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quinta-feira, 3 de julho de 2025

ARTIGO DE OPINIÃO : BAR MEMÓRIA - CARLOS HEITOR CONY - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Bar Memória

                Carlos Heitor Cony

        Era um botequim feio, muito feio mesmo. Três portas esquálidas, paredes encardidas, balcão sórdido com empadas sinistras, de longe se adivinhavam o mofo, as sombras, o vago cheiro de túmulo. O nome o salvava: Bar Memória. Nome inexplicável: o botequim nem merecia a classificação de bar. E por que memória? Quem nele se lembraria de alguém ou de alguma coisa? Pior: quem dele se lembraria?

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi62SCjrC30Pe-409djyxparc1SiX4MzA34dWu4x2dmb1R5jtExe1Vl3W4v0rs3vIKbo8MLvcsI1iPwwRv31f8mhrvlMJz20-Daplp_5RSGqW_BkdpoCnR6OvA9q6DrY2FOSbQTZVod6sYGSpi33wX__THTu54UX6U0QrvQ1gfsdb9uy_t2ntntL6xiQgs/s1600/images.jpg


        Sua importância era topográfica. Ficava numa terra-de-ninguém da cidade – cidade que cada vez mais se tornou terra-de-ninguém. Para os Correios e Telégrafos, o Bar Memória ficava no Jardim Botânico. Para os tributos estaduais e municipais, ficava na Gávea. Para a Receita Federal ficava na Lagoa. Policialmente, pertencia à 16a Delegacia, do Leblon. Para o Corpo de Bombeiros, era o Jóquei. O Tribunal Regional Eleitoral o alistou como reserva democrática do Horto.

        Sem sair do lugar, flutuando no chão da cidade, ele existia sem existir, escombro de um fantasma que não pertencia especificamente a nada e a ninguém. Espaço imponderável, um assassinato ali cometido, com um bom advogado a favor do criminoso, jamais seria punido: faltaria a localização exata para determinar o local do crime.

        Estava sempre vazio, nunca vi luz que aliviasse sua penumbra. À noite, ele continuava fiel à escuridão, duas ou três lâmpadas empoeiradas não iluminavam as paredes encardidas e tristes. A luz, trêmula e fria, tornava mais pesadas suas sombras.

        Pois o Bar Memória foi abaixo, esta semana. Nos jornais, a foto conseguia transmitir sua solidão de bar, sua escuridão de memória. A escavadeira do município rasgou sua carne cansada, estraçalhou seu ventre de trevas. O Bar Memória se desmanchou sem resistência, sem dar um grito.

        E como seu chão era imponderável, ele continuará imponderável. Ficará intacto no meio da nova pista que dará acesso à Barra. Não deixará saudade. Não deixará memória, o Bar Memória.

Carlos Heitor Cony.

Fonte: Letra e Vida. Programa de Formação de Professores Alfabetizadores – Coletânea de textos – Módulo 3 – CENP - São Paulo – 2005. p. 27.

Entendendo o artigo:

01 – Qual era a principal característica do Bar Memória, e como o autor a descreve?

      A principal característica do Bar Memória era sua extrema feiura e degradação. O autor o descreve como um "botequim feio, muito feio mesmo", com "três portas esquálidas, paredes encardidas, balcão sórdido com empadas sinistras", além de um "vago cheiro de túmulo" e penumbra constante.

02 – Por que o nome "Bar Memória" era irônico e inexplicável para o autor?

      O nome era irônico e inexplicável porque o bar era tão insignificante e desagradável que o autor questionava: "Quem nele se lembraria de alguém ou de alguma coisa? Pior: quem dele se lembraria?". O lugar não possuía qualidades que justificassem ser lembrado ou associado à memória.

03 – Como o texto explora a ideia de que o Bar Memória era uma "terra-de-ninguém"?

      O texto explora essa ideia através da confusão topográfica e burocrática do bar. Ele não pertencia a um único bairro ou jurisdição, sendo localizado em diferentes áreas (Jardim Botânico, Gávea, Lagoa, Leblon, Jóquei, Horto) por diferentes órgãos. Essa indefinição geográfica reforçava sua natureza de "escombro de um fantasma" e um "espaço imponderável".

