quarta-feira, 15 de maio de 2019

POEMA: EVOCAÇÃO DO RECIFE - MANUEL BANDEIRA - COM GABARITO

Poema: Evocação do Recife
              Manuel Bandeira


Recife 
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois 
-- Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhqwcDdlsZs_00rQl24mk-lG9SS3OBCNRbis9EZxsjjVuHcKQW7CZMjZj4ZhcYwGXqY1_qcZyAVuzOjP4eGtt3XisuwYtZnx1Bt8Eh71kSXA5dR_crdtsj08Y3svjPj5MB8CegkXO-LeZ-APi4As6RQC2TXzzqbpZCw4PotB3kwMWcWI6LzineudFCWjvA/s1600/recife.jpg



A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
          Coelho sai!
          Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:
          Roseira dá-me uma rosa
          Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)

De repente
          nos longos da noite
                                          um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.
Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de Dr. Fulano de Tal)

Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
-- Capiberibe

Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu

Foi o meu primeiro alumbramento

Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
             Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
-- Capiberibe

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
          Ovos frescos e baratos
          Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
          Ao passo que nós
          O que fazemos
          É macaquear
          A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam

Recife...
             Rua da União...
                                      A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade

Recife...
             Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô.

                           Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira, cit. p. 114-7.
Entendendo o poema:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:
·        Evocação: ato de se lembrar, trazer à lembrança.
·        Mauritsstad: nome dado por Maurício de Nassau à cidade do Recife durante o domínio holandês.
·        Pataca: antiga moeda brasileira.
·        Pegão: maciço em que se apoiam os arcos das pontes.
·        Pincenê: óculos sem haste.
·        Politonar: cantar em vários tons.
·        Pregão: fala ou pequena melodia por meio das quais os vendedores ambulantes anunciam seus produtos.

02 – Na 1ª estrofe do poema, o eu lírico delimita o Recife que evoca. Não é o Recife histórico nem o Recife turístico ou cultural.
a)   Qual é o Recife que ele evoca? Destaque um verso que justifique sua resposta.
É o Recife que habita sua memória: “Recife da minha infância”.

b)   O retrato do Recife evocado é feito, portanto, de modo objetivo ou subjetivo?
De modo subjetivo.

03 – Observe estes versos do poema: “Uma pessoa grande dizia: / Fogo em Santo Antônio!”; “Tenho medo que hoje se chame de Dr. Fulano de Tal”.

Com base nesses versos, responda: O eu lírico, ao evocar o passado, coloca-se no texto como adulto ou como criança? Justifique.
      Há uma mistura de perspectiva: no 1° e 2° versos, o eu lírico revive cenas do passado, como se fosse criança outra vez; no terceiro verso, deixa transparecer a visão crítica do adulto.

04 – Procurando dessacralizar a poesia, os modernistas aproximam-na das coisas simples, como o cotidiano e a cultura popular. Identifique no texto o aproveitamento desses elementos.
      As brincadeiras de roda com suas cantigas infantis, os pregões dos vendedores, as crenças e as festas populares, os nomes de ruas, etc.

05 – Manuel Bandeira nunca aderiu às novidades modernistas como modismo. Ao contrário, empregava-as como critério, sabendo extrair efeitos delas. Observe a irregularidade métrica e a pontuação destes versos:
        “Os homens punham o chapéu saíam fumando”.
        “Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu”.

Buscando estabelecer relações entre a forma e o conteúdo, responda:
a)   Por que a ausência de pontuação torna o sentido desses dois versos mais preciso?
No primeiro verso, a ausência de pontuação sugere a rapidez das ações; no segundo verso, a violência das águas durante as cheias.

b)   Observe o tamanho do segundo desses versos. Relacionando-o com o conteúdo do verso (as cheias), o que justificaria esse tamanho?
A enumeração caótica, num único verso, dos vários elementos arrastados pela água imita formalmente os caos promovido pelas cheias, que arrastam tudo de uma vez.


06 – Releia no texto do capítulo o comentário de Manuel Bandeira feito em itinerário de Pasárgada e também nos últimos versos do poema. A seguir, responda:
a)   Por que o eu lírico afirma “Meu avó morto/Recife morto[...]”?
Porque, com a morte do avô – uma das figuras centrais da mitologia da infância do poeta –, ocorre também a morte do Recife que vivia na memória do eu lírico.

b)   Que tipo de sentimento revela o eu lírico em relação ao Recife de sua infância?
Melancolia, nostalgia, tristeza.






