sexta-feira, 19 de outubro de 2018

POEMA: PARAFUSO DE CABO DE SERROTE - JESSIER QUIRINO - COM QUESTÕES GABARITADAS

POEMA: Parafuso de cabo de serrote

                                     Jessier Quirino

Tem uma placa de Fanta encardida
A bodega da rua enladeirada
Meia dúzia de portas arqueadas
E uma grande ingazeira na esquina
A ladeira pra frente se declina
E a calçada vai reta nivelada
Forma palmos de altura de calçada
Que nos dias de feira o bodegueiro
Faz comércio rasteiro e barateiro
Num assoalho de lona amarelada.

Se espalha uma colcha de mangalho:
É cabestro, é cangalha e é peixeira
Urupema, pilão, desnatadeira
Candeeiro, cabaço e armador
Enxadeco, fueiro, e amolador
Alpercata, chicote e landuá
Arataca, bisaco e alguidar
Pé de cabra, chocalho e dobradiça
Se olhar duma vez dá uma doidiça
Que é capaz do matuto se endoidar.

É bodega pequena cor de gis
Sortimento surtindo grande efeito
Meia dúzia de frascos de confeito
Carrossel de açúcar dos guris
Querosene se encontra nos barris
Onde a gata amamenta a gataiada
Sacaria de boca arregaçada
Gargarejo de milhos e farelos
Dois ou três tamboretes em flagelo
Pro conforto de toda freguesada.

No balcão de madeira descascada
Duas torres de vidro são vitrines
A de cá mais parece um magazine
Com perfume e cartelas de Gillete
Brilhantina safada, canivete
Sabonete, batom... tudo entrempado
Filizolla balança bem ao lado
Seus dois pratos com pesos reluzentes
Dá justeza de peso a toda gente
Convencendo o freguês desconfiado.

A Segunda vitrine é de pão doce
É tareco, siquilho e cocorote
Broa, solda, bolacha de pacote
Bolo fofo e jaú esfarofado
Um porrete serrado e lapidado
Faz o peso prum março de papel
Se embrulha de tudo a granel
E por dentro se encontra uma gaveta
Donde desembainha-se a caderneta
Do freguês pagador e mais fiel.

Prateleiras são tábuas enjanbradas
Com um caibro servindo de escora
Tem também não sei qual Nossa Senhora
Com um jarrinho de louça bem do lado
Um trapézio de flandres areados
Um jirau com manteiga de latão
Encostado ao lado do balcão
Um caneiro embicando uma lapada
Passa as costas da mão pelas beiçadas
Se apruma e sai dando trupicão.

Tem cabides de copos pendurados
E um curral de cachaça e de conhaque
Logo ao lado se vê carne de charque
Tira gosto dos goles caneados
Pelotões de garrafas bem fardados
Nas paredes e dentro dos caixotes
Uma rodilha de fumo dando um bote
E um trinchete enfiado num sabão
E o bodegueiro despacha ao artesão
Um parafuso de cabo de serrote.
                                                  Composição: Jessier Quirino
Entendendo a canção:
01 – De que fala o poeta?
      Ele fala sobre a vida no interior, focalizando, em especial, como é e o que encontrar em uma bodega, ou armazém.
02 – Na narrativa o poeta nos levará a conhecer, ou resgatar da memória, o quê?
      O palavrório e muitos objetos comumente encontrados nas cidades nordestinas.
03 – Vamos conhecer o significado de diversas palavras do poema. Pesquise no dicionário:
·        Mangalho = conjunto de produtos de fabricação caseira ou saídos de pequenas lavouras, que são vendidos em feiras e mercados no interior.
·        Cabresto = arreio para prender animais de montaria ou controlar sua marcha.
·        Cangalha = armação que sustenta a carga no lombo de animais.
·        Urupema = espécie de peneira de palha em que se passa, por exemplo a farinha de mandioca.
·        Candeeiro = utensílio para iluminação provido de líquido combustível e mecha.
·        Alpercata = sandália com tiras de couro ou pano.
·        Arataca = armadilha para caçar animais silvestres, arapuca.
·        Chicote = instrumento resistente e flexível feito de longas tiras de couro ou de cordões.
·        Alguidar = vaso cuja borda é muito mais larga que o seu fundo.

