sexta-feira, 10 de maio de 2019

NOTÍCIA: MOVIMENTO DE GAROTAS COLA NOS EUA - MARIA CECÍLIA SÁ PORTO - COM GABARITO

NOTÍCIA: Movimento de garotas cola nos EUA
            
        MARIA CECILIA SÁ PORTO

        Quem vê Ariel Fox – uma garota de 15 anos, baixinha e meigos olhos azuis – não imagina que ela seja a combativa líder do primeiro movimento que se tem notícia nos Estados Unidos de valorização das garotas, o Girl Power (poder das meninas).
        Nas últimas semanas, ela foi notícia do jornal americano "Washington Post" e de revistas especializadas para adolescentes. Tudo por causa do sucesso da sua marca Stickers Sisters, composta de adesivos, broches, cordões de tênis e ímãs com mensagens positivas de orgulho e auto respeito sobre ser menina.
        Ariel decidiu investir nessa iniciativa como resposta a uma situação que considera absurda. Segundo ela, as meninas nos EUA enfrentam problemas de autoestima e de sentimento de inferioridade por causa de um modelo social que cobra dos meninos um comportamento assertivo e das meninas, "doçura".
        "Embora na infância elas sejam tão positivas sobre si mesmas quanto eles, na adolescência os papéis começam a ficar confusos. E, sem que você perceba, já está dirigindo todos os seus esforços num único sentido: agradar aos meninos", diz.
        A proposta de Ariel para as garotas é: unam-se, confiem mais umas nas outras e parem de ridicularizar as garotas que não se encaixam no modelo machista de bonitinha, sexy e charmosa.
        Ariel se comunica com o vasto exército de colaboradoras do seu posto de comando, que é também seu quarto e a oficina de trabalho. Recebe e-mails de meninas de todos os Estados americanos e de nove países: Canada, Chile, Singapura, Japão, Suíça, Paquistão, Itália, Inglaterra e Austrália. Sua lista de endereços já tem mais de mil nomes, e são essas conversas que inspiram a criação dos seus produtos. Possui também uma home page, na qual expõe os catálogos de novos materiais e os "journals", seu espaço de comentários e opiniões pessoais.
        Modesta, ela não se considera nenhuma grande líder, mas admite que é parte de um grande movimento de conscientização das meninas pela igualdade de direitos e pela necessidade de união e ajuda mútua.
        Nas férias de verão (de junho a fim de agosto) pretende lançar um grupo de apoio em que as garotas mais velhas ajudem as mais novas. Essa vai ser a primeira experiência de militância propriamente dita, na qual as garotas vão se encontrar para trocar experiências.
        Como prova de que ela não tem nada contra os garotos -o que faz questão de frisar-, Ariel convidou os mais "ativos" para participar do novo trabalho.
                                                     Folha de São Paulo. 9/3/1998. Folhateen.
Entendendo o texto:
01 – Esse texto foi publicado em suplemento de jornal.
a)   Como se chamam o suplemento e o jornal?
Suplemento: Folhateen. Jornal: Folha de São Paulo.

b)   Pelo título do suplemento, a que tipo de público ele se destina?
O caderno se destina a jovens (teen é uma palavra da língua inglesa que significa “jovem”).

02 – Qual é o objetivo da autora desse texto? Ele poderia ter sido publicado num livro de ficção?
      O objetivo é fornecer uma informação ao leitor. Trata-se de algo que aconteceu na realidade e, portanto, não tem caráter ficcional.

03 – Segundo a jornalista, há uma contradição aparente entre o físico de Ariel e seu comportamento. Por quê?
      Porque não é comum associar a imagem de uma garota baixinha, de olhos azuis e meigos à de uma líder combativa.

04 – Que situação relacionada às garotas, nos estados Unidos, Ariel considera absurda?
      As garotas enfrentam problema de autoestima por causa de um modelo social que cobra dos meninos um comportamento assertivo e das meninas, “doçura”.

05 – Você acha que no Brasil existe essa mesma diferença de expectativa com relação a meninos e meninas? Justifique sua resposta.
      Resposta pessoal do aluno.

