quarta-feira, 2 de abril de 2025

CONTO: O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS - FRAGMENTO - JOSÉ SARAMAGO - COM GABARITO

 Conto: O ano da morte de Ricardo Reis – Fragmento

           José Saramago

        Neste romance, definitivamente pós-moderno, Saramago vale-se do realismo fantástico para aproximar Fernando Pessoa do seu heterônimo Ricardo Reis. Este retorna a Lisboa, em 29 de dezembro de 1935, após longo exílio no Rio de Janeiro, motivado por um telegrama informando a morte de Fernando Pessoa a 30 de novembro do mesmo ano (data autêntica da morte do poeta). Saramago apropria-se da ficção de Pessoa, que traçava perfis biográficos dos seus heterônimos, indicava as datas de nascimento, mas omitia os óbitos. Assim, a imaginação do escritor se intromete no imaginário do poeta e arroga-se o direito de fixar a data da morte de um deles, Ricardo Reis, que parte com o Pessoa “fantasma”, oito meses depois, para o destino dos mortos. Fundindo ficção e realidade, Saramago seleciona o noticiário jornalístico da época em constantes referências ao contexto histórico-social salazarista. Também faz reviver Lídia, a musa das odes de Ricardo (veja o poema anterior), empregada do hotel onde se hospeda em Lisboa, a quem ama fisicamente, embora, por ser uma mulher do povo, não possa ter a plenitude do seu amor, já que não corresponde ao ideal de platonismo amoroso e à mulher espiritualizada das suas odes.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjXkNDP4Ci_jHQ9FnPSGmcpwe0JjOKi1lm0HnrkqiPbpsmnz0ZfQkVtQG5ULdubayXeotlwPZLpEZtBPEmDdIV-P4iwdY0JsHU_OpB5ZSQ6zMHfVqQUwLR8Qbm8jZhT_v9lLLa0Y2N096LaTHBdofp5nLAhc-xT-5rbHTTMwLCu0u763xKlei0AXIGpy4s/s1600/images.jpg


        [...]

        Fernando Pessoa levantou-se do sofá, passeou um pouco Pela saleta, no quarto parou diante do espelho, depois voltou, É uma impressão estranha, esta de me olhar num espelho e não me ver nele, Não se vê, Não, não me vejo, sei que estou a olhar-me, mas não me vejo, No entanto, tem sombra, É só o que tenho. Tornou a sentar-se, cruzou a perna, E agora, vai ficar para sempre em Portugal, ou regressa a casa, Ainda não sei, apenas trouxe o indispensável, pode ser que me resolva a ficar, abrir consultório, fazer clientela, também pode acontecer que regresse ao Rio, não sei, por enquanto estou aqui, e, feitas todas as contas, creio que vim por você ter morrido, é como se, morto você, só eu pudesse preencher o espaço que ocupava, Nenhum vivo pode substituir um morto, Nenhum de nós é verdadeiramente vivo nem verdadeiramente morto, Bem dito, com essa faria você uma daquelas odes. Ambos sorriram. Ricardo Reis perguntou, Diga-me, como soube que eu estava hospedado neste hotel, Quando se está morto, sabe-se tudo, é uma das vantagens, respondeu Fernando Pessoa, E entrar, como foi que entrou no meu quarto, Como qualquer outra pessoa entraria, Não veio pelos ares, não atravessou as paredes, Que absurda ideia, meu caro, isso só acontece nos livros de fantasmas, os mortos servem-se dos caminhos dos vivos, aliás nem há outros, vim por aí fora desde os Prazeres, como qualquer mortal, subia escada, abri aquela porta, sentei-me neste sofá à sua espera, E ninguém deu pela entrada de um desconhecido, sim, que você aqui é um desconhecido, Essa é outra vantagem de estar morto, ninguém nos vê, querendo nós, Mas eu vejo-o a si, Porque eu quero que me veja, e, além disso, se refletirmos bem, quem é você, a pergunta era obviamente retórica, não esperava resposta, e Ricardo Reis, que não a deu, também não a ouviu. Houve um silêncio arrastado, espesso, ouviu-se como em outro mundo o relógio do patamar, duas horas. Fernando Pessoa levantou-se, Vou-me chegando, Já, Bem, não julgue que tenho horas marcadas, sou livre, é verdade que a minha avó está lá, mas deixou de me maçar, Fique um pouco mais, Está a fazer-se tarde, você precisa de descansar, Quando volta, Quer que eu volte, Gostaria muito, podíamos conversar, restaurar a nossa amizade, não se esqueça de que, passados dezesseis anos, sou novo na terra, Mas olhe que só vamos poder estar juntos oito meses, depois acabou-se, não terei mais tempo, Vistos do primeiro dia, oito meses são uma vida, Quando puder, aparecerei, Não quer marcar um dia, hora, local, Tudo menos isso, Então até breve, Fernando, gostei de o ver, E eu a si, Ricardo, Não sei se posso desejar-lhe um feliz ano novo, Deseje, deseje, não me fará mal nenhum, tudo são palavras, como sabe, Feliz ano novo, Fernando, Feliz ano novo, Ricardo.

        [...]

SARAMAGO, José. O ano da morte de Ricardo Reis. 8. ed. Lisboa, Caminho, 1984. p. 81-82.

Fonte: Português. Série novo ensino médio. Volume único. João Domingues Maia – Editora Ática – 2000. São Paulo. p. 424-425.

