terça-feira, 14 de maio de 2019

EDITORIAL: INIMIGOS ÚTEIS - ULISSES CAPOZOLI - COM QUESTÕES GABARITADAS

EDITORIAL: Inimigos úteis
             
                         Ulisses Capozoli

  VÍRUS – CAPAZES DE INFECTAR seres vivos ou, mais recentemente, programas de computadores –, à primeira vista podem ser apenas mais um desses conceitos vagos que aparecem com frequência na mídia. Ao menos para a maioria das pessoas.
      Considerados mais atentamente, no entanto, vírus – que infectam organismos – são estruturas fascinantes.
        Vírus podem ser considerados vivos? A dúvida sobre essa classificação dá a medida da complexidade dessas estruturas que, no entanto, podem ter desempenhado papel fundamental na emergência das mais diferentes formas de vida. Os vírus teriam, por exemplo, esculpido o DNA, o chamado ácido da vida.
        Esta edição especial de SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL dedicada aos vírus, com relato do histórico da descoberta dessas estruturas, investigação sobre atuação e estratégias refinadas para multiplicação em organismos vegetais, animais e humanos, entre outras considerações, tem o objetivo de ampliar o horizonte dos leitores para as amplas potencialidades dessas estruturas. Vírus podem tanto produzir infecções letais como servir de instrumentos terapêuticos. No primeiro caso estão infecções como as da AIDS e, no segundo, estratégias que ampliam a frente de combate ao câncer.
        Independentemente do aspecto prático e imediato, no entanto, os vírus surpreendem de muitas maneiras e sugerem várias ordens de reflexões.
        A mutabilidade dessas estruturas, além de abordagens – que cabem perfeitamente no enfoque matemático da teoria dos jogos – certamente suscita considerações de natureza filosófica mais complexa, e questionamentos sobre a origem e natureza da vida. Cabem ainda outras avaliações como a adoção de estratégicas que, de um ponto de vista ético, interpretaríamos como recursos “trapaceiros”.
        Mas se há dúvida sobre vírus serem ou não estruturas vivas, faz sentido levar a sério a possibilidade de que possam desenvolver estratégias com recurso à trapaça?
        Numa consideração isolada – como sempre ocorre em interpretações não devidamente contextualizadas – pode parecer absurda. Levando-se em conta um conjunto de relatos, como os que integram esta adição especial, no entanto, essa interpretação ganha sentido novo e uma fascinante coerência.
        Para assegurar a qualidade desta edição tivemos a contribuição, na qualidade de consultores especiais, de dois médicos: o especialista em moléstias infecciosas, Francisco Oscar de Siqueira França, do Serviço de Moléstias Infecciosas e Parasitárias do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e do Hospital Vital Brasil, do Instituto Butantã. Ele partilhou uma leitura cuidadosa, acompanhada de recomendações, com a médica Noêmia Barbosa Carvalho, assistente do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias do HC.
        Com essa edição esperamos ajudar a minimizar a rarefação de trabalhos na área de virologia publicados em português e dirigidos a leitores não necessariamente especializados.
        Boa Leitura.
                         Ulisses Capozoli. Revista Scientific American Brasil.
N° 28, s/d. Edição especial.
Entendendo o texto:

01 – O editorial escrito por Ulisses Capozoli fornece algumas informações sobre o assunto geral das matérias publicadas nesse número da revista Scientific American Brasil?
      Sim. Ele indica que a revista trata do tema vírus.

02 – O editorial da Scientific American Brasil apresenta uma questão polêmica. Qual?
      Se os vírus são ou não seres vivos.

03 – Essa questão polêmica é respondida ao longo do editorial ou fica em aberto? Na sua opinião, por que isso ocorre?
      A questão fica em aberto, porque o assunto anunciado por ela será tema das matérias publicadas na revista.

04 – Segundo o texto, quais as características de um vírus?
      São seres “fascinantes”, e discute-se se são ou não seres vivos. São também responsáveis por provocar doenças em plantas e animais embora também sejam vetores de pesquisas para a cura de outras doenças e males que afetam os seres vivos.

05 – A forma como o autor do editorial descreve os vírus pode ser considerada mais objetiva ou mais subjetiva? Justifique sua opinião.
      Há uma mistura de impressões subjetivas e características objetivas dos vírus, evidenciada pelos adjetivos utilizados e pelas explicações a respeito dos vírus.

