domingo, 16 de fevereiro de 2025

POEMA: BOA NOITE - CASTRO ALVES - COM GABARITO

 Poema: Boa Noite

              Castro Alves

Boa noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa noite, Maria! É tarde... é tarde. .
Não me apertes assim contra teu seio.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi-0LhyphenhyphenoV3qeLPeWkSbIq6IzX0k-J4dwUrwPS3X1VQaxVNj28bComTcIPBa5tceHIA0hIxHSxXfdWP7sb15b4rhd-3slOC_9RFG2aJwKkiLUm7SGEUbeugdeXbP5NTsQJ07LV_iXHUUUjFNPv43-6tczZZeWHE46kYgkMtB43MPouoie6Ho10AAgJbchZI/s1600/JANELA.jpg



Boa noite! ... E tu dizes - Boa noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
— Mar de amor onde vagam meus desejos!

Julieta do céu! Ouve... a calhandra
já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti? ... pois foi mentira...
Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se a estrela-d'alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d'alvorada:
"É noite ainda em teu cabelo preto..."

É noite ainda! Brilha na cambraia
— Desmanchado o roupão, a espádua nua
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua. . .

É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores.
Fechemos sobre nós estas cortinas...
— São as asas do arcanjo dos amores.

A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!

Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora. . .
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
— Boa noite! — formosa Consuelo.

ALVES, C. Espumas Flutuantes, 1870.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, Vol. Único. William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. Ensino Médio, 1ª ed. 4ª reimpressão – São Paulo: ed. Atual, 2003. p. 192.

Entendendo o poema:

01 – Qual é o tema central do poema "Boa Noite"?

      O tema central do poema é o amor e o desejo, expressos através da despedida de um amante e sua amada. À noite, com sua atmosfera romântica e sensual, serve de cenário para a paixão dos dois.

02 – Quem são os personagens principais do poema?

      Os personagens principais são o amante, que se dirige à amada, chamada Maria, Consuelo ou Julieta, e a própria amada, que responde com um "Boa noite" carregado de emoção.

03 – Qual é o tom predominante do poema?

      O tom predominante do poema é apaixonado e sensual. O amante expressa seu amor e desejo de forma intensa, utilizando metáforas e comparações para descrever a beleza e o encanto da amada.

04 – Que recursos poéticos Castro Alves utiliza para expressar a intensidade do amor no poema?

      Castro Alves utiliza diversos recursos poéticos, como metáforas ("Mar de amor onde vagam meus desejos"), comparações ("Como entre as névoas se balouça a lua"), exclamações ("Julieta do céu!"), interrogações retóricas ("Que importa os raios de uma nova aurora?!"), aliterações ("frouxa luz da alabastrina lâmpada") e assonâncias ("Ri, suspira, soluça, anseia e chora").

05 – Qual é o significado do verso "É noite ainda em teu cabelo preto..."?

      Esse verso expressa o desejo do amante de que a noite e o momento de amor não terminem. Ele se encanta com a beleza da amada e quer prolongar a experiência, mesmo que o dia já esteja amanhecendo.

06 – Por que a amada é chamada de Julieta no poema?

      A amada é chamada de Julieta em referência à personagem da tragédia de Shakespeare, "Romeu e Julieta". Essa comparação sugere um amor intenso e proibido, que enfrenta obstáculos e desafios.

07 – Qual é a importância do título "Boa Noite" para o poema?

      O título "Boa Noite" é irônico, já que o poema não se limita a uma simples saudação noturna. Ele representa o início de um diálogo amoroso e apaixonado, que se desenrola durante a noite e se estende até o amanhecer. À noite, no poema, é um espaço de intimidade, amor e desejo.

 

 

ROMANCE: INOCÊNCIA - (FRAGMENTO) - VISCONDE DE TAUNAY - COM GABARITO

 Romance: Inocência – Fragmento

                 Visconde de Taunay

        Estava Cirino fazendo o inventário da sua roupa e já começava a anoitecer, quando Pereira novamente a ele se chegou.

        -- Doutor, disse o mineiro, pode agora mecê entrar para ver a pequena. Está com o pulso que nem um fio, mas não tem febre de qualidade nenhuma.

        -- Assim é bem melhor, respondeu Cirino.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj_xysLzdNFlMUN9E9azv5H03MrIwg-JM8a-wddmFpXmGp3K3vCdJdNreNOyyvp6aq3iWz4dUwFW8jeSJlJ2fPrDPmV7fCL58lt0aL4ZVH7RcWMnBZs-wQBbgXoo9C9Ju-PY4CYnITav3hjB9Qib53ADkA94sOYt3qUH5DW2TrX3l19e15V_oihnZyTni4/s320/Inocencia-Visconde-de-Taunay-3a-Ed..jpg


        E, arranjando precipitadamente o que havia tirado da canastra, fechou-a e pôs-se de pé.

        Antes de sair da sala, deteve Pereira o hóspede com ar de quem precisava tocar em assunto de gravidade e ao mesmo tempo de difícil explicação.

        Afinal começou meio hesitante:

        -- Sr. Cirino, eu cá sou homem muito bom de gênio, muito amigo de todos, muito acomodado e que tenho o coração perto da boca, como vosmecê deve ter visto...

        -- Por certo, concordou o outro.

        -- Pois bem, mas... tenho um grande defeito; sou muito desconfiado. Vai o doutor entrar no interior da minha casa e... deve postar-se como...

        -- Oh, Sr. Pereira! Atalhou Cirino com animação, mas sem grande estranheza, pois conhecia o zelo com que os homens do sertão guardam da vista dos profanos os seus aposentos domésticos, posso gabar-me de ter sido recebido no seio de muita família honesta e sei proceder como devo.

        Expandiu-se um tanto o rosto do mineiro.

