sábado, 25 de maio de 2019

TEXTO: DIETA DO BRASILEIRO É POBRE EM NUTRIENTES E RICA EM CALORIAS - ANTÔNIO GOIS & DENISE MENCHEN - COM GABARITO


Texto: Dieta do brasileiro é pobre em nutrientes e rica em calorias
                     
ANTÔNIO GOIS & DENISE MENCHEN

    Pesquisa do IBGE mostra que o prato mais comum ainda é o arroz com feijão e carne, mas faltam frutas e verduras

        Refrigerante é o quinto produto mais consumido; ingestão de vitaminas, cálcio e fibras é insuficiente.

        O brasileiro consome menos frutas, verduras, legumes, leite e alimentos com fibras do que o recomendado.
        Ao mesmo tempo, ingere excesso de biscoitos, refrigerantes e outros produtos industrializados com muitas calorias e poucos nutrientes.
        O resultado dessa dieta é que brasileiros a partir de dez anos apresentam padrões altos demais de ingestão de sódio (oriundo do sal), açúcar e gordura saturada – substâncias associadas ao desenvolvimento de hipertensão, diabetes e até câncer.
        O consumo de vitaminas A, D e E, cálcio e fibras está abaixo do recomendado.
        A constatação é do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que ouviu 34 mil pessoas entre 2008 e 2009 para o primeiro estudo de abrangência nacional sobre consumo individual de alimentos.
      Foram considerados os produtos ingeridos dentro e fora de casa.
        "Embora tenha uma alimentação ainda à base de arroz e feijão, que têm teores de nutrientes bons, o brasileiro precisa melhorar o consumo de frutas, legumes e verduras e diminuir o de sódio e de açúcar", diz André Martins, técnico do IBGE e um dos responsáveis pelo estudo.

        FALTA VITAMINA

        De acordo com o endocrinologista Isaac Benchimol, especializado em nutrologia, o baixo consumo de vitaminas e cálcio constatado pela pesquisa pode levar ao desenvolvimento de osteoporose e a problemas nos olhos, na pele e nos cabelos, entre outros.
        Um dos "vilões" apontados por André Martins, do IBGE, é o refrigerante, que já aparece entre os cinco produtos mais consumidos pelos brasileiros, atrás do café, do feijão, do arroz e dos sucos e refrescos. Mesmo ingeridos em quantidades menores, biscoitos, salgadinhos, pizzas e doces também preocupam.
        Outro problema é a escassez de frutas, verduras e legumes –alimentos que, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), deveriam somar ao menos 400 g por dia.
        De acordo com a pesquisa, mais de 90% da população com dez anos ou mais de idade consome menos do que isso. Metade sequer atinge 69 g diários – ou seja, pouco mais de um sexto do ideal.

        CAMPANHA

        Para a coordenadora geral de alimentação e nutrição do Ministério da Saúde, Patrícia Constante Jaime, os dados do estudo confirmam a "urgência" de políticas públicas para a promoção da alimentação saudável no país.
        Segundo ela, o governo está desenvolvendo um plano nacional de combate à obesidade e outro para o combate às doenças crônicas. Ambos devem ser lançados até o fim deste ano.
        O objetivo é não só conscientizar os consumidores para a necessidade de fazer escolhas mais saudáveis mas também adotar medidas que permitam elevar a qualidade dos alimentos disponíveis para consumo.
        Exemplos dessa estratégia são acordos com a indústria para a redução dos teores de sódio dos alimentos processados e o fomento da agricultura familiar.
        Para corrigir o déficit generalizado de nutrientes, porém, a melhor receita é dar preferência a alimentos naturais e montar um prato colorido, como ensina o endocrinologista Isaac Benchimol.

    Antônio Góis e Denise Menchen. Dieta do brasileiro é pobre em nutrientes e rica em calorias. Folha de São Paulo, São Paulo, 29 jul. 2011. C8. (Saúde).

