quinta-feira, 23 de maio de 2019

POEMA: LISBON REVISITED - ÁLVARO DE CAMPOS - COM GABARITO

Poema: Lisbon Revisited
       
       Álvaro de Campos

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral! 


Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! 

                   In Fernando Pessoa. Obra poética. Rio de Janeiro. Nova Aguilar, 1986.

Entendendo o poema:

01 – Do ponto de vista formal, aponte três características modernistas do poema.
      A presença de versos livres de estrofes heterogêneas e de uma linguagem coloquial, próxima da fala.

02 – Desde a primeira estrofe, o sujeito poético imprime um tom exasperado, irritado, ao seu discurso, que se caracteriza fundamentalmente pela negação.
a)   O que está sendo negado nas cinco estrofes iniciais?
As conclusões, as estéticas, a moral, a metafísica, os sistemas completos das ciências, das artes e da civilização moderna, a verdade.

b)   Transcreva o verso dessas cinco estrofes que mostra com maior clareza a postura irônica do sujeito poético perante os valores por ele negados:
O verso é: “Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –“.

03 – Na sua opinião:
a)   A quem o sujeito poético está se dirigindo, em suas negações?
O sujeito poético está se dirigindo a todos aqueles que defendem e representam os valores por ele negados.

b)   O que é negado como um todo, ao longo do poema?
Ao longo do poema, o sujeito poético está negando todos os valores da civilização moderna.

04 – A Modernidade caracteriza-se pela fragmentação do ser humano – a perda do sentimento de “ser inteiro”, advinda da relativização das certezas, da multiplicidade de opções, da falta de parâmetros para a escolha do que fazer, do melhor caminho a seguir. Considerando essa característica da Modernidade, releia a sexta estrofe e responda:
a)   Como o sujeito poético se auto define?
O sujeito poético se auto define como um técnico e, ao mesmo tempo, como um “doido”.

b)   Em que sentido o sujeito poético pode ser considerado representativo da Modernidade?
O sujeito poético pode ser considerado representativo da Modernidade porque nele percebemos a cisão entre racionalidade, técnica e irracionalidade, loucura. Nesse sentido, ele exemplifica a fragmentação do homem moderno.

05 – No contexto de negação de valores, há um verso no poema que ironiza o modo de vida burguês, com suas instituições e suas rotinas.
a)   Transcreva esse verso.
“Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?”

b)   Cite as instituições e os comportamentos burgueses ironizados por esse verso.
O casamento, a futilidade, o apego aos costumes rotineiros, como pagar impostos.

06 – O sujeito poético se apoia na morte e na solidão para renegar os valores do mundo em que vive. O que essa postura revela a seu respeito?
      Essa postura revela sua marginalidade, seu desajustamento em relação ao mundo em que vive.

07 – Pelo nervosismo e perturbação podemos considerar “neurótica” sua postura perante o mundo e as pessoas. Partindo dessa afirmação, escolha uma estrofe reveladora dessa neurose e justifique sua escolha.
      A oitava estrofe pode ser escolhida, pois nela o sujeito poético revela o máximo de exasperação diante das pressões para se ajustar aos valores do mundo moderno e compactuar com eles.

HISTÓRIA EM QUADRINHOS - PERÍODO COMPOSTO POR SUBORDINAÇÃO ADJETIVA - COM GABARITO


       TIRA: PERÍODO COMPOSTO POR SUBORDINAÇÃO ADJETIVA     

Fernando Gonsales. Folha de São Paulo, 18/12/2003.

Entendendo a tira:
01 – Nos quadrinhos, há três períodos compostos por subordinação adjetiva.
        “É daqueles (sonhos) chatos em que você não é você?
         Você está num lugar que de repente vira outro?
         E tem um cara que parece outro.”

a)   As orações ligam-se à oração anterior por meio de conectivos. Que palavras, expressões anteriormente, esses conectivos substituem?
Aqueles (sonhos) chatos; um lugar; um cara, respectivamente.

b)   Qual é a função de cada um dos pronomes relativos?
Adjunto adverbial de lugar, sujeito e sujeito, respectivamente.

02 – Por que a personagem perdeu a vontade de contar o sonho?
      Porque o sonho era exatamente como o outro descrevera e porque não tinha nenhuma novidade.