        -- Vejo, disse ele com algum acanhamento, que o doutor não é nenhum pé-rapado, mas nunca é bom facilitar... E já que não há outro remédio, vou dizer-lhe todos os meus segredos... não metem vergonha a ninguém, com o favor de Deus; mas negócios da minha casa não gosto de bater língua... Minha filha Nocência fez 18 anos pelo Natal, e é rapariga que pela feição parece moça de cidade, muito ariscazinha de modos, mas bonita e boa deveras... Coitada, foi criada sem mãe, e aqui nestes fundões.

        [...]

        -- Ora muito bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual garrulice, quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de casá-la.

        -- Ah! É casada? Perguntou Cirino.

        -- Isto é, é e não é. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma labutar no costeio do gado para são Paulo um homem de mão-cheia, que talvez o Sr. Conheça... o Manecão Doca...

        [...]

        -- Esta obrigação de casar as mulheres é o diabo!... Se não tomam estado, ficam jururus e fanadinhas...; se casam podem cair nas mãos de algum marido malvado... E depois, as histórias!... Ih, meu Deus, mulheres numa casa, é coisa de meter medo... São redomas de vidro que tudo pode quebrar... Enfim, minha filha, enquanto solteira, honrou o nome de meus pais... O Manecão que se aguente, quando a tiver por sua... Com gente de saia não há que fiar... Cruz! Botam famílias inteira a perder, enquanto o demo esfrega um olho.

        Esta opinião injuriosa sobre as mulheres é, em geral, corrente nos sertões e traz como consequência imediata e prática, além da rigorosa clausura em que são mantidas, não só o casamento convencionado entre parentes muito chegados para filhos de menor idade, mas sobretudo os numerosos crimes cometidos, mal se suspeita possibilidade de qualquer intriga amorosa entre pessoa da família e algum estranho.

        [...]

        -- Sr. Pereira, replicou Cirino com calma, já lhe disse e torno a dizer que, como médico, estou há muito tempo acostumado a lidar com famílias e a respeitá-las. É este meu dever, e até hoje, graças a Deus, a minha fama é boa... Quanto às mulheres, não tenho as suas opiniões, nem as acho razoáveis nem de justiça. Entretanto, é inútil discutirmos porque sei que falou-me com toda franqueza, e também com franqueza quero responder. No meu parecer, as mulheres são tão boas como nós, se não melhores: não há, pois, motivo para tanto desconfiar delas e ter os homens em tão boa conta... Enfim, essas suas ideias podem quadrar-lhe à vontade, e é costume meu antigo a ninguém contrariar, para viver bem com todos e deles merecer o tratamento que julgo ter direito a receber. Cuide cada qual de si, olhe Deus para todos nós, e ninguém queira arvorar-se em palmatória do mundo.

        Tal profissão de fé, expedida em tom dogmático e superior, pareceu impressionar agradavelmente a Pereira, que fora aplaudido com expressivo movimento de cabeça a sensatez dos conceitos e a fluência da frase.

        [...]

6. ed. São Paulo: Ática, 1984. p. 29-32.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, Vol. Único. William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. Ensino Médio, 1ª ed. 4ª reimpressão – São Paulo: ed. Atual, 2003. p. 218-219.

Entendendo o romance:

01 – Qual é o contexto da cena apresentada no fragmento?

      O fragmento descreve o encontro entre Cirino, um médico, e Pereira, um homem do sertão. Pereira pede que Cirino examine sua filha, Inocência, que está doente. A conversa revela costumes e valores da sociedade sertaneja do século XIX, como a desconfiança em relação a estranhos e a visão tradicional sobre o papel das mulheres.

02 – Qual é a principal preocupação de Pereira ao receber Cirino em sua casa?

      Pereira demonstra grande preocupação com a privacidade de sua família, especialmente de sua filha Inocência. Ele expressa desconfiança em relação a Cirino, apesar de reconhecer sua profissão e boa fama, e teme que a presença do médico possa comprometer a honra da família.

03 – O que o diálogo entre Cirino e Pereira revela sobre a visão da sociedade sertaneja sobre as mulheres?

      O diálogo revela que a sociedade sertaneja da época tinha uma visão tradicional e, por vezes, preconceituosa sobre as mulheres. Pereira expressa a opinião de que as mulheres são "redomas de vidro" que podem "quebrar" a qualquer momento, causando problemas e "pondo famílias inteiras a perder". Essa visão reflete a desconfiança e o controle excessivo sobre as mulheres, que eram mantidas em clausura e tinham seus casamentos arranjados pelos pais.

04 – Qual é a opinião de Cirino sobre a visão de Pereira em relação às mulheres?

      Cirino discorda da visão de Pereira sobre as mulheres, defendendo que elas são "tão boas como nós, se não melhores". Ele argumenta que não há motivo para tanta desconfiança e que as mulheres merecem ser tratadas com respeito e igualdade.

05 – Como Cirino se comporta diante da desconfiança de Pereira?

      Cirino se mostra calmo e paciente diante da desconfiança de Pereira. Ele procura tranquilizá-lo, afirmando que tem experiência em lidar com famílias e que sempre respeitou a privacidade de seus pacientes. Ao mesmo tempo, Cirino não deixa de expressar sua opinião sobre a visão de Pereira em relação às mulheres, defendendo seus próprios valores com educação e respeito.

06 – Qual é o significado da expressão "mulheres numa casa, é coisa de meter medo"?

      Essa expressão reflete o medo e a desconfiança que muitos homens sertanejos sentiam em relação às mulheres. Acreditava-se que as mulheres eram frágeis, volúveis e capazes de causar grandes problemas para a família. Essa visão contribuiu para a criação de um ambiente de controle e opressão sobre as mulheres, que eram mantidas em clausura e tinham seus direitos limitados.

