segunda-feira, 5 de novembro de 2018

CRÔNICA: O MISTÉRIO DA CASA ABANDONADA - FERNANDO SABINO - COM QUESTÕES GABARITADAS

Crônica: O mistério da casa abandonada
            Fernando Sabino

        Quando chegamos em frente à casa abandonada, ouvimos o sino da Igreja de Lourdes das pausadamente doze badaladas, meia-noite! [...]. Fazia frio e vi que Anairan tremia tanto quanto eu, mas ainda assim levamos em frente a nossa aventura.
        Não foi difícil transpor o portão: um ligeiro empurrão e ele se abriu, devagar, rinchando nas dobradiças. Fomos avançando por entre o mato do jardim. Alguma coisa deslizou junto a meus pés – um rato, certamente, ou mesmo um lagarto. Engoli em seco e prossegui a caminhada ao lado de minha companheira, seguido dos outros dois agentes.
        Ao chegar a varanda, ordenei a ambos que ficassem ali e nos esperassem. Não convinha entrarmos todos ao mesmo tempo. Alguém tinha de ficar de sentinela do lado de fora.
        Subimos os degraus de pedra em plena escuridão e tateamos pela parede à procura da porta. Tínhamos trazido conosco uma caixa de fósforos e uma vela, mas não era prudente acendê-la ali: poderíamos chamar a atenção de alguém na rua, algum guarda-noturno rondando por lá.
        Encontramos a porta e forçamos o trinco. Estava trancada por dentro, não houve jeito de abrir. Era tão fraca, a madeira parecia podre, e eu seria capaz de arromba-la com um pontapé, só que faria muito barulho. Preferimos forçar a janela que dava também para a varanda. Era só quebrar o vidro, meter a mão e puxar o trinco.
        Tirei o sapato e bati fortemente com o salto no vidro, que se espatifou num tremendo ruído. Assustando, Hindemburgo latiu no jardim, por sua vez nós assustando tanto, que nosso primeiro impulso foi fugir correndo.
        Como não acontecesse nada, ao fim de algum tempo resolvemos continuar a nossa missão. Aberta a janela, fui o primeiro a pular. Depois ajudei Anairan a entrar também. Só então, já dentro de casa, nos arriscamos a acender a vela.
        Era uma sala grande, onde não tinha nada, a não ser poeira e manchas de mofo pelas paredes forrados de papel estampado. A chama da vela, trêmula, projetava sombras que se mexiam, pelos cantos, ameaçadoras, enquanto avançávamos.
        Em pouco vimos que ali embaixo só havia uma cozinha, onde várias baratas fugiram correndo pelo chão de ladrilhos encardidos, um quartinho e com janelões dando para rua, mais nada.
        Restava subir as escadas e investigar o que havia nos quartos lá em cima.
        Subimos devagarinho, eu na frente, conduzindo a vela, a agente Anairan se agarrando na minha blusa. Procurava não fazer barulho, mas os degraus de madeira da escada, já meio podres, rinchavam, dando estalinhos debaixo de nossos pés.
        No segundo andar, empurramos a porta do primeiro quarto no corredor e entramos. Era um quarto grande, mas a vela não dava para ver nada, a não ser a nossa própria sombra, projetada na parede. Foi quando, de súbito, a luz acendeu e tudo se iluminou.
        No primeiro instante ficamos deslumbrados com aquela claridade e nós voltamos para ver quem tinha acendido a luz. Soltamos junto um grito de pavor – parado junto a porta estava um velho horrendo, alto barba suja, cabelos desgrenhados, a nos olhar, mãos na cintura:
        --- Que é que vocês dois estão fazendo aqui? Quem são vocês?
                                                                   Fernando Sabino.
Entendendo a crônica:
01 – Em: “O mistério da casa abandonada”, as ações das personagens e a maneira como elas são caracterizadas ajudam a compor o clima de suspense e de aventura da narrativa.
a)   Que ações do narrador-personagem e de seus companheiros ajudam na construção desse clima?
Que eles faziam parte de uma sociedade secreta e de encararem muitos mistérios.
b)   Qual é o papel assumido pelo narrador-personagem e por seus companheiros nessa aventura?
A de ir visitar uma casa que diziam ser mal assombrada.
02 – Uma missão secreta de investigação a uma casa abandonada é o tema da narrativa.
a)   Qual o termo usado, isto é, como era chamado, quando o narrador-personagem se refere:
- Ao grupo de amigos
- A  Mariana, Hindemburgo .
Agentes.