        FALTA DE TEMPO DEIXA COMIDA DE VERDADE FORA DA MESA
                                                              DANIEL MAGNONI

        A situação nutricional do brasileiro é compatível com as piores expectativas da atualidade, assim como observamos em outros países em desenvolvimento e do Primeiro Mundo.
        O maior tempo dedicado ao trabalho leva a um consumo crescente de alimentos industrializados, prontos e com excesso de sal, açúcar e gordura saturada, além da opção pelo fast food.
        A manipulação dos alimentos na forma natural, principalmente frutas, legumes e verduras, está sendo relegada ao segundo plano do planejamento doméstico.
        Ao mesmo tempo, cada vez mais observamos a popularização do uso de suplementos de minerais, como cálcio, potássio e zinco, ou de vitaminas, na tentativa de suprir uma necessidade artificial, criada pela publicidade.
      É mais fácil tomar uma pílula do que comer três porções de frutas e vegetais todos os dias.
      Grupos específicos, como idosos, podem precisar dessa suplementação, em forma de produtos farmacêuticos ou de alimentos fortificados com fibras solúveis, ômega-3 etc.
      Mas o que as pesquisas mostram é a necessidade de projetos educacionais para a alimentação saudável, que ataquem tanto a desnutrição infantil quanto a obesidade.
        Seria necessário um pacto incluindo a indústria da alimentação e as esferas de governo em prol dessas ações educativas. Por que não um projeto "Obesidade Zero"?

DANIEL MAGNONI. Falta de tempo deixa comida de verdade fora da mesa.
Folha de São Paulo, São Paulo, 29 jul. 2011. C8 (Saúde).
Entendendo o texto:
01 – O texto apresenta informações sobre um assunto que merece ser divulgado ao público em geral devido à polêmica que provoca. Qual é a ideia central apresentada no texto?
      A má alimentação dos brasileiros, que é pobre em nutrientes e rica em calorias.

02 – Você leu um texto e um artigo de opinião, respectivamente. Sobre o assunto discutido, você concorda com o posicionamento dos autores? Comente.
      Resposta pessoal do aluno.

03 – O texto e o artigo de opinião circularam em que veículo de comunicação?
      Em um jornal impresso, Folha de São Paulo.

04 – Identifique o público alvo do texto.
      O público em geral.

05 – Observe que tanto o texto quanto o artigo de opinião foram publicado no mesmo dia e tratam sobre o mesmo assunto.
a)   No entanto, em relação à forma, como eles se posicionam sobre o tema? Qual é a diferença entre eles?
O texto apresenta várias informações sobre o assunto. No artigo, o autor expõe seu ponto de vista sobre o assunto.

b)   Qual deles pressupõe uma pesquisa mais ampla sobre assunto?
O texto.

c)   Em que consiste essa pesquisa?
Consiste no levantamento de dados estatísticos e na transcrição das falas de algumas autoridades sobre o assunto.

06 – No texto é dito que o brasileiro consome muitos alimentos prejudiciais à saúde em vez de ingerir produtos necessários para o bom desenvolvimento do ser humano. Que doenças esse comportamento pode acarretar?
      Hipertensão, diabetes, câncer, osteoporose, problemas nos olhos, na pele, nos cabelos, etc.

07 – Esses dados tem como fonte o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Eles apontam pontos positivos e negativos a respeito dos hábitos alimentares da população. Identifique-os.
      O ponto positivo é que o brasileiro ainda consome em maior número arroz e feijão, que apresentam nutrientes. O ponto negativo é que ainda é necessário melhorar o consumo de frutas, legumes e verduras e diminuir o de sódio e o de açúcar.