06 – Além do assunto “vírus”, que outras informações podem ser obtidas pela leitura do editorial?
      O editorial também alerta para o fato de não haver muitas publicações em português sobre vírus.

07 – Qual o objetivo da revista Scientific American Brasil que se pode depreender da leitura do seu editorial?
      Trata-se de uma publicação de caráter científico cujo objetivo, nesse texto, é apresentar estudos e pesquisas sobre o tema vírus ao público leitor brasileiro.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

MÚSICA(ATIVIDADES): FORA DE SI - ARNALDO ANTUNES - COM GABARITO

Música(Atividades): Fora de Si

                                  Arnaldo Antunes

Eu fico louco
Eu fico fora de si
Eu fica assim
Eu fica fora de mim

Eu fico um pouco
Depois eu saio daqui
Eu vai embora
Eu fico fora de si

Eu fico oco
Eu fica bem assim
Eu fico sem ninguém em mim

                                   Composição: Arnaldo Antunes

Entendendo a canção:

01 – A letra da canção, é relativamente simples quanto ao conteúdo, já que se organiza em torno de uma ideia central. Qual é essa ideia?
      A do estado de “loucura”, de insensatez em que se encontra o eu lírico.

02 – A canção se intitula “fora de si”.
a)   O que significam expressões como “ficar fora de si” ou “ficar fora de mim”?
Perder o controle, perder a razão ou o senso.

b)   Logo, o título da canção é coerente com seu assunto central?
Sim, pois o título reforça a ideia central de desvario.

03 – O texto causa estranhamento devido à falta de concordância entre algumas palavras e termos.
a)   Reescreva todos os versos em que se verificam desvios de concordância em relação à variedade padrão da língua, adequando-os a essa variedade.
“Eu fico fora de mim / Eu fico assim / eu fico fora de mim / eu vou embora / eu fico fora de mim / eu fico bem assim.”

b)   Identifique o tipo de problema de concordância verificado em cada um dos versos reescritos: concordância verbal (entre o verbo e o sujeito), concordância nominal (entre os pronomes) ou concordância verbal e nominal (entre o verbo e o sujeito e entre os pronomes).
1ª estrofe: eu fico fora de mim (conc. nominal), eu fico assim (conc. verbal), eu fico fora de mim (conc. verbal). 2ª estrofe: eu vou embora (conc. verbal), eu fico fora de mim (conc. verbal e nominal). 3ª estrofe: eu fico bem assim (conc. verbal).

04 – Como se nota, os desvios com relação à variedade padrão identificados nessa canção são intencionais, uma vez que quebram pressupostos básicos do uso corrente da língua, dominados até por falantes não letrados, como, por exemplo, em “eu fica assim”. Levando em conta que a forma de um texto geralmente está relacionada com seu conteúdo, responda: que papel tem a concordância ou a falta dela na construção do sentido global da canção?
      A falta de concordância reforça, no nível linguístico, a ideia de “loucura” de que trata a canção.

05 – Em todos os versos, o centro do discurso é a figura do eu lírico, identificado pelo pronome reto eu. Apesar disso, os verbos e pronomes se alternam entre a 1ª e a 3ª pessoa, sugerindo a presença de outra pessoa, talvez um interlocutor, não mencionada explicitamente no texto.
a)   Quem poderia ser essa pessoa?
Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Talvez a pessoa amada, ou alguém da intimidade do eu lírico.

b)   Levante hipóteses: que relação pode haver entre a falta de concordância do texto e o relacionamento entre o eu lírico e essa pessoa?
A ausência dessa pessoa ou a falta de entendimento com ela poderia ter provocado o estado de loucura do eu lírico, que já não consegue discernir o que é certo ou errado. E também: a falta de concordância linguística sugere a falta de sintonia entre o eu lírico e uma 3ª pessoa.

