quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

CRÔNICA: ME ACORDEM QUANDO PASSAR - (FRAGMENTO) - ROBERTO GOMES - COM GABARITO

 Crônica: Me acordem quando passar – Fragmento

              Roberto Gomes

        Passei parte de minha infância brincando nas oficinas de um jornal. O nome era adequado: oficina, não estas redações atuais, com móveis bege, luz néon, ar condicionado e a névoa pálida dos monitores. Os móveis eram escuros, havia lâmpadas dependuradas por um fio no qual se juntavam moscas, e as máquinas de escrever martelavam forte sob as pancadas dos dois dedos que meu pai, na solene sala de redação, reservava para o ato de datilografar. Na sala ao lado, enegrecida por respingos de tinta, os blocos de chumbo descansavam contra as paredes. Era dali que vinham os golpes secos da impressora com seus garfos espalhafatosos. Na terceira sala, ficava a linotipo governada por Nelson de Souza, meu amigo Nelsinho, uma espécie de irmão adotivo que, além de compor o jornal, me levava ao cinema no domingo.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhfvNZopfygPSZoW-qFbONF9T2lQgKhzo5DVVPkt-PN2hzLe8Xr2tgYsN16BoW2-fy0C5upkFFjH7vUl6DVTt2TXrQ7lo54SG9OsLWu-GtF8O-WT5AeZpA1YgIwaX8TJZ8SsqCGXMmLatu6_CqPSRTr9oKltqSra_9pEPxX2Lfj9KYJB5gZ8WMGjZ8TMWo/s1600/Fotografia_hist%C3%B3rica_de_Guarulhos_35.jpg


        [...].

        [...] Mas devo agora dizer outra coisa, talvez estranha. Convivo ao mesmo tempo com um tédio enorme diante das notícias. Não raro folheio jornais pensando em outra coisa, como alguém que quer se livrar de algo que o aborrece.

        Olho, por exemplo, estas manchetes cintilantes e tenho a impressão de que já li todas elas. Eram outros os personagens, a quantidade de feridos ou mortos, a urgência apregoada de um prazo no congresso, a data de uma posse – mas tudo muito igual. As explicações são as mesmas: uns dizem agora que falta vontade política, a mesma que não tiveram antes; outros se mostram severos e exigentes, muito objetivos, esquecidos de quando deliravam num mundo em que tudo seria possível, houvesse vontade política. E, claro, todos clamam por honestidade no trato com as coisas públicas. Como sempre.

        Mas não é só. Será que precisamos mesmo saber o que houve com aquele trem no interior da Índia? Com aquele ministro no Japão? E por que o jornalismo tem que ser este alarde a respeito do torto, do sujo, do corrupto, do que não deu certo, da mula de duas cabeças, a busca de números e percentagens quando Manuel Bandeira já provou, faz tempo, que o cálculo das probabilidades é uma pilhéria? Por que se vai ao outro lado do mundo buscar o esquisito, o desastre, a safadeza? Tem logo ali na esquina.

        Será que precisamos ler tantas notícias? Ver tantos jornais na televisão? Folhear tantas revistas? Que maluquice é esta em que estamos metidos? 

        Volto à oficina do jornal que meu pai dirigia. Tenho quase seis anos e vou catando lascas de chumbo, com as quais invento bandidos, índios, mocinhos de cinema. Com eles ocupo o meu dia, que passo ali, entre as máquinas, ouvindo o chacoalhar infindável da linotipo, as pancadas secas da impressora e, vindo da sala de redação, o batucar dos dois dedos de meu pai que perseguem as teclas negras da Remington.

        [...].

        Quando minha mãe vinha me chamar, eu já estava dormindo, deitado sobre alguma folha de jornal, a mesma folha que eu percorria com olhos acesos sem poder decifrar o que diziam. Isto me angustiava e eu dormia pensando: o que há por trás destas letrinhas? Que é tudo isto? O que estamos fazendo aqui?                

Roberto Gomes. Gazeta do Povo – caderno G. Curitiba, 06/07/2003.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 213.

Entendendo a crônica:

01 – Qual a principal diferença entre as redações de jornais da infância do autor e as redações atuais, segundo o texto?

      O autor descreve as redações de sua infância como "oficinas", com móveis escuros, lâmpadas penduradas com moscas, máquinas de escrever barulhentas e o cheiro forte de tinta. Em contraste, as redações atuais são apresentadas como ambientes impessoais, com móveis bege, luz néon, ar condicionado e a "névoa pálida dos monitores". A principal diferença reside na atmosfera: as redações antigas eram vibrantes e cheias de vida, enquanto as atuais são mais frias e assépticas.

02 – Qual a sensação do autor em relação às notícias que lê nos jornais?

      O autor expressa um tédio enorme diante das notícias. Ele tem a impressão de que já leu todas as manchetes antes, com personagens e detalhes diferentes, mas com a mesma essência. As explicações para os problemas também se repetem, como a falta de "vontade política" e os clamores por honestidade.

03 – Qual a crítica do autor em relação ao conteúdo dos jornais?

      O autor critica a busca incessante por notícias sensacionalistas e exóticas, como acidentes e escândalos em lugares distantes, questionando a necessidade de saber de tais eventos. Ele sugere que há problemas e notícias relevantes bem mais perto, "logo ali na esquina", e que a insistência em explorar o sofrimento e o bizarro de longe parece desviar o foco dos problemas reais e próximos.