08 – O texto ouviu o depoimento da coordenadora geral de alimentação e nutrição do Ministério da Saúde, Patrícia Constante Jaime. Ela aponta uma atitude necessária para resolver esse problema.
a)   Que atitude é essa?
Políticas públicas que visem à promoção da alimentação saudável no país.

b)   O que tem sido feito nesse sentido e com qual objetivo?
De acordo com ela, o governo está desenvolvendo um plano nacional para combater a obesidade e as doenças crônicas. O objetivo é conscientizar as pessoas para consumir alimentos mais saudáveis e adotar medidas que elevem a qualidade dos produtos disponíveis para o consumo da população.

c)   Com que intenção depoimentos como esses são colocados em um texto?
Para dar credibilidade aos assuntos que estão sendo discutidos.

09 – No artigo, ao comentar sobre o assunto, o articulista (denominação dada ao produtor do artigo) aponta algumas situações que colaboram para que os hábitos alimentares das pessoas sejam ruins. O que ele fala sobre isso?
      Daniel Magnoni explica que o fato de as pessoas dedicarem mais tempo ao trabalho acaba por fazer com que sobre pouco tempo para preparar alimentos saudáveis em casa. Além disso, há o consumo maior de suplementos, todos impulsionados pela publicidade, que cria uma necessidade nas pessoas que anteriormente elas não tinham.

10 – No final de sua análise, Daniel Magnoni expõe dois problemas opostos em nossa sociedade e que precisam ser revistos.
a)   Que problemas são esses?
Desnutrição infantil e obesidade.

b)   Segundo Daniel, o que poderia ser feito para resolvê-los?
O articulista mostra que há a necessidade de criar projetos educacionais para uma alimentação saudável e adequada.




sexta-feira, 24 de maio de 2019

POEMA: MORTE E VIDA SEVERINA - JOÃO CABRAL DE MELO NETO - COM GABARITO

Poema: Morte e Vida Severina
             João Cabral de Melo Neto

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias. 
[...]

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida). 
[...]
João Cabral de Melo Neto. Poesias completas. cit. p. 203-4.

FALAM  AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM
APARECIDO COM OS VIZINHOS 



  --  Atenção peço, senhores,
para esta breve leitura:
somos ciganas do Egito,
lemos a sorte  futura.
Vou dizer todas as coisas
que desde já posso ver
na vida desse menino
acabado de nascer:
aprenderá a engatinhar
por aí, com aratus,
aprenderá a caminhar
na lama, como goiamuns,
e a correr o ensinarão
o anfíbios caranguejos,
pelo que será anfíbio
como a gente daqui mesmo.
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.
Vejo-o, uns anos mais tarde,
na ilha do Maruim,
vestido negro de lama,
voltar de pescar siris
e vejo-o, ainda maior,
pelo imenso lamarão
fazendo dos dedos iscas
para pescar camarão.

  
--  Atenção peço, senhores,
também para minha leitura:
também venho dos Egitos,
vou completar a figura.
Outras coisas que estou vendo
 é necessário que eu diga:
não ficará a pescar
de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas
não pensem que a vida dele
há de ser sempre daninha.
Enxergo daqui a planura
que é a vida do homem de ofício,
bem mais sadia que os mangues,
tenha embora precipícios.
Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré 
que vemos aqui vestido
de lama da cara ao pé.
E mais: para que não pensem
que em sua vida tudo é triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez até lhe conquiste:
que é mudar-se destes mangues
daqui do Capibaribe
para um mocambo melhor
nos mangues do Beberibe.


O Carpina fala com o retirante que esteve
de fora, sem tomar parte em nada.
João Cabral de Melo Neto

(...) -- Severino retirante,
deixe agora que lhe diga: eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida Severina.

                                          Poesias completas. cit. p. 236-41.
Entendendo o poema:
01 – De acordo com o texto de o significado das palavras abaixo:  
·        Aratu: pequeno caranguejo de cabeça triangular.
·    Goiamum: tipo de crustáceo que vive em lugares lamacentos, em tocas que ele mesmo cava.
·        Monturo: grande quantidade de lixo.
·   Jereré: aparelho feito de madeira e rede usado na pesca de siris, camarões e peixes pequenos.
·        Mucambo: barraco.
·        Carpina: carpinteiro.

