sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

ROMANCE: A GRANDE ARTE - CAP. I - (FRAGMENTO) - RUBEM FONSECA - COM GABARITO

 Romance: A grande arte – Cap. I – Fragmento

                Rubem Fonseca

        Caminhei pelo canal do Mangue até encontrar um táxi.  A água poluída do canal exalava um odor desagradável.  Da janela do táxi fiquei olhando os outdoors colocados nos espaços abertos pela demolição das casas: cigarros, televisores, automóveis.

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        Logo que cheguei, Wexler, o meu sócio, entrou na minha sala.

        "Está aqui uma dona com uma história esquisita. Cheguei a pensar que era ruim da cabeça. Vem conversar com ela."

        Sentada no sofá da sala do Wexler, olhava para as unhas. Uma mulher de pouco mais de vinte anos, com duas rodelas fortes de blush sobre os zigomas disfarçando sua cor pardacenta. Chamava-se Gisela.

        "Este aqui é o meu sócio. Conta para ele o caso que você me contou."

        Ela olhou para as unhas.

        Esperamos.

        "Eu já contei para o senhor."

        "Bem", disse Wexler, "ela está sendo ameaçada, não é isso?, por um homem cujo nome  não sabe."

        "O nome dele é Francês."

        "Você disse que não sabia o nome."

        "Foi esse o nome que a Danusa deu."

        "Quem é Danusa?"

        "Minha amiga, que levou ele lá em casa.  Ela tem um gabinete no Santos Vallis, na Senador Dantas."

        "E por que ele está ameaçando você?"  A mulher, além de lacônica, não deixava de olhar para as unhas. Usava um esmalte vermelho. A palavra que veio na minha cabeça foi carmesim.

        Esperamos. É preciso paciência para fazer as pessoas falarem.

        "Eu tenho uma coisa dele."

        "Ele ameaçou você porque você tem alguma coisa dele e não devolve. É isso?"

        "É."

        "E por que você não devolve?"

        "Tenho medo."

        "Que coisa é essa?  Um objeto, dinheiro, o quê?" 

        "Uma fita de videocassete."

        "Tem o que nessa fita?"

        "Não sei. Eu não tenho aparelho para ver."

        "O cassete é dele. Devolve e pronto, encerra o assunto", disse Wexler.

        "Estou com medo.  Quando liguei para dizer que estava com o cassete ele disse que eu era uma louca, que eu tinha visto o que não podia ver." 

        "O que esse Francês foi fazer na sua casa?" 

        Esperamos.

        "Bem..."

        Esperamos

        "Bem, eu sou massagista." Pausa. "Formada, registrada. Ele foi lá em casa, no gabinete, com a Danusa. E esqueceu essa caixa preta. Depois ligou todo nervoso."

        Wexler olhou para mim e fez a cara de desencanto com a  humanidade  que    os  judeus  sabem  fazer.  "E você pediu dinheiro a ele para devolver a caixa que você abriu e viu que tinha uma fita de videocassete dentro."

        Olhando para as unhas ela balançou a cabeça afirmativamente.

        "Minha senhora, nós não trabalhamos para chantagistas", disse Wexler.  "Não há nada que possamos ou queiramos fazer pela senhora."

        Pela primeira vez ela levantou o rosto e olhou para nós. Estava com medo, sim. Não tinha inteligência suficiente para fingir tão bem.

        "Quem mandou você aqui?"

        "Foi a Míriam.  Ela disse que vocês podiam me ajudar." 

        "Não podemos."

        Da porta ela olhou para nós pela última vez.  Mas não era de falar muito. Saiu calada. Sucumbida.

        "Sucumbida nada. Você não consegue ter uma atitude firme quando se trata de mulher. Além do mais não podemos perder nosso tempo com coisas tão ordinárias", disse Wexler.

        Pelo nosso escritório haviam passado criminosos e inocentes de todos os tipos.

        Gisela era um dos mais inexpressivos, entre todos. Poucas horas depois eu já me havia esquecido de que ela existia. À tarde, d.  Sônia, a secretária, me disse que um homem chamado Roberto Mitry queria falar comigo.

        Devia ter uns quarenta anos e vestia-se da maneira que os ricos julgam ser refinada e negligente.

        "O assunto que me traz aqui diz respeito a um objeto de minha propriedade que está em poder de uma cliente sua."

        "Cliente minha?" Eu havia realmente esquecido de Gisela.

        "Receio que ela, dona Gisela, a sua cliente, por eu ser um esportista, um homem da sociedade, meu nome nas colunas, ao saber quem eu sou, queira..."

        Esperei.

        "Os pobres..."

        Esperei.

        "Os pobres são fascinados pelas pessoas bem-situadas.  São eles os consumidores das colunas sociais."

        "E os ricos."

        "Estamos numa democracia. E os ricos, vá lá. Acho justo que todos tenham a mesma oportunidade." Mitry fingiu que bocejava. Parecia ter alguma coisa na boca. Seus maxilares moviam-se lentamente.

        "Tudo tão cansativo." Outro bocejo.

        "O senhor pode esperar um momento?"

        Fui falar com o Wexler.

        "Está na minha sala um sujeito chamado Mitry, que creio ser o tal Francês, mencionado pela moça que esteve aqui hoje de manhã. Ela disse a ele que era nossa cliente."

        "Eu vi que era uma mulher mentirosa. Diga isso a ele."

        "Você não quer ver o cara? É uma figura. Cheio de balangandâs de ouro."

        Apresentei Wexler ao sujeito. Wexler foi direto ao assunto.

        "Essa senhora não é nossa cliente. Veio aqui, dizendo que tinha um objeto seu, um videocassete, e que se sentia ameaçada pelo senhor."

        "É mentira. É mentira. Eu não a ameacei." Dissimuladamente Mitry colocou algo na boca. Mastigou de leve. Engoliu a saliva em pequenos goles.

        "Para falar a verdade, quem se sente ameaçado sou eu."

        "Por ela?"

        "Não, por ela não. Tenho razões, ou melhor, certos feelings que me permitem... Acho que estou correndo riscos, que estão me seguindo."

        Eu estava acostumado com a paranóia das pessoas. "Podia explicar melhor?"

