sábado, 11 de julho de 2020

TEXTO - O POVO - EÇA DE QUEIROZ - COM GABARITO

Texto: O povo

         Eça de Queiroz

    Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, e se lamentam em vão.

        Estes homens são o Povo.

        Estes homens, sob o peso do calor e do sol, transidos pelas chuvas, e pelo frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua forca, para criar a pão, o alimento de todos.

        Estes são o Povo, e são os que nos alimentam.

        Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.

        Estes homens são o Povo, e são os que nos vestem.

        Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respirando mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.

        Estes homens são o Povo, e são as que nos enriquecem.

        Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, a neve, a chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.

        Estes homens são o Povo, e são os que nos defendem.

        Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados.

        Estes homens, são os que nos servem.

        E por isso que os que tem coração e alma, e amam a Justiça, devem lutar e combater pelo Povo.

        E ainda que não sejam escutados, tem na amizade dele uma consolação suprema.

  O povo. José Maria Eça de Queiroz. In: Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro.

                        Fonte: Livro – Encontro e Reencontro em Língua Portuguesa – 8ª Série – Marilda Prates – Ed. Moderna, 2005 – p. 132/4.

Entendendo o texto:

01 – O autor apresenta “O povo”. Que características são citadas?

      Instintos sagrados e luminosos, divinas bondades, inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas.

02 – O lamento do povo é em vão? Por quê?

      Seu lamento não é ouvido pelas autoridades. Poucas reivindicações são atendidas.

03 – No desenvolvimento, o autor se refere a quatro tipos de homens, com relação a sua profissão. Cite-os.

      Lavradores, operários, mineiros, soldados.

04 – Indique o tipo de vida e de trabalho dos lavradores.

      Os lavradores sofrem com o calor do sol, com a chuva e o frio. Não têm boa alimentação e nem vestimentas dignas.

05 – Fale sobre a vida dos operários.

      Os operários vivem nas fábricas, pálidos porque não apanham a luz do sol. Muitas vezes sem família e maiores alegrias.

06 – Como trabalham os mineiros?

      Os mineiros vivem nas minas, respirando mal, sema luz do sol, e as belezas da natureza. Vivem sujos, rotos e curvados.

07 – A vida dos soldados é dura? Comprove com frases do texto.

      “Estes homens, nos tempos de lutas e crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos...”

08 – Entre esses homens há uma característica comum. Qual é ela?

      A vida muita sofrida.

09 – Quem deve lutar por esse povo sofrido?

      Aqueles que têm coração e sentimento (alma) e amam a justiça.

10 – Os que lutam pelo povo podem não ser ouvidos em suas reivindicações. Por quem?

      Pelas autoridades.

11 – Mesmo não sendo ouvidos, esses reivindicadores, em nome do povo, terão uma recompensa. Qual?

      A amizade do povo.


NOTÍCIA: ECOSSISTEMAS URBANOS - GENEBALDO F. DIAS - COM GABARITO

NOTÍCIA: Ecossistemas urbanos

           Genebaldo F. Dias

        As cidades brasileiras, em sua absoluta maioria, padecem dos males da falta de planejamento urbano, da carência dos serviços essenciais de saneamento e da incompetência gerencial. Mergulhadas em crises financeiras crônicas, as nossas cidades não têm oferecido perspectivas de melhoria da qualidade de vida aos seus habitantes. O mau uso dos parcos recursos financeiros disponíveis – quando estes não vão engrossar fortunas – aliado a entraves políticos e burocráticos empurraram a maioria das grandes cidades brasileiras para buracos profundos, de onde só sairão com grandes sacrifícios.

        Problemas ligados à coleta e tratamento de lixo, à destinação de resíduos perigosos, poluição do ar, abastecimento de água, habitação, saúde e educação, dentre outros, só tenderão a aumentar, caso permaneça o atual contexto de sustentação do modo de desenvolvimento adotado e a forma de diálogo Norte-Sul dos nossos credores.

        O nosso país foi apontado no Relatório 90 do Banco Mundial como o terceiro do mundo em má qualidade de vida, na frente apenas de Serra Leoa e Honduras. A falta de saneamento e as condições de nutrição e moradia nos levaram a um povo doente (65% das internações hospitalares são provocadas por doenças decorrentes de saneamento básico inadequado). São dez milhões de brasileiros com esquistossomose, seis milhões com doença de Chagas, cinco milhões de doentes mentais... e por aí seguem os dados da OMS.

