quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

SONETO: AS ESTRELAS - CRUZ E SOUSA - COM GABARITO

 Soneto: As Estrelas

             Cruz e Sousa

Lá, nas celestes regiões distantes,
No fundo melancólico da Esfera,
Nos caminhos da eterna Primavera
Do amor, eis as estrelas palpitantes.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjVovmgqFIdj7WbYcMzJPB067OBjEzzV4rCxcwws5H8Kaqe8Uut6dmBVC6TTlNLL3kMsnys0pVW-UcB-bVb2MwCgV5dY1FMa4V11AZnkm-0zup0HTE0pCRZBQJX70wm7dV-S5kQpiGemo086v1WeuKyyxhZWjzfSBS3fRU1HtcqwR4ufbZWVU83-VHYgn0/s320/ESTRELAS.jpeg


Quantos mistérios andarão errantes,
Quantas almas em busca da Quimera,
Lá, das estrelas nessa paz austera
Soluçarão, nos altos céus radiantes.

Finas flores de pérolas e prata,
Das estrelas serenas se desata
Toda a caudal das ilusões insanas.

Quem sabe, pelos tempos esquecidos,
Se as estrelas não são os ais perdidos
Das primitivas legiões humanas?!

CRUZ E SOUSA, J. Poesias completas. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1965, p. 75.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 477.

Entendendo o soneto:

01 – Qual é o tema central do soneto "As Estrelas"?

      O tema central do soneto é a contemplação das estrelas e a reflexão sobre os mistérios que elas representam. Cruz e Sousa explora a vastidão do universo e a pequenez do ser humano diante da imensidão cósmica, utilizando as estrelas como símbolos de mistério, beleza e eternidade.

02 – Que imagens poéticas são utilizadas para descrever as estrelas?

      O poeta utiliza diversas imagens poéticas para descrever as estrelas, como "celestes regiões distantes", "fundo melancólico da Esfera", "caminhos da eterna Primavera do amor", "flores de pérolas e prata" e "ais perdidos das primitivas legiões humanas". Essas imagens evocam a beleza, o mistério, a distância e a eternidade das estrelas, além de sugerir uma conexão entre elas e a história da humanidade.

03 – Quais são os sentimentos expressos no soneto em relação às estrelas?

      O soneto expressa uma mistura de sentimento em relação às estrelas, incluindo admiração, mistério, melancolia e curiosidade. O poeta se maravilha com a beleza e a vastidão do universo, mas também se sente diante da imensidão cósmica. Há também um sentimento de melancolia ao contemplar a distância entre a Terra e as estrelas, e uma curiosidade sobre os mistérios que elas guardam.

04 – Que reflexões são propostas no soneto sobre a existência humana?

      O soneto propõe reflexões sobre a natureza da existência humana, a busca pela felicidade e o mistério da vida e da morte. As estrelas, com sua beleza e eternidade, contrastam com a brevidade da vida humana e a busca por "Quimeras". O poeta sugere que as estrelas podem ser os "ais perdidos" das gerações passadas, conectando o presente com o passado e levantando questões sobre o sentido da vida.

05 – Como o soneto "As Estrelas" se relaciona com o Simbolismo?

      O soneto "As Estrelas" apresenta características típicas do Simbolismo, como a ênfase no mistério, na subjetividade e na transcendência. As estrelas são utilizadas como símbolos de algo maior e mais profundo, representando o desconhecido e o inefável. A linguagem utilizada é rica em metáforas e sugestões, buscando evocar sentimentos e ideias que vão além do plano racional. Há também uma musicalidade presente no ritmo e na sonoridade do poema, característica marcante da poesia simbolista.

 

 

ROMANCE: AMOR DE PERDIÇÃO; CAP.XIX - (FRAGMENTO) - CAMILO CASTELO BRANCO - COM GABARITO

 Romance: Amor de perdição; cap. XIX – Fragmento

                 Camilo Castelo Branco 

        [...]

        "Dez anos! — dizia-lhe a enclausurada de Monchique. Em dez anos terá morrido meu pai e eu serei tua esposa, e irei pedir ao rei que te perdoe, se não tiveres cumprido a sentença. Se vais ao degredo, para sempre te perdi, Simão, porque morrerás, ou não acharás memória de mim, quando voltares".

        Como a pobre se iludia nas horas em que as débeis forças de vida se lhe concentravam no coração!

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhFdOwp0ICi7TyGeHX7n4hMAugQASn6Kfp8pnjZE9objdMLY0cRvf_PBj67L6XQg7rtUwgTK2q8TH8V4x3-IN3neqySsLoO_PV9f8DWzk_8MxsfB9ilA0_kcNvQ0XvHHnWfYFcNLTg_-pyP2JGtL9k68N9sR-lpDFBpI27fMeVgFcp1J4mLTAsqtfwIrR0/s320/Amor-de-Perdicao-1.jpg


        As ânsias, a lividez, o deperecimento tinham voltado. O sangue, que criara novo, já lhe saía em golfadas com a tosse.