HISTÓRIA EM QUADRINHOS - NÍQUEL NÁUSEA - ORAÇÃO SUBORDINADA SUBSTANTIVA - COM GABARITO


Tira: com interpretação e gabarito.
                 Fernando Gonsales


Níquel Náusea – Nem tudo que balança cai. São Paulo: Devir, 2003. p. 12.

Entendendo a tira:
01 – No 1° quadrinho da tira, na fala do beija-flor, há uma oração subordinada substantiva. Identifique-a e classifique-a.
      Que o beija-flor bate a asa setenta vezes por segundo – OSSOD.

02 – O humor da tira é construído a partir da quebra de expectativa provocada pela resposta negativa do ratinho.
a)   Qual era a expectativa do beija-flor ao fazer a pergunta ao ratinho?
Era impressionar o ratinho ao lhe dizer quantas vezes por segundo um beija-flor bate a asa.

b)   Por que o beija-flor é quem sai surpreendido nessa conversa?
Porque o ratinho elogia uma terceira personagem, que, na sua visão, é muito mais incrível, pois teve a capacidade de contar rapidamente todas as batidas de asa do beija-flor.

MENSAGEM ESPÍRITA - ELES VIVEM ANTE OS QUE PARTIRAM... FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER - DITADO POR EMMANUEL - PARA REFLEXÃO

Eles Vivem Ante os que partiram...


         Eles Vivem 
        Ante os que partiram, precedendo-te na Grande Mudança, não permitas que o desespero te ensombre o coração.
        Eles não morreram. Estão vivos.
        Compartilham-te as aflições, quando te lastimas sem consolo.
    Inquietam-se com sua rendição aos desafios da angústia quando te afastas da confiança em Deus.
        Eles sabem igualmente quanto dói a separação.
        Conhecem o pranto da despedida e te recordam as mãos trementes no adeus, conservando na acústica do espírito as palavras que pronunciaste, quando não mais conseguiram responder as interpelações que articulaste no auge da amargura.
        Não admitas estejam eles indiferentes ao teu caminho ou à tua dor.
      Eles percebem quanto te custa a readaptação ao mundo e à existência terrestre sem eles e quase sempre se transformam em cirineus de ternura incessante, amparando-te o trabalho de renovação ou enxugando-te as lágrimas quando tateais a lousa ou lhes enfeitas a memória perguntando porque.
        Pensa neles com a saudade convertida em oração.
    As tua preces de amor representam acordes de esperança e devotamento, despertando- os para visões mais altas na vida.
    Quando puderes, realiza por eles as tarefas em que estimariam prosseguir e tê-los-ás contigo por infatigáveis zeladores de teus dias.
        Se muitos deles são teu refúgio e inspiração nas atividades a que te prendes no mundo, para muitos outros deles és o apoio e o incentivo para a elevação que se lhes faz necessária.
        Quando te disponhas a buscar os entes queridos domiciliados no Mais Além, não te detenhas na terra que lhes resguarda as últimas relíquias da experiência no plano material ...
        Contempla os céus em que mundos inumeráveis nos falam da união sem adeus e ouvirás a voz deles no próprio coração, a dizer-te que não caminharam na direção da noite, mas sim ao encontro de Novo Despertar.

                             Francisco Cândido Xavier – ditado por Emmanuel

TEXTO: A CULTURA DA AMIZADE - GUIA DO ESTUDANTE - COM QUESTÕES GABARITADAS

Texto: A cultura da amizade

        A amizade tem sido eleita por pensadores e artistas de diversos tempos como uma das coisas mais importantes da vida. Há quem lhe atribua importância maior que a do amor.
      Em nosso mundo contemporâneo não faltam produções escritas ou audiovisuais que coloquem a amizade no mais alto patamar. Porém, tanto nas produções de tempos passados como nas de tempos atuais, a amizade é tratada como um ideal, no sentido de que é algo difícil de ser obtido.
        Na Antiguidade Clássica, Cícero já apontava a existência daqueles que suprimem a amizade de suas vidas ao comentar que os que assim o faziam pareciam-no privar o mundo do sol. Se há um amplo reconhecimento de sua importância, por que a amizade é vista e apresentada como algo difícil e raro?
        Montaigne, em suas reflexões, oferece alguns elementos que nos permitem abordar melhor a questão. Ao apresentar a amizade como um tipo de relacionamento no qual se busca uma intimidade sem reservas, Montaigne põe foco em um aspecto das relações pessoais que, se foi complexo em seu tempo, seguramente é problemático na sociedade ocidental contemporânea.
        É uma característica de seus dias atuais o crescente individualismo, que alguns pensadores preferem qualificar como narcisista. Vive-se em um ambiente no qual, mais do que ser, é preciso parecer. A criação da atividade de consultor de imagem nós dá uma dimensão da separação cada vez maior entre o que efetivamente somos e a imagem que buscamos (ou precisamos) transmitir.
        A nossa aparência não busca refletir o que somos mas, em uma inversão de significado de “imagem”, é ela quem nos define para outros. Em tal contexto, como construir intimidade? E, em consequência, como cultivar amizades?
        Se tem sido benéfico para o sistema econômico, o individualismo narcisista tem transformado, no plano das relações pessoais, campos aráveis em terras arenosas.
        Milhares de anos atrás, a humanidade foi desafiada e deu uma resposta e um salto qualitativo ao aprender a cultivar a terra. Hoje o novo desafio é colocado e, novamente, a alternativa pode estar no desenvolvimento do cultivo, da cultura da amizade.

