quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CRÔNICA: QUEREIS ENCONTRAR MARIDO? - APRENDEI!... LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: Quereis encontrar marido? – Aprendei!...

            Lima Barreto

 

        A Livraria Schetino, desta cidade, há tempos, editou um pequeno opúsculo de doze páginas, tipo graúdo, entrelinhado, com este soberbo título: Quereis encontrar Mari­do? – Aprendei!...

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhzRxw2-AVecRrRMEA_lcoo2LoxqigAR0h_phf87kUzUyPs4MhdfDadpUXH-WLKR8OaI6nCCvBksbPzn6irHQHCV6Lcfyj9T63JhAoIw2gsxQf5wx_LlT0ZLcyvvW8TgmKP87x1f47XSuWFacjTNxwy9iyWtY5PHGHMza0v0wlpXdNVNzwaiYz83ZAOm3w/s320/images.jpg


        É autor do livro uma senhora, da. Diana D’Alteno, que, a seguir a regra geral, nunca encontrou o seu. Digo isto porque, na quase totalidade, todas as pessoas que se propõem a fornecer tal coisa ou outra aos seus semelhantes, não a possuem. Haja vista os feiticeiros, negromantes, cartomantes, adivinhos, hierofantes, que estão sempre prontos a dar fortuna aos outros, mas que, entretanto, não têm níquel, pois precisam de espórtulas e gratificações para os seus generosos serviços.

        Da. Diana D’Alteno começa o seu interessante opúsculo assim, deste modo, que transcrevo tal e qual: “Gentis e amáveis moças solteiras. É a vós que dedico estes meus escritos. O motivo que me induz a traçar estas linhas é um dos mais vitais, e quiçá dos mais graves.”

        Depois desta invocação às suas caras leitoras, a autora entra de pronto no “argumento”.

        Sabem qual é este argumento? Pois fale ela. Eis as suas palavras: Permiti, pois, que vos fale disso como coisa nova.

        “Se trata do terrível dépeuplement!, a diminuição progressiva do crescimentos, que poderá um dia ser causa de tremendos conflitos entre as nações, aproveitando-se umas sobre as outras de maior a menor número de combatentes.”

        Vejam os senhores só como esta senhora está adiantada em matéria de previsão histórica e como a sua sociologia é muito obstétrica e ginecológica.

        O despovoamento pode ser um dia causa de tremendos conflitos, fenômeno terrível que ela qualifica mais adiante: “espada de Dâmocles suspensa sobre a cabeça de boa parte do gênero humano”. A senhora D’Alteno, ao acabar de fazer tão curiosa descoberta, não fica satisfeita. Parece que o seu gênio é como a atividade catequizadora de São Francisco Xavier; quer ir mais longe, mais longe. Amplius!

        Então toma a palavra pela segunda vez e descobre a causa. Mais uma vez passo para aqui as palavras da ilustre socióloga:

        “Pela segunda vez, peço permissão de tomar a palavra e explicar sem ambages qual seja esse motivo: é a diminuição dos matrimônios. É o caso de dizer: ‘a pequenas causas, grandes efeitos’ e na verdade, os matrimônios se tornam cada vez mais raros e mais difíceis.”

        Peço licença para observar à ilustre senhora coisas simples. Antes, tenho a dizer que nada entendo dessas coisas sociais, mesmo em se tratando de casamentos. Não é ativi­dade da minha seara intelectual, mas já foi dito que cada qual tem o direito de ter uma opinião e de dize-la. Eu julgo que o casamento nada tem com o despovoamento. Pode haver multiplicação da humanidade sem ele, como pode ha­ver com ele. O “crescei e multiplicai-vos” não subentende casamento algum. Há muitas espécies animais que obedecem ao preceito bíblico e prescindem de semelhante cerimônia. Por acaso entre os nossos animais domésticos que crescem e se multiplicam, apesar das pestes, das facas das cozinheiras, do choupo, etc., há pastores e sacerdotes encarregados de realizar casamentos? Não.

        Estou bem certo que a autora não se zangará comigo, apesar do seu nome que, entretanto, não é também propício aos destinos do seu singular folheto. Mas... Afirma da. Diana que “o homem (o grifo é dela) tem medo do matri­mônio. Um sacro terror se apoderou dele a tal palavra”.

        Ainda uma vez peço licença à ilustre autora para discordar. O “homem” não tem medo do matrimônio; o “homem” o quer sempre. A culpa é da mulher que escolhe muito. Se ela casasse com o primeiro que encontrasse, a tal história não se daria. Eu, por exemplo, atiro ao terreiro um grão de milho; se não houver um galináceo que o coma, ele germina logo. Agora, se ele quiser terra especial ou a terra quiser um grão especial, a coisa é outra. Vai ver a ilustre autora como me vai dar razão nas suas penúltimas palavras que são estas:

        “Permanecei ‘mulher’, se quereis um dia ser mãe – a ‘Maternidade!’ é esta a maior vitória que glorifica a mulher; é esta a sua grandiosa obra.”

        Não falaria eu com tanto calor, mas diria a mesma coisa com simplicidade, chãmente. Vossa excelência, porém, está no seu direito, apesar de Diana, de faze-lo da forma que o fez.

        E essas suas palavras vêm à pelo agora quando várias senhoritas se assanham para entrar para a Estrada de Ferro, para o Tesouro, como funcionárias públicas.

        Há nisto vários erros, uns de ordem política, outros de ordem social.

        Os de ordem política consistem em permitir que essas moças se inscrevam em concurso para aspirar um cargo públi­co, quando a lei não permite que elas o exerçam.