        Se por amor ou piedade o condenado aceitasse os ferrolhos três mil seiscentas e cinquenta vezes corridos sobre as suas longas noites solitárias, nem assim Teresa susteria a pedra sepulcral que a vergava de hora a hora.

        "Não esperes nada, mártir — escrevia-lhe ele. — A luta com a desgraça é inútil, e eu não posso já lutar. Foi um atroz engano o nosso encontro. Não temos nada neste mundo. Caminhemos ao encontro da morte... Há um segredo que só no sepulcro se sabe. Ver-nos-emos?

        Vou. Abomino a pátria, abomino a minha família; todo este solo está aos meus olhos coberto de forcas, e quantos homens falam a minha língua, creio que os ouço vociferar as imprecações do carrasco. Em Portugal, nem a liberdade com a opulência; nem já agora a realização das esperanças que me dava o teu amor, Teresa!

        Esquece-te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas não aqui. Apague-se a luz dos meus olhos; mas a luz do céu, quero-a! Quero ver o céu no meu último olhar!

        Não me peças que aceite dez anos de prisão. Tu não sabes o que é a liberdade cativa dez anos! Não compreendes a tortura dos meus vinte meses. A voz única que tenho ouvido é a da mulher piedosa que me esmola o pão de cada dia, e a do aguazil que veio dar-me a sarcástica boa-nova de uma graça real, que me comuta o morrer instantâneo da forca pelas agonias de dez anos de cárcere.

        Salva-te, se podes, Teresa. Renuncia ao prestígio dum grande desgraçado. Se teu pai te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma aurora de paz, vive para a felicidade desse dia. E, se não, morre, Teresa, que a felicidade é a morte, é o desfazerem-se em pó as fibras laceradas pela dor, é o esquecimento que salva das injúrias a memória dos padecentes".

        As palavras únicas de Teresa, em resposta àquela carta, significativa da turbação do infeliz, foram estas:

        "Morrerei, Simão, morrerei. Perdoa tu ao meu destino... Perdi-te... Bem sabes que sorte eu queria dar-te... e morro, porque não posso, nem poderei jamais resgatar-te. Se podes, viva; não te peço que morras, Simão; quero que vivas para me chorares. Consolar-te-á o meu espírito... Estou tranquila... Vejo a aurora da paz... Adeus, até ao céu, Simão".

        [...]

Cena do filme Shakespeare apaixonado, de John Madden.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, Vol. Único. William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. Ensino Médio, 1ª ed. 4ª reimpressão – São Paulo: ed. Atual, 2003. p. 182-183.

Entendendo o romance:

01 – Qual é o teor da carta de Simão para Teresa?

      A carta de Simão para Teresa é permeada por um profundo desespero e desesperança. Ele expressa a inutilidade da luta contra o destino e a iminência da morte, seja através do degredo ou da prisão. Simão declara seu ódio à pátria e à família, e pede para que Teresa o esqueça e siga em frente com sua vida.

02 – Qual é a reação de Teresa à carta de Simão?

      A reação de Teresa é de profunda tristeza e resignação. Em sua breve resposta, ela aceita seu destino e o de Simão, expressando a certeza de que morrerá. Teresa pede perdão ao seu destino e declara seu amor por Simão, expressando o desejo de que ele viva para lamentar a sua morte.

03 – Qual é a condição de saúde de Teresa neste momento?

      A saúde de Teresa está extremamente debilitada. Ela sofre de ânsias, palidez e definhamento, e a tosse a faz expelir sangue. Sua condição se deteriora rapidamente, e é evidente que ela não sobreviverá por muito tempo.

04 – O que Simão deseja em relação ao seu futuro?

      Simão expressa o desejo de morrer, mas não em Portugal. Ele anseia por ver o céu em seu último momento de vida, e não quer passar dez anos na prisão. Simão prefere a morte imediata à agonia de uma longa pena de prisão.

05 – Qual é o significado da frase "Adeus, até ao céu, Simão"?

      A frase "Adeus, até ao céu, Simão" expressa a esperança de Teresa de se encontrar com Simão após a morte. É uma mensagem de amor e fé, que transcende a realidade terrena e aponta para um futuro encontro no plano espiritual.

 

POESIA: INCONTENTADO - OLAVO BILAC - COM GABARITO

 Poesia: Incontentado

            Olavo Bilac

Paixão sem grita, amor sem agonia,

Que não oprime nem magoa o peito,

Que nada mais do que possui queria,

E com tão pouco vive satisfeito...