- Aos nomes Odnanref e Anairan.
Que Odnanref era o seu nome de guerra e Anairan era de Mariana.

- À casa abandonada.
A misteriosa casa na Avenida João Pinheiro.

b)   Encontre no texto o emprego de outros termos relacionados à situação de investigação e mistérios dessa narrativa.
O velho.

c)   Se você fosse escrever uma história, cujo tema fosse uma aventura na selva, que palavras escolheria para compor o clima de sua narrativa?
Escura, sombria, ar denso, plantas mortas e barulhos estranhos.

03 – De acordo com a narrativa, o casarão é tido como mal assombrado. A descrição que faz dele no texto destaca exatamente os aspectos sinistros do lugar.
a)   Releia o trecho em que o casarão é descrito e escreve as características de cada parte destacada
·        As paredes: Era estampada, tinha manchas de mofo, paredes descascando.
·        O portão: Rinchava nas dobradiças e se abria devagar, enferrujado.
·        A fachada: Hera subindo pela fachada.
·        A varanda: Teias de aranha.
·        O telhado: Morcegos vivam na frinchas do telhado.
·        As janelas: Apodrecidas e desconjuntadas.

b)   Na sua opinião, que impressões a descrição do casarão provoca no leitor?
Medo.

04 – Ao entrarem no primeiro quarto, no andar superior, algo surpreendeu os agentes secretos. Releia o trecho que corresponde a essa passagem – do 21° parágrafo ao 26° em voz alta, de maneira que o tom da fala da personagem seja coerente com a situação descrita e a intenção de surpreender, ameaçar, assustar as crianças.
a)   Para transmitir o tom ameaçador da personagem e aumentar a tensão da narrativa, que recurso foi empregado no texto?
O de usar palavras que indicasse coisas feias.

b)   Que outras informações sobre a personagem ajudam a transmitir a tensão no momento?
As suas caraterísticas.

c)   A aparência e a voz dessa personagem podem nos remeter a que outras personagens da história de ficção?
A de um cientista doido, a um mendigo, a um guarda, um bruxo.

05 – Por que será que as crianças ficaram quietas e sem se encontrarem no dia seguinte ao do episódio narrado? Levante hipóteses.
      Elas ficaram quietas e nem se encontraram para não causar suspeitas.

SIMULADO - ROMANTISMO - COM QUESTÕES GABARITADAS

Simulado – Romantismo

01 – “Quantas coisas (...) brotam ainda hoje, modas, bailes, livros, painéis, primores de toda casta, que amanhã já são pó ou cisco? Em um tempo em que não mais se pode ler, pois o ímpeto da vida mal consente folhear o livro, que à noite deixou de ser novidade e caiu na voga; no meio desse turbilhão que nos arrasta, que vinha fazer uma obra séria e refletida? Perca pois a crítica esse costume em que está de exigir, em cada romance que lhe dão, um poema."
As proposições anteriores, de José de Alencar, fazem alusão a um problema característico do movimento romântico. Aponte-o:
a) o movimento romântico, afeito ao lirismo e á sentimentalidade, busca realizar uma prosa fundamentalmente impregnada de valores poéticos.
b) o autor preocupa-se com satisfazer o gosto de um público pouco exigente no que diz respeito a obras de acabamento literário mais sofisticado.
c) tendo em vista a caracterização da sociedade burguesa, o romance deve conter preferencialmente ação, que seja o retrato dos agitados tempos modernos.
d) o autor, já que se reconhece gênio, e pelo público, é aceito como tal e deve nortear as multidões que o leem com sua palavra sábia e simples.