04 – Segundo o poeta o que seria: “Carrossel de açúcar”?
      Baleiro.

05 – Em que versos o poeta cita a forma de pagamento adotado na bodega ou armazém?
     “E por dentro se encontra uma gaveta
      Donde desembainha-se a caderneta
      Do freguês pagador e mais fiel.”

06 – Nos versos: “Tem também não sei qual Nossa Senhora / Com um jarrinho de louça bem ao lado”. Com essa descrição o poeta quer mostrar o quê?
      A fé do comerciante, exposta na bodega.


     

CONTO: MACACOS - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

Conto: MACACOS
                Clarice Lispector

        Da primeira vez que tivemos em casa um mico foi perto do Ano-Novo. Estávamos sem água e sem empregada, fazia-se fila para carne, o calor rebentara — e foi quando, muda de perplexidade, vi o presente entrar em casa, já comendo banana, já examinando tudo com grande rapidez e um longo rabo. Mais parecia um macacão ainda não crescido, suas potencialidades eram tremendas. Subia pela roupa estendida na corda, de onde dava gritos de marinheiro, e jogava cascas de banana onde caíssem. E eu exausta. Quando me esquecia e entrava distraída na área de serviço, o grande sobressalto: aquele homem alegre ali. Meu menino menor sabia, antes de eu saber, que eu me desfaria do gorila: "E se eu prometer que um dia o macaco vai adoecer e morrer, você deixa ele ficar? e se você soubesse que de qualquer jeito ele um dia vai cair da janela e morrer Ia embaixo?" Meus sentimentos desviavam o olhar. A inconsciência feliz e imunda do macacão-pequeno tornava-me responsável pelo seu destino, já que ele próprio não aceitava culpas. Uma amiga entendeu de que amargura era feita a minha aceitação, de que crimes se alimentava meu ar sonhador, e rudemente me salvou: meninos de morro apareceram numa zoada feliz, levaram o homem que ria, e no desvitalizado Ano-Novo eu pelo menos ganhei uma casa sem macaco.
        Um ano depois, acabava eu de ter uma alegria, quando ali em Copacabana vi o agrupamento. Um homem vendia macaquinhos. Pensei nos meninos, nas alegrias que eles me davam de graça, sem nada a ver com as preocupações que também de graça me davam, imaginei uma cadeia de alegria: "Quem receber esta, que a passe a outro", e outro para outro, como o frêmito num rastro de pólvora. E ali mesmo comprei a que se chamaria Lisette.
        Quase cabia na mão. Tinha saia, brincos, colar e pulseira de baiana. E um ar de imigrante que ainda desembarca com o traje típico de sua terra. De imigrante também eram os olhos redondos.
        Quanto a essa, era mulher em miniatura. Três dias esteve conosco. Era de uma tal delicadeza de ossos. De uma tal extrema doçura. Mais que os olhos, o olhar era arredondado. Cada movimento, e os brincos estremeciam; a saia sempre arrumada, o colar vermelho brilhante. Dormia muito, mas para comer era sóbria e cansada. Seus raros carinhos eram só mordida leve que não deixava marca.
        No terceiro dia estávamos na área de serviço admirando Lisette e o modo como ela era nossa. "Um pouco suave demais", pensei com saudade do meu gorila. E de repente foi meu coração respondendo com muita dureza: "Mas isso não é doçura. Isto é morte". A secura da comunicação deixou-me quieta. Depois eu disse aos meninos: "Lisette está morrendo". Olhando-a, percebi então até que ponto de amor já tínhamos ido. Enrolei Lisette num guardanapo, fui com os meninos para o primeiro pronto-socorro, onde o médico não podia atender porque operava de urgência um cachorro. Outro táxi. — Lisette pensa que está passeando, mamãe — outro hospital. Lá deram-lhe oxigênio.
        E com o sopro de vida, subitamente revelou-se uma Lisette que desconhecíamos. De olhos muito menos redondos, mais secretos, mais aos risos e na cara prognata e ordinária uma certa altivez irônica; um pouco mais de oxigênio, e deu-lhe uma vontade de falar que ela mal aguentava ser macaca; era, e muito teria a contar. Breve, porém, sucumbia de novo, exausta. Mais oxigênio e dessa vez uma injeção de soro a cuja picada ela reagiu com um tapinha colérico, de pulseira tilintando. O enfermeiro sorriu: "Lisette, meu bem, sossega!"
        O diagnóstico: não ia viver, a menos que tivesse oxigênio à mão e, mesmo assim, improvável. "Não se compra macaco na rua", censurou-me ele abanando a cabeça, "às vezes já vem doente". Não, tinha-se que comprar macaca certa, saber da origem, ter pelo menos cinco anos de garantia do amor, saber do que fizera ou não fizera, como se fosse para casar. Resolvi um instante com os meninos. E disse para o enfermeiro: "O senhor está gostando muito de Lisette. Pois se o senhor deixar ela passar uns dias perto do oxigênio, no que ela ficar boa, ela é sua". Mas ele pensava. "Lisette é bonita!", implorei eu. "É linda", concordou ele pensativo. Depois ele suspirou e disse: "Se eu curar Lisette, ela é sua". Fomos embora, de guardanapo vazio.
        No dia seguinte telefonaram, e eu avisei aos meninos que Lisette morrera. O menor me perguntou: "Você acha que ela morreu de brincos?" Eu disse que sim. Uma semana depois o mais velho me disse: "Você parece tanto com Lisette!" "Eu também gosto de você", respondi.