        "Não. É uma intuição. Não tenho inimigos, entendem, mas me sinto ameaçado. É uma coisa subjetiva, reconheço. Gostaria que acreditassem em mim."

        Ficamos todos calados algum tempo. Acendi um Panatela. O Panatela escuro da Suerdieck faz uma cinza grafite, pode ser fumado a qualquer hora, não é como os charutos cubanos que devem ser  fumados com o estômago cheio. O Pimentel número dois, outro dos meus favoritos, é ordinário e fedorento, impregna com seu odor ofensivo cortinas, sofás e os vestidos das moças. Os americanos fabricam um charuto verde que já vem com um furinho.

        "Gostaria de ter os senhores como meus advogados", disse Mitry, afinal.

        "Para quê?" Wexler.

        "Estou sendo vítima de uma chantagem. E sei que o senhor é um profissional muito competente, informei-me antes de vir aqui." Mitry fez um gesto em minha direção.

        "Sou uma blue-chip", eu disse. Ele me dava a impressão de ser um daqueles sujeitos que enriqueceram manobrando na Bolsa.

        Mitry sorriu. "Estou disposto a me desfazer de parte das minhas para pagar o seu preço. E o dos outros, os extras envolvidos. Preço, não, desculpe, como é que vocês dizem?"

        "Honorários." Wexler.

        "Honorários." Ele riu. Eu e Wexler trocamos olhares.

        "Está bem. O senhor vai nos dar uma procuração. Vamos tentar resolver o caso sem interferência da polícia."

        "Não telefone nem se comunique de qualquer outra forma com essa mulher", disse Wexler.

        "É um prazer tê-lo como advogado, doutor Mandrake. Posso chama-lo pelo sobriquet?"

        "Como quiser." O telefone tocou. Era Ada.

        "Hoje faz um ano", disse Ada.

        "Eu gostaria de recuperar logo o cassete", disse Mitry para Wexler.

        "Lembra do primeiro dia?", perguntou Ada.

        "Se necessário, solicitaremos auxílio da polícia", disse Wexler.

        "Polícia não, não por enquanto", disse Mitry.

        Eu me lembrava do primeiro dia: [...].

FONSECA, Rubem. A grande arte. São Paulo: Círculo do livro, 1983, p. 10-13.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 504-507.

Entendendo o romance:

01 – Qual é o nome do protagonista e qual é a sua profissão?

      O nome do protagonista não é mencionado neste fragmento. Ele é sócio de um escritório de advocacia, como é evidenciado pela interação com Wexler.

02 – Quem é Wexler e qual é o papel dele na história?

      Wexler é o sócio do protagonista no escritório de advocacia. Ele é quem apresenta Gisela ao protagonista e participa da interação com Roberto Mitry.

03 – Quem é Gisela e por que ela procura o escritório de advocacia?

      Gisela é uma mulher que procura o escritório de advocacia com uma história de ameaças e chantagem envolvendo um vídeo cassete. Ela alega estar sendo ameaçada por um homem chamado Francês.

04 – Qual é o objeto de discórdia entre Gisela e o Francês?

      O objeto de discórdia é uma fita de vídeo cassete que Gisela possui e que o Francês (Roberto Mitry) deseja recuperar.

05 – Por que Gisela tem medo de devolver a fita para o Francês?

      Gisela tem medo porque o Francês a ameaçou, dizendo que ela tinha visto o que não devia na fita. Ela teme que a fita contenha algo comprometedor ou perigoso.

06 – Quem é Roberto Mitry e por que ele procura o escritório de advocacia?

      Roberto Mitry é o homem que Gisela chama de Francês. Ele é um esportista e figura socialmente conhecida, que procura o escritório de advocacia para reaver a fita e se defender de uma suposta chantagem.

07 – Qual é a versão de Roberto Mitry sobre o caso da fita de vídeo cassete?

      Roberto Mitry alega que está sendo vítima de chantagem por parte de Gisela e que ele é quem se sente ameaçado, não o contrário. Ele menciona ter "intuições" de que está sendo seguido e correndo riscos.

08 – Por que Roberto Mitry contrata o escritório de advocacia?

      Roberto Mitry contrata o escritório de advocacia para que eles o ajudem a reaver a fita de vídeo cassete sem precisar envolver a polícia, evitando assim escândalos que possam prejudicá-lo.

09 – Qual é a opinião do protagonista sobre Gisela e Roberto Mitry?

      O protagonista tem uma opinião negativa sobre Gisela, considerando-a uma pessoa inexpressiva e pouco confiável. Ele também demonstra ceticismo em relação a Roberto Mitry, achando-o afetado e pouco convincente.

10 – Que tipo de serviço o escritório de advocacia se propõe a fazer para Roberto Mitry?

      O escritório de advocacia se propõe a resolver o caso da fita de vídeo cassete de forma discreta, sem envolver a polícia, utilizando seus conhecimentos e habilidades para negociar com Gisela e reaver o objeto para seu cliente.

 

POESIA: DESCOBRIMENTO - MÁRIO DE ANDRADE - COM GABARITO

 Poesia: Descobrimento

             Mário de Andrade

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi_uzm90mkO1A9gCI_BLtJxb2lkiRRrFj4YxZIjzFgezyVsK3xmkOvRfRsJDirAlTwXWfPG8-UdTi_wukCJXYUVeP8T8zv6FuJ7kd-NYK4QvGLCQ-WMWGY6K05hKjwzSclYyvk9Fscy6Tfhyphenhyphen-hOuLE_VqrSGhbvUREF9zovypns2IwahQCGOCqs3dEDtxY/s320/Casa_Mario_de_Andrade_1.jpg


Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

ANDRADE, Mário de. Poesias completas. 3. ed. São Paulo: Martins Editora & Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1972, p. 150.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 490.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é o sentimento predominante no poema?

      O poema expressa um sentimento de melancolia e distanciamento. O eu lírico, em São Paulo, sente um "friúme por dentro" ao se lembrar de um homem brasileiro no Norte do país, distante de sua realidade.

02 – Que contraste é estabelecido no poema?

      O poema contrasta a vida do eu lírico em São Paulo, na "rua Lopes Chaves", com a vida de um trabalhador no Norte do Brasil. Enquanto o primeiro está "abancado à escrivaninha", o segundo, após um dia de trabalho árduo com borracha, "faz pouco se deitou, está dormindo".