06 – Transcreva do quinto parágrafo do texto, três adjetivos que, segundo Ariel, definem o comportamento machista com relação às garotas.
      Bonitinha, sexy, charmosa.

07 – Na região em que você mora, os rapazes também esperam que as moças apresentam essas três características? Dê exemplos que justifiquem sua resposta.
      Resposta pessoal do aluno.

08 – O que permite que Ariel, de dentro do seu quarto, se comunique com adolescentes de vários países do mundo?
      Através da internet.

09 – Na sua opinião, Ariel discrimina os garotos? Justifique sua resposta.
      Resposta pessoal do aluno.

10 – Qual é a proposta que Ariel tem para as meninas?
      As meninas devem se unir e parar de ridicularizar aquelas que não se encaixam no modelo machista de bonitinha, sexy, charmosa.

11 – Na frase: “A sociedade deveria também cobrar das meninas um comportamento assertivo”. Copie a frase substituindo a palavra assertivo por um sinônimo.
      A sociedade deveria também cobrar das meninas um comportamento positivo/afirmativo.

12 – A influência da língua inglesa na linguagem utilizada na internet e nos assuntos ligados à informática em geral é muito grande. Cite duas palavras relativas a essa linguagem que aparecem no texto.
      São: e-mails / home-page.



quinta-feira, 9 de maio de 2019

POEMA: O LEITOR E A POESIA - AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA - COM GABARITO

Poema: O Leitor e a Poesia
              Affonso Romano de Sant´Anna

Poesia
não é o que o autor nomeia,
é o que o leitor incendeia.

Não é o que o autor pavoneia,
é o que o leitor colhe à colmeia.

Não é o ouro na veia,
é o que vem na bateia.

Poesia
não é o que o autor dá na ceia,
mas o que o leitor banqueteia.


Affonso Romano de Sant´Anna. Melhores poemas. 3. ed. Seleção de
Donaldo Schuler. São Paulo: Global, 1997. p. 150.

Entendendo o poema:

01 – O poeta faz uma reflexão sobre o que é a poesia, tradicionalmente vista como fruto da criatividade ou da inspiração do poeta. Observe os versos em que o eu lírico diz o que a poesia não é, e os versos em que ele diz o que a poesia é.
a)   Em síntese, o que o eu lírico nega na definição de poesia?
Nega que a poesia seja aquilo que o poeta pensa ou o que ele pretende comunicar.

b)   O que o eu lírico afirma que é a poesia?
A poesia é o que nasce efetivamente do contato entre o poema e o leitor.

c)   Que novidade reside nesse conceito de poesia, considerando-se a visão tradicional?
A novidade está na inclusão do leitor como elemento constitutivo do poema. De acordo com o poema o leitor tem papel fundamental na consolidação dos sentidos do poema.

02 – De acordo com o poema, poesia é “o que o leitor incendeia”, “O que o leitor banqueteia”, “o que vem na bateia”. Que interpretação pode ser dada a essas definições de poesia?
      De acordo com o poema, a verdadeira poesia é colhida pelo leitor, como se ele fosse um garimpeiro. A poesia de verdade é aquela que é capaz de “incendiar” o leitor, isto é, estimular sua inteligência e sua sensibilidade e satisfazê-lo plenamente, como se ele estivesse num banquete.

03 – O poema é constituído por meio de paralelismos (estruturas de repetição) sintáticos e semânticos. Observe a estrutura destes dois versos: “Poesia. Não é o / que o autor nomeia”
             “Poesia. Não é o / que o leitor incendeia”.
a)   A que classe gramatical pertencem as palavras o e que nesses dois versos?
O: pronome demonstrativo (equivalente a aquilo). Que: pronome relativo.

b)   Qual é a função sintática dessas palavras nesses versos?
O: predicativo do sujeito. Que: objeto direto.