Clarice Lispector, no livro “Felicidade clandestina”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Entendendo o conto:

01 – O Conto “Macacos” foi narrado em que pessoa?
      O conto foi narrado em primeira pessoa.

02 – O narrador do texto é:
(  ) Narrador-onisciente.
(X) Narrador-personagem.
(  ) Narrador-observador.
(  ) Narrador.

03 – Qual foi o primeiro animal que a narradora teve? Em que época?
      De acordo com o texto, ela teve um macaco rabudo que mexia em tudo, mas, que logo desapareceu. Era véspera de Ano Novo.

04 – Após um ano a narradora encontrou um vendedor de animais, qual foi o animal que ela comprou para os filhos?
      Ela comprou um macaquinho pequeno. Parecido com um mico.

05 – Qual foi o nome que deram ao macaquinho?
      Chamaram-na de Lisette.

06 – Ao perceber que o animal estava doente, após três dias em casa, o que a narradora fez?
      Ela procurou um Hospital, em plena madrugada.

07 – Qual era descrição da macaquinha? copie do texto.
      “Quase cabia na mão. Tinha saia, brincos, colar e pulseira de baiana.”

08 – Após rele o texto, você acha que a macaquinha se salva ou morre? Explique com trecho do texto.
      Resposta pessoal do aluno.

09 – No final do conto, qual foi a frase que a narrador ouviu de seu filho mais velho, após uma semana da marte da Lisette?
     "Você parece tanto com Lisette!"

10 – Quem é o(a) autor(a) e de que livro foi extraído o texto?
      Clarice Lispector, no livro “Felicidade clandestina”.



POEMA: CANÇÃO PARA UMA VALSA LENTA - MÁRIO QUINTANA - COM GABARITO

Poema: Canção para uma valsa lenta
           Mário Quintana



Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...

Minha vida não foi um romance,
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... de um gesto... um olhar...

QUINTANA, Mário. Poesias. Porto Alegre: Globo/MEC,1972.

Entendendo o poema:

01 – O primeiro verso: “Minha vida não foi um romance...”, segundo Quintana (1983, p. 106) diz que as velhinhas que vendiam rendas e bordados nos lares antigamente depois de uma pausa e um suspiro dizia esta frase. O que queriam dizer?
      Significa que passei muitas dificuldades na vida.

02 – A voz poética do texto repete que sua vida não foi um romance. Pelo que se lê em cada estrofe do texto, como deve ser a vida para ser “um romance”?
      Encontrar seu amor verdadeiro, com o qual todos nós sonhamos.

03 – Como o eu do texto qualifica a própria vida?
      Ele qualifica como triste, pela falta de alguém ao seu lado, como a grande maioria das pessoas desejam e uma intensa e verdadeira história de amor na sua vida.