Guia do Estudante – Redação Vestibular 2008. São Paulo: 2008.
Entendendo o texto:
01 – O texto dissertativo apresenta três partes essenciais: uma introdução, na qual é exposta a tese ou a ideia principal que resume o ponto de vista do autor acerca do tema; o desenvolvimento, constituído pelos parágrafos que explicam e fundamentam a tese; e a conclusão. Numere os parágrafos do texto em estudo e identifique:

a)   O parágrafo em que é feita a introdução do texto;
1° parágrafo.

b)   Os parágrafos que constituem o desenvolvimento do texto;
Do 2° ao 7° parágrafo.

c)   O(s) parágrafo(s)de conclusão.
8° parágrafo.

02 – Releia o parágrafo em que é feita a introdução do texto. Qual é a tese defendida pelo autor?
      A amizade como uma das coisas mais importantes da vida das pessoas.

03 – O desenvolvimento é formado pelos parágrafos que fundamentam a tese. Normalmente em cada parágrafo é apresentado e desenvolvido um argumento. Cada argumento pode ser desenvolvido por meio de procedimentos como:
        Comparação – Exemplificação – Apresentação de dados estatísticos – Alusão histórica – oposição ou contraste – relação de causa e efeito – citação – definição.

        Reconheça no desenvolvimento do texto o parágrafo em que é feito o uso de:
·        Comparação: 2° parágrafo.
·        Alusão histórica: 3° e 4° parágrafos.
·        Citação: 3° e 4° parágrafos.
·        Oposição ou contraste: 2° e 6° parágrafos.
·        Definição: 2°, 3° e 4° parágrafos.
·        Relação de causa e efeito: 7° parágrafo.

04 – O texto dissertativo-argumentativo faz uso de dois tipos básicos de conclusão: a conclusão-resumo, que retoma as ideias do texto, e a conclusão-sugestão, em que são feitas propostas para a solução de problemas. Que tipo de conclusão o texto em estudo apresenta?
      Apresenta a conclusão-sugestiva: a candidata sugere que, assim como no passado a humanidade foi desafiada a cultivar a terra, hoje ela é desafiada a cultivar a amizade.

05 – Observe a linguagem do texto.
a)   Que tempo e modos verbais são predominantes?
O tempo presente e o modo indicativo.

b)   Qual é a variedade linguística empregada?
A variedade padrão.

c)   A linguagem é predominantemente pessoal ou impessoal? Justifique sua resposta com base na pessoa do discurso, nas formas verbais e nos pronomes empregados.
A linguagem é impessoal, como comprova o uso predominante da 3ª pessoa no tratamento do assunto.

d)   O texto revela maior preocupação com a expressividade, com a emotividade ou com a precisão das informações?
Com a precisão das informações.

06 – Quais são as principais características de um texto dissertativo-argumentativo? Responda, levando em conta os seguintes critérios: finalidade do gênero, perfil dos interlocutores, suporte/veículo, tema, estrutura e linguagem.
      Explicar ou desenvolver um tema proposto, analisando-o sob um determinado ponto de vista e fundamentando-o com argumentos convincentes. Autor: aluno, vestibulando, concursando; Destinatário: professor, examinador ou corretor de concurso. O suporte é o papel; eventualmente pode ser publicado em prospectos, revistas e sites. Sua estrutura apresenta três partes: ideia principal ou tese, desenvolvimento e conclusão. A linguagem tende à impessoalidade; são empregados verbos e pronomes na 3ª pessoa do singular; há predomínio da variedade padrão.