        Não sou inimigo das mulheres, mas quero que a lei seja respeitada, para sentir que ela me garante.

        Nos países em que se há permitido que as mulheres exerçam cargos públicos, os respectivos parlamentos têm votado leis especiais nesse sentido. Aqui, não. Qualquer ministro, qualquer diretor se julga no direito de decidir sobre matéria tão delicada. É um abuso contra o qual eu já protestei e protesto.

        Quando era ministro Joaquim Murtinho – da Fazenda – é preciso saber – uma moça requereu inscrever-se em concurso para o Tesouro. Sabem o que ele fez, depois de ouvir as repartições competentes? Indeferiu o pedido, por não haver lei que tal autorizasse.

        Nos Telégrafos e Correios, as moças têm acesso, porque os respectivos regulamentos – autorizados pelo congresso – permitem. Nas outras repartições, não; é abuso.

        Mulher não é, no nosso direito, cidadão.

        Está sempre em estado de menoridade. Por aí iria longe; por isso convém parar.

        Spencer, na Introdução à Ciência Social observa que desde que o serviço militar obrigatório foi instituído em França, para todos os rapazes entre dezoito e vinte e um anos, o que obrigou as raparigas a virem a fazer os serviços que compe­tiam àqueles, as exigências de altura, talhe, etc., para os re­crutas foram pouco a pouco diminuindo; o trabalho da mulher tinha influído na geração...

        Krafft-Ebbing diz, não sei onde, que a profissão da mulher é o casamento; por isso cumprimento da. Diana D’An­teno por ter escrito o seu interessante opúsculo: Quereis’ encontrar Marido? – Aprendei!

Hoje, Rio, 26-6-1919.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é a contradição inicial apontada por Lima Barreto em relação à autora do livro e de que maneira o cronista ironiza sua autoridade no assunto?

      Lima Barreto aponta a ironia de a autora, Da. Diana D’Alteno, ter escrito um guia sobre como encontrar marido sem nunca ter se casado. O cronista satiriza essa posição ao compará-la a charlatães — como cartomantes, adivinhos e feiticeiros —, que prometem riqueza e soluções aos outros, mas continuam sem recursos próprios e dependem de gratificações para sobreviver.

 

02 – Como a autora do opúsculo associa a queda nos casamentos ao cenário geopolítico global e qual é a crítica do autor a essa visão?

      A autora relaciona a escassez de matrimônios ao despovoamento (dépeuplement), prevendo que a falta de crescimento populacional gerará conflitos internacionais graves devido à desigualdade no número de soldados entre as nações. Lima Barreto ridiculariza a abordagem classificando-a como uma sociologia "obstétrica e ginecológica", criticando o alarmismo do argumento e desconstruindo o rigor de sua análise.

 

03 – De que forma o autor rebate a ideia de que o casamento é indispensável para a preservação e o crescimento da espécie humana?

      O cronista desvincula o preceito de proliferação do matrimônio formal. Ele argumenta que o mandamento "crescei e multiplicai-vos" não exige ritos matrimoniais, exemplificando com os animais domésticos, que continuam a se multiplicar sem a necessidade de sacerdotes, pastores ou cerimônias cartorárias para formalizar a união.

 

04 – Qual é a divergência entre Lima Barreto e a autora no que diz respeito ao "medo do matrimônio" por parte dos homens?

      Enquanto a autora sustenta que os homens sentem um "sacro terror" do casamento, Lima Barreto afirma que os homens estão dispostos a se casar, mas atribui o entrave às exigências das mulheres na escolha dos parceiros. O autor utiliza a metáfora do grão de milho atirado ao terreiro: a semente germina facilmente, a menos que a terra exige condições excessivamente específicas.

 

05 – Qual é o posicionamento do cronista em relação ao ingresso das mulheres no serviço público e qual o argumento legal utilizado?

      Lima Barreto manifesta-se contrário à entrada de mulheres em cargos públicos sem legislação prévia favorável. O argumento central apoia-se no princípio da legalidade: por não serem consideradas cidadãs de pleno direito pela legislação da época e estarem juridicamente em "estado de menoridade", sua admissão por decisão unilateral de diretores ou ministros constituiria um abuso administrativo.

 

06 – Como o autor fundamenta seu protesto contra a atuação de autoridades no acesso de mulheres às repartições públicas, citando um exemplo histórico?

      O cronista cita a decisão do ex-ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho, que indeferiu a inscrição de uma mulher em concurso público por falta de amparo legal. O autor destaca que a presença feminina só é legítima onde há regulamentação aprovada pelo Congresso — a exemplo dos Correios e Telégrafos —, classificando qualquer concessão fora dessas diretrizes como uma violação das leis vigentes.

 

07 – De que modo o texto articula as teorias de Spencer e Krafft-Ebing para respaldar a tese de que a função primordial da mulher seria o casamento?

      O autor recorre a Herbert Spencer para ilustrar como o trabalho físico feminino — decorrente do recrutamento militar dos homens na França — teria impactado negativamente a formação biológica das novas gerações. Na sequência, cita Krafft-Ebing para chancelar a tese de que a ocupação natural da mulher é o matrimônio. Com essa fundamentação, o cronista encerra o texto validando a premissa central do folheto de Diana D'Alteno.

 

 

 

FÁBULA: RAP DA CIGARRA E A FORMIGA - JÔ SOARES - COM GABARITO

 Fábula: RAP DA CIGARRA E A FORMIGA

           Jô Soares

Saca essa fábula, bicho,

que vai te deixar cabreiro.

