quarta-feira, 25 de outubro de 2017

CRÔNICA SOBRE ENVELHESCÊNCIA - MÁRIO PRATA - COM GABARITO

Crônica sobre Envelhescência

VOCÊ É UM ENVELHESCENTE?

  Se você tem entre 45 e 65 anos, preste bastante atenção no que se segue. Se você for mais novo, preste também, porque um dia vai chegar lá. E, se já passou, confira.
   Sempre me disseram que a vida do homem se dividia em quatro partes: infância, adolescência, maturidade e velhice. Quase correto. Esqueceram de nos dizer que estre a maturidade e a velhice (entre os 45 e os 65), existe a envelhescência.
        A envelhescênca nada mais é que uma preparação para entrar na velhice, assim como a adolescência é uma preparação para a maturidade. Engana-se quem acha que o homem maduro fica velho de repente, assim da noite para o dia. Não. Antes, a envelhescência. E, se você está em plena envelhescência, já notou como ela é parecida com a adolescência? Coloque os óculos e veja como este nosso estágio é maravilhoso.
        --- Já notou que andam nascendo algumas espinhas em você? Notadamente na bunda?
        --- Assim como os adolescentes, os envelhescentes também gostam de meninas de vinte anos.
        --- Os adolescentes mudam a voz. Nós, envelhescentes, também. Mudamos o nosso ritmo de falar, o nosso timbre. Os adolescentes querem falar mais rápidos; os envelhescentes querem falar mais lentamente.
        --- Os adolescentes vivem a sonhar com o futuro; os envelhescentes vivem a falar do passado. Bons tempos...
        --- Os adolescentes não tem ideia do que vai acontecer com eles daqui a 20 anos. Os envelhescentes até evitam pensar nisso...
        --- Os adolescentes não entendem os adultos e acham que ninguém os entende. Nós, envelhescentes, também não entendemos eles. “Ninguém me entende” é uma frase típica de envelhescente. [...]
        --- O adolescente faz de tudo para aprender a fumar. O envelhescente pagaria qualquer preço para deixar o vício. [...]
        --- O adolescente esnoba que dá três por dia. O envelhescente quando dá uma a cada três dias, está mentindo.
        --- A adolescência vai dos 10 aos 20 anos: a envelhescência vai dos 45 aos 65 anos. Depois sim, virá a velhice, que nada mais é que a maturidade do envelhescente.
        --- Daqui a alguns anos, quando insistimos em não sair da envelhescência para entrar na velhice, vão dizer:
        --- É um eterno envelhescente!
        Que bom.

               Mário Prata. 100 crônicas. São Paulo: Cartaz/O Estado de São Paulo, 1997, p. 13.
Interpretação do texto:

1 – Você gostou da crônica?
      Sim. Por se tratar de um assunto curioso.

2 – Quem é o autor da crônica?
      Mário Prata.

3 – O autor da crônica “cria” uma outra fase da vida. Qual é ela?
      A envelhescência.

4 – Segundo esse autor, qual é a faixa de idade da adolescência? e da envelhescência?
      - A adolescência vai dos 10 aos 20 anos.
      - A envelhescência vai dos 45 aos 65 anos.

5 – Você concorda que existe a fase da “envelhescência”? Justifique.
      Resposta pessoal do aluno. Sim, porque mesmo tendo passado dos 65 anos, tem pessoas que não se acham idoso.

6 – Você conhece alguém que seja um “envelhescente”? Que características de “envelhescente” essa pessoa apresenta.
      Sim. A característica é por já ter entrado na velhice, e querer estar na envelhescência, até mesmo pensar em arrumar uma companheira bem mais jovem.

7 – Quando foi publicado a crônica? E em que meio de comunicação?
      Foi publicado em 1997. No Cartaz / O Estado de São Paulo.

8 – Qual é a diferença entre a adolescência e a envelhescência quanto a fala, voz?
      Na adolescência fala-se mais rápido e a voz muda.
      Na envelhescência fala-se mais devagar e tranquilo.

9 – Em quantas partes se divide a vida do homem, de acordo com Mário Prata? Quais são?
      Divide-se em 5 partes. Sendo: Infância, adolescência, maturidade, envelhescência e velhice.

10 – Qual é a frase mais típica que se ouve entre adolescentes e envelhescentes?
      “Ninguém me entende”.