02 – Severino é um substantivo próprio, é o nome do retirante, protagonista da história. No entanto, a palavra severino é empregada como adjetivo nas expressões “morte severina” e “vida severina”. Interprete: qual é o sentido da palavra severina nessas situações?
      Em “morte severina”, tem o sentido de uma morte anunciada pelas péssimas condições de vida; e em “vida severina”, de uma vida sofrida, de luta pela sobrevivência.

03 – De origem medieval, os autos são textos teatrais que representam um nascimento, quase sempre o de Cristo, encenado por ocasião das festas do Natal.
No fragmento lido de Morte e vida severina:
a)   A presença de duas personagens confere ambientação mística à cena. Quais são essas personagens?
As duas ciganas.

b)   Elas correspondem a que personagens da cena do nascimento de Cristo?
Correspondem aos três reis magos.

c)   O que há em comum entre o bebê nascido e Cristo?
A origem humilde, o conteúdo de esperança que representa, o destino incerto.

04 – Ambas as ciganas fazem previsões quanto ao futuro bebê.
a)   Em que se diferenciam as previsões?
A primeira cigana prevê que o bebê será um homem ligado ao rio; a segunda, que será um operário.

b)   Em que se assemelham?
Em ambas as profissões, ele será um homem socialmente marginalizado, mais um severino.

05 – Na conversa entre Severino e mestre carpina, o retirante pergunta ao mestre “se não vale mais saltar / fora da ponte e da vida”. De acordo com o texto:
a)   Quem acaba respondendo a Severino?
A vida.

b)   Qual é a resposta dada?
A vida, mesmo quando severina, vale a pena.

06 – Nos últimos versos, mestre capina diz:
        “Mesmo quando é uma explosão
         como a de há pouco, franzina;
         mesmo quando é a explosão
         de uma vida severina.”

        O texto, no conjunto, faz uma forte crítica social. Contudo, pela ótica que ele apresenta, há esperança?
      Sim, pois cada vida que brota, mesmo tendo um destino “severino”, renova as esperanças de uma vida melhor.

07 – A explosão de mais “uma vida severina” parece dar continuidade a essa corrente de severinos. Eles não estão somente no sertão seco do Nordeste; estão em todo o país, severinamente lutando contra a “morte em vida”.
a)   Afinal, quem são os severinos deste país?
Resposta pessoal do aluno. Sugestão: São os trabalhadores em geral, que, no campo ou na cidade, lutam pela vida, apesar da miséria, da ineficácia dos governantes, da corrupção, etc.

b)   Como se justifica o título da obra: Morte e vida severina?
Morte e vida se equivalem, pois a vida é uma luta constante contra a morte, uma luta para manter-se a vida, mesmo que “severina”, isto é, sofrida.




CRÔNICA: NA ESQUINA E NA PRAÇA - MARINA COLASANTI - COM GABARITO

Crônica: Na esquina e na praça
                      
                 Marina Colasanti

        Dobramos a esquina e vi o homem caído. Não. Dobramos a esquina e ouvi os gritos do homem caído. Não. Dobramos a esquina e ouvi os gritos. Aí vi que eram de um homem caído.
        -- Mãe, vou até a praça com a Rita brincar nos balanços.
        -- Tá bem. Não demora. Rita, traz leite na volta.