02 – Segundo o texto abaixo, para os românticos:
"O problema da nacionalidade literária foi colocado, dentro da atmosfera do Romantismo, em termos essencialmente políticos. Misturadas literatura e política, a autonomia política transferia-se para literatura, e confundiram-se independência política e independência literária."
a) a autonomia política e a autonomia literária foram duas faces de um mesmo processo de emancipação.
b) autonomia política e autonomia literária mantiveram entre si uma relação de causa e efeito.
c) a autonomia literária sempre se seguiu à emancipação política.
d) emancipação política e emancipação literária foram processos que se concretizaram independentemente um do outro.

03 – Ainda segundo o texto acima:
a) Romantismo foi uma escola literária de atmosfera essencialmente política.
b) no Romantismo, literatura e política interpenetram-se e exercem influência mútua, numa interdependência dialética.
c) pode-se dizer que a política usou a literatura em suas campanhas, mas o inverso não é válido, pois a literatura não se valeu da política.
d) independência política e independência literária são fenômenos distintos, que só se misturam em consequência de um erro de interpretação.

04 – Qual o poema de Gonçalves Dias que apresenta a temática indianista?
      I-Juca Pirama.

05 – O lirismo social da poesia de Castro Alves:
a) tematiza a liberdade dentro, principalmente, de um enfoque individualista.
b) tematiza a liberdade exclusivamente referenciada ao negro escravizado.
c) tematiza a liberdade tanto com um enfoque individualista como coletivo; e, em especial, referenciada ao negro escravizado.
d) tematizava a liberdade de modo geral, e apenas acidentalmente referenciada ao negro escravizado.

06 – Poema Castro-Alvino que aborda a temática social e antiescravorata, por excelência, intitula-se:
     Navio Negreiro.

07 – Assinale a alternativa falsa. O Romantismo:
a) procura o elemento nacional.
b) propõe ruptura com o passado.
c) foi introduzido no Brasil por Gonçalves de Magalhães.
d) é a valorização do que é "nosso".

08 – Relacione os textos às características:

Texto A = Indianismo. (Evasão pelo tempo)
“Eu amo a noite taciturna e queda!
Amo a doce nudez que ela derrama,
E a fresca aragem pelas densas folhas
Do bosque murmurando.
Então malgrado o véu que envolve a terra,
A vista, do que vela, enxerga mundos,
E apesar do silêncio, o ouvido escuta
notas de etéreas harpas."

                                             Gonçalves Dias

Texto B = Imaginação criadora, fantasia.
"Já sinto a geada dos sepulcros
o pavoroso frio enregelar-me...
A campa vejo aberta e lá no fundo
Um esqueleto em pé vejo acenar-me..
Entremos. Deve haver nestes lugares
mudança grave na mundana sorte;
Quem sempre a morte achou no lar da vida,
Deve a vida encontrar no lar da morto.”
                                              Laurindo Rabelo

Texto C = Evasão pela morte.

"Não achei na vida amores
Que merecessem os meus.
Não tenho um ente no mundo
A quem diga o meu-adeus.
Não posso da vida à campa
Transportar uma saudade.
Cerro meus olhos contente
Sem um ai de ansiedade.
Por isso, ó morte, eu amo-te e não temo:
Por ísso, ó morte, eu quero-te comigo.
Leva-me à região da paz horrenda
Leva-me ao nada, leva-me contigo."
                                           Junqueira Freire


Texto D = Sonoridade.

“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques, têm mais-vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá,

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá,
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o sabiá.”

                                  Gonçalves Dias

Texto E = Consciência de solidão.