MÚSICA(ATIVIDADES): FLOR DE LIS - DJAVAN - COM GABARITO

Música(Atividades) : Flor de Lis

                                                    Djavan

 Valei-me, Deus!
é o fim do nosso amor
Perdoa, por favor
Eu sei que o erro aconteceu
Mas não sei o que fez
Tudo mudar de vez
Onde foi que eu errei?
Eu só sei que amei,
Que amei, que amei, que amei
Será talvez
Que minha ilusão
Foi dar meu coração
Com toda força
Pra essa moça
Me fazer feliz
E o destino não quis
Me ver como raiz
De uma flor de lis
E foi assim que eu vi
Nosso amor na poeira,
Poeira
Morto na beleza fria de Maria
E o meu jardim da vida
Ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria
Nem margarida nasceu
E o meu jardim da vida
Ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria
Nem margarida nasceu

Interpretação da canção:

1 - Quantos personagens são citados no discurso? Identifique-os
      Dois. O eu lírico e Maria.

2 - Qual é o possível estado de espírito do eu-lírico da canção?
      Estava triste, decepcionado, traumatizado com o fim do relacionamento com sua flor de lis.

3 - “Valei-me Deus!” Qual é a intenção do eu-lírico com essa exclamação?
      Ele recorre ao ser supremo “DEUS”, a espera de um milagre.

4 - “É o fim do nosso amor” A que amor a canção refere-se? E qual o motivo desse “término”?
      Ao fim do relacionamento com sua flor de lis; ele implora perdão por um erro que sabe que cometeu, mas que não sabe qual foi.

5 - “Eu sei que o erro aconteceu’ A que erro a canção refere-se? E por quê?
      Ao erro de entregar-se aquele relacionamento, mesmo sem prever o futuro. Porque não sabe qual foi o erro que cometeu para que se findasse o seu relacionamento.

6 - “Que amei, que amei, que amei” Quem foi amada?
      Uma mulher poderosa e pura chamada Maria.

7 - “E o destino não quis” O que o destino não quis?
      O eu lírico culpa o destino (“o destino não quis me ver como raiz”), mas na verdade é o próprio que não quer ser a raiz da flor, nutrindo um relacionamento sem sexo.

8 - “Na beleza fria de Maria” Por que essa beleza é descrita como “Fria”?
      É descrita como fria, porque o relacionamento acabou devido a castidade da Maria, que se recusava a ter um relacionamento carnal. E com isso o amor ficou na poeira, morto na beleza fria da Maria.

9 - “Do pé que brotou Maria nem Margarida Nasceu” Quais são os significados que o verso nos remete?
      Os significados são: Tratando sua vida como um jardim, acaba tratando como árvores seus sentimentos e sensações e quando ele diz, “do pé que brota Maria” (a árvore do amor, já que era Maria sua amada), nem margarida nasceu, significa que, depois de Maria, nunca mais amou outro alguém.

10 - Por que a canção recebe este título?
       Porque o eu lírico vê a sua amada como uma mulher poderosa e pura.

11 - Qual é a temática da canção?
      Sobre uma pessoa que está traumatizada pelo fim de um relacionamento com a mulher amada.
        
12 - Quais são suas impressões sobre a canção?
      É uma canção de amor dramática, pois no primeiro verso nos mostra o desespero do eu poético pelo fim do seu relacionamento, mas adiante pede perdão pelo erro que diz não ter cometido, e por fim diz que o destino não quis.


terça-feira, 24 de outubro de 2017

MÚSICA: FICO ASSIM SEM VOCÊ - ADRIANA CALCANHOTTO - COM GABARITO

Música: Fico Assim Sem Você

                                                          Adriana Calcanhotto
                                               Compositor: Cacá Moraes e Abdullah
Avião sem asa,
fogueira sem brasa,
sou eu assim sem você.
Futebol sem bola,
Piu-piu sem Frajola,
sou eu assim sem você.

Por que é que tem que ser assim
se o meu desejo não tem fim.
Eu te quero a todo instante
nem mil auto-falantes
vão poder falar por mim.

Amor sem beijinho,
Bochecha sem Claudinho,
sou eu assim sem você.
Circo sem palhaço,
namoro sem amasso,
sou eu assim sem você

Tô louca pra te ver chegar,
Tô louca pra te ter nas mãos.
Deitar no teu abraço,
Retomar o pedaço
que falta no meu coração.

