quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CRÔNICA: COM O LIRÓ - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: COM O LIRÓ

            Lima Barreto

 

        Ultimamente só tenho nas minhas estrebarias um único animal: é a égua Scherazade. Antigamente, porém, isto é, há uns anos passados, havia nela, além dos animais de tiro, mais dois de sela: a Elisabeth e o Zadig. Scherazade é uma linda égua negra de meio sangue, com grandes olhos e porte altivo. Comprei-a ao conhecido criador e cronista esportivo Brioni Júnior por dez contos de reis, no que fiz bom negócio. Elisabeth era uma linda peça de um pelo alazão, liso e brilhante; era de um quarto de sangue. O Zadig não tinha sangue algum.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7v50aS8-8CIfE8M_lCLumLHdqr7zJtoEOopaojjQAcDmlzTGWikS9zSwqthGX-c1dB-Y49fshlx27BlBP_OyZZosOUlsz4vzc_edKVDuOu1jSfzAjelSqos78-fj6O56nEv9IUw0SYRVab7rtyrWTYa6dQGHdA-a0V_4J43RLi_JItDtj7Dn0qrDt_6M/s320/images.jpg


        Por causa deles, vim a conhecer o Liró, meu vizinho, funcionário público, também amador de animais; mas ao jeito da terra. Ele só gosta de animais nacionais – crioulos; e dessas nossas selas rebarbativas, cheias de pelegos e anteparos, e dos nossos arreios faiscantes de prata.

        Habitualmente, passeamos a cavalo, pela manhã, pelos arredores das nossas casas. Uma manhã destas brumosas e frias, saímos nós a dar uma volta nas nossas alimárias. Ele, no Caboclo – um “pampa” marchador que devia ser magnífico, se não estivesse ao lado da soberbia da minha Scherazade. Era uma manhã feia, úmida e nublada. O Rio, cheio de Sol e luz, é uma alegria; mas, como estava naquela manhã, é uma sepultura.

        Seguimos o nosso destino que era ir até a cachoeira dos Urubus, na Boca do Mato. O subúrbio, em geral, é feio; mas, a parte que entesta com a montanha, tem trechos surpreen­dentes. Fomos e íamos conversando. Eu lhe contava histó­rias de cavalos célebres, do famoso Bayard, do paladino Ro­lando, do Bucéfalo de Alexandre; do Rocinante de d. Quixote, etc., etc. Pareceu-me, entretanto, que ele não me ouvia com atenção a conversa. Perguntei-lhe:

        – Liró, em que pensas?

        Nós atravessamos um resto de capoeira em que as raras árvores eram enriquecidas de verdura pela folhagem dos cipós abundantes.

        Ao ouvir a minha pergunta, Liró sobressaltou-se e logo disse:

        – Nesse negócio de candidaturas.

        – Tens interesse em algum dos candidatos?

        – Nenhum.

        – Então porque pensas nesse desinteressante negócio?

        – Porque dizem que o novo presidente vai demitir em massa os funcionários públicos.

        – Estás doido, Liró! Ele não fará isso...

        – Porque?

        – Porque não há Estado sem um grande corpo de funcio­nários.

        Desde o Império Romano até o Britânico que se tem verificado que a existência do Estado supõe a de uma chusma de funcionários.      Ainda mais: o duque Audiffret-Pasquier disse até: “Morrem os impérios, nascem as repúblicas; mas as se­cretarias ficam”. Deve ser isto mais ou menos. O que, po­rém, ressalta do pensamento do duque, sejam quais forem as suas palavras, é essa capacidade da burocracia, em atravessar regimes diversos, com uma inalterabilidade que lhe dá o aspecto de um verdadeiro fenômeno natural.

        – Dizem também que ele quer acabar com a aposentadoria. E possível?

        – Liró: a aposentadoria é coisa constitucional. Para que ele acabasse com a aposentadoria, teria que violar a Constituição. O Senhor Bernardes, por mais capaz, não terá esse to­pete. Ele é mineiro e não mete mão em cumbuca. Irá para o Catete, se for; aparará mais os seus fraques, aumentará o número dos seus pince-nez e assinará decretos de... nomea­ções.

        – Irá mesmo? Ou será o Nilo?

        Ia dizer “não sei”, quando um porco, subitamente, atravessou na nossa frente, de um lado para outro da estrada.

        Nossos cavalos se espantaram. Liró foi ao chão; eu, porém, fiquei firme na sela.

        Depois que Liró recavalgou, eu lhe disse:

        – Vê tu como são as coisas. Montas muito melhor do que eu. Tua sela, à mexicana, é cheia de segurança no arção e no sant’antônio. Entretanto, tu foste ao chão e eu fiquei em cima da Scherazade. Como é isto?

        – Não sabes de uma coisa que o povo diz por aí: mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga.

Careta, Rio, 23-7-1921.

Entendendo a crônica:

01 – Como a crônica contrapõe o perfil do narrador ao de seu vizinho Liró no que diz respeito à montaria e aos hábitos de passeio?

      O narrador possui uma inclinação mais cosmopolita e literária, montando uma égua de meio-sangue negra (Scherazade) e citando montarias históricas e mitológicas ao longo do trajeto. Já Liró é retratado como um apreciador das tradições locais: é funcionário público, prefere cavalos crioulos nacionais (como seu pampa Caboclo) e utiliza selas rebarbativas ornamentadas com pelegos e prata ao estilo tradicional do país.