POEMA: EXORTAÇÃO - MAURÍCIO DE ALMEIDA GOMES - COM GABARITO

Poema: Exortação
              Maurício de Almeida Gomes

Ribeiro Couto e Manuel Bandeira,
poetas do Brasil,
do Brasil, nosso irmão,
disseram:
“-- É preciso criar a poesia brasileira,
de versos quentes , fortes, como o Brasil,
sem macaquear a literatura lusíada”.

          Angola grita pela minha voz
          pedindo a seus filhos nova poesia!

Deixemos moldes arcaicos,
ponhamos de lado,
corajosamente, suaves endeixas,
brandas queixas,
e cantemos a nossa terra
e toda a sua beleza.

Angola, grande promessa do futuro,
forte realidade do presente,
inspira novas ideias,
encerra ricos motivos.

É preciso inventar a poesia de Angola!

Fecho meus olhos e sonho,
abrindo de par em par o coração,
e vejo a projecção dum filme colorido
com tintas de fantasia
e cenas de magia:

As imagens são paisagens, gentes, feras.
e sucedem-se lenta, lenta, lentamente…
assisto maravilhado
ao despenhar gemente
das quedas d’água do duque de Bragança…
vejo crescer florestas colossais
no maiombe, onde o verde é símbolo
de tanta esperança…

Amboim fecundo, amboim cafezeiro,
de alcantis envoltos sempre em nevoeiro denso,
como um fumo cheiroso
do seu café gostoso,
tão famoso no mundo.

O deserto de namib a espreguiçar-se
num bocejo mole,
estendendo tentáculos de areia
como polvo gigante
-- visão alucinante,
miragem
no escrínio esquisito
que guarda avaramente
a joia mais horrivelmente linda
e única no mundo
-- a welwitshia mirabilis,
que em si encerra mistério tão profundo…

É preciso escrever a poesia de Angola!

Vejo anharas infindáveis,
onde noivam no capim,
pelo amor amansadas,
feras bravas, indomáveis…
vejo lagos de safiras,
tão calmos
como olhos ternos,
chorosos,
de tímidas gazelas…

E terras rendilhadas do litoral,
secas, rugosas, escalvadas,
onde reina o imbondeiro,
gigantesco prometeu agrilhoado,
visão estranha, infernal, horrenda,
verde pálido, branco, cinzento,
lembrando líquen mágico, colossal

Baías, cabos, estuários,
praias morenas,
mares verdes, mares azuis,
e rios de aspecto inofensivo
mas cheios de jacarés…

Terras de mandioca e batata doce,
campos de sisal, minas e metais,
goiabeiras, palmeiras, cajueiros,
areais imensos, cheios de diamantes,
chuvadas torrenciais,
filas tristes de negros carregadores gemendo,
cantando tristemente seus cantares…
planaltos, montanhas e fogueiras,
feiticeiros dançando loucamente:
Angola é grande e rica e bela e vária.

É preciso criar a poesia de Angola!

Terra enorme onde o insecto impera:
mosquito da febre e mosca tzé-tzé,
cobrindo tudo de sono.

Olhai o senhor arquitecto Salalé,
tão pequenino, tão teimoso e diligente…
como ele projecta e constrói castelos,
milhões de vezes maiores que ele é,
para vergonha nossa,
que pouco fazemos,
presos de fútil, preguiçoso dandismo…


Encostai o ouvido atento
ao coração do novo negro,
escutareis só vós, poetas da minha terra,
que estais por nascer,
aquilo que para outros é segredo defeso,
mistério da esfíngica, malsinada alma negra.
criai ânimo, ganhai alento,,
e vibrantemente cantai a nossa terra!

É preciso forjar a poesia de Angola!

Essa nova poesia
será vasada em forma candente
sem limites nem peias,
diferente!...

Mas onde estão os filhos de Angola,
se os não oiço cantar e exaltar
tanta beleza e tanta tristeza,
tanta dor e tanta ânsia
desta terra e desta gente?

Essa nova poesia,
forte, terna, nova e bela,
Amálgama de lágrimas e sangue,
sublimação de muito sofrimento,
afirmação duma certeza.