07 – O que o fragmento revela sobre os costumes e valores da sociedade sertaneja do século XIX?

      O fragmento revela que a sociedade sertaneja do século XIX era marcada por costumes e valores tradicionais, como a desconfiança em relação a estranhos, o controle excessivo sobre as mulheres e a importância da honra familiar. As mulheres eram vistas como seres frágeis e dependentes, que precisavam ser protegidas e controladas pelos homens da família. O casamento era arranjado pelos pais e as mulheres tinham pouca autonomia para tomar decisões sobre suas próprias vidas.

 

 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

AUTOBIOGRAFIA: NASCE UM ESCRITOR - JORGE AMADO - COM GABARITO

 Autobiografia: Nasce um escritor

                       Jorge Amado

        O primeiro dever passado pelo novo professor de português foi uma descrição tendo o mar como tema. A classe inspirou, toda ela, nos encapelados mares de Camões, aqueles nunca dantes navegados, o episódio do Adamastor foi reescrito pela meninada. Prisioneiro no internato, eu vivia da saudade das praias do Pontal onde conhecera a liberdade e o sonho. O mar de Ilhéus foi o tema da minha descrição.

 
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg-jSEi7WJT-KR7ZXmN-W7_VdCPrekj6TG2-lRLgttJb1a_p_45721NT3DU2iHpxJa1zy6pgumhBC4Bf-4MrPf4HicUA9TO83iPp9gtHfvWiCs1N7OAfFZ_-jTimLjEZdeKINMelNo2Pb4ZSQces22YQIp39VnlgcfdoAL47K9IU1l66XeyjZQcclrfEPs/s320/praia-de-mamoan.jpg



        Padre Cabral levara os deveres para corrigir em sua cela. Na aula seguinte, entre risonho e solene, anunciou a existência de uma vocação autêntica de escritor naquela sala de aula. Pediu que escutassem com atenção o dever que ia ler. Tinha certeza, afirmou, o autor daquela página seria no futuro um escritor conhecido. Não regateou elogios. Eu acabara de completar onze anos.

        Passei a ser uma personalidade, segundo os cânones do colégio, ao lado dos futebolistas, os campeões de matemática e de religião, dos que obtinham medalhas. Fui admitido numa espécie de Círculo Literário onde brilhavam alunos mais velhos. Nem assim deixei de me sentir prisioneiro, sensação permanente durante os dois anos em que estudei no colégio dos jesuítas.

        Houve, porém, sensível mudança na limitada vida do aluno interno: o padre Cabral tomou-me sob sua proteção e colocou em minhas mãos livros de sua estante. Primeiro “As viagens de Gulliver”, depois clássicos portugueses, traduções de ficcionistas ingleses e franceses. Data dessa época minha paixão por Charles Dickens. Demoraria ainda a conhecer Mark Twain, o norte-americano não figurava entre os prediletos do padre Cabral.

        Recordo com carinho a figura do jesuíta português erudito e amável. Menos por me haver anunciado escritor, sobretudo por me haver dado o amor aos livros, por me haver me revelado o mundo da criação literária. Ajudou-me a suportar aqueles dois anos de internato, a fazer mais leve a minha prisão, a minha primeira prisão.

Jorge Amado. “O menino Grapiúna”.  Rio de Janeiro: Record, 1987. p.117-120.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 245.

Entendendo a autobiografia:

01 – Qual foi o primeiro dever de português que Jorge Amado realizou e qual foi o tema?

      O primeiro dever de português passado pelo novo professor foi uma descrição tendo o mar como tema.

02 – Qual foi a reação do Padre Cabral ao ler a descrição de Jorge Amado?

      O Padre Cabral anunciou, risonho e solene, a existência de uma vocação autêntica de escritor naquela sala de aula. Afirmou que o autor daquela página seria no futuro um escritor conhecido e não regateou elogios.

03 – Como Jorge Amado se sentiu após o anúncio do Padre Cabral?

      Jorge Amado passou a ser uma personalidade no colégio, mas nem assim deixou de se sentir prisioneiro, sensação permanente durante os dois anos em que estudou no colégio dos jesuítas.

04 – Qual foi a principal mudança na vida de Jorge Amado após o anúncio do Padre Cabral?

      O Padre Cabral tomou-o sob sua proteção e colocou em suas mãos livros de sua estante, como "As viagens de Gulliver" e clássicos portugueses, o que despertou a paixão de Jorge Amado por Charles Dickens.

05 – Qual é a principal lembrança que Jorge Amado tem do Padre Cabral?

      Jorge Amado recorda com carinho a figura do jesuíta português erudito e amável, não apenas por tê-lo anunciado escritor, mas sobretudo por ter lhe dado o amor aos livros e revelado o mundo da criação literária, ajudando-o a suportar os dois anos de internato.

 

 

REPORTAGEM: A HORA DO LOBO - AFONSO CAPELAS JR. - COM GABARITO

 Reportagem: A hora do lobo

                      Afonso Capelas Jr.

        Ele está sendo visto cada vez com mais facilidade, em geral revirando latas de lixo em busca de comida. Há quem acredite que sua população está aumentando. Mas é possível que o lobo-guará ainda seja um de nossos bichos mais ameaçados. E, como tantos outros, esteja apenas brigando pela sobrevivência.