CONTO: NAS ÁGUAS DO TEMPO - MIA COUTO - COM QUESTÕES GABARITADAS

Conto: Nas águas do tempo
        
     Mia Couto

      Meu avô, nesses dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava, onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.
        — Mas vocês vão aonde?
        Era a aflição de minha mãe. O velho sorria. Os dentes, nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem.
        — Voltamos antes de um agorinha, respondia.
        Nem eu sabia o que ele perseguia. Peixe não era. Porque a rede ficava amolecendo o assento. Garantido era que, chegada a incerta hora, o dia já crepusculando, ele me segurava a mão e me puxava para a margem. A maneira como me apertava era a de um cego desbengalado. No entanto, era ele quem me conduzia, um passo à frente de mim. Eu me admirava da sua magreza direita, todo ele musculíneo. O avô era um homem em flagrante infância, sempre arrebatado pela novidade de viver.
        Entrávamos no barquinho, nossos pés pareciam bater na barriga de um tambor. A canoa solavanqueava, ensonada. Antes de partir, o velho se debruçava sobre um dos lados e recolhia uma aguinha com sua mão em concha. E eu lhe imitava. — Sempre em favor da água, nunca esqueça! Era sua advertência. Tirar água no sentido contrário ao da corrente pode trazer desgraça. Não se pode contrariar os espíritos que fluem. Depois viajávamos até ao grande lago onde nosso pequeno rio desaguava. Aquele era o lugar das interditas criaturas. Tudo o que ali se exibia, afinal, se inventava de existir. Pois, naquele lugar se perdia a fronteira entre água e terra. Naquelas inquietas calmarias, sobre as águas nenufarfalhudas, nós éramos os únicos que preponderávamos. Nosso barquito ficava ali, quieto, sonecando no suave embalo. O avô, calado, espiava as longínquas margens. Tudo em volta mergulhava em cacimbações, sombras feitas da própria luz, fosse ali a manhã eternamente ensonada. Ficávamos assim, como em reza, tão quietos que parecíamos perfeitos.
        De repente, meu avô se erguia no concho. Com o balanço quase o barco nos deitava fora. O velho, excitado, acenava. Tirava seu pano vermelho e agitava-o com decisão. A quem acenava ele? Talvez era a ninguém. Nunca, nem por instante, vislumbrei por ali alma deste ou de outro mundo. Mas o avô acenava seu pano.
        — Você não vê lá, na margem? Por trás do cacimbo?
        Eu não via. Mas ele insistia, desabotoando os nervos.
        — Não é lá. É láááá. Não vê o pano branco, a dançar-se?
        Para mim havia era a completa neblina e os receáveis aléns, onde o horizonte se perde. Meu velho, depois, perdia a miragem e se recolhia, encolhido no seu silêncio. E regressávamos, viajando sem companhia de palavra.
        Em casa, minha mãe nos recebia com azedura. E muito me proibia, nos próximos futuros. Não queria que fôssemos para o lago, temia as ameaças que ali moravam. Primeiro, se zangava com o avô, desconfiando dos seus não propósitos. Mas depois, já amolecida pela nossa chegada, ela ensaiava a brincadeira: — Ao menos vissem o namwetxo moha! Ainda ganhávamos vantagem de uma boa sorte... O namwetxo moha era o fantasma que surgia à noite, feito só de metades: um olho, uma perna, um braço. Nós éramos miúdos e saíamos, aventurosos, procurando o moha. Mas nunca nos foi visto tal monstro. Meu avô nos apoucava. Dizia ele que, ainda em juventude, se tinha entrevisto com o tal semifulano. Invenção dele, avisava minha mãe. Mas a nós, miudagens, nem nos passava desejo de duvidar.
        Certa vez, no lago proibido, eu e vovô aguardávamos o habitual surgimento dos ditos panos. Estávamos na margem onde os verdes se encaniçam, aflautinados. Dizem: o primeiro homem nasceu de uma dessas canas. O primeiro homem? Para mim não podia haver homem mais antigo que meu avô. Acontece que, dessa vez, me apeteceu espreitar os pântanos. Queria subir à margem, colocar pé em terra não firme.
