quinta-feira, 19 de outubro de 2023

TEXTO: TRÊS GÊNIOS DE SECRETÁRIA - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Texto: Três Gênios de Secretária

           Lima Barreto

        O meu amigo Augusto Machado, de quem acabo de publicar uma pequena brochura aliteratada — Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá — mandou-me algumas notas herdadas por ele desse seu amigo, que, como se sabe, foi oficial da Secretaria dos Cultos. Coordenadas por mim, sem nada pôr de meu, eu as dou aqui, para a meditação dos leitores:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhC-DB_jTUWb3TBXNUEkWdRnjfem8KimbDuowdqCujIFdMZlu86pbRQvFBK0UgMhVMRmE7YgO_A9RXDXO3JcYiRNbtqwgvuorD-d3TVud6FKI1TYJgyBBVz8w90wRaWVJ6IO0cC6-QwOPFr0-v_whEQFs3Bo7CUqVwTL1KFaAz7BThDJDN84XKum_uqsUA/s320/BRAS.jpg


        "Estas minhas memórias que há dias tento começar, são deveras difíceis de executar, pois se imaginarem que a minha secretaria é de pequeno pessoal e pouco nela se passa de notável, bem avaliarão em que apuros me encontro para dar volume às minhas recordações de velho funcionário. Entretanto, sem recorrer a dificuldade, mas ladeando-a, irei sem preocupar-me com datas nem tampouco me incomodando com a ordem das cousas e fatos, narrando o que me acudir de importante, à proporção de escrevê-las. Ponho-me à obra.

        Logo no primeiro dia em que funcionei na secretaria, senti bem que todos nós nascemos para empregado público. Foi a reflexão que fiz, ao me Julgar tão em mim, quando, após a posse e o compromisso ou juramento, sentei-me perfeitamente à vontade na mesa que me determinaram. Nada houve que fosse surpresa, nem tive o mínimo acanhamento. Eu tinha vinte e um para vinte e dois anos; e nela me abanquei como se de há muito já o fizesse. Tão depressa foi a minha adaptação que me julguei nascido para ofício de auxiliar o Estado, com a minha reduzida gramática e o meu péssimo cursivo, na sua missão de regular a marcha e a atividade da nação.

        Com familiaridade e convicção, manuseava os livros – grandes montões de papel espesso e capas de couro, que estavam destinados a durar tanto quanto as pirâmides do Egito. Eu sentia muito menos aquele registro de decretos e portarias e eles pareciam olhar-me respeitosamente e pedir-me sempre a carícia das minhas mãos e a doce violência da minha escrita.

        Puseram-me também a copiar ofícios e a minha letra tão má e o meu desleixo tão meu, muito papel fizeram-me gastar, sem que isso redundasse em grande perturbação no desenrolar das cousas governamentais.

        Mas, como dizia, todos nós nascemos para funcionário publico. Aquela placidez do ofício, sem atritos, nem desconjuntamentos violentos; aquele deslizar macio durante cinco horas por dia; aquela mediania de posição e fortuna, garantindo inabalavelmente uma vida medíocre – tudo isso vai muito bem com as nossas vistas e os nossos temperamentos. Os dias no emprego do Estado nada têm de imprevisto, não pedem qualquer espécie de esforço a mais, para viver o dia seguinte. Tudo corre calma e suavemente, sem colisões, nem sobressaltos, escrevendo-se os mesmos papéis e avisos, os mesmos decretos e portarias, da mesma maneira, durante todo o ano, exceto os dias feriados, santificados e os de ponto facultativo, invenção das melhores da nossa República.

        De resto, tudo nele é sossego e quietude. O corpo fica em cômodo jeito; o espírito aquieta-se, não tem efervescência nem angústias; as praxes estão fixas e as fórmulas já sabidas. Pensei até em casar, não só para ter uns bate-bocas com a mulher mas, também, para ficar mais burro, ter preocupações de "pistolões", para ser promovido. Não o fiz; e agora, já que não digo a ente humano, mas ao discreto papel, posso confessar porque. Casar-me no meu nível social, seria abusar-me com a mulher, pela sua falta de instrução e cultura intelectual; casar-me acima, seria fazer-me lacaio dos figurões, para darem-me cargos, propinas, gratificações, que satisfizessem às exigências da esposa. Não queria uma nem outra cousa. Houve uma ocasião em que tentei solver a dificuldade, casando-me. ou cousa que o valha, abaixo da minha situação. É a tal história da criada... Aí foram a minha dignidade pessoal e o meu cavalheirismo que me impediram.

        Não podia, nem devia ocultar a ninguém e de nenhuma forma, a mulher com quem eu dormia e era mãe dos meus filhos. Eu ia citar Santo Agostinho, mas deixo de fazê-lo para continuar a minha narração...

        Quando, de manhã, novo ou velho no emprego, a gente se senta na sua mesa oficial, não há novidade de espécie alguma e, já da pena, escreve devagarinho: "Tenho a honra", etc., etc.; ou, republicanamente, "Declaro-vos. Para os fins convenientes", etc.

        Se há mudança, é pequena e o começo é já bem sabido: "Tenho em vistas"... – ou "Na forma do disposto"...

        Às vezes o papel oficial fica semelhante a um estranho mosaico de fórmulas e chapas; e são os mais difíceis, nos quais o doutor Xisto Rodrigues brilhava como mestre inigualável.

        O doutor Xisto já é conhecido dos senhores, mas não é dos outros gênios da Secretaria dos Cultos. Xisto é estilo antigo. Entrou honestamente, fazendo um concurso decente e sem padrinhos. Apesar da sua pulhice bacharelesca e a sua limitação intelectual, merece respeito pela honestidade que põe em todos os atos de sua vida, mesmo como funcionário. Sai à hora regulamentar e entra à hora regulamentar. Não bajula. Nem recebe gratificações.

        Os dois outros, porém, são mais modernizados. Um é "charadista", o homem que o diretor. consulta, que dá as informações confidenciais, para o presidente e o ministro promoverem os amanuenses. Este ninguém sabe como entrou para a secretaria; mas logo ganhou a confiança de todos, de todos se fez amigo e, em pouco, subiu três passos na hierarquia e arranjou quatro gratificações mensais ou extraordinárias. Não é má pessoa, ninguém se pode aborrecer com ele: é uma criação do ofício que só amofina os outros, assim mesmo sem nada estes saberem ao certo, quando se trata de promoções.

        Há casos muito interessantes; mas deixo as proezas dessa inferência burocrática, em que o seu amor primitivo a charadas, ao logogrifo e aos enigmas pitorescos pôs lhe sempre na alma uma caligem de mistério e uma necessidade de impor aos outros adivinhação sobre ele mesmo. Deixo-a, dizia, para tratar do "auxiliar de gabinete". É este a figura mais curiosa do funcionalismo moderno. É sempre doutor em qualquer cousa; pode ser mesmo engenheiro hidráulico ou eletricista. Veio de qualquer parte do Brasil, da Bahia ou de Santa Catarina, estudou no Rio qualquer cousa; mas não veio estudar, veio arranjar um emprego seguro que o levasse maciamente para o fundo da terra. donde deveria ter saído em planta, em animal e, se fosse possível, em mineral qualquer. É inútil, vadio, mau e pedante, ou antes, pernóstico.