04 – Observe que tanto o pronome relativo quanto a oração adjetiva têm fundamental importância na construção dos sentidos do poema.
a)   Como se classificam as orações adjetivas empregadas no texto?
Orações subordinadas adjetivas restritivas.

b)   Considerando o tema e a finalidade do poema, responda: Por que as orações adjetivas foram empregadas com tanto destaque?
Como o objetivo do poeta é definir o que é poesia, é natural que empregue expressões apropriadas para indicar características, como adjetivos ou orações adjetivas. No caso, ele optou por orações adjetivas.


CONTO: OS RATOS I - (FRAGMENTO) - DIONÉLIO MACHADO - COM QUESTÕES GABARITADAS

Conto: Os ratos I – fragmento  

       Dionélio Machado

        Há ali perto um ruído, dum móvel dali do quarto. Venha! Incorpora no chiado amorfo, unido... Tem medo de decompor esse conjunto, de seguir uma linha qualquer naquela massa...
       Agora é um guinchinho... Várias notinhas geminadas... Parou... O seu chiado voltou a ter aquela uniformidade, aquela continuidade... E o meu marido, o que vai fazer? Nada? Como ele vai viver sem as garrafas, sem as latas, sem as caixas? Vai perambular pela rua, roubar pra comer? Ele se põe a escutar agudamente. Um esforço para afastar aquele conjunto amorfo de ruidozinhos, aquele chiado... Lá está, num canto, no chão, o guinchinho, feito de várias notinhas geminadas, fininhas...
       São os ratos! ... Vai escutar com atenção, a respiração meio parada. Hão de ser muitos: há várias fontes daquele guinchinho, e de quando em quando, no forro, em vários pontos, o rufar... 
        A casa está cheia de ratos...
        [...]
        Está com sono. Mas é preciso reagir. É preciso examinar bem ...
        E ele passa outra vez a sua ideia numa crítica. Vê tudo quanto há de sensato e de absurdo nela...
        Acordar Adelaide?
        Ouve a sua voz, volumosa, retumbando ali dentro do quarto... Ouve-se dizer, com voz cavernosa, estranha, saindo do silêncio: " – Adelaide... Adelaide...” Ela não acorda no primeiro momento. “-- Adelaide...” Não se anima. Talvez que o filho se mexa, que ela se acorde. Aí então, com voz baixa, natural, apenas informativa: "-- Adelaide... Você não tem medo que os ratos possam... (“--­ Sim...?”) estar mexendo no dinheiro? ...” “-- Não mexem, não.” -- E ela se volta outra vez na cama para dormir...
        Naziazeno se tranquiliza...
        Ouve a respiração do filho. Ele dorme um sono pesado, igual.
        Naziazeno examina os “fundamentos” daquela sua tranquilidade. Seria essa – está por jurar – a opinião de Adelaide... “Não mexem...” Pode se tranquilizar, pois. Nunca ouviu falar que houvessem roído um dinheiro assim. "-- Você acha possível, Adelaide, que os ratos roam dinheiro? ...” “-- É: eles roem papel. Dinheiro é um papel engraxado...”
        Faz-se um grande tumulto dentro da sua cabeça!
        [...]
        Está exausto... Tem uma vontade de se entregar, naquela luta que vem sustentando, sustentando... Quereria dormir... Aliás, esse frio amargo e triste que lhe vem das vísceras, que lhe sobe de dentro de si, produz-lhe sempre uma sensação de sono, uma necessidade de anulação, de aniquilamento...Quereria dormir...
        Não sabe que horas são. De fora, do pátio, chega-lhe um como que pipilar, muito fraco e espaçado.
        Quereria dormir...
        Mas que é isso?!... Um baque? ...
        Um baque brusco do portão. Uma volta sem cuidado da chave. A porta que se abre com força, arrastando. Mas um breve silêncio, como que uma suspensão... Depois, ele ouve que lhe despejam (o leiteiro tinha, tinha ameaçado cortar-lhe o leite...) que lhe despejam festivamente o leite. (O jorro é forte, cantante, vem de muito alto...) – Fecham furtivamente a porta... Escapam passos leves pelo pátio... Nem se ouve o portão bater...
        E ele dorme.
                       MACHADO, Dyonélio. Os ratos. 7. ed. São Paulo: Ática, 1980. p. 149-57.