 

 

02 – Qual é o motivo da preocupação de Liró durante o passeio e de que forma o narrador busca tranquilizá-lo?

      Liró demonstra apreensão em relação às disputas presidenciais por conta do boato de que o futuro presidente demitiria os funcionários públicos em massa e extinguiria as aposentadorias. O narrador o tranquiliza recorrendo à história e à teoria política, citando a célebre máxima do Duque Audiffret-Pasquier de que as repúblicas e impérios passam, mas a burocracia das secretarias permanece inalterada como uma força permanente do Estado.

 

03 – De que maneira o narrador caracteriza a figura do candidato Arthur Bernardes e sua relação com a Constituição?

      O cronista ironiza o perfil cauteloso do político mineiro Arthur Bernardes, afirmando que ele jamais violaria a Constituição para extinguir a aposentadoria por ser um homem prudente que "não mete a mão em cumbuca". Com humor, o autor prevê que, caso assumisse o Palácio do Catete, Bernardes se limitaria a ajustar a vestimenta, usar seus pince-nez e assinar decretos ordinários de nomeação.

 

04 – Qual incidente interrompe a conversa política dos cavaleiros e quais foram as suas consequências imediatas?

      A discussão sobre a eleição entre Bernardes e Nilo Peçanha é bruscamente interrompida quando um porco cruza a estrada na frente dos animais. O susto faz com que os cavalos se espantem, arremessando Liró ao chão, enquanto o narrador consegue se manter firme sobre a sela de sua égua Scherazade.

 

05 – Qual é a ironia contida na queda de Liró e como ele justifica o acontecimento?

      A ironia reside no fato de Liró ser um cavaleiro muito mais experiente do que o narrador e utilizar uma sela no estilo mexicano, projetada para dar maior firmeza e segurança ao montador. Diante do paradoxo de ter caído mesmo sendo superior na arte da montaria, Liró recorre ao saber popular e encerra o debate citando o ditado: "mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga".

 

 

 

 

ENTREVISTA: ENCONTRO DE DUAS CULTURAS - FRAGMENTO - JEAN DE LÉRY - COM GABARITO

 Entrevista: Encontro de duas culturas – Fragmento

           Jean de Léry

        Jean de Léry (1534-1613), foi um missionário calvinista que viveu entre os Tupinambá do Rio de Janeiro no século XVI, na chamada França Antártica. Deixou-nos um importante relato de tudo o que viu e ouviu, sendo sua obra uma das principais fontes para o conhecimento dos Tupinambá do século XVI.

        Uma vez, um velho me perguntou:

        -- Por que vocês, mair e peró, vêm buscar lenha de tão longe para se aquecer? Vocês não têm madeira em sua terra?

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh3SeE7jTWPMihik-BQjz5M0jlXNxAdB3U4u4k0HXR64w3Cem0Dz0_KXpx2nGQGZ0oaEx5qXKTo_ij7hgbH6Qpk63-rS1K0xVGnkZ5H6yf3m_MtZ0yvRj0haRIkQIFefNsrSrDRxCB6V0rpmiYw-51KMYWrf5rA5xIDU66LtMLfSh52xTyxfxcjHtrAjxw/s320/images.jpg


        Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos. Como ele pensava, mas dela tirávamos tinta para tingir.

        -- E vocês precisam de muita? – perguntou o velho imediatamente.

        -- Sim – contestei-lhe –, pois em nosso país existem negociantes que possuem panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias que vocês nem imaginam e um só deles compra todo o pau-brasil que vocês têm, voltando com muitos navios carregados.

        -- Ah! – retrucou o selvagem –, mas esse homem tão rico, de que me fala, não morre?

        -- Sim – disse eu –, como os outros.

        -- E quando morre, para quem fica o que deixa?

        -- Para seus filhos, se ele tem, ou para seus irmãos ou parentes próximos – respondi.

        -- Na verdade – continuou o velho, que como se vê não era nenhum ignorante –, vejo que vocês, mair, são uns grandes loucos, pois atravessam o mar e sofrem grandes problemas, como dizem quando aqui chegam. E no fim trabalham tanto para amontoar riquezas para seus filhos e parentes. A terra que os alimentou não será capaz de alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos. Mas estamos certos de que, depois de nossa morte, a terra nos sustentou os sustentará também, e por isso descansamos sem maiores preocupações.

        [...]

Jean de Léry. Viagem à terra do Brasil. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 1961. p. 153-4. In: Benedito Prezia e Eduardo Hoornaert. Brasil indígena: 500 anos de resistência. São Paulo, FTD, 2000. p. 105.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 115.

Entendendo a entrevista:

01 – Qual era a suposição inicial do ancião Tupinambá a respeito do motivo pelo qual os europeus navegavam de tão longe para buscar o pau-brasil, e como Jean de Léry corrigiu esse pensamento?

      O ancião Tupinambá imaginava que os europeus realizavam a longa viagem para buscar madeira com a finalidade simples de se aquecerem no inverno (queimá-la). Jean de Léry o corrigiu explicando que a madeira não servia como combustível para o fogo, mas sim para extrair tinta com a qual tingiam tecidos e tecidos de luxo na Europa.

02 – Por que a lógica do acúmulo de bens para herança familiar, explicada por Jean de Léry, pareceu sem sentido e "loucura" para o ancião Tupinambá?

      Para o ancião, acumular grandes quantidades de bens a ponto de enfrentar viagens perigosas e sofrimento no mar não fazia sentido, uma vez que a riqueza acumulada não impede a morte do homem. Além disso, na visão do indígena, a terra é geradora contínua de recursos básicos de subsistência, sendo plenamente capaz de sustentar as gerações futuras sem a necessidade de acúmulo material prévio.