ROMANCE: VIAGENS DE GULLIVER - JONATHAN SWIFT - COM QUESTÕES GABARITADAS

Romance: Viagens de Gulliver
     
    Viagem a Lilliput – Após a tempestade, um reino em miniatura

        A tempestade começou de repente. Ondas de mais de 30 metros envolviam o navio e o jogavam de um lado para outro, como se fosse de brinquedo. Rajadas de vento logo destruíram as velas. 
       Eu era o médico de bordo e fiquei esperando o pior.
        -- Recifes a estibordo!
        O grito desesperado do marinheiro que estava na gávea soou quase ao mesmo tempo que o barulho do choque do majestoso veleiro Antílope, no qual viajávamos, com a pedras. Foi uma confusão dos diabos. Tripulantes correndo em todas as direções, gente gritando, outros jogando-se no mar, cada um tentando salvar a própria pele.
        Estava quase paralisado pelo medo, as mãos grudadas na amurada do convés, quando fui cuspido para fora do navio, que já se inclinava perigosamente. Senti meu corpo envolto na água gelada do mar e no momento em que dei por mim – confesso que não me lembro como consegui – estava num pequeno bote com outros cinco marinheiros, todos remando com fúria para nos afastarmos o máximo possível do Antílope, que começava a afundar. Sabíamos que, se ficássemos por perto, seríamos tragados pelo oceano por causa do redemoinho que sempre se forma em torno de uma embarcação quando está submergindo.
        O esforço valeu, mas foi sobre-humano. Exaustos, largamos um pouco os remos e deixamo-nos levar pelas ondas, apesar do perigo ainda presenta. Foi só o tempo de curvar um pouco o corpo para a frente, a fim de aliviar a tensão nas costas... De repente, uma onda traiçoeira, surgida da escuridão, jogou o bote longe, despejando-nos outra vez na água.
        Ao voltar à tona, apavorado, tentei enxergar algum companheiro do bote. Sentindo que ia afundar, a água entrando em minha boca, gritei por eles como pude, uma, duas, sei lá quantas vezes. A única resposta foi o estrondo das ondas e o zunir do vento. Parecia definitivo: eu estava ali, no meio do oceano, sozinho...
        No entanto, logo reagi. Estava vivo e isto, diante das circunstâncias, já era alguma coisa. Minha preocupação passou a ser só uma: manter-me vivo. Comecei então a nadar às cegas.
        Lutei com as ondas durante horas a fio. De vez em quando, para mexer outros músculos, nadava cachorrinho. Foi assim que, ao esticar uma das pernas, toquei em alguma coisa que parecia o fundo. Seria possível? Não podia acreditar. Estiquei novamente a perna, bem devagarinho, e lá estava, sólido, o fundo do mar. Pude então ficar de pé, com a água batendo no meu queixo. Com o resto das forças, caminhei em direção à praia, onde, exausto, deixei o corpo cair sobre a areia fofa. Estava salvo, pelo menos de morrer afogado. Olhando o céu, ainda com estrelas, a primeira imagem que me apareceu foi a de minha mulher Mary e das crianças.
        Mary havia discordado totalmente desta minha viagem: fez de tudo para que eu desistisse. Lembrou minhas promessas de nunca mais navegar (eu adorava viajar por mar), contou velhas histórias de navios engolidos pelo oceano ou devorados por monstros e disse ainda que eu deveria cumprir minhas obrigações de pai e marido.
        Não adiantou. Minha paixão pela aventura tinha uma força irresistível. Exercia uma atração incontrolável sobre mim e despertava-me uma sensação que eu amava desde a juventude. Logo que me formei em medicina, embarquei como médico de bordo para correr o mundo e os riscos das novas rotas de navegação. Por causa disso tudo, eu embarcara no Antílope, deixando o porto de Bristol, Inglaterra, no dia 4 de maio de 1699.
        Assim, pensando em Mary, nas crianças e em grandes aventuras, adormeci profundamente, longe de imaginar que estava sendo observado por alguns olhinhos escondidos na selva.
        Não sei por quantas horas dormi. Ao acordar, senti o sol nos olhos. Tentei mover a cabeça e não consegui: meus cabelos estavam presos ao chão. Tentei me levantar e não pude: meu corpo estava como que colado na areia. Meu Deus! O que estaria acontecendo? Para piorar a situação, senti algo subindo pela minha perna esquerda. Pensei que fosse algum siri ou caranguejo. Mas aquela coisinha logo alcançou meu peito... Baixei bem os olhos, como se fosse examinar a ponta de meu nariz, e vi uma criaturinha humana de menos de um palmo de altura, observando-me com o mesmo olhar de espanto com que eu a encarava.
        Percebi então que dezenas de outros homenzinhos como aquele corriam pelo meu corpo. Assustado, dei um tremendo berro. Foi como um terremoto para eles. Apavorados, começaram a atirar-se ao chão. Deviam ser centenas, pelo burburinho que produziam.