        Instalado no Rio, com fumaças de estudante, sonhou logo arranjar um casamento, não para conseguir uma mulher, mas, para arranjar um sogro influente, que o empregasse em qualquer cousa, solidamente. Quem como ele faz de sua vida, tão-somente caminho para o cemitério, não quer muito: um lugar em uma secretaria qualquer serve. Há os que veem mais alto e se servem do mesmo meio; mas são a quintessência da espécie.

        Na Secretaria dos Cultos, o seu típico e célebre "auxiliar de gabinete", arranjou o sogro dos seus sonhos, num antigo professor do seminário, pessoa muito relacionada com padres, frades, sacristãos, irmãs de caridade, doutores em cânones, definidores, fabriqueiros, fornecedores e mais pessoal eclesiástico.

        O sogro ideal, o antigo professor, ensinava no seminário uma física muito própria aos fins do estabelecimento, mas que havia de horripilar o mais medíocre aluno de qualquer estabelecimento leigo.

        Tinha ele uma filha a casar e o "auxiliar de gabinete", logo viu no seu casamento com ela, o mais fácil caminho para arranjar uma barrigazinha estufadinha e uma bengala com castão de ouro.

        Houve exame na Secretaria dos Cultos, e o "sogro", sem escrúpulo algum, fez-se nomear examinador do concurso para o provimento do lugar e meter nele "o noivo".

        Que se havia de fazer? O rapaz precisava.

        O rapaz foi posto em primeiro lugar, nomeado e o velho sogro (já o era de fato) arranjou-lhe o lugar de "auxiliar de gabinete" do ministro. Nunca mais saiu dele e, certa vez, quando foi, pro formula se despedir do novo ministro, chegou a levantar o reposteiro para sair; mas, nisto, o ministro bateu na testa e gritou:

        — Quem é aí o doutor Mata-Borrão?

        O homenzinho voltou-se e respondeu, com algum tremor na voz e esperança nos olhos:

        — Sou eu, excelência.

        — O senhor fica. O seu "sogro" já me disse que o senhor precisa muito.

        É ele assim, no gabinete, entre os poderosos; mas, quando fala a seus iguais, é de uma prosápia de Napoleão, de quem se não conhecesse a Josefina.

        A todos em que ele vê um concorrente, traiçoeiramente desacredita: é bêbedo, joga, abandona a mulher, não sabe escrever "comissão", etc. Adquiriu títulos literários, publicando a Relação dos Padroeiros das Principais Cidades do Brasil; e sua mulher quando fala nele, não se esquece de dizer: "Como Rui Barbosa, o Chico..." ou "Como Machado de Assis, meu marido só bebe água."

        Gênio doméstico e burocrático, Mata-Borrão, não chegará, apesar da sua maledicência interesseira, a entrar nem no inferno. A vida não é unicamente um caminho para o cemitério; é mais alguma cousa e quem a enche assim, nem Belzebu o aceita. Seria desmoralizar o seu império; mas a burocracia quer desses amorfos, pois ela é das criações sociais aquela que mais atrozmente tende a anular a alma, a inteligência, e os influxos naturais e físicos ao indivíduo. É um expressivo documento de seleção inversa que caracteriza toda a nossa sociedade burguesa, permitindo no seu campo especial, com a anulação dos melhores da inteligência, de saber, de caráter e criação, o triunfo inexplicável de um Mata-Borrão por aí".

        Pela cópia, conforme.

Brás Cubas, Rio, 10-4-1919.

Entendendo o texto:

01 – Quem é o autor do texto?

      O autor do texto é Lima Barreto.

02 – O que o autor descreveu sobre sua experiência ao ingressar na Secretaria dos Cultos?

      O autor descreveu que se sentiu naturalmente à vontade e adaptado ao seu papel de funcionário público ao ingressar na Secretaria dos Cultos.

03 – Qual é a opinião do autor sobre a vida de funcionário público?

      O autor tem uma visão positiva da vida de funcionário público, descrevendo-a como calma, suave e sem sobressaltos, adequada às suas inclinações pessoais.

04 – Quais são os três personagens destacados na Secretaria dos Cultos?

      Os três personagens destacados na Secretaria dos Cultos são: Doutor Xisto Rodrigues, o "charadista" e o "auxiliar de gabinete".

05 – Como o autor descreve o Doutor Xisto Rodrigues?

      O autor descreve o Doutor Xisto Rodrigues como um funcionário honesto, que não faz bajulações nem recebe gratificações.

06 – Qual é a característica principal do "auxiliar de gabinete" na Secretaria dos Cultos?

      O "auxiliar de gabinete" é descrito como alguém que veio de fora do Rio, arranjou um casamento para obter um sogro influente, e busca um emprego seguro no governo.

07 – Como o "auxiliar de gabinete" conseguiu o emprego na Secretaria dos Cultos?

      O "auxiliar de gabinete" conseguiu o emprego na Secretaria dos Cultos através do seu sogro, que era examinador do concurso e o nomeou para o cargo.

08 – Qual é a atitude do "auxiliar de gabinete" em relação aos seus concorrentes?

      O "auxiliar de gabinete" desacredita traiçoeiramente seus concorrentes, espalhando informações negativas sobre eles.

09 – Como o autor descreve a burocracia?

      O autor descreve a burocracia como uma instituição que tende a anular a inteligência, o caráter e os influxos naturais e físicos do indivíduo, criando uma seleção inversa.

10 – O que o autor critica em relação à sociedade burguesa no texto?

      O autor critica a seleção inversa que ocorre na sociedade burguesa, permitindo o triunfo de indivíduos como o "auxiliar de gabinete" em detrimento dos mais talentosos em inteligência, saber e caráter.

 

TEXTO: CÓDIGO DE MENORES X ECA - MUDANÇAS DE PARADÍGMAS - COM GABARITO

 Texto: Código de Menores x ECA

           Mudanças de Paradigmas – 02 de dezembro de 2016

        Lembrando o início da década de 90, veremos um período em que as organizações sociais, o MNMMR e vários profissionais engajados na luta pelos direitos da criança, comemorarem conquistas. A inclusão desses direitos na Constituição Federal Brasileira (1988) e a promulgação do ECA (1990). Quem pôde presenciar (mesmo que em filme, como eu) a participação de crianças e adolescentes num voto simbólico que ocorreu na Câmara Federal, dizendo sim ao ECA, sabe o quanto essa experiência foi gratificante.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjE1-Rw9Xmh8_V6DyMww4UcR9-f-EfLOLFULSEHGdN6sB1h6wFH5ECNWoRt7UdRZDw14G7UhGkCfxnLfeEfv4cd1bPz1I7eZAtYW2xJf3kye-VkXTAxX1jfswUaBzlTu_39K_Py3sv13NAS7cBqEeSW_jur-RjuycwI6dCsbbGN5YV-8kjmBMTQGPFUZ-A/s1600/ECA.jpg


        Já refletindo sobre as mudanças entre o Código de Menores e o ECA, podemos afirmar que o ECA foi elaborado com a participação dos movimentos sociais. O caráter participativo deste processo é uma primeira e importante diferença. O protagonismo da sociedade se impõe pela expressão de seus interesses. É a democracia, também recentemente conquistada, se revelando pela prática da participação popular. É a proposição de nova ordem jurídica a partir da proposta de mudança de mentalidade da sociedade em relação às suas crianças e adolescentes.