 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjWOVRDb8CnnMzvMDdg4VZTR12tyEXBUHSI3QzczgPWWX4GEJ3kDTnrjY2tpir6oDSVGPxLdgnEjlVqbKRX7J0frcF54qt-OhPBNcmihnEVx6mm18P9I4Ac0bWjFjTaBuStJ9AxXUeFQDwN7TkWVBGPtIVSONja4BYsB3qeg14C9P0vyITSF5PmcFvQRmc/s320/exagerado2.png

Amor, que os exageros repudia,

Misturado de estima e de respeito,

E, tirando das mágoas alegria,

Fica farto, ficando sem proveito...

 

Viva sempre a paixão que me consome,

Sem uma queixa, sem um só lamento!

Arda sempre este amor que desanimas!

 

Eu, eu tenha sempre, ao murmurar teu nome,

O coração, malgrado o sofrimento,

Como um rosal desabrochado em rimas.

Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro: http://www.bibvirt.futuro.usp.br – 19/11/03.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 477.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é o tema central do poema "Incontentado"?

      O tema central do poema é a expressão de um amor intenso e apaixonado, mesmo diante do sofrimento e da falta de reconhecimento. O poeta demonstra um amor inconformado, que se alimenta da própria dor e encontra beleza no sofrimento causado pela paixão.

02 – Que tipo de amor é descrito no poema?

      O poema descreve um amor paradoxal, que se manifesta através da dor e do sofrimento, mas que, ao mesmo tempo, é fonte de alegria e inspiração. O poeta valoriza a paixão que o consome, mesmo que ela não traga proveito ou reconhecimento. É um amor que se alimenta de si mesmo, sem esperar recompensas ou reconhecimento.

03 – Qual é a atitude do poeta em relação ao sofrimento causado pelo amor?

      O poeta não se queixa do sofrimento causado pelo amor, mas o aceita como parte integrante da experiência amorosa. Ele não busca um amor que seja apenas fonte de prazer, mas valoriza a intensidade da paixão, mesmo que ela traga dor. O sofrimento é transformado em poesia, em "rosas desabrochadas em rimas".

04 – Que imagens poéticas são utilizadas para expressar a intensidade do amor?

      O poeta utiliza diversas imagens poéticas para expressar a intensidade do amor, como "paixão que consome", "amor que desanima", "coração como um rosal desabrochado em rimas". Essas imagens evocam a força do sentimento amoroso, que é capaz de consumir o indivíduo por dentro, mas que também o inspira a criar e a expressar sua dor em forma de poesia.

05 – Como o poema "Incontentado" se relaciona com o estilo de Olavo Bilac?

      O poema "Incontentado" apresenta características típicas do estilo de Olavo Bilac, como a forma fixa do soneto, a linguagem rebuscada e a temática do amor passional. Bilac é conhecido por sua poesia parnasiana, que valoriza a forma e a técnica, mas que também expressa sentimentos intensos e profundos. Em "Incontentado", o poeta explora a complexidade do amor, mostrando que ele pode ser fonte de alegria e sofrimento ao mesmo tempo.

 

 

 

POESIA: O SONO - GONÇALVES DIAS - COM GABARITO

 Poesia: O SONO 

             Gonçalves Dias 

Nas horas da noite, se junto a meu leito

Houveres acaso, meu bem, de chegar, 

Verás de repente que aspecto risonho

Que toma o meu sonho, 

Se o vens bafejar! 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiS1NcImp3JSjc3gDxjprnv2oCodNTCQbAbMt7QnKL9R8X085y2ZB2BQ1ZC9XQELD5w_-dNTsTEeghHn9cs8DZzZPBoDkpmSn3ebOccha4q-iMLf8K8OCqWA5Ni0nYNfRQYyUvQ8DGaN_PjOu7-_rN_ekUIhasLAAEAOB57VGd0qATSa8QKpRjoceLGAk4/s320/RELOGIO.png 


.

O anjo, que ao sono preside tranquilo, 

Ao anjo da terra não ceda o lugar; 

Mas deixe-o amoroso chegar-se ao meu leito, 

Unir-me a seu peito, 

D'amor ofegar. 

.

As notas que exaltam as harpas celestes, 

Os gozos, que os anjos só podem gozar, 

Talvez também frua, se a meu peito unida

T'encontro, ó querida, 

No meu acordar! 

GONÇALVES DIAS, A. Poesias completas. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1968, p. 238.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 476.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é o tema central do poema "O Sono"?

      O tema central do poema é a influência do ser amado sobre os sonhos do poeta. O sono, que naturalmente deveria ser um momento de descanso, transforma-se em uma experiência intensificada pela presença (mesmo que em sonho) da pessoa amada. O poema explora a relação entre o amor, o sono e a imaginação, mostrando como a presença do ser amado pode transformar a experiência onírica.

02 – Que imagens poéticas são utilizadas para descrever a influência do ser amado nos sonhos?