                                   Genebaldo F. Dias. “Educação ambiental: princípios e práticas”. In: Agenda Ecológica/97.

                        Fonte: Livro – Encontro e Reencontro em Língua Portuguesa – 8ª Série – Marilda Prates – Ed. Moderna, 2005 – p. 150/1.

Entendendo o texto:

01 – Explique o que é:

a)   Ecossistema urbano: Ecossistema é o conjunto dos relacionamentos mútuos entre o ambiente, a flora, a fauna e os micro-organismos.

b)   Planejamento urbano: Organização, planejamento da cidade pera evitar que ela cresça desordenadamente ou para resolver outros problemas.

c)   Saneamento básico: Conjunto de medidas para assegurar as condições sanitárias essenciais à qualidade de vida da população, como a canalização do esgoto, por exemplo.

d)   Incompetência gerencial: Falta de habilidade para gerenciar.

e)   Qualidade de vida: Existência em condições ideais, em que as necessidades humanas básicas são atendidas.

f)    Entraves políticos e burocráticos: Dificuldades, impedimentos causados por problemas políticos ou burocráticos (relativos a organizações rígidas e malconduzidas).

02 – “Mergulhadas em crises financeiras crônicas, as nossas cidades não têm oferecido perspectivas de qualidade de vida aos seus habitantes”. O verbo mergulhar está sendo empregado em sentido conotativo. Explique o seu significado no texto.

      Envolvidas por crises financeiras crônicas...

03 – O verbo engrossar é também usado em sentido conotativo. Explique o significado em que esse verbo é empregado no texto.

      Fazer aumentar, fazer crescer fortunas.

04 – Dê um antônimo de parcos.

      Abundantes.

05 – “O mau uso dos parcos recursos financeiros disponíveis – quando estes não vão engrossar fortunas – aliado a entraves políticos e burocráticos empurraram a maioria das grandes cidades brasileiras para buracos profundos, de onde só sairão com grandes sacrifícios”.

a)   Que expressão o pronome demonstrativo estes substitui?

Parcos recursos financeiros.

b)   Identifique o elemento aliado a entraves políticos e financeiros.

O mau uso dos parcos recursos financeiros disponíveis.

c)   Quem ou o que empurrou “a maioria das grandes cidades brasileiras para buracos profundos”?

O mau uso dos parcos recursos financeiros disponíveis aliado a entraves políticos e burocráticos.

d)   Na frase acima, são indicados dois possíveis destinos para os “parcos recursos financeiros disponíveis”. Identifique-os.

Podem ser simplesmente mal-empregados ou ainda desviados, usados para engrossar fortunas.

06 – Observe novamente os elementos apresentados:

·        O mau uso dos recursos;

·        O engrossamento de fortunas;

·        Os entraves políticos e burocráticos.

Agora, reescreva a frase do texto, sem usar os travessões e sem mudar o sentido original da frase.

      O mau uso dos recursos, ou a sua utilização para o engrossamento de fortunas, aliado aos entraves políticos e burocráticos empurraram.

07 – Explique a função da frase apresentada entre travessões.

      Apresentar uma alternativa ao primeiro uso mencionado dos parcos recursos disponíveis.

08 – Leia novamente o segundo parágrafo e responda:

a)   Por quem é adotado o “modo de desenvolvimento” mencionado no texto?

Pelo Brasil.

b)   Pelos problemas mencionados, podemos concluir que o modo de desenvolvimento adotado favorece ou não a qualidade de vida? Por quê?

Não favorece, pois não privilegia as necessidades básicas do ser humano.

09 – Leia novamente o último parágrafo e responda: Qual o efeito causado pelo autor ao mencionar Serra Leoa e Honduras?

      Indicar que o Brasil está muito atrasado no que diz respeito à manutenção da qualidade de vida, já que os países mencionados são subdesenvolvidos.

10 – O título do texto indica que a má qualidade de vida nos centros urbanos é também uma questão ambiental. Por quê?

      Porque a expressão ecossistemas urbanos ressalta o fato de que a vida nos centros urbanos também deve obedecer a um certo equilíbrio, se quisermos manter a qualidade de vida.

