intervalo das aulas.

05. Qual é a conclusão principal dos autores sobre a leitura na sociedade atual?

a. Que ler é um prazer individual e ninguém deve interferir nisso.

b. Que a leitura é uma questão político-social e um direito de acesso à informação.

c. Que as pessoas só vão ler se as histórias forem dramatizadas com fantasias.

d. Que a leitura serve apenas para tornar as pessoas mais "boas" e educadas.

 

 

POEMA: CANÇÃO DO AMOR PERFEITO - CECÍLIA MEIRELES - COM GABARITO

 POEMA: CANÇÃO DO AMOR PERFEITO

                Cecília Meireles

O tempo seca a beleza,

seca o amor, seca as palavras.

Deixa tudo solto, leve,

desunido para sempre

como as areias nas águas.

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg70A2M7Sf1GtqM2B720a7bKtSaNo8entPFAQEfd8XI3LQOsd_teryLbDifxSuX_vCwsAf4ShMwcMfv6B_us2835EseM1RYGygxIzjBWnbFf3WC8FQBXS6CToLBgD1mqhdPcP9gXmErcSYWG4AcEhWoghVtL_l1kqTls3a4QExAaJhs31cCv5zdozmKaIA/s1600/CECILIA.jpg 
 

O tempo seca a saudade,

seca as lembranças e as lágrimas.

Deixa algum retrato, apenas,

vagando seco e vazio

como estas conchas das praias.

 

O tempo seca o desejo

e suas velhas batalhas.

Seca o frágil arabesco,

vestígio do musgo humano,

na densa turfa mortuária.

 

Esperarei pelo tempo

com suas conquistas áridas.

Esperarei que te seque,

não na terra, Amor-Perfeito,

num tempo depois das almas.

 

            (MEIRELES, C. "Antologia poética". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.)

Entendendo o texto

01. De acordo com a primeira estrofe, o que o tempo faz com a beleza, o amor e as palavras?

a. Ele faz com que fiquem mais fortes e unidos.

b. Ele os "seca", deixando tudo solto e desunido.

c. Ele os transforma em pedras preciosas no fundo do mar.

d. Ele faz com que as pessoas esqueçam como falar. Resposta: B

02. Na segunda estrofe, o autor compara o que sobra das lembranças (um retrato seco e vazio) com qual elemento da natureza?

a. Com as nuvens do céu.

b. Com as flores do campo.

c. Com as conchas das praias.

d. Com as árvores da floresta.

03. O uso constante da palavra "seca" ao longo do poema serve para mostrar que o tempo:

a. Desgasta e apaga os sentimentos e as coisas vivas.

b. É como uma chuva que limpa tudo.

c. Ajuda as plantas a crescerem mais rápido.

d. Deixa as pessoas mais felizes e animadas. Resposta: B

04. Na última estrofe, a voz que fala no poema diz que vai "esperar pelo tempo". O que ela espera que aconteça com o "Amor-Perfeito"?

a. Que ele nunca mude e continue sempre igual.

b. Que ele seja plantado na terra para virar uma flor.

c. Que o tempo também o seque, mas em um momento "depois das almas".

d. Que ele desapareça imediatamente para não sofrer.

05. Qual é o sentimento principal que o poema transmite sobre a passagem do tempo?

a. Alegria e entusiasmo com as novidades.

b. Melancolia e uma sensação de que nada dura para sempre.

c. Raiva e revolta contra a natureza.

d. Medo de animais que vivem na água e na areia.

 

 

 

 

CRÔNICA DA ABOLIÇÃO - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Crônica da abolição

Machado de Assis

 Eu pertenço a uma família de profetas “après coup”*, “post factum”, “depois do gato morto”, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhtmy9sD277cbnrjwVJl-qr9tNxUk-2eysCjiCcxOhe-th2iqnYtZtEzxknbH7EkOOwY_iiBxyxPIsLuc155lc2fCAkioM6XZ0TtbguyJLctYDVChL1dHmRhXIjQsLtGlsHPs4Qqra7YJOMqtIfAJIVWUdkJynUQeWk89r446aHdxrv-5RhojEAPpXSTG8/s320/Praca-Quinze-Rio-de-Janeiro-Jean-Baptiste-Debret.jpg


Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (“coupe do milieu”, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

            — Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida, e tens mais um ordenado, um ordenado que...

            — Oh! meu senhô! Fico.

            — Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente.

Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...

            — Artura não qué dizê nada, não, senhô...

            — Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

            — Eu vaio um galo, sim, senhô.

            — Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. [...]

MACHADO DE ASSIS

http://portal.mec.gov.br 

Entendendo o texto

01. Por que o narrador decide alforriar (libertar) o jovem Pancrácio na segunda-feira antes da lei ser votada?

a. Porque ele sempre foi contra a escravidão e esperava por esse momento.

b. Para parecer um "profeta" que previu a lei e ganhar fama de bondoso antes dos outros.

c. Porque Pancrácio pediu a liberdade para poder se casar.

d. Porque ele não tinha mais dinheiro para sustentar o escravo.

02. Como foi a comemoração da liberdade de Pancrácio organizada pelo patrão?

a. Uma festa simples apenas para a família na cozinha.

b. Uma missa na igreja da cidade em agradecimento a Deus.

c. Um dia de folga para que Pancrácio pudesse visitar seus parentes.

d. Um jantar solene, chamado de banquete, com discursos e brindes de champanhe.

03. O que o narrador ofereceu a Pancrácio para que ele continuasse trabalhando na casa após ser libertado?

a. Uma sociedade nos negócios da família.

b. Apenas moradia e comida, sem pagamento em dinheiro.

c. Um pequeno ordenado (salário), que ele disse que poderia crescer no futuro.

d. Uma casa própria nos fundos do terreno.

04. No dia seguinte à liberdade, o narrador dá um "peteleco" em Pancrácio. Qual foi a justificativa dada pelo patrão para esse ato?

a. Ele afirmou que era um "impulso natural" e que isso não tirava o direito civil de liberdade de Pancrácio.

b. Ele disse que o peteleco era uma forma de carinho.

c. Ele alegou que Pancrácio o havia agredido primeiro.

d. Ele disse que agora que Pancrácio era livre, precisava apanhar para aprender a trabalhar.

05. Qual é a principal ironia presente no final do texto, quando o narrador fala sobre os chutes e puxões de orelha que dá em Pancrácio?

a. A ironia de que Pancrácio agora é quem manda no patrão.

b. A ironia de que, embora Pancrácio seja legalmente livre, a sua condição de vida e o tratamento agressivo do patrão continuam os mesmos.

c. A ironia de que o patrão ficou pobre após libertar o escravo.

d. A ironia de que Pancrácio ficou muito rico com o salário que recebeu.

06. Como Pancrácio reage ao tratamento do patrão (pontapés e insultos) após a abolição, segundo o narrador?

a. Ele reage com violência e tenta bater no patrão.

b. Ele decide ir embora da casa imediatamente.

c. Ele recebe tudo humildemente e o narrador acredita que ele fica até alegre.

d. Ele denuncia o patrão para as autoridades da época.

07. O que Machado de Assis pretende criticar com esta crônica?

a. A rapidez com que a Lei Áurea foi aprovada.

b. O comportamento de pessoas que se diziam "boazinhas" e abolicionistas, mas mantinham preconceitos e práticas violentas.

c. A falta de festas e banquetes na cidade do Rio de Janeiro.

d. A dificuldade de se encontrar bons empregados domésticos naquela época.