“Passei como D. Juan entre as donzelas,
Suspirei as canções mais doloridas
E ninguém me escutou...
Oh! nunca à virgem flor das faces belas
Sorvi o mel nas longas despedidas...
Meu Deus! ninguém me amou!
..................................................................
Vivi na solidão - odeio o mundo
E no orgulho embucei meu rosto pálido
Como um astro na treva...
Senti a vida um lupanar imundo -
Se acorda o triste profanado, esquálido
--- A morte fria o leva.”
                                     Álvares de Azevedo

Texto F = Saudosismo.
“Minh'alma é triste como a flor que morre
Pendida à beira do riacho ingrato.
Nem beijos dá-lhe a viração que corre,
Nem doce canto o sabiá do mato!
E como a flor que solitária pende
Sem ter carícias no voar da brisa,
Minh'alma murcha, mas ninguém entende
Que a pobrezinha só de amor precisa!”

                                      Casimiro de Abreu

Textos – Características.
A (6) - (l) Saudosismo
B (4) - (2) Evasão pela morte
C (2) - (3) Consciência de solidão
D (5) - (4) Imaginação criadora, fantasia
E (3) - (5) Sonoridade
F (1) - (6) Indianismo (evasão pelo tempo) 

09 – Releia a poesia “Canção do Exílio” (Texto D, questão anterior) e responda:
a) Onde é lá?
      Brasil.

b) Onde é cá?
      Portugal.

10 – O poeta encontra-se saudoso de sua terra natal, pelo exílio sofrido em Portugal. Transcreva abaixo dois elementos da natureza ligados ao Brasil:
      Sabiá e Palmeiras.

11 – Observe as afirmações abaixo e responda ao que se pede:
I. Preferência pela realidade exterior sobre a interior.
II. Anteposição da fé à razão, com valorização da mística e da intuição.
III. Poesia descritiva de representação dos fenômenos da natureza. Detalhismo.
IV. Gosto pelo pitoresco, pela descrição de ambientes exóticos.
V. Atenção do escritor aos detalhes para retratar fielmente o que descreve.
        Das características gerais acima expostas, justifique uma que pertença à estética literária do Romantismo:
      Resposta pessoal do aluno.

12 – Não é próprio do Romantismo:
a) Explorar assuntos nacionais como história, tradições, folclore;
b) Idealizar a mulher, tornando-a perfeita em todos os sentidos; 
c) Explorar assuntos ligados à antiguidade clássica, imitando-lhe os poetas e prosadores; 
d) Valorizar temas fúnebres e soturnos. 

13 – De acordo com a posição romântica, é correto afirmar que:
a) A natureza é expressiva no Romantismo e decorativa no Arcadismo. 
b) Com a liberdade criadora implantada no Romantismo, as regras fixas do Classicismo caem e "o poema começa onde começa a inspiração e termina onde termina esta". 
c) A visão do mundo romântica é centrada no sujeito, no "eu" do escritor, daí a predominância da função emotiva na linguagem do Romantismo. 
d) Todas as alternativas anteriores estão corretas. 

14 – Poderíamos uma das características do Romantismo pela seguinte aproximação de opostos:
a) Cultivando o passado, procurou formas de compreender e explicar o presente. 
b) Pregando a liberdade formal, manteve-se preso aos modelos legados pelos clássicos. 
c) Embora marcado por tendências liberais, opôs-se ao nacionalismo político. 
d) Voltado para temas nacionalistas, desinteressou-se do elemento exótico, considerando-o incompatível com exaltação da pátria. 

15 – A visão do mundo, nostálgica nos românticos, explica-se:
a) Pelas inúmeras guerras havidas na época do Romantismo.
b) Pela inadaptação aos valores absolutistas implantados pela monarquia brasileira. 
c) Pelo descontentamento da nobreza, que deixa o poder, e de parte da burguesia, que ainda não havia assumido ou que tivesse ficado à margem dele. 
d) Pela contemplação de um Brasil conservador, baseado no latifúndio, no escravismo e na monarquia. 

16 – “Deus! Oh, Deus! Onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu'estrelas tu t'escondes Embuçado no céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, Que embalde desde então corre o infinito... Onde estás, senhor Deus? ..."
Complete: Esta é a primeira estrofe de um poema que é exemplo de angústia, da autoria do poeta condoreiro, o Poeta dos Escravos, Castro Alves. O título dessa poesia se refere à denúncia de um ato recém criminoso, à época: Navio Negreiro.