04 – O que a demolição do Bar Memória simboliza, e qual o seu desfecho irônico?

      A demolição simboliza o fim de algo que já "existia sem existir", um escombro de um passado sem relevância. O desfecho é irônico porque, apesar de seu nome, o Bar Memória "não deixará saudade. Não deixará memória, o Bar Memória", ou seja, sua existência era tão efêmera e sem impacto que mesmo sua destruição não geraria lembranças.

05 – Qual a relação entre a falta de localização exata do Bar Memória e a impunidade de um possível crime?

      O autor sugere que a falta de localização exata tornava o bar um "espaço imponderável" onde um assassinato, se cometido, jamais seria punido. Isso porque, com um bom advogado, seria impossível determinar o "local exato do crime", aproveitando a ambiguidade geográfica do estabelecimento para fins jurídicos.

 

quinta-feira, 14 de abril de 2022

CRÔNICA: MINHA VIDA COMO PIVETE - MOACYR SCLIAR - COM GABARITO

 Crônica: Minha vida como pivete

               Moacyr Scliar

        Não há segundo ato nas vidas americanas, disse Scott Fitzgerald, mas há nas vidas brasileiras: segundo, terceiro, décimo atos. Num desses atos – misteriosos são os desígnios da Providência – fui um pivete.

        Não por muito tempo, devo dizer. Na verdade, por muito pouco tempo, e em circunstâncias especiais. Aconteceu no Bom Fim, e numa época em que o bairro ainda não era barra-pesada. Nós estávamos na rua João Telles, uma noite, e jogávamos futebol no meio da rua. O futebol não é um esporte silencioso, e algazarra nós fazíamos, não muita, mas o suficiente para incomodar um dos moradores, que veio à janela e mandou-nos embora. Seguiu-se uma áspera troca de palavras, e a janela fechou-se, no que parecia uma retirada.

        Não era. Enquanto continuávamos o jogo, o homem chamava a polícia. Minutos depois encostava na rua uma viatura da PM. Podíamos, ou devíamos ter fugido: na verdade, porém, não nos ocorria que o objetivo das forças da lei era o nosso precário futebol. Para nossa surpresa os policiais vieram em nossa direção. Um deles olhou-me (nunca imaginei ter aparência perigosa) e, abrindo a porta do camburão, ordenou:

        -- Entra!

        Vacilei. Olhei lá dentro. Era um compartimento escuro e apertado aquele, um lugar de aparência sombria. Mas o pior era o significado de entrar ali. Quando a porta se fechasse, com estrondo, sobre mim, eu não apenas estaria separado de meu bairro, de meus amigos, de minha família. Eu estaria penetrando numa outra realidade, tão escura, apertada e sombria quanto o compartimento dos presos no camburão. Eu estaria ingressando na marginalidade, e quem me garantia que dela sairia? Não seria aquele o meu primeiro passo numa carreira (talvez bem-sucedida; talvez trágica; quem conhece os desígnios da Providência?) de gângster?

        O policial esperava, impaciente, e eu não me decidia, mas aí o destino interveio, sob a forma de um morador. Dirigindo-se aos homens da lei, ele ponderou que não valia a pena me levar, mesmo porque me conhecia e estava seguro de que eu era um bom guri.

        -- Garanto que ele não incomoda mais – repetia.

        Os homens se olharam e resolveram que não valia a pena gastar uma ficha policial comigo. De modo que depois de algumas ameaças embarcaram na viatura e se foram.

        Era o Bom Fim, não a Candelária; era o Brasil, não a Europa Oriental. Escapei do Holocausto porque meus pais vieram para este país, onde nasci. E escapei porque havia alguém ali para dizer que, apesar das aparências, eu era um bom guri. Tive sorte. Temos, todos nós, muita sorte. Em nome desta sorte devemos pensar, cada vez que olhamos um suposto pivete, que ele pode, afinal, ser um bom guri.

Zero Hora. Porto Alegre, 27 jul. 1993. Segundo Caderno.