Entendendo o conto:

01 – Qual é a premissa central de "O Ano da Morte de Ricardo Reis"?

      A obra imagina os últimos meses de Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, após a morte do poeta em 1935. Saramago explora a relação entre criador e criatura, misturando realidade e ficção.

02 – Como Saramago utiliza o contexto histórico-social na narrativa?

      Saramago insere o personagem de Ricardo Reis no contexto histórico-social do salazarismo, descrevendo o noticiário jornalístico da época e fazendo referências constantes ao regime de Salazar.

03 – Qual é a relação entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa no romance?

      No romance, Fernando Pessoa aparece como um fantasma que interage com Ricardo Reis. Os dois personagens discutem sobre a vida, a morte e a poesia, explorando a relação entre criador e criatura.

04 – Quem é Lídia e qual é o seu papel na vida de Ricardo Reis?

      Lídia é uma das personagens femininas do romance, uma empregada do hotel onde Ricardo Reis se hospeda em Lisboa. Ela representa o amor carnal e terreno, em contraste com o ideal platônico de amor presente nas odes de Ricardo Reis.

05 – Como a obra aborda a questão da identidade e da existência?

      Através da interação entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa, o romance explora a natureza da identidade e da existência, questionando a linha tênue entre vida e morte, realidade e ficção.

06 – De que forma Saramago utiliza a ficção de Fernando Pessoa em sua obra?

      Saramago se apropria da ficção de Fernando Pessoa, que traçava perfis biográficos de seus heterônimos, indicava as datas de nascimento, mas omitia os óbitos. Assim, o autor se intromete no imaginário do poeta e fixa a data da morte de um deles, Ricardo Reis.

07 – Qual a importância do encontro entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa no contexto da obra?

      O encontro entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa é crucial, pois permite a exploração das complexidades da relação entre criador e criatura, vida e morte, e a natureza da identidade. Através desse diálogo, Saramago tece reflexões profundas sobre a existência e a arte.

 

NOTÍCIA: LENDO SÃO PAULO - FRAGMENTO - CLÁUDIA COSTIN - COM GABARITO

 Notícia: Lendo São Paulo – Fragmento

             Cláudia Costin

        É frequente ouvirmos alguém afirmar, levianamente, que se os jovens de hoje não leem e pouco se interessam pelo rico mundo da literatura, a culpa seria do excesso de informações absorvidas via TV, Internet e outras tantas mídias que disputam o interesse dos nossos filhos desde a mais tenra infância. [...]´

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEijKSx66hvL13H_uB84J2trYYW7-KGgmJ4nbduqVJ0L89Mk6niPtufyF3a6La4G9-ESBZxeA5rxRHdKc7fG_LtV41IgjkIpyYeNSMQ_22ralVB_cRwCupyubPYBL-6d_RQY0xEwDE5NAdS8rtfPviaWyziDYPU7eC4op6YOd9JiV8CvqndQGge_TFQsnlw/s320/istockphoto-1341314481-1024x1024.jpg


        Não é verdade que muitas de nossas crianças não leem por culpa dos videogames, do dinamismo da televisão ou da superoferta de efeitos especiais, que ofuscaria as pobres e sisudas páginas da literatura universal. Uma parte do problema reside certamente no preço e na disponibilidade do livro, o que o torna inacessível para boa parte dos pais e educadores, principais agentes na formação de uma geração de leitores. [...], observamos que sempre que viabilizamos a oferta de livros aos jovens, especialmente para os que vivem nas condições mais críticas das nossas periferias, a leitura é bem-vinda e a demanda só faz aumentar. Estão aí as salas de leitura e bibliotecas implantadas ou ampliadas pela Secretaria em todo o Estado de São Paulo, que não nos deixam mentir.

        Cada vez surge um novo espaço dedicado às letras, os jovens da região beneficiada se mobilizam e se envolvem e demandam mais, especialmente sugerindo autores e títulos que mais dizem respeito à realidade em que vivem.

        [...]

O Estado de São Paulo, 25/1/2004.

Fonte: Livro – Português: Linguagem, 8ª Série – William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 4ª ed. – São Paulo: Atual Editora, 2006. p. 22.

Entendendo a notícia:

01 – Qual a crítica apresentada no início do texto em relação à leitura entre os jovens?

      O texto critica a afirmação de que a falta de interesse dos jovens pela leitura seria culpa do excesso de informações da TV, internet e outras mídias.

02 – Qual o principal fator apontado como responsável pela falta de leitura entre as crianças e jovens?

      O preço e a disponibilidade dos livros são apontados como os principais obstáculos, tornando a leitura inacessível para muitos pais e educadores.

03 – Qual a observação feita sobre a oferta de livros aos jovens em áreas periféricas?

      O texto destaca que, ao facilitar o acesso aos livros, especialmente nas periferias, a leitura se torna bem-vinda e a demanda aumenta.

04 – Qual o impacto da criação de novos espaços de leitura nas comunidades?

      A criação de novos espaços de leitura estimula a mobilização e o envolvimento dos jovens, que demandam mais livros e sugerem autores e títulos relevantes para suas realidades.

05 – Qual a conclusão da autora sobre o interesse dos jovens pela leitura?