        — Nunca! Nunca faça isso!
        O ar dele era de maiores gravidades. Eu jamais assistira a um semblante tão bravio em meu velho. Desculpei-me: que estava descendo do barco mas era só um pedacito de tempo. Mas ele ripostou:
        — Neste lugar, não há pedacitos. Todo o tempo, a partir daqui, são eternidades.
        Eu tinha um pé meio-fora do barco, procurando o fundo lodoso da margem. Decidi me equilibrar, busquei chão para assentar o pé. Sucedeu-me então que não encontrei nenhum fundo, minha perna descia engolida pelo abismo. O velho acorreu-me e me puxou. Mas a força que me sugava era maior que o nosso esforço. Com a agitação, o barco virou e fomos dar com as costas posteriores na água. Ficámos assim, lutando dentro do lago, agarrados às abas da canoa.
        De repente, meu avô retirou o seu pano do barco e começou a agitá-lo sobre a cabeça.
        — Cumprimenta também, você!
        Olhei a margem e não vi ninguém. Mas obedeci ao avô, acenando sem convicções. Então, deu-se o espantável: subitamente, deixámos de ser puxados para o fundo. O remoinho que nos abismava se desfez em imediata calmaria. Voltámos ao barco e respirámos os alívios gerais. Em silêncio, dividimos o trabalho do regresso. Ao amarrar o barco, o velho me pediu: — Não conte nada o que se passou. Nem a ninguém, ouviu?
        Nessa noite, ele me explicou suas escondidas razões. Meus ouvidos se arregalavam para lhe decifrar a voz rouca. Nem tudo entendi. No mais ou menos, ele falou assim:
        --- Nós temos olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para ver os sonhos. O que acontece, meu filho, é que quase todos estão cegos, deixaram de ver esses outros que nos visitam. Os outros? Sim, esses que nos acenam da outra margem. E assim lhes causamos uma total tristeza. Eu levo-lhe lá nos pântanos para que você aprenda a ver. Não posso ser o último a ser visitado pelos panos.
        — Me entende?
        Menti que sim. Na tarde seguinte, o avô me levou uma vez mais ao lago. Chegados à beira do poente ele ficou a espreitar. Mas o tempo passou em desabitual demora. O avô se inquietava, erguido na proa do barco, palma da mão apurando as vistas. Do outro lado, havia menos que ninguém. Desta vez, também o avô não via mais que a enevoada solidão dos pântanos. De súbito, ele interrompeu o nada:
        — Fique aqui!
        E saltou para a margem, me roubando o peito no susto. O avô pisava os interditos territórios? Sim, frente ao meu espanto, ele seguia em passo sabido. A canoa ficou balançando, em desequilibrismo com meu peso ímpar. Presenciei o velho a alonjar-se com a discrição de uma nuvem. Até que, entre a neblina, ele se declinou em sonho, na margem da miragem. Fiquei ali, com muito espanto, tremendo de um frio arrepioso. Me recordo de ver uma garça de enorme brancura atravessar o céu. Parecia uma seta trespassando os flancos da tarde, fazendo sangrar todo o firmamento. Foi então que deparei na margem, do outro lado do mundo, o pano branco.
        Pela primeira vez, eu coincidia com meu avô na visão do pano. Enquanto ainda me duvidava foi surgindo, mesmo ao lado da aparição, o aceno do pano vermelho do meu avô. Fiquei indeciso, barafundido. Então, lentamente, tirei a camisa e agitei-a nos ares. E vi: o vermelho do pano dele se branqueando, em desmaio de cor. Meus olhos se neblinaram até que se poentaram as visões.
        Enquanto remava um demorado regresso, me vinham à lembrança as velhas palavras de meu velho avô: a água e o tempo são irmãos gémeos, nascidos do mesmo ventre. E eu acabava de descobrir em mim um rio que não haveria nunca de morrer. A esse rio volto agora a conduzir meu filho, lhe ensinando a vislumbrar os brancos panos da outra margem.