Fonte: Português – Linguagem & Participação, 5ª Série – MESQUITA, Roberto Melo/Martos, Cloder Rivas – Ed. Saraiva, 2ª ed. 1999, p. 83-5.

Entendendo a crônica:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

·        Scott Fitzgerald (1896-1940): escritor norte-americano, autor de O Grande Gatsby e de Suave é a Noite.

·        Marginalidade: condição de indivíduo marginal, aquele que vive à margem da sociedade como mendigo, vagabundo ou delinquente.

·        Ato: parte em que se divide uma peça de teatro; ação, atitude.

·        Guri: garoto (no Rio Grande do Sul).

·        Desígnios: desejos, vontades.

·        Candelária: praça do Rio de Janeiro onde policiais mataram menores de rua.

·        Providência: situação, estado de coisas em determinado momento. No texto, ajuda de Deus.

·        Holocausto: massacre de milhões de judeus pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial; assassinato de grupos de pessoas que não têm como se defender.

·        Barra-pesada: perigoso.

·        Áspera: agressiva.

·        Precário: frágil; insuficiente.

·        Suposto: hipotético, imaginário.

·        Compartimento: espaço cercado; divisão de uma casa.

·        Pivete: menino de rua.

02 – Encontre dois cognatos para as seguintes palavras retiradas do texto “Minha vida como pivete”.

·        Vida: vivo, viver.

·        Áspero: aspereza, asperamente.

·        Brasil: brasileiro, brasilidade.

·        Imaginação: imaginar, imaginário.

·        Verdade: verdadeiro, verdadeiramente.

·        Perigosa: perigo, perigosamente.

·        Tempo: temperatura, temporal.

·        Fechar: fechadura, fechado.

03 – O narrador é aquele que conta a história. O título “Minha vida como pivete” indica quem deve ser o narrador dessa história? Justifique sua resposta.

      O narrador deve ser o próprio pivete devido ao uso do pronome minha especificando de quem é a vida de pivete.

04 – Se observarmos melhor, o narrador desse texto também é uma das personagens porque conta a sua própria história. Qual é o fato mais importante do texto para o narrador?

      O fato de ter sido “convidado” a entrar no carro da polícia.

05 – Onde e quando aconteceram os fatos presentes no texto?

      Os fatos aconteceram no bairro do Bom Fim – quando ainda não era barra-pesada –, na rua João Telles.

06 – Identifique a causa que levou um dos moradores a chamar a polícia. Justifique a sua resposta.

      Um dos moradores da rua não queria que os meninos jogassem futebol devido ao barulho que faziam. Ele não conseguiu que os meninos parassem e chamou a polícia.

07 – A princípio, a chegada da viatura da PM não incomodou os meninos. Que atitude dos policiais fez com que os meninos mudassem de opinião?

      Os policiais caminharam na direção dos meninos.

08 – Como o narrador/personagem se livrou de ser preso?

      Um vizinho convenceu a polícia de que o menino era um bom guri.

09 – Como você entendeu o desfecho do texto: Em nome desta sorte devemos pensar, cada vez que olhamos um suposto pivete, que ele pode, afinal, ser um bom guri?

      Devemos considerar que a sorte – ou a falta dela – pode determinar o destino de um pivete

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

MÚSICA(ATIVIDADES): UM HOMEM TAMBÉM CHORA(GUERREIRO MENINO) - GONZAGUINHA

ATIVIDADES COM A Música: Um Homem Também Chora (GUERREIRO MENINO)

                                         Gonzaguinha

Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
        
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura

Guerreiros são pessoas
Tão fortes, tão frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito

Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sono
Que os tornem refeitos

É triste ver meu homem
Guerreiro menino
Com a barra do seu tempo
Por sobre seus ombros

Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que tem no peito
Pois ama e ama...

Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E vida é trabalho

E sem o seu trabalho
O homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata

Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz

É triste ver meu homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros

Eu vejo que ele sangra
Eu vejo que ele berra
A dor que tem no peito
Pois ama e ama

Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E vida é trabalho

E sem o seu trabalho
O homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata

Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz

Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz.
                                                     Composição: Gonzaguinha.
Entendendo a canção:

01 – Nas estrofes um, dois e três, sobre esses versos, está correto afirmar que há uma metáfora em:
a)   Um homem também chora.
b)   Também deseja colo.
c)   Precisa de um abraço.
d)   Guerreiros são meninos.
e)   No fundo do peito.