04 – Qual a reflexão proposta pelo autor sobre a quantidade de notícias que consumimos?

      O autor questiona a necessidade de consumir tantas notícias, jornais e revistas, sugerindo que essa busca frenética por informação pode ser uma "maluquice". Ele parece defender que a qualidade da informação é mais importante do que a quantidade, e que a repetição de temas e a busca por sensacionalismo podem nos afastar da compreensão real dos problemas.

05 – Qual a lembrança de infância que o autor traz à tona?

      O autor relembra sua infância na oficina do jornal de seu pai, onde passava o dia entre as máquinas, fascinado pelo processo de produção do jornal e pelas histórias que as letras pareciam esconder. Ele dormia sobre as folhas de jornal, angustiado por não conseguir decifrar o que diziam, mas curioso sobre o mundo que elas representavam.

06 – Qual a sensação que o autor descreve ao final do fragmento?

      Ao final do fragmento, o autor descreve uma sensação de angústia e de mistério em relação ao mundo das notícias. Ele se sente como uma criança que não consegue decifrar as letras do jornal, mas que pressente que ali se escondem segredos e respostas para as grandes questões da vida.

07 – Qual a principal mensagem que o autor busca transmitir com este fragmento de crônica?

      O autor nos convida a refletir sobre a forma como consumimos notícias e sobre a nossa relação com a informação. Ele questiona a necessidade de tanta informação, a qualidade do conteúdo dos jornais e a nossa capacidade de compreender o mundo através das notícias. A crônica nos leva a pensar sobre o que realmente importa e sobre como podemos nos conectar com o mundo de forma mais profunda e significativa.

 

NOTÍCIA: A SOLIDÃO DO CAIS - MARIO SERGIO CORTELA - COM GABARITO

 Notícia: A solidão do cais

             Mario Sergio Cortela

        "O que há em mim é sobretudo cansaço / Não disto ou daquilo, / Nem sequer de tudo ou de nada; / Cansaço assim mesmo, ele mesmo, / Cansaço"

        O fim está próximo! A ameaça apocalíptica de muitos profetas e de variados loucos momentâneos ecoa não só nos templos ou nos desertos eremíticos. A cada final de ano vem essa impressão. Tempo de preparar-se para prometer revisões para mais tarde, era de nostalgias postergadas, época de tentar esquecer levemente as asfixias do cotidiano e, suspirando, ficar imaginando que falta pouco. Pouco para quê? Pouco para o acabar de um sorrateiro embaço e indefinível cansaço. Neste período, parece que ficamos todos orbitando em um dos modos de ser de Fernando Pessoa, aquele tão bem lembrado pelo (fictício?) Álvaro de Campos: "O que há em mim é sobretudo cansaço / Não disto ou daquilo, / Nem sequer de tudo ou de nada; / Cansaço assim mesmo, ele mesmo, / Cansaço".

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiOsNmX3rrr4mb_IZr7jfUUbOPzhKCvck4l4UopFeKC3GllOLwz0LCAAXz0IDilQG0lPsFFBbhhDpZb17jIE2YR5OA5ZYymX9f0wn3mTaIzz5uPTuy1Kd9NIJU7CimKJS5WVZO7eAD2DMJGH-X-ic_Zz83z61iqRjz4hF_ccEomOEN0SJLFP-NCk14ksA4/s320/Era-da-Solidao-Einstein.jpg

        A sensação é que esse cansaço nebuloso é adiado por algumas estereotipadas e forçadas comemorações coletivas que apenas invadem a inconsciência e perturbam desejos de somente aquietar-se, se não de forma mais definitiva, ao menos suspendendo temporariamente as tensões de ter de existir sem pausa e ser obrigado a participar de um espírito de júbilo traduzido em posse fugaz, matéria plástica e reconciliações transitórias.

        Há um século, em dezembro de 1903, o lisboeta Fernando Pessoa, com pouco mais de 15 anos, conseguiu ser brilhantemente admitido na Universidade do Cabo – o exame (um ensaio escrito em inglês!) rendeu a ele o prêmio Rainha Vitória, grande honraria naquela ocasião. Nascido em 1888, ficou órfão de pai em 1893; a mãe (a quem dedicara sua primeira poesia, escrita com sete anos de idade) casou-se então com um diplomata (sempre viajante) e, para tristeza do menino, poucos meses depois da redação da quadrinha "A Minha Querida Mamã", teve de acompanhá-los na mudança da família para a África do Sul, deixando a terra natal. Em Durban, estudou o idioma britânico, inicialmente em um convento, fez a high school e, em pouco tempo, foi premiado também pelo desempenho em francês. Voltou a viver por um ano em Portugal (enquanto o padrasto gozava de uma licença), retornando à África, na qual o sucesso precoce continuou até o ingresso na universidade.

        Mas nem dois anos tinham ainda se passado e, mesmo com a surpreendente performance acadêmica, o jovem Fernando decidiu regressar novamente a Lisboa, desta vez sozinho, de modo a matricular-se no Curso Superior de Letras. Entre a península Ibérica e o cabo da Boa Esperança, havia a distância e a presença constante do mar, recorrente na obra do poeta e de seu povo. O já aludido heterônimo do plurifacetado Pessoa, Álvaro de Campos, um depressivo genial, é autor da corretamente extensa e conhecida "Ode Marítima", na qual há o secular e perene verso: "Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!".