        Uma segunda mudança que merece destaque é o caráter universal dos direitos conferidos. Reside no reconhecimento legal do direito de todas as crianças e adolescentes à cidadania independentemente da classe social (Pino, 1990). Enquanto o antigo CM destinava-se somente àqueles em “situação irregular” ou inadaptados, a nova Lei diz que TODAS as crianças e adolescentes são sujeitos de direitos. Eis, no meu ponto de vista, uma mudança de paradigma.

        No Código, havia um caráter discriminatório, que associava a pobreza à “delinquência”, encobrindo as reais causas das dificuldades vividas por esse público, a enorme desigualdade de renda e a falta de alternativas de vida. Essa inferiorização das classes populares continha a ideia de norma, à qual todos deveriam se enquadrar. Como se os mais pobres tivessem um comportamento desviante e uma certa “tendência natural à desordem”. Portanto, inaptos a conviver em sociedade. Natural que fossem condenados à segregação. Os meninos que pertenciam a esse segmento da população, considerados “carentes, infratores ou abandonados” eram, na verdade, vítimas da falta de proteção. Mas, a norma lhes impunha vigilância.

        Além disso, o antigo Código funcionava como instrumento de controle, transferindo para o Estado a tutela dos “menores inadaptados” e assim, justificava a ação dos aparelhos repressivos. Ao contrário, o ECA serve como instrumento de exigibilidade de direitos àqueles que estão vulnerabilizados pela sua violação.

        O reconhecimento da criança e do adolescente como sujeitos de direitos, e não mais como simples portadores de carências (Costa,1990), despersonaliza o fenômeno, e principalmente, responsabiliza toda sociedade pela criação das condições necessárias ao cumprimento do novo direito.

        Isso não significa negar a relação de dependência das crianças aos adultos e nem a responsabilidade que os últimos têm quanto ao desenvolvimento dos primeiros. Contudo, significa impedir a ocorrência daquilo que, nesta relação, traz a marca do autoritarismo, da violência e do sofrimento (Teixeira, 1991). Ao assumir que a criança e o adolescente são “pessoas em desenvolvimento”, a nova Lei deixa de responsabilizar algumas crianças pela irresponsabilidade dos adultos. Agora, são TODOS os adultos que devem assumir a responsabilidade pelos seus atos em relação às TODAS as crianças e aos adolescentes.

        A mudança na referência nominal também contém uma diferença de paradigma. A expressão “menor” é substituída por “criança ou adolescente” para negar o conceito de incapacidade na infância. O conceito de infância ligado à expressão “menoridade” contém em si a ideia de não ter. Ser “menor” significa não ter dezoito anos e, portanto, não ter capacidades, não ter atingido um estágio de plenitude e não ter, inclusive, direitos (Volpi, 2000). O paradigma evolucionista aqui revelado, fundamentava a teoria de desenvolvimento infantil desenvolvida a partir das competências específicas dos adultos.

        Com a formulação do ECA, inicia-se um debate para compreender as competências e capacidades da população infanto-juvenil. O paradigma muda, os menores passam a ser denominados crianças e adolescentes em situação peculiar de desenvolvimento. As crianças e adolescentes passam a ser vistos pelo seu presente, pelas possibilidades que têm nessa idade e não pelo futuro, pela esperança do que virão a ser. Isto significa trazer à tona a positividade do conceito de infância, que é marcada pela PROVISORIEDADE E SINGULARIDADE. Uma constante metamorfose. Um ser que é processual.

        Insisto na ideia da SINGULARIDADE vivida pelas crianças e adolescentes. São seres sócio-históricos que não apenas reagem às determinações sociais, mas são também SUJEITOS de ações. Participam de um momento histórico em que criam e transformam sua existência, a partir de suas experiências cotidianas, que são vividas de forma singular.

        Neste sentido, o que define a adolescência não é uma crise inerente à uma idade. Nem uma essência biológica universal. É um conjunto de características, que inscreve uma qualidade de pensamento que é diferente na infância e na idade considerada adulta. Uma qualidade de pensamento que possibilita a reflexão sobre os significados e sentidos de seus interesses.

        Ressalto com isso, que a adolescência não pode ser considerada como uma fase propícia à transgressão. A atuação do adolescente depende das relações que ele vive e das que ele conhece no meio social. Ele atribui SENTIDOS a estas vivências e estes vão servir como parâmetros para suas futuras relações. Sabemos que quanto mais amplo e diversificado for o universo cultural do indivíduo, maior a possibilidade de seu desenvolvimento, conhecimento do mundo, de seus próprios interesses e de sua capacidade de criação.

        Não podemos encarar as crises vividas na adolescência como patológicas e nem criar um modelo único de adolescência. Algumas concepções de adolescência negam os aspectos culturais e políticos. Descontextualizam a adolescência, criando estereótipos que impedem a compreensão mais ampla deste fenômeno. Aí veremos as crises como desarranjos, já que a harmonia é “pressuposto natural” (Vygotsky, 1998). O desenvolvimento de um indivíduo não é movido pela harmonia, mas pelas contradições, pelos confrontos. Essas contradições são próprias do desenvolvimento humano em qualquer momento da vida, não se limitam à adolescência. Esta forma de compreensão deve afastar a ideia de transgressão ligada à adolescência. Se pensarmos a adolescência como fenômeno psicossocial, não devemos considerá-los como potenciais agressores. A forma como a adolescência será vivida por cada indivíduo vai depender das condições dadas para seu desenvolvimento. Vai depender do respeito ao seu direito de sobreviver, da garantia de sua integridade física, psicológica e moral.

        Neste ponto, o ECA propõe um reordenamento institucional. Rompe com práticas fundadas na filantropia ou caridade (Pino, 1990) e institui uma nova ordem onde os direitos das crianças geram responsabilidades para a família, para o Estado e para a sociedade. Responsabilidades pela criação e implementação das políticas sociais relativas a esses direitos.

        Neste campo, o Estatuto introduz um elemento novo que é a constituição de Conselhos de direitos e dos tutelares. Elementos fundamentais para as novas políticas de atendimento, os conselhos também são espaços de participação da sociedade organizada. Governo e sociedade, juntos, assumem responsabilidade pela formulação e controle das ações relativas aos direitos da Criança e do Adolescente.

