sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

CRÔNICA: MEU IRMÃO - MARIA CARVALHO - COM GABARITO

 CRÔNICA: Meu irmão

           Maria Carvalho

        Hoje, quando voltávamos da escola, eu percebi que o meu irmão estava chateado. Não fez as brincadeiras bobas de sempre, não ligou o som do carro e praticamente não abriu a boca, a não ser pra cumprimentar a mamãe com um beijo e um oi.

        Quando estávamos chegando, minha mãe perguntou:

        -- Aconteceu alguma coisa, filho?

        O Bruno nem respondeu, só abaixou a cabeça e se desligou. Na hora do almoço, ela insistiu e o Bruno resolveu contar:

        -- Mãe, hoje eu fiz uma grande besteira na escola.

        -- O que foi?

        -- Eu sempre achei demais a turma do Beto. Mas, eu estudando no 6° ano e eles no 8°, deixava um...

        -- Um espaço grande entre vocês? É isso que você quer dizer?

        -- É, mãe, é isso. Só que, por eu ser alto e já estar no time de vôlei, acabei me aproximando deles e eles me tratam de igual pra igual.

        -- Então, qual é o problema?

        Eu já estava curiosa, com vontade de pedir que ele contasse tudo de uma vez. Não sei como mamãe conseguia ficar ali, parada, calma. Mas eu me segurei, senão o Bruno já ia me mandar ficar quieta ou dizer que eu era muito pequena pra ouvir o que ele tinha pra contar. Revirei a comida no prato e fiz de conta que não estava interessada na conversa.

        Ele continuou:

        -- Sabe aquele menino que eu te contei que começou a estudar na minha sala, que usa óculos fundo de garrafa e o uniforme fica grande como se não fosse dele? Pois é, o Roni.

        Quase todo mundo fica gozando dele na hora do recreio e ele fica sempre sozinho, como se tivesse vergonha de estar ali.

        Minha mãe não disse nada, ela e o Bruno já não comiam, tinham largado os talheres, ele, falando com a cabeça baixa; ela, encostada na cadeira, olhando firme pra ele. Acho até que esqueceram que eu também estava ali.

        -- Hoje, no recreio, o Beto falou pra turma que a gente ia se divertir um pouquinho. Todo mundo se animou e ai aconteceu: quando o Roni estava passando, o Beto colocou o pé e o menino caiu. Os óculos dele foram parar longe e a Ana pegou. O Roni se ajoelhou, procurando os óculos, meio assustado. Nós rimos muito e os óculos eram passados de um pro outro. Então, ele pediu:

        -- Meus óculos, por favor, eu não consigo ver quase nada sem eles.

        -- Nessa hora, eu comecei a sentir uma coisa estranha, eu não tava gostando da brincadeira. Não, eu tava achando tudo muito feio, me senti mal. Mas quando uma das meninas pediu pro Beto parar com aquilo, ele disse pra ela cair fora, que no grupo dele só tinha gente forte, de bom-humor, que gostava de brincar. E eu fiquei com vergonha de dizer o que tava pensando e continuei na brincadeira até que ele...

        -- Bruno, mas a mamãe sempre ensinou pra gente que é preciso respeitar os outros, como você pode ser tão mau?

        Pronto, eu não aguentei ouvir aquilo e tive de abrir a minha boca. Mas eu não acreditava que os grandes do 8° pudessem fazer uma coisa dessas e o meu irmão junto. Fiquei até com vontade de chorar.

        -- Dá pra ficar quieta? Não vê que eu tô arrependido? Você é muito pequena pra entender isso, ouviu bem?

        -- Vamos acalmar? Bruno, não desconte na sua irmã. A Flávia é pequena, mas já entende muito bem o que aconteceu e ela tem razão. É difícil entender que você tenha participado de um ato tão... tão...

        -- Tão covarde!

        Ai, escapou. Foi sem querer mesmo. Cheguei a me abaixar na cadeira quando o Bruno e a mamãe me olharam daquele jeito.

        -- Mãe, essa menina...

        -- Flávia, por favor, vamos deixar que seu irmão termine de contar o que aconteceu?

        Fiquei muda, disse pra mim mesma que só ia abrir a boca pra colocar a comida lá dentro. E só!

        -- Mãe, o Roni chorou e a menina que tinha pedido pro Beto parar tomou os óculos da minha mão e entregou pro Roni. Ainda bem que bateu o sinal naquela hora e eu pude ir pra sala, porque eu tava sentindo um aperto por dentro. Na sala, eu não conseguia nem olhar pros lados, parecia que todo mundo sabia o que tinha acontecido e eu tava morrendo de vergonha. Quando bateu o sinal pra saída, eu corri pra porta, apressado, e nem vi a mochila do Márcio, que estava na frente da carteira.