04 – Observe os versos “Glória a ti que me enches a vida/ De surpresa, de encanto, de medo!” (3ª estrofe) e responda:
a) A quem se refere a palavra em destaque?
      Ao amor de sua vida.

b) O que acontece de diferente na vida do eu do texto, enchendo-a “De surpresa, de encanto, de medo!”?
      Ele encontrou a pessoa amada, por isso a surpresa, o encanto e o medo de perdê-lo.

05 – Perceba o ritmo do poema. Volte ao título... Você sabe o que é uma valsa?
      Uma valsa é um ritmo marcado em três tempos.


CRÔNICA: INSÔNIA - ADRIANA FALCÃO - COM GABARITO

Crônica: INSÔNIA                                 
                 Adriana Falcão

        Considerando que oito horas de sono são o ideal para uma pessoa, quase oito horas de sono devem ser quase o ideal. É lógico. Então, se eu conseguir dormir até a meia-noite e acordar amanhã às sete e vinte, está ótimo. Ou quase ótimo. Vou acordar feliz, bem-disposta, capaz, praticamente recuperada. Se eu dormir até a meia-noite. Ainda tenho cinco minutos. Cinco minutos é tempo de sobra pra uma pessoa pegar no sono, quer ver? Vou pegar no sono em cinco minutos. Boa noite. Estou quase dormindo. Quase. Dormi. Não dormi? Acho que não. Mas vou dormir agora. Senão os pensamentos começam a entrar na minha cabeça e aí, minha filha, nunca mais. Um pensamento puxa outro, que puxa outro, parece até que pensamento tem corda. O negócio é não deixar entrar o primeiro, tá vendo? Foi só começar a pensar em não pensar e quando eu vi já estava pensando em pensamento com corda. E de corda pra acorda é um pulo. E é melhor eu não pensar em acordar senão eu não consigo dormir. E eu preciso estar inteira amanhã. Ou vai ser uma tragédia. Calma, também não é assim. Ainda tenho cinco minutos pra pegar no sono. Se bem que agora já não faltam mais cinco, quantos minutos se passaram até agora? Esquece e dorme. Boa noite. Dormi. Não dormi? Se eu tivesse dormido não estaria pensando se dormi ou não dormi. Estaria dormindo. Isso prova que não dormi ainda. Amanhã vou acordar um lixo. E tenho um dia dificílimo pela frente, com uma lista enorme de coisas pra resolver: vinte minutos de meditação ao acordar, ginástica às oito, reunião às dez em ponto, consertar o carburador do carro, desmarcar o dentista, comprar tinta pra impressora, ligar pro Geraldo, esquece o Geraldo e dorme. Você já trancou a porta, já fechou o gás, já tomou seu banho, já foi à cozinha, já bebeu seu leitinho quente, já pensou em quantas calorias tem um copo de leite, você já se preocupou demais por hoje. Você precisa dormir. Isso. Eu preciso dormir. Então, boa noite. Tem certeza de que eu tranquei a porta? Tranquei, sim. Fechou o gás? Claro. Não lembra? Logo depois do banho. Fechei o gás, fui à cozinha, bebi meu leitinho quente, quantas calorias tem um copo de leite? Eu não devia ter botado açúcar pra depois não ficar culpada. Depois eu fico culpada. Agora eu vou dormir. Já me preocupei demais por hoje, e amanhã, não, eu não vou pensar no que tenho de fazer amanhã. Tenho um dia dificílimo pela frente, com uma lista de coisas pra resolver, e se eu não dormir até meia-noite e meia, uma hora, vou terminar pulando a meditação. É uma opção. Faço ginástica às oito e de lá vou direto pra reunião às dez em ponto no Centro, vou de carro ou vou de táxi? Amanhã você resolve isso. Certo. Eu resolvo isso amanhã. Boa noite. Mas eu já tenho coisas demais pra resolver amanhã, assim não vai dar tempo. Será que não é melhor ir pro Centro de táxi pra poder ir resolvendo outras coisas no caminho? Está resolvido. Amanhã eu resolvo o resto. Boa noite. Se eu conseguir dormir até uma e meia e acordar às nove, já está bom. Pulo a meditação, falto à ginástica, pego um táxi pro Centro e aí só falta resolver o resto da vida. Mas eu tenho o dia inteiro pra resolver tudo. Ligar pro Geraldo, terminar o relatório, passar no supermercado, chamar o homem da televisão, esquece o homem da televisão e dorme. Já deve ser bem mais de uma. Olho o relógio ou não olho? Se eu olhar e for muito tarde, vou ficar nervosa. Mas se eu não olhar vou ficar imaginando que é mais tarde do que é na verdade e fico mais nervosa ainda. Esquece o relógio e dorme. Boa noite. Não vou pensar em amanhã, não vou pensar em hoje, não vou pensar nas horas, não vou pensar em nada. Nadinha. Um nada absoluto. Pensar em nada é pensar em alguma coisa? Olha aí eu pensando de novo. É por isso que não durmo. Durmo, sim. Quer ver? Vou contar carneirinhos. Um carneiro, dois carneiros, três carneiros, quatro carneiros, pronto, agora o quinto carneiro enganchou e não quer entrar no meu pensamento. Vem, carneiro. Por favor. Tá fazendo o que aí fora? Arranjou uma namorada, foi? Então já são mais dois carneiros, ele e a namorada, fora os filhotinhos que eles podem ter, olha só que maravilha, vão ser não sei quantos carneirinhos pra contar. Vou dormir na hora. Venham, carneiros. Um de cada vez. Podem entrar. Esses carneiros estão de implicância comigo. Estou começando a me irritar. Daqui a pouco cometo um carneiricídio. Assim que eles entrarem. O problema é que eles não entram. Esquece os carneiros e dorme. Será que, se eu pensar em capim, os carneiros entram pra comer o capim? Capim. Capim. Carneiro come capim? Esquece o capim e dorme. Já devem ser quase duas e você aí acordada. Amanhã vai estar um lixo. Eu não vou estar um lixo amanhã pela simples razão de que vou dormir agora, quer ver? Boa noite, dormi, não dormi? Ainda não. Mas vou dormir imediatamente. É só não pensar em amanhã porque amanhã eu tenho um dia dificílimo pela frente com uma lista de coisas pra resolver: chamar o homem da televisão, comprar queijo ralado, dar uma passadinha no laboratório pra buscar os exames, descobrir se carneiro come capim, não acredito que já é de madrugada e eu estou aqui pensando em capim, esquece os pensamentos e dorme, vou dormir, você não pode pensar em amanhã, eu não vou pensar em amanhã, não vou mesmo, de jeito nenhum, amanhã eu tenho um dia dificílimo com uma lista de coisas pra resolver: descobrir se carneiro come capim...