Entendendo o conto:

01 – Depois de um dia estafante, Naziazeno alcança seu objetivo. Assim, sente-se aliviado, de novo um homem. Porém está tenso, tem dificuldade para adentrar o sono por inteiro. Relacione esse estado mental da personagem:
a)   Com a frase “Vê tudo quanto há de sensato e de absurdo nela...”
A oscilação expressa no par sensato / absurdo equivale à oscilação em que se encontra a personagem, meio acordada, meio dormindo.

b)   Com as constantes repetições de ideias, sobretudo a frase “Quereria dormir”.
As repetições de palavras e ideias sugerem o movimento da consciência, cujas ideias vão e vêm continuamente.

02 – Depois que o leiteiro chega, pega o dinheiro e despeja o leite numa vasilha na cozinha, finalmente Naziazeno dorme. Relacione esse fato com sua insônia.
      A entrega do leite é a prova concreta de que Naziazeno superou aquela dificuldade, é a materialização de sua vitória, ao menos naquela situação.

03 – O nome do protagonista assemelha-se, pelo som, às palavras Nazareno e Lazarento (leproso). Associe a trajetória da personagem, nas suas 24 horas de sofrimento, ao sentido dessas palavras.
      Nas 24 horas em que procura um meio de conseguir o dinheiro, Naziazeno faz uma via-crúcis de sofrimento e humilhações como Cristo; além disso, como um leproso, chega a ser escorraçado por muitos.

04 – Os ratos assumem papel decisivo nesses momentos finais da narrativa.
a)   Levando em conta as dificuldades da personagem para conseguir o dinheiro e tomando os ratos no sentido denotativo, que preocupação eles causam em Naziazeno?
A de que o dinheiro seja roído por eles.

b)   Tomando os ratos como elemento simbólico, o que eles representam no conjunto da obra?
Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Podem representar as pessoas simples, pobres, despossuídas de qualquer bem; podem também representar o próprio sistema social, que, centrado no interesse econômico, acaba por corroer as pessoas, transformando-as em coisas.

05 – Leia o comentário crítico sobre a obra:
        “O giro do mundo, o giro do relógio, o giro da vida nada mais é, no fundo, que o giro do comércio, da moeda, simbolizando no giro da roleta. Dionélio Machado retoma um dos motivos mais contundentes da obra de Graciliano Ramos: a reificação a que os homens se sujeitam na sociedade capitalista, evidenciada, de maneira bastante brutal, pela crise. Os homens são ratos apequenados, de focinho e visão curtos.”
                                     História do século XX. São Paulo: Abril Cultural, 1968. v. 4 p. 208.
a)   Relacione o comentário crítico com este trecho do texto: “Quereria dormir... Aliás, esse frio amargo e triste que lhe vem das vísceras, que lhe sobe de dentro de si, produz-lhe sempre uma sensação de sono, uma necessidade de anulação, de aniquilamento”.
Ambos fazem referência à anulação e ao aniquilamento do ser humano na vida em sociedade.

b)   No comentário crítico, Dionélio Machado é comparado a Graciliano Ramos quanto à análise que faz da condição humana na sociedade capitalista, isto é, o homem reificado, transformado em coisa. Na sua opinião, esse comentário sobre Naziazeno é pertinente? Justifique.
Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Sim, pois Naziazeno é uma pequena peça na engrenagem social, alheia aos dramas individuais; é apenas mais um na grande massa de desfavorecidos.  


