quarta-feira, 14 de outubro de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: O QUE É O NAMORO - FRAGMENTO - MARTA SUPLICY - COM GABARITO

 Artigo de opinião: O que é o namoro – Fragmento

        Marta Suplicy

        O namoro é o primeiro passo para a vida afetiva a dois. Essa época pode ser muito boa, cheia de descobertas e emoções novas. Ao mesmo tempo, algumas vezes você poderá ter dificuldade em entender os seus sentimentos e as atitudes dos outros. Poderá se encantar por alguém e daí a alguns dias nem entender como isso aconteceu. É possível que você se envolva perdidamente com uma pessoa e algum tempo depois esteja profundamente apaixonado(a) pro outra.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiaNM7nw1R2ErWbyiMWyEekYAa5F9zYuqgMuuNLrSukn07VUVquhdHDm19vRqMZE4quTHdf2UzmOzjTd9nXcpoKfnPopfMLIthnVXuGNteZiuIzWHmWbIr5cXFCTDTGhLrjge5shCvtm_6pyv-YpRGFzOee8K6j3rtMLIaoy471OnFPyNTzR5sHE5RSc68/s1600/images.jpg


        Outras vezes, você inicia um namoro com tal envolvimento, que até os amigos e a turma são abandonados enquanto dura o romance. Não é que você seja irresponsável ou que essas paixões sejam maluquices. Elas fazem parte da adolescência. Também é natural que você se apaixone por alguém que nunca viu pessoalmente, ou que nunca prestou atenção em você.

        A intensidade dos sentimentos e a rapidez com que essas emoções se transformam dificilmente serão vividas na vida adulta. Como tudo na adolescência fica exagerado, só com o tempo você perceberá que fazem parte da vida algumas situações que parecem trágicas: levar um “fora” do namorado, ou um “não” da menina que o atrai, ou sobrar numa festa.

        Você não vai conquistar todas as pessoas que desejar e verá que isso não significa que você é melhor ou pior como ser humano.

        [...]

Marta Suplicy. Sexo para adolescentes. São Paulo, FTD, 1998. p. 90.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 79.

Entendendo o artigo:

01 – De acordo com o texto, de que maneira o namoro é conceituado e quais são os aspectos positivos e desafiadores dessa experiência?

      O namoro é conceituado pela autora como o primeiro passo para a vida afetiva a dois. O aspecto positivo dessa fase é que ela pode ser uma época muito boa, marcada por descobertas e emoções novas. Por outro lado, o lado desafiador reside na dificuldade que a pessoa pode ter para compreender os próprios sentimentos, lidar com a volatilidade das paixões e interpretar as atitudes do outro.

02 – A autora menciona condutas comuns na juventude, como a mudança rápida de paixões ou o afastamento dos amigos durante um relacionamento. Como ela avalia e justifica esses comportamentos?

      Marta Suplicy avalia que esses comportamentos não devem ser vistos como irresponsabilidade ou "maluquice". Ela os justifica esclarecendo que fazem parte do processo natural da adolescência, período no qual o jovem está aprendendo a se relacionar e lidando com emoções intensas e transformações afetuosas aceleradas.

03 – Qual é a principal diferença apresentada no texto entre a vivência das emoções na adolescência e na vida adulta?

      A principal diferença é a intensidade e a velocidade de transformação dos sentimentos. Na adolescência, tudo é vivido de forma exagerada e com rápida transição emocional, algo que dificilmente será experimentado com a mesma proporção ou dinamismo na fase adulta.

04 – O texto cita eventos como levar um "fora", receber um "não" ou "sobrar" em uma festa. Como a autora desconstrói o peso dramático dessas situações?

      A autora desconstrói o peso dramático ao explicar que, embora na adolescência essas rejeições pareçam situações trágicas devido ao exagero típico da idade, com o tempo compreende-se que elas fazem parte da vida. Ela reforça que não conquistar todas as pessoas desejadas é algo natural e não define o valor ou a qualidade de alguém como ser humano.

05 – Qual é a ideia central (tese) que a autora busca transmitir ao leitor adolescente sobre as frustrações amorosas e a construção da autoestima?

      A ideia central é a de que as frustrações e rejeições afetivas são inevitáveis e normais no aprendizado relacional. A autora busca mostrar ao adolescente que o insucesso em uma conquista amorosa não é um indicativo de inferioridade ou de incapacidade pessoal, devendo ser encarado com amadurecimento e sem abalar a autoestima.

REPORTAGEM: INFLUÊNCIA AFRICANA NA NOSSA LÍNGUA - FRAGMENTO - CHICO ALENCAR - COM GABARITO

 Reportagem: Influência Africana na nossa língua – Fragmento

        [...]

        O Brasil ficava negro na língua, graças à influência dos dialetos africanos falados na Colônia:

        -- Ô Iaiá! Falei pro seu caçula pará com aquele batuque! Quero tirá um cochilo antes de ir pra quitanda, mas com esse banzé todo não tem jeito! O moleque fica pra cá e pra lá, que nem um camundongo... Só xingando!