        O escuro da noite chega no alto do Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas Gerais, e de repente, atraído pelo cheiro de comida e pelo tilintar de talheres e panelas, um lobo-guará se aproxima do alojamento de funcionários do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente). O bicho vasculha avidamente a lixeira à procura de restos de comida, como se fosse um mero cachorro vira-lata. Seu apetite voraz faz com que mastigue e engula até mesmo embalagens de plástico e alumínio. A cena se repete cotidianamente e revela o drama do maior e mais belo canídeo da América do Sul, que já não consegue encontrar no cerrado – seu habitat cada vez mais devastado pela atividade humana – a quantidade suficiente de alimento de que precisa para sobreviver.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiQRMMY86ox2e14d77uzUOWCOMvXtJKpVc4aX93W4OWketMoHxw9nLTeci91zcHssnDub3zoaovPSCRPmkz5FcsrWCxv9BKywiZz0ze8ZcxQxLLQM1WLXnL2_9Zn2hobpfBrRfXFqj2RVgTybDm50HJ08HSYImZ_b90oibUjpw_TT3GRR4q1r6cXKkeaLc/s320/lobo.jpg 


        Alguns biólogos acreditam que as aparições cada vez mais frequentes de lobos-guará à procura de comida fácil em áreas habitadas pelo homem têm causado a falsa impressão de que a população da espécie está aumentando. Outros dizem que os lobos estão mesmo proliferando, mas de maneira perigosa, pois seus hábitos originais estão sendo alterados. A despeito das controvérsias, o Ibama acena com a hipótese de tirar o lobo-guará da lista de espécies ameaçadas de extinção, em que está incluído desde 1989. Uma nova relação está sendo preparada. Deverá ser divulgada ainda neste ano e já causa apreensão entre os pesquisadores. Muitos temem que o Ibama decida mesmo pela exclusão do lobo-guará da próxima lista negra, por considera-lo a salvo do desaparecimento. Mas julgam que ainda é muito cedo para tomar tal decisão.

        Dono de pernas compridas, andar elegante, corpo esguio recoberto fartamente de pelos avermelhados, o lobo-guará é um andarilho nato, capaz de percorrer muitos quilômetros por dia. Originalmente encontrado em regiões dominadas pelo cerrado brasileiro – em pontos esparsos desde a Bahia até o Rio Grande do Sul –, nosso lobo também já foi visto nas fronteiras com a Argentina, Paraguai, Peru, Bolívia e Uruguai. Adulto, chega a medir até 1,90m de comprimento e a pesar quase 25 quilos. Um casal de lobos-guará pode ocupar um território de até 30 quilômetros quadrados, devidamente demarcados por urina e fezes. Mesmo convivendo em um mesmo território, o casal mantém a sua sina solitária. Sempre caminhando distantes um do outro, macho e fêmea só se juntam na época do acasalamento, que resulta  em uma ninhada de três filhotes, em média.

        O lobo tem fome – Além de solitário, o lobo-guará é dono de uma fome incomparável. Gosta de caçar pequenos roedores e até insetos, mas também mantém uma dieta de vegetais – em especial o fruto de um arbusto conhecido como lobeira ou fruto-do-lobo, responsável por 50% de sua alimentação. Como o cerrado tem cedido lugar à agricultura, esse cardápio está cada vez mais raro. Sem outra alternativa, o lobo-guará vai chegando mais próximo das áreas habitadas pelos humanos. “Os lobos estão tentando se adequar ao progresso para sobreviver”, reconhece Rogério Cunha de Paula, biólogo da Associação Pró-Carnívoros que estuda os hábitos desses animais na Serra da Canastra e está preparando sua tese de mestrado sobre o assunto.

        Em sua pesquisa de campo, Rogério colocou brincos de plásticos nas orelhas de alguns lobos para monitorar seus passos e presenciou cenas inusitadas. Numas delas, viu a convivência pacífica de um lobo-guará com cães domésticos de uma fazenda. “Os cães podem contaminar os lobos com doenças fatais”, alerta. Em outra, observou a presença de até quatro lobos adultos juntos, perto do centro de visitação do Parque Nacional da Serra da Canastra, fato raro em se tratando de animais que, por natureza, prezam a solidão. “Essa proximidade facilita o cruzamento entre parentes, enfraquecendo geneticamente a espécie”, sugere Rogério. Por tudo isso, o biólogo pondera que, por enquanto, o lobo-guará não deveria sair da lista do Ibama. “É uma espécie que se vem adaptando relativamente bem, mas é inegável que ainda está perigosamente ameaçada”, observa.

        O diretor do zoológico de Belo Horizonte, Carlyle Mendes Coelho, também não quer ver o lobo-guará fora da lista vermelha do Ibama. “Ainda não sabemos o suficiente sobre a espécie”, garante. De fato, os especialistas não se arriscam nem ao menos a estimar quantos exemplares existem na natureza. Carlyle Mendes coordena uma pesquisa com lobos-guará na região do Parque Natural do Caraça, em Minas Gerais – curiosamente próxima de um convento em que os padres alimentam alguns exemplares, atraindo visitantes de todo o país – e não acredita que a população da espécie esteja aumentando: “Com os desmatamentos e novos povoamentos em área de cerrado, o lobo tem sido visto com maior facilidade. Mas, na verdade, é o homem que se aproxima cada vez mais do território do lobo”.

        “Saindo ou não da lista do Ibama, nosso trabalho vai continuar”, garante Bruno Riffel, coordenador ambiental da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração. Com sede no município mineiro de Araxá, a empresa mantém um criadouro de animais do cerrado, entre eles o lobo-guará. A finalidade é estudar todos os itens do comportamento da espécie, como alimentação, reprodução, imunologia e manejo em cativeiro. “Muitos exemplares nascidos aqui já foram doados a zoológicos e instituições de pesquisa do mundo inteiro”, orgulha-se Riffel. A companhia também desenvolve programas de educação ambiental para estudantes que visitam a empresa e têm a oportunidade de conhecer “Roxinha”, uma simpática fêmea reprodutora que recebe amigavelmente as pessoas com gemidos agudos.