        Apesar das importantes mudanças de paradigma, sabemos que, olhando para a prática, o saldo destes 12 anos não é muito positivo. Sejamos mais claros/as: o ECA não foi implementado. É fato que algumas políticas públicas passaram por reformulações, mas, infelizmente, nem todos atendem às concepções expressas na legislação vigente.

        Destacamos aqui, o atendimento aos adolescentes autores de ato infracional. O próprio Ministério da Justiça fez, em 1997, um levantamento nacional do atendimento às medidas sócio educativas que mostrava a não implementação do ECA (Apud, Teixeira, 2002).

        No caso da privação de liberdade aqui em São Paulo, o problema está na persistência de uma prática repressiva e no descumprimento das garantias e prerrogativas legais. Estamos há doze anos transcorridos da promulgação do ECA e ainda não foram realizadas, na Febem Paulista, as necessárias adequações à nova legislação. Num rápido panorama deste quadro, vemos a omissão das autoridades responsáveis e a “preferência” pela aplicação de medidas de privação de liberdade nos casos em que caberiam medidas sócio educativas em meio aberto . Também é fato que os adolescentes autores de ato infracional que estão privados de liberdade, vivem esta situação sob a lógica da “Tranca e couro”, quer dizer, estão sendo TORTURADOS cotidianamente.

        As inúmeras rebeliões são um duro emblema da negligência aos direitos conquistados com a nova legislação, dita aliás, pelos próprios adolescentes que encontram-se encarcerados. No último sábado (13/07/02), assistimos a mais uma: Franco da Rocha com a entrada da Tropa de Choque para contê-la.

        A desumanidade e crueldade vão desnudando variadas formas e métodos de humilhação e agressão. A imagem vinda do relato de adolescentes que apanham com ferros/tacos que trazem inscritas as palavras Direitos Humanos e ECA, entre outras, é o próprio retrato/desenho esculpido do reverso da lei.

        Vemos ainda, projetos retrógrados de propostas de redução da idade de imputabilidade penal, além do discurso de pessoas que acreditam ainda que o ECA serve apenas para encobrir atos delituosos de adolescentes, protegê-los, retirando-lhes a responsabilidade. Aqui temos também um outro problema, o da mudança de mentalidade, tarefa esta que depende também de um processo histórico e da vontade política de educadores e profissionais na discussão do ECA.

        Mas como nos mostra Chauí (1994):

        “Se nascemos numa sociedade que nos ensina certos valores morais -justiça, igualdade, veracidade, generosidade, coragem, amizade, direito à felicidade – e, no entanto, impede a concretização deles porque está organizada e estruturada de modo a impedi-los, o reconhecimento da contradição entre o ideal e a realidade é o primeiro momento da liberdade e da vida ética como recusa da violência. O segundo momento é a busca de brechas pelas quais possa passar o possível, isto é, uma outra sociedade, que concretize no real aquilo que a nossa propõe no ideal…O terceiro momento é o da nossa decisão de agir e da escolha dos meios para a ação. O último momento da liberdade é a realização da ação para transformar um possível num real, uma possibilidade numa realidade” (Chauí, p.365).

        E essas últimas tarefas, se fazem, para nós, muito urgentes… não temos mais tempo a perder.

       É preciso comemorar os doze anos do ECA, com a certeza, de que, se ainda não conseguimos implementá-lo, buscamos caminhos. É preciso ousar sonhar e ousar transformar. É necessário uma maior e melhor organização de todos os setores da sociedade com a força e felicidade humanas, compartilhando a ideia de que a diferença e o outro são importantes para o desenvolvimento de cada um de nós…A lei já nos fortalece…

Referências bibliográficas

COSTA, A. C.  G. da, O novo direito da infância e da juventude do Brasil: 10 anos do EFA – Avaliando conquistas e projetando metas. Cad.1- Unicef, 1990.

PINO, A. Direitos e realidade social da criança no Brasil. A propósito do “Estatuto da Criança e do Adolescente”. Revista Educação & Sociedade, ano XI, n.36, p.61-79, ago., 1990.

TEIXIEIRA, M.L.T. O estudo da criança e do adolescente   e a questão do delito.  Cadernos Populares/n.3, Sitraemfa, 1991.

TEIXIEIRA, M.L.T. Adolescência – violência: uma ferida de nosso tempo. São Paulo, 2002. . Tese (Doutorado). Serviço Social, PUC/SP.

VOLPI, M. (UNICEF) I Encontro Estadual de Educação Social na rua. São Paulo, jul,2000 (Palestra).

VYGOTSKY, L. S. Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 5ªed., 1998.

Ana Silvia Ariza de Souza é psicóloga e mestre em Psicologia Social pela PUC-SP

Publicado em 20/04/2004

Entendendo o texto:

01 – Quando ocorreu a promulgação do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)?

      O ECA foi promulgado em 1990.

02 – Qual é a primeira diferença mencionada no texto entre o Código de Menores e o ECA?

      A primeira diferença destacada é o caráter participativo do processo de elaboração do ECA, com a participação dos movimentos sociais.

03 – O que o antigo Código de Menores associava à pobreza?

      O antigo Código de Menores associava a pobreza à "delinquência".

04 – Qual é a mudança de paradigma mencionada no texto em relação à infância?

      A mudança de paradigma envolve o reconhecimento da criança e do adolescente como sujeitos de direitos, não mais como simples portadores de carências.

05 – Como o ECA se relaciona com a responsabilidade em relação às crianças e adolescentes?

      O ECA torna todos os adultos responsáveis por seus atos em relação a todas as crianças e adolescentes.

06 – Qual é a mudança na referência nominal destacada no texto?

      A expressão "menor" foi substituída por "criança ou adolescente" para negar o conceito de incapacidade na infância.

07 – Como o ECA vê a adolescência em comparação com o Código de Menores?

      O ECA vê a adolescência como uma fase de singularidade e possibilidades no presente, não como uma fase propícia à transgressão.

08 – Que elementos institucionais o ECA introduz para promover os direitos das crianças?

      O ECA introduz a constituição de Conselhos de direitos e dos tutelares como elementos fundamentais para as novas políticas de atendimento.

09 – Como o texto descreve a implementação do ECA na prática?

      O texto afirma que, na prática, o ECA não foi totalmente implementado, especialmente no que diz respeito ao atendimento aos adolescentes autores de ato infracional.

10 – Quais são os desafios mencionados no texto em relação ao ECA?

      Os desafios incluem a necessidade de mudar a mentalidade, garantir o respeito aos direitos das crianças e adolescentes, e superar a persistência de práticas repressivas e desumanas, especialmente na privação de liberdade.