      Gonçalves Dias utiliza diversas imagens poéticas para descrever a influência do ser amado nos sonhos. O sonho do poeta se torna "risonho" e "balsamizado" pelo "bafejar" do ser amado. A presença da pessoa amada é tão forte que o poeta anseia que o "anjo do sono" ceda lugar ao "anjo da terra", para que possa sentir o amado "unir-se a seu peito" e "d'amor ofegar". Essas imagens evocam a ideia de que o amor é capaz de transformar a realidade onírica, tornando-a ainda mais intensa e prazerosa.

03 – Qual é a importância do amor na experiência do sono descrita no poema?

      O amor é o elemento central que transforma a experiência do sono no poema. A presença do ser amado, mesmo que apenas em sonho, é capaz de proporcionar ao poeta "gozos que os anjos só podem gozar". O amor idealizado, puro e intenso, é apresentado como a força motriz que guia os sonhos e proporciona momentos de felicidade transcendental.

04 – Como o poema "O Sono" se relaciona com o Romantismo?

      O poema "O Sono" apresenta características típicas do Romantismo, como a exaltação dos sentimentos, a idealização do amor e a valorização da natureza. A intensidade do amor expresso no poema, a crença na capacidade do amor de proporcionar felicidade e a idealização da figura amada são elementos frequentes na poesia romântica. Além disso, a natureza, representada pelos "anjos" e pelas "harpas celestes", desempenha um papel importante na atmosfera onírica do poema.

05 – Qual é a mensagem principal transmitida pelo poema "O Sono"?

      A mensagem principal transmitida pelo poema é a de que o amor é capaz de transcender a realidade, influenciando até mesmo os sonhos. A presença do ser amado, mesmo que em pensamento, é capaz de transformar a experiência do sono em um momento de intensa felicidade e prazer. O poema celebra o poder do amor de proporcionar alegria e bem-estar, mostrando que ele é capaz de transformar a vida, inclusive durante o sono.

 

 

TEXTO: SERMÃO DA SEXAGÉSIMA VI - (FRAGMENTO) - PADRE ANTÔNIO VIEIRA - COM GABARITO

 Texto: Sermão da Sexagésima VI – Fragmento

              Padre António Vieira

        O sermão há de ter um só assunto e uma só matéria. Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeara muitos gêneros de sementes, senão uma só: Exiit, qui seminat, seminare sêmen [saiu quem semeia a semear a semente]. Semeou uma semente só, e não muitas, porque o sermão há de ter uma só matéria, e não muitas matérias. Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos sermões deste género. Como semeiam tanta variedade, não podem colher coisa certa. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj9i3FziuzXnI_M31GbY9pozteE_Z2vtfSdiUJBfL_85jbKuMqiIaYddQK_9wK3NzcGMkD-33TStw3EGbpwQSfY1qb3vRUz9FBxZxEWruKDOH40CNjObirvI3NO2keHftDkwPQskThhzyPMX7DqYF-eB-2f64n4an4oypjF_SiMShKM5cwJNUb7cOD1ps0/s320/an-lise-do-serm-o-da-sexag-sima-de-pe-ant-nio-vieira-l.jpg


Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia fazer viagem? Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega tão pouco. Um assunto vai para um vento, outro assunto vai para outro vento; que se há-de colher senão vento? O Baptista convertia muitos em Judeia; mas quantas matérias tomava? Uma só matéria: Parate viam Domini [Preparai o caminho do Senhor]: a Preparação para o Reino de Cristo. Jonas converteu os Ninivitas; mas quantos assuntos tomou? Um só assunto: Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvertetur [Daqui a quarenta dias Nínive será destruída]: a Subversão da Cidade. De maneira que Jonas em quarenta dias pregou um só assunto; e nós queremos pregar quarenta assuntos em uma hora? Por isso não pregamos nenhum. O sermão há de ser de uma só cor, há de ter um só objeto, um só assunto, uma só matéria.

        Há de tomar o pregador uma só matéria; há de defini-la, para que se conheça; há de dividi-la, para que se distinga; há de prová-la com a Escritura; há de declará-la com a razão; há de confirmá-la com o exemplo; há de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há de responder às dúvidas, há de satisfazer às dificuldades; há de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários; e depois disto há de colher, há de apertar, há de concluir, há de persuadir, há de acabar. Isto é sermão, isto é pregar; e o que não é isto, é falar de mais alto.

Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há de ser o sermão: há de ter raízes fortes e sólidas, porque há de ser fundado no Evangelho; há de ter um tronco, porque há de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela. Estes ramos hão de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão de ser vestidos e ornados de palavras. Há de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo, há de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há de ordenar o sermão. De maneira que há de haver frutos, há de haver flores, há de haver varas, há de haver folhas, há de haver ramos; mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos sem árvores. Assim que nesta árvore, à que podemos chamar «árvore da vida», há de haver o proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos; mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho: Seminare sêmen [Semear a semente]. Eis aqui como hão de ser os sermões, eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça fruto com eles.