        Vi o homem caído e pensei que estivesse ferido e falei, para o carro que o homem está ferido. Mas logo pensei que estivesse bêbado, mania minha de dramatizar. Aí vi o sangue.
        Começou a chover, achei que as meninas tinham se protegido debaixo de alguma marquise. Não me preocupei por elas estarem demorando.
        O homem estava caído ao lado da carrocinha de cachorro-quente, na calçada da praia. Saltamos do carro correndo. Pensei que tinha se machucado carregando engradados de refrigerantes, tinha se cortado nos cacos. Tentei inventar uma história para justificar de forma incolor o homem caído no sangue. Mas o homem tinha a sua história.
        Reclamei com as duas quando as vi chegar. Vinham suadas, de cabelo molhado. Cadê o leite? Perguntei.
        -- Foi assalto. Levaram todo o dinheiro. Estavam de carro.
        O homem pálido, a cabeça encostada num embrulho, quase não se mexia. Cadê a ambulância? Já vem. O sangue na calçada ia virando mingau, os sapatos deixaram uma marca clara revelando o cimento.
        -- Mãe, você não sabe o que aconteceu!
        -- Deram tiro nele de pura malvadeza. Não queriam pagar o cachorro-quente e ainda levaram o dinheiro.
        O homem gemendo. Me leva, gente, me leva que eu estou morrendo. Tá morrendo nada, foi na perna, amigo, perna não mata ninguém. É, mas é na perna que tem o femural, eu fosse a senhora levava ele, a ambulância não vem mesmo, o homem acaba morrendo.
        Acaba morrendo no meu carro. Aí, o que é que eu faço? E vai manchar tudo de sangue. Não, não é por causa do sangue, mas é porque a gente não deve mexer em gente ferida. Não é não, é por causa do medo mesmo, estou com medo de me envolver com o homem, com o sangue do homem, com a morte e a vida do homem. Oh, meu Deus, por que é que eu fui passar por esta esquina e dar de cara com a minha mesquinhez?
        -- Mãe, foi um bando de meninos [...]. Eles rodearam a gente e atiraram areia e pedras na gente, puxaram o cabelo da Rita, aí disseram que minha mãe era piranha e eu disse que não era, que minha mãe é jornalista, e eles não deixavam a gente ir embora nem andar, e disseram que iam arrancar minha carteira e tomar meu dinheiro e ainda me davam uma surra.  
        -- Eu vi da janela quando deram o tiro nele.
        Será que o homem morre mesmo? e se morrer e eu não tiver levado ele, como é que vou viver depois? E seu levar e morrer no caminho, como é que eu vou viver depois? Mas eu juro que a ambulância vem, o homem disse que vinha. Eu preciso que a ambulância venha.
        -- Aí, mãe, chegaram dois moços e vieram salvar a gente. Espantaram os meninos, deram a maior bronca, e trouxeram a gente até aqui embaixo.
        Lá vem a ambulância. Pronto. É pela boca da calça que se levanta a perna de um ferido. Eles sabem mexer sem machucar. O homem não está morrendo, não vai morrer, não tem femural nenhuma. Foi um tiro na perna, e eu estou salva.
        -- Tive tanto medo, mãe.

                     Marina Colasanti. Na esquina e na praça. In: _______ A casa das palavras. São Paulo: Ática. [s.d.] v. 32.
Entendendo a crônica:

01 – O que você achou do texto e das situações apresentadas nele?
      Resposta pessoal do aluno.

02 – O que a leitura desse texto despertou em você? Comente com os colegas e verifiquem se eles também tiveram a mesma sensação ao ler o texto.
      Resposta pessoal do aluno.

03 – Por que o primeiro parágrafo, a narradora relata os fatos na ordem não linear? Que efeito de sentido isso causa na compreensão?
      Isso ocorreu porque ela foi relatando os fatos com base no que ia recordando, o que torna a narrativa não linear. O efeito é a ideia de agitação da vida cotidiana.

04 – Embora a história seja contada de forma desordenada, é possível perceber que duas situações diferentes de violência foram relatadas.
a)   Que situações são essas?
O homem que levou um tiro na perna e as meninas que foram assaltadas.

b)   Identifique em cada parágrafo do texto cada uma das duas histórias apresentadas.
Resposta pessoal do aluno. Sugestão: A resposta está indicada no texto.