Num depósito de lixo

tinha um bruta formigueiro.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhlf4ySUKMDhESOhJwTvO7MDbKcEYyp38OPBl1lK9_8dOkoVP3xzCkPNQZ921shv9a2l7LPnpNWFiM6L29Si0O6yQmg5KpGrXRvlEA42Nt9GIo3-SlGAAwU9l0MlKOe8riGbYazKWCJUTnwYFEuZO5T4U5hE-3LVRul_5YT1G5SyGLhK-CxYIx4GJqywVI/s320/images.jpg
 

O formigueiro falado,

na verdade não era mixo.

Foi só pra ficar rimado

que eu falei que era no lixo.

As formigas, ligadonas,

trabalhavam noite e dia.

Ficavam muito doidonas

plugadas nessa mania.

Podes crer, não é mentira.

Um dia uma punk louca

que se chamava cigarra

e achava que era touca

trabalhar tanto, na marra,

se meteu com a formigada

e falou, pontificando:

-- Trabalhar é uma jogada

devagar, quase parando.

Coisa careta, uma fria,

bobeira que eu não assumo.

E avisou que não curtia

formigueiro de consumo.

 

As formigas, sem ligar,

responderam na maior:

-- Se você não trabalhar,

vai acabar na pior.

A cigarra se mandou

dizendo que era besteira.

Das formigas se afastou

cantando um rock pauleira.

Só voltou quando era inverno.

As formigas, pra esnobar,

em vez de um papo fraterno,

foram se bacanear.

Disseram logo as formigas:

-- Olha, se quiser guarida

vai pedir pras tuas amigas.

Nós não damos boa vida.

E a cigarra: – Eu tô na minha...

Não vim aqui pedir nada.

Só vim dizer que eu, sozinha,

fiz a Sena acumulada.

        Moral: Para alguém ganhar sozinho a Sena acumulada, tem que ser leão. Ou então cigarra, bicho. Enfim, bicho: bicho.

Jô Soares. Revista Veja. São Paulo: Editora Abril, 31 out. 1990, p. 17.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 89-90.

Entendendo a fábula:

01 – O texto de Jô Soares é uma reescrita da famosa fábula de Esopo/La Fontaine. Quais são as principais diferenças de tom e de linguagem que modernizam essa narrativa?

      A principal diferença é a utilização do gênero textual rap combinado com uma linguagem urbana, jovem e repleta de gírias da cultura pop/underground (como "saca essa", "cabreiro", "bacanear", "punk louca", "careta", "na maior"). Em vez do tom moralizante e solene da fábula tradicional, o autor adota um tom humorístico, descontraído e satírico.

02 – Na segunda estrofe, o narrador faz um comentário sobre o local onde ficava o formigueiro ("Foi só pra ficar rimado / que eu falei que era no lixo"). O que essa metalinguagem revela sobre a estrutura do texto?

      Essa intervenção revela o uso da metalinguagem, na qual o poeta expõe a própria construção do poema ao leitor. Ele admite de forma cômica que a escolha da palavra "lixo" para determinar o cenário foi feita apenas pela necessidade de criar uma rima com "mixo", sem compromisso com a verossimilhança da história, humanizando a figura do narrador.

03 – Como a Cigana é caracterizada no texto e qual é a sua visão em relação ao trabalho contínuo exercido pelas formigas?

      A Cigarra é caracterizada como uma figura rebelde e contra-cultural ("punk louca"), que rejeita o modelo de vida tradicional. Para ela, trabalhar "na marra" e sem parar é uma atitude "careta", "uma fria" e "uma jogada devagar". Além disso, ela critica o estilo de vida das formigas ao afirmar que não curte um "formigueiro de consumo".

04 – Qual é a reação das formigas ao reencontrarem a Cigarra no inverno e o que essa atitude representa?

      Ao reencontrarem a Cigarra no inverno, as formigas agem com soberba e individualismo ("pra esnobar", "foram se bacanear"). Em vez de oferecerem ajuda, mandam a Cigarra procurar as amigas e afirmam que não dão "boa vida" a ninguém. Essa atitude representa a falta de solidariedade e o orgulho das formigas por cumprirem a rotina de trabalho.

05 – Como ocorre o "quebra de expectativa" (clímax cômico) no final do poema em relação ao desfecho da fábula tradicional?

      Na fábula tradicional, a Cigarra volta no inverno humilhada, faminta e dependente do auxílio das formigas. No texto de Jô Soares, a expectativa é subvertida: a Cigarra não volta para pedir abrigo ou comida, mas sim para ostentar que ganhou sozinha na "Sena acumulada", tornando-se rica sem precisar do trabalho duro do formigueiro.

06 – Como a "moral da história" apresentada ao final ironiza tanto o conceito tradicional de fábula quanto a própria realidade social?

      A moral da história ironiza o ensinamento clássico de que "somente o trabalho duro garante a prosperidade". Ao mostrar que a Cigarra enriqueceu por ter ganhado na loteria (Sena acumulada), o texto ironiza a sorte aleatória e as facilidades financeiras que fogem à regra do esforço pessoal. O trocadilho final com "leão" e "bicho" reforça o tom de piada e deboche sobre a aleatoriedade da riqueza.

07 – Quais elementos do texto exemplificam a crítica ao modelo de sociedade focado no trabalho excessivo e no consumo?

      A crítica aparece na descrição das formigas, que trabalhavam "noite e dia" e ficavam "doidonas / plugadas nessa mania" de produzir, caracterizando um vício pelo trabalho atrelado ao "formigueiro de consumo". O texto põe em cheque se a obsessão pelo trabalho sem espaço para a arte ou o lazer é realmente o único caminho válido para a vida.