03 – Compare a relação com a terra e com os recursos naturais demonstrada pelo comerciante europeu e pela sociedade Tupinambá no texto.

      O comerciante europeu enxerga a terra e seus recursos (como o pau-brasil) através da ótica mercantilista e mercantil, focando na exploração em larga escala para gerar lucro, comércio e herança. Já o indígena Tupinambá tem uma visão comunitária e sustentável, vendo a terra como uma provedora natural que garante a sobrevivência diária no presente e no futuro, dispensando o desgaste e as ansiedades geradas pelo acúmulo ilimitado.

04 – No trecho "continuou o velho, que como se vê não era nenhum ignorante", o que a observação de Jean de Léry revela sobre a visão que os europeus da época costumavam ter sobre os povos originários?

      A frase revela o preconceito prévio e a visão etnocêntrica comum entre os europeus do século XVI, que frequentemente consideravam os povos indígenas incultos ou incapazes de raciocínio complexo. Ao ressaltar que o ancião "não era nenhum ignorante", Léry reconhece a profundidade crítica e a sabedoria filosófica do raciocínio indígena, surpreendendo-se com a coerência da argumentação do ancião.

05 – Como o ancião Tupinambá contrapõe a tranquilidade do modo de vida indígena à inquietação e aos sacrifícios do modo de vida europeu?

      O ancião argumenta que os europeus passam por grandes privações, perigos e trabalho exaustivo apenas para amontoar bens antes de morrer. Em contrapartida, os Tupinambá, embora amem igualmente seus pais, mães e filhos, vivem sem preocupações excessivas ("descansamos sem maiores preocupações") porque confiam que a terra continuará sustentando seus descendentes da mesma forma que os sustentou.

 

       

CRÔNICA: FEIRAS LIVRES - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: FEIRAS LIVRES

            Lima Barreto

 

        Não há dúvida alguma que a aproximação do procurador do consumidor é negócio proveitoso para os níqueis deste último.

        Foi com esta tenção que o senhor Dulfe instituiu as fei­ras livres que atualmente se realizam em várias partes deste Rio de Janeiro.

Fonte https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhFLmx-4T-DEQzq4UFqxW_6Yn1MmqqiGPQc1xV7RE3ntqZoWAuQNrfq3AMpsVJkHkFdmqvqsTWAV6zjD4QLIJa9NEYOMj1tqo0LYcsdumjiowAnlQiW34yeHSjHQlYaIlp85BDU0OlgBWxNthJr4kKvngLcdISCQKRs-fhNI1i3sfdHkTRdW-P5kzOTY-8/s320/images.jpg


        Nas minhas vizinhanças, isto é, no Méier, há uma delas. Lá fui ter. Não era muito cedo. Não me levanto às pri­meiras horas do dia, embora seja pobre. Fui às oito horas da manhã. Que lindeza de moças e senhoras!

        Nunca as vi tão lindas nem mesmo na Rua do Ouvidor que frequento desde os dezesseis anos quando me matriculei na Escola Politécnica.

        Naturalmente, um homem como eu, estando em feira livre e vendo tanta moça bonita, havia de ficar contente.

        Não aconteceu isto, porém, porque encontrei um ferrabrás que logo implicou comigo.

        Esse vagabundozinho dos subúrbios é um tipo lá daquelas bandas que a gente não sabe como vive. Toma uns ares de valentão e não faz nada.

        A vida corre-lhe fácil e, sem dificuldades e aborrecimentos, vai comendo o seu feijão e carne seca. Aparece um dia, entretanto, um outro tipo que não está disposto a res­peitar-lhe semelhante lordismo, logo ele se esvai. Foi o que aconteceu com este tal de Bragalhães que vivia com a função feminina de vender “bruxas” de pano e serragem.

        Fiquei admirado que essas feiras livres de gênero de primeira necessidade, isto é, arroz, feijão e carne seca, fossem também negócio de brinquedos, tal e qual as de Leipzig, mas me contive.

        Embora não tivesse exprimido o meu pensamento, esse tal de Bragalhães, compreendeu-me e me interpelou. Aí que foi a história! Nunca ando armado, nem gosto de armas; ele, porém, que é muito valente, tanto assim que tem prontuário na polícia, honra que não me cabe, puxou canhão quatrocen­tos e vinte e quis fazer um disparo. O tal de Bragalhães, porém, não o sabia disparar. Está aí um desastre.

        Neste momento chega o Tácito de Morais Wernes, tenente-coronel do Exército, acompanhado do seu cabo de peça, ca­pitão Bartolomeu Klier, e logo regulam o canhão, põem-no em posição e fazem o disparo. Bragalhães foi pelos ares...

Careta, Rio, 16-7-1921.

Entendendo a crônica:

01 – Qual foi o objetivo inicial da criação das feiras livres no Rio de Janeiro e como o narrador avalia essa medida?

      As feiras livres foram instituídas com a intenção de aproximar o produtor direto do consumidor, eliminando intermediários para baratear o custo dos alimentos. O narrador reconhece que a medida tinha um propósito financeiramente benéfico para o cidadão comum ("negócio proveitoso para os níqueis"), mencionando inclusive a feira do seu próprio bairro, o Méier.

 

02 – Que elemento chama a atenção do cronista ao chegar à feira do Méier por volta das oito horas da manhã?