02 – Por qual motivo esta canção chora as pessoas que ouve?
      Pela letra forte que retrata o pensamento de um homem, o homem pai de família que só se sente honrado com um bom emprego.

03 – Por que os versos: “Não dá pra ser feliz / Não dá pra ser feliz...” chega a comover que os ouve?
      O homem se sentia impotente diante de suas lutas e seus ideais. Malgrado as imposturas, as durezas e as decepções da vida de um pai de família.

04 – Antítese é uma figura de linguagem que consiste no emprego de termos com sentidos opostos. Em que versos da canção há?
      “Tão fortes, tão frágeis”.

05 – Assinale a alternativa INCORRETA. No texto, o vocábulo também, em “Um homem também chora” e “Também deseja colo”;
a)   Tem efeito de ironia: ao nivelar a fragilidade do homem maduro à da criança que pede colo, denuncia a precariedade do ser humano, incapaz de enfrentar os problemas do mundo.
b)   Contrapõe ambas as frases à máxima “Homem que é homem não chora”, contesta uma concepção de masculinidade e maturidade assentada sobretudo na força e na coragem, em detrimento da sensibilidade e das emoções, tomadas como sintoma de fragilidade.
c)   Tem valor inclusivo, situando o homem, ao lado de crianças e mulheres, no conjunto de todos os seres humanos capazes de chorar, expressando sua sensibilidade, fragilidade ou seu desamparo.
d)   Constitui, pelo senso comum, um paradoxo, ao unir num mesmo espaço de tempo e num mesmo ser, características da infância e da maturidade consideradas opostas.

06 – Os pares que seguem estruturam-se como antíteses que se aproximam e que contribuem para a construção do sentido do texto, EXCETO em:
a)   Descanso / remanso.
b)   Fortes / frágeis.
c)   Guerreiros / meninos.
d)   Homem / menino.

07 – Na expressão “Com a barra de seu tempo por sobre seus ombros”, aparecem três exemplos de linguagem conotativa:
a)   Metáfora, hipérbole e eufemismo.
b)   Metáfora, metonímia e hipérbole.
c)   Metáfora, pleonasmo e eufemismo.
d)   Paradoxo, pleonasmo e metonímia.

08 – A partir da leitura dos últimos onze versos da letra da música, analise as seguintes proposições:
I – Os últimos versos apresentam um processo gradativo que é sustentado principalmente por uma relação de causa e consequência.
II – Da relação entre sonho, vida, trabalho e honra, deduz-se que ter trabalho é uma condição para que o homem possa sonhar, viver com honra e, em consequência, ser feliz.
III – Os dois últimos versos fecham o texto com a conclusão da impossibilidade de as pessoas serem felizes, sendo que a reiteração reforça o caráter irrevogável dessa impossibilidade.
IV – Do texto infere-se que a violência, que faz com que se morra e se mate, é provocada por homens que não têm honra.
Marque a alternativa CORRETA:
a)   Apenas as proposições I e III são verdadeiras.
b)   Apenas as proposições I, II e IV são verdadeiras.
c)   Apenas as proposições I, II e III são verdadeiras.
d)   Apenas as proposições II, III e IV são verdadeiras.

09 – No texto, aparecem as expressões “um homem”, “este homem”, “o homem”.
Assinale a alternativa em que, no encadeamento sintático, essas variações não são justificadas:
a)   O termo um opõe-se, na expressão “um homem”, à ideia abstrata de homem, como síntese da espécie humana.
b)   O termo este remete a expressão “este homem” ao homem determinado no poema: aquele de quem o eu lírico fala para a “menina morena”.
c)   O termo o atribui a expressão “o homem” um sentido mais amplo que engloba a ideia geral de homens, mulheres e crianças.
d)   O termo o atribui à expressão “o homem” um valor de determinação do homem, como síntese de pessoa do sexo masculino, submetido às frustações decorrentes da perda de seus sonhos.