   

 


ARTIGO DE OPINIÃO: NOSSA FOME - JOSÉ FERNANDES DE OLIVEIRA - COM GABARITO

ARTIGO DE OPINIÃO: Nossa fome

        José Fernandes de Oliveira

        Que pequenos ou grandes países em guerra ou vítimas de catástrofes impossíveis de contornar tenham conhecido e ainda conheçam a fome é compreensível, ainda que não se explique.

        Que países vítimas de clima ingrato e solo ainda mais ingrato tenham que dosar a ração alimentar de seus filhos, entende-se.

        Que um país da extensão do nosso, com um oceano a lhe banhar as costas, com terras cultiváveis, inclusive as do ressequido Nordeste, conheça o triste espetáculo da fome no campo e nos pequenos e grandes centros é mais do que triste e lamentável: é revoltante.

        O país apontado como o futuro celeiro do mundo está vendo seus filhos remexer monturos e latas de lixo, saquear depósitos e armazéns, minguar de fome, e, no desespero de não saber onde encontrar a próxima ração dos filhos, cair na tentação da violência.

        Até agora o fenômeno, que já existia há muitos anos no campo e na periferia das cidades, não sensibilizava a imprensa porque parecia pequeno e contido. Agora, porém, explode na casa do vizinho desempregado e vem para pertinho de todos. Perto demais para deixar o brasileiro indiferente. Não é possível disfarçar a fome de agora com consumismo, sexo, futebol e palavras de esperança. A fome está doendo demais.

        O Zé e a Maria começam a cair nas filas e no emprego, de noite o estomago dói e o dia inteiro as crianças choram de fome, enquanto pai esmurra a parede com ódio do governo e dos que deixaram o país chegar a esse estado de coisas.

        Aumentam os assaltos, a violência, o medo e o desespero. E as explicações já não explicam por que um país como o nosso se endividou tanto, planejou tão mal e plantou de maneira tão errada, permitindo preços extorsivos que dificultam o plantio e a colheita e tornam impossível a compra do que o solo produziu.

        Na terra que, segundo Pero Vaz de Caminha, “é boa e dá de tudo”, o povo passa fome.

        Em 1980, o Papa repetiu isso em Teresina. A Igreja vive dizendo isto. Os brasileiros mais conscientes previam isto. E nada foi feito. E o governo, a oposição e as lideranças precisam achar a resposta antes da anarquia. Um povo com fome devora tudo, inclusive seus líderes.

        No momento, o Brasil tem muitos problemas, e graves, mas um que não pode esperar é a comida. Matar a fome do povo é uma urgência. E não adianta explicar. A fome do brasileiro não pode ser explicada nem justificada. Não é acaso, é desgoverno mesmo.

                      OLIVEIRA scj, José Fernandes de. “O recado”. Revista Mensal de Problemas Humano-Cristãos, abr. 1984.

                        Fonte: Livro – Encontro e Reencontro em Língua Portuguesa – 8ª Série – Marilda Prates – Ed. Moderna, 2005 – p. 110/2.

Entendendo o texto:

01 – Identifique o significado, no texto, das palavras em destaque:

a)   “... ou vítimas de catástrofes impossíveis de contornar...”

Pessoas que sofrem infortúnios / grandes desgraças / solucionar.

b)   “Que países de clima ingrato e solo ainda mais ingrato tenham que dosar a ração alimentar, entende-se”.

Inconstante, improdutivo.

c)   “Que um país da expansão do nosso, com um oceano a banhar-lhe a costa, com terras cultiváveis, inclusive as do ressequido Nordeste, conheça o triste espetáculo da fome no campo...”

Que podem ser cultivadas: terras onde se pode plantar e colher.

02 – Substitua as locuções adjetivas pelo adjetivo equivalente. Escolha quatro e forme frases. Faça tudo em seu caderno.

a)   Com fomeFaminto.

b)   Fome que não se explicainexplicável.

c)   Nordeste com secaressequido.

d)   Brasileiro com indiferençaindiferente.

03 – “A fome do brasileiro não pode ser explicada nem justificada”. Qual é a diferença entre explicar e justificar a fome do brasileiro?

      Explicar: é identificar as causas.

      Justificar: é legitimar as causas.