        Ele sabia, nós sabemos. A solidez do cais, a solidão do cais. Mais um ano. Estar sempre partindo ou ficando. Por isso, para nos dar alguma paz, esse mesmo Álvaro de Campos escreveu que "Na véspera de não partir nunca / Ao menos não há que arrumar malas / Nem que fazer planos em papel, / Com acompanhamento involuntário de esquecimentos, / Para o partir ainda livre do dia seguinte. / Não há que fazer nada / Na véspera de não partir nunca".

        Dessa fonte interna vem a ânsia de descanso e a avidez por sossego. Conclui Pessoa/Campos: "Sossego, sim, sossego... / Grande tranquilidade... / Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! / Que prazer olhar para as malas fitando como para nada! / Dormita, alma, dormita! / Aproveita, dormita! / Dormita! / É pouco o tempo que tens! Dormita! / É a véspera de não partir nunca!".

        Conta a lenda filosófica que, todas as vezes que ao filósofo alemão Edmundo Husserl era feita a pergunta "E o senhor, como vai?", ele respondia mediante e sem titubeio: "Bem! Sinto apenas uma certa dificuldade em ser...".

MARIO SERGIO CORTELA, filósofo, professor da PUC-SP, autor de "A Escola e o Conhecimento: Fundamentos Epistemológicos" (ed. Cortez/IPF), entre outros. Folha de São Paulo. Caderno Equilíbrio. São Paulo, 4 dez. 2003, p. 12.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 113.

Entendendo a notícia:

01 – Qual é a principal sensação que permeia o texto de Mario Sergio Cortela?

      A principal sensação é a de um cansaço nebuloso e indefinível, um sentimento de exaustão que parece acompanhar o ser humano em seu cotidiano.

02 – Qual a relação entre o cansaço e as comemorações de final de ano, segundo o autor?

      Cortela argumenta que as comemorações de final de ano, apesar de serem momentos de celebração coletiva, podem intensificar a sensação de cansaço, pois invadem a inconsciência e perturbam o desejo de quietude e descanso.

03 – Quem é Fernando Pessoa e qual a sua importância para o texto?

      Fernando Pessoa é um poeta português que, através de seus heterônimos, como Álvaro de Campos, expressou de forma profunda e sensível a angústia e o cansaço da existência humana. Seus versos são utilizados por Cortela para ilustrar a sensação de cansaço que ele descreve.

04 – O que significa a expressão "Todo o cais é uma saudade de pedra!"?

      Essa expressão, presente na "Ode Marítima" de Álvaro de Campos, representa a solidão e a melancolia do cais, lugar de partida e de chegada, de esperança e de saudade. A pedra simboliza a frieza e a imobilidade diante da vastidão do mar, que representa a vida e suas incertezas.

05 – Qual a relação entre a "véspera de não partir nunca" e o cansaço, segundo o autor?

      A "véspera de não partir nunca" representa o desejo de descanso e de sossego, de interromper o ciclo de partidas e chegadas que marcam a vida humana. Esse desejo surge do cansaço acumulado pelas constantes viagens, tanto físicas quanto psíquicas, que enfrentamos ao longo da vida.

06 – Qual a reflexão proposta por Cortela ao citar o filósofo Edmundo Husserl?

      Ao citar a resposta de Husserl à pergunta "E o senhor, como vai?", Cortela nos leva a refletir sobre a dificuldade de "ser" no mundo contemporâneo, sobre a sensação de estranhamento e de inadequação que muitas vezes nos acompanha.

07 – Qual a mensagem principal que Cortela busca transmitir ao longo do texto?

      Cortela nos convida a refletir sobre o cansaço e a solidão que permeiam a vida moderna, sobre a importância de buscar momentos de quietude e de descanso, e sobre a necessidade de dar sentido à nossa existência, para além das comemorações superficiais e dos momentos de euforia passageira.

 

CRÔNICA: TROFÉU E SONHO - MOACYR SCLIAR - COM GABARITO

Crônica: Troféu e sonho

               Moacyr Scliar

        Endividados, clubes penhoram até taça. A crise financeira por que passa o futebol brasileiro leva os principais clubes do país a ter parte dos bens penhorada. O Flamengo disponibilizou troféus ganhos nos últimos anos para diversos credores.

Folha Esporte, 5.out.03

        A mansão, ainda que luxuosa, é de um mau gosto extremo. Não há muito o que ver, mas o dono faz questão de levar os visitantes a uma sala que chama de "meu templo"; ali, em uma espécie de vitrine, iluminada por fortes lâmpadas, está um troféu, uma taça destas que os clubes ganham em campeonatos. E, sem que lhe peçam, ele conta a história dessa taça.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhbykhaj-l8j70DsTZRwuWSJKl-QCSvjQQVxGnhx1Co68CqY-Um4hYvmmXCrk7TF_FVsCelVDL8OjBTfCi2AkQp5lKCqkoVoOLtRZWFO-DjIv7kzmU6RLALCwo-Uy9yoZ2BsDhVvEC5qCSNQJP2InbUuGlkb_fpSWFdyUgngDMiBgEbzcQ_OlcE3O3pvWs/s1600/TROFEU.jpg


        Tudo começou quando era um rapaz pobre, morando em uma pequena cidade do interior. Lugar modorrento, onde nada acontecia. Assim, foi grande a surpresa quando se anunciou a chegada, ali, de um grande time de futebol: nada menos que o Flamengo, do Rio de Janeiro. Notícia que o deixou excitadíssimo porque, em primeiro lugar, era fã de futebol – jogava razoavelmente bem – e, mais importante, era um ardoroso torcedor do rubro-negro. Que viria ali para disputar um torneio regional, no qual participavam o time da cidade e mais alguns outros clubes de localidades vizinhas.