      A autora conclui que, ao contrário do que se afirma, os jovens têm interesse pela leitura, desde que haja acesso aos livros e que os conteúdos sejam relevantes para suas vidas.

 

CRÔNICA: OS COMÍCIOS DOS ADOLESCENTES - MOACYR SCLIAR - COM GABARITO

 Crônica: Os comícios dos adolescentes

               Moacyr Scliar

        No Hyde Park, em Londres, existe um lugar chamado Speaker's Corner, onde, segundo a tradição, qualquer pessoa pode fazer discursos, criticando até a família real (o que atualmente não é muito difícil) desde que falando do alto de um estrado ou mesmo de um caixote; isto é, sem pisar solo inglês. Atualmente os oradores que lá vão são muito chatos, e frequentemente falam apenas para impressionar os turistas, mas há uma fase na vida em que o mundo como um todo é para nós um Speaker's Corner, e a nossa família é mais acatável que a família real inglesa: a adolescência é uma fase de comícios.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjxpMa6HH8moKDb7tP7Z9szC2ej1LY8bRRZBHqKqV7oePAkItxGcG-Oa0RpFBWmKwcqjlS68xwyajGu2fnGqczIdm860ans5_D2XjvNUUiqw-L2_lvZZ7vAemLLOj01B6UIUbxkVaKqLKFx7_feobg9n1Z6v3xOZAvh6MinoU70hR7Lcy0mXiIagZ76zm4/s320/artworks-O9G0l77rq6dG3zel-1o1j3A-t500x500.jpg


        Adolescentes são oradores prodigiosos. Energia é o que não lhes falta; a intensa quantidade de alimentos que ingerem precisa ser queimada de alguma maneira, e esportes, games ou fantasias não são suficientes. daí os discursos, que se sucedem num ritmo implacável: não há almoço nem jantar em que os pais não ouçam peças de inflamada oratória. Os adolescentes, principalmente os de classe média, consideram-se oprimidos; não fazem parte de nenhuma Frente de Libertação, mesmo porque a vida de guerrilheiro não tem moleza, não dá para acordar ao meio-dia; mas desenvolvem uma invencível tática de guerrilha verbal , baseada em acusações clássicas: os pais são quadrados, os pais não compreendem as necessidades dos filhos, os pais são insensíveis, os pais não compram isto, os pais não compram aquilo ("me compra" é a reivindicação mais ouvida). É um estado de comício permanente, como parlamento algum jamais viu. Aliás, e diferente dos nossos deputados, os adolescentes jamais se ausentam do plenário; mas, como os deputados, sempre acham que estão ganhando pouco.

        De uma coisa, porém, podemos estar certos: não existirá um Partido de Adolescentes enquanto não se formar um Partido dos Pais. E Partido dos Pais jamais se formará. Como a Teresa Batista, de Jorge Amado, que estava cansada de guerra, pais – por definição – são pessoas cansadas de comícios.

Um país chamado infância. São Paulo: Ática, 1999, p. 51-52 (Coleção para gostar de ler, v. 18)

Fonte: Português. Uma proposta para o letramento. Magda Soares – 8º ano – 1ª edição. Impressão revista – São Paulo, 2002. Moderna. p. 9-10.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é a metáfora central utilizada por Moacyr Scliar na crônica?

      Moacyr Scliar compara a adolescência a um grande comício, onde os jovens, assim como oradores no Hyde Park, expressam suas opiniões e críticas com fervor.

02 – Por que os adolescentes são descritos como "oradores prodigiosos"?

      Eles possuem grande energia e necessidade de expressar suas opiniões, o que resulta em discursos frequentes e apaixonados, especialmente em relação aos pais.

03 – Quais são as principais "acusações clássicas" dos adolescentes contra seus pais?

      As acusações incluem os pais serem "quadrados", não compreenderem suas necessidades, serem insensíveis e não comprarem o que desejam.

04 – Como a crônica aborda a relação entre pais e filhos durante a adolescência?

      A crônica retrata a adolescência como um período de conflito e negociação, onde os jovens buscam afirmar sua independência e os pais, muitas vezes cansados, tentam manter a ordem.

05 – Por que, segundo o autor, é improvável a formação de um "Partido dos Pais"?

      Moacyr Scliar argumenta que os pais, ao contrário dos adolescentes, estão "cansados de comícios" e preferem evitar confrontos, tornando improvável a organização de um partido.

06 – Qual a relação da crônica com o "Speaker's Corner" citado no início do texto?

      O "Speaker's Corner" serve como uma metáfora para o espaço onde os adolescentes expressam suas opiniões, assim como os oradores em Londres, com a diferença de que, os adolescentes tem seu espaço de fala, dentro de suas casas.

07 – Qual é o tom geral da crônica de Moacyr Scliar?

      O tom é humorístico e irônico, com uma pitada de compreensão pelas dificuldades tanto dos adolescentes quanto dos pais durante essa fase da vida.

 

ROMANCE: DOM CASMURRO - A DENÚNCIA - CAP. III - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Romance: Dom Casmurro – A Denúncia cap. III

                    Machado de Assis

      Ia entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. A casa era a da Rua de Mata-cavalos, o mês novembro, o ano é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas; o ano era de 1857.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg_SwK0csaHl14EFeFYbkij4OPg0lS7sR4ATHIG_ZOl28HM8CJgNm6DVC4lyyEPkJ9QOSoP9gyMfIwJbnlW7iGilJ3KsmyLkg_xbKGrvyISGH52yY_5MwXgwtfErwGYWV4KE5fJjvlpJaJlXtgYm2p_NnC1GscxoZGkaL-DOjExg8-iPqkvzewTVd6IoZA/s320/36ab761f2ec82a329e469d8d69c17932.jpg


        -- D. Glória, a senhora persiste na ideia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo, e já agora pode haver uma dificuldade.