 

 

MÚSICA (ATIVIDADES): A LENDA DO ABAETÉ - DORIVAL CAYMMI - COM GABARITO

 Música (Atividades): A Lenda do Abaeté

           Dorival Caymmi

No Abaeté tem uma lagoa escura
Arrodeada de areia branca
Ô de areia branca
Ô de areia branca

De manhã cedo
Se uma lavadeira
Vai lavar roupa no Abaeté
Vai se benzendo
Porque diz que ouve
Ouve a zoada
Do batucajé


Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh_3Lnx4h_txA-pLQY9V98qZtsKVAAY6bTwwFAgwDzTzGB2AIAt4Infv-NtOcWLRfsTLWjxEXP7th1jhE9bppY97Lc50yNWvJk2-pxVAI1_NB1q-no6DwuB9j44B9kKSmqYaX6OPQDjuQY4OUSRVJdJJDN1ro7g9kDFwSrmj7G7uPbxX7t78O4apafDr2I/s1600/images.jpg


O pescador
Deixa que seu filhinho
Tome jangada
Faça o que quisé
Mas dá pancada se o seu filhinho brinca
Perto da Lagoa do Abaeté
Do Abaeté

A noite tá que é um dia
Diz alguém olhando a Lua
Pela praia as criancinhas
Brincam à luz do luar

O luar prateia tudo
Coqueiral, areia e mar
A gente imagina quanto a lagoa linda é

A Lua se enamorando
Nas águas do Abaeté
Credo, Cruz
Que diz conjuro
Quem falou de Abaeté
No Abaeté tem uma lagoa escura.

Composição: Dorival Caymmi. 

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 120.

Entendendo a música:

01 – Qual é o contraste visual marcante apresentado no início da canção e qual sentimento essa descrição desperta?

      O contraste visual marcante ocorre entre a "lagoa escura" e a "areia branca" que a rodeia. Esse forte contraste de cores constrói uma atmosfera de mistério, beleza e fascínio. A imagem de uma água escura cercada por areia extremamente clara evoca uma sensação de mistério sagrado, ao mesmo tempo que retrata a paisagem natural e singular da Lagoa do Abaeté, em Salvador.

02 – De que maneira o comportamento da lavadeira ao ir trabalhar revela a aura mística que envolve a Lagoa do Abaeté?

      A lavadeira, ao se dirigir à lagoa pela manhã, "vai se benzendo" porque afirma ouvir a "zoada do batucajé" (um ritual/batuque de matriz africana). Esse ato de se benzer expressa o respeito, a fé e o temor supersticioso diante do sagrado e do invisível. O comportamento demonstra como o cotidiano das pessoas da região é profundamente atravessado pela religiosidade, pelas lendas locais e pelo mistério que habita o local.

03 – Como a atitude do pescador em relação ao filho reforça o caráter perigoso ou sagrado atribuído à lagoa?

      O pescador permite que seu filho faça quase tudo, até mesmo andar de jangada, mas o proíbe severamente ("dá pancada") de brincar perto da Lagoa do Abaeté. Isso revela que, na visão dos moradores locais, a lagoa guarda um perigo maior ou um mistério mais temível do que o próprio mar aberto. Essa atitude reforça a lenda de que o Abaeté é um lugar misterioso que exige respeito e cautela extremos.

04 – Como a noite na praia do Abaeté é descrita na música e qual é o impacto da iluminação natural na paisagem?

      A noite é descrita de forma poética como sendo clara a ponto de parecer o dia ("A noite tá que é um dia"). O luar intenso prateia o coqueiral, a areia e o mar, permitindo até que as crianças brinquem à luz da Lua. Essa iluminação prateada transforma a paisagem em um cenário mágico e calmo, realçando a beleza estonteante do local sob a luz noturna.

05 – Qual é a metáfora utilizada por Dorival Caymmi no verso "A Lua se enamorando nas águas do Abaeté"?

      O compositor utiliza a personificação (prosopopeia) ao atribuir o sentimento do amor à Lua. A imagem da Lua "se enamorando" reflete o reflexo prateado do luar espelhado nas águas escuras da lagoa, como se os dois astros/elementos da natureza estivessem trocando olhares apaixonados. Essa metáfora expressa a profunda beleza e o encanto poético que o lugar exerce sobre quem o contempla.

06 – O que significa a expressão "Credo, Cruz / Que diz conjuro / Quem falou de Abaeté" no contexto da composição?

      A expressão "Credo, Cruz" e a menção ao "conjuro" são fórmulas de proteção religiosa e popular usadas para afastar feitiços, espíritos ou maus agouros. No contexto da canção, essa fala final enfatiza a força das crenças e superstições populares: falar no Abaeté invoca um respeito quase temeroso, exigindo uma oração ou gesto simbólico de proteção contra os mistérios e lendas que envolvem a lagoa.

07 – De que forma a canção de Dorival Caymmi preserva e valoriza a identidade cultural e o folclore baiano?

      Dorival Caymmi valoriza a cultura baiana ao integrar em sua obra elementos do cotidiano popular (a lavadeira, o pescador, as crianças brincando), a religiosidade e o sincretismo (o sinal da cruz, o batucajé, o conjuro) e as lendas locais associadas à geografia de Salvador. Ao transformar o Abaeté em tema poético, o compositor eterniza a tradição oral e a mística do povo baiano, transformando o local em um símbolo da identidade e do folclore do Brasil.