PRECE DE CÁRITAS - (MATEUS, 21:22)

Prece de Cáritas
          E tudo o que pedirdes na oração, crendo, o receberás
                     
                     Jesus (Mateus, 21:22)

        DEUS, nosso Pai, que sois todo Poder e Bondade, dai a força àquele que passa pela provação, dai a luz àquele que procura a verdade; ponde no coração do homem a compaixão e a caridade.
        DEUS! Dai ao viajor a estrela guia, ao aflito a consolação, ao doente repouso.
  PAI! Dai ao culpado o arrependimento, ao espírito a verdade, à criança o guia, ao órfão o pai.
        SENHOR! Que vossa bondade se estenda sobre tudo o que criastes.
        Piedade, Senhor, para aqueles que vos não conhecem; esperança par aqueles que sofrem. Que vossa bondade permita aos Espíritos consoladores derramarem por toda parte a paz, a esperança e a fé.
        DEUS! Um raio, uma faísca do vosso amor pode abrasar a Terra; deixai-nos beber nas fontes dessa bondade fecunda e infinita, e todas as lágrimas secarão, todas as dores se acalmarão. Um só coração, um só pensamento subirá até Vós, como um grito de reconhecimento e de amor. Como Moisés sobre a montanha, nós vos esperamos com os braços abertos, ó Poder! ó Bondade! ó Beleza! ó Perfeição! e queremos, de alguma sorte, alcançar vossa misericórdia.
        DEUS! Dai-nos a força de ajudar o progresso, a fim de subirmos até Vós; Dai-nos a caridade pura; Dai-nos a fé e a razão; Dai-nos a simplicidade que fará de nossas almas o espelho onde se deve refletir Vossa Imagem.