05 – Releia o seguinte trecho: “Acaba morrendo no meu carro. Aí, o que é que eu faço? E vai manchar tudo de sangue. Não, não é por causa do sangue, mas é porque a gente não deve mexer em gente ferida. Não é não, é por causa do medo mesmo, estou com medo de me envolver com o homem, com o sangue do homem, com a morte e a vida do homem. Oh, meu Deus, por que é que eu fui passar por esta esquina e dar de cara com a minha mesquinhez?”

a)   Por que o narrador se considera mesquinha? Explique.
Porque ela reconhece que estava mais preocupada com a sua própria situação do que com o problema vivenciado pela pessoa que estava precisando de ajuda.

b)   A maneira como a narradora desse trecho trata o problema revela que a violência é vista de que forma?
A atitude dela revela que a violência é vista de maneira banal.


POEMA: A TRANSAÇÃO - OSWALD DE ANDRADE - COM GABARITO

Poema: A transação
        
     Oswald de Andrade

O fazendeiro criara filhos
Escravos escravas
Nos terreiros de pitangas e jabuticabas
Mas um dia trocou
O ouro da carne preta e musculosa
As gabirobas e os coqueiros
Os monjolos e os bois
Por terras imaginárias
Onde nasceria a lavoura verde do café.

                 Pau-Brasil. 2. ed. São Paulo: Globo, 2003.  p. 123.

Entendendo o poema:
01 – Em relação ao texto identifique elementos da paisagem nacional.
      Lavoura verde do café, gabirobas e coqueiros, monjolos e bois.

02 – O poema expressa um momento de profunda transformação vivida pela economia brasileira no século XX explicite esse momento.
      A Escravidão e o cultivo do café, pois era a base da economia na época.

03 – Associe o poema aos principais ciclos da economia brasileira. 
      O poema é associado aos escravos e ao café, pois os escravos plantavam o café que também os sustentava.

04 – Qual é o tema do poema “A transação”?
      Os negócios.

05 – Um dos traços da poesia Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, são os temas nacionais, vistos por uma perspectiva crítica. Em relação ao poema “A transação”:
a)   Identifique no texto elementos da paisagem nacional.
Terreiros de pitangas e jabuticabas, as gabirobas e os coqueiros e a lavoura verde do café.

b)   O poema expressa um momento de profunda transformação vivida pela economia brasileira no início do século XX. Explicite esse momento.
“Tudo revertendo em riqueza.”.

c)   Associe o poema aos principais ciclos da economia brasileira.
Expressa o movimento republicano e início do processo da Proclamação da República.


TEXTO: AS TRÊS LEIS DA ROBÓTICA - ISAAC ASIMOV - COM QUESTÕES GABARITADAS

Texto: AS TRÊS LEIS DA ROBÓTICA 
                 
                        Isaac Asimov

   1. Um robô não pode prejudicar um ser humano ou, por omissão, permitir que o ser humano sofra dano.
    2. Um robô tem de obedecer às ordens recebidas dos seres humanos, a menos que contradigam a Primeira Lei.
   3. Um robô tem de proteger sua própria existência, desde que essa proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.