17 – Assinale a alternativa que traz apenas características do Romantismo:
a) idealismo, religiosidade, objetividade, escapismo, temas pagãos.
b) predomínio do sentimento, liberdade criadora, temas cristãos, natureza convencional, valores absolutos. 
c) egocentrismo, predomínio da poesia lírica, relativismo, insatisfação, idealismo.
d) idealismo, insatisfação, escapismo, natureza convencional, objetividade. 

18 – UM ÍNDIO

"um índio descerá de uma estrela colorida brilhante
de uma estrela que virá numa velocidade estonteante
e pousará no coração do hemisfério sul na américa
num claro instante
(...)
virá
impávido que nem muhammad ali
virá que eu vi
apaixonadamente como peri
virá que eu vi
tranquilo e infalível como bruce lee
virá que eu vi
o aché do afoxé filhos de ghandi virá"
                                               (Caetano Veloso)

        O trecho anterior mostra, com uma visão contemporânea, determinado tipo de tratamento dado ao índio brasileiro em certo período de nossa literatura. 
O nome do poeta indianista que manifestou tal tendência é Gonçalves dias autor do longo e famosos poema indianista I-Juca Pirama.

19 – Complete: "A verdadeira poesia deve inspirar-se num entusiasmo natural e exprimir-se com naturalidade, sendo simples, pastoril, bucolicamente ingênua e inocente."
Esta afirmação caracteriza a estética árcade uma vez que exalta elementos ligados à natureza, opondo-se ao culto do interior que identifica o romantismo.

20 – (PUC-RS / adaptada) Complete:
        A estrofe abaixo demonstra que a mulher aparece frequentemente na poesia de Alvares de Azevedo, poeta ultra romântico, como figura inacessível. Outra característica da segunda geração romântica é o mal-do-século.
“Era a virgem do mar! Na escuma fria
Pela maré das águas embaladas!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!”. 






POEMA: NÃO HÁ VAGAS - FERREIRA GULLAR - COM QUESTÕES GABARITADAS

Poema: Não há Vagas
                               Ferreira Gullar


O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
O preço do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite 


da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira
                              Ferreira Gullar, in 'Antologia Poética' 

Entendendo o poema:


01 – Onde é comum encontrar a expressão “não há vagas”, que dá nome ao poema?
      Expressão típica do mundo do emprego, das relações patrão e empregado, indica falta de oportunidade.

02 – Que imagem esse título ajuda a construir no poema?
      À falta de oportunidades no mercado de trabalho.

03 – Como você interpretaria no poema a expressão “o homem sem estômago”?
      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Aquele, remediado ou rico, cujas preocupações não se voltam para as questões básicas de subsistência.

04 – Que artigos de primeira necessidade aparecem na primeira estrofe?
      Os itens: feijão, arroz, gás, luz, telefone, leite, carne, açúcar e pão.  

05 – De acordo com o contexto do poema, qual o significado de sonegar?
      Pressupõe furtar, fraudar, desviar.

06 – Na segunda estrofe são destacados dois sujeitos que também não cabem no poema. Quem? Por quê?
      O funcionário público e o operário. O primeiro, com seu “salário de fome” tem a “vida fechada / em arquivos”. O operário por sua vez, ao esmerilar o seu “dia de aço” nas “oficinas escuras”.

07 – O que o poeta quis dizer com:
·        “Mulher de nuvens”?
      A mulher idealizada, objeto de abstração. 

·        “Fruta sem preço”?
Aquela apenas admirada nas formas, se exposta na obra de arte, e não aquela comprada nos tablados da feira.

08 – Na última estrofe: “O poema, senhores, 
                                       não fede 
                                       nem cheira.”
O que o poeta afirma?
      Afirma que o poema apenas idealiza a vida – tanto faz existir ou não, é indiferente.

09 – Quem é o autor do poema?
      Ferreira Gullar.