        Mesmo com todas as pesquisas em andamento, ninguém se permite afirmar categoricamente que o belo lobo-guará está livre do estigma de bicho ameaçado de extinção. Por ora, permanecem as dúvidas: ele deve ou não sair da lista vermelha do Ibama? Sua digna reputação de animal selvagem estará a salvo ou, num futuro próximo, ele pode se transformar num reles vira-lata?

CAPELAS JR., Afonso. Terra, junho/2002, p. 73-76.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 218-220.

Entendendo a reportagem:

01 – Qual é o principal problema enfrentado pelo lobo-guará, de acordo com a reportagem?

      O principal problema é a perda de seu habitat natural, o cerrado, devido ao desmatamento e à expansão da atividade humana. Isso dificulta a sobrevivência, levando-o a se aproximar de áreas habitadas e a revirar lixões em busca de alimento.

02 – Por que alguns biólogos acreditam que a população de lobos-guará está aumentando?

      Acreditam que as aparições frequentes de lobos-guará em áreas habitadas, em busca de comida fácil, causam a falsa impressão de que a população da espécie está crescendo.

03 – Qual é a principal fonte de alimento do lobo-guará?

      Sua principal fonte de alimento é o fruto da lobeira, que corresponde a 50% de sua dieta. No entanto, com a destruição do cerrado, essa fonte de alimento está se tornando cada vez mais rara.

04 – O que o biólogo Rogério Cunha de Paula observou em sua pesquisa sobre os lobos-guará?

      Ele observou a convivência pacífica de um lobo-guará com cães domésticos, o que pode ser perigoso devido ao risco de transmissão de doenças. Além disso, ele flagrou a presença de até quatro lobos adultos juntos, um fato raro para uma espécie que preza a solidão.

05 – Qual é a opinião do diretor do zoológico de Belo Horizonte sobre a retirada do lobo-guará da lista de espécies ameaçadas de extinção?

      Ele é contra a retirada do lobo-guará da lista, pois acredita que ainda não se sabe o suficiente sobre a espécie e que a aproximação do homem ao seu território pode dar a falsa impressão de que sua população está aumentando.

06 – O que faz a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração em seu criadouro de animais do cerrado?

      A empresa estuda o comportamento do lobo-guará em cativeiro, como sua alimentação, reprodução, imunologia e manejo. Muitos exemplares nascidos no criadouro são doados a zoológicos e instituições de pesquisa.

07 – Qual é a principal preocupação dos pesquisadores em relação à possível retirada do lobo-guará da lista de espécies ameaçadas?

      Eles temem que essa decisão seja prematura, já que a espécie ainda enfrenta diversas ameaças, como a perda de habitat e a alteração de seus hábitos naturais.

08 – O que significa a expressão "vira-lata" no contexto da reportagem?

       A expressão "vira-lata" é usada para se referir a cães sem raça definida, que vivem nas ruas e se alimentam de restos de comida. No contexto da reportagem, ela é usada para questionar se o lobo-guará, um animal selvagem, corre o risco de se tornar um animal dependente da presença humana para sobreviver.

09 – Qual é o principal motivo para o lobo-guará estar se aproximando cada vez mais das áreas habitadas por humanos?

      O principal motivo é a falta de alimento em seu habitat natural, o cerrado, que está sendo destruído pelo desmatamento e pela expansão da agricultura.

10 – Qual é a mensagem principal da reportagem sobre o futuro do lobo-guará?

      A reportagem levanta dúvidas sobre o futuro do lobo-guará, questionando se ele deve ou não sair da lista de espécies ameaçadas. A mensagem principal é que a espécie ainda enfrenta diversas ameaças e que é preciso mais pesquisa e estudo para garantir sua sobrevivência.

 

REPORTAGEM: CHARADA NO CAFUNDÓ - VEJA - COM GABARITO

 Reportagem: Charada no Cafundó

        Há cinquenta anos, o menino Otávio Caetano ouviu sua mãe dizer que um “canduro ongambe” ia passar perto do lugarejo onde moravam, na zona rural paulista. A reação da criança foi imediata: correu para se esconder debaixo da cama. Sua atitude seria outra, certamente, se pudesse imaginar que “um carro de fogo”, conforme as palavras da mãe, nada mais era que um inofensivo caminhão. Hoje, com 60 anos e morando no mesmo local, Caetano continua falando aquela língua que aprendeu de seus ancestrais. Define-se, por exemplo, como um “tata vimbundo”, ou seja, um homem preto. E consegue se fazer entender pela maioria dos membros de sua comunidade de quarenta pessoas, habitantes de casebres de pau-a-pique, vizinhos do seu, quando constrói frases como “copopio bato cameria vavuru” – de acordo com sua própria tradução, “eu sei conversar em africano”.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiJrS6zGz6ePG2szfllFF-vlVhu3KI5hS1cA_PX5M4XPS3liGtdAVI4NCW1pOWqTnuZcmPZrVLz_FEuQgLP_Ba-0OQEIYzfJH4LujtJMWZCjMGS8LgmNGp9P6PK5bsOrJ2rsWlmMZnBq_UrSJGhleObjs05ctu_Yg7d3Jla-XPGouuKfI2x7qFnTVKpjHk/s320/CAFUNDO.jpg


        Esse linguajar pode ser ouvido a apenas 140 quilômetros de São Paulo e a 14 município de Salto de Pirapora. Até um mês atrás, o fato não despertara maior atenção = nem mesmo entre os 7000 habitantes de Pirapora, que nada enxergavam de peculiar naquela comunidade rural de fala ininteligível, batizada de Cafundó por ficar fora da zona urbana, em local de acesso um tanto difícil. No mês passado, entretanto, um novo funcionário da Prefeitura de Pirapora publicou um artigo sobre o assunto no diário sorocabano Cruzeiro do Sul. Nas últimas semanas, atraídos por este relato, antropólogos e linguistas começaram de repente a animar a vida de Cafundó. Do ponto de vista científico, realmente, Cafundó pode ser encarado como um fenômeno de rara importância.