04 – “... enquanto o pai esmurra a parede com ódio do governo e dos que deixaram o país chegar a esse estado de coisas”. Substitua a expressão em destaque sem alterar o sentido do texto.

      Essa situação / a esse ponto.

05 – Identifique a diferença de sentido entre:

·        “A igreja vive dizendo isso”.

·        O padre vive dizendo isso.

      A 1ª frase, a posição da instituição está sendo apresentada e, a 2ª frase, a opinião de apenas um dos membros da instituição.

06 – “Que pequenos ou grandes países em guerra ou vítimas de catástrofes impossíveis de contornar tenham conhecido e ainda conheçam a fome é compreensível, ainda que não se explique.”

a)   Que catástrofes poderiam ser impossíveis de contornar?

Aquelas causadas pela própria natureza, independentemente da ação humana.

b)   No Brasil, inúmeras pessoas ainda atravessam dificuldades devido ao excesso ou à falta de chuva. Milhares de pessoas que vivem em encostas de morros, por exemplo, ficam desabrigadas e desamparadas após grandes enchentes. Nesses casos, você acha que as catástrofes são também compreensíveis? Por quê?

Em casos como esse, a ausência de condições adequadas de habitação provocou a tragédia e não a natureza.

07 – “O país apontado como futuro celeiro do mundo está vendo seus filhos remexer monturos e lata de lixo, saquear depósitos e armazéns...”

a)   Qual o sujeito do verbo estar?

O país apontado como futuro celeiro do mundo.

b)   Que país é apontado como futuro celeiro do mundo?

O Brasil, devido às grandes áreas potencialmente cultiváveis.

c)   No lugar do nome do país, foi empregada uma expressão. Ela oferece informações a respeito do país. Qual a relação entre a informação oferecida e a ideia apresentada no terceiro parágrafo.

A expressão futuro celeiro do mundo reforça a ideia defendida no terceiro parágrafo.

d)   Conclua: qual o efeito de usarmos uma expressão no lugar de um nome para indicarmos o sujeito de uma ação?

Oferecer informações a respeito do sujeito relevantes em relação à tese apresentada.

08 – Quem são o Zé e a Maria a que o autor se refere?

      Os nomes utilizados não são indivíduos, o autor usou nomes comuns na sociedade brasileira para representar todo o povo.

09 – De acordo com o texto, quem teria deixado o país chegar a “esse estado de coisas”?

      O governo, a oposição, as lideranças.

10 – “Na terra que, segundo Caminha, ‘é boa e dá tudo’, o povo passa fome”. Pero Vaz de Caminha, na época do descobrimento do Brasil, escrevia cartas ao governo português. Muitas vezes, exaltava as belezas e os recursos do país. Qual a importância, para o texto, de se mencionar as palavras de Caminha?

      É uma referência ao início da história da colonização do Brasil e ao fato de que o país sempre contou com recursos naturais suficientes para que não houvesse fome.

11 – “Em 1980 o papa repetiu isso em Teresina. A igreja vive dizendo isso. Os brasileiros mais conscientes previam isso.” Explique a ideia que está sendo substituída pelo pronome isso.

      A ideia de que em uma terra em que há tantos recursos o povo passa fome.

12 – “E o governo, a oposição e as lideranças precisam achar a resposta antes da anarquia. Um povo com fome devora tudo. Inclusive seus líderes”.

a)   O verbo devorar está sendo utilizado no sentido denotativo ou conotativo?

Conotativo. Porque não possui somente o significado de comer “com fúria” mas de “engolir” os causadores de sua fome, miséria, estado de calamidade.

b)   Explique de que maneira a escolha dessa palavra está relacionada ao tema abordado pelo autor.

Devorar está relacionado à fome.

13 – “É desgoverno mesmo!”

a)   Considerando a afirmação em destaque, responda: para o autor, quem é o responsável pela fome no Brasil? Por quê?

O governo, pois ele considera que os governantes e os demais políticos não têm feito a sua parte.

b)   A escolha de uma palavra que é a negação de governo tem um significado. Que significado é esse?

Para o autor, o governo é omisso.

c)   De acordo com o texto, a fome provocada pela omissão dos governantes pode levar à anarquia. Veja mais uma vez o significado de anarquia e de desgoverno no dicionário e procure explicar qual seria a diferença entre a anarquia e o desgoverno mencionado pelo autor.