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjaSy8wexU0A-yLic6ENC5bgV0Is_d71yTeNWVck4NP3Q8NG4Isw5B119L1G8jww742zOlUFIxeNkkpnQ3Rlqlt8hBvHHf0YN4xyK4kVw_ldxtsL0EUxx-LLt2-e9a2Tl97pjpF5uP2ohKMwMnyj6Ur-Qinkej9SJiiL6zOMDjmyQdRUPYWUyI7HiDO56s/s320/images.jpg


        As crianças, as amas-de-leite e os negros velhos contadores de histórias da sua terra fizeram como as cozinheiras das casas-grandes: tiraram das palavras os espinhos e os ossos. Só ficavam as sílabas moles, gostosas e fáceis de dizer. Apareciam então as palavras de sabor africano, que se desmanchavam na boca, como observa Gilberto Freyre no seu livro Casa-grande & Senzala:

        [...] as Antônias ficaram Dondons, Toninhas, Totonhas; as Teresas, Tetés; os Manuéis, Manés; os Franciscos, Chicos. Chiquinhos, Chicós; os Pedros, Pepés; os Albertos, Bebetos, Betinhos. Isto sem falarmos das Iaiás, dos Ioiôs, das Sinhás, das Manus, Calus, Bembéns, Dedés, Marocas, Gegês.

        [...]

In: Chico Alencar, Marcus Venicio Ribeiro e Claudius Ceccon. Brasil vivo – uma nova história da nossa gente. 4. ed. Petrópolis, Vozes, 1988. v. 1, p. 56.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 163.

Entendendo a reportagem:

01 – Com base no texto, como se deu a transmissão da influência das línguas africanas no cotidiano do Brasil Colonial e quem foram os principais agentes desse processo?

      A transmissão ocorreu por meio da convivência íntima e diária no ambiente doméstico e comunitário do Brasil Colonial. Os principais agentes desse processo foram as amas de leite, as crianças, os negros velhos (contadores de histórias) e as cozinheiras das casas-grandes. Por estarem em contato direto com a criação dos filhos dos colonizadores, essas pessoas introduziram vocábulos, entonações e formas afetuosas de falar que moldaram o português falado no Brasil.

02 – O que significa a metáfora "tiraram das palavras os espinhos e os ossos" usada no segundo parágrafo do texto?

      A metáfora sugere que o português falado no Brasil passou por um processo de suavização e simplificação fonética. "Tirar os espinhos e os ossos" significa eliminar encontros consoantes duros ou sonoridades complexas e rígidas do português europeu, tornando a pronúncia mais fluida, musical e acessível, resultando em "sílabas moles, gostosas e fáceis de dizer".

03 – No trecho do diálogo apresentado ("-- Ô Iaiá! Falei pro seu caçula pará com aquele batuque!..."), identifique pelo menos três palavras de origem ou influência africana e explique a função delas no contexto do texto.

      As palavras são: Iaiá, caçula, batuque, cochilo, quitanda, banzé, moleque e camundongo.

      Função no contexto: Elas demonstram como os vocábulos de origem africana se impregnaram no vocabulário cotidiano brasileiro para nomear atitudes, objetos, laços afetivos/familiares e situações do dia a dia, evidenciando a transformação da língua falada na Colônia.

04 – Qual é o papel dos hipocorísticos (apelidos e formas carinhosas de nomes) citados na citação de Gilberto Freyre para a construção da identidade do português brasileiro?

      Os hipocorísticos (como Dondons, Totonhas, Tetés, Chiquinhos, Bebetos) mostram a tendência da língua no Brasil para a afetividade, o encurtamento e a redução silábica. Essa marca linguística reflete a intimidade do convívio social e o abrandamento das formas nominais rígidas trazidas de Portugal, conferindo um tom mais acolhedor e popular ao idioma.

05 – Em que medida o fragmento exemplifica a tese de que "O Brasil ficava negro na língua"?

      O fragmento exemplifica essa tese ao demonstrar que a contribuição africana não se limitou à introdução de palavras isoladas, mas alterou a própria estrutura fonética, o ritmo e a expressividade do português brasileiro. A presença contínua e a oralidade dos escravizados e seus descendentes reconfiguraram o modo de falar de toda a sociedade colonial, tornando o português do Brasil profundamente marcado pela matriz africana.

 

CRÔNICA: A CASA ÚNICA - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: A CASA ÚNICA

           Lima Barreto

 

        – Como foi então, a história?

        – Ouve.

        – Estou ouvindo.

        – Eu me formei muito cedo, antes dos vinte e dois anos, como tu sabes. Logo que me formei, graças ao meu Lugar de praticante dos Correios e o rendimento de algumas apólices, pude alugar um escritório, comprar um anel simbólico, um guarda-chuva de castão de ouro, uma pasta de couro, enfim todo o arreamento de um grande advogado. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg7X5pJjQl07RGJqRDdU3FAyR63ud6LTaUOrOu5jHj41ehrUIui3wxpJ3H4dK_Un8Tvw1iazcoEZOPXHJZXAtNPNJxpk9fEL0GdRtYy_eeHm2Pm7RgJhwdnxn5nJoOE-mqYi1w-1chzyhGhsqotOwiSNi1qYtPE6VPPyo4z16-Bj6uwfG68_WYAMDLyTEI/s320/images.jpg


Tive a imagem disso, antes da sensação... Passei a trabalhar nos Correios à noite; e, durante o dia, logo pelas primeiras horas vinha para a cidade, ia ao escritório, onde tinha um empre­gado de sociedade com o vizinho. Sentava-me então solenemente à secretária e esperava os clientes. Não vinham. Eu ficava uma, ou duas horas a folhear uns manuais, aborrecia-me e saía, tendo antes o cuidado de dizer ao pequeno, com muita ênfase: “Se vier alguém procurar-me, diga que fui al­moçar e já volto.”

        – Ias almoçar mesmo?

        – Ia mesmo. Ainda havia dinheiro, não tinha torrado as apólices. Saía com pasta, fraque, guarda-chuva, etc., e ia ao Pascoal tomar um aperitivo e...