        [...]

VIEIRA, Antônio. Sermões. vol. I. organização Alcir Pécora. São Paulo: Hedra, 2000, p. 41-42.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 450-451.

Entendendo o texto:

01 – Qual é a principal crítica de Padre António Vieira aos sermões de sua época?

      A principal crítica é que os sermões pecam pela variedade excessiva de assuntos, o que impede que a mensagem principal seja transmitida de forma eficaz. Ele compara essa prática à de um lavrador que semeia diversas sementes em um mesmo terreno, resultando em uma "mata brava" e sem frutos.

02 – Que metáfora central o autor utiliza para ilustrar o problema dos sermões com muitos assuntos?

      A metáfora central é a do lavrador que, ao invés de plantar uma única semente, semeia uma variedade de grãos, o que impede o crescimento de uma cultura específica e resulta em uma "confusão verde".

03 – Quais são os exemplos bíblicos utilizados para defender a tese de um só assunto por sermão?

      Os exemplos bíblicos são os de João Batista, que pregava sobre a preparação para o Reino de Cristo, e Jonas, que anunciava a destruição de Nínive. Ambos se concentraram em um único tema central em suas pregações.

04 – Como o autor descreve a estrutura ideal de um sermão?

      O autor compara a estrutura ideal de um sermão a uma árvore, com raízes (fundamentadas no Evangelho), tronco (um só assunto central), ramos (diversos discursos derivados do tema central), folhas (ornamentos e palavras), varas (repreensão dos vícios), flores (sentenças) e frutos (o objetivo final do sermão).

05 – Qual é a crítica de Vieira ao uso excessivo de palavras nos sermões?

      Vieira critica o uso excessivo de palavras nos sermões, comparando-os a "madeira" (se tudo são troncos), "maravalhas" (se tudo são ramos), "versos" (se tudo são folhas), "feixe" (se tudo são varas) ou "ramalhete" (se tudo são flores). Ele defende que o sermão deve ter conteúdo e não ser apenas um amontoado de palavras.

06 – Qual é o objetivo principal de um sermão, segundo o autor?

      O objetivo principal de um sermão, segundo o autor, é persuadir os ouvintes a adotarem uma vida mais virtuosa e seguir os ensinamentos do Evangelho. O sermão deve levar os fiéis a produzirem "frutos", ou seja, a praticarem o bem e a se afastarem do mal.

07 – Qual é a consequência de um sermão que não segue a estrutura e o princípio de um único assunto, de acordo com o autor?

      A consequência é que o sermão se torna ineficaz e não produz frutos. O autor afirma que, ao invés de converter e edificar os ouvintes, o sermão confuso e com muitos assuntos apenas os afasta da mensagem do Evangelho.

 

 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

SONETO: ANOITECER - RAIMUNDO CORREIRA - COM GABARITO

 Soneto: Anoitecer

             Raimundo Correia

Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de oiro e de púrpura raiados
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhbJ_lmA1csbPDNqLiYkU9hOaUHzrzwFUlLD99grANoepVAuTjIhtVczJtjD_C6pIr0exPPBvlRYeaGa_S9XU2SqknT2wLvwQ96l4B49lJI8YFO46Tvdiwq2zb3oPr1yxnWPOEAG9L1kWi6goAcv-ouly3KNitClfS0gQG7LQhm0UoZw2d7ykBLgP3-P7E/s1600/AVES.jpg



Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia...

Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua...

A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.

CORREIA, Raimundo. Sinfonias. In: Antologia escolar brasileira. Rio de Janeiro: MEC – Fename, 1967, p. 163-165.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 470.

Entendendo o soneto:

01 – Qual é o tema central do soneto "Anoitecer"?

      O tema central do soneto é a descrição do momento do anoitecer, retratando a transição do dia para a noite e a atmosfera melancólica que a acompanha. O poeta utiliza imagens vívidas e sensoriais para pintar o quadro do entardecer, destacando a beleza e a quietude desse momento do dia.

02 – Que elementos da natureza são destacados no soneto e qual o seu significado?

      O soneto destaca diversos elementos da natureza, como o sol, as aves, o céu, a serrania, os vapores, a sombra, a lua e as árvores. Cada um desses elementos contribui para a construção da atmosfera do anoitecer:

      Sol: Representa o dia que se despede, sua agonia e o calor que se esvai.

      Aves: Simbolizam a fuga da luz e a busca por abrigo.

      Céu: Transforma-se em um mosaico de cores quentes, como o ouro e a púrpura.

      Serrania: Seus vértices são aureolados pela luz do sol poente.