     In: Tania Macêdo e Rita Chaves. Literaturas de língua portuguesa: marcos e marcas – Moçambique. São Paulo: Arte & Ciência, 2007. p. 136-40.

Entendendo o conto:

01 – Mia Couto é um escritor inventivo, que recria a linguagem, obtendo sentidos inusitados.
a)   Identifique no texto alguns neologismos, ou seja, palavras inventadas pelo autor.
Entre outras possibilidades: devagaroso, desabandonado, musculíneo, aflautinados, desabitual, desequilibrismo, arrepioso, barafundido.

b)   Você teve dificuldade para compreender o sentido desses neologismos? Por que você acha que isso acontece?
Resposta pessoal do aluno.

02 – O avô frequentemente navega com o menino próximo às margens do rio.
a)   O que ele pretende com isso?
Pretende ensinar o neto a ver os panos.

b)   Como o avô explica ao neto sua capacidade de ver “os panos”?
Explica que as pessoas em geral perderam a capacidade de olhar para dentro, como nos sonhos, e ver seres de uma outra dimensão, não material.

03 – As ações das personagens, somadas ao uso de expressões como “receáveis aléns”, “olhos que se abrem para dentro”, “solidão dos pântanos” e “interditos territórios”, entre outras, criam certa atmosfera no conto. Como é essa atmosfera?
      É uma atmosfera mágica, misteriosa, sobrenatural.

04 – Já quase no final do conto, o avô desce do barco e pisa “os interditos territórios”. Nesse momento, o neto consegue ver os panos na margem, inclusive o pano vermelho de seu avô, eu começa a mudar de cor.
a)   Interprete a mudança de cor do pano do avô.
Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Ela representa a morte do avô.

b)   O avô conseguiu atingir seu objetivo? Por quê?
De acordo com a resposta sugerida para a questão anterior, sim, pois o neto começa a ver os panos e, assim, a se comunicar com os “outros” da margem.

05 – O conto tem por título “Nas águas do tempo”. Segundo o avô, “a água e o tempo são irmãos gêmeos, nascidos do mesmo ventre”.
a)   Considerando o desfecho do conto, dê uma interpretação coerente à fase do avô.
As águas de um rio correm sempre, como o tempo. Não sentimos a mudança do rio, pois parece que ele está sempre igual; contudo, suas águas nunca são as mesmas. Assim também ocorre conosco em relação ao tempo, que passa ininterruptamente.

b)   O que representa o rio que o narrador, no último parágrafo do texto, diz ter dentro de si?
Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Talvez o conhecimento adquirido com o avô sobre os mistérios da vida e do tempo.

c)   Que relação existe entre a metáfora do rio e o ensinamento que o narrador transmite a seu filho?
Assim como as águas do rio estão sempre se renovando, o ensinamento que o narrador transmite ao filho também representa a renovação, o passar das gerações.

06 – Você diria que o texto apresenta um fundo filosófico? Por quê?
      Sim, pois ele promove uma reflexão sobre questões metafísicas, como vida e morte, passagem do tempo, razão de existir, vida depois da morte, etc.


POEMA: O GUARDADOR DE REBANHOS - ALBERTO CAEIRO - COM GABARITO

Poema: O GUARDADOR DE REBANHOS
             
           Alberto Caeiro

"Olá, guardador de rebanhos.
Aí à beira da estrada.
Que te diz o vento que passa?"
"Que é vento, e que passa.
E que já passou antes.
E que passará depois.


E a ti o que te diz?"
"Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram."
"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira.
E a mentira está em ti."

Entendendo o poema:    
    
01 – Alberto Caeiro era um dos heterônimos criado por Fernando Pessoa. De acordo com seu criador, Caeiro é o poeta da natureza e o mestre dos demais heterônimos. Qual elemento relacionado a natureza faz parte do poema?
      O vento.

02 – O poema tem a estrutura de um diálogo. Quem são os interlocutores desse diálogo?
      O Guardador de Rebanhos e alguém com quem ele se cruza no caminho.

03 – Que estrofes correspondem à fala de cada interlocutor?
      A primeira e a terceira estrofes correspondem a pessoa que encontra com o guardador de rebanhos e a segunda e a quarta estrofe correspondem ao Guardador de Rebanhos.

04 – De acordo com a leitura do poema, qual dos dois interlocutores se relaciona com o mundo concreto e não vê nada além do que aquilo que realmente se mostra?
      O Guardador de Rebanhos.

05 – Caeiro é o poeta das coisas reais, que são o que são e como são. Que verso do poema comprova essa afirmação?
     “O vento só fala do vento”.

06. De acordo com o conteúdo do poema, assinale V para verdadeiro e F para falso.
a. (V) Para o Guardador de Rebanhos a relação com a realidade (simbolizada pelo vento) passa por sentir apenas a realidade.
b. (F) Os pontos de vistas dos dois interlocutores são semelhantes.
c. (V) Para o interlocutor do Guardador de Rebanhos, a realidade (vento) é muito mais do que aquilo que se sente.
d. (F) Para o Guardador de Rebanhos, a realidade (vento) é porta aberta para a memória e a saudade.
e. (V) Para o Guardador de Rebanhos só existe a verdade do momento.