        – Foi pena eu não te conhecer nesse tempo!

        – Porque?

Todos os dias te esperava, para pagares-me um tam­bém.

        – Não fizeste falta.

        – Como!

        – Pois eu mesmo me encarreguei de travar relações com poetas, jornalistas e literatos e não havia dia em que não levasse um de reboque. Precisava da imprensa, para os meus planos...

        – Que não soubeste executar.

        – Vou te dizer porque.

        – Estou ansioso pelo desfecho.

        – Ia ao Pascoal com o Guedes, por exemplo, que hoje tem ou vai ter, cem mil-réis por mês que o Alves lhe dá, lá da sepultura. Começávamos a conversar eu, pasta, anel e guarda-chuva de cabo de ouro e outros apetrechos forenses e desandávamos a discorrer sobre negócios de versos, jornais e outras histórias correlativas.

        – Foste sempre dado a estas coisas?

        – Como todo mundo... Escrevi nas revistas de estudantes, fiz o discurso da turma; mas sempre tive medo dessas coisas de literatura.

        – Porque?

        – Porque? Por causa dos gramáticos que nunca se en­tendem.

        – Mas os advogados?

        – A coisa é mais escondida; não é tão...

        – E quando vão para os apedidos?

        – A crítica literária não intervém... Deixa-me contar a história com os diabos!

        – Conta.

        – Onde eu estava mesmo?

        – Ias almoçar e encontravas o Guedes

        – Bem. Muitas vezes, o Guedes seguia-me até o hotel e almoçávamos juntos. Em geral, porém, eu ia só. Almoçava, vinha tomar café fora, adquiria um charuto e lá ia eu, pasta, guarda-chuva de ouro, fraque, anel, etc., pela Rua do Ouvidor abaixo até a Rua do Carmo, onde tinha o escritório. Antes de entrar, perguntava precavidamente ao rapazote: José, veio alguém? Ao que ele respondia desconsoladamente: Ninguém, seu doutor. Entrava, descansava a pasta, etc., e esperava, mas...

        – Como é que querias que viesse alguém, se não anun­ciavas?

        – Não. Anunciei nos grandes jornais, durante muito tempo; e foi mesmo essa história de anúncios uma das causas de eu deixar a advocacia, porque...

        – Como?

        – Eu te conto. Tinha um camarada do colégio que fora sempre dado a esse negócio de revistas e jornais ... Era o Fontes... Um belo dia, apareceu-me ele no escritório e dis­se-me! – Castro, estou publicando uma revista – Os Suces­sos... – Não sei se tu conheces? “Não”, disse-lhe eu. Ele, o Fontes, abriu uma pasta igual à minha, e tirou de lá três números da tal revista. Folheei-os, achei-os bonitos, bem impressos, e enquanto isso o Fontes gabava os méritos de sua publicação. Perguntei-lhe com franqueza o que queria. “Pri­meiro, disse-me ele, a tua colaboração”...

        – Colaboraste?

        – Ouve. “Primeiro, disse-me Fontes, a tua colaboração; e, em seguida, que tu me dês um anúncio aqui, para esta seção – Momentos dos Advogados”. Pensei um instante e per­guntei-lhe quanto era. “Pouco; cinco mil-réis por número”, res­pondeu-me ele. Autorizei e logo que o tal anúncio no Mo­mento do Fontes, apareceu, nunca mais o meu escritório ficou às moscas. A toda hora e a todo instante, lá aparecia um diretor, um secretário, ou um gerente de revista a pedir o meu anúncio. Fui autorizando, na persuasão de que atraís­sem clientes; mas não me surgiu nenhum.

        – Não devias ter sido tão pródigo ... Quanto te custou essa maluquice?

        – Em um ano, cerca de dois contos de réis. A minha pequena fortuna ia-se e eu não conseguia obter nem uma causa; entretanto, teimava em ser um grande advogado. Todos os dias eu, pasta, guarda-chuva de ouro, anel, fraque, etc. íamos ao fórum e nada obtínhamos. Travei no fórum conhecimento com um escrevente juramentado, o Carvalhais. Era um rapaz adamado, abrilhantado, com uns ares importantes, uma pasta igual à minha, variando de roupas todos os dias e fazendo a noce com a maior distinção. Quase sempre be­bíamos juntos e ele me dizia sempre: “Doutor, hei de lhe arranjar uma coisa boa”. “Pois bem, Carvalhais”, respondia-lhe eu.    Um dia, ao chegar ao fórum, logo topei com o Carva­lhais, acompanhado de um sujeito rústico, branco, musculoso, curto, a quem me apresentou, como precisando dos meus serviços. “Pois não”, fiz eu muito contente. “Então”, respondeu o Carvalhais, “vamos todos ao tabelião”. Fomos. Lá, Carvalhais falou a um colega, que abriu um grande livro, e eu mais o cliente ficamos sentados à espera. Daí a pouco, fui chamado por Carvalhais. Assinei o tal livro, o cliente também, Carvalhais também. “Agora”, disse-me Carvalhais, “vamos até ao escritório do doutor, pois temos ainda o que fazer”. Assim fizemos. Em lá chegando, ele me deu três ou quatro papéis a assinar       – o que fiz sem os ler.

        – Homessa!

        – Paciência filho; espera! Acabado o que, ele, o Carvalhais, me disse: “Doutor, não há serviço que não mereça paga”. Tirou do bolso seis notas de quinhentos mil-réis e me deu. Despediu-se amavelmente e foi-se com o meu cliente.

        – Qual era a causa?

        – Tu sabes?

        – Não.