      Vapores: Criam um ambiente de mistério e transição.

      Sombra: Avulta e cresce com o avançar da noite, dominando a paisagem.

      Lua: Surge trêmula, anunciando a chegada da noite.

      Árvores: Emolduram a lua e testemunham a passagem do tempo.

03 – Quais são as sensações transmitidas pelo soneto?

      O soneto transmite diversas sensações, como a beleza do entardecer, a melancolia, a quietude, o mistério e a transição. O poeta utiliza palavras e imagens que evocam sentimentos de paz, contemplação e até mesmo um certo mistério diante da chegada da noite.

04 – Que recursos poéticos são utilizados por Raimundo Correia no soneto?

      Raimundo Correia utiliza diversos recursos poéticos para criar a atmosfera do anoitecer, como:

      Metáforas: "Esbraseia o Ocidente na agonia o sol" e "Fecha-se a pálpebra do dia".

      Comparação: "Como um informe nódoa, avulta e cresce a sombra".

      Aliteração: Repetição de sons consonantais, como em "trêmula, trêmula".

      Adjetivação: Uso de adjetivos que intensificam a descrição, como "suaves tons de melancolia".

      Sinestesia: Combinação de diferentes sensações, como cores, sons e sentimentos.

05 – Como o soneto "Anoitecer" se relaciona com o Parnasianismo?

      O soneto "Anoitecer" apresenta características típicas do Parnasianismo, como a objetividade na descrição da natureza, a busca pela perfeição formal, o uso de vocabulário preciso e a valorização da beleza estética. O poema retrata o anoitecer de forma impessoal, sem expressar sentimentos subjetivos do poeta, concentrando-se na descrição do mundo exterior.

 

 

 

POESIA: A CRUZ DA ESTRADA - CASTRO ALVES - COM GABARITO

 Poesia: A cruz da estrada

            Castro Alves

Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiDrz_rmH-rctY7IsJhYwIUBRdZTJqJR2faBh5ThxySta177QTDhQ1Me8PnjG1bMAxC9JUi8QvkVdds2S8Oh7gI6HFUhLkC4ZUgkJaOT42AZAaNfm3bRKrk2P2tUxjPPZmhyphenhyphen1IWkXLTA8GNhKwFfK3V_tMa_p2IWTl2mukYWxdIYGwQWBmvo5aFHff1S0E/s320/CRUZ.jpg


Que vale o ramo do alecrim cheiroso
Que lhe atiras nos braços ao passar?
Vais espantar o bando buliçoso
Das borboletas, que lá vão pousar.

É de um escravo humilde sepultura,
Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz.
Deixa-o dormir no leito de verdura,
Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs.

Não precisa de ti. O gaturamo
Geme, por ele, à tarde, no sertão.
E a juriti, do taquaral no ramo,
Povoa, soluçando, a solidão.

Dentre os braços da cruz, a parasita,
Num abraço de flores, se prendeu.
Chora orvalhos a grama, que palpita;
Lhe acende o vaga-lume o facho seu.

Quando, à noite, o silêncio habita as matas,
A sepultura fala a sós com Deus.
Prende-se a voz na boca das cascatas,
E as asas de ouro aos astros lá nos céus.

Caminheiro! do escravo desgraçado
O sono agora mesmo começou!
Não lhe toques no leito de noivado,
Há pouco a liberdade o desposou.

CASTRO ALVES, A. Os escravos. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1964, p. 42-43.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 468.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é o tema central do poema "A Cruz da Estrada"?

      O tema central do poema é o respeito e a reverência devidos à sepultura de um escravo, marcada por uma cruz à beira da estrada. O poeta convida o caminhante a não perturbar o descanso do falecido, enfatizando a importância de seu sono e de sua liberdade recém-conquistada.

02 – Que elementos da natureza são mencionados no poema e qual o seu significado?

      O poema menciona diversos elementos da natureza, como o alecrim, as borboletas, o gaturamo, a juriti, a parasita, o orvalho, o vaga-lume, as cascatas e os astros. Esses elementos simbolizam a integração do escravo com a natureza, que se torna seu leito de descanso e testemunha de sua história. A natureza também representa a liberdade e a beleza que o escravo não pôde desfrutar em vida.

03 – Qual é a mensagem principal do poema em relação à escravidão?

      A mensagem principal do poema é uma crítica à escravidão e uma exaltação da liberdade. O poeta expressa sua compaixão pelo escravo que sofreu durante a vida e agora pode descansar em paz. A cruz à beira da estrada se torna um símbolo da luta pela liberdade e da memória daqueles que foram oprimidos.

04 – Que imagens poéticas são utilizadas para descrever a sepultura do escravo?

      O poema utiliza diversas imagens poéticas para descrever a sepultura do escravo, como "leito de verdura", "braços da cruz", "abraço de flores" e "leito de noivado". Essas imagens evocam a ideia de um lugar de descanso e de união com a natureza, onde o escravo encontra paz e liberdade.