      O narrador fica impressionado com a beleza das moças e senhoras que frequentavam a feira. Ele chega a comparar a presença feminina do local com a da tradicional Rua do Ouvidor — ponto de encontro nobre da cidade que ele frequentava desde jovem —, afirmando que nunca as tinha visto tão lindas.

 

03 – Como o autor caracteriza o tipo suburbano denominado "Bragalhães" e a sua ocupação na feira?

      Bragalhães é caracterizado como um "ferrabrás" e "vagabundozinho dos subúrbios": um sujeito sem ocupação clara que posava de valentão, vivendo sem grandes esforços e ostentando um falso "lordismo". Na feira, ele exercia uma atividade vista pelo autor como curiosa para o ambiente: a venda de "bruxas" (bonecas) de pano e serragem.

 

04 – De que maneira o texto faz transição do tom realista e cotidiano para o absurdo surreal no conflito com o feirante?

      A narrativa abandona o registro do cotidiano urbano e ganha contornos de sátira nonsense quando o conflito interpessoal escala bruscamente. Em vez de uma faca ou navalha (comuns na época), o valentão puxa um "canhão quatrocentos e vinte" para atacar o cronista. O absurdo se completa com o feirante não sabendo operar a própria artilharia pesada em meio aos feijões e brinquedos.

 

05 – Como se resolve o confronto entre o narrador e o feirante no desfecho da crônica?

      A contenda se encerra com a chegada repentina do tenente-coronel Tácito de Morais Wernes e de seu cabo de peça, o capitão Bartolomeu Klier. Os militares assumem o comando do armamento, regulam a posição do canhão e efetuam o disparo contra Bragalhães, fazendo o falso valentão "ir pelos ares".

 

ARTIGO DE OPINIÃO: OS FALSÁRIOS QUE ENGANAM A CIÊNCIA - FRAGMENTO - ANA SANTA CRUZ - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Os falsários que enganam a ciência – Fragmento

        Ana Santa Cruz

        O maior vexame para um cientista é reconhecer ter sido engabelado por uma fraude. Estão nessa situação os paleontólogos Xing Xu, do Instituto de Paleontologia Vertebrada e Paleoantropologia de Pequim, e Philip Currie, do Museu de Paleontologia de Alberta, no Canadá. Há duas semanas, a prestigiada revista científica inglesa Nature demonstrou de modo categórico que ambos fizeram papel de bobo, Xing e Currie são autores da descrição de um dos fósseis mais sensacionais já descobertos, o Archaeoraptor liaoningensis. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgE_v966xWiHoDCQJqGHi_sKE8YdqUdns5f8YSbIgHaSGIvdfVTCKo1aFF_3FWdhFoiqgimHgMruYoQ5-PYDnxnbidRVwSqVP4fcJW9l_GmqmBY6YpfKvRO77XrksyL60a1sUCtXQjhUi9sDdLQ2wtTgNqklCA3lG72P6708gFFoZCIAUjeGBwmeduZRc0/s320/images.jpg


Os ossos comprovariam nada menos que os pássaros atuais realmente descendem dos dinossauros. A Nature demonstrou que, longe de ser o avô dos passarinhos, o objeto de estudo é apenas uma peça forjada por vigaristas vulgares. A revelação não só carbonizou a reputação dos dois paleontólogos como também chamuscou outra sólida instituição do mundo da ciência, a revista americana National Geographic, da centenária National Geographic Society, cuja versão em português é produzida pela Editora Abril. Há pouco mais de um ano, a National Geographic colocou na capa uma recriação artística do animal e deu-lhe crédito como o elo perdido entre répteis e aves.

        A fraude do Archaeoraptor é exemplar de como cientistas sérios e publicações respeitáveis podem se enganados por espertalhões no competitivo universo da paleontologia. O autor do estudo publicado na Nature, o especialista Timothy Rowe, da Universidade do Texas, submeteu o fóssil a uma tomografia computadorizada e provou que a teoria do elo perdido dinossauro-ave não passa de um quebra-cabeça de 88 peças montadas por agricultores chineses co pedaços de fósseis variados. [...]

Ana Santa Cruz. Revista Veja. São Paulo, Editora Abril, 11 abril 2001. p. 112.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 64.

Entendendo o artigo:

01 – Qual foi a principal descoberta/revelação apresentada pela revista Nature e de que forma ela impactou a comunidade científica citada no texto?

      A revista Nature revelou de forma categórica que o fóssil Archaeoraptor liaoningensis — apontado como o "elo perdido" que comprovaria que as aves descendem dos dinossauros — era, na verdade, uma fraude. O impacto dessa revelação foi devastador: comprometeu gravemente a reputação dos paleontólogos Xing Xu e Philip Currie, autores do estudo original, e abalou a credibilidade da prestigiada revista National Geographic, que havia destacado o fóssil em sua capa e dado crédito à teoria antes de sua comprovação definitiva.

02 – Como a fraude do fóssil Archaeoraptor liaoningensis foi fisicamente construída e posteriormente desmascarada?

      O fóssil falso foi confeccionado por agricultores chineses, que montaram uma espécie de "quebra-cabeça" composto por 88 peças de fragmentos de fósseis variados. A fraude foi desmascarada pelo especialista Timothy Rowe, da Universidade do Texas, que submeteu a peça a uma análise detalhada por meio de tomografia computadorizada, provando a montagem artificial do objeto.