        – Nem eu... No dia seguinte, fechei o escritório.

O Malho, Rio, 28-6-1919.

Entendendo a crônica:

01 – Como o advogado Castro se preparou para exercer a advocacia e qual era a contradição entre a sua imagem e a realidade da sua rotina?

      Castro formou-se jovem e, utilizando economias de apólices e seu salário nos Correios, comprou todo o "arreamento" simbólico da profissão: anel de grau, guarda-chuva com castão de ouro, pasta de couro, fraque e um escritório com funcionário. A contradição residia no fato de que, apesar da indumentária refinada e da postura solene, ele não tinha cliente algum e passava os dias folheando manuais, esperando em vão e saindo para almoçar e tomar aperitivos com literatos.

 

02 – O que levou o protagonista a abandonar os estudos e a prática literária, preferindo focar na advocacia?

      Castro revela ter frequentado o meio literário na época de estudante, escrevendo em revistas e fazendo discursos, mas confessa ter abandonado a literatura por medo dos gramáticos, cujas disputas e divergências eram constantes e públicas. Ele considerava a advocacia uma área mais reservada e menos exposta à crítica direta.

 

03 – Qual foi o impacto da publicação do anúncio na revista "Os Sucessos" e que prejuízo isso trouxe a Castro?

      Ao aceitar publicar um anúncio na seção "Momentos dos Advogados" da revista do colega Fontes, o escritório de Castro foi invadido por diretores, gerentes e secretários de diversas outras publicações pedindo anúncios semelhantes. Acreditando que isso atrairia clientela, Castro autorizou múltiplos anúncios, o que não lhe trouxe nenhum cliente real e resultou num prejuízo de cerca de dois contos de réis em apenas um ano.

 

04 – Como se deu a aproximação de Castro com o escrevente Carvalhais e qual promessa este lhe fazia?

      Castro conheceu Carvalhais no fórum. O escrevente era um jovem elegante, vaidoso e articulado que ostentava boa vida. Durante os encontros e bebidas que tomavam juntos, Carvalhais prometia constantemente ao advogado que iria arranjar-lhe "uma coisa boa", ou seja, um serviço ou cliente rentável.

 

05 – Como ocorreu o atendimento ao primeiro e único cliente arranjado por Carvalhais?

      Carvalhais apresentou a Castro um homem rústico no fórum e levou todos ao tabelião. Lá, o advogado assinou um grande livro cartorário sem saber do que se tratava. Em seguida, foram ao escritório de Castro, onde o advogado assinou diversos papéis em branco trazidos por Carvalhais, sem ao menos lê-los.

 

06 – Quanto Castro recebeu por esse trabalho e qual foi a sua reação no dia seguinte a esse evento?

      Após as assinaturas, Carvalhais entregou a Castro a quantia de três contos de réis (seis notas de quinhentos mil-réis) como pagamento pelo serviço prestado. No dia seguinte, percebendo o perigo ético e jurídico de ter assinado documentos desconhecidos em uma causa cujo teor nem sequer sabia qual era, Castro encerrou definitivamente suas atividades e fechou o escritório.

 

07 – De que forma a crônica satiriza a formação bacharelesca e as aparências da elite profissional na Primeira República?

      Lima Barreto expõe como o prestígio social da advocacia na época era sustentado por aparências externas (fraque, anel de grau, suntuosidade dos acessórios) em detrimento da competência técnica e da ética profissional. A narrativa ironiza um sistema onde o bacharel ostenta status sem ter trabalho e acaba sendo instrumentalizado por esquemas cartorários obscuros, preferindo enriquecer involuntariamente na ilegalidade a construir uma carreira legítima.

 

 

FÁBULA: O LOBO E O CORDEIRO - FLÁVIO E SOUZA - COM GABARITO

 Fábula: O lobo e o cordeiro

           Flávio de Souza

       O lobo e o cordeiro se encontraram, famintos, num restaurante. O lobo foi logo dizendo:

        -- Que satisfação encontrar você aqui!

        Nesse exato momento, o garçom chegou e disse para eles que teriam de dividir a única mesa ainda vaga.

        O primeiro a fazer o pedido foi o cordeiro:

        -- Por favor, uma salada bem variada.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEja9pJO4CViO5PidWa6-irwr7QJd4-91E2m7ijgxeiODpK86ZXu58wdtQ1pFjh9B4XCo9wNKokaAedxhs5ED8Yunl5x7_OVujpBlOKLz8Mwgn8IMhJJXp1iki9b8AbbvcFF7oawn8sHbvHikaajcod3VdnrVjlXbUrVhz_lOefIV2EYGcLAPM054dtTgvw/s320/images.jpg


        E o lobo:

        -- Para mim, o de sempre: um suculento ensopado de cordeiro!

        -- Desculpe, sr. Lobo, mas hoje esse tipo de carne está em falta.

        Imediatamente o lobo olhou em direção ao seu companheiro de mesa e, para sua surpresa, avistou apenas uma cadeira vazia.

        Moral da história: O prudente prevê o perigo e se afasta a tempo; diante de quem é mais forte ou perigoso, a autopreservação deve vir antes da polidez.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 96.

Entendendo a fábula:

01 – Qual é o elemento principal de modernização presente nesta versão da história em comparação com a fábula tradicional de "O Lobo e o Cordeiro"?

      A modernização ocorre pela mudança do cenário e da dinâmica entre os personagens: em vez de se encontrarem à beira de um riacho em um ambiente natural, a história se passa em um ambiente urbano e cotidiano — um restaurante lotado —, onde ambos figuram inicialmente como clientes em busca de refeição.