10 – Como o poeta se refere aos operários da fábrica?
      Como não cabe no poema o operário que esmerila seu dia de aço e carvão nas oficinas escuras.

11 – Você concorda com as ideias do poeta? Explique sua resposta.
      Resposta pessoal do aluno.

12 – Em sua opinião, o que o autor quis dizer com a expressão “Não há vagas”?
      Resposta pessoal do aluno.

13 – Você conhece pessoas que exercem atividades citadas no poema?
      Resposta pessoal do aluno.

14 – Sobre o poema Não há vagas, de Ferreira Gullar, é correto afirmar:
a) Ao ser aproximada de um ato lúdico como o fazer poesia, a crítica social é atenuada e perde força.
b) A ruptura com o verso tradicional situa o poema no contexto da primeira geração modernista.
c) Nota-se uma conjunção entre a reflexão sobre o fazer poético e a preocupação com a realidade social adversa.
d) A crítica política e a reflexão sobre a literatura presentes no poema configuram exceção na produção poética de Ferreira Gullar.
e) Trata-se de texto poético que destoa do conjunto da obra Toda poesia por utilizar redondilhas maiores e menores. 

15 – Sobre a obra de Ferreira Gullar estão corretas as seguintes proposições:
I. Uma das principais características da obra de Ferreira Gullar é a reflexão sobre a criação artística. Para o poeta, a poesia é fruto de um trabalho árduo, racional, que implica fazer e desfazer o texto até que ele alcance a sua forma mais adequada.
II. Ferreira Gullar integrou o grupo de poetas religiosos que se formou no Rio de Janeiro entre as décadas de 1930 e 40. Sua poesia é dividida em duas fases: a fase transcendental e a fase material.
III. A poesia de Ferreira Gullar destaca-se pelo engajamento político. Essa produção poética engajada ganhou força a partir dos anos de 1960, quando o poeta rompeu com a poesia de vanguarda, aderindo ao Centro Popular de Cultura (CPC).
IV. Explorando propriedades gráficas e vocais das palavras, rompendo com a ortografia e com as convenções da lírica tradicional, Ferreira Gullar integrou de maneira circunstancial o movimento concretista, do qual se afastou em virtude de discordâncias em relação às suas propostas teóricas.
V. Propôs um corte profundo entre a poesia romântica e a poesia moderna, criando um novo conceito de poesia ao dessacralizar a chamada “poesia profunda”, ou seja, a poesia em que predominam os versos de sentimentos ou de abordagem introspectiva.
 Sua poesia é anti-lírica, presa ao real e direcionada ao intelecto, não às emoções.
a) I, II e V estão corretas.
b) III e IV estão corretas.
c) III e V estão corretas.
d) I e IV estão corretas.
e) II, III e IV estão corretas.

16 – O poema de Ferreira Gullar tem um tom de polêmica. A quem se dirige a voz que fala no poema? Justifique sua resposta com elementos do texto.
      A voz que fala no poema aparentemente se dirige a uma plateia, como se percebe pelo vocativo “senhores” da terceira e da última estrofes.

17 – Que tipo de linguagem o autor imita com o tom eloquente do poema?
      Ele imita a linguagem dos discursos de protestos políticos.

18 – Como você classificaria o poema de Gullar?
      O poema de Gullar faz parte da literatura engajada.

19 – Segundo Gullar, o que não cabe no poema?
      A dura realidade em que vive a maioria das pessoas não cabe no poema.