Poesia inconformista,
diferente,
será revolucionária,
como arte literária,
desprezando regras estabelecidas,
ideias feitas, pieguices, transcendências…

Poesia nossa, única, inconfundível,
diferente,
quente, que lembre o nosso sol,
suave, lembrando nosso luar…
que cheire o cheiro do mato,
tenha as cores do nosso céu.
o nervosismo do nosso mar,
o paroxismo das queimadas,
o cantar das nossas aves,
rugir de feras, gritos de negros,
gritos de há muitos anos,
de escravos, de engenhos das roças,
no espaço vibrando, vibrando…

Sons magoados, tristíssimos, enervantes,
de quissanges e marimbas…
versos que encerrem e expliquem
todo o mistério desta terra,
versos nossos, húmidos, diferentes,
que, quando recitados,
nos façam reviver o drama negro
e suavizem corações,
iluminem consciências,
e evoquem paisagens
e mostrem caminhos,
rumos, auroras…

Uma poesia nossa, nossa, nossa!
-- cântico, reza, salmo, sinfonia,
Que uma vez cantada,
Rezada,
Escutada,
Faça toda a gente sentir
Faça toda a gente dizer:

          -- É a poesia de Angola!
                             In: Tania Macêdo e Rita Chaves, op. cit. p. 61-66.

Entendendo o poema:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo.
·        Amálgama: reunião, mistura, ajuntamento.

·        Marimba: tambor.

·        Quissange: música.

02 – A primeira estrofe do poema cita nominalmente dois escritores brasileiros, Ribeiro Couto e Manuel Bandeira, que pertenceram à primeira geração do nosso Modernismo. Sabendo que essa geração empenhava-se, entre outras coisas, pelo resgate das tradições da cultura popular brasileira e pela definição de uma identidade nacional, responda: O que justifica a citação desses poetas no poema de Maurício Gomes?
      Assim como os modernistas brasileiros da primeira geração, os poetas angolanos da geração de Maurício Gomes também estavam interessados em criar uma poesia livre dos modelos lusitanos ou europeus, uma poesia que fosse expressão da identidade nacional.

03 – O título do poema é “Exortação”. O que o poema procura exortar?
      O poema procura exortar os poetas angolanos a fazer uma nova poesia, genuinamente angolana.

04 – Observe estes versos do poema:
        “Deixemos moldes arcaicos,
        ponhamos de lado,
        corajosamente, suaves endeixas,
        brandas queixas,
        [...]
        Desprezando regras estabelecidas,
        Ideias feitas, pieguices, transcendências...”

a)   De acordo com esses versos, o que a nova “poesia de Angola” deve desprezar? Comprove sua resposta com palavras e expressões do texto.
Deve desprezar modelos literários antigos e tudo aquilo que seja etéreo ou excessivamente sentimental como comprovam as expressões: “moldes arcaicos”; “ideias feitas”; “pieguices”; “transcendências”.

b)   Portanto, qual é a visão do poeta sobre a função da nova “poesia de Angola”?
A nova poesia de Angola deve tratar da realidade do país, das coisas próprias da terra e do povo angolanos.

05 – Observe as duas últimas estrofes do poema:
a)   A partir de que elementos – temas, assuntos – deve ser feita a nova “poesia de Angola”? Comprove sua resposta.
A poesia deve ser feita a partir dos elementos naturais (o luar, o mato, o céu, o mar, as aves), culturais (quissanges e marimbas) sociais e históricos (as roças, a escravidão) de Angola.

b)   Considerando o contexto em que o poema foi escrito, é possível dizer que ele tem um caráter anticolonialista? Por quê? Justifique sua resposta.
Sim, pois, no contexto do colonialismo português, o rompimento com os modelos literários portugueses e a valorização de elementos próprios da terra revelam uma atitude nacionalista, em contraposição aos interesses da metrópole portuguesa.

06 – Releia estes versos finais do poema:
        “Uma poesia nossa, nossa, nossa!
        -- cântico, reza, salmo, sinfonia,
        Que uma vez cantada,
        Rezada,
        Escutada,
        Faça toda a gente sentir
        Faça toda a gente dizer:

        -- É a poesia de Angola!”

a)   O que justifica a repetição da palavra nossa no 1° verso desse fragmento?
Há a intenção de reforçar a ideia da identidade cultural angolana, ou seja, a nova poesia angolana seria expresso cultural do povo angolano.

b)   Por que o poeta mistura elementos de diferentes naturezas, como cântico, reza, salmo e sinfonia para caracterizar a nova “poesia de Angola”?
Porque a nova poesia seria um elemento de comunhão do povo angolano, uma espécie de espaço sagrado da cultura angolana, em que se manifestariam as mais profundas raízes (místicas, religiosas e profanas) do povo de Angola.