02 – Por que o lobo demonstrou satisfação ao encontrar o cordeiro no restaurante?

      Porque, sendo um predador natural do cordeiro e estando faminto, o lobo enxergou na presença do outro animal a oportunidade perfeita para satisfazer sua fome, encarando o cordeiro não como um companheiro de refeição, mas como a própria refeição.

03 – Como a resposta do garçom ao pedido do lobo alterou o conflito da narrativa?

      A resposta do garçom de que a carne de cordeiro estava em falta na cozinha fez com que a ameaça explícita do lobo voltasse ao cordeiro que estava sentado à mesa, transformando o animal vivo na única opção para o cardápio desejado pelo predador.

04 – O que a cadeira vazia no final da história indica sobre a atitude do cordeiro?

      A cadeira vazia indica que o cordeiro foi astuto e ágil. Ele percebeu imediatamente o perigo iminente assim que ouviu o pedido e a resposta do garçom, decidindo fugir discretamente antes que o lobo pudesse atacá-lo.

05 – Como o texto constrói o humor e a quebra de expectativa ao longo da narrativa?

      O humor é construído pelo contraste entre a etiqueta social de um restaurante e o instinto selvagem dos animais. A quebra de expectativa acontece no desfecho: enquanto o leitor e o lobo esperam um confronto direto, o cordeiro antecipa a intenção do predador e desaparece em silêncio, deixando o lobo surpreso e de mãos vazias.

 

NOTÍCIA: A LUA: UM SATÉLITE NATURAL - REVISTA RECREIO - COM GABARITO

 Notícia: A Lua: um satélite natural

        À noite, quando o Sol já se pôs, podemos avistar a Lua. Quatro vezes menor que o nosso planeta, ela é nosso satélite natural, pois gira em torno da Terra e nasceu ao mesmo tempo. em 1969, o homem pisou em solo lunar pela primeira vez. constatou que lá não poderia existir vida: não há oxigênio, água e, à noite, a temperatura cai a -150ºC.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhB_5bV2GJfZukLYdGfH-0S8h7h90f4EIhhkfmVsqLcntQZsVLcJhyphenhyphenY6I_TMJXCTJismf5ZY_5woNwRa33Fk9ZwlQqF3myOGNFGmkqo61XCYe0ydKu0eUnGynS-bdcWSfJBdrIdLtS7g_X9sG-Jh1pY9I_1u7MTwftt9GCS9Vpoj6Ea09SQRX21NeIHKWo/s1600/images.jpg


        Para descobrir os mistérios do Universo, o homem se inspirou no seu satélite natural para construir satélites artificiais. Eles funcionam como uma espécie de grande olho que gravita ao redor da Terra e nos transmite informações sobre o espaço.

        A fase oculta

        A Lua gira ao redor de nosso planeta. esse movimento, que dura cerca de 28 dias, é chamado de revolução. Ao mesmo tempo que se movimenta no céu, nosso satélite natural realiza um giro completo em torno de si mesmo, ou faz uma rotação. É por isso que, olhando da Terra, sempre vemos o mesmo lado da Lua. O lado que não conseguimos enxergar é conhecido como face oculta.

Revista Recreio. São Paulo, Editora Abril, 2000. Para Saber Mais. A Enciclopédia do Estudante.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 148.

Entendendo a notícia:

01 – Por que a Lua é classificada como o satélite natural da Terra e qual é a sua proporção em relação ao nosso planeta?

      A Lua é classificada como satélite natural porque é um corpo celeste que orbita (gira) ao redor da Terra, tendo nascido na mesma época que o nosso planeta. Em termos de tamanho, ela é quatro vezes menor do que a Terra.

02 – Quais foram as descobertas feitas no ano de 1969 sobre as condições da Lua e por que elas confirmam que lá não pode haver vida?

      Em 1969, quando o ser humano pisou no solo lunar pela primeira vez, constatou-se a ausência de oxigênio e de água. Além disso, verificou-se que as temperaturas noturnas caem para cerca de -150 ºC. A falta de elementos vitais e o clima extremamente rigoroso tornam o ambiente inapropriado para a existência de vida como a conhecemos.

03 – De que maneira a Lua inspirou os seres humanos no desenvolvimento de tecnologias para a exploração espacial?

      Inspirando-se no comportamento da Lua — que orbita continuamente nosso planeta —, a humanidade construiu satélites artificiais. Equipamentos que funcionam como "grandes olhos" em órbita da Terra para capturar e transmitir informações valiosas sobre o espaço e o próprio planeta.

04 – Como são denominados os dois movimentos realizados pela Lua e qual é a duração aproximada do movimento de revolução?

      O movimento da Lua em torno do nosso planeta é chamado de revolução, que dura aproximadamente 28 dias. Ao mesmo tempo, a Lua realiza o movimento de rotação, que consiste no giro completo em torno do seu próprio eixo.

05 – Por que, da Terra, só conseguimos enxergar uma das faces da Lua e como é chamada a parte que nunca vemos?

      Nós sempre vemos o mesmo lado da Lua porque o tempo que ela leva para dar uma volta ao redor da Terra (revolução) é o mesmo tempo que leva para girar em torno de si mesma (rotação). A parte que fica oculta do nosso ponto de vista é conhecida como face oculta da Lua.

 

domingo, 11 de outubro de 2026

POEMA: ENFIM, SÓ! - DORA LÚCIA ALCÂNTARA - COM GABARITO

 Poema: Enfim, só!

          Dora Lúcia Alcântara

Finalmente,

hoje trago a certeza

de não ser só.