Eu não existo longe de você
e a solidão é o meu pior castigo.
Eu conto as horas pra poder te ver
mas o relógio tá de mal comigo
Por quê?
Por quê?

Neném sem chupeta,
Romeu sem Julieta,
sou eu assim sem você.
Carro sem estrada,
queijo sem goiabada,
sou eu assim sem você

Por que é que tem que ser assim
se o meu desejo não tem fim.
Eu te quero a todo instante
nem mil auto-falantes vão poder
falar por mim

Eu não existo longe de você
e a solidão é o meu pior castigo.
Eu conto as horas pra poder te ver
mas o relógio tá de mal comigo.

Eu não existo longe de você
e a solidão é o meu pior castigo.
Eu conto as horas pra poder te ver
mas o relógio tá de mal comigo.

Interpretação do texto:

1 – Por que o eu lírico diz que é “Avião sem asa, fogueira sem brasa”?
      Porque ele não tem a pessoa amada.

2 – Quem está de mal, com o eu lírico? E por que? Na 5ª estrofe.
      É o relógio. Porque as horas nunca passa, que mais parece uma eternidade.

3 – De quantas estrofes, e quantos versos é composta a letra da música?
      É composta de 09 estrofes, e 47 versos.

4 – Quem é o autor? E quem interpreta a música?
      Foi escrita por Abdullah e Cacá Moraes. E é interpretada por Adriana Calcanhotto.

5 – Em qual estrofe o eu lírico afirma que não pode ficar sem a amada, nem por um instante?
      Na 2ª estrofe. “Se o meu desejo não tem fim / Eu te quero a todo instante.”

6 – Qual é o tema desenvolvido em “Fico assim sem você”?
      O sofrimento amoroso do eu lírico, que afirma que não existe sem a pessoa que ama.

a)   Que elementos indicam que se trata de um texto atual?
Todas as referências e elementos da nossa época: avião, futebol, Piu-Piu e Frajola (personagens de desenho animado), auto-falantes, carro. Além disso, a linguagem utilizada é mais coloquial, semelhante àquela utilizada em contextos informais nos dias de hoje (“tô louco”; “pra poder te ver”).

b)   Poderíamos dizer que ele desenvolve um tema semelhante ao da cantiga de Nuno Fernandes Torneal? Por quê?
Sim. Temos, embora com desenvolvimentos diferentes, o mesmo tema tratado na cantiga de amor: o sofrimento do eu lírico pela ausência de sua amada e a subordinação de sua existência à presença dela. Na cantiga, o eu lírico afirma que é a amada quem dá sentido à sua existência e que, se ela partir, ele não saberá o que fazer. Na canção, o eu lírico também afirma que não “existe” sem a sua amada, mas porque ele não a vê, não está com ela e se sente, por isso, incompleto.

7 – Quais são os sentimentos que o eu lírico expressa pela mulher amada?
      - A relação entre o eu lírico e sua amada se dá do mesmo modo que na cantiga de amor? Explique.
      O eu lírico afirma seu amor dizendo que se sente incompleto sem a sua amada, que a deseja a todo instante, não se conforma com a impossibilidade de estarem juntos e que a solidão é o seu “pior castigo”.

8 – Que elementos formais e de conteúdo da canção permitem compará-la a uma cantiga de amor?
      Temos o sofrimento amoroso do eu lírico, a coita de amor. Um eu lírico masculino sofre pela impossibilidade de estar com a sua amada e declara-se completamente subordinado a ela. Embora não haja uma forma de tratamento que explicite a devoção do eu lírico a uma senhora, é possível identificar a quem é dirigido o “apelo” amoroso: à mulher amada que dá sentido à existência do eu lírico.

      

CRÔNICA: MEDO DA ETERNIDADE - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

CRÔNICA: MEDO DA ETERNIDADE
                          Clarice Lispector

    Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
   Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.


        Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
        --- Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
        --- Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.
        -- Não acaba nunca, e pronto.
        Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
        Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
        --- E agora que é que eu faço? – Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
        --- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E ai mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
        Perder a eternidade? Nunca.
        O adocicado do chicle era bonzinho não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
        --- Acabou-se o docinho. E agora?
        --- Agora mastigue para sempre.
        Assustei-me, não sabia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
        Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
        Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
        --- Olha só o que me aconteceu! – Disse eu em fingidos espanto e tristeza. Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
        --- Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ele não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
        Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
        Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

                               Clarice Lispector. A descoberta do mundo. 3. ed.
                              Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992. p. 309-10.