        -- Que dificuldade?

        -- Uma grande dificuldade.

        Minha mãe quis saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua.

        -- A gente do Pádua?

        -- Há algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los.

        -- Não acho. Metidos nos cantos?

        -- É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase que não sai de lá. A pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê; tomara ele que as cousas corressem de maneira, que... Compreendo o seu gesto; a senhora não crê em tais cálculos, parece-lhe que todos têm a alma cândida...

        -- Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze à semana passada; são dois criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos, em que a família Pádua perdeu tanta cousa; daí vieram as nossas relações. Pois eu hei de crer...? Mano Cosme, você que acha?

        Tio Cosme respondeu com um "Ora!" que, traduzido em vulgar, queria dizer: "São imaginações do José Dias os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde está o gamão?"

        -- Sim, creio que o senhor está enganado.

        -- Pode ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei senão depois de muito examinar...

        -- Em todo caso, vai sendo tempo, interrompeu minha mãe; vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes.

        -- Bem, uma vez que não perdeu a ideia de o fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho há de satisfazer os desejos de sua mãe e depois a igreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o Padre Feijó governou o Império...

        -- Governou como a cara dele! atalhou tio Cosme, cedendo a antigos rancores políticos.

        -- Perdão, doutor, não estou defendendo ninguém, estou citando O que eu quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.

        -- Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão. Quanto ao pequeno, se tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizer missa atrás das portas. Mas, olhe cá, mana Glória, há mesmo necessidade de fazê-lo padre?

        -- É promessa, há de cumprir-se.

        -- Sei que você fez promessa... mas uma promessa assim... não sei... Creio que, bem pensado... Você que acha, prima Justina?

        -- Eu?

        -- Verdade é que cada um sabe melhor de si, continuou tio Cosme; Deus é que sabe de todos. Contudo, uma promessa de tantos anos... Mas, que é isso, mana Glória? Está chorando? Ora esta pois isto é cousa de lágrimas?

        Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ela. Seguiu-se um alto silêncio, durante o qual estive a pique de entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção... Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Prima Justina exortava: "Prima Glória! Prima Glória!" José Dias desculpava-se: "Se soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo, um dever amaríssimo...".

Dom Casmurro. São Paulo: Moderna, 2004, p. 19-20. (Coleção Travessias; a edição publicada por Machado de Assis é de 1899).

Fonte: Português. Uma proposta para o letramento. Magda Soares – 8º ano – 1ª edição. Impressão revista – São Paulo, 2002. Moderna. p. 65-66.

Entendendo o romance:

01 – Qual é o contexto inicial do capítulo III?

      O capítulo começa com o narrador, Bentinho, relembrando um momento de sua adolescência, em 1857, na casa da Rua de Mata-cavalos. Ele se esconde atrás da porta e ouve uma conversa entre sua mãe, Dona Glória, e José Dias.

02 – Qual é a "denúncia" feita por José Dias?

      José Dias alerta Dona Glória sobre a proximidade entre Bentinho e Capitu, a filha do vizinho Pádua. Ele sugere que os dois estão "metidos nos cantos" e que pode haver um namoro entre eles, o que dificultaria o plano de enviar Bentinho para o seminário.

03 – Qual é a reação de Dona Glória à denúncia de José Dias?

      Inicialmente, Dona Glória se mostra incrédula. Ela argumenta que Bentinho e Capitu são apenas crianças e que foram criados juntos desde a infância. No entanto, ela também demonstra preocupação e decide que é hora de enviar Bentinho para o seminário.

04 – Quem é Tio Cosme e qual é a sua opinião sobre a situação?

      Tio Cosme é um parente da família que participa da conversa. Ele minimiza a preocupação de José Dias, dizendo que são apenas "imaginações" e que os jovens estão apenas se divertindo.

05 – Qual é a importância da promessa feita por Dona Glória?

      Dona Glória fez uma promessa de enviar Bentinho para o seminário, e essa promessa é um dos principais conflitos do romance. A conversa no capítulo III revela a tensão entre o desejo da mãe de cumprir a promessa e a crescente ligação entre Bentinho e Capitu.

06 – Como José Dias tenta justificar a sua denúncia?

      José Dias, tenta se justificar dizendo que falou por "veneração, pela estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo, um dever amaríssimo...". Ele tenta mostrar que suas intenções são boas.

07 – Qual é o clima emocional no final do capítulo?

      O final do capítulo é marcado por emoções intensas. Dona Glória chora, e há um silêncio tenso na sala. Bentinho, escondido, sente uma "outra força maior, outra emoção", indicando o impacto da conversa em seus sentimentos.

POEMA: IGUAL-DESIGUAL - CARLOS DRUMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Poema: Igual-desigual

             Carlos Drummond de Andrade

Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol
são iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todas as experiências de sexo
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.