        Os cafundoenses garantem que sua língua se originou na África e lhes foi transmitida por seus ascendentes escravos – explicação a que também se inclinam os pesquisadores que os visitaram. “Para se ter uma ideia do valor desse achado”, opina o linguista Maurízio Gnerre, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), “basta lembrar que a última vez que algo semelhante aconteceu foi há setenta anos, quando se descobriu em Minas Gerais uma comunidade em condições parecidas". Com dois outros cientistas da Unicamp – o linguista Carlos Vogt e o antropólogo Peter Fry –, Gnerre deu início a uma pesquisa da fala de Cafundó. Pelo que já pode constatar, ela deriva da língua dos povos bantos, falada, por exemplo, no Congo e em Angola.

        Algumas palavras portuguesas, como não podia deixar de ser, se misturaram aqui e ali à língua. Em todo caso, o linguajar vocábulos ou frases esparsas. "O léxico deles é tão rico”, garante Gnerre, “que, se um habitante de Cafundó fosse colocado hoje numa região africana onde só se fale a língua nativa dos bantos, não tenho a menor dúvida de que ele se faria entender”. Nesse encontro hipotético, o brasileiro poderia se sair com frases como “tata iovacu  anjara vatema varuru massango cu xipoque”, isto é, “estou com vontade de comer arroz com feijão”. Ou então: “ovava cuendá vavuru” – “vai chover”.

        Nem todos de Cafundó dominam tais construções. As crianças compreendem, mas falam com alguma dificuldade. Há, inclusive, os que não entendem coisa alguma, como o pernambucano Virgílio Pedro da Silva, 41 anos, branco, que há meses ocupa, com a mulher e dez filhos, dois cômodos do casebre de Otávio Caetano, na condição de agregado. Uma espécie de líder em Cafundó, Caetano parece apreciar o fato de dispor de uma segunda língua, ao lado do português e inacessível a estranhos. “É o nosso latim”, explica sorridente. E aponta com orgulho para o sobrinho Benedito Norberto, de 43 anos, que já trabalhou num armazém de São Paulo como carregador de sacos. “Ele tem pouca instrução mas fala bem”, diz Caetano, para em seguida verter a frase: “mucanda, nani copopia vavuru”.

        De todo modo, o meio de comunicação dominante termina sendo o português, não apenas pelos contatos obrigatórios com a população de Salto de Pirapora, mas também pela penetração do rádio e da televisão – os aparelhos de rádio, presentes na maioria dos casebres até hoje sem água encanada e luz elétrica; e os programas de televisão assistidos nos bares da cidade. Por essa via, interesses de todo tipo acabam penetrando na vida dos cafundoenses. “Corinthians vavuru no palulé”, comenta, por exemplo, diante do repórter Paulo Azevedo, o jovem torcedor José Orlando, 13 e para quem seu time “é muito bom de bola”. Maria Aparecida, 27 anos, admite ter preferências de outra ordem: “Tarcísio Meira do vissuá vavuru, do casmere vavuru, do flora cafombe, cachitende nani”. Ela explica que seu ídolo “tem olhos bonitos, boca bonita, dentes brancos e não tem mau hálito”. A má dentição, aliás, é um problema generalizado entre os habitantes de Cafundó.

        Mas, afinal, como essa comunidade se estabeleceu nos 28 alqueires nos quais se espalham hoje suas casas, distantes algumas centenas de metros umas das outras? Histórias contadas pelos moradores de Cafundó falam de uma doação de terras a escravos alforriados por um velho senhor benevolente, algumas vezes lembrado como “sinhô Leme” e outras como “sinhô Almeida”. Essa  versão não convence plenamente a professora Suely Reis de Queirós, do Departamento de História da Universidade de São Paulo. De acordo com Suely, não era nada comum um senhor dar terra a escravos.

        Um quilombo, talvez? Também improvável, na opinião da historiadora. “Aqui em São Paulo a repressão aos quilombos era tão violenta que eles nunca conseguiam se instalar por muito tempo num lugar”. E como se terá mantido a língua em meio à inevitável influencia dos vizinhos? Afinal, não se tem notícia de nenhuma outra comunidade de língua africana no Brasil de hoje. Decifrar satisfatoriamente a gênese de Cafundó apresenta-se assim como tarefa complexa – o que, naturalmente, só serve para aumentar o interesse dos pesquisadores.

Veja, 26/4/78, p. 71.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 214-216.

Entendendo a reportagem:

01 – Qual é a língua falada na comunidade de Cafundó e qual a sua origem?

      Em Cafundó, fala-se uma língua de origem africana, provavelmente derivada dos povos bantos, com algumas palavras em português misturadas. Os moradores acreditam que a língua foi transmitida a eles por seus ancestrais escravos.

02 – Onde fica localizada a comunidade de Cafundó e qual a sua peculiaridade?

      Cafundó está localizada a apenas 140 quilômetros de São Paulo e a 14 quilômetros do município de Salto de Pirapora. A peculiaridade da comunidade é a sua língua, ininteligível para quem não a conhece, o que a torna um fenômeno de rara importância para pesquisadores.

03 – O que despertou o interesse de antropólogos e linguistas por Cafundó?

      O interesse de antropólogos e linguistas por Cafundó foi despertado por um artigo publicado no diário sorocabano Cruzeiro do Sul por um novo funcionário da Prefeitura de Pirapora. O artigo revelou a existência da comunidade e sua língua peculiar.

04 – Qual a importância de Cafundó do ponto de vista científico?