Elixir: tipo de xarope para fins medicamentosos; aquilo que tem efeito mágico ou miraculoso.
Ritual: conjunto de regras que se deve observar numa cerimônia religiosa.

Interpretação do texto:
1 – “[...] parecia-se ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas [...]”.
      a – Em seu caderno, explique o raciocínio do narrador.
      Somente no reino da fantasia poderiam existir coisas eternas.

      b – Que palavra e/ou expressão do sétimo parágrafo resume a mesma ideia? Copie-a em seu caderno.
      Milagre; mundo impossível.

2 – “Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer [...]”. Copie em seu caderno a metáfora do texto que está em antítese com essa primeira impressão.
      “... puxa-puxa cinzento de borracha”.

3 – Por que a narradora supõe a existência de um ritual para o simples ato de mascar chiclete?
      Porque, para ela, algo que não acaba nunca não poderia ser uma coisa simples.

4 – Como age a irmã da narradora diante da atitude reflexiva da narradora?
      À atitude de reflexão da narradora contrapõe-se a atitude prática da irmã.

5 – A narrativa é feita em primeira pessoa, por uma narradora adulta, que recorda um fato da infância. A que ela parece dar mais importância: ao fato em si ou à reflexão despertada pela lembrança do fato? Justifique sua resposta.
      À reflexão despertada pela lembrança; no texto, o ato de mascar chicletes é questionado, assim como as consequências dele.

6 – Empregando apenas substantivos abstratos, resuma em seu caderno o estado psicológico que parece envolvido nas reações da narradora em cada fragmento.
      a – “Parei um instante na rua, perplexa”.
        Perplexidade.

      b – “[...] quase não podia acreditar no milagre”.
        Descrença.

      c – “Perder a eternidade? Nunca”.
        Decisão; determinação.

7 – “[...] E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente [...]”. Inocente significa “simples”, “inofensivo”. Por que a aparência da bala causou espanto na menina?
      Por causa de suposta qualidade de eternidade: uma coisa eterna não poderia ser tão simples, inofensiva.

8 – O chiclete atua, na memória da narrador adulta, como metáfora para a eternidade. Logo, mascar chiclete é o mesmo que experimentar a eternidade. Qual seria então a reação da narradora diante da eternidade?
      Antes de mascar realmente, ou seja, enquanto só sonhava com isso, a narradora imaginava que sentiria muito prazer. Ao realmente realizar-se a ação, a atitude é de frustação e rejeição. Por isso, ela dá um jeito de “perder” o chiclete.

9 – Por que a narradora se sentiu envergonhada diante da atitude da irmã?
      Em nossa interpretação, isso ocorreu pelo fato de a narradora ter mentido para irmã, dizendo que o chiclete caíra acidentalmente.

10 – A narradora confessa seu medo diante da ideia de eternidade ou de infinito. E você, que sensações experimenta diante dessa ideia? descreva-as em seu caderno.

      Resposta pessoal do aluno.

11 - Qual o foco narrativo, neste texto?
       Foco narrativo de primeira pessoa - narrador-personagem, pois o mesmo narra e participa da história.