CONTO: A DANÇA DA VIDA - HELOÍSA PRIETO - COM GABARITO

 CONTO: A DANÇA DA VIDA – Bahia, 1889

            Heloísa Prieto

        Sempre digo que sou uma pessoa de sorte. Na vida tive tudo o que desejei, como aprender a escrever, em português e francês. No sertão da Bahia, nos arredores de Nossa Senhora do Livramento, poucas são as mulheres letradas e, se forem negras como eu, nem pensar. Creio que nasci abençoada por Maria, como dizia minha mãe, e filha de Iansã, como dizia meu avô.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjRQ77lKCYdvvgyJBuo0NfgyH5TBGUYuagJY5WOSgiFj3e0_OfpR_7QZ-jJHL4ZuO7jIpcI3z3c1euJX8YseiNQ9FiHqJ4OQqHXR5JlCSjzutrFTu1cRPo4YS5eExMWYZtE4jUadcqG6hONd2MioXMXpuM16gHLn3a4FmlJgZQYmm1MxxrO5B4dE0TbGig/s1600/DAN%C3%87A.jpg 


        Agora que minha vida está por terminar, alegro-me com minhas lembranças. Já tenho oitenta e seis anos. Sinto-me cansada ao caminhar. Mas minhas mãos são ágeis, minha vista é boa e passo os dias recordando e escrevendo. Quem sabe meus netos se interessem pelo que tenho a contar...

        Quando eu era menina, as pessoas me diziam que era muito mimosa. Sinhá Quitéria, que todos chamavam de sinhá Viúva, ordenou que eu trabalhasse na casa grande. Deixei a senzala e comecei a dormir no porão com as outras mucamas. Mas, na verdade passava a maior parte das noites em claro, cuidando de meu sinhozinho.

        Nunca esquecerei a primeira vez em que o vi. A pele tão branca, os olhos tão fundos e delicados, os cabelos castanhos, encaracolados e longos. Ele sorriu para mim, gostou do meu jeito. Passava o dia acamado. Sofria do pulmão. O peito chiava e ele sentia muita fraqueza. Às vezes tossia a noite inteira.

        Mas nos dias em que estava disposto, ele era muito divertido. Vendo como eu adorava os livros encadernados que viviam na sua mesinha-de-cabeceira, sinhozinho resolveu me ensinar a ler. Só para que depois eu lesse histórias para ele. Foi uma alegria. Aprendi tudo num instante.

        Sinhá Quitéria sempre me dizia que não deixasse meu sinhozinho por um minuto sequer. Mas ela nem precisava dar essa ordem. Até hoje continuamos juntos. Só vamos nos separar quando a morte vier.

        Mas como estava dizendo, nas noites em que ele sofria, eu quase morria. Não suportava vê-lo assim. Foi por isso que, certa madrugada, eu o convenci a fugir do quarto.

        Abri as cortinas que viviam fechadas e saímos os dois pela janela. Foi assim que levei meu querido Pedro Manuel de Assis, meu amado sinhozinho, para meu avô examiná-lo.

        Meu avô nascera em Angola; conhecia as ervas e os segredos da cura. Foi uma noite inesquecível. Quando nos aproximamos da senzala, vi que a roda de capoeira já havia começado. Lembro-me ainda hoje do som do berimbau e das cantigas cadenciadas.

        Sinhozinho até parou de tossir. Não tirava os olhos da ginga, dos rabos-de-arraia, das rasteiras, daquela dança mágica da vida. A lua estava cheia, a noite clara e, à luz da fogueira, os homens rodopiavam como se pertencessem a uma constelação de estrelas negras, cortantes e mortais.

        De repente sinhozinho me disse:

        — Eu quero aprender capoeira, Maria Macária. Diga isso ao seu avô.

        Vocês podem imaginar como fiquei apavorada. E se alguma coisa desse errado? E se alguém descobrisse?

        Mas quando meu avô fitou Pedro Manuel bem no fundo dos olhos simplesmente respondeu:

        — Você é filho de Xangô. Se eu ajudar, você nos fará justiça e descobrirá sua própria coragem.

        Foi uma surpresa para mim. Nunca pensei que meu avô um dia aceitasse ensinar capoeira a um branco. Sinhá Quitéria ficou desconfiada quando sinhozinho lhe disse que passaria as tardes em companhia do velho João. Mas como detestava contrariar o filho, acabou permitindo.

        E foi muito, muito divertido. Porque meu avô decidiu que aprenderíamos a ginga juntos. Mandava-nos engatinhar entre as árvores imitando gatos e cachorros. Morríamos de rir dando rasteiras um no outro. Aos poucos fomos aprendendo a dançar e a compreender cada som do berimbau.

        A luz do sol e o toque da terra devolveram a saúde a sinhozinho. A chiadeira foi sumindo, o peito se desenvolvendo, as pernas firmando e finalmente ele conseguia dormir à noite. Sinhá Quitéria ficou muito satisfeita com o “tratamento” de meu avô, e nós começamos a ter regalias. Mas contente mesmo ela ficou no dia da surra.

        Nesse dia, sinhá Quitéria recebeu a visita de dona Raquel, uma mulher muito antipática. Tinha nascido na Europa e detestava a Bahia. Seu filho era seu orgulho: um moleque grandalhão que sempre gritava com as mucamas e adorava matar passarinho. Na tarde da confusão eu estava muito cansada e derrubei chá quente em sua roupa quando fui servi-lo. Ele me deu tabefe tão forte no rosto que eu caí sentada no chão.

        E antes que sinhá Quitéria pudesse dizer qualquer coisa, meu amado sinhozinho já se levantara e segurava o menino pelo colarinho.

        Dona Raquel deu uma risadinha maldosa.

        — Seu filho já está bem de saúde? — perguntou para sinhá Quitéria. — Será que aguenta uma surra?

        Mas a frase ficou perdida no ar, porque rapidamente sinhozinho levou o menino para o meio do quintal. O grandalhão estava contente com a situação. Louco para bater em alguém. Levantou os punhos como se fosse dar socos.

        E sinhozinho começou a gingar. Ele se movimentava sem parar, observando o adversário de soslaio. Depois sorriu levemente, cheio de esperteza e mandinga.

        Quando o grandalhão levou a primeira rasteira, dona Raquel levantou-se indignada. Mas depois nem teve mais tempo de reclamar. Sinhozinho esquivou-se dos socos e o atacou com o arrastão, depois aplicou-lhe a meia-lua, e assim o grandalhão foi levando um tombo atrás do outro. A essas alturas alguém já tocava berimbau e uma roda havia sido formada em torno dos dois meninos. A cada vitória de sinhozinho todos aplaudiam e davam risadas. Ele tomava cuidado para não ferir o grandalhão de verdade. Queria só quebrar aquele orgulho. Mas isso quem fez foi a própria sinhá Quitéria. Pois quando a briga acabou e dona Raquel foi buscar o filho caído no meio do quintal, ela perdeu a compostura e gritou:

        — Muito bem Quitéria, você tem um filho valente. Ele luta como um negro.

        Sinhá Quitéria abraçou Pedro, que ria abraçado ao meu avô, e respondeu com toda a calma:

        — É Raquel, meu filho luta como um homem!