ARTIGO CIENTÍFICO: ANTEPASSADOS NÃO TÃO DISTANTES - MARCELO GLEISER - COM QUESTÕES GABARITADAS

ARTIGO: Antepassados não tão distantes
              
  Marcelo Gleiser

    Os chimpanzés sofrem quando perdem a mãe ou um amigo

    Quando Darwin afirmou, no século 19, que somos descendentes de macacos, que temos mais a ver com criaturas peludas e barulhentas com rabos longos e dentes afiados do que com anjos celestes, os vitorianos ficaram ultrajados. Por 3.000 anos, a história que vinha sendo contada era diferente. Seríamos criação de Deus, quase tão perfeitos quanto ele. Não fosse a ousadia de Adão e Eva, estaríamos até agora passeando nus pelo Jardim do Éden, sem sabermos da existência do pecado original.
        Muita gente ainda se ofende com a insistência dos cientistas em nos chamarem de macacos evoluídos. Mas deveríamos nos orgulhar de nossos antepassados, que encontraram meios de sobreviver em um ambiente austero e cheio de predadores. 
        Há 30 milhões de anos, babuínos, chimpanzés e humanos eram indiferenciáveis. Desde então, variações genéticas submetidas à pressão da seleção natural foram criando as diferenças que resultaram nos três primatas.
        Babuínos mostram uma grande sofisticação social, vivendo em grupos de aproximadamente 150 indivíduos que reúnem em torno de oito famílias. Pesquisadores como Dorothy Cheney (nenhuma relação com o vice-presidente americano) e Robert Seyfarth, que passam longos períodos nas florestas de Botsuana, verificaram que babuínos, especialmente as fêmeas, desenvolvem fortes alianças familiares, defendendo membros da família em caso de desavenças com outros babuínos ou em ataques de predadores. 
        Para tal, os primatas desenvolveram meios de identificar seus parentes visualmente e por meio de vocalizações. Não há dúvida de que o agrupamento dos babuínos exibe traços que podemos identificar na nossa sociedade. Quantas famílias têm um assobio especial que usam quando estão em lugares muito cheios?
        Mas nossos parentes mais próximos são os chimpanzés, com quem dividimos 98,4% dos nossos genes. Jane Goodall, a pesquisadora inglesa que revelou ao mundo a sofisticação dos nossos primos, passou anos nas florestas da Tanzânia observando seu comportamento. 
        Diferentemente dos babuínos, a característica mais marcante dos chimpanzés não é o agrupamento, mas a sofisticação de seu comportamento. Chimpanzés estão entre os poucos animais que usam ferramentas para efetuar tarefas. Cortam galhos longos para "pescar" formigas e cupins em troncos e cupinzeiros. 
        Como os babuínos, caçam em grupos e defendem seu território em ferozes guerras tribais. Como os humanos, sofrem quando perdem a mãe, o pai ou um irmão, ou quando um companheiro de longa data morre. Esses achados tornam difícil distinguir se somos um pouco macacos ou se os macacos são um pouco humanos. Certamente, eles nos remetem às nossas origens evolucionárias. 
        Recentemente, um experimento na Universidade de Kyoto, no Japão, comparou a memória dos chimpanzés com a dos humanos. Sequências de cinco números de um a nove foram mostradas a estudantes e chimpanzés por frações de segundo na tela de um computador. Após 650 milésimos de segundo, os números do monitor viravam quadrados brancos. O teste envolvia tocar os quadrados em ordem numérica crescente. 
        Tanto os estudantes quanto o chimpanzé acertaram 80% das vezes. Quando o intervalo baixou para 210 milissegundos, os humanos acertaram 40% das vezes e o chimpanzé 80%. Perdemos para um macaco. "Talvez", disse um dos pesquisadores, "nossa habilidade para contar atrapalhe". No mínimo, o experimento mostra que nossos primos são bem menos distantes do que pensamos. 

             MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"
                                                    Folha de São Paulo, 25/5/2008. Licenciado pela Folhapress.
Entendendo o Texto:

01 – O texto lido foi publicado em um jornal de grande circulação. Nesse texto, o autor aborda um tema bastante debatido nos meios científicos.
a)   Qual é esse tema?
A teoria da evolução do homem, de Darwin.

b)   Na sua opinião, o tratamento dado ao assunto do texto lido é muito específico – portanto, voltado exclusivamente para leitores cientistas –, ou é relativamente simples, tendo a finalidade de informar os leitores em geral? Justifique sua resposta.
O texto foi produzido para um público amplo e heterogêneo, pois apresenta uma linguagem que não exige conhecimentos profundos sobre a teoria da evolução do homem.

c)   Qual é a finalidade principal desse texto: expor um conteúdo científico de forma clara e objetiva ou persuadir o leitor a respeito do ponto de vista de seu autor?
Expor um conteúdo de natureza científico.

d)   É possível afirmar que o texto tem também a intenção de defender a ideia de que o homem e descendente dos macacos? Justifique sua resposta.
Sim, pois o autor demonstra a lógica da teoria com exemplos de pesquisas, e o texto afirma que os macacos são bem menos distantes de nós do que pensamos.

02 – Pelo fato de lidarem com assuntos ligados a áreas científicas do conhecimento, os textos de divulgação científica frequentemente fazem uso de uma linguagem em que há vocabulário e conceitos básicos.
a)   Identifique, no texto, palavras ou expressões usadas no meio científico para abordar o fato de os humanos serem descendentes dos macacos.
Variações genéticas, seleção natural, primatas, genes, origens evolucionárias, experimento.

b)   A que área científica pertencem tais palavras ou expressões?
A ciência que trata da evolução humana.

03 – A estrutura de um texto de divulgação científica não é rígida, pois depende do assunto e de outros fatores da situação, como: quem produz o texto, para quem, com que finalidade. Apesar disso, normalmente o autor apresenta uma ideia principal ou tese, geralmente um conceito ou um ponto de vista sobre um conceito, e procura fundamentá-la com “provas” ou evidências, isto é, exemplos, comparações, resultados objetivos de experiências, dados estatísticos, relações de causa e efeito, etc. No texto “Antepassados não tão distantes”:
a)   Qual é a ideia principal apresentada pelo autor?
A de que o homem é descendente do macaco.

b)   Com que “provas” ou argumentos o autor fundamenta a tese que defende?
O autor busca argumentos em dados de pesquisas que comparam comportamentos humanos com os de macacos, como, por exemplo: os babuínos mostram uma grande sofisticação social e desenvolvem fortes alianças familiares, defendendo membros da família em caso de desavenças com outros babuínos ou em ataque de predadores (como os humanos, e exibem traços que podem ser identificados em nossa sociedade, como assobiar para encontrar pessoas; os chimpanzés sofrem quando perdem um ente querido e fazem uso da memória, assim como os seres humanos.
c)   De que o autor se serve para justificar seu ponto de vista?
Ele apresenta três pesquisas feitas por autoridade no assunto: a realizada nas florestas de Botsuana com babuínos, a realizada nas florestas da Tanzânia com chimpanzés e um experimento na Universidade de Kyoto.
04 – Observe a linguagem empregada no texto:
a)   Nas formas verbais, que tempo e modo são predominantes?
O presente do indicativo.
b)   Qual variedade linguística foi empregada?
A variedade padrão.
c)   A linguagem revela preocupação com a expressividade e a emotividade, ou é clara, objetiva e tende à impessoalidade?
É clara, objetiva e impessoal.
d)   Considerando-se o assunto e o veículo em que o texto foi publicado, pode-se afirmar que esse nível de linguagem é adequado à situação? Por quê?
Sim. Porque o texto é voltado para leitores interessados em assuntos científicos, que tem certa familiaridade com termos científicos e dominam a variedade padrão.
05 – Quais são as principais características do texto de divulgação científica? Respondam, levando em conta os critérios a seguir: finalidade do gênero, perfil dos interlocutores, suporte/veículo, tema, estrutura e linguagem.
      Transmitir conhecimento de natureza científica. O autor é especialista em uma área científica. O destinatário é o leitor de revistas e jornais interessado em assuntos científicos. O suporte do texto são revistas, jornais e sites da internet. Os temas são relacionados com os diferentes campos da ciência. Estruturalmente, apresenta uma ideia central ou uma explicação sobre o objeto de estudo, desenvolvida por meio de “provas” e apresenta também, facultativamente, uma conclusão. Emprega a variedade padrão da língua, apresenta termos e expressões científicas e formas verbais principalmente no presente do indicativo. A linguagem é clara, objetiva, impessoal.  