CONTO: SORÔCO, SUA MÃE, SUA FILHA - JOÃO GUIMARÃES ROSA - COM GABARITO

CONTO: SORÔCO, SUA MÃE, SUA FILHA
                 João Guimarães Rosa


  Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, todo novo. A gente reparando, notava as diferenças. Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso daí de baixo, fazendo parte da composição. Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45m.
        As muitas pessoas já estavam de ajuntamento, em beira do carro, para esperar. As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os outros a prática do acontecer das coisas. Sempre chegava mais povo – o movimento. Aquilo quase no fim da esplanada, do lado do curral de embarque de bois, antes da guarita do guarda-chaves, perto dos empilhados de lenha. Sorôco ia trazer as duas, conforme. A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum.
        A hora era de muito sol – o povo caçava jeito de ficarem debaixo da sombra das árvores de cedro. O carro lembrava um canoão no seco, navio. A gente olhava: nas reluzências do ar, parecia que ele estava torto, que pontas se empinava. O borco bojudo do telhadilho dele alumiava em preto. Parecia coisa de invento de muita distância, sem piedade nenhuma, e que a gente não pudesse imaginar direito nem se acostumar de ver, e não sendo de ninguém. Para onde ia, no levar as mulheres, era para um lugar chamado Barbacena, longe. Para o pobre, os lugares são mais longe.
        O agente da estação apareceu, fardado de amarelo, com o livro de capa preta e as bandeirinhas verde e vermelha debaixo do braço. – “Vai ver se botaram água fresca no carro...” – ele mandou. Depois, o guarda-freios andou mexendo nas mangueiras de engate. Alguém deu aviso: --- “Eles vêm! ...” Apontavam, da Rua de Baixo, onde morava Sorôco. Ele era um homenzão, brutalhudo de corpo, com a cara grande, uma barba, fiosa, encardida em amarelo, e uns pés, com alpercatas: as crianças tomavam medo dele; mais, da voz, que era quase pouca, grossa, que em seguida se afinava. Vinham vindo, com o trazer da comitiva.
        Aí, paravam. A filha – a moça – tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras – o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração. Assim com panos e papéis, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espalhados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas – virundangas: matéria de maluco. A velha só estava de preto, com um fichu preto, ela batia com a cabeça nos docementes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam.
        Sorôco estava dando o braço a elas, uma de cada lado. Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro. Todos ficavam de parte, a chusma de gente não querendo afirmar as vistas, por causa daqueles trasmodos e despropósitos, de fazer risos, e por conta do Sorôco – para não parecer pouco caso. Ele hoje estava calçado de botinas, e de paletó, com chapéu grande, botara sua roupa melhor, os maltrapos. E estava reportado e atalhado, humildoso. Todos diziam a ele seus respeitos, de dó. Ele respondia: --- “Deus vos pague essa despesa ...”.
        O que os outros se diziam: que Sorôco tinha tido muita paciência. Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio. Isso não tinha cura, elas não iam voltar, nunca mais. De antes, Sorôco aguentara de repassar tantas desgraças, de morar com as duas, pelejava. Saí, com os anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que foi preciso. Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as providências, de mercê. Quem pagava tudo era o Governo, que tinha mandado o carro. Por forma que, por força disso, agora iam remir com as duas, em hospícios. O se seguir.
        De repente, a velha se desapareceu do braço de Sorôco, foi se sentar no degrau da escadinha do carro. – “Ela não faz nada, seo Agente...” – a voz de Sorôco estava muito branda: --- “Ela não acode, quando a gente chama...” A moça, aí, tornou a cantar, virada para o povo, o ao ar, a cara dela era um repouso estatelado, não queria dar-se em espetáculo, mas representava de outrora grandezas, impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um encanto de pressentimento muito antigo – um amor extremoso. E, principiando baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, também, tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que ninguém não entendia. Agora elas cantavam junto, não paravam de cantar.
        Aí que já estava chegando a horinha do trem, tinham de dar fim aos aprestes, fazer as duas entrar para o carro de janelas enxequetadas de grades. Assim, num consumiço, sem despedida nenhuma, que elas nem haviam de poder entender. Nessa diligência, os que iam com elas, por bem-fazer, na viagem comprida, eram o Nenêgo, despachado e animoso, e o José Abençoado, pessoa de muita cautel, estes serviam para ter mão nelas, em toda juntura. E subiam também no carro uns rapazinhos, carregando as trouxas e malas, e as coisas de comer, muitas, que não iam fazer minguá, os embrulhos de pão. Por derradeiro, o Nenêgo ainda se apareceu na plataforma, para os gestos de que tudo ia em ordem. Elas não haviam de dar trabalhos.
        Agora, mesmo, a gente acorçoo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.
        Sorôco.
        Tomara aquilo se acabasse. O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre.
        Sorôco não esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só ficou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, surdo – o que nele mais espantava. O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas suas palavras. Ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do peso, sem queixa, exemploso. E lhe falavam: --- “O mundo está dessa forma...” Todos, no arregalado respeito, tinham as vistas neblinadas. De repente, todos gostavm demais de Sorôco.
        Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido, e virou, para ir-s’embora. Estava voltando para casa, como se estivesse indo para longe, fora de conta.
        Mas, parou. Em tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de si, parar de ser. Assim num excesso de espírito, fora de sentido. E foi o que não se podia prevenir: quem ia fazer siso naquilo? Num rompido – ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho para si – e era a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.
        A gente se esfriou, se afundou – um instantâneo. A gente... E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó de Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão. E com as vozes tão altas! Todos caminhando com ele, Sorôco, e canta que cantando, atrás dele, os mais de detrás quase que corriam, ninguém deixasse de cantar. Foi um caso sem comparação.
        A gente estava agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.