03 – No trecho "A revelação não só carbonizou a reputação dos dois paleontólogos como também chamuscou outra sólida instituição do mundo da ciência...", a autora utiliza figuras de linguagem (metáforas). Explique o sentido atribuído aos termos "carbonizou" e "chamuscou" no contexto.

      A autora utiliza metaforicamente termos ligados ao fogo para expressar graus de danos às reponsabilidades/reputações. O verbo "carbonizou" indica uma destruição profunda ou quase total, aplicada à reputação dos dois paleontólogos que assinaram o estudo falso. Já o termo "chamuscou" indica um dano superficial ou parcial, mas ainda assim visível e embaraçoso, aplicado à revista National Geographic, que, embora atingida em sua credibilidade, não teve sua imagem totalmente destruída como a dos pesquisadores.

04 – Qual é a tese principal que a autora busca defender ao apresentar a história do Archaeoraptor e quais elementos tornam esse universo propício a esse tipo de acontecimento?

      A tese da autora é a de que até mesmo cientistas sérios e veículos de comunicação altamente respeitáveis estão suscetíveis a cair em fraudes orquestradas por espertalhões ou vigaristas. Segundo o texto, esse cenário é favorecido pelo ambiente competitivo do universo da paleontologia, onde a busca constante por descobertas sensacionais (como o "elo perdido") pode cegar a análise rigorosa em favor do ineditismo.

05 – Aponte a crítica implícita ou explícita que o texto faz ao papel da imprensa especializada — representada no texto pela revista National Geographic — no tratamento de descobertas científicas.

      O texto critica o apressamento da imprensa especializada em divulgar descobertas de forma sensacionalista antes da devida validação e checagem pela comunidade científica rigorosa. A National Geographic colocou uma recriação do fóssil na capa e deu-lhe crédito como "elo perdido" baseando-se no apelo visual e no impacto da notícia, assumindo o risco de chancelar uma fraude e comprometendo sua própria credibilidade institucional.

 

POESIA: EU VI - MARIA DINORAH - COM GABARITO

 Poesia: Eu vi

         Maria Dinorah

Eu vi

a crina do vento

no verde da mata

virando lamento.

 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh1RfpkUp3bLJTQEe230E3l1vHRIpQ1SqUKnasYaX7sT6ZNn9QgYzah96h2I7rtlGQO13thiZAI5RhdFNI-bKDEocN9gJjbiOvIAaLKeN6RQsfBzvtjMYqrRJnJ48S104BtVkYPdjtXSXpFnk3TZgBNOfJLTgYSi4NVuS26dWMbjSR-gk1rZMtkbeLlCjY/s320/images.jpg

Eu vi

a chama assassina

queimando essa mata,

matando essa crina.

 

Eu vi,

não quero mais ver,

o verde da crina

do vento a morrer!

Maria Dinorah. Ver de ver. São Paulo, FTD, 1992. p. 6.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 126.

Entendendo a poesia:

01 – O que simboliza a metáfora "a crina do vento" na primeira estrofe e como ela se relaciona com o ambiente natural?

      A expressão "crina do vento" é uma metáfora poética que personifica o vento como um animal livre e altivo (como um cavalo) correndo entre as árvores. Essa imagem simboliza a força, o movimento e a vida que habitam a floresta preservada. O movimento do vento nas folhas sugere harmonia e liberdade, elementos que caracterizam a natureza em seu estado intocado.

02 – Como o tom do poema se transforma da primeira para a segunda estrofe e qual evento causa essa mudança?

      O tom do poema passa da contemplação serena da natureza para a dor, a indignação e a denúncia. A causa dessa transformação é a chegada do incêndio florestal, sintetizado na expressão "chama assassina". A queimada destrói a mata e "mata essa crina", interrompendo a harmonia anterior e transformando o sopro da floresta em um lamento de morte.

03 – De que maneira a repetição do verso "Eu vi" constrói o sentido e a intensidade do poema?

      A repetição do verso "Eu vi" funciona como uma anáfora que confere ao eu lírico o papel de testemunha ocular da tragédia ambiental. Essa reiteração reforça a veracidade dos fatos observados e grada a emoção do texto: primeiro, a visão da beleza; em seguida, a visão do crime e da destruição; por fim, a dor do impacto visual que leva ao desejo de não mais presenciar a devastação ("não quero mais ver").

04 – Qual é a crítica social e ambiental presente na caracterização do fogo como uma "chama assassina"?

      Ao qualificar a chama como "assassina", a poetisa humaniza o ato de destruição, atribuindo ao fogo um caráter criminoso e cruel. Isso direciona uma crítica explícita às queimadas (frequentemente provocadas pela ação humana irresponsável), denunciando o fogo não apenas como um elemento natural, mas como um agente de morte que destrói a flora, a fauna e a vida do ecossistema.

05 – Qual é o apelo final do eu lírico no encerramento da poesia ao afirmar "não quero mais ver / o verde da crina / do vento a morrer!"?

      O encerramento expressa um sentimento de revolta, luto e recusa diante da impunidade da degradação ambiental. Ao declarar que não quer mais ver a morte da natureza, o eu lírico faz um apelo emocionado à conscientização e à preservação da vida. Trata-se de um grito de basta contra a destruição das florestas, ressaltando o sofrimento de presenciar o fim da beleza e da biodiversidade do planeta.

 

CRÔNICA: A PESCARIA - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: A PESCARIA

            Lima Barreto

 

        O Jorge era, apesar de boêmio, um bom chefe de família. A sua mulher que lhe sabia cavalheiro e bom marido não se importava absolutamente com as suas extravagâncias. Eles viviam na maior paz e harmonia. Chegasse ele às dez, às onze ou às quatro horas da madrugada, a recepção era a mais cordial possível.