        Na véspera do grande jogo, nem conseguiu dormir, tão ansioso estava. No dia seguinte, foi o primeiro a chegar ao pequeno e precário estádio. Aos poucos as arquibancadas foram se enchendo. Todos miravam-no com irritação. Explicável: ele vestia uma camisa do Flamengo e agitava uma bandeira do clube: decidira assumir a sua condição de torcedor e o fazia com orgulho. Aplaudiu com entusiasmo o rubro-negro, quando este entrou em campo.

        A partida começou e logo duas coisas ficaram claras; primeiro, que os donos da casa não eram adversários para o Flamengo; segundo, que o time carioca estava com muito azar. Jogador após jogador se lesionava e tinha de ser substituído. Lá pelas tantas, o insólito; mais um lesionado – e já não havia reservas no banco. O que gerou um impasse. A partida foi paralisada, enquanto juiz e dirigentes deliberavam.

        -- Foi aí – conta ele – que eu tive uma inspiração. Levantei-me e, da arquibancada, gritei que jogaria pelo Flamengo. Os dirigentes olharam-me com espanto, mas decidiram aceitar a proposta. Rapidamente assinei um contrato e no instante seguinte estava no campo. Num instante, apossei-me da bola, driblei um, driblei o segundo, chutei forte no canto esquerdo – gol! Gol da vitória! O Flamengo ganhou a taça. Que os dirigentes, em sinal de gratidão, me ofereceram.

        Esta é a história que o homem conta. Na qual ninguém acredita: todos sabem que comprou a taça, por bom dinheiro, de um credor do Flamengo. Mas também ninguém o desmente. Afinal, quem compra um troféu compra junto o sonho que esse troféu representa.

Moacyr Scliar escreve às segundas-feiras, nesta coluna, um texto de ficção baseado em matérias publicadas no jornal. Folha de São Paulo, 13/10/2003, p. C2.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 212.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é a situação apresentada no início da crônica em relação aos clubes de futebol brasileiros?

      A crônica inicia mostrando a difícil situação financeira dos clubes de futebol brasileiros, que estão chegando ao ponto de penhorar seus bens, incluindo troféus, para saldar dívidas.

02 – Qual é o objeto central da narrativa e qual o seu significado para o dono da mansão?

      O objeto central da narrativa é um troféu, uma taça de campeonato. Para o dono da mansão, esse troféu representa a realização de um sonho de infância, a glória de ter jogado pelo Flamengo e conquistado um título.

03 – Qual é a história contada pelo dono da mansão sobre como ele ganhou o troféu?

      O dono da mansão conta que, quando era jovem e morava no interior, o Flamengo foi jogar um torneio na cidade. Durante o jogo, vários jogadores do Flamengo se machucaram e não havia mais reservas. Ele, então, se ofereceu para jogar, marcou o gol da vitória e ganhou o troféu como reconhecimento.

04 – Qual é a reação das pessoas ao ouvirem a história do dono da mansão?

      Ninguém acredita na história contada pelo dono da mansão. Todos sabem que ele comprou a taça de um credor do Flamengo.

05 – Qual é a principal crítica presente na crônica de Moacyr Scliar?

      A crônica critica a obsessão pelo sucesso e pela fama, mostrando como as pessoas são capazes de inventar histórias e comprar troféus para alimentar seus egos e suas fantasias.

06 – Qual é a reflexão proposta por Moacyr Scliar ao final da crônica?

      Scliar nos leva a refletir sobre a importância dos sonhos e como as pessoas podem distorcer a realidade para alcançar seus objetivos. Ele mostra que, muitas vezes, o que importa não é a verdade, mas sim a história que contamos para nós mesmos e para os outros.

07 – Qual é a relação entre o título da crônica, "Troféu e Sonho", e o seu conteúdo?

      O título "Troféu e Sonho" resume a essência da crônica. O troféu representa o objeto de desejo, o símbolo da vitória e do sucesso. O sonho, por sua vez, representa a fantasia, a história inventada para justificar a posse do troféu. A crônica mostra como o sonho pode se tornar mais importante do que a realidade, a ponto de a pessoa comprar um troféu e criar uma história para dar sentido a ele.

 


AUTOBIOGRAFIA: HOMEM CORRENDO DA POLÍCIA - (FRAGMENTO) - FERNANDO GABEIRA - COM GABARITO

 Autobiografia: Homem correndo da polícia – Fragmento

                       Fernando Gabeira

        Irarrazabal chama-se a rua por onde caminhávamos em setembro. É um nome inesquecível porque jamais conseguimos pronunciá-lo corretamente em espanhol e porque foi ali, pela primeira vez, que vimos passar um caminhão cheio de cadáveres. Era uma tarde de setembro de 1973, em Santiago do Chile, perto da praça Nunoa, a apenas alguns minutos do toque de recolher.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhb_gccOdPeRrxQSyuTpmeceArGyijD4eNrqoy_oBj-xU6AekPmgKCm-URUhm_M_Z_HuJ1SSh45lsLrZsnM8EwTRN6e47Q7FUcNI6lSyTNX8Icp_uqI2_eZnvMFtrMD5XBrQtZG84nRPw3NcsrCrKF3Oz6fjxEDlHeN_lvM9XVSOp6fFMklq7grynQ3e14/s1600/CHILE.jpg

        Caminhávamos rumo à Embaixada da Argentina, deixando para trás uma parte gelada da cordilheira dos Andes e tendo à nossa esquerda o estádio Nacional, para onde convergia o grosso do tráfego militar na área.