Ninguém é igual a ninguém.
Todo ser humano é um estranho
ímpar.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgSx57Yq9DYDqVZoeLfXCssKVIiG7hVTrz8w4nm34NRMmt8qUAEMKOEbsbRZ81GDn4OCa-V92AS7ZkZk7HRGGvHENsY-hxsPuCZ33_A0me67JBCeK6wkPBcJ_5YXjqmeFxBFYZtf1N3sAEinVtKifaqUGlgEQyrGYn5zIkvTGTB0D395rxRqzoOVNB9bMw/s320/hqdefault.jpg


 Carlos Drummond de Andrade, A Paixão medida (1980). 8 ed. Rio de Janeiro: Record, 2002, p. 77-78.

Fonte: Português. Uma proposta para o letramento. Magda Soares – 8º ano – 1ª edição. Impressão revista – São Paulo, 2002. Moderna. p. 171.

Entendendo o poema:

01 – Qual a principal contradição apresentada no poema?

      O poema explora a contradição entre a aparente igualdade de diversas experiências e elementos da vida, e a singularidade do ser humano.

02 – Quais exemplos de "igualdade" são citados no poema?

      O poema cita histórias em quadrinhos, filmes, best-sellers, campeonatos de futebol, partidos políticos, tendências da moda, experiências sexuais, formas poéticas, guerras, fomes, amores, rompimentos, a morte, criações da natureza e ações humanas.

03 – Qual a característica que o poeta destaca como única e individual?

      O poeta destaca a individualidade do ser humano, afirmando que "o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa".

04 – Como o poema descreve a individualidade humana?

      O poema descreve cada ser humano como "um estranho ímpar", enfatizando a singularidade e a diferença de cada pessoa.

05 – Qual o efeito da repetição da palavra "iguais" no poema?

      A repetição da palavra "iguais" reforça a ideia de uniformidade e monotonia, criando um contraste com a afirmação da individualidade humana.

06 – Qual a mensagem central do poema em relação à experiência humana?

      A mensagem central do poema é que, apesar das semelhanças nas experiências humanas, cada indivíduo é único e singular.

07 – Como o poema aborda a relação entre a natureza e o ser humano?

      O poema sugere que, embora todas as criações da natureza possam parecer iguais, o ser humano se destaca como um ser único e incomparável.

 

NOTÍCIA: SOMOS TODOS UM SÓ - FRAGMENTO - NORTON GODOY - COM GABARITO

 Notícia: Somos todos um só – Fragmento


          Pesquisa genética internacional mostra que não existem raças na espécie humana, derrubando qualquer base científica para a discriminação

NORTON GODOY

        Se um pesquisador do IBGE bater à sua porta e perguntar qual é sua raça, você terá dúvidas para responder? Por mais banal que pareça, essa questão está gerando muita polêmica nos Estados Unidos. O presidente Bill Clinton chegou a formar uma comissão de alto nível para discuti-la. Isso porque, assim como os brasileiros, os americanos irão realizar no ano 2000 o último censo do século. Lá, porém, o resultado do perfil racial da população não é apenas mais um quesito estatístico. Influi, entre outras coisas, na distribuição de recursos aos órgãos federais e não-governamentais dedicados às chamadas minorias étnicas. Enquanto aqui você tem total liberdade de definir qual é sua raça, lá é o recenseador quem identifica o cidadão entre nada menos do que sete grupos raciais.

        Mas, se a questão já tinha implicações políticas, econômicas e culturais, ficou ainda mais difícil há poucos dias com a publicação de um amplo e meticuloso trabalho científico que chegou a uma conclusão taxativa: não existem raças na espécie humana.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiY_US2xgqBySqeSZM9jEtmHJGD5-Twbq72isW11luSQSqgTxo6nCQ_v3lz6sN99NA3eaIK7oYcnvFmLlP5vcrOYNCtCZgetF58Jld1c9zot0dSfC4fKt73MiHvaLBqnpJO_iLuVnkMyd1Zr0ozzz53udlZ4esGdIYmX8BD_qeSszv6Cw4yIilJucVHsso/s320/image-7.png


        Diferenças insignificantes 

        Para chegar a esta afirmação, uma equipe de cinco cientistas estudou e comparou mais de oito mil amostras genéticas colhidas aleatoriamente de pessoas de todo o mundo. Segundo Alan Templeton, biólogo americano que dirigiu a pesquisa, diferentemente de todas as outras espécies de mamíferos, não há raças entre os humanos porque "as diferenças genéticas entre grupos das mais distintas etnias são insignificantes". Para que o conceito de raça tivesse validade científica, "essas diferenças teriam de ser muito maiores". Ou seja, não importa a cor da pele, as feições do rosto, a estatura ou mesmo a origem geográfica de qualquer ser humano (traços que distinguem culturalmente as etnias): geneticamente, somos todos muito semelhantes. [...]

        O trabalho realizado pela equipe de Templeton se somou a pesquisas anteriores que já vinham apontando essa unidade na espécie humana. "Infelizmente, a noção popular de raça esteve sempre tão vinculada erroneamente à biologia que será difícil derrubar essa crença", afirmou o cientista americano.

        [...]