03 – Qual é a importância do homem do Norte no poema?

      O homem do Norte representa a figura do brasileiro anônimo, trabalhador e distante dos centros urbanos. Sua presença no poema serve para despertar no eu lírico um sentimento de conexão e identificação, apesar da distância física e social.

04 – Como o poema aborda a questão da identidade nacional?

      Ao se referir ao homem do Norte como "brasileiro que nem eu", o poema levanta a questão da identidade nacional para além das diferenças regionais e sociais. O eu lírico reconhece no trabalhador do Norte um compatriota, um igual, com quem compartilha uma identidade brasileira comum.

05 – Qual é a linguagem utilizada no poema?

      A linguagem do poema é simples e direta, com versos livres e tom coloquial. Mário de Andrade utiliza expressões como "livro palerma" e "de supetão" para criar uma atmosfera de intimidade e proximidade com o leitor.

 

 

CONTO: PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM - O BANHO - (FRAGMENTO) - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

 Conto: Perto do coração selvagem O banho – Fragmento

             Clarice Lispector

        [...]

        O tio e a tia já estavam à mesa. Mas a quem deles ela diria: tenho cada vez mais força, estou crescendo, serei moça? Nem a eles, nem a ninguém. Porque também a nenhum poderei perguntar: diga-me, como são as coisas? e ouvir: também não sei, como o professor respondera. O professor ressurgiu à sua frente como no último instante, inclinado para ela, assustado ou feroz, não o sabia, mas recuando, isso, recuando. A resposta, sentiu, não importava tanto. O que valia era que a indagação fora aceita, podia existir. Sua tia retrucaria, surpresa: que coisas? E se chegasse a entender, certamente diria: são assim, assim e assim. Com quem Joana falaria agora das coisas que existem com a naturalidade com que se fala das outras, das que estão apenas?

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        Coisas que existem, outras que apenas estão... Surpreendeu-se com o pensamento novo, inesperado, que viveria dagora em diante como flores sobre o túmulo. Que viveria, que viveria, outros pensamentos nasceriam e viveriam e ela própria estava mais viva. A alegria cortou-lhe o coração, feroz, iluminou-lhe o corpo. Apertou o copo entre os dedos, bebeu água com os olhos fechados como se fosse vinho, sangrento e glorioso vinho, o sangue de Deus. Sim, a nenhum deles explicaria que tudo mudava lentamente... Que ela guardara o sorriso como quem apaga finalmente a lâmpada e resolve deitar-se. Agora as criaturas não eram admitidas no seu interior, nele fundindo-se. As relações com as pessoas tornavam-se cada vez mais diferentes das relações que mantinha consigo mesma. A doçura da infância desaparecia nos seus últimos traços, alguma fonte estancava para o exterior e o que ela oferecia aos passos dos estranhos era areia incolor e seca. Mas ela caminhava para frente, sempre para a frente como se anda na praia, o vento alisando o rosto, levando para trás os cabelos.

        Como entregar-lhes: é a segunda vertigem num só dia? mesmo que ardesse por confiar o segredo a alguém. Porque ninguém mais na sua vida, ninguém mais talvez haveria de lhe dizer, como o professor: vive-se e morre-se. Todos esqueciam, todos só sabiam brincar. Olhou-os. Sua tia brincava com uma casa, uma cozinheira, um marido, uma filha casada, visitas. O tio brincava com trabalho, com uma fazenda, com jogo de xadrez, com jornais. Joana procurou analisá-los, sentindo que assim os destruiria. Sim, gostavam-se de um modo longínquo e velho. De quando em quando, ocupados com seus brinquedos, lançavam-se olhares inquietos, como para se assegurarem de que continuavam a existir. Depois retomavam a morna distância que diminuía por ocasião de algum resfriado ou de um aniversário. Dormiam juntos certamente pensou Joana sem prazer na malícia.

        A tia estendeu-lhe o prato de pão em silêncio. O tio não levantava os olhos do prato.

        A comida era uma das grandes preocupações da casa, continuou Joana. À hora das refeições, os braços apoiados pesadamente sobre a mesa, o homem se alimentava arfando ligeiramente, porque sofria do coração, e enquanto mastigava, algum farelo esquecido fora da boca, seu olhar se fixava vidrado em qualquer ponto, a atenção voltada às sensações interiores que a comida lhe produzia. A tia cruzava os pés sob a cadeira, e, as sobrancelhas franzidas, comia com uma curiosidade que se renovava a cada garfada, o rosto rejuvenescido e móvel. Mas por que hoje não se abandonavam nas cadeiras? Por que cuidavam de não chocar os talheres, como se alguém estivesse morto ou dormindo? Sou eu, adivinhou Joana.

        Ao redor da mesa escura, sob a luz enfraquecida pelas franjas sujas do lustre, também o silêncio se sentara nessa noite. Joana em momentos parava para ouvir o ruído das duas bocas mastigando e o tic-tac leve e nervoso do relógio. Então a mulher erguia os olhos e imobilizada com o garfo na mão, esperava ansiosa e humilde. Joana desviava a vista, vitoriosa, abaixava a cabeça numa alegria profunda que inexplicavelmente vinha misturada a um aperto doloroso na garganta, a uma impossibilidade de soluçar.

        — Armanda não veio? — a voz de Joana apressou o tic-tac do relógio, fez nascer um súbito e rápido movimento na mesa.

        Os tios se entreolharam furtivamente. Joana respirou alto: tinha medo dela, pois?

        — O marido de Armanda hoje não está de plantão, por isso ela não veio jantar aqui, respondeu finalmente a tia. E de repente, satisfeita, pôs-se a comer. O tio mastigava mais depressa. O silêncio voltou sem dissolver o murmúrio longínquo do mar. Eles não tinham coragem, então.

        — Quando é que eu vou para o internato? — perguntou Joana.

        A terrina de sopa escorregou das mãos da tia, o caldo escuro e cínico espalhou-se rapidamente pela mesa. O tio abandonou os talheres sobre o prato, o rosto angustiado.

        — Como sabe que..., balbuciou confuso...