        Um deles, mais corajoso, gritou:
        -- Hekinah degul!
        Todos começaram a repetir a mesma coisa, cada vez mais alto. Só pensei em sair dali. Concentrei minhas forças no braço esquerdo e consegui libertá-lo. Todo o meu corpo estava amarrado por centenas de linhas a ganchos espetados no chão. Antes que pudesse soltar as outras amarras com a mão esquerda, ouvi um segundo grito uníssono:
        -- Tolgo phonac!
        Era uma ordem de ataque, por que senti centenas de pequenas flechadas em minha mão esquerda e no rosto. Eram como picadas de agulhas. Já irritado, tentei livrar-me delas, mexendo o corpo o quanto podia. Mas recebi uma chuva maior de flechadas e resolvi aquietar-me para pensar melhor no que fazer.
        Enquanto isso, eles construíram rapidamente um minipalanque de meio metro de altura do meu lado esquerdo, próximo à minha cabeça. Alguns deles subiram até lá, e aquele que parecia o chefão do grupo deu um novo grito: então uns 50 homenzinhos cortaram os fios que prendiam minha cabeça, e eu a virei em direção ao palanque.
        Nesse momento, o tal chefe proferiu um longo discurso, do qual não entendi coisa alguma. Pela entonação, imaginei que fazia ameaças. Quando terminou, ficaram todos em silêncio, olhando para mim, como se eu tivesse entendido tudo e devesse responder. Fiz uma cara de bons amigos, de quem não quer briga e, com a mão esquerda, tentei mostrar que estava com fome.
        O chefe entendeu imediatamente, o que foi um alívio. Já haviam mandado preparar a comida: a uma ordem sua, mais de 100 homenzinhos começaram a subir por uma escada, encostada em meu corpo, para trazer os alimentos até minha boca. Eram pernis e lombos assados de carneiro, menores do que asas de passarinho, que eu comia com pãezinhos do tamanho da unha do meu dedo mínimo. Havia também o que beber. Colocaram em minha mão esquerda tonéis de vinho, cada um equivalente a um copo dos nossos. Fui bebendo, um a um, rapidamente.
        Percebi que ficaram surpresos com a quantidade que eu comia e a velocidade com que o fazia, mas notei que estavam completamente à vontade ao me alimentar. Passeavam pelo meu corpo com desenvoltura e eu bem que me senti tentado a pegar uns 30 ou 40 e atirá-los todos no chão. Porém, logo me lembrei das flechadas... Além disso, de alguma maneira, eu tinha firmado um acordo de paz ao ficar submisso e não podia atacar um povo que me dava comida em abundância e com tanta boa vontade.
        Terminada a refeição, todos os homenzinhos que estavam me alimentando desceram pela escada. Logo após, apenas um subiu em mim, pela perna direita. Bem solene, chegou ao meu rosto e mostrou suas credenciais com as armas do reino. Em seguida subiu a comitiva, mais ou menos umas 12 pessoas. Depois, todos desceram e foram novamente para o palanque.
        O homenzinho das credenciais iniciou então novo discurso, só que desta vez acompanhado de muita mímica. Falava várias vezes a palavra Lilliput, que mais tarde eu soube ser o nome do país, e apontava em certa direção: era a capital, para onde o rei havia decidido que eu seria levado. Fiz gestos indicando que eu queria ser desamarrado, mas a autoridade presente foi firme e sacudiu a cabeça negativamente. Fiquei zangado e tentei soltar-me outra vez. Fui atingido então por milhares de flechas, por que agora os meus pequenos inimigos eram muito mais numerosos. Pedi desculpas pelo incidente e demonstrei que concordava com as condições impostas.
        -- Pelom selan – ordenou Sua Excelência.
        Os homenzinhos que estavam no chão começaram a cuidar de mim, passando um unguento para aliviar a dor das flechadas. Ao mesmo tempo foram soltando, aos poucos, as amarras que me prendiam o lado esquerdo do corpo, o que me permitiu, com alívio, mudar de posição. Eu nada podia fazer, mesmo livre pela metade, pois estava com muito sono: os pequenos habitantes daquela terra haviam misturado ao vinho um remédio para dormir.
        Tonto, já quase adormecendo, pude ainda ver chegar perto de mim uma enorme carreta de madeira, sobre rodas.
        [...]
          Jonathan Swift. Viagens de Gulliver. Trad. Cláudia Lopes.
São Paulo: Scipione, 1991. p. 5-10.
Entendendo o romance:
01 – De acordo com o texto qual o significado das palavras abaixo:
·        Recife: formação rochosa, em áreas de pouca profundidade.
·        Estibordo: o lado direito do navio, para quem o vê da popa para a proa.
·        Gávea: plataforma a certa altura dos mastros de um navio.
·        Amurada: lado interno do costado de uma embarcação.
·        Convés: qualquer dos pisos ou pavimentos de um navio.
·        Unguento: tipo de pomada.