        Acabei tropeçando e fiquei caído no chão. A turma toda riu, menos o Roni. Eu fiquei olhando pra ele e ele vindo na minha direção. Eu imaginei que ele fosse rir, que fosse dizer benfeito ou coisa parecida. Mas ele chegou bem perto, estendeu a mão pra mim e disse:

        -- Não liga, isso também aconteceu comigo hoje.

        -- Mãe, eu morri de vergonha. É claro que ele sabia que eu estava lá na hora do recreio. Levantei com a ajuda dele e nem consegui falar nada, saí correndo.

        -- Filho, eu acho que você não precisa de repreensão pelo que fez. Você mesmo já percebeu que houve muitos erros nessa história e eu tenho certeza de que você vai saber fazer os consertos.

        A minha mãe levantou e abraçou o meu irmão, que estava chorando. Eu fiquei meio engasgada, a comida tinha ficado parada na boca e não sabia direito o que fazia com ela. O que eu sabia é que nós ainda íamos voltar a falar sobre esse assunto, a minha mãe só estava dando um tempo, mas, é claro, era muito importante pra que ficasse assim.

        -- Não vamos falar sobre isso por enquanto. Mas tarde, quando você ficar mais tranquilo, nós voltamos a conversar, está bem?

        Eu não disse?

CARVALHO, Maria. Meu irmão. Texto não publicado, Curitiba, 2000.

                Fonte: Língua Portuguesa – Coleção Mais Cores – 5° ano – 1ª ed. Curitiba 2012 – Ed. Positivo p. 155-161.

Entendendo a história:

01 – Quem narra essa história?

      A Flávia.

02 – Quem a escreveu?

      Maria Carvalho.

03 – Com base no seu entendimento do texto, responda à questão. Como Flávia percebeu que seu irmão estava chateado na volta da escola?

      Porque ele não havia feito as brincadeiras bobas de sempre, não ligou o som do carro e praticamente não abril a boca.

04 – Observe a palavra destacada e explique o que ela significa nesta frase.

        “O Bruno nem respondeu, só abaixou a cabeça e se desligou.”

      Quer dizer que ele não iria mais prestar atenção em nada.

05 – Agora, responda as questões abaixo de acordo com as informações do texto.

a)   Local onde ocorreu o incidente com Bruno.

Na escola.

b)   Nome do líder do grupo do qual Bruno fazia parte.

Beto.

c)   Nome da irmã de Bruno.

Flávia.

d)   Esporte praticado por Bruno e seu grupo.

Vôlei.

e)   Adjetivo encontrado por Flávia para a atitude de Bruno na escola.

Covarde.

f)    Nome do dono do objeto em que Bruno tropeçou.

Marcio.

g)   Sentimento que Bruno sentiu após ter participado da brincadeira.

Vergonha.

h)   Nome do menino que foi humilhado pela turma de Bruno.

Roni.

i)     Sobrenome da autora do texto.

Carvalho.

06 – Observe o que a mãe de Bruno lhe disse:

        “-- Filho, eu acho que você não precisa de repreensão pelo que fez. Você mesmo já percebeu que houve muitos erros nessa história e eu tenho certeza de que você vai saber fazer os consertos.”

a)   Você concorda com a mãe de Bruno de que ele não precisa de repreensão? Por quê?

Sim. Porque ele já tinha se arrependido pelo que fez.

b)   Quais foram os erros dessa história e quais consertos Bruno deve fazer?

Derrubaram o Roni; esconderam o óculos e deram muita rizada. Reconhecer que fez mal e ir pedir desculpas.

07 – Releia estes trechos retirados do texto.

        “-- Hoje, no recreio, o Beto falou pra turma que a gente ia se divertir um pouquinho. [...]”.

        “-- Nessa hora, eu comecei a sentir uma coisa estranha, eu não tava gostando da brincadeira. Não, eu tava achando tudo muito feio, me senti mal. [...]”.

a)   Esses trechos representam a fala de Bruno, por isso alguns termos foram usados na linguagem informal. Identifique-os.

Tava e pra.

b)   Agora, reescreva-os de acordo com a norma-padrão.

Tava = estava; Pra = para.

c)   Discuta com seu professor e colegas as situações em que o uso da linguagem informal é adequado e os momentos em que ela deve ser evitada.

Resposta pessoal do aluno.

 

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