Será isto maturidade?

Será isto autenticidade?

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjeUXtYWPu02K07W58AP-kPn6iJy3i1slpLyDWlwRgjlO45gg2k7zSkYpC-KFQMvMEzVUTeMz0DfdsfpWksQRzhJyH2cdR0YbIG8tq4m1l0G5T5mrSciPHf7aML88qOvJeGw5rGucr3KihPxt4lB-BkeURuneMIJHvkaFh6HO60lRdxT7Sn3dr_xzPdndc/s320/images.jpg 

 

Já não espero do outro,

ninguém me decepciona mais.

e assim, vivo leve e solta!

É bom dividir, doar, amar.

Mas ninguém me acolherá completamente.

Ninguém terá tudo a me dar...

E sem cobrar, irei trocar.

 

Dependo de mim,

do que fizer,

do que me der...

Vou sempre buscar

e nunca me saciar,

só assim poderei me amar,

libertar e

CRIAR!

Dora Lúcia Alcântara. 7 outubro 2000. Retirado do site: www.existencialismo.org.br

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 123.

Entendendo o poema:

01 – Como o título "Enfim, só!" se articula com a afirmação inicial da poetisa de ter a "certeza de não ser só"?

      Apesar de o título sugerir solidão, o poema ressignifica esse conceito para o de solitude (o estar bem consigo mesma). A autora percebe que não está verdadeiramente "só" porque encontrou em si mesma a sua própria companhia e força. Essa mudança de perspectiva traz a maturidade de entender que a plenitude vem de dentro, e não da dependência de terceiros.

02 – De que modo a perda das expectativas em relação aos outros gera a leveza mencionada na segunda estrofe?

      Quando a poetisa afirma que "já não espero do outro, ninguém me decepciona mais", ela liberta o outro da obrigação de suprir suas necessidades e a si mesma do ciclo de frustrações. Ao abandonar cobranças e expectativas irrealistas, a vida torna-se "leve e solta", permitindo relações mais autênticas, baseadas na troca espontânea e não na dependência.

03 – Como o poema equilibra a autonomia individual com a capacidade de se relacionar e amar os outros?

      O eu lírico não rejeita o convívio nem o afeto; pelo contrário, afirma que "é bom dividir, doar, amar". Contudo, reconhece com clareza que "ninguém terá tudo a me dar". O equilíbrio reside em amar e trocar sem cobranças, compreendendo que nenhum relacionamento externo pode substituir a autoaceitação e a responsabilidade pelo próprio bem-estar.

04 – Qual é o sentido do verso "Vou sempre buscar / E nunca me saciar" para o desenvolvimento pessoal da autora?

      A busca constante sem jamais se saciar representa o motor do crescimento e da evolução contínua. Para a autora, a satisfação plena e estática levaria à acomodação. O desejo ininterrupto de buscar e aprender é o que mantém a chama interior acesa, impulsionando a autoestima, a liberdade e o processo criativo.

05 – Qual é a relação entre a autoaceitação ("me amar") e a capacidade final de "libertar e CRIAR"?

      A autoaceitação e a independência emocional libertam o indivíduo do medo do julgamento alheio e da necessidade de aprovação. Somente quando a pessoa se torna dona de sua própria jornada ("dependo de mim") e se ama por inteiro é que ela alcança a verdadeira liberdade interior, condição essencial para dar asas à imaginação e ao ato criativo.

 

REPORTAGEM: A LÍNGUA DO BRASIL - ORIGENS E INFLUÊNCIAS - FRAGMENTO - CLAUDIO ANGELO - COM GABARITO

 Reportagem: A língua do Brasil – origens e influências – fragmento

        [...]

        Quando ouvir dizer que o Brasil é um país tupiniquim, não se irrite. Nos primeiros dois séculos após a chegada de Cabral, o que se falava por estas bandas era o tupi mesmo. O idioma dos colonizadores só conseguiu se impor no litoral no século XVII e, no interior, no XVIII. Em São Paulo, até o começo do século passado, era possível escutar alguns caipiras contando casos em língua indígena. No Pará, os caboclos conversavam em nheengatu até os anos 40.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgNEArSB_15M2j_u1fAC9CKXcCJ2nGqoS7gupIPMx9-5runmOpR9GlVmkG2KYDoZNWpRKcA59o6gpIEVZpy7lVT0J5vM1uYOg7rgBXg-upQkDOQpDu7XDd_Zs_YgejzDVZFipFoC1LHLxNtSN7kyY9AIUp9FdX4bUwbb_vzRtRZ8N3CDGhhq2hyT0dyy9Y/s320/images.jpg


        Mesmo assim, o tupi foi quase esquecido pela História do Brasil. ninguém sabe quantos o falavam durante o período colonial. Era o idioma do povo, enquanto o português ficava para os governantes e para os negócios com a metrópole. “Aos poucos estamos conhecendo sua real extensão”, disse à SUPER Aryon Dall’Igna Rodrigues, da Universidade de Brasília, o maior pesquisador de línguas indígenas do país. Os principais documentos, como as gramáticas e dicionários dos jesuítas, só começaram a ser recuperados a partir de 1930. a própria origem do tupi ainda é um mistério. Calcula-se que tenha nascido há cerca de 2.500 anos, na Amazônia, e se instalado no litoral no ano 200 d.C. “Mas isso ainda é uma hipótese”, avisa o arqueólogo Eduardo Neves, da USP.