        Um dia pela semana santa, isto é, na quinta-feira da Paixão, Jorge chegou em casa e disse à mulher:

        – Eugênia, amanhã vou pescar e você me acorde cedo. Da. Eugênia recebeu a recomendação com todo o cari­nho e, no dia seguinte, logo pela manhã, pela madrugada, despertou o marido.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhnxOi9yoAkhSpearxGwqfXwI_QfkQbLI92s_NwY-ZODGbqiYZr0Gx62rsNTOnGH38IWvLb4OI0veKY2XL5WeG61G-C40x9uw4JV12DOLDsALi1twYCumIIvpo3DqOMUZsV7BOFVqa9aaoH3CaHcJU1kmHdBQPUTIY3m3sh-NiXRZ20RW3_t-pvtywTX3A/s320/images.jpg 


        Jorge saiu lépido e contente com o prazer que ia dar à cara-metade.

        Em chegando ao primeiro botequim, porém, abancou e pôs-se a beber. Comer e beber, a questão é começar; e ele tinha começado e continuou.

        Quando chegou aí pelo meio dia, lembrou-se da pescaria que tinha prometido à mulher.

        – Como havia de ser? pensou ele de si para si.

        A canoa e os companheiros já deviam ter partido, e precisava levar os peixes.

        Entrou em uma confeitaria e comprou camarões, postas de peixe, siris, ostras, etc.

        Tomou o bonde e foi para casa. Entregou os embrulhos à mulher e foi dormir, tão cansado estava da pescaria. Às cinco horas, da. Eugênia veio-lhe despertar:

        – Jorge! Jorge! Vem jantar.

        Ele ergueu-se e foi para a sala de refeições. Quando lá chegou e viu aqueles primores de confeitaria, perguntou à mulher:

        – Que diabo é isso? Estamos em piquenique? A mulher acudiu:

        – Isto é a pescaria que tu fizeste!

Careta, Rio, 13-8-1921.

Entendendo a crônica:

01 – Como é caracterizada a relação entre o protagonista Jorge e sua esposa, Da. Eugênia, no início da crônica?

      A relação do casal é descrita como harmoniosa, pautada por paz e cordialidade. Apesar de Jorge ter um estilo de vida boêmio e cometer certas extravagâncias, a esposa o enxerga como um bom marido e um homem respeitável. Por essa razão, ela não se incomoda com os horários em que ele chega em casa, acolhendo-o sempre com carinho.

 

02 – Qual foi o compromisso assumido por Jorge na véspera da Sexta-Feira da Paixão e de que maneira sua esposa o auxiliou?

      Jorge prometeu à esposa que iria pescar na Sexta-Feira da Paixão e pediu a ela que o acordasse bem cedo. Da. Eugênia atendeu prontamente ao pedido e o despertou logo pela madrugada para que ele pudesse aproveitar a pescaria planejada.

 

03 – O que desviou Jorge de seu objetivo original ao sair de casa para pescar?

      Ao sair de casa, Jorge parou no primeiro botequim que encontrou e começou a beber. O hábito de beber e comer acabou se prolongando ao longo de toda a manhã, fazendo com que ele se distraísse, perdesse o horário combinado com os companheiros e não fosse à pescaria.

 

04 – Qual foi a estratégia utilizada por Jorge para tentar disfarçar seu fracasso e não decepcionar a esposa?

      Percebendo que a canoa já havia partido e que precisava retornar com o resultado da pescaria, Jorge entrou em uma confeitaria por volta do meio-dia. Ele comprou diversos frutos do mar já prontos — como camarões, siris, ostras e postas de peixe —, empacotou tudo e levou para casa como se fossem o fruto do seu trabalho na pesca.

 

05 – Em que consiste o tom cômico do desfecho da crônica durante o jantar do casal?

      O tom cômico surge no momento em que Jorge acorda do sono do falso cansaço e, ao se deparar com a mesa posta repleta de pratos elaborados de confeitaria, esquece a própria mentira, e pergunta surpreso se estavam em um piquenique. A esposa, revelando o absurdo da farsa, responde ironicamente que aquilo era o resultado da pescaria que ele havia feito.

 

 

 

CRÔNICA: É UMA PENA! FLÁVIO DE SOUZA - COM GABARITO

 Crônica: É uma pena!

           Flavio de Souza

        Meu pai, que se chama Claudio de Souza, adora livros. Não foi à toa que ele trabalhou com livros, revistas e jornais a vida toda, começando antes mesmo de se formar em Advocacia. Na verdade, ele ainda trabalha com letras, palavras, parágrafos, capítulos, etecétera.