Entendendo a crônica:

01 – Qual é a situação retratada no texto?
      A personagem sofre de insônia (falta de sono; incapacidade de dormir adequadamente).

02 – O Conto é uma narrativa curta que apresenta os mesmos elementos do romance: narrador, personagens, enredo, espaço e tempo. Nos textos narrativos em prosa, quem conta a história é o narrador. Se o narrador está em 1ª pessoa (eu / nós) e é o personagem principal, porque a história contada gira em torno dele, dizemos tratar-se de um narrador-protagonista ou narrador-personagem. Se o narrador apenas relata a história, em 3ª pessoa (ele / eles) sem participar dela, é classificado como um narrador-observador ou narrador-onisciente.

a) No caso do conto lido, qual é o tipo de narrador? Comprove com elementos do texto.
      É um narrador-protagonista ou narrador- personagem. “Então, se eu conseguir dormir até a meia-noite e acordar...”

b) Em algumas partes do conto, a narradora tem uma conversa consigo mesma. Transcreva 3 trechos que exemplifiquem isso.
      “... Vou pegar no sono em cinco minutos. Boa noite. Estou quase dormindo.”
      “... Esquece e dorme. Boa noite. Dorme. Não dormi?”
      “... Você precisa dormir. Isso. Eu preciso dormir. Então, boa noite.”

03 – É possível determinar, a partir da leitura do conto, se o personagem é homem ou mulher? Comprove com um trecho do texto.
      Sim, é uma mulher. “Vou acordar feliz, bem disposta, capaz, praticamente recuperada.”

04 – Explique a expressão: "Daqui a pouco cometo um carneiricídio."
      Significa que mataria os carneirinho que estava contando para o sono vir, pois não conseguia dormir.