      Do ponto de vista científico, Cafundó é um fenômeno de rara importância. A descoberta de uma comunidade com uma língua de origem africana, falada por seus descendentes de escravos, é um evento raro que pode fornecer informações valiosas sobre a história da linguagem e da cultura afro-brasileira.

05 – O que dizem os pesquisadores sobre a língua de Cafundó?

      Os pesquisadores que visitaram Cafundó, como o linguista Maurizio Gnerre, da Unicamp, confirmam que a língua falada na comunidade deriva da língua dos povos bantos, falada em países como Congo e Angola. Gnerre afirma que o léxico da língua é tão rico que um habitante de Cafundó seria capaz de se fazer entender em uma região africana onde se fale a língua nativa dos bantos.

06 – Como a língua de Cafundó é utilizada na comunidade?

      A língua de Cafundó é utilizada principalmente pelos membros mais velhos da comunidade. As crianças compreendem a língua, mas têm dificuldade em falá-la. Alguns moradores, como o pernambucano Virgílio Pedro da Silva, não entendem a língua. Apesar disso, o líder da comunidade, Otávio Caetano, valoriza a língua como um "latim" próprio, inacessível a estranhos.

07 – Qual o meio de comunicação dominante em Cafundó?

      O meio de comunicação dominante em Cafundó é o português, devido aos contatos com a população de Salto de Pirapora e à penetração do rádio e da televisão na comunidade.

08 – Como a comunidade de Cafundó se estabeleceu no local onde vive hoje?

      As histórias contadas pelos moradores de Cafundó falam de uma doação de terras a escravos alforriados por um senhor benevolente. No entanto, essa versão não convence plenamente a professora Suely Reis de Queirós, do Departamento de História da Universidade de São Paulo, que questiona a probabilidade de um senhor dar terras a escravos.

09 – Qual a hipótese levantada por Suely Reis de Queirós para explicar a origem de Cafundó?

      Suely Reis de Queirós levanta a hipótese de que Cafundó possa ter sido um quilombo, mas também considera essa hipótese improvável, devido à violenta repressão aos quilombos em São Paulo.

10 – Qual o principal desafio dos pesquisadores em relação a Cafundó?

      O principal desafio dos pesquisadores é decifrar satisfatoriamente a gênese de Cafundó, ou seja, entender como a comunidade se formou, como a língua africana foi preservada ao longo do tempo e como a comunidade resistiu à influência dos vizinhos.

 

REPORTAGEM: OBESIDADE MUDA OFERTA DE COMIDA NO MUNDO - ROBERTO DIAS - COM GABARITO

 Reportagem: Obesidade muda oferta de comida no mundo

          Problema, causa prejuízo anual de US$ 117 bilhões nos EUA, leva companhias alimentícias a rever seus produtos.

Roberto Dias

        O crescimento da obesidade começa a mudar significativamente a oferta de comida pelo mundo.

        Após anos concentrada na demanda – ou seja, em educação alimentar das pessoas –, a pressão passa agora para o outro lado.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjjEJgnmSErHE43tHHGJYB035tAN60azIgRHEe0q7v5fKDP_9USqBygOlYql6pQfauleIi4fOELRsjxBrspnRcpMYySTy8jfbsUGSfB3ivnm-ibNqOMkN0nMSC_TgEtpZcCMHFiQ6sP7JUFDyUie-xSCxCupTibkJlS4BMIq0Oxrs4lkkBmQn8wwWYLXhM/s1600/COMIDA.jpg


        A reviravolta ganhou forma com o anúncio feito na última semana pela Kraft, líder americana no setor alimentício e segunda maior empresa do tipo no mundo. A companhia vai estabelecer um teto para o tamanho das porções que vende. Irá reestudar o conteúdo de alguns produtos, de forma a torná-los menos calóricos. Cessará todo o programa de marketing dentro das escolas.

        Enquanto outras empresas trilham os passos da Kraft, autoridades públicas e organizações internacionais introduzem barreiras à oferta de comida.

        A revolução começa já no próximo ano letivo nas escolas públicas de Nova York, o maior sistema civil de alimentação dos EUA. Pizzas e nuggets vão encolher, doces irão sumir, assim como os refrigerantes, que serão tirados das máquinas de alimentação.

        Um deputado nova-iorquino apresentou uma proposta para que se cobre 1% do faturamento com comidas gordurosas e os gastos em sua publicidade. Na Califórnia, a ideia é taxar refrigerantes e repassar o dinheiro a escolas que deixem de vendê-los. Já a Associação Médica Britânica propôs recentemente imposto de 17,5% sobre comidas gordurosas.

        A OMS (Organização Mundial de Saúde) encerrou em junho uma rodada de reuniões com associações empresariais do setor. Vai condensar o debate numa estratégia global de alimentação.

        "A magnitude e a velocidade do aumento da epidemia horrorizam autoridades de saúde; os custos serão estonteantes. E a ameaça de processos, novas leis e hostilidade pública assustam as empresas", afirma Marion Nestlé, professora de nutrição da New York University e autora de livro sobre o tema.

        Especificamente, o anúncio mundial da Kraft é emblemático da discussão em andamento agora. Controlada pela Altria (ex-Philip Morris), gigante do setor de tabaco, ela diz que tomou tal decisão porque quer participar da reação ao problema de peso.

        "Queremos ser responsáveis e dar uma resposta à questão global da obesidade", diz Jonathan Atwood, porta-voz da empresa.

        "Queremos deixar claro que o que nós vendemos e como vendemos é feito responsavelmente em relação à maneira que as pessoas comem e à questão do peso", afirma Atwood.

        Processos judiciais

        Mas o anúncio foi seguido por intermináveis comparações entre a situação atual do setor de alimentos e a da indústria de tabaco na década passada, quando foi alvo de processos judiciais e novas regulamentações.