10 – Na frase: “Não dá pra ser feliz”, o termo pra:
a)   Evidencia um descuido do autor quanto à correção da linguagem utilizada no poema.
b)   É uma variedade regional empregada no poema com sentido pejorativo.
c)   É um erro gramatical, consolidado no português pela lei do menor esforço.
d)   É um exemplo de que o autor, no seu poema, combina linguagem formal com linguagem coloquial.


quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

CRÔNICA: SINAL VERMELHO - WALCYR CARRASCO - COM GABARITO

 CRÔNICA: Sinal Vermelho

                   Walcyr Carrasco

 

QUANDO PERGUNTEI SE TINHA dinheiro trocado, minha amiga abriu a bolsa e tirou a carteira. Verificou. Insuficiente. Imediatamente, tirou uma segunda carteira do bolso do casaco, essa repleta de notas. Espantei-me:

— Duas carteiras?

— Uma é para os assaltantes — explicou.

Farta de ter sido roubada várias vezes ao parar no semáforo, ela optou pelo estratagema.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjajfH8A7eafdlTNL09rOOLu2umC9fvbmbiX3hgDZQfiR96pzRxdJJ2TohU_7Imuifv9OoMazhabalarDKRy_T_61Bkgt1u6Vxdzt5W4EVafKPavMpm03RulmToqvZO4QGY_UtZ7A6OfmbtqDvjspqopX8Oe7XOYxRT3_8DnT3Nk6r4XXqweGsBAiuWsNM/s1600/VERMELHO.jpg


Houve época em que os assaltantes eram rápidos. Aproximavam-se, arrancavam um relógio e uma corrente de ouro e saíam correndo como ratos assustados. O assaltante do semáforo, hoje, é um profissional seguro, consciente de ter conquistado um espaço na sociedade. Em certo sentido, tem muito a ver com um dentista. Ambos sabem lidar com o nervosismo alheio. A única diferença é que, enquanto o dentista promete que não vai doer, o ladrão garante o oposto. Está distante de qualquer proposta feminista, pois prefere as mulheres desacompanhadas. Aproxima-se, explica que é um assalto e que quer todo o dinheiro da carteira. Generosamente, dispensa os documentos e as vítimas até agradecem.

— Tive a maior sorte — comentou uma conhecida.

— Ele deixou tudo, menos o dinheiro. Foi muito legal.   

Como se o ladrão fosse um amigo compreensivo!

Seu método, desenvolvido em centenas de semáforos, é o da pressão psicológica pura e simples. Na maior parte das vezes nem arma mostra. Já vi a atuação de um desses assaltantes. Eu estava parado num semáforo próximo à praça Roosevelt. Atrás de mim, em seu Fiat, a sábia amiga das duas carteiras. O profissional, acompanhado de um ajudante, aproximou-se de seu vidro. Vi, pelo meu retrovisor, que conversava com ela cortesmente. "Será um assalto?", refleti. Observei para ver se havia alguma arma. De jeito nenhum. Um bando de rapazes "mal-ajambrados" acompanhava a cena de longe. Já me vi descendo do carro e enfrentando todos a golpes de capoeira. O único problema é que não sei capoeira. Apenas pensei em aprender, duas ou três décadas atrás.

Prudentemente, decidi-me pela versão menos perigosa. "Deve estar pedindo esmola." Vi quando minha amiga ofereceu algumas notas. Achei a esmola grande, mas disfarcei. O sinal abriu, partimos. Mais tarde, no restaurante, onde havíamos combinado nos encontrar, ela revelou: fora um assalto! Gentilmente (e com alguma dor de consciência), fiz questão de pagar o jantar. Ou seja, o assaltado fui eu, porque o menu custou muito mais do que a quantia roubada.