        Ela escutara à porta...

        A toalha embebida fumegava docemente como restos de um incêndio. Imóvel e fascinada como diante de algo irremediável, a mulher fitava a sopa derramada que esfriava rapidamente.

        [...]

LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem, 15. Ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990, p. 73-76.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 494-495.

Entendendo o conto:

01 – Qual é a principal preocupação de Joana no trecho?

      Joana está preocupada com a sua transição da infância para a adolescência e com a sua crescente dificuldade de se comunicar com os outros, especialmente com seus tios. Ela sente que ninguém a entende e que suas perguntas existenciais não encontram respostas.

02 – O que representa a figura do professor para Joana?

      O professor representa um momento de validação para Joana. Ele a encoraja a questionar e a buscar suas próprias respostas, mesmo que ele mesmo não as tenha. A resposta em si não é tão importante, mas sim a possibilidade de fazer a pergunta.

03 – Como Joana se sente em relação aos seus tios?

      Joana se sente distante e incompreendida por seus tios. Ela os vê como pessoas que se contentam com brinquedos superficiais (casa, casamento, trabalho) e que evitam confrontar as questões mais profundas da vida. Joana sente que eles não têm coragem de encarar a realidade da vida e da morte.

04 – Qual é o significado da sopa derramada na mesa?

      A sopa derramada simboliza a tensão e o desconforto na relação entre Joana e seus tios. É um momento de quebra da formalidade e de revelação de sentimentos reprimidos. A reação dos tios à sopa derramada mostra a fragilidade e a superficialidade de suas relações.

05 – Por que Joana tem medo de Armanda?

      O conto não explica explicitamente por que Joana tem medo de Armanda. No entanto, podemos inferir que Armanda representa um mundo adulto que Joana teme e do qual se sente excluída. A reação dos tios ao medo de Joana revela a fragilidade e a falta de comunicação na família.

06 – O que significa a pergunta de Joana sobre o internato?

      A pergunta de Joana sobre o internato revela sua intuição de que algo está para mudar em sua vida. Ela sente que está se distanciando de seus tios e que seu futuro pode estar em outro lugar. A reação dos tios à pergunta de Joana confirma suas suspeitas e intensifica a tensão na mesa.

07 – Qual é a importância do silêncio no conto?

      O silêncio é um elemento importante no conto, pois ele representa a falta de comunicação e a dificuldade de expressão dos sentimentos. O silêncio na mesa de jantar é opressor e revela a tensão entre os personagens. O tic-tac do relógio e o barulho da mastigação enfatizam o silêncio e criam uma atmosfera de desconforto.

 

POESIA: TERCEIRA ELEGIA - (FRAGMENTO) - CARPINEJAR - COM GABARITO

 Poesia: TERCEIRA ELEGIA – Fragmento

             Carpinejar

Estive sempre de pé no ônibus, espremido entre o ferro
da cadeira e o rumor dos passageiros.
Educado a ser o último, cedi o lugar a gestantes e idosos.
Estive sempre de pé no ônibus, me defendendo
ao largo do corrimão de tantos rumos,
alianças e ponteiros com paradas diferentes.
E o brado irritante do cobrador ainda a exigir
um passo à frente.

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O fato de não ter sido é mais trabalhoso
do que a fama. Prossegui a me imaginar,
sondando o que poderia ter vivido.
Disperso, anônimo, no comício do mar
e nas trevas.

Diminuindo o risco, reduzimos a possibilidade
de nos libertar. O medo, o medo, o medo
é o que nos faz escolher.

Descobre-se um amor
na iminência de perdê-lo.

Fabrício Carpinejar. Terceira Elegia. In: Terceira Sede. Escrituras, São Paulo, 2001.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 496.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é a principal imagem que o poema evoca?

      A principal imagem é a do indivíduo de pé no ônibus, espremido e em movimento constante. Essa imagem representa a jornada da vida, com seus desafios, rumos incertos e a necessidade de seguir em frente.

02 – O que significa a expressão "educado a ser o último"?

      Essa expressão reflete a ideia de priorizar os outros, de ceder espaço e oportunidades. O eu lírico foi ensinado a ser gentil e cortês, colocando as necessidades dos outros acima das suas.

03 – Qual é a reflexão central do poema?

      A reflexão central é sobre as escolhas e o medo. O poema explora a tensão entre a segurança de evitar riscos e a possibilidade de se libertar e viver plenamente. O medo é apontado como um fator determinante nas escolhas, muitas vezes limitando o potencial de transformação e liberdade.

04 – Como o poema aborda a questão do amor?

      O poema traz uma visão interessante sobre o amor, revelando que ele se torna mais evidente e valioso quando estamos prestes a perdê-lo. A iminência da perda aguça a percepção e o reconhecimento do amor.

05 – Qual é a linguagem utilizada no poema?

      A linguagem é direta e reflexiva, com versos livres e um tom introspectivo. Carpinejar utiliza metáforas e expressões poéticas para transmitir suas ideias de forma concisa e impactante.

 


 

 

CONTO: DOIS IRMÃOS - (FRAGMENTO) - MILTON HATOUM - COM GABARITO

 Conto: Dois irmãos – Fragmento

            Milton Hatoum

        [...]

        Quando Yaqub chegou ao Líbano, o pai foi buscá-lo no Rio de Janeiro. O cais Pharoux estava apinhado de parentes de pracinhas e oficiais que regressaram da Itália. Bandeiras brasileiras enfeitavam o balcão e a varanda dos apartamentos da Glória, rojões espocavam no céu, e para onde o pai olhava havia sinais de vitória. Ele avistou o filho no portaló do navio que acabara de chegar a Marselha. Não era mais o menino, mas o rapaz que passara cinco dos seus dezoito anos no sul do Líbano. O andar era o mesmo: passos rápidos e firmes que davam ao corpo um senso de equilíbrio e uma rigidez impensável no andar do outro filho, o Caçula.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEguuFBGR-cfIqK-4gtQT6tqp8c8fw7sLgtYTqputG1CaNf6NK8yakVu3zg58nkMGMOPTrqpCo7KWcaMkptRhAXiJoUppTusVCMqswDQQJvXywxFocpf0i-4-5hhyTo1npypRfqStFI6sZP5V3Yu48Dyo36gnq3SvqS1xyOUQ8kT11KwhPFlDyJ73VFe6m0/s320/LIBANO.png


        Yaqub havia esticado alguns palmos. E à medida que se aproximava do cais, o pai comparava o corpo do filho recém-chegado com a imagem que construíra durante os anos da separação. Ele carregava um farnel de lona cinza, surrado, e debaixo do boné verde os olhos graúdos arregalaram com os vivas e a choradeira dos militares da Força Expedicionária Brasileira.