                                         João Guimarães Rosa. Primeiras estórias.
                                    Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, p. 61-4.
Atrelado: preso.
Esplanada: terreno plano e descoberto.
Porfiar: discutir, debater.
Borco: parte externa do que está de barriga para baixo.
Chusma: multidão.
Enfunado: inchado, cheio de.
Fichu: lenço de cabeça e ombros.
Reluzência: brilho.
Vigorar: ter sentido.
Acorçoo: alento.
Alteado: levantado, soerguido.
Animoso: corajoso.
Aprestes: aprontamentos; provisões.
Atalhado: reportado.
Avocar: chamar a si a responsabilidade, o direito.
Chirimia: palavras desconexas.
Diligência: providência; medida.
Enxequetado: enxadrezado.
Juntura: circunstância.
Jurisprudência: conjunto de leis.
Mercê: favor; beneficio; benevolência.
Remir: resgatar.
Reportado: moderado, prudente, cauteloso.
Decretado: parado.
Embargado: reprimido, contido.


Interpretação do texto:
1 – Por que as duas mulheres estavam sendo levadas para Barbacena?
      Para serem internadas em um hospital psiquiátrico (hospício).

2 – Na opinião do povo, a partida dessas mulheres representava um alívio para Sorôco. Por quê?
      Sorôco não tinha mais condição de cuidar das duas sozinho, precisa sempre recorrer ao auxílio de outras pessoas.

3 – Quando ambas as mulheres começam a cantar, fica evidente o desequilíbrio entre os dois grupos de personagens: essas mulheres e as demais pessoas. Mesmo a partida do trem não resolve o mal-estar. Como o equilíbrio é reestabelecido no conto, em sua opinião?
      Após a partida do trem, Sorôco, na volta para casa, começa a cantar a cantiga das duas mulheres e a comunidade também. Ou seja, as personagens recuperam o equilíbrio à medida que aderem à manifestação de loucura das mulheres.

4 – Através da cantiga, as duas mulheres exteriorizavam seus sentimentos. Caracterize, com suas palavras, o teor dessa cantiga.
      A grosso modo, a cantiga expressava as adversidades da vida das mulheres.

5 – Que efeito o trecho “[...] não se conhecia dele o parente nenhum [...]” provoca na construção da figura de Sorôco?
      Em nossa leitura, a informação acentua a dramaticidade da partida das duas mulheres, a solidão de Sorôco.

6 – A cantiga, de início, é a expressão da loucura das mulheres. No final, assume outra função no conto. Qual?
      A cantiga permite a manifestação da solidariedade do povo a Sorôco.

7 – Copie em seu caderno palavras ou expressões do texto equivalentes a:
      a – Aglomeração de pessoas;
      “De ajuntamento”.

      b – O povo procurava jeito;
      “O povo caçava jeito”.

      c – Olhar fixamente;
      “Afirmar as vistas”.

      d – Meneava a cabeça.
      “Batia com a cabeça”.


TEMAS POSSÍVEIS DE REDAÇÃO PARA O ENEM

TEMAS POSSÍVEIS  DE REDAÇÃO PARA O ENEM 


1. Destino do lixo no Brasil
Não é de agora que existe uma preocupação dos gestores públicos, dos empresários, dos ambientalistas e da sociedade geral no que diz respeito ao destino do lixo no nosso país, já que sofremos muito com questões relacionadas ao lixo: sujeira nas ruas, poluição de rios e mares, descarte inapropriado de lixo hospital, falta de coleta seletiva, reciclagem pouco eficiente etc. Esta problemática pode causar danos à saúde e ao meio ambiente (por meio da contaminação do solo e dos lençóis freáticos).


2. Os casos da mobilidade urbana
O Brasil enfrenta muitos problemas em relação a mobilidade urbana de seus cidadãos. Por sermos um país de dimensões continentais, escoar a produção agrícola, agropecuária e de todos os ramos industriais nunca foi uma tarefa de fácil logística para nós que, particularmente, priorizamos o transporte rodoviário em detrimento do ferroviário e do fluviário e ainda fez isso mal, já que há rodovias praticamente intransitáveis, principalmente no Norte e no Nordeste do Brasil, enquanto há uma extensa malha ferroviária desperdiçada. Além disso, dentro das próprias cidades as pessoas enfrentam problemas graves, como transportes públicos caros, sem conforto ou segurança, que atrasam, que quebram e que, assim, não oferecem um bom serviço. Atualmente, com a popularização dos aplicativos de transporte como o Uber, vemos uma verdadeira guerra entre taxistas e motoristas deUber pelos clientes.