05 – A partir da leitura do conto, podemos determinar a hora em que a personagem começa a narrativa. Que hora é essa?
      Sim. Era vinte e três horas e quinze minutos, pois ela precisava dormir oito horas e faltava cinco minutos para a meia noite.

POESIA: A BONECA - OLAVO BILAC - COM GABARITO

Poesia: A boneca

Deixando a bola e a peteca,
Com que ainda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira: “É minha!’’
– “É minha!’’ a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.


Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca
Olavo Bilac: obra reunida. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996
Entendendo a poesia:
01 – Quais são os brinquedos citados no texto?
      A bola, a peteca, a boneca.

02 – Qual o motivo da briga entre as meninas?
      O motivo é a boneca.

03 – Segundo o texto, quem mais sofria com a briga?
      A boneca.

04 – De que as meninas foram brincar depois da briga?
      Voltaram a brincar com a bola e a peteca.

05 – Numere as frases de acordo com a ordem em que acontecem.
(3) As meninas voltaram a brincar com a bola e a peteca.
(2) A boneca se rasgou.
(1) As meninas começaram a brigar pela boneca.
(4) As meninas ficaram sem a boneca. Gramática

06 – Analise as frases e ligue os pronomes destacados aos substantivos correspondentes.
1 – Ele é uma ave.                                   (3) Cavalo.
2 – Ela rola, rola...                                    (4) Gola.
3 – Ele é um animal quadrúpede.            (2) Bola.
4 – Ela faz parte da camisa.                    (1) Papagaio.

07 – Escreva as frases substituindo as palavras em destaque pelos pronomes adequados.
a) Gabriel e seus irmãos são muito inteligentes.
      Eles são muito inteligentes.

b) Pablo adora passar as férias na casa da avó.
      Ele adora passar as férias na casa da avó.

c) Papai, mamãe e eu somos amicíssimos.
      Nós somos amicíssimos.

d) As crianças foram ao zoológico.
      Elas foram ao zoológico.

08 – Copie nos espaços os artigos encontrados nas frases e classifique-os.
a)   O suco azedo entornou na mesa.
Artigos: O – artigo definido.

b)   Encontrarei uns livros interessantes na biblioteca.
Artigos: Uns – artigo indefinido.

c)   Coloquei as roupas escuras no varal.
Artigos: As – artigo definido.

09 – Retire do texto.
a) Um pronome pessoal do caso reto.
      Ela.

b) Um substantivo feminino no plural.
      Meninas.

c) Um adjetivo.
      Estraçalhada.

d) Um artigo indefinido.
      Uma.

10 – Sublinhe os adjetivos das frases abaixo.
a) O povo pernambucano é alegre.
b) Paulo está triste hoje.
c) Julia dá saltos gigantes.
d) O coral de alunos canta entusiasmado.

11 – Passe para o aumentativo os termos sublinhados.
a) O palhaço tem nariz vermelho.
      O palhaço tem narigão vermelho.

b) Que bela casa amarela!
      Que belo casarão amarelo!

c) Cuidado, cão bravo!
      Cuidado, canzarrão bravo!

d) Gustavo comprou um bloco de papel.
      Gustavo comprou um bloco de papelão.





MENSAGEM ESPÍRITA - CARIDADE - CONSIDERAÇÕES E CONCORDÂNCIAS BÍBLICAS CONCERNENTES À CRIAÇÃO - PARA REFLEXÃO

MENSAGEM: COM CARIDADE

“Todas as vossas coisas sejam feitas com caridade.” – Paulo. (1ª Epístola aos Coríntios, 16:14.)