ROMANCE: FOGO MORTO - (FRAGMENTO) - JOSÉ LINS DO REGO - COM GABARITO

Romance: Fogo Morto - Fragmento
                 José Lins do Rego

        [...]       
        Nunca mais que o cabriolé de Seu Lula enchesse as estradas com a música de suas campainhas. A família do Santa Fé não ia mais à missa aos domingos. A princípio correra que era doença no velho. Depois inventaram que o carro não podia mais rodar, de podre que estava. Os cavalos não aguentavam mais com o peso do corpo. Na casa-grande do engenho do capitão Tomás a tristeza e o desânimo haviam tomado conta até de D. Amélia. Não tinha coragem de sair de casa com aquela afronta, ali a dois passos, com um morador atrevido sem levam em conta as ordens do senhor de engenho. Todos na várzea se acovardavam com as ordens do cangaceiro. O governo mandava tropa que maltratava o povo, e a força do bandido não se abalava. Pobre de seu marido, que não pudera contar com a ajuda dos outros proprietários. Estivera no Santa Rosa e o conselho que lhe deram fora para que não tomasse providência nenhuma perante as autoridades. Todos temiam as represálias. Lula não lhe dizia nada, mas só aquilo de não querer mais botar a cabeça de fora, de fugir até das obrigações de sua devoção, dizia da mágoa que lhe andava na alma. Não lhe tocara no assunto, mas teve vontade de tomar o trem e ir valer-se do Presidente. Não faria isto para não humilhá-lo. Era o fim que ela não esperava que chegasse assim. O engenho se arrastava na safra de quase nada. Mas ainda moía. [...]
        Tudo se calara e D. Amélia parecia que havia saído de um sonho. Agora, a casa silenciava. [...] O gado do engenho vinha chegando para o curral. Pobre gado, meia dúzia de reses. O moleque que o pastoreava gritava para os dois velhos.
        [...] Foi acender o candeeiro da sala de jantar. E quando trepou na cadeira para cortar o pavio, viu na porta de frente uns homens parados na calçada. Acendeu a luz e saiu para saber o que era aquilo. [...]
        Era o Capitão Antônio Silvino no Santa Fé. Os cangaceiros cercaram a casa, e o negro Floripes, amarrado, chorava de medo.
        [...]
        Estendido no marquesão, o senhor de engenho arquejava. A mulher perto dele chorava, enquanto os cabras já estavam no quarto rebulindo tudo. Foi quando se ouviu um grito que vinha de fora. Apareceu o velho Vitorino, acompanhado de um cangaceiro:
        -- Capitão, este velho apareceu na estrada, dizendo que queria falar com o senhor.
        -- Quem é você, velho?
        -- Vitorino Carneiro da Cunha, um criado às ordens.
        -- E o que quer de mim?
        -- Que respeite os homens de bem.
        -- Não estou aqui para ouvir lorotas.
        -- Não sou loroteiro. O Capitão Vitorino Carneiro da Cunha não tem medo de ninguém. Isso que estou dizendo ao senhor disse na focinheira do tenente Maurício.
        -- O que quer este velho?
        -- Tenho nome, Capitão, fui batizado.
        -- Deixe de prosa.
        -- Estou falando como homem. Isto que o senhor está fazendo com o Coronel Lula de Holanda é uma miséria.
        -- Cala a boca, velho.
        Um cangaceiro chegou-se para perto de Vitorino.
        -- Olha, menino, estou falando com o teu chefe. Ainda não cheguei na cozinha.
        -- Deixa ele comigo, Beija-Flor.
        -- O que eu lhe digo, Capitão Antônio Silvino, é o que digo a todo mundo. Eu, Vitorino Carneiro da Cunha, não me assusto com ninguém.
        -- Par com isso, senão eu te mando dar um ensino, velho besta.
        -- Tenho nome. Sou inimigo político do Coronel Lula, mas estou com ele.
        -- Está com ele? Pega este velho, Cobra Verde
        Vitorino fez sinal de puxara o punhal, encostou-se na parede e gritou para o cangaceiro:
        -- Venha devagar.
        Uma coronhada de rifle na cabeça botou-o no chão, como um fardo.
        [...]
        Mas quando ia mais adiantada a destruição das grandezas do Santa Fé, parou um cavaleiro na porta. Os cangaceiros pegaram os rifles. Era o coronel José Paulino, do Santa Rosa. O chefe chegou na porta.
        -- Boa noite, coronel.
        -- Boa noite, capitão. Soube que estava aqui no engenho do meu amigo Lula e vim até cá.
        E olhando para o piano, os quadros, a desordem de tudo:
        -- Capitão, aqui estou para saber o que quer o senhor do Lula de Holanda. E vendo d. Amélia aos soluços, e o velho estendido no marquesão:
        -- Quer dinheiro, capitão?
        A figura do Coronel José Paulino encheu a sala de respeito.
        -- Coronel, este velho se negou ao meu pedido. Eu sabia que ele guardava muito ouro velho, dos antigos, e vim pedir com todo o jeito. Negou tudo.
        -- Capitão, me desculpe, mas esta história de ouro é conversa do povo. O meu vizinho não tem nada. Soube que o senhor estava aqui e aqui estou para receber as suas ordens. Se é dinheiro que quer, eu tenho pouco, mas posso servir.
        Vitorino apareceu a porta. Corria sangue de sua cabeça branca.
        -- Estes bandidos me pagam.
        -- Cala a boca, velho malcriado. Pega este velho, Cobra Verde.
        -- Capitão, o meu primo Vitorino não é homem de regular. O senhor não deve dar ouvido ao que ele diz.
        -- Não regula, coisa nenhuma. Vocês dão proteção a estes bandidos e é isto que eles fazem com os homens de bem.
        [...]
        -- Coronel, eu me retiro. Aqui eu não vim com o intuito de roubar a ninguém. Vim pedir. O velho negou o corpo.
        -- Pois eu lhe agradeço, capitão.
        A noite já ia alta. Os cangaceiros se alinhavam na porta. Vitorino, quase que se arrastando, chegou-se para o chefe e lhe disse:
        -- Capitão Antônio Silvino, o senhor sempre foi da estima do povo. Mas deste jeito se desgraça. Atacar um engenho como este do Coronel Lula, é mesmo que dar surra num cego.
        -- Cala a boca, velho.
        -- Este que está aqui só se cala com a morte.
        Quase que não podia falar. E quando os cabras se foram, o Coronel José Paulino voltou para a sala para confortar os vizinhos. D. Amélia chorava como uma menina. Toda a casa-grande do Santa Fé parecia revolvida por um furacão. [...]
        [...]
        Agora já tinha chegado gente. O dia clareava a desgraça da sala revolta. O Coronel José Paulino despediu-se dos amigos e prepara-se para sair.
        -- Vitorino, vamos para casa.
        -- Está muito engando. Daqui saio para a estação. Vou telegrafar ao Presidente para lhe contar esta miséria. O Rego Barros vai saber disso. Este merda do Antônio Silvino pensava que me fazia correr. De tudo isto, o culpado é você mesmo. Deram gás a este bandido. Está aí. Um homem como Lula de Holanda desfeiteado como um camumbembe. Eu não tenho dinheiro na burra, sou pobre, mas um cachorro deste não pisa nos meus calos.
                                  17 ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1977. p. 249-61.
Entendendo o romance:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:
·        Burra: cofre.
·        Desfeiteado: insultado.
·        Cabriolé: charrete puxada por um só cavalo.
·        Rebulir: remexer.
·        Camumbembe: vadio, vagabundo, mendigo.
·        Revolto: desarrumado, desajeitado.