        Halim acenou com as duas mãos, mas o filho demorou a reconhecer aquele homem vestido de branco, um pouco mais baixo do que ele. Por pouco não esquecera o rosto do pai, os olhos do pai e o pai por inteiro. Apreensivo, ele se aproximou do moço, os dois se entreolharam e ele, o filho, perguntou: "Baba?". E depois os quatro beijos no rosto, o abraço demorado, as saudações em árabe. Saíram do cais abraçados, atravessaram a praça Paris e a rua do Catete e foram até a Cinelândia. O filho falou da viagem e o pai lamentou a penúria em Manaus, a penúria e a fome durante os anos da guerra. Na Cinelândia sentaram-se à mesa de um bar, e no meio do burburinho Yaqub abriu o farnel e tirou um embrulho, e o pai viu pães embolorados e uma caixa de figos secos. Só isso trouxe o Líbano? Nenhuma carta? Nenhum presente? Não, não havia mais nada no farnel, nem roupa nem presente, nada! Então Yaqub explicou em árabe que o tio, o irmão do pai, não queria que ele voltasse para o Brasil.

        Calou. Halim baixou a cabeça, pensou em falar do outro filho, hesitou. Disse: "Tua mãe...", e também calou. Viu o rosto crispado de Yaqub, viu o filho levantar-se, aperreado, arriar a calça e mijar de frente para a parede do bar, em plena Cinelândia. Mijou durante uns minutos, o rosto agora aliviado, indiferente às gargalhadas dos que passavam por ali. Halim ainda gritou: "Não, tu não deves fazer isso... ", mas o filho não entendeu ou fingiu não entender o pedido do pai.

        Ele teve que engolir o vexame. Esse e outros, de Yaqub e também do outro filho, Omar, o Caçula, o gêmeo que nascera poucos minutos depois. O que mais preocupava Halim era a separação dos gêmeos, "porque nunca se sabe como vão reagir depois...". Ele nunca deixou de pensar no reencontro dos filhos, no convívio após uma longa separação. Desde o dia da partida, Zana não parou de repetir: "Meu filho vai voltar um matuto, um pastor, um ra'í. Vai esquecer o português e não vai pisar na escola porque não tem escola lá na aldeia da tua família".

        Aconteceu um ano antes da Segunda Guerra, quando os gêmeos completaram treze anos de idade. Halim queria mandar os dois para o sul do Líbano. Zana relutou, e conseguiu persuadir o marido a mandar apenas Yaqub. Durante anos, Omar foi tratado como filho único, o único menino.

        No centro do Rio, Halim comprou roupas e um par de sapatos para Yaqub. Na viagem de volta a Manaus, fez um longo sermão sobre educação doméstica: o que não se deve mijar na rua, nem comer como uma anta, nem cuspir no chão, e Yaqub, sim, Baba, a cabeça baixa, vomitando quando o bimotor chacoalhava, os olhos fundos no rosto pálido, a expressão de pânico toda vez que o avião decolava ou aterrissava nas seis escalas entre o Rio de Janeiro e Manaus.

        Zana os esperava no aeroporto desde o começo da tarde. Ela estacionou o Land Rover verde, foi até a varanda e ficou olhando para o leste. Quando viu o bimotor prateado aproximar-se da cabeceira da pista, desceu correndo, atravessou a sala de desembarque, subornou um funcionário, caminhou altivo até o avião, subiu a escada e irrompeu na cabine. Levava um buquê de helicôneas que deixou cair ao abraçar o filho ainda lívido de pavor, dizendo-lhe, "Meu querido, meus olhos, minha vida", chorando, "Por que tanta demora? O que fizeram contigo?", beijando-lhe o rosto, o pescoço, a cabeça, sob o olhar incrédulo de tripulantes e passageiros, até que Halim disse, "Chega! Agora vamos descer, o Yaqub não parou de provocar, só faltou pôr as tripas para fora". Mas ela não cessou os afagos, e saiu do avião abraçada ao filho, e assim desceu a escada e caminhou até a sala de desembarque, radiante, cheia de si, como se enfim tivesse reconquistado uma parte de sua própria vida: o gêmeo que se ausentara por capricho ou teimosia de Halim. E ela permitiu por alguma razão incompreensível, por alguma razão incompreensível, por alguma coisa que parecia insensatez ou paixão, devoção cega e irrefreável, ou tudo isso junto, e que ela não quis ou nunca soube nomear.

        Agora ele estava de volta: um rapaz tão vistoso e alto quanto o outro filho, o Caçula. Tinham o mesmo rosto anguloso, os mesmos olhos castanhos e graúdos, o mesmo cabelo ondulado e preto, a mesmíssima altura. Yaqub dava um suspiro depois do riso, igualzinho ao outro. A distância não dissipara certos tiques e atitudes comuns, mas a separação fizera Yaqub esquecer certas palavras da língua portuguesa. Ele falava pouco, pronunciando monossílabos ou frases curtas; calava quando podia, e, às vezes, quando não devia.

        Zana logo percebeu. Via o filho sorrir, suspirar e evitar as palavras, como se um silêncio paralisante o envolvesse.

        No caminho do aeroporto para casa, Yaqub reconheceu um pedaço da infância vivida em Manaus, se emocionou com a visão dos barcos coloridos, atracados às margens dos igarapés por onde ele, o irmão e o pai tinham navegado numa canoa coberta de palha. Yaqub olhou para o pai e apenas balbuciou sons embaralhados.

        "O que aconteceu?", perguntou Zana. "Arrancaram a tua língua?"

        "La, não, mama", disse ele, sem tirar os olhos da paisagem da infância, de alguma coisa interrompida antes do tempo, bruscamente.