TEXTO: O VELHO DIÁLOGO DE ADÃO E EVA - CAPÍTULO LV - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

Texto: O velho diálogo de Adão e Eva – Capítulo LV
                        

          Machado de Assis

BRÁS CUBAS. . . . . . . . . . . . . . . . .
VIRGÍLIA. . . . . . . . . . . . . .
BRÁS CUBAS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

VIRGÍLIA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . !
BRÁS CUBAS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
VIRGÍLIA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

BRÁS CUBAS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
VIRGÍLIA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .?
BRÁS CUBAS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !
VIRGÍLIA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ?
BRÁS CUBAS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !
VIRGÍLIA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !


Brás Cubas: Oi, tudo bom?
Virgília: Tudo.
Brás Cubas: Quanto tempo que não a vejo. Senti saudades e vim lhe ver.
Virgília: Eu também senti saudades!
Brás Cubas: Lembrei-me da nossa juventude.
Virgília: Você se lembra de quando nos encontramos pela última vez na praça? Foi o dia mais feliz que eu tive em toda minha vida.
Brás Cubas: Queria voltar e recomeçar tudo.
Virgília: Quando aconteceu éramos jovens; hoje sou casada.
Brás Cubas: Mas nunca é tarde para recomeçar um amor tão puro como era o nosso! Você é a única pessoa em que eu penso! A minha vida só tem sentido se você estiver nela!
Virgília: Se me ama tanto, por que ficou longe tanto tempo?
Brás Cubas: Esqueça isso. Eu a amo!
Virgília: Eu sempre o amei e sempre irei amá-lo!

                   In: Memórias póstumas de Brás Cubas. Dom Casmurro.
São Paulo: Abril Cultural. 1978. p. 85.
Entendendo o texto:

01 – No texto duas personagens dialogam entre si e o conteúdo da conversa é sugerido por linhas pontilhadas e por sinais de pontuação. Ao todo, as personagens falam seis vezes cada uma, e sempre nesta disposição: Brás Cubas fala e Virgília responde:

Observe o tamanho das linhas pontilhadas, os sinais de pontuação empregados e levante hipóteses:
a)   O que possivelmente Brás Cubas disse a Virgília em sua primeira fala?
Ele lhe fez uma pergunta breve.

b)   O que sugere o tamanho da 2ª fala de Brás Cubas?
É uma frase mais desenvolvida que a anterior, o que leva a crer que Brás Cubas tenha explicado melhor o que disse anteriormente ou que tenha argumentado em defesa de seu ponto de vista.

c)   Compare as duas primeiras respostas de Virgília. Que diferença de sentido existe entre elas? Por que, possivelmente, se empregou o ponto de exclamação apenas na 2ª resposta de Virgília?
Na 1ª resposta, ela parece ter respondido de forma indiferente ou distante. Na 2ª, porém, ela dá maior ênfase ao que diz ou à defesa de seu ponto de vista.

02 – Os pontos de interrogação e de exclamação se alternam no texto, ora se apresentando na fala de uma, ora na fala de outra personagem. Na última fala de cada uma, entretanto, há uma coincidência quanto ao tamanho da linha pontilhada e quanto ao sinal de pontuação empregado.
a)   O que a alternância desses sinais de pontuação sugere quanto às ideias das personagens?
A falta de coincidência quanto ao emprego dos sinais de pontuação sugere a falta de coincidência no plano das ideias.

b)   O que a coincidência entre as duas últimas falas sugere?
Sugere que, finalmente, eles se compreendem, ou que concordam em seus pontos de vista ou em suas vontades.

03 – O título do texto é “O velho diálogo de dão e Eva”. O que esse título sugere em relação ao tipo de diálogo ocorrido entre Brás Cubas e Virgília? Por quê?
      Sugere um diálogo amoroso, o “velho diálogo” entre um homem e uma mulher.