        Andrew Martin disse "obrigado" e ocupou a cadeira que lhe foi indicada. Não parecia estar lançando mão do último recurso, mas estava.
        Não, parecia, aliás, coisa alguma, pois não havia nenhuma expressão em sua fisionomia, a não ser a tristeza que se imaginava vislumbrar no olhar. O cabelo era liso, castanho-claro, meio ralo; não usava barba. Dava impressão de que acabara de fazê-la, irradiando limpeza. Trajava-se de maneira conservadora, com roupas bem feitas, onde predominavam cores roxas em tecido de veludo.
        Diante dele, do outro lado da escrivaninha, via-se o cirurgião. A placa em cima da mesa incluía uma série de letras e números de identificação completa que Andrew nem se preocupou em examinar. Bastava chamá-lo de "doutor" e pronto.
        ─ Quando poderá ser feita a operação, doutor? ─ perguntou.
        Em voz baixa, no imperturbável tom de respeito que os robôs sempre usavam com as criaturas humanas, o médico respondeu:
        ─ Creio que não estou entendendo. A que operação o senhor se refere e quem seria submetido a ela?
        Poderia ter demonstrado certo ar de intransigência respeitosa, se um robô dessa espécie, de aço inoxidável meio bronzeado, fosse capaz de demonstrar qualquer tipo de expressão.
        Andrew Martin observou atentamente a mão direita do médico, acostumada a empunhar o bisturi, pousada sobre a escrivaninha. Os dedos longos eram modelados com articulações metálicas em curvas artísticas tão elegantes e apropriadas que se tomava fácil visualizar os instrumentos cirúrgicos com que deviam, temporariamente, se confundir. O seu trabalho não admitia hesitações, nem tropeços, tremores ou erros. Essa confiança em si mesmo, naturalmente, provinha da especialização, uma aspiração tão ardentemente desejada pela humanidade que raros robôs continuavam dotados de cérebros autônomos. Como esse cirurgião, por exemplo. Só que possuía uma capacidade de inteligência tão limitada que nem reconheceu Andrew e, provavelmente, jamais ouvira falar nele.
        ─ Nunca pensou que gostaria de ser homem? ─ perguntou Andrew.
        O médico vacilou um pouco, como se a pergunta não se enquadrasse em nenhuma das trilhas positrônicas que lhe tinham sido predeterminadas.
        ─ Mas, meu senhor, eu sou robô.
        ─ Não preferiria ser homem?
        ─ Gostaria era de ser melhor cirurgião. O que não seria possível, se fosse homem, mas apenas se pudesse ser um robô mais aperfeiçoado. Gostaria de ser um robô mais aperfeiçoado.
        ─ Não se ofende com o fato de que posso lhe dar ordens? Obrigá-lo a levantar-se, sentar, andar para cá e para lá, apenas pedindo para que faça isso?
        ─ Tenho o maior prazer em agradar ao senhor. Se as suas ordens interferissem no meu comportamento em relação ao senhor ou a qualquer outro ser humano, eu não lhe obedeceria. A Primeira Lei, relativa aos meus deveres com a segurança humana, teria prioridade sobre a Segunda, que se refere à obediência. Quanto ao mais, tenho o maior prazer em ser obediente. Agora, em quem devo efetuar a operação?
        ─ Em mim mesmo ─ respondeu Andrew.
        ─ Mas isso é impossível. Trata-se, evidentemente, de uma operação prejudicial.
        ─ Não interessa ─ afirmou Andrew calmamente
        ─ Eu não posso causar danos ─ retrucou o cirurgião.
        ─ Para uma criatura humana, claro que não pode ─ disse Andrew ─, mas eu também sou um robô.
                    Isaac Asimov. O homem Bicentenário. Trad. Milton Persson.
Porto Alegre: L&PM, 1997. (L&PM Pocket).
Entendendo o texto:
01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:
·        Vislumbrar: perceber ou compreender.
·        Intransigência: intolerância.
·        Positrônico: que se refere ao pósitron, antipartícula do elétron, cuja carga elétrica é igual à do elétron.

02 – Você já conhecia essa história? Comente.
      Resposta pessoal do aluno.

03 – Que tipo de cirurgia você acha que Andrew queria fazer?
      Para ser transformado em ser humano.

04 – A partir da descrição de Andrew Martin, foi possível perceber que ele tinha uma grande semelhança com os seres humanos. Você acha que um dia será possível que os robôs tenham características humanas? Comente.
      Resposta pessoal do aluno.

05 – O texto de Isaac Asimov mostra uma situação possível de ocorrer no dia-a-dia. No entanto, há um elemento que permite classificar essa obra como ficção científica. Que elemento é esse?
      A presença de robôs humanizados.