        Ainda existe muita gente que não entende outra caridade, além daquela que se veste de trajes humildes aos sábados ou domingos para repartir algum pão com os desfavorecidos da sorte, que aguarda calamidades públicas para manifestar-se ou que lança apelos comovedores nos cartazes da imprensa.
        Não podemos discutir as intenções louváveis desse ou daquele grupo de pessoas; contudo, cabe-nos reconhecer que o dom sublime é de sublime extensão.
        Paulo indica que a caridade, expressando amor cristão, deve abranger todas as manifestações de nossa vida.
        Estender a mão e distribuir reconforto é iniciar a execução da virtude excelsa. Todas as potências do espírito, no entanto, devem ajustar-se ao preceito divino, porque há caridade em falar e ouvir, impedir e favorecer, esquecer e recordar. Tempo virá em que a boca, os ouvidos e os pés serão aliados das mãos fraternas nos serviços do bem supremo.
        Cada pessoa, como cada coisa, necessita da contribuição da bondade, de modo particular.
        Homens que dirigem ou que obedecem reclamam-lhe o concurso santo, a fim de que sejam esclarecidos no departamento da Casa de Deus, em que se encontram. Sem amor sublimado, haverá sempre obscuridade, gerando complicações.
        Desempenha tuas mínimas tarefas com caridade, desde agora. Se não encontras retribuição espiritual, no domínio do entendimento, em sentido imediato, sabes que o Pai acompanha todos os filhos devotadamente.
        Há pedras e espinheiros? Fixa-te em Jesus e passa.

Mensagens Espírita: O livro dos Espíritos
ALLAN KARDEC – Tradução Matheus R. Camargo

Perguntas e respostas
CONSIDERAÇÕES E CONCORDÂNCIAS BÍBLICAS CONCERNENTES À CRIAÇÃO