CONTO: O GATO DE BOTAS - CHARLES PERRAULT - COM QUESTÕES GABARITADAS

Conto: O Gato de Botas
                          
                      (Charles Perrault)

        Era uma vez um moleiro muito pobre, que tinha três filhos. Os dois mais velhos eram preguiçosos e o caçula era muito trabalhador.
      Quando o moleiro morreu, só deixou como herança o moinho, um burrinho e um gato. O moinho ficou para o filho mais velho, o burrinho para o filho do meio e o gato para o caçula. Este último ficou muito descontente com a parte que lhe coube da herança, mas o gato lhe disse: 
        -- Meu querido amo, compra-me um par de botas e um saco e, em breve, te provarei que sou de mais utilidade que um moinho ou um asno. 
        Assim, pois, o rapaz converteu todo o dinheiro que possuía num lindo par de botas e num saco para o seu gatinho. Este calçou as botas e, pondo o saco às costas, encaminhou-se para um sítio onde havia uma coelheira. Quando ali chegou, abriu o saco, meteu-lhe uma porção de farelo miúdo e deitou-se no chão fingindo-se morto. 
        Excitado pelo cheiro do farelo, o coelho saiu de seu esconderijo e dirigiu-se para o saco. O gato apanhou-o logo e levou-o ao rei, dizendo-lhe:
        -- Senhor, o nobre marquês de Carabás mandou que lhe entregasse este coelho. Guisado com cebolinhas será um prato delicioso. 
        -- Coelho?! – exclamou o rei.
        -- Que bom! Gosto muito de coelho, mas o meu cozinheiro não consegue nunca apanhar nenhum. Diga ao teu amo que eu lhe mando os meus mais sinceros agradecimentos. 
        No dia seguinte, o gatinho apanhou duas perdizes e levou-as ao rei como presente do marquês de Carabás. 
        Durante um tempo, o gato continuou a levar ao palácio outros presente, todos dizia ser da parte do Marquês de Carabás. 
        Um dia o gato convidou seu amo para tomar um banho no rio. Ao chegarem ao local o gato disse ao jovem:
        -- De hoje em diante seu nome será Marquês de Carabás. Agora, por favor, tire sua roupa e entre na água.
        O rapaz não estava entendendo nada, mas como confiava no gato atendeu seu pedido. 
        O gato havia levado rapaz no local por onde devia passar a carruagem real. 
        O esperto gato ao ver uma carruagem se aproximando começou a gritar:
        -- Socorro! Socorro! 
        -- Que aconteceu? – perguntou o rei, descendo da sua carruagem. 
        -- Os ladrões roubaram a roupa do nobre marquês de Carabás! – disse o gato.
        -- Meu amo está dentro da água, ficará resfriado. 
        O rei mandou imediatamente uns servos ao palácio; voltaram daí a pouco com um magnífico vestuário feito para o próprio rei, quando jovem. 
        O dono do gato vestiu-se e ficou tão bonito que a princesa, assim que o viu, dele se enamorou. O rei também ficou encantado e murmurou: 
        -- Eu era exatamente assim, nos meus tempos de moço. 
        O rei convidou o falso marquês para subir em sua carruagem. 
        -- Será que a vossa majestade nos dá a honra de visitar o palácio do Marquês de Carabás? – perguntou o gato, diante do olhar aflito do rapaz.
        O rei aceitou o convite e o gato saiu na frente, para arrumar uma recepção para o rei e a princesa. 
        O gato estava radiante com o êxito do seu plano; e, correndo à frente da carruagem, chegou a uns campos e disse aos lavradores: 
        O rei está chegando; se não lhes disserem que todos estes campos pertencem ao marquês de Carabás, o rei mandará cortar-lhes a cabeça. 
        De forma que, quando o rei perguntou de quem eram aquelas searas, os lavradores responderam-lhe:
        -- Do muito nobre marquês de Carabás. 
        -- Que lindas propriedades tens tu! – elogiou o rei ao jovem.
        O moço sorriu perturbado, e o rei murmurou ao ouvido da filha: 
        -- Eu também era assim, nos meus tempos de moço. 
        Mais adiante, o gato encontrou uns camponeses ceifando trigo e lhes fez a mesma ameaça: – Se não disserem que todo este trigo pertence ao marquês de Carabás, faço picadinho de vocês.
        Assim, quando chegou a carruagem real e o rei perguntou de quem era todo aquele trigo, responderam: 
        -- Do mui nobre marquês de Carabás. 
        O rei ficou muito entusiasmado e disse ao moço:
        -- Ó marquês! Tens muitas propriedades! 
        O gato continuava a correr à frente da carruagem; atravessando um espesso bosque, chegou à porta de um magnífico palácio, no qual vivia um ogro muito malvado que era o verdadeiro dono dos campos semeados. O gatinho bateu à porta e disse ao ogro que a abriu: 
        Meu querido ogro, tenho ouvido por aí umas histórias a teu respeito. Dizei-me lá: é certo que te podes transformar no que quiseres? 
        -- Certíssimo – respondeu o ogro, e transformou-se num leão. 
        -- Isso não vale nada – disse o gatinho. – Qualquer um pode inchar e aparecer maior do que realmente é. Toda a arte está em se tornar menor. Poderias, por exemplo, transformar-te em rato? 
        -- É fácil – respondeu o ogro, e transformou-se num rato.
        O gatinho deitou-lhe logo as unhas, comeu-o e desceu logo a abrir a porta, pois naquele momento chegava a carruagem real. E disse:
        -- Bem-vindo seja, senhor, ao palácio do marquês de Carabás. 
        -- Olá! – disse o rei.
        -- Que formoso palácio tens tu! Peço-te a fineza de ajudar a princesa a descer da carruagem. 
        O rapaz, timidamente, ofereceu o braço à princesa e o rei murmurou-lhe ao ouvido:
        -- Eu também era assim tímido, nos meus tempos de moço. 
        Entretanto, o gatinho meteu-se na cozinha e mandou preparar um esplêndido almoço, pondo na mesa os melhores vinhos que havia na adega; e quando o rei, a princesa e o amo entraram na sala de jantar e se sentaram à mesa, tudo estava pronto.
Depois do magnífico almoço, o rei voltou-se para o rapaz e disse-lhe: 
        -- Jovem, és tão tímido como eu era nos meus tempos de moço. Mas percebo que gostas muito da princesa, assim como ela gosta de ti. Por que não a pedes em casamento? 
        Então, o moço pediu a mão da princesa, e o casamento foi celebrado com a maior pompa. O gato assistiu, calçando um novo par de botas com cordões encarnados e bordados a ouro e preciosos diamantes. 
        E daí em diante, passaram a viver muito felizes. E se o gato às vezes ainda se metia a correr atrás dos ratos, era apenas por divertimento; porque absolutamente não mais precisava de ratos para matar a fome... 