Anarquia – seria a ausência de uma autoridade estabelecida ou o estabelecimento de uma ordem em que o povo faz valer os seus direitos.

Desgoverno – é também a ausência de uma autoridade estabelecida, mas por omissão e não por não haver governantes oficiais.

14 – Por que, segundo o autor, é revoltante o fato de haver fome no Brasil?

      Porque a fome no Brasil não é fruto da falta de recursos, mas de administração inadequada dos recursos.

15 – Você concorda com a opinião do autor? Por quê?

      Resposta pessoal do aluno.


quinta-feira, 9 de julho de 2020

MÚSICA(ATIVIDADES): TRISTE, LOUCA OU MÁ - JULIANA STRASSACAPA - COM GABARITO

Música(Atividades): Triste, Louca ou Má

                                                               Juliana Strassacapa

Triste, louca ou má

Será qualificada ela

Quem recusar

Seguir receita tal.

 

A receita cultural

Do marido, da família

Cuida, cuida da rotina.

 

Só mesmo rejeita

Bem conhecida receita

Quem, não sem dores

Aceita que tudo deve mudar.

 

Que um homem não te define

Sua casa não te define

Sua carne não te define

Você é seu próprio lar.

 

Um homem não te define

Sua casa não te define

Sua carne não te define

Você é seu próprio lar.

 

Ela desatinou

Desatou nós

Vai viver só.

 

Ela desatinou

Desatou nós

Vai viver só.

 

Eu não me vejo na palavra

Fêmea: Alvo de caça

Conformada vítima.

 

Prefiro queimar o mapa

Traçar de novo a estrada

Ver cores nas cinzas

E a vida reinventar.

 

E um homem não me define

Minha casa não me define

Minha carne não me define

Eu sou meu próprio lar.

 

E um homem não me define

Minha casa não me define

Minha carne não me define

Eu sou meu próprio lar.

 

Ela desatinou

Desatou nós

Vai viver só.

 

Ela desatinou

Desatou nós

Vai viver só.

 

Ela desatinou (e um homem não me define)

Desatou nós (minha casa não me define)

Vai viver só (minha carne não me define)

Eu sou meu próprio lar.

 

Ela desatinou (e um homem não me define)

Desatou nós (minha casa não me define)

Vai viver (minha carne não me define)

Eu sou meu próprio lar.

          Composição: Sebástian Piracés - Ugarte / Rafael Gomes / Mateo Piracés - Ugarte / Andrei Martinez Kozyreff / Juliana Strassacapa.

Entendendo a canção:

01 – A alternativa que melhor interpreta esta canção, da banda “Francisco, El Hombre”, é:

a)   “Triste”, “louca” e “má” são qualificações sempre atribuídas a mulheres que não se inserem em famílias tradicionais e rompem com preceitos sociais atuais.

b)   A “receita cultural”, por ser “do marido, da família”, está no âmbito do familiar, portanto não se refere à sociedade. Dessa forma, rompe com essa receita é algo indolor, como afirmar os versos “Quem não sem dores / Aceita que tudo deve mudar”.

c)   Nos versos 13 e 14, os termos “casa” e “carne” são metáforas que representam os papéis sociais atribuídas às mulheres.

d)   A construção “ela desatinou” é paradoxal em relação à canção, já que o eu lírico critica a mulher que rompe com essa “receita” por perder o juízo.

e)   A expressão “Desatou nós” é polissêmica, assim como a expressão “queimar o mapa”, e ambas podem ser lidas, inclusive, de modo denotativo na canção.

02 – Que crítica há na canção?

      A canção critica o fato de que, às mulheres, são atribuídos certos papéis sociais, e a problematização da ideia de normatização de certos comportamentos sociais.

03 – Considera-se a letra dessa canção, na qualidade de poesia moderna com que tipo de texto?

      Um texto que narra o processo de emancipação e a busca por direitos iguais das mulheres.

04 – Como é a mulher citada na canção?

      Ela não quer ter filhos, deseja viver sozinha, não pretende ter uma vida que se resume basicamente em limpar a casa, cuidar dos filhos e servir seu marido, que acredita ter um empoderamento sobre ela.

05 – Por que a mulher da canção é vista como triste, louca e má?

      Por ela rejeitar a figura masculina.