59 – Os povos formaram ideias bem divergentes sobre a Criação, conforme o grau de suas luzes. A razão, apoiada na Ciência, reconheceu a inverossimilhança de algumas teorias. O que foi revelado pelos Espíritos confirma a opinião há muito tempo admitida pelos homens mais esclarecidos.
      A objeção que se pode fazer a essa teoria é a de estar em contradição com o texto dos livros sagrados. No entanto, uma análise séria leva a reconhecer que essa contradição é mais aparente que real, e que resulta da interpretação dada a um sentido muitas vezes alegórico.
      A questão do primeiro homem, representado por Adão, como único tronco da humanidade, não é, de forma alguma, a única a respeito da qual as crenças religiosas tiveram que se modificar. O movimento da Terra pareceu, numa certa época, tão contrária ao texto sagrado, que não há forma de perseguições de que essa teoria não tenha sido o pretexto. E, no entanto, a Terra gira, apesar dos anátemas, e hoje em dia ninguém poderia contestar este fato sem pôr em risco a sua própria razão.
      A Bíblia diz igualmente que o mundo foi criado em seis dias, e fixa a época da criação em cerca de 4.000 anos antes da era cristã. Até então, a Terra não existia; ela foi tirada do nada. O texto é formal; e eis que a Ciência positiva, a Ciência inexorável vem provar o contrário. A formação do globo terrestre está escrita em caracteres irrecusáveis no mundo fóssil, e está provado que os seis dias da criação constituem outros tantos períodos, cada um deles possuindo, talvez, várias centenas de milhares de anos. Isso não é mais um sistema, uma doutrina, uma opinião isolada; trata-se de um fato tão certo como aquele do movimento da Terra, que a teologia não pôde deixar de admitir, prova evidente do erro a que se está sujeito quando se tomam ao pé da letra as expressões de uma linguagem que quase sempre é figurada. Com isso, devemos então concluir que a Bíblia é um erro? Não; mas que os homens se enganaram ao interpretá-la.
      Ao explorar os arquivos da Terra, a Ciência descobriu a ordem em que os diferentes seres vivos aparecem na superfície, e essa ordem está de acordo com aquela indicada no Gênesis, com a diferença de que, em vez de ter saído miraculosamente das mãos de Deus em algumas horas, realizou-se, sempre por sua vontade, mas segundo a lei das forças da Natureza, em alguns milhões de anos. Deus seria, por essa razão, menos grandioso e menos poderoso? Sua obra seria menos sublime por não gozar do prestígio da instantaneidade? Evidentemente não; seria necessário ter uma ideia bem mesquinha da Divindade para não reconhecer Sua onipotência nas leis eternas que estabeleceu para reger os mundos. A Ciência, longe de desmerecer a obra divina, apresenta-a para nós sob um aspecto mais grandioso e mais conforme às nações que temos do poder e da majestade de Deus, pelo fato mesmo de que ela se realiza sem derrogar as leis da Natureza.
      A Ciência, quanto a isso de acordo com Moisés, coloca o homem por último na ordem da criação dos seres vivos. Contudo, Moisés coloca o dilúvio universal no ano de 1654, enquanto a geologia nos mostra o grande cataclisma como anterior a aparição do homem, visto que até hoje não se encontra, nas camadas primitivas, nenhum indício de presença humana nem de animais pertencentes à mesma categoria do homem, do ponto de vista físico. Porém, nada prova que isso seja impossível; diversas descobertas já lançaram dúvidas a esse respeito. Portanto, pode ser que de uma hora para outra se adquira a certeza material dessa anterioridade da raça humana, e, então, reconhecer-se-á que, nesse ponto como em outros, o texto bíblico é uma figura. A questão que resta a saber é se o cataclisma geológico é o mesmo que o de Noé. Ora, a duração necessária para a formação de camadas fósseis não permite confundi-los, e a partir do momento em que se tiver descoberto os indícios da existência do homem antes da grande catástrofe, ficará provado que Adão não é o primeiro homem, ou que sua criação se perde nos confins dos tempos. Contra a evidência não há raciocínios possíveis, e será preciso aceitar esse fato, como se aceitou o do movimento da Terra e os seis períodos da Criação.
      A existência do homem antes do dilúvio geológico é, na verdade, ainda hipotética, mas não nos parece ser tanto assim. Admitindo-se que o homem tenha surgido pela primeira vez sobre a Terra há 4.000 anos antes de Cristo, e que 1650 anos mais tarde toda a aça humana foi destruída, com exceção de uma única família, conclui-se que o povoamento da Terra date somente da época de Noé, ou seja, 2.3350 anos antes da nossa era. Ora, quando os hebreus emigraram para o Egito, no século XVIII a.C., encontraram esse país bastante povoado e já bem avançado em civilização. A História prova que, nessa época, as Índias e outras regiões eram igualmente prósperas, mesmo sem leva em conta a cronologia de certos povos, que remota a uma época bem mais remota. Teria sido então necessário que, do século XXIV a.C., ao XVIII a.C., ou seja, no espaço de seiscentos anos, não somente a posteridade de um único homem tivesse podido povoar todas as imensas regiões então conhecidas, supondo-se que as outras não o fossem, mas que, nesse curto intervalo, a espécie humana tivesse podido elevar-se da ignorância absoluta do estado primitivo ao mais alto grau de desenvolvimento intelectual, o que contraria todas as leis antropológicas.
      A diversidade de raças vem ainda reforçar essa opinião. O clima e os hábitos produzem, sem dúvida, modificações nas características físicas, mas sabe-se até onde pode ir a influência dessas causas, e, além disso, o exame fisiológico prova haver, entre certas raças, diferenças estruturais mais profundas que aquelas produzidas pelo clima. O cruzamento das raças produz os tipos intermediários; ele tende a apagar os caracteres extemos, mas não os produz; apenas cria variedades. Ora, para que tenha ocorrido cruzamento de raças, seria necessário que houvesse raças distintas. Como explicar a existência delas, atribuindo-se-lhes um tronco comum e, sobretudo, tão próximo? Como admitir que, em alguns séculos, certos descendentes de Noé tivessem se transformado a ponto de produzir a raça etíope, por exemplo? Tal metamorfose não é mais admissível do que a hipótese de um tronco comum para o lobo e a ovelha, o elefante e o pulgão, a ave e o peixe. Ainda uma vez: nada pode prevalecer contra a evidência dos fatos. Tudo se explica, pelo contrário, admitindo-se a existência do homem antes da época que lhe é comumente designada; admitindo-se a diversidade das origens; Adão como alguém que viveu há 6.000 anos e povoou uma região ainda desabitada; o dilúvio de Noé como uma catástrofe parcial confundida com o cataclisma geológico; levando-se em conta, enfim, a forma alegórica característica do estilo oriental, que se encontra nos livros sagrados de todos os povos. Por isso é prudente não acusar tão levianamente de falsas as doutrinas que podem, cedo ou tarde, e como tantas outras, oferecer provas de sua autenticidade àqueles que as combatem. As ideias religiosas, longe de perderem algo, engrandecem-se quando caminham ao lado da Ciência. É o único meio de não mostrar ao ceticismo um lado vulnerável.