        [...]

HATOUM, Milton. Dois irmãos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 13-17.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 502-503.

Entendendo o conto:

01 – Qual é o tema central do conto?

      A relação entre dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, e os impactos da separação e do reencontro em suas vidas e na dinâmica familiar.

02 – Por que Yaqub foi para o Líbano?

      Yaqub foi enviado para o Líbano por seu pai, Halim, para morar com seus parentes. A mãe, Zana, inicialmente não queria mandar os dois filhos, mas Halim insistiu em enviar apenas Yaqub.

03 – O que aconteceu com Yaqub no Líbano?

      Yaqub passou cinco anos no sul do Líbano, onde cresceu e se adaptou à cultura local. Ele retornou ao Brasil transformado, tanto física quanto culturalmente.

04 – Como foi o reencontro de Yaqub com seu pai?

      O reencontro foi emocionante, mas também tenso. Yaqub mal reconheceu o pai e demonstrou comportamentos inesperados, como urinar em público, evidenciando o choque cultural que sofreu.

05 – Qual era a maior preocupação de Halim?

      A maior preocupação de Halim era a reação dos gêmeos ao se reencontrarem após a longa separação, temendo os impactos que isso poderia causar em suas vidas.

06 – Como Zana reagiu ao retorno de Yaqub?

      Zana reagiu com grande emoção e felicidade, demonstrando um amor e preocupação intensos pelo filho. Ela o abraçou e beijou efusivamente, mostrando que sentia muito a falta dele.

07 – Quais eram as semelhanças entre Yaqub e Omar?

      Yaqub e Omar eram muito parecidos fisicamente, com o mesmo rosto, olhos, cabelo e altura. Eles também compartilhavam tiques e atitudes em comum.

08 – O que Yaqub trouxe do Líbano?

      Yaqub trouxe apenas um farnel com pães embolorados e figos secos, além de muitas lembranças e experiências de sua vida no Líbano. Ele não trouxe presentes ou cartas.

09 – Por que Yaqub não falava muito?

      Yaqub evitava falar português por ter se distanciado da língua durante sua estadia no Líbano. Ele parecia ter dificuldades em se expressar e se comunicar em português.

10 – Qual é a importância da infância de Yaqub em Manaus para a história?

      A infância de Yaqub em Manaus é importante para mostrar a ligação dele com a cidade e como a separação e o tempo no Líbano o afetaram profundamente. Ele reconhece lugares da infância, mas tem dificuldade de se expressar, mostrando o impacto da mudança em sua vida.

POESIA: AI FLORES, AI FLORES DO VERDE PINO - D.DINIS - COM GABARITO

 Poesia: Ai flores, ai flores do verde pino

             D. Dinis

Ai flores, ai flores do verde pino

se sabedes novas do meu amigo!

Ai Deus, e u é?

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgFhwa4CbXn04qyqtfxjowFBHwiO9wL1A_DSVAIYP4QVfdkI9QWMRxuGwqupxBufxTUMV1U1KQVfUlUAmkMd3EKFQHRLqvpZKb6SU306X2Uus6PZWgF5cqgUXMFzx0Xtz61E7415wxyzlzN3P3s1k28dOINGnw0UjjsE5y37P_rzMMJvxOQmrNwPJNx0aE/s320/Flores_Mobile_800x475px.jpg

Ai, flores, ai flores do verde ramo,

se sabedes novas do meu amado!

Ai Deus, e u é?

 

Se sabedes novas do meu amigo,

aquel que mentiu do que pôs comigo!

Ai Deus, e u é?

 

Se sabedes novas do meu amado

aquel que mentiu do que mi ha jurado!

Ai Deus, e u é?

 

-Vós me preguntades polo voss'amigo,

e eu ben vos digo que é san'e vivo.

Ai Deus, e u é?

 

Vós me preguntades polo voss'amado,

e eu ben vos digo que é viv'e sano.

Ai Deus, e u é?

 

E eu ben vos digo que é san'e vivo

e seerá vosc'ant'o prazo saído.

Ai Deus, e u é?

 

E eu ben vos digo que é viv'e sano

e seerá vosc'ant'o prazo passado.

Ai Deus, e u é?

DINIS, D. Antologia escolar portuguesa. Rio de Janeiro: MEC-Fename, 1970, p. 395.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 513-514.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é o tema central do poema?

      O tema central do poema é a saudade e a preocupação de uma jovem em relação ao seu amado, que está ausente. Ela busca notícias dele através das flores, expressando sua angústia e desejo de reencontrá-lo.

02 – Qual é o papel das flores no poema?

      As flores desempenham um papel de intermediárias entre a jovem e seu amado. Ela se dirige a elas como se pudessem transmitir informações sobre o paradeiro e o bem-estar de seu amado. As flores simbolizam a beleza e a esperança, mas também a fragilidade e a brevidade da vida, refletindo a incerteza da jovem em relação ao seu amor.

03 – Qual é a estrutura do poema?

      O poema é uma cantiga de amigo, um gênero lírico medieval típico da Península Ibérica. É composto por versos curtos, com rimas e refrões que criam um ritmo musical e expressivo. A repetição de versos e o uso de paralelismos (estruturas gramaticais semelhantes) enfatizam a emoção da jovem e a natureza cíclica de sua espera.

04 – Qual é o significado do refrão "Ai Deus, e u é?"

      O refrão "Ai Deus, e u é?" expressa a aflição e a perplexidade da jovem diante da ausência do amado. É um lamento que clama por uma resposta divina ou uma solução para sua angústia. O refrão também reforça a natureza popular e oral do poema, com sua melodia e ritmo marcantes.

05 – Qual é a importância de D. Dinis como autor de cantigas de amigo?

      D. Dinis, rei de Portugal no século XIII, é um dos principais trovadores da lírica galego-portuguesa. Sua produção poética inclui cantigas de amor, de escárnio e de amigo, que retratam a vida na corte, os costumes da época e os sentimentos amorosos. As cantigas de amigo, em particular, destacam-se pela sua beleza, expressividade e pela voz feminina que protagoniza os poemas, revelando um universo de emoções e experiências tipicamente femininas.