3. Desafios da saúde pública brasileira
Diferentes dos Estados Unidos, no qual não há um sistema público de saúde, o Brasil possui o SUS (Sistema Único de Saúde) que tem como objetivo oferecer tratamentos médicos a todos os cidadãos brasileiros, porém ele apresenta, há anos, inúmeras deficiências: longas filas de espera por consultas, exames e cirurgias; hospitais com déficit de enfermeiros, médicos e outros profissionais da saúde; carências de aparelhos de exames laboratoriais e de imagem, além da falta de itens básicos; infraestrutura física precária etc. Ou seja, na realidade, o SUS enfrenta muitos desafios a fim de atender a todos com respeito e dignidade. O programa Mais Médicos do Governo Federal criou certa polêmica ao trazer de países estrangeiros médicos para trabalharem em cidades que enfrentam justamente a falta destes profissionais.


4. Variedade linguística no Brasil
Sabe-se que hoje o Português do Brasil é uma língua diferente do Português de Portugal e pesquisas na área da Linguística apontam que a variedade, ou seja, a diversidade linguística no nosso país é enorme. Por exemplo, um gaúcho fala diferente de um carioca; uma pessoa que mora em uma grande cidade fala diferente de uma pessoa que mora numa zona rural; mulheres falam diferente dos homens; pessoas mais velhas falam diferente dos meus jovens e assim por diante. Não estamos falando só de gírias ou de sotaques, mas também de colocação pronominal, concordância verbal e de número, regência verbal etc. O que é variedade para a Linguística é vista pelos gramáticos normativos como erro ou desvio, o que pode causar na sociedade o chamado preconceito linguístico. Pessoas que não tiveram acesso à educação formal, escolar, pela qual temos contato com a gramática podem ser discriminadas, o que é inadmissível.


5. Ideologia de Gênero no Brasil
O modo como este tema foi escrito é equivocado, pois não existe ideologia de gênero. Tal nome é dado pelas pessoas contrárias ao debate sobre gênero e sexualidade que abarca questões como homossexualidade, bissexualidade, transexualidade dentre outras designações e seus aspectos inerentes. Há quem afirme, como o Escola Sem Partido, que há uma ideologia de gênero nas escolas brasileiras, o que não é verdade; o que é verdade é que deve haver debates e discussões esclarecidas, sem nenhum preconceito, sobre tais questões e que os jovens alunos devem aprender a respeitar as diferenças. O Brasil é o país que mais mata pessoas da comunidade LGBT no mundo e isso não é normal.


6. Ansiedade, depressão e suicídio
A depressão já é considerada por muitos médicos como o mal do século XXI; há ocorrências de transtornos de ansiedade em todas as faixas etárias; está aumentando o número de suicídios entre jovens, inclusive no Brasil e a depressão normalmente é um sinal de alerta. Ansiedade, depressão e suicídio são problemas individuais que têm consequências coletivas, já que vidas estão se perdendo.


7. Corrupção na sociedade e suas diversas formas de manifestação
Corrupção não é apenas cobrar e pagar propina, superfaturar uma obra ou manter um caixa dois de campanha. Corrupção também é falsificar carteirinha de estudante, furar filas, estacionar o carro em vaga especial, colar na prova, usar atestado médico falso, usar TV paga não oficial etc. Estes são alguns exemplos de algumas formas de como a corrupção manifesta-se na sociedade.


8. A tecnologia e a infância
A cada dia que passa, crianças cada vez mais novas têm seu primeiro contato com as tecnologias analógicas e digitais. Os tablets e os smartphones são as novas babás, substituindo a televisão, babá dos anos 80 e 90. Com isso, crianças podem ser influenciadas pelas mídias digitais, seus profissionais e conteúdos sem que os pais percebam.

ENTRE OUTROS:

9 – Consumismo e ostentação;
10 – Analfabetismo funcional no Brasil;
11 – Bullying nas escolas;
12 – Desigualdade entre homens e mulheres no Brasil;
13 – Os limites do humor e a liberdade de Expressão;
14 – A nova constituição familiar no Brasil;
15 -  Consciência ambiental;