Conheci uma garota que no último mês foi assaltada cinco vezes, em semáforos diferentes. Acha normal. Particularmente, acho que o mais grave é quando uma coisa dessas começa a ser "normal". E inútil revoltar-se. Uma jovem que trabalha na área de moda estava no semáforo do Trianon, na esquina da avenida Paulista, às 4 da tarde. O ladrão aproximou-se, pediu o relógio e o dinheiro. Ela rodopiou o pescoço em busca de ajuda. Foi-se o tempo dos cavaleiros andantes! Parecia ter-se tornado invisível. Nesse instante, farol verde! Os carros se moveram. Ela acelerou. O meliante agarrou seu rabo-de-cavalo. Pior que Rapunzel com suas tranças, ela ficou presa pelos cabelos, com um pé no acelerador, outro no breque e o pulso entregue ao ladrão. Liberou-se só depois de devidamente depenada.

Qualquer motorista sabe quais são os pontos mais perigosos. Então por que ninguém faz nada? Em regiões como a praça Roosevelt e o Trianon sucedem se os assaltos como se fossem terras de ninguém.

Estou começando a desenvolver a síndrome do pânico em cada sinal vermelho. Fecho os vidros, mesmo agora no verão. Fico parado, olhando cautelosamente em todas as direções enquanto o interior do veículo se transforma numa sauna. Logo eu, um tipo capaz de fazer piada de quase todas as coisas da vida. Mas a questão é séria. Seria cômica se não fosse trágica.

Perder peso e entrar em forma?

Para andar na moda já não basta usar esta ou aquela roupa. E preciso ter o corpo certo, com as medidas exatas de um halterofilista para eles, com o padrão de uma ginasta olímpica para elas. Uma tragédia para os barrigudinhos como eu. Tenho um amigo que passa três horas por dia na academia. Sai do trabalho e corre para os abdominais, para os alongamentos, para o levantamento de peso. Está com peito de pombo. Outro malhou tanto que os bíceps parecem dois pernis. A cabecinha fica enterrada nos ombros como uma coruja. Ambos sentem-se orgulhosos como gaviões. Uma conhecida passa os dias malhando. O corpo, enxuto, não combina com os vincos do rosto e com o nariz em forma de guarda-chuva. Às vezes dá a impressão de que fez um implante de cabeça.

Tenho inveja dos tempos em que alguém podia envelhecer tranquilamente. Fazer exercícios não é mau. O duro é que virou obsessão. Há uma amiga que passa as noites pedalando numa bicicleta ergométrica enquanto vê as novelas. Outra comprou uma esteira a prazo, que agora enfeita seu dormitório, com uma porção de roupas dependuradas. Virou cabide. O filho de outro amigo começou a se queixar de gordura. Entrou em pane, até convencer o pai a adquirir a bicicleta mais cara do pedaço. Uma maravilha, colocada no terraço do apartamento. Mal chegou, atirou-se sobre ela e pedalou quinze minutos, feliz. Nunca mais a usou. Está lá, no terraço, tomando chuva.

O pior é que qualquer rapaz bombado, qualquer pantera malhada age como se fosse um ser oriundo das estrelas. Vão às festas de camiseta, com jeans e roupas colantes. Se eu apareço com um paletó folgado para disfarçar o abdome, observam-me, fiscalizando. Eu me sinto como se fosse uma bolsa Chanel na vitrine de uma sex shop. Confesso: resolvi fazer ginástica, recentemente. Tentei o personal trainer. Ou seja, um professor de ginástica particular, até que eu pegasse o ritmo. Mal começamos, ele me deitou numa espécie de cadeira de dentista forrada de preto e me deu uma barra com pesos nas extremidades, a ser erguida vinte vezes.

Ergui uma, foi fácil. Duas, mais ou menos. Na terceira, o coração batia no nariz.

— Estou velho, já não posso mais! — reclamei.

—- Continue erguendo, ou a barra cai no seu queixo — ele avisou, didaticamente.

Nos abdominais foi pior. Eu contava, e logo chegava aos trinta. Quase mordi o joelho, de tanto nervosismo. Depois o instrutor me pendurou num aparelho de alongamento. Fiquei de pernas abertas, barriga para a frente e mãos agarrando uma barra de madeira, logo atrás.

— Esse exercício tira barriga — explicou.

— Você não pode me algemar aqui, até amanhã? — implorei. 

Com um sorriso de desprezo, o crápula terminou a aula.

— Se amanhã você conseguir se mexer, faça alguns exercícios —

despediu-se.