 

 

CRÔNICA: O CHEFE POLÍTICO E O SEU ELEITOR - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: O chefe político e o seu eleitor

            Lima Barreto

 

        Seu doutor, eu vim incomodá-lo; mas precisava muito ficar bem com minha consciência.

        – Que há?

        – Eu não voto no doutor Rui.

        – Como você vai votar no Epitácio?

        – Nem num nem noutro.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj0Gwsd8DhhF5XRAOb3qomZBaWBy5IFbKO_rYBsC5r9RtV97yEyrzyv7VaQUnjihWyvuavrcJxuG3lVXk1sgPAgnTkff_PiXsKTpfBCibIxc_3jJHwYDOs-d2DWuKwmYz-ScL3CVlzSYSknQ8fI0EruuzIneclS_t88vlhk7UZRMDuUdbeX-Xr6MIQqONo/s1600/images.jpg


        – Você está ficando indisciplinado; não é mais o correligionário disciplinado de antigamente. Que diabo foi isso?

        – Eu não tenho sido companheiro para você?

        – Sim senhor. Devo ao doutor todos os obséquios desta vida, pelo que lhe sou muito agradecido. Foi o doutor que abaixo de Deus, salvou a Marocas, minha mulher, sem cobrar nada... Quando foi o enterro do meu filho Dodoca, o doutor me ajudou muito...

        – Isso tudo não vem ao caso. Falemos...

        – Não; vem sim, doutor! Quero que o senhor não pense que sou mal agradecido. Se estou empregado, devo ao dou­tor e...

        – Se você continuasse no partido, podia subir ou nós ar­ranjávamos uma equiparação ou mesmo um aumento de venci­mentos; mas...

        – Continuo no partido, doutor...

        – Como? Você não vota conosco...

        – Mas não voto no outro.

        – É o mesmo.

        – Não é doutor.

        – É sim Felício! Em política, quem não é por mim é contra mim. Você sabe disso, não é?

        – É e não é. Não estou contra o senhor não senhor! É que me deu uma coisa cá dentro e eu...

        – Que foi que deu em você?

        – Eu me explico, tanto mais que tenho pensado muito no caso. O senhor quer me ouvir?

        – Ouço, mas você não demora muito.

        – Não demoro não senhor.

        – Conte lá a história.

        – Vou contar. Trata-se – não é verdade? – de escolher o homem que vai governar isto tudo. Quero dizer que ele vai governar todos os brasileiros, inclusive eu.

        – Daí?

        – Espere doutor! Pensei, então, eu cá com os meus botões: vou escolher uma pessoa que deve mandar em mim, na minha mulher, nos meus filhos, na minha casa até – pre­ciso cuidado. Não é doutor?

        – Mais ou menos, é, pois há a lei que ...

        – Isto de lei é história. Quem governa é ele mesmo...

        – Vamos adiante.

        – Um homem que vai ter tanto poder sobre mim, sobre os meus e sobre as minhas coisas para ser escolhido por mim mesmo, deve ser meu conhecido velho. Voluntariamente pela minha própria vontade, vou escolher um dono para mim, e sendo assim o meu dever é estar inteirado do sujeito que é – não acha?

        – Sim, não há dúvida. Mas você sabe bem quem é o Rui, penso eu.

        – Conheço. É um homem muito inteligente...

        – A maior glória do Brasil.

        – É um grande talento.

        – É um gênio.

        – Sei de tudo isto doutor. Mas daí não posso concluir que ele possa mandar-me.

        – Porque?

        – Pode ser caprichoso, implicante ...

        – Ora!

        – Quer dizer que ele nunca me enxergará, não é?

        – Não é bem isso...

        – Ele pode não me enxergar, mas um dia enxerga outro por ele, e lá estou eu a braços com um homem de veneta.

        – Não digo que ele seja...

        – E o Epitácio?

        – Esse ouço dizer que também é inteligente, doutor, tem sido muita coisa...

        – Mas não é o Rui.

        – Sei, doutor. Rui Barbosa não tem igual.

        – Mas porque você não vota nele?

        – Não voto porque não o conheço intimamente, de perto, como já disse ao senhor. Antigamente...

        – Você não pensava assim – não é?

        – É verdade; mas, de uns tempos a esta parte, dei em pensar.

        – Faz mal. O partido...

        – Não falo mal do partido. Estou sempre com ele, mas não posso por meu próprio gosto dar sobre mim tanta força a um homem, de que eu não conheço o gênio muito bem.

        – Mas, se é assim, você terá pouco que escolher a não ser, nós colegas e nós amigos de você.

        – Entre esses eu não escolho, porque não vejo nenhum que tenha as luzes suficientes; mas tenho outros conhecidos, entre os quais posso procurar a pessoa para me governar, guiar e aconselhar.

        – Quem é?

        – É o doutor.

        – Eu?

        – Sim, é o senhor.

        – Mas, eu mesmo? Ora...

        – É a única pessoa de hoje que vejo nas condições e que conheço. O senhor é do partido, e votando no senhor, não vou contra ele.

        – De forma que você...

        – Voto no senhor, para presidente da república.

        – É voto perdido...

        – Não tem nada; mas voto de acordo com o que penso. Parece que sigo o que está no manifesto assinado pelo senhor e outros. “Guiados pela nossa consciência e obedecendo o dever de todo republicano de consultá-la”...

        – Chega Felício.

        – Não é isso?

        – É, mas você deve concordar que um eleitor arregimentado tem de obedecer ao chefe.

        – Sei, mas isto é quando se trata de um deputado ou senador, mas para presidente, que tem todos os trunfos na mão, a coisa é outra. É o que penso. Demais...