        Nunca mais dona Raquel voltou à fazenda e muitas coisas mudaram depois desse dia. Para mim e sinhozinho essa foi a primeira vitória. Passamos a vida envolvidos em muitas lutas. A luta contra o preconceito, contra a pobreza, contra a ignorância. E hoje, quando vejo nossos netos correndo por aí, acredito que conseguimos várias vitórias. Mas essas são histórias muito longas e ainda levarei dias para escrevê-las. E mesmo sendo velha guerreira, há momentos em que preciso descansar e, quem sabe sonhar. Até mais tarde.

Heloísa Prieto. Heróis e guerreiras. São Paulo, Companhia

das Letrinhas, 1995. Coleção Quase tudo o que você queria saber.

Entendendo o texto:

01 – Onde se passa a história do texto?

      A história do texto se passa no sertão da Bahia, nos arredores de Nossa Senhora do Livramento, em 1889.

02 – Qual é a idade da narradora no início do texto?

      A narradora tem oitenta e seis anos no início do texto.

03 – Como a narradora aprendeu a ler em português e francês?

      A narradora aprendeu a ler em português e francês através do seu sinhozinho, que a ensinou.

04 – Por que a narradora deixou a senzala e passou a dormir no porão?

      A narradora deixou a senzala e passou a dormir no porão porque foi ordenado por Sinhá Quitéria, que todos chamavam de Sinhá Viúva.

05 – Quem é sinhozinho e por que ele estava doente?

      Sinhozinho é o apelido do jovem Pedro Manuel de Assis, que estava doente com problemas pulmonares.

06 – O que a narradora fez para tentar ajudar sinhozinho?

      A narradora convenceu sinhozinho a fugir do quarto e o levou para seu avô, que era conhecedor das ervas e segredos da cura.

07 – Qual é o desejo de sinhozinho após assistir a uma roda de capoeira?

      Sinhozinho expressa o desejo de aprender capoeira após assistir a uma roda de capoeira.

08 – Qual foi a reação do avô da narradora quando sinhozinho pediu para aprender capoeira?

      O avô da narradora aceitou ensinar capoeira a sinhozinho, afirmando que ele era "filho de Xangô".

09 – Como sinhozinho e a narradora aprenderam a ginga da capoeira?

      O avô da narradora decidiu que eles aprenderiam a ginga juntos e os fazia engatinhar entre as árvores imitando gatos e cachorros.

10 – Como sinhozinho enfrentou o grandalhão que agrediu a narradora?

      Sinhozinho usou suas habilidades de capoeira para enfrentar o grandalhão, vencendo a briga e quebrando seu orgulho.

 

ARTIGO DE OPINIÃO: SEXO, DINHEIRO E SUCESSO? SÓ LENDO! ULISSES TAVARES - COM GABARITO

 ARTIGO DE OPINIÃO: Sexo, dinheiro e sucesso? Só lendo!

            Ulisses Tavares – Em 17/07/2012

        Você é jovem? Mora no Brasil? Está lendo este artigo numa boa, sem soletrar palavra por palavra? Já leu mais de um livro inteirinho este ano? E, finalmente, entendeu tudo que estava escrito no livro? Respondeu sim a estas perguntinhas?

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiar6FIQw77Pg1aDBHGjRXSSwE4cRKkhRLUUz3k4l7h-v61SoB2H7zNqeJdfwFRbbkHNjz5Abwakm8KbYOgHWtF4NbhNrmWezs55foeYN4r3wYvc7RxB4ctTj1JWR4pH53qzherHFjA-Dx01WrE7CRn7WNsLE8SVx_bN6vBRexeZ-z5grxOs14KNTiAjiY/s1600/BRASIL.png


        Ufa! Que bom, parabéns, posso, então, ir direto ao ponto:
Primeiro, você faz parte de uma elite.

        Segundo, você está com a faca e o queijo para conquistar tudo que quiser na vida.

        Terceiro, você precisa ler mais, muito mais.

        Agora, antes que você pare de ler isto aqui por achar que estou gozando com sua cara, relaxe que eu explico.

        O Brasil faz parte de uma lista horrorosa dos 12 países com mais analfabetos entre os 14 e os 21 anos. Pior que nós, apenas Paquistão, Indonésia, Nigéria e Etiópia, que raramente aparecem em boas notícias nos jornais.

        Ah, você já sabia disto por que lê jornais também?

        Nesse caso, você é minoria super especial mesmo: apenas 1 entre 100 mil jovens brasileiros dão uma espiada em jornais regularmente.

        E o restante faz o que? Exatamente: assiste televisão (não o noticiário, claro), ouve rádio (só os programas com músicas e brincadeirinhas para idiotas) ou fica caçando mulher pelada na internet.

        Ainda está lendo este texto, e compreendendo tim-tim por tim-tim?

        Encha o peito de orgulho: você está fora de uma lista ainda mais nojenta que aquela lá de cima.

        A Unesco faz um teste que avalia alunos de 15 anos em 40 países sobre compreensão da linguagem escrita. Um teste mamata: ler uma historinha de poucas linhas e depois dizer o que entendeu.

        É bom lembrar que os testados têm no mínimo oito anos de bumbum na carteira da sala de aula.

        Na grande avaliação deste ano, adivinhe quem tirou o último lugar? Coisa chata mesmo, bró: o adolescente brasileiro ficou com o troféu do mais burro do mundo.

        Não disse que você era minoria das minorias?

        Mas, sem querer pentelhar e já pentelhando, como diria o intelectual Chavez da televisão: existem quilômetros de livros para você devorar depois que entrar na facú, se quiser continuar fora da manada e não levar uma vida de gado.

        Bastaria uma única providência: você não ser folgado lendo apenas trechinhos xerocados dos livros para passar nas provas. E seu professor tomar vergonha na cara e parar de fazer as famigeradas pastinhas para xerocar.

        Isso está mais em suas mãos do que nas das faculdades, afinal já existem mais faculdades que saúvas no Brasil e boa parte é caça-níqueis mesmo. Pense bem: já que são boas as chances de você sair com um canudo que o mercado de trabalho não respeita, que ao menos sua cabeça saia cheia da cultura maravilhosa dos livros.

        Uma última tarracada na molera: pesquisa recente indica que mais de 60% das professoras do ensino público, fundamental e médio, não possuem o hábito de ler jornais. Se alguém não se interessa nem por ler jornais, muito menos se ligará em um livro que, em geral, tem muito mais letrinhas impressas e exige mais raciocínio que a última notícia sobre a boazuda do bbb. Você acha que elas irão incentivar a leitura em seus alunos?

        Bem, o titio Ulisses já mordeu demais e agora assopra.

        Vou, em poucas linhas, provar que, lendo bastante, você poderá ter rapidamente as 3 coisas que em geral jovens saudáveis e antenados desejam. Preparado? Então raciocine junto comigo:

        SEXO!

        De maneira bem realista, se você é gêmeo do Gianechini, clone do Brad Pitt ou até mesmo um rústico Alexandre Frota, esqueça o que vou dizer. Cabeças de anta em corpos de cisnes conseguem sexo (ficar, namorar ou qualquer variante) sem precisar ler nem o Pato Donald. Idem para as garotas.