         Minha mãe, que se chama Therezinha Oliveira de Souza, foi professora de 1º grau e pré-escola. Ela também adora livros. Eu não preciso pensar muito no que dar de presente no dia das mães e dos pais, aniversários e Natal.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLyoaDIDQ-1wNgPVhwSb2M7PlEAChJDrXbP5VzdGQqAhv7TV7dJF4hkYBWyCwhvKt2NqMlaI4l-3JAyWiWe-qG419Bvv92mfgQwWw-oL2C1QExEMVp607kqKN4ICefhGooYJkejkC3bKLc_ZSaJvbsfjtIJQfTgfhQFq_CruCz9nhROpjSps4cR9GVKn0/s320/images.jpg


        Minha mãe adora livros. Mas meu pai é fanático. Sempre foi. As casas e o apartamento onde passei minha infância e adolescência sempre foram cheios de livros e revistas. E o seu Claudio usou um método bem maluco para despertar o gosto por livros em seus quatro filhos. Ele colocava livros infantis, alguns importados, todos muito bonitos, em nossos berços. Antes mesmo de aprender a andar, eu já tina páginas com letras e ilustrações ao alcance das minhas mãozinhas. E, antes mesmo de aprender a falar, eu já picava e mastigava livros. A dona Therezinha ficava com os cabelos em pé ao ver livros lindos, que deviam não ter sido comprados a preço de banana, sendo destruídos. Mas o seu Claudio ria. Ele sabia o que estava fazendo.

        Muita gente tem o costume, para não dizer a mania, de ir ao banheiro com uma “leitura”. Eu sou uma dessas pessoas. eu não consigo me “concentrar” se não estiver lendo alguma coisa. Esse deve ser um costume da minha família, porque desde muito pequeno eu me sentava no “troninho” com um livro ilustrado ou um gibi, que era como as pessoas chamavam as revistas de histórias em quadrinhos.

        Um dia desses, eu já estava sentado no troninho e me dei conta de que estava sem leitura. Berrei para minha mãe ou uma das minhas irmãs ouvirem:

        -- Alguém traz um livro pra eu ler?

        Eu não sabia ler, eu era bem pequeno. Ler, para mim, nessa época, era olhar as figuras. Alguém muito paciente me levou um livro sem figuras e saiu do banheiro. Não demorou muito para eu berrar de novo, reclamando:

        -- Mas esse livro é em inglês!

Flavio de Souza. É uma pena!: aventuras de um roteirista versátil. São Paulo, Atual, 1996. p. 6.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 165.

Entendendo a crônica:

01 – Qual foi o método singular adotado por Claudio de Souza para despertar o interesse de seus filhos pela leitura e como seus pais reagem de formas opostas a essa atitude?

      O pai colocava livros infantis ilustrados (alguns inclusive importados) diretamente nos berços dos filhos antes mesmo de eles aprenderem a andar ou falar. Enquanto a mãe, dona Therezinha, ficava desesperada ao ver livros bonitos e caros sendo picados e mastigados, o pai encarava a situação com risos e tranquilidade, pois confiava que esse contato físico e sensorial estimularia o gosto pela leitura no futuro.

02 – Como as profissões dos pais do narrador influenciaram o ambiente de formação cultural da família durante a infância de Flavio de Souza?

      O pai sempre trabalhou com publicações (letras, palavras, jornais e livros), e a mãe foi professora de pré-escola e do 1º grau. Essa forte ligação profissional com o universo educacional e editorial fez com que as residências da família fossem repletas de livros e revistas, criando um ambiente altamente propício ao hábito de ler e simplificando até a escolha de presentes em datas comemorativas.

03 – No contexto da crônica, o que o ato de "ler" significava para o narrador quando ele era muito pequeno?

      Como ainda não sabia decodificar as palavras escritas, para o narrador na primeira infância "ler" significava observar as ilustrações e figuras presentes nos gibis e nos livros infantis.

04 – Qual é o elemento cômico (humorístico) presente no encerramento do fragmento da crônica?

      O humor reside na contradição da queixa do garoto: embora não soubesse ler nem em português — utilizando apenas as imagens para interpretar o livro —, ele reclama aos berros de ter recebido um livro sem figuras afirmando que o texto estava "em inglês", usando o idioma estrangeiro como pretexto para a sua incapacidade de entender o livro sem ilustrações.

05 – O autor menciona o hábito de levar materiais de leitura para o banheiro. De que forma esse costume se relaciona com as tradições de sua família?

      O hábito de levar livros ou gibis ao banheiro (ou "troninho") desde a infância reflete o uso constante da leitura no cotidiano familiar. Para o narrador, a leitura tornou-se uma condição necessária até para a concentração em momentos banais do dia a dia, evidenciando a presença ostensiva dos livros em todos os espaços da casa.

 

CRÔNICA: UM DESAFIO HISTÓRICO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: UM DESAFIO HISTÓRICO

           Lima Barreto

 

        Na Paraíba do Norte, quando era do norte, pois acabaram com a do sul, houve um “desafio” que se tornou notável, porquanto nele tomaram parte personagens que hoje são célebres. O caso se passou entre o senhor Epitácio Pessoa, atual presidente da república, e o senhor Pelino Guedes, poeta extraordinário das Trovas do Sertão e diretor-geral da Secretaria da Justiça, presentemente aposentado.

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj1znCt0zSvoxQgwAMqeD_-RGf21DJR8WpRlxmSA5130pGPpg2KmxjVLg6GAt1p4n-THF7e4eneLt388B-99OX9UNnpPSDGPiz301ZPP7LKNkW1BciZpZko02vx3ciUk8yoglXWpIdKzhb5TgBVoLqOI2YQBAmINlLzH4nuYtADyFOq3TnVVY08HIKlDs0/s320/images.jpg

        Todos os dois tinham amor por uma cabocla cheirosa que nem a flor do manacá; mas ao que parece ela não se impor­tava com nenhum deles e tinha uma grande admiração por um “saveirista” da vizinhança.

        Epitácio começou:

        Você que carrega o saco

        Deste moço decidido

        Diga-me no fim da festa

        Quem fica de mal partido

        Pelino, à vista disso, quis coçar o bigode e a cabeleira, mas quando ia fazer tal coisa, lembrou-se da Negrita e escondeu o gesto, pensando na resposta que foi esta:

        Quem fica de mal partido?