        "O crescimento da obesidade a proporções epidêmicas é motivo de séria preocupação para a indústria de alimentos", escreveram analistas do banco JP Morgan em relatório. "Dado o custo humano do mal, acreditamos que os governos não poderão ignorar a pressão de organizações de saúde para agir. Fabricantes de comida correm o risco de aumento nas regulações. Também acreditamos que os riscos de processos não devem ser subestimados. A indústria vai ter que rever seu marketing e se transformar."

        As empresas rebatem apontando a liberdade dos consumidores em fazer o que querem e pregam a necessidade de reeducação física e alimentar, algo repetido há anos por médicos. Do ponto de vista das empresas, o problema é que a tentativa de regular a demanda não tem contido o problema.

        "A obesidade está se tornando um problema em países como China e Índia, que eram tradicionalmente tão pobres que ninguém ficava gordo. A comida ficou tão barata que qualquer pessoa pode engordar se não tiver um trabalho que exija muita atividade física", diz Jack Calfee, do American Enterprise Institute.

        A estimativa da OMS é que os obesos somem mais de 300 milhões pelo mundo, sendo 115 milhões em países subdesenvolvidos – tradicionalmente mais preocupados com o problema oposto, a subnutrição. Doenças relacionadas ao excesso de peso representam 59% das 56,5 milhões de mortes anuais no globo.

        Nos EUA, o problema já foi declarado "epidêmico" pelo governo. Em 20 anos, a obesidade dobrou entre os adultos. A perspectiva para o futuro é pior ainda, já que os índices crescem mais rápido ainda entre as crianças – no mesmo período, triplicaram.

        Estudo do Harvard Institute of Economic Research mostra que, no período, o maior crescimento no consumo de calorias se deu nos lanches – campo dominado por produtos industrializados.

        Segundo o governo, 61% dos americanos estão acima do peso, e 27% deles são obesos (ou seja, com índice de massa corpórea a partir de 30). Há mais gente sofrendo com a balança do que fumando diariamente ou enfrentando problemas de alcoolismo.

        Por ano, o prejuízo nos EUA por causa da obesidade é de US$ 117 bilhões (pouco menos que todo o PIB do Peru, por exemplo). O número incluiu as perdas econômicas com mortes precoces, queda de produtividade e investimento extra em saúde. Levantamento da Rand Corporation indica que obesos gastam 77% mais em medicamentos do que quem não tem problemas de peso.

        Frase

        “A magnitude e a velocidade do aumento da epidemia horrorizam autoridades de saúde; os custos serão estonteantes. E a ameaça de processos, novas leis e hostilidade pública assustam as empresas”.

Marion Nestlé. Professora de nutrição da NYU.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 222-223.

Entendendo a reportagem:

01 – Qual é o principal problema abordado na reportagem?

      A reportagem aborda o crescimento da obesidade como um problema global que está levando empresas e autoridades a repensarem a oferta de alimentos.

02 – Qual é a principal mudança observada na abordagem do problema da obesidade?

      A principal mudança é que, além da educação alimentar, a pressão agora se concentra na oferta de alimentos, com empresas e órgãos públicos introduzindo medidas para limitar o tamanho das porções, reduzir o teor calórico dos produtos e restringir o marketing de alimentos não saudáveis.

03 – Que medidas a Kraft, líder americana no setor alimentício, anunciou que irá adotar?

      A Kraft anunciou que irá estabelecer um teto para o tamanho das porções que vende, reestudar o conteúdo de alguns produtos para torná-los menos calóricos e cessar todo o programa de marketing dentro das escolas.

04 – Que tipos de medidas estão sendo introduzidas por autoridades públicas e organizações internacionais para combater a obesidade?

      Autoridades públicas e organizações internacionais estão introduzindo barreiras à oferta de comida, como a restrição de alimentos não saudáveis em escolas, a proposta de taxar alimentos gordurosos e seus anúncios, e a criação de uma estratégia global de alimentação pela OMS.

05 – Qual é a preocupação da professora de nutrição Marion Nestlé em relação à obesidade?

      Marion Nestlé destaca a magnitude e a velocidade do aumento da epidemia de obesidade, que horrorizam autoridades de saúde, e os custos estonteantes que ela acarretará. Além disso, ela menciona a ameaça de processos, novas leis e hostilidade pública que assustam as empresas do setor alimentício.

06 – Qual é a justificativa da Kraft para tomar medidas para combater a obesidade?

      A Kraft afirma que tomou essa decisão porque quer participar da reação ao problema de peso e se mostrar responsável em relação à maneira como vende seus produtos e à questão da obesidade.

07 – Que comparação é feita na reportagem entre a situação atual do setor de alimentos e a da indústria de tabaco no passado?

      A reportagem compara a situação atual do setor de alimentos, que enfrenta processos judiciais e novas regulamentações devido à obesidade, com a situação da indústria de tabaco na década passada, quando passou por problemas semelhantes.

08 – Qual é a opinião das empresas do setor alimentício em relação à necessidade de combater a obesidade?

      As empresas defendem a liberdade dos consumidores em fazer o que querem e pregam a necessidade de reeducação física e alimentar, argumentando que a tentativa de regular a demanda não tem sido suficiente para conter o problema da obesidade.

09 – Qual é a estimativa da OMS em relação ao número de obesos no mundo?

      A estimativa da OMS é que os obesos somem mais de 300 milhões pelo mundo, sendo 115 milhões em países subdesenvolvidos.

10 – Qual é o prejuízo anual nos EUA por causa da obesidade, de acordo com a reportagem?

      De acordo com a reportagem, o prejuízo anual nos EUA por causa da obesidade é de US$ 117 bilhões, incluindo perdas econômicas com mortes precoces, queda de produtividade e investimento extra em saúde.