04 – Nesse romance, Virgília é casada com a personagem Lobo Neves. Antes de ela se casar, Brás Cubas já mostrava interesse por ela. Entre eles, agora, começa a nascer um forte envolvimento emocional. Leia o final do capítulo que antecede o texto lido:

        “[...] o meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janela a fora e bateu as asas na direção da casa de Virgília. Aí achou ao peitoril de uma janela o pensamento de Virgília, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dois vadios ali postos, a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva.”

        Considerando esse contexto anterior, que sentido ganha a coincidência das falas finais das duas personagens no relacionamento que eventualmente possam ter?
      Elas fazem crer que, depois de resolverem alguns desacertos, tem início um relacionamento íntimo entre os dois.

05 – Reescreva o texto de Machado de Assis, substituindo as linhas pontilhadas por frases que tenham o mesmo sentido que você depreendeu do diálogo original. Terminando-o, leia-o para os colegas, comparando as produções.
      Resposta pessoal do aluno

sexta-feira, 10 de maio de 2019

POEMA: FÍLIS E AMOR - BOCAGE - COM GABARITO

Poema: Fílis e Amor
           
   Bocage

Num denso bosque
pouco trilhado,
e a termos crimes
Acomodado,

Por entre a rama
Fresca e sombria
do tenro arbusto
Que me encobria,

Vi sem aljava
Jazer Cupido
junto a Fílis,
À mãe fugido.


A mais brilhante
dele afastando
Dizia a Fílis
com riso brando:

" Mimosa Ninfa
Glória de amor,
De-me um beijinho,
por esta flor?"

"Sou criancinha,
não tenhas pejo",
Sorriu-se Fílis,
Dando-lhe um beijo.

Mas o travesso
logo outro pede
À simples ninfa
que lhe concede.

Que por matar-lhe
Doces desejos,
A cada instante
Repete os beijos.

Assim brincavam
Fílis e Amor,
Eis que o menino
Sempre traidor

Com a pequenina
Boca risonha
Lhe comunica
Sua Peçonha.

Descora Fílis,
e de repente
Solta um suspiro
D'Alma inocente.

Mal que o gemido
Férvido soa
O mau Cupido
com ela voa.

Ninguém, ó Ninfa
(Diz a voar)
Brinca comigo
sem suspirar.
              Manuel Maria Barbosa du Bocage. In: Poesia. Org.
Leodegário A. de Azevedo Filho. Rio de Janeiro, Agir, 1985.

Entendendo o poema:

01 – Bocage não estava interessado na mitologia por ela mesma. Como sempre ocorre nas obras do Arcadismo, nesta cançoneta os deuses são utilizados como um recurso expressivo. Esse encontro de Cupido com a ninfa Fílis constitui uma alegoria. Escreva um resumo do pequeno enredo em que se envolvem as personagens alegóricas do poema.
      Tendo fugido de Vênus, sua mãe, Cupido brinca com Fílis, num bosque. Conseguindo enganar a ninfa na troca de rosas por beijos, pretensamente inocentes, comunica-lhe o veneno do amor. Perdendo sua inocência, ela suspira de desejos.

02 – Numa alegoria, cada detalhe é importante para a concretização dos elementos abstratos. A paisagem descrita nas primeiras estrofes já possui um significado alegórico. Quais são as características do bosque que tornam adequado para os encontros amorosos?
      O bosque é “denso” e “pouco trilhado”, e por isso acostumado a “ternos crimes”.

03 – Cupido, traiçoeiramente, consegue se valer da ingenuidade de Fílis. Qual o argumento utilizado por Cupido para obter o primeiro beijo?
      Ele diz que Fílis não deve se envergonhar, porque ele é apenas uma criancinha.

04 – Podemos agora interpretar a alegoria, traduzindo seus elementos. O Cupido, por exemplo, representa o amor, que se insinua nas relações mais inocentes.
a)   O que Fílis representa?
Representa a mulher ingênua; ou a mulher que se julga invulnerável ao amor; a mulher que acredita poder brincar com o amor, sem se apaixonar.

b)   O que o bosque representa?
Representa o conjunto de circunstâncias que tornam a pessoa mais vulnerável ao amor: o isolamento, a solidão, etc.

c)   Qual é a “moral da história”, enunciado pelo próprio Cupido?
Ninguém brinca com o amor sem suspirar, isto é, sem sofrer.