        Eu vou já lhe responder

        Que no fim deste governo

        Eu sei o que vou fazer.

        Epitácio, então, ficou meio engasgado e, poucos minutos depois, respondeu ao Pelino das barbas de tinta:

        Faço o que me der na telha

        Pois seja lá como for

        No fim deste governo

        Não serás governador.

        Epitácio, olhando para a Rita da Anunciação, tomou-se de entusiasmo e vociferou os seguintes versos:

        Não serás governador

        Só mesmo se não quiser.

        Que a força deste manata

        Você já sabe qual é.

        Pelino, vendo que a Rita tinha ficado impressionada com a resposta, esquentou-se e, com todo o ímpeto, desafiou:

        Eu conheço a sua força

        Sei a força que você tem

        Mas eu cá não tenho medo

        Nem de você, nem de ninguém.

        Epitácio, apesar de pequenino, cresceu e gritou, fora do tom do fado:

        Olhe o que você está falando

        Caboclo! você não me atenta!

        Nasci eu em Caxangá

        E tenho cabelo na venta.

        Pelino, com a ousadia inesperada de Epitácio, perdeu um pouco da tintura das barbas, e, quase esbravejando, retrucou:

        Nascesse aqui ou ali

        Ou mesmo no ôco do pau

        Quando estou com a razão

        Sou pior que bicho mau.

        Mas Pessoa, que é hoje presidente, esqueceu-se da sua célebre “agravante da inundação”, e quis fazer uma desgraça verbal, destemperando na quadra. abaixo:

        Você vai ver com quantos paus

        Fabrica-se uma canoa

        Então para o seu governo

        Tome no alto da coroa.

        O célebre promotor da inundação, atual presidente desta bodega, agrediu o seu contendor; mas nesse meio tempo, a cheirosa criatura, Rita da Anunciação, a cabocla, interveio, en­quanto uma autoridade policial aparecia.

        Inteirou-se do caso, soube dos versos e disse simplesmente:

        – Mas não são de nenhum deles. Conheço o autor... Rita da Anunciação, que tinha sido objeto de tão falso pugilato, não se pôde conter diante de semelhante desfaçatez e exclamou com desdém:

        – Ora bolas!

Dom Quixote, Rio, 15-10-1919.

Entendendo a crônica:

01 – Quem são os dois contendores que protagonizam o desafio poético retratado no texto e quais posições ocupavam no momento histórico citado pelo cronista?

      Os dois contendores são o senhor Epitácio Pessoa, que na época de publicação da crônica ocupava o cargo de presidente da República, e o senhor Pelino Guedes, apresentado como poeta (autor de Trovas do Sertão) e diretor-geral da Secretaria da Justiça, na ocasião aposentado.

 

02 – Qual é a motivação central da disputa entre os dois homens e por quem a mulher disputada realmente demonstrava afeição?

      A disputa foi motivada pelo interesse amoroso de ambos por uma mesma mulher, a cabocla Rita da Anunciação. No entanto, o texto revela que a jovem não se importava com nenhum dos dois e nutria uma grande admiração por um "saveirista" da vizinhança.

 

03 – De que maneira as posições de poder e autoridade política são utilizadas como argumento de intimidação durante a peleja de versos?

      Durante o duelo em versos, o poder político e a autoridade estatal são usados abertamente como ameaças interpessoais. Epitácio Pessoa faz valer seu prestígio ao ameaçar que Pelino não seria governador ("que a força deste manata você já sabe qual é"), enquanto Pelino provoca-o questionando o que faria ao fim daquele governo e afirmando não ter medo do poder de ninguém.

 

04 – Como a fisionomia e os gestos de Pelino Guedes são ridicularizados pelo narrador ao longo do confronto?

      Lima Barreto utiliza um tom satírico para descrever as reações físicas de Pelino. O autor menciona o cuidado de Pelino com sua aparência ao pensar na "Negrita" para esconder um gesto de coçar a cabeça, ironiza o uso de tintura em suas barbas ("Pelino das barbas de tinta") e ridiculariza o seu nervosismo diante das ameaças do rival, dizendo que o poeta "perdeu um pouco da tintura das barbas".

 

05 – Que expressão popular o personagem Epitácio Pessoa utiliza para afirmar sua valentia e origens nordestinas durante o desafio?

      Epitácio eleva o tom do desafio ao proclamar sua origem na localidade de Caxangá e recorrer ao dito popular "tenho cabelo na venta" para afirmar sua brabeza e exigir respeito do oponente.

 

06 – Como o embate poético descamba para a agressão física no final e qual intervenção interrompe o conflito?

      Perdendo a métrica e a compostura na última quadra, Epitácio Pessoa parte para a agressão verbal e física contra seu contendor. A briga é interrompida pela intervenção da própria Rita da Anunciação e pela chegada de uma autoridade policial ao local.

 

07 – Qual é a revelação feita pela autoridade policial sobre a autoria dos versos e qual a reação final de Rita da Anunciação?

      A autoridade policial, ao tomar conhecimento do caso e das trovas recitadas, afirma simplesmente que os versos não eram de autoria de nenhum dos dois contendores, pois conhecia o verdadeiro autor. Diante do ridículo da situação e de um combate baseado em plagiarismo alheio, Rita da Anunciação expressa seu profundo desdém exclamando: "Ora bolas!".