Desde a primeira aula, bastava olhar no espelho para me sentir um atleta. Assim, continuei com o sofrimento. Aulas depois ele começou a colocar pesos nos pés, que eu deveria erguer ritmadamente. Dava a impressão de que os dedos iam cair no chão. Meus amigos, só elogios:

— Agora você vai sentir mais vitalidade. 

Eu sentia sono só de ouvir a palavra vitalidade. Fui me pesar, esperançoso.

Dois quilos extras.

— E a massa muscular — disse o crápula.

Tanto esforço para engordar? Preferia ter devorado quilos de chantili. Mesmo assim, persisti no sacrifício.

Outro dia peguei uma revista de moda internacional. Até agora essas revistas eram pródigas em exibir manequins até quarentões, mas sempre com peitorais e bíceps expressivos. Surpresa! Em todas, modelos longilíneos, magros, cabelos compridos e ar romântico.

— O homem musculoso está saindo de moda! — pontificou uma amiga estilista. — O bonito agora é o tipo dândi, bem magro.

Pensei nos meus amigos nadando, jogando tênis, malhando. O que vão fazer agora? Trocar de corpo? E eu? Corri ao espelho. Examinei: meus braços estavam começando a ficar com aquele jeitinho de quem faz ginástica! Ih!

         É isso aí. Até quando entro em forma dou com os burros n'água.

          

Entendendo o texto

01.  Por que a amiga do narrador carrega duas carteiras?

a) Para se proteger de assaltantes.

b) Porque uma é para os documentos e outra para o dinheiro. c) Para despistar os ladrões.

d) Todas as alternativas estão corretas.

02. Como o assaltante do semáforo é descrito em comparação com os antigos assaltantes?

         a) Rápido e impulsivo.

         b) Profissional e consciente.

         c) Desorganizado e desesperado.

         d) Inofensivo e amigável.

03.Qual é o método mais comum desse tipo de assaltante?

        a) Mostrar a arma imediatamente.

        b) Usar a pressão psicológica.

        c) Roubar apenas documentos.

        d) Agir rapidamente e fugir.

04. O narrador presenciou um assalto próximo à praça Roosevelt. O que ele observou sobre o assaltante?

        a) Ele estava armado e agiu rapidamente.

        b) Ele pedia esmolas educadamente.

        c) Ele estava acompanhado por um grupo de malfeitores.

        d) Ele recusou o dinheiro oferecido pela amiga do narrador.

05. O que aconteceu durante o assalto vivido pela amiga do narrador?

        a) Ela ofereceu notas como esmola.

        b) O assaltante levou tudo, exceto o dinheiro.

        c) Ela conseguiu escapar ilesa.

        d) O narrador pagou o jantar depois de descobrir o assalto.

06. O narrador relata uma experiência no trânsito que o fez sentir como se estivesse numa sauna. O que ele faz para se proteger?

        a) Fecha os vidros do carro.

        b) Liga o ar condicionado.

        c) Desce do carro e enfrenta os ladrões.

        d) Grita por ajuda.

07. Qual é a reclamação do narrador em relação à pressão estética na sociedade?

       a) A obsessão por perder peso.

       b) A exigência de ter o corpo perfeito.

       c) A falta de moda para barrigudinhos.

       d) Todas as alternativas estão corretas.

08. O narrador tenta fazer ginástica com a ajuda de um personal trainer. Como ele se sente após a primeira aula?

       a) Energizado e motivado.

       b) Como um atleta.

       c) Cansado e dolorido.

       d) Deprimido e desencorajado.

09. Qual é a descoberta surpreendente sobre a moda masculina mencionada na crônica?

       a) Homens musculosos estão fora de moda.

       b) Homens magros são os mais desejados.

       c) Modelos masculinos agora usam cabelos compridos.

       d) Homens devem trocar de corpo para se adequar à moda.

10. Como o narrador se sente em relação aos seus esforços para entrar em forma no final da crônica?

      a) Satisfeito e realizado.

      b) Frustrado e desanimado.

      c) Animado para continuar se exercitando.

      d) Surpreso com os resultados positivos.