05 – Qual é o tom geral do poema e que sentimentos ele transmite?

      O tom geral do poema é de respeito, compaixão e reverência. O poeta convida o caminhante a ter um olhar piedoso sobre a sepultura do escravo, reconhecendo sua história de sofrimento e sua busca por liberdade. O poema transmite sentimentos de tristeza pela escravidão, mas também de esperança e de consolo, ao imaginar o escravo livre e descansando em paz.

 

 

SONETO: MÚSICA MISTERIOSA - CRUZ E SOUSA - COM GABARITO

 Soneto: Música Misteriosa

             Cruz e Sousa

Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,
Que abris a doce luz de alampadários,
As harmonias dos Estradivarius
Erram da Lua nos clarões dormentes...

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjqSlEk7PNKiI0AfSHNyc4hs1JOhXyz3ghod1olM_Z8Z27MkNfgzrgJoqauApmMfVHMrrjFRLrSWqqTHDdDuPHMuM9Cv5cucd0JcrpEoNqJkqY7ngEuBxDbrth9eA56fmEJfIVt1m40BMQEIrfcLX3TjLl2RaCVp18kywuJO14_7qZ24qjeACFFgVmQxyU/s320/NEVOEIROS.jpg


Pelos raios fluídicos, diluentes
Dos Astros, pelos trêmulos velários,
Cantam Sonhos de místicos templários,
De ermitões e de ascetas reverentes...

Cânticos vagos, infinitos, aéreos
Fluir parecem dos Azuis etéreos,
Dentre os nevoeiros do luar fluindo...

E vai, de Estrela a Estrela, a luz da Lua,
Na láctea claridade que flutua,
A surdina das lágrimas subindo...

NUPILL – Núcleo de pesquisa em informática, literatura e linguística. http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/broqueis.html.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 473.

Entendendo o soneto:

01 – Qual é a principal sensação que o soneto busca transmitir?

      O soneto busca transmitir a sensação de mistério e transcendência através da música. A combinação de elementos como a noite estrelada, a luz da lua, os instrumentos musicais e as referências religiosas cria uma atmosfera onírica e espiritualizada.

02 – Que elementos sensoriais são explorados no soneto para criar a atmosfera misteriosa?

      Cruz e Sousa explora diversos elementos sensoriais para criar a atmosfera misteriosa do soneto:

      Visual: A "Tenda de Estrelas níveas" e a "luz de alampadários" evocam a imagem de um céu noturno brilhante e mágico.

      Auditivo: As "harmonias dos Stradivarius" e os "cânticos vagos, infinitos, aéreos" sugerem uma música celestial e misteriosa que permeia o ambiente.

      Tátil: Os "raios fluídicos, diluentes dos Astros" e os "trêmulos velários" criam uma sensação de leveza e vibração no ar.

03 – Como a linguagem utilizada no soneto contribui para a sensação de mistério?

      A linguagem utilizada no soneto é rica em figuras de linguagem e em palavras que evocam o mistério e a transcendência. Termos como "níveas", "refulgentes", "diluentes", "trêmulos", "místicos", "etéreos" e "surdina" contribuem para criar uma atmosfera de encantamento e enigma.

04 – Qual é a relação estabelecida no soneto entre a música e a religião?

      O soneto estabelece uma relação intrínseca entre a música e a religião. As referências aos "místicos templários", "ermitões" e "ascetas reverentes" sugerem que a música tem um papel fundamental na experiência religiosa, conduzindo à transcendência e à conexão com o divino.

05 – Que interpretação pode ser dada ao último verso do soneto: "A surdina das lágrimas subindo..."?

      O último verso do soneto, "A surdina das lágrimas subindo...", pode ser interpretado como uma referência à emoção contida e misteriosa que a música provoca. As lágrimas, que sobem em surdina, representam a comoção profunda que a beleza e o mistério da música despertam na alma do ouvinte.

 

 

ROMANCE: MEMORIAL DO CONVENTO - CAP.I - (FRAGMENTO) - JOSÉ SARAMAGO - COM GABARITO

 Romance: MEMORIAL DO CONVENTO Cap. I – Fragmento

                  José Saramago

        D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça. Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigvhq74ZSMuS_-Lga6a7bTUL0DQKCsDindrSwrcGf93Se_z4MSZtKzpPu5gi28fUimQYKwjG0wUfeYaIySXtltiNVsBjSJkYcGyNDoxAq0zRZ9I4WPuHqq7MpQK3ZcY1oYysRDDWpLAmCuEALWHdFu0BNZWaPDT2rxT84UrO0Emj_lmf6E36mBiWVJLoc/s320/MEMORIAL.jpg


Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria Ana. Mas Deus é grande.