TEXTO: MISSÃO ESPACIAL NA LUA - PABLO NOGUEIRA - COM QUESTÕES GABARITADAS


Texto: Missão espacial na Lua
        
    Pablo Nogueira

        A nave estava pousada havia mais de quatro horas quando os visitantes resolveram descer. Moviam-se com dificuldade de quem possui um corpo projetado para viver num mundo diferente. Começaram a desembarcar os equipamentos. Alguns se destinavam a fazer observações no subsolo, outros podiam detectar fontes de calor escondidas debaixo da crosta. Enquanto máquinas funcionavam, os dois tripulantes começaram a coletar pedras. Embora aquela fosse a sexta expedição a pousar ali, sua tripulação era a primeira a contar com um membro capaz de estudar a geologia daquele mundo. E, conhecendo a geologia, poderiam ter um vislumbre, ainda que incompleto, de sua própria história.
        Essa cena já aconteceu. O mundo alienígena em questão era a nossa Lua, que em 11 de dezembro de 1972 estava sendo visitada pelos membros da Apollo 17. A pesquisa geológica realizada pela missão ajudou os cientistas a reconstruir a história do satélite.
        (...)
Pablo Nogueira. Não se esqueça de nós. Galileu.
São Paulo: Globo, n. 213. abr. 2009. p. 63-4.
Entendendo o texto:
01 – Qual o significado das palavras abaixo:

·        Geologia: Ciência que estuda origem, história e estrutura da terra.
·        Vislumbre: ideia imprecisa.

02 – A leitura desse texto lhe causou surpresa? Por quê?
      Sim. A princípio, não é possível saber quem são as pessoas envolvidas e qual é o lugar em que acontece a situação exposta, já que não são identificados. No entanto, no segundo parágrafo, o leitor é informado de que se trata de uma expedição feita por seres humanos à Lua, em 1972.

03 – Um texto jornalístico, por exemplo, a reportagem, caracteriza-se por apresentar um texto claro, objetivo e neutro, par que o leitor tenha acesso à informação e possa tirar suas próprias conclusões acerca do que foi veiculado. O trecho do texto lido apresenta essa característica? Explique.
      Sim. Mas apenas no segundo parágrafo. No primeiro parágrafo tem-se a impressão de que se trata de um texto literário, por exemplo, um conto, pois remete a um tempo passado, com riqueza de descrições, além de não haver clareza sobre onde ocorre a situação e quem dela participa, criando uma atmosfera de mistério. 

04 – Em sua opinião, por que o jornalista empregou uma linguagem incomum a textos jornalísticos em sua reportagem?
      Para, logo no início da reportagem, atrair a atenção do leitor, despertando sua curiosidade, de modo a fazer com que ele leia todo texto.

05 – Sobre a expressão em 11 de dezembro de 1972, responda às questões a seguir.
a)   Que circunstância ela expressa: causa, proporção ou tempo?
Expressa tempo.

b)   Como ela é classificada sintaticamente?
Adjunto adverbial.

06 – Agora, observe o seguinte período:
        “Enquanto as máquinas funcionavam, os dois tripulantes começaram a coletar pedras”.

a)   Divida esse período em oração principal e oração subordinada.
Oração principal: os dois tripulantes começaram a coletar pedras. Oração subordinada: Enquanto as máquinas funcionavam.

b)   Copie a frase de sentido equivalente a esse período.
·        Por causa daquilo, os dois tripulantes começaram a coletar pedras.
·        Naquele momento, os dois tripulantes começaram a coletar pedras.
·        Com certeza, os dois tripulantes começaram a coletar pedras.

c)   Qual é a função sintática do trecho grifado na frase da questão anterior, que possui sentido equivalente à oração subordinada?
Adjunto adverbial.

d)   Qual é a circunstância expressa pela oração subordinada: proporção, causa ou tempo?
A expressão é tempo.

e)   A palavra enquanto presente na oração subordinada é uma conjunção subordinativa. Que tipo de relação de sentido essa conjunção estabelece entre a oração subordinada e a oração principal?
A conjunção subordinativa estabelece uma circunstância de tempo; o tempo em que a ação da oração principal ocorre.