02 – O título é sempre um elemento importante em um texto. Após a leitura do título do capítulo apresentado, foi possível prever o que seria narrado? Comente.
      Sim, pois ocorreu uma tempestade e, em seguida, o personagem principal da história conheceu uma ilha com seres muito pequenos, em miniatura, como sugere o título.

03 – No final do texto, o narrador diz que dormiu, pois os homenzinhos haviam misturado um remédio para dormir à bebida oferecida a ele.
a)   Você já conhecia essa história? Comente.
Resposta pessoal do aluno.

b)   Em caso negativo, o que você acha que aconteceu com o médico após ele ter dormido?
Resposta pessoal do aluno.

04 – O texto que você leu é uma narrativa. Identifique qual dos elementos da narrativa permite caracterizá-lo como de aventura.
      O enredo: construído por meio de uma ação envolta de acontecimentos que dão ritmo acelerado e empolgante à narrativa (classifica-se como aventura porque no texto é retratada uma ação arriscada, perigosa, extraordinária); O espaço: mar, ilha distante e desconhecida.

05 – A partir da leitura, é possível descobrir quem narra a história? Em que pessoa do discurso se encontra a narrativa? Explique.
      Sim. A narrativa está em 1ª pessoa, pois quem narra a história é o personagem que vivencia os fatos, no caso, o médico Gulliver.

06 – O narrador constrói a narrativa com poucos diálogos e com uma descrição intensa das cenas e sensações vividas. Comente o efeito que o emprego desse modo de narrar acarreta à narrativa de aventura.
      A narrativa centrada mais nas ações que no diálogo permite ao leitor imaginar os acontecimentos de forma mais próxima da que os personagens viveram.

07 – Nos primeiros parágrafos do texto, o narrador explica como foi iniciada a aventura e descreve uma situação muito perigosa e emocionante. Que situação é essa?
      Uma tempestade em alto-mar.

08 – Ao perceber que estava sozinho, Gulliver ficou apavorado. Em que momento ele se deu conta disso? O que ele fez em seguida?
      Ele percebeu que estava sozinho quando uma onda traiçoeira surgiu na escuridão e jogou o bote longe, fazendo com que seus companheiros sumissem no mar. Em seguida, ele decidiu que ia manter-se vivo e nadou às cegas até encontrar uma praia.

09 – Logo que chegou a praia, o narrador lembrou-se das palavras de sua mulher, que, em vão, tentou impedi-lo de realizar aquela aventura pelo mar.
a)   Por que ela quis impedi-lo?
Porque temia os perigos que ele poderia enfrentar e também porque queria que ele ficasse com ela e com os filhos.

b)   O que o motivava a seguir viagem apesar dos perigos descritos por sua esposa?
Sua paixão pela aventura, que despertava nele uma sensação de prazer muito grande.

10 – Ao acordar na praia após naufragar, o médico encontrou habitantes muito diferentes do que estava acostumado a ver. Tanto Gulliver quanto os homenzinhos ficaram apavorados. O que provocou tanto assombro e espanto?
      A aparência de cada um. Os homenzinhos eram seres muito pequenos e Gulliver um ser “gigante”. Assim, todos ficaram assustados em virtude do diferente, do desconhecido.