Entendendo o conto:

01 – Quando o moleiro morreu, como sua herança foi dividida entre seus três filhos?
      O mais velho ficou com o moinho; o burrinho ficou com o filho do meio; e para o caçula ficou o gato.

02 – Qual foi a preocupação do filho mais novo? Por quê?
      A preocupação foi a herança que recebeu, como ele iria conseguir sobreviver.

03 – Quais os objetos que o gato pediu a seu amo?
      Ele pediu um saco e um par de botas.

04 – Entre as três herança, qual delas você escolheria?
      Resposta pessoal do aluno.

05 – Qual foi o título que o gato inventou para o seu amo?
      Marquês de Carabás.

06 – Que animal o gato caçava para presentear o rei?
      Ele caçava coelhos.

07 – Onde o rei conheceu o dono do gato?
      No rio, onde o gato inventou que tinha sido assaltado e o amo tinha ficado sem roupas.

08 – Procure no dicionário o que significa Marquês.
      É um título que acompanha a posse de um marquesado.
      Senhor ou chefe militar a quem estava confiada a guarda das marcas ou fronteiras de um Estado.

09 – Em qual animal pequeno o bruxo ogro, se transformou?
       Ele se transformou num rato.

10 – E como o gato de botas se livrou do bruxo ogro?
       O gatinho deitou-lhe logo as unhas, comeu-o.

11 – Qual foi a fala do rei, para poder encorajar o rapaz a pedir sua filha em casamento? 
      “-- Jovem, és tão tímido como eu era nos meus tempos de moço. Mas percebo que gostas muito da princesa, assim como ela gosta de ti. Por que não a pedes em casamento?”