06 – A expressão “A receita cultural”, que as mulheres não devem seguir, citada na canção, é imposta por quem?

      É imposta por uma ideologia na sociedade.


CRÔNICA: ELA - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - COM GABARITO

Crônica: ELA       

                  Luís Fernando Veríssimo

        Ainda me lembro do dia em que ela chegou lá em casa. Tão pequenininha! Foi uma festa. Botamos ela num quartinho dos fundos. Nosso Filho – Naquele tempo só tinha o mais velho – ficou maravilhado com ela. Era um custo tirá-lo da frente dela para ir dormir.

        Combinamos que ele só poderia ir para o quarto dos fundos depois de fazer todas as lições.

        -- Certo, certo. – Eu não ligava muito para ela. Só para ver um futebol ou política. Naquele tempo, tinha política. Minha mulher também não via muito. Um programa humorístico, de vez em quando. Noites Cariocas… Lembra de Noites Cariocas?

        -- Lembro vagamente. O senhor vai querer mais alguma coisa? E me serve mais um destes. Depois decidimos que ela podia ficar na copa. Aí ela já estava mais crescidinha. Jantávamos com ela ligada, porque tinha um programa que o garoto não queria perder. Capitão Qualquer Coisa. A empregada também gostava de dar uma espiada. José Roberto Kely. Não tinha um José Roberto Kely?

        -- Não me lembro bem. O senhor não me leva a mal, mas não posso servir mais nada depois deste. Vamos fechar.

        -- Minha mulher nem sonhava em botar ela na sala. Arruinaria toda a decoração. Nessa época já tinha nascido o nosso segundo filho e ele só ficava quieto, para comer, com ela ligada. Quer dizer, aos pouco ela foi afetando os hábitos da casa. E então surgiu, surgiu um personagem novo nas nossas casas que iria mudar tudo. Sabe quem foi?

        -- Quem?

        -- O Sheik de Agadir. Eu, se quizesse, poderia processar o Sheik de Agadir. Ele arruinou o meu lar.

        -- Certo. Vai querer a conta? – Minha mulher se apaixonou pelo Sheik de Agadir. Por causa dele, decidimos que ela poderia ir para a sala de visitas. Desde que ficasse num canto, escondida, e só aparecesse quando estivesse ligada. Nós tínhamos uma vida social intensa. Sempre iam visitas lá em casa. Também saíamos muito. Cinema, Teatro, jantar fora. Eu continuava só vendo futebol e notícia. Mas minha mulher estava sucumbindo depois do Sheik de Agadir, não queria perder nenhuma novela.

        -- Certo. Aqui está a sua conta. Infelizmente temos que fechar o bar.

        -- Eu não quero a conta. Quero outra bebida. Só mais uma.

        -- Está bem… Só mais uma.

        -- Nosso filho menor, o que nasceu depois do Sheik de Agadir, não saía de frente dela. Foi praticamente criado por ela. É mais apegado à ela do que a própria mãe. Quando a mãe briga com ele, ele corre pra perto dela pra se proteger. Mas onde é que eu estava? Nas novelas. Minha mulher sucumbiu às novelas. Não queria mais sair de casa. Quando chegava visita, ela fazia cara feia. E as crianças, claro só faltavam bater em visita que chegasse em horário nobre. Ninguém mais conversava dentro de casa. Todo mundo de olho grudado nela. E então aconteceu outra coisa fatal. Se arrependimento matasse…

        -- Termine a sua bebida, por favor. Temos que fechar.

        -- Foi a copa do mundo. A de 74. Decidi que para as transmissões da copa do mundo ela deveria ser bem maior. E colorida. Foi a minha ruína. Perdemos a copa, mas ela continua lá, no meio da sala. Gigantesca. É o móvel mais importante da casa. Minha mulher mudou a decoração da casa para combinar com ela. Antigamente ela ficava na copa para acompanhar o jantar. Agora todos jantam na sala para acompanhá-la.

        -- Aqui está a conta.