 

CONTO: A DEMANDA DO SANTO GRAAL - II - NA CORTE DO REI ARTUR - (FRAGMENTO) - HEITOR MEGALE - COM GABARITO

 Conto: A DEMANDA DO SANTO GRAALII – Na corte do rei Artur – Fragmento

        [...]

        Como Lancelote e Boorz e Leonel chegaram à corte. Assim falando, chegaram a Camalote, e sabei que quantos na corte estavam ficaram com isso muito alegres, porque muito seria a festa menor e mais pobre, se eles nela não estivessem. O rei foi então ouvir missa na Sé em companhia de tantos cavaleiros que ficaríeis maravilhado de os ver. E ele trajava tão rica vestimenta que maravilha era. E com a rainha iam tantas donas e donzelas, que era grande maravilha. E ela e eles ouviram missa e foram para o paço. E aconteceu, entrementes, que, procurando os assentos da távola redonda, acharam: “Aqui deve ser fulano e aqui fulano.” E quando chegaram ao assento perigoso, encontraram letreiro recentemente escrito que dizia: “A quatrocentos e cinquenta e três anos cumpridos da morte de Jesus Cristo, em dia de Pentecostes, deve haver este assento senhor.”

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEitELatluj9DumeG4BYKw6Ai5WFbOonaecdcYkl8tsItKPtLJrihciS-Y1VdVpYRFvf28SSUIwwbslAfzbBq4dizuDwquh9JY_aULj7Hs86fmWpbdmJnbmNkCUKaNW6QTHpUXd8mYDo7_oHtdv-bzEZA4YMhpiiXLEC3OnnFCuSN4lBNN646D-RFevvrwA/s320/Holygrail.jpg


        — Por Deus, disse Lancelote, quando esta maravilha ouviu: pois hoje deve haver senhor, porque da morte de Jesus Cristo a este Pentecostes há quatrocentos e cinquenta e três anos. E bem quereria, se pudesse, que este letreiro ninguém visse, até que viesse aquele que o há de acabar.

        E eles disseram:

        — Nós guardaremos bem.

        Então cobriram o assento com um pano de seda vermelha, assim como os outros estavam cobertos.

        Quando o rei veio da igreja, a rainha foi para a câmara com todas as suas donzelas e companhia. E o rei perguntou se era hora de comer.

        — Senhor, disse Quéia, já tempo é de comer, pois já está perto de meio dia; mas se vosso costume, que mantivestes até aqui em todas as grandes festas, quereis manter, não me parece que comer possais, porque em tão grande festa como esta não aconteceu ainda aventura nenhuma; e enquanto aventura não vos acontecesse, não costumáveis comer em nenhuma grande festa.

        — Verdade é, disse o rei; este meu costume mantive sempre desde que fui rei e manterei enquanto viver. E pelas grandes aventuras que na minha corte acontecem, chamam-me rei aventuroso; e por isso manterei as aventuras, porque, a partir da época em que deixarem de acontecer, bem sei que a Nosso Senhor não agradará que muito eu reine daí em diante. Mas assim como as aventuras costumavam acontecer nas festas grandes, nesta sei bem que no dia de hoje não faltarão, antes acontecerão as maiores e as mais maravilhosas que nunca aconteceram, pois adivinha meu coração isto. Não me incomodo de esperarmos um pouco, pois bem sei verdadeiramente que nossa festa não será hoje sem aventura, mas tive tão grande prazer com a vinda de Lancelote e de seus coirmãos, que me esquecia o costume.

        Como o cavaleiro caiu da janela bradando. Enquanto o rei isto dizia, dom Lancelote e muitos outros cavaleiros olhavam para umas janelas que davam para um regato e viram lá estar um cavaleiro que era natural de Irlanda, muito fidalgo e bom cavaleiro de armas, de muito grande fama e muito bem vestido. E estava pensando tanto, que ninguém o podia acordar de seu pensar, de modo que não prestava atenção à festa nem à corte. E quando estava assim pensando, deu um grito:

        — Ai! desgraçado de mim, estou morto!

        E deixou-se cair da janela e quebrou-lhe o pescoço. E os cavaleiros que lá estavam foram até ele para ver o que era e acharam que lhe saía pela boca e pelas narinas chama de fogo tão forte como se fosse de um forno aceso, e tinha em suas mãos uma carta que lhe escapou. Os cavaleiros pegaram a carta, e o rei chegou lá com seus cavaleiros para ver aquela maravilha. E porque era companheiro da távola redonda, quando o rei viu que estava morto, mandou que o levassem fora do paço, porque não quis que sua corte fosse perturbada com ele. E então o levaram para fora com muito grande dificuldade, porque queimava tanto que toda a roupa tinha virado cinza, e não se podia a ele chegar ninguém que não se queimasse, e, posto ele fora do paço, novamente começaram sua alegria como antes e muito tinham grande pesar todos do cavaleiro, porque era muito estimado. Ao rei, muito pesava, mas não o ousava mostrar para não ficar a corte mais triste. E depois que soube que estava na igreja, disse:

        — Cavaleiros, agora podeis comer, porque já por aventura maravilhosa não deixareis de comer, pois me parece muito estranha esta aventura.

        Como o escudeiro disse ao rei as novas da pedra. E eles disto falando, eis que vem um escudeiro que disse ao rei:

        — Senhor, eu vos trago as mais maravilhosas novas de que ouvistes falar.

        — E que novas são? disse o rei, dizei-no-las.

        — Neste vosso paço, aportou agora uma pedra de mármore, na qual está metida uma espada, e sobre esta pedra, no ar, está uma bainha. E eu vos digo que vi a pedra nadar sobre a água, como se fosse madeira.

        E o rei, que o teve por chufa, disse-lhe se podia ver esta pedra. Então disse o escudeiro:

        — Já estão lá muitos cavaleiros da vossa companhia para ver aquela maravilha.

        E o rei, assim que isto ouviu, foi logo para lá com sua companhia de homens bons. E Lancelote, apenas soube o que era, logo foi para lá atrás deles; e Heitor e Persival, que já haviam visto, queriam ver, entre tão grande companhia como lá estava reunida, se haveria alguém que desse cabo agora daquela aventura.