        – Você está com teorias estranhas, subversivas...

        – Não tenho teoria alguma, doutor. Consultei a minha consciência e a minha gratidão, e voto no senhor.

        – Mas... já sou deputado.

        – Que tem? Sobe mais um posto, ganha mais...

        – Não preciso, já ganho na clínica muito.

        – Com o lugar de deputado? Então pra que quis ir para a Câmara?

        – Para nada.

        – Doutor, eu decididamente não compreendo nada disto. Essa política é mesmo igual aos mistérios dos padres... Passe bem.

O Malho, Rio, 1-4-1919.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o conflito principal estabelecido no diálogo entre o "doutor" (chefe político) e o seu eleitor, Felício?

      O conflito surge do fato de Felício decidir não votar nos candidatos oficiais indicados pelo partido para a presidência (Rui Barbosa e Epitácio Pessoa). O chefe político enxerga essa decisão como um ato de insubordinação partidária e rompimento de fidelidade ("quem não é por mim é contra mim"). Por outro lado, Felício argumenta que sua decisão se baseia em uma busca por coerência moral e na sua própria consciência, desafiando a lógica tradicional do voto cabresto e da disciplina cega do partido.

 

02 – Como a crônica retrata as práticas do clientelismo e do coronelismo da Primeira República no Brasil?

      A crônica evidencia o clientelismo por meio das alusões às trocas de favores entre o "doutor" e Felício. O chefe político lembra ao eleitor a ajuda prestada em momentos difíceis (atendimento médico da esposa, custos do enterro do filho e indicação para o emprego público). Em contrapartida, esperava-se a obediência cega no momento do voto. O chefe encara o voto não como um direito de escolha cívica do eleitor, mas como uma obrigação de retribuição ou subserviência partidária.

 

03 – Qual é a lógica utilizada por Felício para recusar o voto nos candidatos renomados como Rui Barbosa e Epitácio Pessoa?

      Felício argumenta que o Presidente da República exercerá um enorme poder direto sobre a vida do cidadão e de sua família. Para ele, inteligência ou reputação nacional (atributos de Rui e Epitácio) não garantem que esses líderes conheçam ou respeitem o eleitor comum. Felício defende que só deveria votar em alguém de cujo caráter e comportamento íntimo ele tivesse conhecimento direto e pessoal. Como não conhece os candidatos nacionais "de perto", prefere não lhes dar tal poder.

 

04 – Qual é a ironia contida na decisão de Felício em votar no próprio "doutor" para Presidente da República?

      A ironia reside no fato de Felício usar a própria retórica do partido ("obedecendo o dever de todo republicano de consultar sua consciência") e sua gratidão pessoal para votar em seu chefe local. Embora Felício acredite estar sendo plenamente coerente e gratificado, do ponto de vista do sistema político o seu voto no "doutor" é considerado um "voto perdido", já que o chefe não é candidato ao cargo. O gesto de Felício desarma o político, revelando que a lógica puramente formal do discurso partidário contraria o sentido prático cobrado nas urnas.

 

05 – De que forma o chefe político reage à autonomia de pensamento de Felício e o que essa reação revela sobre o sistema eleitoral da época?

      O chefe político reage com estranhamento e acusa Felício de estar "indisciplinado" e adotando "teorias estranhas, subversivas" simplesmente porque o eleitor começou a pensar por conta própria. Essa reação revela que, na Primeira República, a autonomia e o exercício crítico da cidadania por parte das classes populares eram vistos pelas elites políticas como uma ameaça ou uma anomalia, já que a manutenção do poder dependia do controle rígido sobre a massa votante.

 

06 – Como a frase final de Felício — "Essa política é mesmo igual aos mistérios dos padres..." — sintetiza a visão do cidadão comum sobre a política institucional?

      A frase expressa o perplexo distanciamento do cidadão humilde em relação às contradições e negociatas da política profissional. Felício percebe que a política não opera com base na lógica moral ordinária ou na transparência, mas em um conjunto de dogmas, rituais e interesses ocultos (à semelhança dos "mistérios da religião") que fogem à compreensão das pessoas comuns e servem apenas para manter as elites no poder.

 

07 – Análise o papel da linguagem e do tom na crônica de Lima Barreto para a construção da crítica social.

      Lima Barreto utiliza um diálogo dinâmico e coloquial para contrapor dois mundos: o da política formal e burocrática (representado pelo "doutor") e o da vida concreta e do bom senso popular (representado por Felício). O tom predominantemente irônico e bem-humorado desconstrói as pretensões da elite política da época, mostrando como a pretensa racionalidade do sistema eleitoral da Primeira República era, na verdade, pautada por contradições, interesses pessoais e ausência de verdadeira representatividade democrática.

 

 

ENTREVISTA: SOU PERFECCIONISTA - FRAGMENTO - MOACYR SCLIAR - COM GABARITO

 Entrevista: Sou perfeccionista – Fragmento

           Moacyr Scliar

        [...]

        -- Como foi a sua infância?

        -- Passei minha infância num bairro de emigrantes pobres, em Porto Alegre, ouvindo as histórias que meus pais e nossos vizinhos contavam, sobre a Europa e sobre suas primeiras experiências no Brasil.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjX6QpCkLip2zBTHodQv9BTkGHzqEvH1QARRP3b-0qO1S8XgJIiG3EghK2x_aRXsy3x92Q3OhbOIGFhbfFWFh2W2e0A10LmIVPQnVwAdw1G_qjl9dPXNpKJzv-kRx2jpJGhHR2A_I25hqUyLOUl_Cq8jYIFEm9q9hKXW5V9MX3ShY23dnbC-tIQHBAC9jE/s320/images.jpg


        -- Como começou a escrever?