        Mas sem uma boa dose de criatividade, imaginação e informação não há cantada que resista. Seja ao vivo, nas baladas, ou nos chats. Aliás, escrever errado nos chats de paquera, ou na praga dos blogs (quem não tem um atualmente?), é pedir para ser deletado.

        E só quem lê muito desenvolve a criatividade, amplia a imaginação e fica bem informado.

        Quem só repete o que assistiu nas mesas redondas sobre futebol, nem bêbado de boteco aguenta.

        E uma cartinha bem escrita? Um poeminha inspirado e exclusivo para a musa ou muso, hem, hem? Deu certo com o Cyrano de Bergerac (personagem do Victor Hugo), e olha que ele certamente era mais feio, narigudo, desengonçado e tímido que você.

        Se sempre deu certo comigo também, que sou o próprio cão chupando manga, e ainda por cima velhinho e durango, imagine com você que é jovem e esperto.

        DINHEIRO!

        Adivinhei seu pensamento? Como é que você vai ler bastante para ganhar dinheiro no futuro, se lhe falta dinheiro para comprar livros no presente?

        Falso dilema. As bibliotecas estão em toda parte, e você vai ver que barato, literalmente, é ir à uma delas sem a obrigação de fazer pesquisa escolar.

        Faça pesquisa pessoal, isso sim é bom. Leia o que gosta, o que interessa, por prazer de adquirir conhecimentos.

        Ou vá pela Internet. A biblioteca do mundo está dentro dela, a um clique. E, para quem ainda não tem computador, a hora de web em cafés virtuais, por exemplo, custa menos que um cafezinho de coador.

        Vou te dar um estímulo e tanto para você incluir a leitura imediatamente em sua formação profissional: quem não passa nas entrevistas dinâmicas que as empresas realizam hoje em dia é quem não lê. Nenhum empregador é besta de contratar outra besta.

        E mais: você já assistiu algum daqueles programas O Aprendiz? Os selecionados para participar, todos, vieram de faculdades que receberam a triste nota F do Provão. Como é que eram tão competitivos, vindo de facús fundo de quintal? Porque eram moços e moças que sabiam falar bem, se expressar com clareza, e isso só se obtém lendo muito.

        Compare com os políticos, empresários, tesoureiros, que você também assistiu recentemente depondo nas Cpis do Congresso. Até os que tinham o título de professor tropeçavam nas frases, falavam errado pra caramba. Se não eram corruptos, ficou provado que não eram chegados na leitura e, quando professores, devem ter se formado num bordel, nunca numa escola decente.

        Mas e o Lula?

        É a exceção que confirma a regra. Ganhou prestígio, dinheiro, mas seus assessores ficam malucos porque ele se recusa a ler qualquer documento com mais de duas páginas.

        E, como ele mesmo tem afirmado, nunca sabe de nada.

        SUCESSO!

        Para ser bem sucedido, você não precisa, necessariamente, ter sexo, dinheiro e…sucesso em alta escala. Não precisa ser o número um, a vida real não é assim.

        Mas se você fizer a lição de casa direitinho, ou seja, lendo muito e lendo sempre estará sempre sendo muito bem sucedido.

        Nas empresas, as promoções vão para os que tomam mais iniciativas e teem uma visão macro (para o mercado) e micro (para a empresa), desde o office-boy ao gerente.

        Hoje não é só o diploma que conta pontos. Conta sua inteligência, sua cultura, sua versatilidade etc.

        Se você não é filho do dono da empresa nem nasceu com o rabo pra lua, os livros serão suas verdadeiras universidades e cursos de aprimoramento profissional.

        No dia a dia, os livros podem ajudar você a entender de culinária, de filhos e até de informática.

        Mesmo quando não ensina nada objetivamente, todo livro é um manual de autoajuda (ou você acha pouco espiar a alma feminina e a aflição masculina por dentro?).

        Recentemente, o Bill Gattes, sim, apenas o homem mais bem sucedido pelos padrões da sociedade materialista, deu uma palestra a jovens estudantes, de alguns minutos apenas, com um único conselho; “Respeite aquele CDF da escola, que vive com a cabeça enterrada nos livros. É certo que ele será seu patrão no futuro.”

        E o Dalai Lama, o homem mais bem sucedido pelos padrões da sociedade espiritualista, resume sua dica em “antes de ser seu próprio Mestre, ouça, leia os outros Mestres”.

        Sim, estude, estude sem preguiça. E estudar, meu bró, vem do latim e nada mais significa que ler.

 Ulisses Tavares é professor, escritor, dramaturgo, compositor, roteirista, poeta, publicitário, jornalista, treinador de executivos em criatividade, consultor de marketing e web business e, se não fosse um leitor voraz, seria apenas mais um zé mané. E-mail: uuti@terra.com.br

Entendendo o texto:

01 – Qual é o autor do texto?

      O autor do texto é Ulisses Tavares.

02 – Que tópicos o autor menciona no início do texto?

      O autor menciona tópicos como juventude, leitura, analfabetismo no Brasil e a falta de leitura entre os jovens.

03 – Qual é a mensagem principal do autor para os jovens leitores?

      A mensagem principal é que a leitura é fundamental para o sucesso na vida, e os jovens que leem estão em uma posição privilegiada.

04 – Segundo o autor, qual é a situação do Brasil em relação ao analfabetismo entre os jovens?

      O Brasil está entre os 12 países com mais analfabetos entre os jovens de 14 a 21 anos, com apenas alguns países ficando atrás.

05 – O autor menciona o papel dos jornais na leitura. O que ele diz sobre isso?

      O autor menciona que apenas 1 entre 100 mil jovens brasileiros lê jornais regularmente, destacando a falta de leitura entre os jovens.

06 – O que o autor sugere como alternativa à leitura de livros caros?

        O autor sugere a utilização de bibliotecas, a leitura de material disponível na internet e a frequência em cafés virtuais para acessar a informação, tornando a leitura acessível a todos.

07 – De acordo com o autor, por que a leitura é importante para o sucesso?

      O autor afirma que a leitura desenvolve a criatividade, a imaginação e a capacidade de se expressar com clareza, habilidades importantes para o sucesso na vida pessoal e profissional.

08 – O autor menciona a importância da leitura na busca por empregos. Por que ele faz essa conexão?

      Ele faz essa conexão porque empregadores valorizam candidatos que sabem se expressar bem, e a leitura é uma maneira de desenvolver essa habilidade.

09 – Qual é o conselho de Bill Gates que o autor menciona no texto?

      Bill Gates aconselha os jovens a respeitarem os estudiosos que passam muito tempo lendo, pois eles podem se tornar seus chefes no futuro.

10 – Qual é o conselho do Dalai Lama que o autor também menciona?

      O Dalai Lama aconselha a ouvir e ler os ensinamentos de outros mestres antes de se tornar seu próprio mestre, enfatizando a importância da aprendizagem contínua.

ARTIGO DE OPINIÃO: EXISTE UMA IDADE MELHOR? LYA LUFT - COM GABARITO

 ARTIGO DE OPINIÃO: Existe uma idade melhor?