        Racismo 

        Mas o que diz quem está na linha de frente do combate à chamada discriminação racial? Para a senadora Benedita da Silva, negra de 56 anos, eleita vice-governadora do Rio de Janeiro, "a pesquisa pode ser comparada a uma lei. Se a lei existe, mas não há vontade política de usá-la como elemento promocional de igualdade entre os seres humanos, ela acaba no arquivo" diz. "Antes de mais nada, é preciso também acabar com essa história de minorias e diferenças. Minoria é uma definição ideológica. Eu não quero ser diferente e essa ideologia não foi criada por mim." Esse pensamento não é compartilhado por Francisco Oliveira, editor da revista Raça, que não pretende mudar o nome da publicação mesmo sabendo que não existem raças na espécie humana. "Pode estar comprovado cientificamente, mas no âmbito cultural não muda nada. A constatação não extrapola imediatamente para o comportamento social", disse. [...]

Isto É, 18 nov. 1998, p. 129-130, 133-134.

Fonte: Português. Uma proposta para o letramento. Magda Soares – 8º ano – 1ª edição. Impressão revista – São Paulo, 2002. Moderna. p. 126-127.

Entendendo a notícia:

01 – Qual foi a principal conclusão da pesquisa genética internacional mencionada no texto?

      A pesquisa concluiu que não existem raças na espécie humana, pois as diferenças genéticas entre os grupos étnicos são insignificantes.

02 – Qual a importância do censo racial nos Estados Unidos, em contraste com o Brasil?

      Nos Estados Unidos, o resultado do censo racial influencia a distribuição de recursos para órgãos federais e não governamentais dedicados às minorias étnicas. No Brasil, há mais liberdade para o indivíduo definir sua própria raça.

03 – Quem liderou a pesquisa genética que contestou o conceito de raça e qual a sua área de estudo?

      Alan Templeton, um biólogo americano, liderou a pesquisa.

04 – Qual a opinião da senadora Benedita da Silva sobre a pesquisa e o combate à discriminação racial?

      A senadora acredita que a pesquisa é como uma lei que precisa de vontade política para ser efetiva na promoção da igualdade. Ela também critica a ideia de "minorias" e "diferenças", defendendo a igualdade entre os seres humanos.

05 – Qual a posição de Francisco Oliveira, editor da revista "Raça", sobre a pesquisa e o impacto social?

      Francisco Oliveira reconhece a comprovação científica da inexistência de raças, mas argumenta que isso não muda imediatamente o comportamento social e cultural.

06 – O que o biólogo Alan Templeton afirma sobre as diferenças genéticas entre as etnias?

      Alan Templeton afirma que as diferenças genéticas entre grupos das mais distintas etnias são insignificantes.

07 – Qual a implicação da pesquisa para o conceito de raça na sociedade?

      A pesquisa busca derrubar a crença de que raças existem, mostrando que somos todos geneticamente semelhantes, independentemente de cor da pele, feições, estatura ou origem geográfica.

 

REPORTAGEM: SEM PRECONCEITO NENHUM SOU PRETO - FRAGMENTO - ALMANAQUE BRASIL CULTURA POPULR - COM GABARITO

 Reportagem: SEM PRECONCEITO NENHUM SOU PRETO – Fragmento

          Deu no jornal: branco ganha mais que branca que ganha mais que negro, que ganha mais que negra. Mas já foi pior. Com otimismo contagiante, Martinho da Vila falou ao Almanaque Brasil Cultura Popular, no Papo-cabeça do mês em que se celebra o Dia da Consciência Negra

      “Nada antigamente era melhor do que hoje”

      Como você vê as conquistas?

        A mudança fundamental é a gente poder falar. Houve um tempo no qual era muito difícil, para os militantes, falar do movimento. Outro tempo foi o de contestação. A luta hoje é por participação na sociedade. A estratégia de protestar é fácil, basta agredir. A de contestar é mais difícil. Uns vinte anos atrás, vi em Nova York aqueles luminosos, achava fantástico, ao mesmo tempo estranho: era porque havia negros nos cartazes. Uma coisa que não havia no Brasil. Agora vemos aí vários cartazes com negros.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj_5drfwkN9yrOCP47_SD7w62gpSEqLSdhKJyFrCrQ8hKrutvUaIlIk0LeveTGQTAw9v4DMUgGYknEzHAr8Pa2-jpk_jcK3yctOqr75ujGKDaaahxIXDQ0BG7ICnaRM8gG7ivU47PcOI4C7vCFbYDd6TckgGeHW9oE2PH8PLR2YVo1eDhNXAEXsQ2y29lA/s320/NEGRO.jpeg 


      Mas nós temos a peculiaridade da mestiçagem, que nos diferencia de vários países aos quais os negros chegaram como escravos.

        Isso é bom, porque criamos a raça- Brasil. Mas não saiu tão perfeito, porque na América do Norte o negro vive melhor e lá muito mais negros participam da administração, das universidades. Cheguei a um banco, vi aquele monte de negros trabalhando, olhei na gerência: só tinha negro! Uma coisa que não existe no Brasil. Aqui tratam você muito bem, tanto quanto qualquer cliente que tenha conta, não discriminam, tudo bem. Então a mestiçagem foi muito boa, mas contribui para manter essa diferença.

      Nos estados unidos existe obrigatoriedade de empregar uma proporção de negros, o sistema de cotas. Você é a favor?

        Sou favorável. Subir na sociedade depende da convivência. Um conhece um, outro conhece outro. Tanto é que a pessoa, mesmo sem ter preconceito doentio, diz: “eu vou na escola de samba, eu vou no botequim, eu vou na casa do empregado”, tudo certo. É uma coisa incrível. Por isso, sou a favor das cotas.