        -- Desde pequeno (fui alfabetizado muito cedo por minha mãe, que era professora primária), eu rabiscava historinhas, que mostrava com muito orgulho aos adultos. Meu primeiro texto, aliás, foi uma autobiografia – muito curta, pois o autor não teria então mais de sete anos, e escrita em papel de pão, o único disponível. Depois comecei a publicar nos jornaizinhos do colégio, de clubes, e, bem mais tarde, na imprensa de Porto Alegre.

        -- Você segue algum método para escrever?

        -- Trabalho muito. Tenho de conciliar minha atividade de escritor com a de médico de saúde pública, e, além disso, meu método de trabalho é complicado. Parto de uma ideia qualquer – originária de uma figura real ou imaginada, de um incidente, de um fato histórico, de uma notícia de jornal – e sobre ela começo a escrever, ao acaso, trechos que podem ser o começo de uma história, ou o meio, ou o fim. Quando estas anotações chegam a um certo volume, redijo a primeira versão da narrativa. Sempre a mão. Acredito ser a mão um instrumento mais sensível para a palavra escrita. Depois é que datilografo, uma, duas, três ou mais vezes, até que o texto me pareça razoavelmente bom. Sou um perfeccionista que busca a palavra certa e o ritmo exato.

        -- E o que você sente quando escreve?

        -- Na narrativa propriamente dita, deixo voar minha imaginação, mas tenho bem presente que literatura deve se referir, sempre, ao ser humano em sua dimensão social, histórica, política. Não recuso o humor, porque nada me parece mais desagradável que uma narrativa carrancuda.

        [...]

In: Clarice Lispector e outros. Para gostar de ler. 3. ed. São Paulo, Ática, 1988. v. 9, p. 9.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 112.

Entendendo a entrevista:

01 – De que maneira o ambiente da infância e a figura materna de Moacyr Scliar influenciaram o seu surgimento como escritor, segundo o texto?

      A infância de Scliar em um bairro de imigrantes pobres em Porto Alegre o expôs desde cedo à tradição oral, ouvindo histórias sobre a Europa e a adaptação ao Brasil. Além disso, a presença de sua mãe, que era professora primária, foi determinante para sua alfabetização precoce, permitindo que ele começasse a escrever pequenas histórias e autobiografias desde os sete anos de idade.

02 – Explique como Moacyr Scliar organiza seu processo de escrita inicial, desde a ideia motivadora até a elaboração do primeiro rascunho.

      Scliar inicia seu processo criativo a partir de um estímulo variado (fato histórico, notícia de jornal, figura real ou imaginada). A partir da ideia inicial, ele escreve trechos de forma fragmentada e não linear (podendo ser o início, o meio ou o fim da história). Apenas quando acumula um volume razoável dessas anotações é que redige a primeira versão completa da narrativa, que é feita sempre à mão.

03 – Por que Moacyr Scliar prefere escrever a primeira versão de seus textos à mão antes de datilografá-los? Como essa prática se relaciona com a sua autoavaliação como "perfeccionista"?

      Scliar prefere a escrita manual por considerar a mão um "instrumento mais sensível para a palavra escrita". O processo de reescrita e datilografia (que ele repete várias vezes) reflete seu perfeccionismo, pois ele reescreve até encontrar "a palavra certa e o ritmo exato" para o texto, demonstrando rigor estético com a linguagem.

04 – Qual o principal desafio de rotina mencionado por Scliar em relação ao seu trabalho literário e como ele o descreve?

      O principal desafio é conciliar a carreira literária com sua profissão de médico de saúde pública. Isso exige muito trabalho e torna o seu método de produção ainda mais complexo e laborioso.

05 – De acordo com a entrevista, quais são os compromissos fundamentais que a literatura deve ter com o leitor e a sociedade, e qual recurso estilístico o autor utiliza para evitar um tom pesado?

      Para Scliar, a literatura deve sempre se referir ao ser humano em suas dimensões social, histórica e política. Para evitar que a narrativa se torne "carrancuda" ou excessivamente pesada ao tratar desses temas, ele recorre ao uso do humor como recurso estético e narrativo.

 

 

CRÔNICA: A REVOLTA DO MAR - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: A revolta do mar

           Lima Barreto

 

        A última e formidável ressaca que devastou e destruiu grande parte da Avenida Beira-Mar merece considerações especiais que não posso deixar de fazer. O Mar tinham os antigos como sendo um dos cinco elementos da Natureza; do Mar, afirmam os sábios modernos, veio toda a vida. É assim o Mar um deus tutelar da nossa espécie. Nós lhe devemos tudo ou quase tudo. Não fora o Mar, ainda a Terra estaria muito por conhecer; ele é o meio mais eficaz de comunicação entre os povos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhZajE3lm6QTvUxY50sMaPFILxBV9WzBjl-jNxVj1HY_DWjxV1KyI_j2TaAREOZlDFl7I8g3C-FW1InUXARAIknTy1KXECRFZg2hbl6KGxE8rEvyAQjUYiwLc4bATOYSkkNAsCGkOy6HMcot-MUhFedbGmxenuN4jZuhJsfvPRrNkymaJT81Uri6TUfomA/s1600/images.jpg


        Vence-se mais facilmente a mesma distância por mar do que por terra. Desde tempos imemoriais, é o campo das grandes audácias e dos grandes audaciosos.

        O Mar é um deus ou um semideus.