          Lya Luft

        A vida é um rio que corre. Nós somos os peixes, galhos e folhas caídas das árvores que essa torrente leva. Se pensarmos assim, imaginando que vamos desaguar no estranho silencioso nebuloso mar chamado morte, que pode não ser o fim de tudo, teremos uma visão realista das etapas da nossa existência. Sou pouco simpática à invenção de rótulos que distorcem realidades revelando apenas um preconceito: envelhecer é feio, é degradante, vamos ser eternamente jovens, seguindo aos pulinhos até o fim, fantasiados de Peter Pan. Disfarçamos realidades naturais porque as vemos como algo feio, inadmissível, pobres de nós, ignorantes do que é normal e digno e bom.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiV_n6PDLVwdqkwbZoEBTWP1OflR-WAA4KxQeo2j4oMbx7OA0znUYLcOQ3WmaVhrWDrHE5Zgr_ClAoMVdM-aLmA-d7baE0tksOzRwJ1IdEZeP8uE9CjpZdULFCt6W06D6TW7eYOpAw-OH5Ffs0YqTV7w6NKwU74mlVvaWCeZ8iIVbna5YL2ZdpBL4izJRg/s320/MELHOR%20IDADE.jpg


        Assim, inventam-se termos para a velhice: um pior do que o outro. “Terceira idade” não significa grande coisa, pois, se podemos viver até 80 ou 90 ainda ativos – (o número de pessoas nessas condições tende a aumentar -, vamos criar uma quarta idade e uma quinta: isso tudo me parece bastante tolo. Pior ainda é chamar a velhice, que alguns consideram se iniciar aos 60, outros aos 70 ou aos 80, de “melhor idade”. Quem disse que é melhor? Melhor do que qual outra fase? Melhor é algo muito subjetivo, em geral nos referimos à infância, mas a infância é sempre feliz? A Juventude não sofre? A maturidade não exige trabalhos e sacrifício?

        Por que consideramos a passagem do tempo decadência, e não transformação? Tudo é um processo que se inicia quando somos concebidos, depois somos lançados nesse rio de tantas águas chamado vida. Uma cadeia de mudanças que após um bom tempo traz limitações físicas, menos elasticidade, menos beleza no conceito geral, talvez menos lucidez. Alguma dependência de outros, quem sabe, e, se não cultivamos bons afetos, isso pode ser doloroso. Mas não necessariamente decrepitude e vergonha a esconder! Todas essas naturais transformações deveriam vir acompanhadas de qualidades que na juventude não tínhamos. Capacidade de amar melhor, por exemplo: filhos criados, amizades consolidadas, velhos casamentos sendo uma parceria tranquila, e tempo disponível, são grandes privilégios. Podemos amar com mais alegria, pois não precisamos educar netos, apenas curtir, querer bem, deixar que gostem de nossa companhia, não sendo os chatos cobradores, exigentes a reclamar que as visitas são poucas, que merecíamos mais atenção. Temos tempo para curtir coisas que passavam despercebidas na correria anterior, como uma bela paisagem, um bom filme, um bom livro, uma boa conversa, doces memórias, não pensando no que perdemos, mas no que tivemos e ficou em nós, se fomos atentos e não fúteis demais.

        “O que a senhora faz para se manter jovem?”, me perguntou um jornalista recentemente. Achei graça: eu não quero me manter jovem, quero ser uma pessoa interessada, e quem sabe interessante, na fase em que estou. Querer ter 40 anos aos 70 é tão patético quanto querer ter 20 aos 40, como se nos tivessem embalsamado na idade que achamos ideal. Que idade será essa? A infância é para alguns a fase mais feliz; para outros foi a juventude, e assim vai. Não acho que a chamada “terceira idade” seja a melhor, e detesto a expressão “melhor idade”, que apenas revela um preconceito atroz. Mas nela podemos ter e passar adiante coisas boas, belas e alegres, e contemplar do alto desses anos todos com mais lucidez e calma, por exemplo, a mediocridade reinante neste momento no país, se é que isso nos interessa. Deveria interessar.

        Mas uma cruel fixação na juventude nos impede de curtir naturalmente a passagem do tempo, que, se aliada a certo bom humor, nos torna amados e amorosos, ligados ao mundo mesmo quando a velha senhora morte começa a rondar a nossa casa. E, se acreditarmos que esse rio da vida que corre não termina num nada absurdo, mas em nova fase, quem sabe não precisaremos tapar a cabeça feito crianças diante do que nos espera nesse mar onde tudo deságua – inclusive nossos preconceitos, nossas fragilidades e nossas ilusões.

*Fonte: Revista Veja, 30/01/2013

Entendendo o texto:

01 – Qual metáfora a autora usa para descrever a passagem do tempo?

      A autora usa a metáfora do "rio que corre" para descrever a passagem do tempo.

02 – Por que a autora critica o uso do termo "melhor idade"?

      A autora critica o uso do termo "melhor idade" porque considera que a ideia de uma idade ser melhor do que outra é subjetiva e revela preconceito.

03 – Como a autora acredita que as transformações naturais da idade avançada podem ser acompanhadas por qualidades positivas?

      A autora acredita que a idade avançada pode ser acompanhada por qualidades positivas, como a capacidade de amar melhor, relacionamentos consolidados e tempo para desfrutar da vida de maneira mais tranquila.

04 – Por que a autora não quer se "manter jovem"?

      A autora não quer se "manter jovem" porque prefere ser uma pessoa interessada e interessante na fase em que está, em vez de tentar parecer mais jovem do que é.

05 – Qual é a atitude da autora em relação à passagem do tempo?

      A autora tem uma atitude positiva em relação à passagem do tempo, desde que seja acompanhada de bom humor, amor e lucidez.

06 – Segundo a autora, por que a fixação na juventude pode ser prejudicial?

      A fixação na juventude pode ser prejudicial porque impede as pessoas de apreciarem naturalmente a passagem do tempo e de serem amadas e amorosas em idades mais avançadas.

07 – Qual é a visão da autora em relação à morte?

      A autora sugere que a morte não é necessariamente o fim de tudo, mas uma nova fase, e que essa perspectiva pode ajudar as pessoas a encararem a passagem do tempo com mais calma.

08 – Como a autora descreve a fase da "terceira idade"?

      A autora não faz uma descrição específica da "terceira idade" no texto, mas critica o uso desse termo e a expressão "melhor idade".

09 – Qual mensagem a autora deseja transmitir em relação à passagem do tempo e à idade?

      A autora deseja transmitir a mensagem de que a passagem do tempo é um processo natural que pode ser enriquecido por qualidades positivas, desde que as pessoas superem a fixação na juventude.

10 – Por que a autora menciona a mediocridade reinante no país?

      A autora menciona a mediocridade reinante no país para enfatizar a importância de estar ligado ao mundo e consciente dos problemas sociais, mesmo em idades avançadas, e como uma reflexão sobre a sociedade em geral.