        Quando o rei chegou à ribeira e viu a pedra e a espada que nela estava metida, pelo encantamento de Merlim, assim como o conto já referiu, e uma bainha que estava perto dela no meio do ar, e o letreiro que Merlim fizera, ficou todo espantado.

        — E, amigos, disse ele, novas vos direi. Ora, sabei que por esta espada será conhecido o melhor cavaleiro do mundo, porque esta é a prova pela qual se há de saber; e nenhum, se não for o melhor cavaleiro do mundo, poderá sacar a espada desta pedra.

        [...]

A Demanda do Santo Graal. Texto sob os cuidados de MEGALE, Heitor.  São Paulo: T. A. Queiroz – Editora da Universidade de São Paulo, 1988, p. 29-31.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 516-518.

Entendendo o conto:

01 – Qual é o clima geral na corte do Rei Artur no início do fragmento?

      Há um clima de expectativa e alegria pela chegada de Lancelote, Boorz e Leonel, pois sua presença é importante para a festa.

02 – O que é a "távola redonda" e qual a sua importância?

      A távola redonda é uma mesa lendária do Rei Artur, onde se reuniam os mais nobres e corajosos cavaleiros do reino. Ela simboliza igualdade entre os cavaleiros e é palco de muitas aventuras e feitos heroicos.

03 – O que é o "assento perigoso" e qual a inscrição que aparece nele?

      O assento perigoso é um lugar na távola redonda reservado para um cavaleiro especial. A inscrição que aparece nele diz: "A quatrocentos e cinquenta e três anos cumpridos da morte de Jesus Cristo, em dia de Pentecostes, deve haver este assento senhor."

04 – Por que Lancelote fica preocupado com a inscrição no assento perigoso?

      Lancelote percebe que a data na inscrição coincide com o dia de Pentecostes em que estão, e teme que a revelação do cavaleiro destinado a ocupar o assento perigoso possa trazer algum tipo de perturbação ou desafio.

05 – Qual é o costume do Rei Artur em relação às grandes festas?

      O Rei Artur tem o costume de não comer em grandes festas até que alguma aventura aconteça em sua corte.

06 – O que acontece com o cavaleiro que é encontrado perto das janelas?

      O cavaleiro, que estava em um estado de transe, tem um acesso de fúria e se joga da janela, morrendo.

07 – Qual é a reação dos cavaleiros ao verem o corpo do cavaleiro morto?

      Os cavaleiros ficam perplexos ao verem que o corpo do cavaleiro emana chamas de fogo.

08 – Que novas maravilhosas o escudeiro traz ao rei?

      O escudeiro traz a notícia de que uma pedra de mármore com uma espada cravada apareceu no paço, e que a pedra está flutuando na água.

09 – O que significa a espada na pedra, segundo o rei?

      Segundo o rei, a espada na pedra é um teste para identificar o melhor cavaleiro do mundo, pois apenas ele será capaz de retirar a espada da pedra.

10 – Qual é a importância de Merlim na história da espada na pedra?

      Merlim, o mago, é quem criou o encantamento da espada na pedra, como forma de revelar o verdadeiro rei ou líder.

 

SONETO: EM SÓRDIDA MASMORRA AFERROLHADO - A. AMORA - COM GABARITO

 Soneto: Em sórdida masmorra aferrolhado

A.  Amora

Em sórdida masmorra aferrolhado,
De cadeias aspérrimas cingido,
Por ferozes contrários perseguido,
Por línguas impostoras criminado;

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjR8fMIdB0Ru0tJe4Ua4e1t5RzXaHyRrp1H31b2uxXub3Am1uqz0sx4u7X-Rq2b4FIic3VehQR7HnEqdgFgZYFFBkaeS82xtaYbwIvTR5gROytwp4s415TAkcELYM0gav-3WLH3OIMqftUd-z48IlZyJTcciedb7XdH6Kbpm5xxiM-Vn2qN7htco2VHQXo/s1600/MASMORRA.jpg


 

Os membros quase nus, o aspecto honrado
Por vil boca, e vil mão roto, e cuspido,
Sem ver um só mortal compadecido
De seu funesto, rigoroso estado;

 

O penetrante, o bárbaro instrumento
De atroz, violenta, inevitável morte
Olhando já na mão do algoz cruento;

 

Inda assim não maldiz a iníqua Sorte,

Inda assim tem prazer, sossego, alento,
O sábio verdadeiro, o justo, o forte.

AMORA, A. Presença da literatura portuguesa – era clássica. 5. ed. São Paulo: Difel, s.d. p. 257.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 533.

Entendendo o soneto:

01 – Qual é o tema central do soneto?

      O tema central do soneto é a de um homem justo e forte que, mesmo em meio a um sofrimento atroz e injusto, mantém a serenidade e a fé. O poema explora a dualidade entre a brutalidade da situação e a força interior do indivíduo.

02 – Quais são os principais elementos que compõem o cenário de sofrimento no soneto?

      O cenário de sofrimento é construído através de elementos como a masmorra sórdida, as cadeias aspérrimas, a perseguição de contrários ferozes, as línguas impostoras que o caluniam, a nudez, o aspecto desonrado, a falta de compaixão e a iminência da morte.

03 – Como o poeta descreve a reação do homem diante da situação de sofrimento?

      O poeta descreve a reação do homem como notável. Apesar de toda a dor e injustiça, ele não amaldiçoa o destino, mantém o prazer, o sossego e o alento. O homem demonstra força interior, sabedoria e justiça, características que o sustentam em meio à adversidade.

04 – Qual é o significado da expressão "sábio verdadeiro, o justo, o forte"?

      Essa expressão se refere ao homem que, mesmo diante do sofrimento, mantém seus valores e princípios. Ele é sábio por reconhecer a transitoriedade da situação, justo por não se deixar corromper pela injustiça, e forte por suportar a dor com resignação e fé.

05 – Qual é a forma poética do texto e quais são suas características?

      O texto é um soneto, uma forma poética composta por 14 versos, geralmente em decassílabos, divididos em dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três versos). O soneto possui rimas ricas e segue um esquema métrico e rítmico específico. No caso do soneto em questão, o autor explora o contraste entre a descrição do sofrimento e a exaltação da força interior do homem, utilizando recursos poéticos como metáforas e adjetivações expressivas.