        Na esquina com a rua Holanda, somos abordados por alguém que nos pede fogo. Uma pessoa parada na esquina. Parecia incrível que se pudesse estar parado na esquina, naquele momento. Vera me olhou com espanto e compreendi de estalo o que queria dizer:

        -- “Coitado, vai cair breve nas mãos da polícia.”

        Ele se curva para acender o cigarro e vemos seus dedos amarelos. A chama do fósforo ressalta as olheiras de quem dormiu pouco ou nem dormiu. Certamente era de esquerda, o cara parado na esquina. E, como nós, estava transtornado com o golpe militar, tentando reatar os inúmeros vínculos emocionais e políticos que se rompem num momento desses.

        Tive vontade de aconselhá-lo: se cuida, toma um banho, não dá bandeira, se manda, sai dessa esquina. Mas compreendi, muito rapidamente, que seria absurdo parar para conversar na esquina de Irarrazabal com Holanda, naquele princípio de primavera.

        Nós também estávamos numa situação difícil. A alguns minutos do toque de recolher, a meio caminho da Embaixada da Argentina, nossas chances eram estas: ou saltávamos para dentro dos jardins e ganhávamos asilo político, ou ficávamos na rua, em pleno toque de recolher. Se ficássemos na rua seríamos certamente presos e teríamos, pelo menos, algumas noites de tortura para explicar o que estávamos fazendo no Chile, durante a virada sangrenta que derrubou a Unidade Popular. Pessoalmente teria de explicar por que me chamava Diogo e era equatoriano. E não me chamava Diogo nem era equatoriano. Tratava-se de um passaporte falso, de um português que emigrara para Quito, e que me dava margem para falar espanhol com sotaque. Português naturalizado equatoriano, caminhando ao lado de uma brasileira e de uma alemã, sem tempo portanto para dar conselhos.

        Pois, como ia dizendo, estávamos numa situação difícil. Na melhor das hipóteses, venceríamos a vigilância dos carabineros e cruzaríamos os jardins da embaixada. Começaria aí um exílio dentro do exílio, dessa vez mais longo e doloroso porque as ditaduras militares estavam fechando o cerco no continente. Na melhor das hipóteses, portanto, iríamos sofrer muito.

        No entanto, era preciso correr. Correr rápido para chegar a tempo e meio disfarçado para não chamar a atenção dos carros militares. E talvez o cara da esquina nem fosse de esquerda. Foi assim, nessa corrida meio culpada, que me ocorreu a ideia: se escapo de mais essa, escrevo um livro contando como foi tudo. Tudo? Apenas o que se viu nesses dez anos, de 1968 para cá, ou melhor, a fatia que me tocou viver e recordar.

        Este portanto é o livro de um homem correndo da polícia, tentando compreender como é que se meteu, de repente, no meio da Irarrazabal, se havia apenas cinco anos estava correndo da Ouvidor para a Rio Branco, num dos grupos que fariam mais uma demonstração contra a ditadura militar que tomara o poder em 1964. Onde é mesmo que estávamos quando tudo começou?

GABEIRA, Fernando. O que é isso companheiro? 13 ed. Rio de Janeiro: Codecri, 1980, p. 9-10.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 236-237.

Entendendo a autobiografia:

01 – Qual é o contexto histórico em que se passa a narrativa?

      A narrativa se passa em Santiago do Chile, em setembro de 1973, durante o golpe militar que derrubou o governo de Salvador Allende e instaurou a ditadura de Augusto Pinochet.

02 – Qual é a situação dos personagens principais no momento da narrativa?

      Os personagens principais, o narrador (Fernando Gabeira) e seus acompanhantes Vera e uma alemã, estão em uma situação de risco. Eles caminham pelas ruas de Santiago, próximo ao toque de recolher, e correm o risco de serem presos e torturados pela polícia militar.

03 – Quem é o "homem parado na esquina" e qual é a sua importância na narrativa?

      O "homem parado na esquina" é um personagem que o narrador e seus amigos encontram durante sua fuga. Ele é descrito como um homem de esquerda, transtornado com o golpe militar, que parece estar em perigo. Sua importância reside em despertar no narrador a reflexão sobre a situação de perigo que ele próprio está vivendo e sobre a necessidade de tomar cuidado para não ser pego pela polícia.

04 – Qual é a principal preocupação do narrador ao longo do fragmento?

      A principal preocupação do narrador é escapar da polícia e evitar a prisão e a tortura. Ele está constantemente atento aos sinais de perigo e busca formas de se disfarçar e se proteger.

05 – O que significa a expressão "exílio dentro do exílio" utilizada pelo narrador?

      A expressão "exílio dentro do exílio" se refere à possibilidade de o narrador e seus amigos conseguirem asilo político na Embaixada da Argentina, mas terem que enfrentar um novo período de exílio, agora dentro da embaixada, devido à repressão política no Chile e em outros países da América Latina.