      O pessoal é contra, por quê?

        Porque acha que devíamos lutar para conquistar. E cada um que conquista é um exemplo. Dou razão a ele. Mas é um processo muito longo. [...]

      O povo negro tem consciência de sua história? Se não tem, por que não tem?

        Não tem. Nem o povo negro, nem o povo brasileiro. Creio que a maioria de vocês não sabe quem foi o tetravô, nem o bisavô, eu mesmo não sei direito.

      Vamos pegar então você, a sua genealogia.

        Tem aquela camisa “100% negro”; eu vou botar uma camisa “70%”. Dentro da minha família, a gente evitava falar, era perigoso. Você era doutrinado a não falar da cultura negra, religião afro, para poder avançar, conseguir emprego, estudar. Tinha que renegar a origem. [...] A gente nunca estudou o continente africano. Pulou! Éramos obrigados estudar países nórdicos, mas ninguém perguntava onde fica Angola, Moçambique. [...]

      A surrada questão que se discute é por que negro que sobe na escala social casa com branca.

        Primeiro, nós somos iguais a qualquer um, influenciáveis. Os padrões de beleza que nos venderam a vida inteira qual foi? A mulher branca. Isso fica no inconsciente, arquivado. O outro motivo: quando ele sobe, nos lugares onde anda só tem branca. Se ele não casar com branca, só se for racista. [...]

      A oportunidade é hoje maior para o jovem, a criança negra?

        Com certeza. Um filho de pobre, de negro, não podia sonhar em ser deputado, governador, senador. Hoje, qualquer filho nosso pode ser presidente. Antes, nem era cidadão.

      Resta algum preconceito em alguma camada?

        A juventude brasileira, arrisco dizer, é hoje sem preconceito. Existe ainda nas pessoas mais velhas, daquela classe dominante antiga, que perderam muita coisa. O Brasil não tem 4 mais o preconceito doentio. Estamos avançando. O Brasil está muito melhor. Minha mãe, que tem 92 anos, analfabeta, tem uma sabedoria fantástica. Sempre que alguém fala “ah, antigamente era melhor”, ela me chama e diz: “mentira, Martinho, nada antigamente era melhor do que hoje”. E tem razão.

Almanaque Brasil Cultura Popular, n. 8, nov. 1999, p. 22-23.

Fonte: Português. Uma proposta para o letramento. Magda Soares – 8º ano – 1ª edição. Impressão revista – São Paulo, 2002. Moderna. p. 147-148.

Entendendo a reportagem:

01 – Qual a observação inicial da reportagem sobre a desigualdade racial no Brasil?

      A reportagem aponta para a desigualdade salarial, onde brancos ganham mais que brancas, que ganham mais que negros, que ganham mais que negras, reconhecendo que, apesar de tudo, a situação já foi pior.

02 – Qual a principal mudança observada por Martinho da Vila em relação à questão racial no Brasil?

      A possibilidade de falar abertamente sobre o movimento negro, algo que era difícil no passado.

03 – Como Martinho da Vila compara a situação dos negros no Brasil com a dos Estados Unidos?

      Ele reconhece que, apesar da mestiçagem brasileira, os negros nos Estados Unidos têm maior participação na administração e universidades, e vivem em melhores condições.

04 – Qual a opinião de Martinho da Vila sobre o sistema de cotas?

      Ele é favorável às cotas, pois acredita que a convivência é fundamental para a ascensão social dos negros.

05 – Por que algumas pessoas são contra o sistema de cotas, segundo Martinho da Vila?

      Porque acreditam que os negros devem conquistar seu espaço por mérito próprio, sem auxílio de cotas.

06 – Qual a observação de Martinho da Vila sobre o conhecimento da história pelos brasileiros, incluindo os negros?

      Ele acredita que a maioria dos brasileiros, incluindo os negros, desconhece sua própria genealogia e história.

07 – Qual a explicação de Martinho da Vila para o fato de negros que ascendem socialmente frequentemente se casarem com brancas?

      Ele aponta para a influência dos padrões de beleza impostos pela sociedade e para a maior convivência com pessoas brancas em determinados ambientes sociais.

08 – Martinho da Vila acredita que as oportunidades para jovens e crianças negras melhoraram?

      Sim, ele acredita que as oportunidades aumentaram significativamente, permitindo que negros alcancem posições de destaque na sociedade.

09 – Em quais camadas da sociedade Martinho da Vila acredita que ainda existe preconceito?

      Ele acredita que o preconceito ainda persiste em pessoas mais velhas, da antiga classe dominante.

10 – Qual a opinião da mãe de Martinho da Vila sobre a ideia de que "antigamente era melhor"?

      Ela discorda veementemente, afirmando que "nada antigamente era melhor do que hoje", e que hoje em dia, as coisas estão melhores.