        -- E, então, aconteceu o pior. Foi ontem, hora do Dancin’Days e bateram na porta. Visitas. Ninguém se mexeu. Falei para a empregada abrir a porta, mas ela fez “Shhh!” sem tirar os olhos da novela. Mandei os filhos, um por um, abrirem à porta, mas eles nem me responderam. Comecei a me levantar. E então todos pularam em cima de mim. Sentaram no meu peito. Quando comecei a protestar, abafaram o meu rosto com a almofada cor de tijolo que minha mulher comprou para combinar com a maquiagem da Júlia. Só na hora do comercial, consegui recuperar o ar e aí sentenciei, apontando para ela ali, impávida no meio da sala: “Ou ela, ou eu!”. O silêncio foi terrível.

        -- Está bem… mas agora vá para casa que precisamos fechar. Já está quase clareando o dia…

        -- Mais tarde, depois da Sessão Coruja, quando todos estava dormindo, entrei na sala, pé ante pé. Com a chave de parafuso na mão. Meu plano era atacá-la por trás, abri-la e retirar uma válvula qualquer. Não iria adiantar muita coisa, eu sei. Eles chamariam um técnico às pressas. Mas era um gesto simbólico. Ela precisava saber quem é que mandava dentro de casa. Precisava sabe que alguém não se entregava completamente a ela, que alguém resistia. E então, quando me preparava para soltar o primeiro parafuso, ouvi a sua voz. “Se tocar em mim você morre”. Assim com toda a clareza. “Se tocar em mim você morre”. Uma voz feminina, mas autoritária, dura. Tremi. Ela podia estar blefando, mas podia não estar. Agi depressa. Dei um chute no fio, desligando-a da tomada e pulei para longe antes que ela revidasse. Durante alguns minutos, nada aconteceu. Então ela falou outra vez. “Se não me ligar outra vez em um minuto, você vai se arrepender”. Eu não tinha alternativa. Conhecia o seu poder. Ela chegara lá em casa pequenininha e aos poucos foi crescendo e tomando conta. Passiva, humilde, obediente. E vencera. Agora chegara a hora da conquista definitiva. Eu era o único empecilho à sua dominação completa. Só esperava um pretexto para me eliminar com um raio católico. Ainda tentei parlamentar. Pedi que ela poupasse a minha vida. Perguntei o que ela queria, afinal. Nada. Só o que ela disse foi “Você tem 30 segundos”.

        -- Muito bem. Mas preciso fechar. Vá para casa.

        -- Não posso.

        --Por quê? – Ela me proibiu de voltar lá.

Luís Fernando Veríssimo.

Entendendo a crônica:

01 – Identifique as personagens do texto. Quem são?

      A televisão, a empregada, o filho mais velho, o narrador, a mulher, o segundo filho e o filho menor.

02 – O narrador do texto:

a)   Observa de fora e conta a história (narrador-observador).

b)   Participa da história que conta (narrador-personagem).

03 – Em que espaço se passa a história?

      Se passa dentro de casa, quartinho dos fundos, a copa e a sala.

04 – Na crônica o discurso predominante é?

a)   Discurso direto.

b)   Discurso indireto.

05 – Qual é o tempo da crônica, cronológico ou psicológico?

      Cronológico, pois é determinado pela sucessão dos acontecimentos narrados.

06 – O título da crônica é um pronome pessoal. A quem se refere esse pronome?

      Ela – é um pronome pessoal (3ª pessoa do singular). Se refere a televisão.

07 – Do que fala o texto?

      Faz uma crítica que a TV está afetando as relações familiares dentro da sua casa.

08 – Na crônica são citados programas de TV de uma determinada época. Cite os programas falados no texto e diga a que ano referem-se.

·        Programa Noites Cariocas TV Rio 1965. José Roberto Kely.

·        Telenovela Rede Globo 1966/7. Sheik de Agadir.

·        Telenovela Rede Globo 1978/9. Dancin’Days.

·        Sessão de filmes nas madrugadas da Rede Globo 1972/2016. Copa do mundo 74 e Sessão coruja.

·        Clube do Capitão AZA TV Tupi 1966/79. Capitão Qualquer Coisa.

09 – Na crônica temos um objeto que adquire ações próprias dos seres humanos, a esse fato denominamos personificação. Encontre no texto ações humanos realizadas por um objeto e escreva-as abaixo.

      O objeto é a televisão.

      “... Tão pequenininha! Foi uma festa. Botamos ela num quartinho dos fundos”.

      “... Aí ela já estava mais crescidinha...”

      “... Quer dizer, aos pouco ela foi afetando os hábitos da casa”.