06 – Qual é a reflexão central que o narrador faz ao longo do fragmento?

      O narrador reflete sobre como se envolveu em situações de perigo e de luta política ao longo de sua vida. Ele se questiona sobre as motivações que o levaram a correr da polícia, tanto no Brasil, durante a ditadura militar, quanto no Chile, durante o golpe.

07 – Qual é a relação entre o título "Homem correndo da polícia" e o conteúdo do fragmento?

      O título "Homem correndo da polícia" resume a situação central do fragmento: o narrador e seus amigos estão fugindo da polícia militar em Santiago do Chile. A corrida do narrador, tanto no Chile quanto no Brasil, representa sua luta contra a opressão e a busca por liberdade.

 

CARTA: QUEM É O DONO DA PUREZA DO AR E DO RESPLENDOR DA ÁGUA? - COM GABARITO

 Carta: Quem é o dono da pureza do ar e do resplendor da água?

        "Tudo quanto fere a Terra, fere também os filhos da terra." (Cacique Seattle, 1885)

        Carta do Cacique Seattle, da tribo Duwamish, do Estado de Washington, para o Presidente Franklin Pierce, dos Estados Unidos, em 1855, depois de o governo ter dado a entender que pretendia comprar o território da tribo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhZGk0gzR7x_Hv5uPb-R7fRY0vAjIOPzWmGV8CwXoXwZRvO1EpkdjJNYpLKzAmzdLzT8-gJXAmC3V73AZLb70KI-DW_Uwt7Td-ipM0HCTleY21FZALZr8GpfTSW5OX8eMTNuj7akCc_cLBtDfVYiuxE5UAHs1THKLB1ISNCs1XFak-o3aSgFkRP5e2qmrw/s320/chief_seattle_1_widelg.jpg


        O grande chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar a nossa terra.  O grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e sua benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Porém, vamos pensar em tua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra.  O grande chefe em Washington pode confiar no que o chefe Seattle diz, com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas – elas não empalidecem.

        Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia é-nos estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água. Como podes então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre o nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo.

        Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele, um torrão de terra é igual a outro. Porque ele é um estranho que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de exauri-la, ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai, sem remorsos de consciência. Rouba a terra dos seus filhos. Nada respeita. Esquece a sepultura dos antepassados e o direito dos filhos. Sua ganância empobrecerá a terra e vai deixar atrás de si os desertos. A vista de tuas cidades é um tormento para os olhos do homem vermelho. Mas talvez isso seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.

        Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem um lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem da primavera ou o tinir das asas de insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é para mim uma afronta contra os ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo, à noite?  Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho da água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho. Porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar – animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao ar fétido.

        Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição. O homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos.   Sou um selvagem e não compreendo que possa ser certo de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como o fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso do que um bisão que nós, os índios, matamos apenas para sustentar nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, os homens morreriam de solidão espiritual porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo está relacionado entre si. Tudo que fere a terra, fere também os filhos da terra.

        Os nossos filhos viram seus pais serem humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, e envenenam seu corpo com alimentos doces e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos nossos últimos dias – eles não são muitos. Mais algumas horas, até mesmo uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que tem vagueado em pequenos bandos nos bosques, sobrará para chorar sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

        De uma coisa sabemos que o homem branco talvez venha um dia a descobrir: O nosso Deus é o mesmo Deus! Julgas, talvez, que o podes possuir da mesma maneira como desejas possuir a nossa terra. Mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira. E quer bem igualmente ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. E causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo seu Criador. O homem branco também vai desaparecer talvez mais depressa do que as outras raças. Continua poluindo tua própria cama, e hás de morrer uma noite, sufocado nos teus próprios dejetos! Depois de abatido o último bisonte e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, e quando as colinas escarpadas se encherem de mulheres a tagarelar – onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará o adeus à andorinha da torre e à caça, o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.

        Talvez compreenderíamos o homem branco se conhecêssemos com que ele sonha; se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar os desejos para o dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos, temos de escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos, é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os últimos dias conforme desejamos.  Depois do último homem ter partido e a sua lembrança não passar de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças como era a terra quando dela tomaste posse. E com toda tua força, o teu poder, e todo o teu coração – conserva-a para teus filhos e ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 250-252.

Entendendo a carta:

01 – Qual é o contexto da carta do Cacique Seattle?

      A carta foi escrita em 1855 pelo Cacique Seattle, da tribo Duwamish, para o Presidente Franklin Pierce, dos Estados Unidos, após o governo americano manifestar o desejo de comprar o território da tribo.

02 – Qual é a principal mensagem da carta?

      A principal mensagem da carta é a crítica à forma como o homem branco lida com a natureza e com a terra, contrastando com a visão de mundo dos povos indígenas, que consideram a terra sagrada e parte integrante de suas vidas.

03 – Que elementos da natureza são considerados sagrados pelo povo do Cacique Seattle?

      Para o povo do Cacique Seattle, a terra, o céu, a água, o ar, as árvores, os animais, as folhas, as praias, a neblina, as clareiras e os insetos são sagrados e fazem parte de sua cultura e espiritualidade.

04 – Qual é a crítica do Cacique Seattle ao modo de vida do homem branco?

      O Cacique Seattle critica o modo de vida do homem branco, que considera a terra como um recurso a ser explorado e não como uma irmã. Ele critica a ganância do homem branco, que causa a destruição da natureza e desrespeita os ancestrais e as futuras gerações.