 

REPORTAGEM: O HOMEM DE GELO - FRAGMENTO - EDUARDO OHATA - COM GABARITO

 Reportagem: O homem de gelo – Fragmento

                     EDUARDO OHATA – DA REPORTAGEM LOCAL

        Brasileiro afirma que sangue-frio e clima serão trunfos para completar a escalada do K2, no Paquistão, montanha mais perigosa do mundo, responsável pela morte de 54 pessoas

        A -30ºC, o sangue-frio será, em diversos sentidos, a principal arma de Waldemar Niclevicz, 33, em sua terceira tentativa de se tornar o primeiro brasileiro a escalar o K2, segunda maior montanha do mundo e a mais perigosa, localizada no norte do Paquistão, perto da fronteira com a China.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjRskLF1JmpzikzDfKMXZeTH2N-U-ygOznaS1pPPDN8g5h42m2CtJiECe0Z6iiLmPNJvH4wIcLf7ivqIu3s_VVlS1vnVir6VR6sV7wqWlxwCCW6vyPcwUeVgWJit38oB7TPQuKcaHSn5cjlOrywczrfiUAB4tSdwtjzpPuY-ILStrQaoGUlqmIx1MtZRvU/s320/brasileiros-atingem-o-cume-do-k2-a-montanha-mais-perigosa-do-mundo.jpg


        O K2, com 8.611 m, por seu alto grau de dificuldade – 54 pessoas morreram ao tentar escalá-lo –, foi conquistado por só 164 alpinistas e também já provocou muitas mortes na descida. Embora seja o mais alto e famoso do mundo, o Everest, de 8.848 m, teve a escalada concluída por 1.200 pessoas.

        Niclevicz, primeiro brasileiro a escalar o Everest e que tentou e teve de desistir da escalada do K2 em 1998 e 1999, deixa o país nesta quarta, acreditando que estar frio será importante em dois aspectos: o climático e o psicológico.

        “Quanto mais frio, melhor. Isso significa que o clima está estável e há menos riscos de avalanches. Sinto-me mais seguro quando estamos a -30ºC ou temperaturas mais baixas. É quando a temperatura começa a oscilar que chega a hora de nos preocuparmos.”

        O alpinista brasileiro acredita que para ser bem-sucedido nesta nova tentativa também vai ser fundamental o sangue-frio que adquiriu com a experiência acumulada nas duas vezes em que tentou escalar o K2, por já conhecer bem a rota de escalada, chamada de Esporão dos Abruzzos.

        O K2 é considerado mais difícil de escalar – há três anos ninguém alcança seu topo –, pois tem um alto grau de inclinação, com contornos abruptos, além de ficar na parte mais inacessível da Cordilheira do Himalaia, onde não há estrutura ou vilas.

        Em sua primeira tentativa, em 1998, o brasileiro foi obrigado a desistir por causa de uma avalanche, após ter alcançado os 8.040 m. Na segunda, no ano passado, a morte de um colega romeno, atingido na cabeça por uma pedra, impressionou o grupo de alpinistas e levou Niclevicz a desistir.

        Hoje, ele acha que tem mais sangue-frio, ao se acostumar com ocorrências que antes o assustavam, como, além dos acidentes, as avalanches com pedaços de corpos de pessoas desaparecidas.

        “‘Respeito muito o K2, é realmente uma escalada perigosa. Mas hoje não fico mais impressionado com ele. Sabemos como chegar ao topo, depende de nós mesmos, é uma escalada interna’, filosofa. ‘Perguntam se gosto de adrenalina. Ao contrário, sou muito prudente, com os pés no chão. Esse é meu segredo.’”

        [...]

Folha de São Paulo, São Paulo, sábado, 27 maio 2000. Caderno Esporte, p. 8. (Fragmento).

Fonte: Português. Uma proposta para o letramento. Magda Soares – 8º ano – 1ª edição. Impressão revista – São Paulo, 2002. Moderna. p. 185-186.

Entendendo a reportagem:

01 – Qual é o principal desafio que Waldemar Niclevicz enfrenta ao escalar o K2?

      O principal desafio é a extrema dificuldade da montanha, conhecida como a mais perigosa do mundo, com um alto índice de mortalidade entre os alpinistas.

02 – Por que Waldemar Niclevicz considera o "sangue-frio" tão importante para essa escalada?

      O "sangue-frio" é crucial tanto para lidar com as condições climáticas extremas quanto para manter a calma diante dos perigos e desafios psicológicos da escalada.

03 – Quais são os fatores que tornam o K2 mais difícil de escalar do que o Monte Everest?

      O K2 possui um alto grau de inclinação, contornos abruptos e está localizado em uma área remota do Himalaia, sem infraestrutura ou vilas próximas.

04 – Quais foram os principais obstáculos enfrentados por Niclevicz em suas tentativas anteriores de escalar o K2?

      Em 1998, ele foi forçado a desistir devido a uma avalanche. Em 1999, a morte de um colega alpinista o levou a abandonar a escalada.

05 – Como a experiência prévia de Niclevicz influenciou sua abordagem para a nova tentativa de escalada?

      Ele acredita que sua experiência o tornou mais acostumado aos perigos da montanha, como avalanches e a visão de corpos de alpinistas desaparecidos, permitindo que ele mantenha a calma.

06 – Qual a opinião de Waldemar Niclevicz sobre a adrenalina em suas escaladas?

      Ao contrário da crença popular, ele se considera uma pessoa prudente e com os pés no chão, enfatizando que a prudência é seu segredo para o sucesso.

07 – Qual a comparação entre o K2 e o Everest em relação ao número de escaladas bem-sucedidas?

      Enquanto o Everest já foi escalado por cerca de 1.200 pessoas, apenas 164 alpinistas conseguiram chegar ao topo do K2.