        Três letras fatais

        Quando Cabral desembarcou na Bahia, a língua se estendia por cerca de 4.000 quilômetros de costa, do norte do Ceará a Iguape, ao sul de São Paulo. só variavam os dialetos. O que predominava era o tupinambá, o jeito de falar do maior entre os cinco grandes grupos (tupinambás, tupiniquins, caetés, potiguaras e tamoios). Daí ter sido usado como sinônimo de tupi. As brechas nesse imenso território idiomático eram os chamados tapuias (escravo, em tupi), pertencentes a outros troncos linguísticos, que guerreavam o tempo todo com os tupis. Ambos costumavam aprisionar os inimigos para devorá-los em rituais antropofágicos. A guerra era uma atividade social constante de todas as tribos indígenas com os vizinhos, até com os da mesma unidade linguística.

        Um dos viajantes que escreveram sobre o Brasil, Pero Magalhães Gândavo, atribuiu, delirantemente, a belicosidade dos tupinambás à língua. “Não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, pois assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei e, desta maneira, vivem sem justiça e desordenadamente”, escreveu em 1570. Para os portugueses, portanto, era preciso converter os selvagens à fé católica, o que aconteceu quando os primeiros jesuítas chegaram ao Brasil, em 1553. Esses missionários se esmeraram no estudo do tupi e a eles se deve quase tudo o que hoje é conhecido sobre o idioma.

        Também, não havia outro jeito. Quando Portugal começou a produzir açúcar em larga escala em São Vicente (SP), em 1532, a língua brasílica, como era chamada, já tinha sido adotada por portugueses que haviam se casado com índias e por seus filhos. “No século XVII, os mestiços de São Paulo só aprendiam o português na escola, com os jesuítas”, diz Aryon Rodrigues. Pela mesma época, no entanto, os faladores do tupi do resto do país estavam sendo dizimados por doenças e guerras. No começo daquele mesmo século, a língua já tinha sido varrida do Rio de Janeiro, de Olinda e de Salvador, as cidades mais importantes da costa. Hoje, os únicos remanescentes dos tupis são 1.500 tupiniquins do Espírito Santo e 4.000 potiguaras da Paraíba. Todos desconhecem a própria língua. Só falam português.

        [...]

        Coisa do diabo

        Irritado com o uso generalizado das línguas nativas, o Marquês de Pombal (1699-1782), que então governa Portugal e suas colônias, resolveu impor o português na marra, por decreto, em 1758. Num documento maluco, o Alvará do Diretório dos Índios, proibiu o uso de todas as línguas indígenas e o ensino do nheengatu, “invenção diabólica” dos jesuítas. No ano seguinte, vilas de toda a Amazônia foram rebatizadas com topônimos portugueses. Surgiram, assim, Santarém e Óbidos no Pará, Barcelos e Moura no Amazonas.

        A briga culminaria com a expulsão dos jesuítas, em 1759. “Mas a língua geral não sumiu de imediato”, observa o etno-historiador José de Ribamar Bessa Freire, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. “O português só veio se firmar no final do século passado, quando os nordestinos migraram em massa para a Amazônia, atrás da borracha”. Hoje o uso daquela língua geral se restringe à região do alto Rio Negro e a um pedaço da Venezuela.

        Como os índios, o tupi chegou ao final do século XX. Modificado, reduzido, mas ainda respirando. Da próxima vez que alguém chamar o Brasil de tupiniquim na sua frente, orgulhe-se. O país deve muito aos tupis. E até fala um pouquinho da língua deles.

Claudio Angelo. Revista Superinteressante. São Paulo, Editora Abril, dez. 1998. p. 82-5.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 160-161.

Entendendo a reportagem:

01 – Como se deu a transição do predomínio do tupi para o português no território brasileiro ao longo dos séculos coloniais?

      Durante os dois primeiros séculos após a chegada dos colonizadores, o tupi (ou língua geral) era o idioma falado pela maioria da população, enquanto o português ficava restrito aos governantes e às negociações formais com a metrópole. O português só conseguiu se impor de forma predominante no litoral durante o século XVII e no interior apenas no século XVIII. Em regiões isoladas como São Paulo e o Pará, relatos e conversas em variantes da língua indígena ainda podiam ser ouvidos até o início e meados do século XX, respectivamente.

02 – O que levou Pero Magalhães Gândavo a relacionar a ausência de certas letras na língua indígena com a conduta social dos tupinambás?

      Em 1570, o viajante Pero Magalhães Gândavo relacionou a ausência das consoantes F, L e R no idioma tupi às palavras Fé, Lei e Rei. Sob uma visão eurocêntrica e sem fundamentação científica, ele interpretou essa característica linguística como uma prova de que os nativos viviam "sem justiça e desordenadamente", justificando, assim, a necessidade de impor a ordem e converter os indígenas à fé católica.

03 – Qual foi o papel dos missionários jesuítas na preservação e na disseminação das línguas indígenas no Brasil colonial?

      Ao chegarem em 1553 com a missão de evangelizar os nativos, os jesuítas dedicaram-se ao estudo aprofundado do tupi, sendo responsáveis pela criação das primeiras gramáticas e dicionários da língua. Por usarem o idioma como principal ferramenta de ensino e catequese, eles garantiram que a língua continuasse viva e difundida — criando inclusive a "língua geral" (nheengatu) —, o que preservou quase todo o conhecimento histórico e linguístico que se tem do tupi atualmente.

04 – Quais foram os fatores determinantes para o declínio gradual dos falantes nativos do tupi ao longo do período colonial?