05 – Qual é a visão do Cacique Seattle sobre a relação entre o homem e os animais?

      O Cacique Seattle expressa a importância dos animais para o povo indígena, tanto para a sobrevivência física quanto espiritual. Ele critica a forma como o homem branco mata os animais por esporte ou por ganância, sem se importar com o impacto dessa ação na natureza e na vida dos povos indígenas.

06 – Qual é a preocupação do Cacique Seattle em relação ao futuro de seu povo?

      O Cacique Seattle expressa a tristeza pela perda de terras e pela humilhação sofrida por seu povo. Ele teme que a cultura e as tradições indígenas desapareçam com o tempo, restando apenas lembranças e um sentimento de desesperança.

07 – Qual é a reflexão do Cacique Seattle sobre a espiritualidade do homem branco?

      O Cacique Seattle questiona a espiritualidade do homem branco, que parece não se importar com a pureza do ar e da água, elementos essenciais para a vida. Ele expressa a esperança de que o homem branco possa um dia compreender a conexão entre todas as formas de vida e a importância de preservar a natureza.

08 – Qual é a condição imposta pelo Cacique Seattle caso aceite a proposta de venda das terras?

      O Cacique Seattle impõe a condição de que o homem branco trate os animais como se fossem seus irmãos, demonstrando respeito pela vida e pela natureza.

09 – Qual é a metáfora utilizada pelo Cacique Seattle para expressar a ligação entre o povo indígena e a terra?

      O Cacique Seattle utiliza a metáfora de que a terra é como o bater do coração de uma mãe para um recém-nascido, expressando o amor e a profunda conexão entre o povo indígena e sua terra.

10 – Qual é a mensagem final da carta do Cacique Seattle?

      A mensagem final da carta é um apelo para que o homem branco ame e proteja a terra como o povo indígena a ama e protege, reconhecendo que o mesmo Deus é o criador de todas as raças e que a terra é sagrada para todos.

 

ARTIGO DE OPINIÃO: TODA CULTURA É PARTICULAR - (FRAGMENTO) - LEANDRO KONDER - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Toda cultura é particular – Fragmento

                             Leandro Konder

        Não existe, nem pode existir uma cultura universal constituída. No nosso século, os antropólogos vivem ensinando isso a quem quiser aprender.

        Tal como acontece com cada indivíduo, os grupos humanos, grandes ou pequenos, vão adquirindo e renovando, construindo, organizando e reorganizando, cada um a seu modo, os conhecimentos de que necessitam.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi8kdYGO31qRRe-nWS2hvAku4ST-_dYHPtehdkCLM_6e5tQ4eYHPo0HCaOMgnr90QkTWmMy9ZDLGaO0OxZXFUaSVq-gVTlX2otw_qysUOG-4vzVQdfbOrhR6zfHqtSE53AGeGkW-dYhjVOZtslP6u4XooM04Ark5zLEbBdPs9-O_-Y-NEkA73yTE9LPFhM/s320/CULTURA.png

        O movimento histórico da cultura consiste numa diversificação permanente. A cultura universal – que seria a cultura da Humanidade – depende dessa diversificação, quer dizer, depende da capacidade de cada cultura afirmar sua própria identidade, desenvolvendo suas características peculiares.

        No entanto, as culturas particulares só conseguem mostrar sua riqueza, sua fecundidade, na relação de umas com as outras. E essa relação sempre comporta riscos.

        Em condições de uma grande desigualdade de poder material, os grupos humanos mais poderosos podem causar graves danos e destruições fatais às culturas dos grupos mais fracos. [...]

        Todos tendemos a considerar nossa cultura particular mais universal do que as outras. [...] Cada um de nós tem suas próprias convicções. [...]

        Tanto indivíduos como grupos têm a possibilidade de se esforçar para incorporar às suas respectivas culturas elementos de culturas alheias. [...]

        Apesar dos perigos da relação com as outras culturas (descaracterização, perda da identidade, morte), a cultura de cada pessoa, ou de cada grupo humano, é frequentemente mobilizada para tentativas de auto-relativização e de autoquestionamento, em função do desafio do diálogo. 

Leandro Konder. O Globo, 02/08/98.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 333.

Entendendo o artigo:

01 – Qual é a principal ideia defendida no artigo de opinião "Toda cultura é particular"?

      A principal ideia defendida no artigo é que não existe uma cultura universal constituída, mas sim uma diversidade de culturas particulares, cada uma com sua própria identidade e características peculiares.

02 – De que forma o movimento histórico da cultura é descrito no artigo?

      O movimento histórico da cultura é descrito como uma diversificação permanente, onde cada grupo humano adquire, renova, constrói e reorganiza seus conhecimentos de maneira singular.

03 – Qual é a relação entre as culturas particulares e a cultura universal, segundo o autor?

      A cultura universal, que seria a cultura da Humanidade, depende da diversificação das culturas particulares. Cada cultura, ao afirmar sua identidade e desenvolver suas características, contribui para a riqueza da cultura universal.

04 – Quais são os riscos apontados pelo autor na relação entre culturas diferentes?

      O autor aponta que a relação entre culturas diferentes sempre comporta riscos, especialmente em condições de desigualdade de poder material. Grupos humanos mais poderosos podem causar danos e destruições fatais às culturas dos grupos mais fracos.