02 – Considere estes fragmentos do texto:
        “Inventaram que o carro não mais podia rodar, de podre que estava.”
        “Os cavalos não aguentavam mais com o peso do corpo”.
        “O engenho se arrastava na safra de quase nada”.
a)   O que os fragmentos revelam sobre a situação do engenho do Coronel Lula?
Revelam a decadência do engenho, que já não é mais produtivo, como fora na passado.

b)   Que consequência essa situação do engenho trazia para o convívio social do Coronel Lula? Justifique sua resposta com elementos do texto.
A perda de autoridade. Por exemplo, ele expulsa um morador, mas este se nega a sair; seu engenho é invadido por cangaceiros.

03 – O cangaço, que assustava tanto os poderosos quanto as pessoas simples, fazia parte da vida nordestina nas primeiras décadas do século XX.
a)   Que fatos do texto demonstram que o cangaço se ligava ao banditismo?
Os cangaceiros são procurados pela polícia; invadem e vasculham o engenho a fim de amedrontar e roubar.

b)   Ao tentar defender seu vizinho Lula de Holanda, com que autoridade o Coronel José Paulino se dirige ao cangaceiro Antônio Silvino?
Com a autoridade de quem é um coronel rico e poderoso.

04 – O Capitão Vitorino, uma das personagens principais de Fogo Morto, é certamente resultado da observação dos muitos tipos humanos que o autor conheceu na infância. Vitorino por suas ações e por seus ideais de justiça, é frequentemente associado à personagem D. Quixote, criado pelo escritor espanhol Miguel de Cervantes.
a)   Em que consiste a indignação do Capitão Vitorino diante das afrontas do cangaceiro?
Na revolta contra o tratamento que o cangaceiro dá a pessoas indefesas.

b)   Por que ele pode ser considerado uma figura quixotesca?
Porque, tendo certa idade, estando desarmado e sozinho, não tem a menor condição de sair-se bem do enfrentamento com os cangaceiros. Mesmo assim não desiste, diz o que pensa, apanha e, no final, diz que vai telegrafar ao presidente, como se este soubesse quem ele era.

05 – Em depoimento dado a Medeiros Lima e publicado em Políticas e Letras (1948), José Lins Rego afirmava: “Não cuido da forma porque a minha forma é a coisa mais natural deste mundo. Ordem direta, oração principal com sujeito claro, pronomes colocados de ouvido e, sobretudo, adotando soluções que são soluções da língua do povo”.
a)   Identifique no texto trechos que exemplifiquem, de fato, a utilização da língua do povo.
Entre outros: “não cheguei na cozinha”; “Deixa ele comigo, Beija-flor”.

b)   Essa concepção de língua literária é compatível com as ideias defendidas pelos modernistas da primeira geração?
Sim, é inteiramente compatível.

c)   Observe o emprego do discurso direto no texto. Que resultado essa técnica imprime à narrativa?
A narrativa flui com agilidade e naturalidade, aproximando-se da língua oral – característica que interessava aos modernistas de 1920 e continuava a interessar aos romancistas de 1930.