      O declínio resultou de uma combinação de fatores demográficos, epidemiológicos e políticos. Os falantes nativos foram drasticamente dizimados por guerras territoriais e por doenças trazidas pelos europeus, fazendo com que o idioma fosse eliminado de grandes centros como Rio de Janeiro, Olinda e Salvador já no início do século XVII. Mais tarde, a imposição oficial do português pelo Marquês de Pombal no século XVIII acelerou ainda mais o desaparecimento do idioma.

05 – Em que consistiu o Alvará do Diretório dos Índios de 1758 e quais foram suas consequências políticas e linguísticas?

      O Alvará do Diretório dos Índios foi um decreto emitido pelo Marquês de Pombal em 1758 para impor o uso do português no Brasil. A medida proibiu o ensino e a utilização de todas as línguas indígenas e do nheengatu, rebatizou vilas da Amazônia com nomes em português e culminou na expulsão dos jesuítas no ano seguinte (1759), enfraquecendo a presença institucional das línguas nativas na colônia.

06 – Segundo o etno-historiador José de Ribamar Bessa Freire, qual evento histórico consolidou definitivamente a língua portuguesa na região amazônica?

      O professor Bessa Freire aponta que a legislação de Pombal não eliminou a língua geral imediatamente. O português só se consolidou definitivamente na Amazônia no final do século XIX, impulsionado pela migração em massa de nordestinos para a região durante o ciclo da borracha, o que alterou a dinâmica demográfica e linguística local.

07 – Com base nas informações do texto, por que o uso do adjetivo "tupiniquim" para se referir ao Brasil deve ser visto com orgulho e não como motivo de irritação?

      O termo deve ser motivo de orgulho porque resgata as raízes históricas e culturais que moldaram a identidade nacional. O tupi foi a verdadeira língua do povo nos primeiros séculos de formação do país e deixou marcas definitivas no vocabulário, na toponímia e nos costumes dos brasileiros, demonstrando a forte herança indígena presente até hoje.

 

POEMA: NA ILHA POR VEZES HABITADA - JOSÉ SARAMAGO - COM GABARITO

 Poema: Na Ilha Por Vezes Habitada

           José Saramago

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.

Então sabemos tudo do que foi e será.

O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam.

Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg2DYT5o3PHNnN75FGpBGcdxXXKLV1tuU2x3nuCJuMrbnmaBSh13CRJC9ONk62hiwMRGHlPjnWYn8czi4QUpU-Q8aV_zKf_w2tOutNFflYZHT12oGhJBRPe5IjSCW1mESpfgCM0nabV9_ZD6CXx6A6afvb-GrTKRKkNUECI15mGrKegr2aUzjJrkhf2rqI/s320/images.jpg


Com doçura.

Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.

Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.

Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz.

Cada um de nós é por enquanto a vida.

Isso nos baste.

José Saramago. In: Provavelmente alegria. 3. ed. Editorial Caminho, Lisboa, 1985.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 123.

Entendendo o poema:

01 – O que simboliza a metáfora da "ilha por vezes habitada do que somos" no poema de Saramago?

      A "ilha" representa a interioridade humana, a alma ou a própria existência individual, marcada pelo isolamento e pela introspecção. Ao dizer que essa ilha é "por vezes habitada", o eu lírico sugere que nem sempre estamos plenamente conscientes ou presentes em nós mesmos; há momentos de alheamento e desconexão. Contudo, existem instantes de iluminação em que nos habitamos por inteiro, alcançando uma profunda compreensão da própria existência.

02 – Como o eu lírico caracteriza os momentos em que "não precisamos de morrer" e qual é o impacto desse estado na percepção do mundo?

      Esses momentos representam estados de plenitude, clareza e paz absoluta, nos quais o medo da finitude e a angústia da morte desaparecem temporariamente. Nesses instantes, o mundo parece "explicado definitivamente", trazendo uma sensação de transcendência e serenidade em que o indivíduo sente ter compreendido o sentido do passado e do futuro sem a necessidade de buscar respostas fora da vida presente.

03 – Qual é o significado poético e filosófico do gesto de levantar um "punhado de terra" e apertá-lo nas mãos "com doçura"?

      O gesto de segurar a terra simboliza a reconexão com a matéria, com a natureza e com a brevidade da condição humana. Ao apertá-la com doçura, o eu lírico aceita a vida como ela é, contida na simplicidade da matéria. A terra representa a "verdade suportável" — os contornos, as vontades e os limites da existência —, mostrando que a verdadeira sabedoria não está em alcançar o infinito, mas em reconhecer e acolher as próprias limitações humanas.

04 – De que modo o ato de ter "mordido a alma até aos ossos dela" conduz o indivíduo à verdadeira liberdade e à paz?

      A expressão "morder a alma até aos ossos" sugere uma vivência radical, profunda e sem subterfúgios do próprio ser, enfrentando as dores, contradições e verdades mais íntimas. A liberdade e a paz descritas por Saramago não surgem da ilusão ou da fuga, mas sim do autoconhecimento doloroso e corajoso. Quem mergulhou tão fundo em si mesmo ("viajou à roda do mundo infatigável") alcança o sorriso de quem se reconhece e aceita integralmente.

05 – Qual é a reflexão final trazida pelos versos "Cada um de nós é por enquanto a vida. / Isso nos baste"?

      A estrofe final traz uma mensagem de aceitação da finitude e de valorização do presente. A expressão "por enquanto" lembra a transitoriedade da existência, ressaltando que somos portadores temporários da vida. Ao concluir que "isso nos baste", o eu lírico propõe o desapego de pretensões grandiosas e a celebração do simples fato de existir. Viver o agora e ser a própria vida, mesmo que por um breve período, é o suficiente para dar sentido à experiência humana.