05 – Como o artigo aborda a questão da tendência de considerar a própria cultura como mais universal do que as outras?

      O artigo reconhece que tanto indivíduos quanto grupos tendem a considerar sua cultura particular como mais universal do que as outras, devido às próprias convicções. No entanto, o autor destaca a importância do diálogo e do autoquestionamento para relativizar essa visão e incorporar elementos de outras culturas.

 

 

ARTIGO DE OPINIÃO: AS PALAVRAS E AS COISAS - (FRAGMENTO) - JOSÉ GERALDO COUTO - COM GABARITO

 Artigo de opinião: As palavras e as coisas – Fragmento

José Geraldo Couto – colunista da folha – Futebol

        Guimarães Rosa, possivelmente o maior escritor brasileiro depois de Machado de Assis, dizia que seu sonho era escrever um dicionário.

        Ignoro se Rosa gostava de futebol (até onde eu sei, nunca escreveu nada a respeito), mas certamente ele se encantaria com a riqueza vocabular associada ao esporte mais popular do mundo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEibREf84yxbFfbRC5BR5AuEL1Tu2awM7eo4HbWEIkG7avHtg_B26vOGPj19mSBrMSKJBgo4dBwWMzTQUvZ495Ek6ZPEPGctpWwebhHvzfH8m9P4VQc4Sqs1m_qViny2Ktul6eGtvKB0Q6muerAcq7E9TeneDl8viKopEJZrLRnHADaWBqBl3cKMoDC2gyM/s320/Joao%20Guimar%C3%A3es%20Rosa%2001.jpg


        Poliglota, cultor dos neologismos formados a partir de diversos idiomas, o autor de "Sagarana" devia se deliciar com as palavras de origem inglesa aclimatadas ao português do Brasil por obra e graça do jogo da bola.

        É certo que alguns desses termos ingleses caíram em desuso. É o caso de "offside" (substituído por "impedimento"), "hands" ("toque" ou "mão"), "center forward" ("centroavante") etc.

        Outros, entretanto, foram devidamente abrasileirados e incorporados de tal maneira ao nosso idioma que raramente lembramos de sua origem: "chute" (versão de "shoot"), "beque" (de "back"), "pênalti" (de "penalty") etc., sem falar no próprio "futebol" ("football").

        Há ainda as palavras inglesas que mantiveram uma vigência praticamente apenas regional, como "corner", ainda muito usada no Rio de Janeiro, mas substituída no resto do país por "escanteio", "tiro de canto" ou somente "canto".

        Rosa, se acompanhasse o futebol, se deliciaria com a variedade de metáforas produzidas para dar conta do que acontece dentro das quatro linhas.

        Há, por exemplo, o recurso a uma infinidade de objetos cujo formato ou movimento lembra o de certas jogadas: carrinho, chapéu, bicicleta, janelinha (expressão gaúcha para bola entre as pernas), ponte.

        Mas o ramo mais bonito, do ponto de vista de um escritor, deve ser o das metáforas extraídas da natureza: meia-lua, frango, peixinho, folha seca.

        Ao criar uma jogada dessas – como Didi, que "inventou" a folha seca –, ou executá-la com perfeição, um craque faz poesia pura, rivalizando com Deus e nomeando as coisas como se estivesse no primeiro dia da Criação.

        Guimarães Rosa, infelizmente, não produziu seu sonhado dicionário.

        Nunca saberemos, portanto, se o homem que criou a saga fantástica de Riobaldo e Diadorim sabia o significado, dentro do campo de futebol, de uma chaleira, um lençol, um chuveirinho ou um corta-luz.

        [...]

Folha de São Paulo, 17/7/02.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 274-275.

Entendendo o artigo:

01 – Qual era o sonho de Guimarães Rosa, segundo o artigo?

      O sonho de Guimarães Rosa era escrever um dicionário.

02 – Qual a opinião do autor sobre a relação de Guimarães Rosa com o futebol?

      O autor desconhece se Guimarães Rosa gostava de futebol, mas acredita que ele se encantaria com a riqueza vocabular associada ao esporte.

03 – Que tipo de palavras do futebol o autor menciona como sendo de origem inglesa?

      O autor menciona palavras como "offside", "hands", "center forward", "chute", "beque", "pênalti" e "futebol" como sendo de origem inglesa.

04 – O que o autor destaca sobre a variedade de metáforas no futebol?

      O autor destaca a variedade de metáforas no futebol, tanto aquelas que se referem a objetos (carrinho, chapéu, bicicleta, janelinha, ponte) quanto aquelas que se referem à natureza (meia-lua, frango, peixinho, folha seca).

05 – Qual a comparação que o autor faz entre um craque de futebol e um escritor?

      O autor compara um craque de futebol que cria uma jogada nova ou executa uma jogada com perfeição a um escritor, afirmando que ambos fazem poesia pura e rivalizam com Deus ao nomear as coisas.

06 – O que o autor lamenta no final do artigo?

      O autor lamenta que Guimarães Rosa não tenha produzido seu sonhado dicionário, pois nunca saberão se ele conhecia o significado de certas expressões do futebol.

07 – Qual a principal ideia que o autor explora no artigo?

      O autor explora a riqueza da linguagem do futebol, mostrando como ela se apropria de palavras de origem inglesa, cria metáforas originais e expressa a beleza e a imprevisibilidade do esporte.