        [...]

        Por enquanto, ainda el-rei está a preparar-se para a noite. Despiram-no os camaristas, vestiram-no com o trajo da função e do estilo, passadas as roupas de mão em mão tão reverentemente como relíquias de santas que tivessem trespassado donzelas, e isto se passa na presença de outros criados e pajens, este que abre o gavetão, aquele que afasta a cortina, um que levanta a luz, outro que lhe modera o brilho, dois que não se movem, dois que imitam estes, mais uns tantos que não se sabe o que fazem nem por que estão. Enfim, de tanto se esforçarem todos ficou preparado el-rei, um dos fidalgos retifica a prega final, outro ajusta o cabeção bordado, já não tarda um minuto que D. João v se encaminhe ao quarto da rainha. O cântaro está à espera da fonte.  

        Mas vem agora entrando D. Nuno da Cunha, que é o bispo inquisidor, e traz consigo um franciscano velho. Entre passar adiante e dizer o recado há vénias complicadas, floreios de aproximação, pausas e recuos, que são as fórmulas de acesso à vizinhança do rei, e a tudo isto teremos de dar por feito e explicado, vista a pressa que traz o bispo e considerando o tremor inspirado do frade. Retiram-se a uma parte D. João v e o inquisidor, e este diz, Aquele que além está é frei António de S. José, a quem falando-lhe eu sobre a tristeza de vossa majestade por lhe não dar filhos a rainha nossa senhora, pedi que encomendasse vossa majestade a Deus para que lhe desse sucessão, e ele me respondeu que vossa majestade terá filhos se quiser, e então perguntei-lhe que queria ele significar com tão obscuras palavras, porquanto é sabido que filhos quer vossa majestade ter, e ele respondeu-me, palavras enfim muito claras, que se vossa majestade prometesse levantar um convento na vila de Mafra, Deus lhe daria sucessão, e tendo declarado isto, calou-se D. Nuno e fez um aceno ao arrábido.  

        Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu prometer levantar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-rei, Como sabeis, e frei António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a verdade se serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábido que se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno da Cunha. É virtuoso este frade, e o bispo respondeu. Não há outro que mais o seja na sua ordem. Então D. João, o quinto do seu nome, assim assegurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz para que claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino, Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos, e todos disseram, Deus ouça vossa majestade, e ninguém ali sabia quem iria ser posto à prova, se o mesmo Deus, se a virtude de frei António, se a potência do rei, ou, finalmente, a fertilidade dificultosa da rainha.

        [...]

SARAMAGO, José. Memorial do convento. 27. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002, p. 11-13.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 544-545.

Entendendo o romance:

01 – Qual é o principal problema que D. João V enfrenta no início do romance?

      O rei D. João V enfrenta o problema de não ter um herdeiro varão, apesar de estar casado com D. Maria Ana Josefa há mais de dois anos. A rainha ainda não engravidou, e há rumores na corte de que ela pode ser estéril.

02 – Como a corte e o povo reagem à falta de um herdeiro?

      A corte e o povo murmuram sobre a possibilidade de a rainha ter a "madre seca", e alguns até insinuam que a culpa pode ser do rei, apesar de haver muitos bastardos da "real semente" no reino. A rainha é vista como a suplicante, tanto em novenas organizadas quanto em orações ocasionais.

03 – Qual é a rotina do rei em relação a tentar ter um filho?

      D. João V cumpre seu "dever real e conjugal" duas vezes por semana, a menos que haja alguma "dificultação canónica ou impedimento fisiológico". Ele se prepara para as noites com a rainha com a ajuda de seus camaristas, que o vestem com trajes especiais para a ocasião.

04 – Quem são D. Nuno da Cunha e frei António de S. José?

      D. Nuno da Cunha é o bispo inquisidor, e frei António de S. José é um frade franciscano velho. Eles têm um papel importante na história, pois trazem uma mensagem ao rei que pode resolver o problema da falta de um herdeiro.

05 – Qual é a mensagem que frei António de S. José traz ao rei?

      Frei António de S. José diz ao rei que ele terá filhos se prometer levantar um convento na vila de Mafra. O frade afirma que é apenas a "boca de que a verdade se serve para falar" e que a fé não tem mais que responder.

06 – Qual é a reação de D. João V à mensagem do frade?

      D. João V pergunta ao bispo se o frade é virtuoso e, ao receber uma resposta afirmativa, promete construir um convento de franciscanos em Mafra se a rainha lhe der um filho no prazo de um ano.

07 – Qual é a grande questão que fica no ar após a promessa do rei?

      A grande questão é quem será posto à prova: Deus, a virtude de frei António, a potência do rei ou a fertilidade da rainha. Ninguém sabe ao certo o que irá acontecer, mas a promessa do rei cria uma grande expectativa em todo o reino.