        Como tal, tem merecido desde os tempos homéricos o louvor dos grandes poetas. Ele é a maravilha da Terra, a maior delas. Ainda agora recebo um livro de poesias – Asas no azul – de Mário José de Almeida – que abre com este lindo soneto sobre o monstro:

 

ÂNSIA DO MAR

Vibra, escachoa o oceano, brame, investe
para o amplo azul – noite e dia – não cansa
a onda que na praia se destrança
e da alvura da espuma se reveste.

 

Dentro do sonho, envolto na esperança
de inda atingir a placidez celeste,
o mar se arroja, torvo se abalança
nas asas colossais do sudoeste…

 

E parece que o mar se espraia
de praia a praia, ovante ramifica
o mesmo anelo – anseio de Himalaia.

 

À noite, à luz da lua que desponta
a onda em sua fala comunica
todo o queixume que a outra prata conta.

 

        Mas, os grosseiros homens do nosso tempo, homens educados nos cafundós escusos da City londrina ou nos gabinetes dos banqueiros de Wall Street, onde se fomenta a miséria dos povos, não lhe quiseram ver a grandeza, o mistério e a divindade, a sua palpitação íntima. O Mar, como a vida humana, não podia deixar de ser também um bom campo às suas “cavações” ou “escavações” e trataram de explorá-lo.

        De há muito que ele havia marcado os seus limites com a terra; de há muito que ele dissera a esta: o teu domínio para aí e daí não passarás.

        Tais homens, porém, embotados pela sede de riquezas não perceberam bem isto; e, a pretexto de melhoramentos e embelezamentos, mas, na verdade, no intuito de auferirem gordas gratificações de banqueiros, trataram de estrangulá-lo, de aterrá-lo com lama. Diziam eles que tal faziam, para tornear belos passeios, como se o Mar por si só não fosse Beleza.

        No começo, entraram por ele adentro com timidez; ele deu uns pequenos avisos de que não deveriam continuar. Os homens de negócios não viram tais avisos; não pressentiram o que eles continham, porque não entraram no mistério das Cousas. Tomaram-se de audácia e foram levando além o propósito de comprimir o mar, a fim de ganharem boas gorjetas.

        O mar nada disse e deixou-os, por alguns meses, encherem-no de lama. Um belo dia, ele não se conteve. Enche-se de fúria e, em ondas formidáveis, atira para a terra a lama com que o haviam injuriado.

Publicado originalmente na revista Careta, 23 de julho de 1921.

 

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o evento que motiva a reflexão de Lima Barreto na crônica "A revolta do mar"?

      O ponto de partida da crônica é uma forte ressaca marítima que atingiu e destruiu trechos da Avenida Beira-Mar, no Rio de Janeiro. A partir desse desastre natural, o autor desenvolve uma reflexão crítica sobre a relação entre o progresso urbano, a exploração financeira e o desrespeito às forças da natureza.

 

02 – De que maneira o autor personifica e diviniza o mar no início do texto?

      Lima Barreto retrata o mar como um "deus ou semideus tutelar da nossa espécie", atribuindo-lhe papel fundamental na origem da vida e na integração entre as civilizações. O cronista ressalta sua grandeza, mistério e beleza, lembrando que o oceano é celebrado por poetas desde a Antiguidade homérica como a maior maravilha da Terra.

 

03 – Qual é a função da inclusão do soneto "Ânsia do Mar", de Mário José de Almeida, na estrutura da crônica?

      A citação do soneto serve para contrastar a dimensão poética, sublime e respeitosa com que a arte enxerga o mar em oposição à visão utilitarista e insensível dos "homens de negócios". A poesia reforça a ideia do mar como uma força viva e cheia de sentimentos ("queixume", "ânsia", "esperança"), preparando o terreno para a crítica aos que o veem apenas como objeto de exploração.

 

04 – Como Lima Barreto caracteriza os responsáveis pelas obras de aterro e expansão urbana na Beira-Mar?

      O cronista caracteriza esses indivíduos de forma pejorativa como "grosseiros homens do nosso tempo", formados nos bastidores do capital financeiro ("City londrina" e "Wall Street"). Ele os descreve como gananciosos, insensíveis à beleza natural e movidos unicamente pelo desejo de lucro, "cavações" e gratificações concedidas pelos grandes banqueiros.

 

05 – Qual é o verdadeiro motivo, segundo o cronista, por trás das obras apresentadas como "melhoramentos e embelezamentos" urbanos?

      Segundo o autor, a justificativa oficial de criar "belos passeios" e promover o embelezamento da cidade era apenas um pretexto superficial. A real motivação do empreendimento era financeira: enriquecer especuladores, empreiteiros e banqueiros por meio do aterro e do estrangulamento do espaço marítimo.

 

06 – Como o autor explica a reação violenta do mar contra as intervenções humanas?

      O mar é apresentado como uma entidade que estabelece limites claros à terra. Diante da insistência dos homens em ignorar seus avisos iniciais e cobri-lo de lama para fins comerciais, o oceano reage com fúria. A ressaca que devasta a Avenida Beira-Mar é retratada como um ato de resposta e "revolta", no qual a natureza devolve à terra a lama com que foi agredida.

 

07 – Qual é a crítica central da crônica em relação à postura da sociedade moderna frente à natureza?

      A crítica central reside na denúncia da arrogância e do materialismo da civilização moderna, que tenta subjugar as forças naturais em nome do lucro imediato e da especulação imobiliária. Lima Barreto alerta que a falta de sensibilidade para compreender o "mistério das coisas" e o desrespeito aos limites do meio ambiente resultam inevitavelmente em tragédias e na reação destrutiva da própria natureza.