11 – O médico não entendia o que os moradores daquela ilha estavam dizendo. No entanto, como ele conseguiu perceber o que aqueles homenzinhos queriam comunicar?
      Por meio da entonação da voz e de alguns gestos que eles faziam.

12 – Quando conheceu os homenzinhos, Gulliver não conseguiu se comunicar de imediato com eles. De que forma Gulliver estabeleceu um acordo de paz com os habitantes da ilha?
      Gulliver demonstrou concordar com as condições impostas.

13 – Releia o trecho seguinte: “Ondas de mais de 30 metros envolviam o navio e o jogavam de um lado para outro, como se fosse de brinquedo”.
a)   A que a palavra em destaque se refere?
A palavra em destaque retoma a palavra navio.

b)   A que classe de palavras a palavra destacada pertence?
Pertence à classe dos pronomes, no caso, pronome pessoal oblíquo.

c)   Que efeito de sentido o uso desse recurso dá ao texto?
Esse recurso elimina a repetição de uma determinada palavra, evitando que ele se torne repetitivo.

14 – Releia o seguinte trecho: “[...] Senti meu corpo envolto na água gelada do mar e no momento em que dei por mim – confesso que não me lembro como consegui – estava num pequeno bote com outros cinco marinheiros, todos remando com fúria para nos afastarmos o máximo possível do Antílope, que começava a afundar.”

a)   De quem é essa fala? Qual é a função dos travessões nesse trecho? Explique.
Essa fala é de Gulliver. O travessão indica o acréscimo de uma informação, um comentário a mais sobre o que está sendo dito.

b)   Que outro sinal gráfico poderia ser usado para desempenhar a mesma função? Encontre no texto um exemplo que justifique sua resposta.
Os parênteses. “Eu adorava viajar por mar”.

15 – Quando percebe que está sozinho, o narrador diz: “Parecia definitivo: eu estava ali, no meio do oceano, sozinho...”.
a)   A que palavra a expressão em destaque se refere?
À palavra definitivo.

b)   Que função sintática essa expressão exerce?
Aposto explicativo.

c)   Identifique outro trecho do texto em que essa mesma estrutura aparece.
“Minha preocupação passou a ser só uma: manter-me vivo”.

16 – Observe as expressões em destaque nos trechos a seguir e escreva o significado com que elas foram empregadas.
a)   Senti meu corpo envolto na água gelada do mar e no momento em que dei por mim [...].
Recuperei a consciência.

b)   O esforço valeu, mas foi sobre-humano.
Fora do comum.

c)   Comecei então a nadar às cegas.
Sem rumo preestabelecido.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

POEMA: AO LONGE OS BARCOS DE FLORES - CAMILO PESSANHA - COM GABARITO

Poema: Ao longe os barcos de flores
             
   Camilo Pessanha

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
-- Perdida voz que de entre as mais se exila,
-- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

Clepsidra e outros poemas. Lisboa, Edições Ática, 1973.

Entendendo o poema:

01 – Que elementos simbolistas encontramos, numa primeira leitura do poema?
      A musicalidade, a sugestão de sensações vagas, indefinidas e a atmosfera de sonho e tristeza.

02 – Que versos, repetidos, intensificam a atmosfera de sensações vagas e indefinidas, predominante no texto?
      “Só, incessante, um som de flauta chora / Viúva, grácil, na escuridão tranquila”.

03 – Exemplifique os seguintes recursos simbolistas, presentes nos versos da questão 2:
a)   Imagens musicais.
“Um som de flauta chora”.

b)   Aliterações e assonâncias.
Aliteração: consoantes s e t. Assonância: vogais ó e i.

c)   Imagens de solidão.
“Só”; “Viúva... na escuridão tranquila”.

d)   Imagens de sutileza.
Os dois versos são imagens sutis, reforçadas pela palavra “grácil”.

04 – Encontre um exemplo de sinestesia na 1ª estrofe do poema.
      O último verso da estrofe – “Festões de som dissimulando a hora” – constitui um exemplo de sinestesia, já que associa imagens visuais e auditivas (“festões de som...”).

05 – Que sinais de pontuação o clima de “sugestão do indefinível”, tipicamente simbolista, que faz desse poema um dos mais sugestivos exemplos da presença do estilo em Portugal?
      Trata-se das reticências.