06 – O texto lido é iniciado com a descrição das três leis que caracterizam a robótica.
a)   A partir da leitura dessas leis, copie qual das afirmativas é correta.
·        O ser humano deve estar em 1° lugar sempre.
·        Um robô nunca pode ser ferido.
·        Tanto o robô quanto o ser humano devem ser protegidos de maneira igual.

b)   Com que finalidade essas leis foram apresentadas no texto?
A fim de mostrar os princípios e as atitudes que os robôs devem ter em relação ao ser humano, sempre protegendo-o, de modo que a criatura não se sobressaia ao seu criador.

c)   Isaac Asimov, em seu conto chamado Eu, robô, apresenta a sociedade sob a ameaça dos robôs, que estão tomando conta dela e se rebelando contra os seres humanos. Dessa forma, o que é demonstrado nesse conto em relação às leis da robótica apresentada no início de O Homem Bicentenário?
Que quando as regras são quebradas, fogem do controle do ser humano.

07 – O médico era considerado muito capaz devido a sua especialidade, que não permite tropeços, tremores ou erros. No entanto, isso fazia com que ele não tivesse habilidade para outras coisas, limitando-o. Cite um exemplo de falta de habilidade dele.
      Ele não reconhecia as pessoas.

08 – Em um momento do texto, Andrew questiona se o Robô não gostaria de ser humano.
a)   O que o robô respondeu?
Que ele gostaria de ser melhor cirurgião.

b)   Por que ele aceitava sua condição?
Porque fora criado e programado para ter uma habilidade específica, não sendo capaz de realizar atividades diversas.

09 – Andrew e o médico conversaram e discutiram sobre uma cirurgia que deveria ser realizada. Por que o médico não quis operar o paciente?
      Porque ele acreditou que Andrew era um ser humano.

10 – Ao longo do texto há descrições sobre as características de Andrew.
a)   Antes de ser revelado que Andrew era um robô, a descrição feita dele indicava isso? Por quê?
Não. Indicava que era um ser humano, pois a forma como ele aparece caracterizado é semelhante à de uma pessoa.

b)   Transcreva do texto trechos que comprovem sua resposta.
Isso pode ser observado no seguinte trecho: “O cabelo era liso, castanho-claro, meio ralo; não usava barba. Dava a impressão de que acabara de fazê-la, irradiando limpeza. Trajava-se de maneira conservadora, com roupas bem-feitas, onde predominavam cores roxas em tecido de veludo”.

c)   O que essas características de Andrew revelam em relação a ele e aos demais robôs?
Que Andrew era diferente deles, pois apresentava características que o aproximavam dos seres humanos.

11 – No final do texto há uma surpresa, uma quebra de expectativa. Explique do que se trata e por que ela foi inesperada.
      Trata-se da revelação feita por Andrew Martin, em que ele revela que é um robô, assim como o médico.

12 – As empresas estão adotando cada vez mais a robótica, uma vez que isso aumenta a produtividade e, consequentemente, o lucro delas. Apesar desse aspecto positivo, quais são os pontos negativos dessa incorporação da robótica nas grandes empresas?
      O principal problema é a substituição da mão de obra humana, que estimula o aumento do desemprego.

13 – No início do texto são expostas as três leis da robótica. Em cada uma delas aparece o termo um. Qual é a classe de palavras desse termo e que função ele desempenha nesse trecho?
      O termo é classificado como artigo indefinido e tem a função de generalizar a ideia, no caso, ele generaliza o termo robô.

14 – Releia o seguinte trecho do texto: “Andrew Martin disse ‘obrigado’ e ocupou a cadeira que lhe foi indicada. Não parecia estar lançando mão do último recurso, mas estava”. Que sentido a expressão em destaque apresenta nesse contexto?
      Lançando mão: utilizando.

15 – Observe os verbos empregados no trecho em que o autor expõe as três leis da robótica, no início do texto.
a)   Qual é o tempo verbal predominante?
Presente do indicativo.

b)   De que forma esse tempo verbal contribui para o objetivo a que esse trecho se propõe?
O trecho tem por objetivo orientar o leitor a seguir algumas leis e, para isso, emprega frases no presente.