quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

ROMANCE: SÃO BERNARDO - (FRAGMENTO) - GRACILIANO RAMOS - COM GABARITO

 Romance: São Bernardo – Fragmento

                 Graciliano Ramos  

        [...]            

        “Sou um homem arrasado. Doença! Não. Gozo de perfeita saúde. Quando o Costa Brito, por causa de duzentos mil réis que me queria abafar, vomitou os dois artigos, chamou-me doente, aludindo a crimes que me imputam. O Brito da Gazeta era uma besta. Até hoje, graças a Deus, nenhum médico me entrou em casa. Não tenho doença nenhuma.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhVJVV7zme98JHAPizk1SQpMB4zITRKinlZT2pH2MXYv3QbVl1HRsO-Pm6sqzsveWlyRW3mHI1MRzqyXgvjRZaCq_xt3_e7WGZvBGGEhF7EpZ9fbu9Avb4MF4dTnRicCM1FUwKWVYo0knrzuECdCJAlegYXVkQxO-8zAjtNFzRW4-b3Zei8f1XAFwoXfQM/s320/Sao-bernardo-graciliano-ramos-1-edico.jpg


        O que estou é velho. Cinquenta anos pelo São Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casaca espessa e vê ferir cá dentro a sensibilidade embotada.

        Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo? 

        [...]

        As janelas estão fechadas. Meia-noite. Nenhum rumor na casa deserta.

        Levanto-me, procuro uma vela, que a luz vai apagar-se. Não tenho sono. Deitar-me rolar no colchão até a madrugada, é uma tortura. Prefiro ficar sentado, concluindo isto. Amanhã não terei com que me entreter.

        Ponho a vela no castiçal, risco um fósforo e acendo-o. sinto um arrepio. A lembrança de Madalena persegue-me. Diligencio afastá-la e caminho em redor da mesa. Aperto as mãos de tal forma que me firo com as unhas, e quando caio em mim estou mordendo os beiços a ponto de tirar sangue.    

        De longe em longe sento-me fatigado e escrevo uma linha. Digo em voz baixa:

        – Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente.

        A agitação diminui.

        – Estraguei a minha vida estupidamente.

        Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige.

        A molecoreba de Mestre Caetano arrasta-se por aí, lambuzada, faminta. A Rosa, com a barriga quebrada de tanto parir, trabalha em casa, trabalha no campo e trabalha na cama. O marido é cada vez mais molambo. E os moradores que me restam são uns cambembes como ele.         

        Para ser franco, declaro que esses infelizes não me inspiram simpatia. Lastimo a situação em que se acham, reconheço ter contribuído para isso, mas não vou além. Estamos tão separados! A princípio estávamos juntos, mas esta desgraçada profissão nos distanciou.

        Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo.     

        Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.      

        E a desconfiança terrível, que me aponta inimigos em toda a parte!

        A desconfiança é também consequência da profissão.

        Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.

        Se Madalena me via assim, com certeza me achava extraordinariamente feio.

        Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas.

        A vela está quase a extinguir-se.

        Julgo que delirei e sonhei com atoleiros, rios cheios e uma figura de lobisomem.

        Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto o luar entra por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas no chão.

        É horrível! Se aparecesse alguém... Estão todos dormindo.

        Se ao menos a criança chorasse... Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que miséria!

        Casimiro Lopes está dormindo, Marciano está dormindo. Patifes!

        E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos.”

        [...]

13. ed. Martins Fontes: São Paulo, 1970. p. 241 e 246-8.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, Vol. Único. William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. Ensino Médio, 1ª ed. 4ª reimpressão – São Paulo: ed. Atual, 2003. p. 410-411.

Entendendo o romance:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

      -- Imputar: atribuir.

      -- Diligenciar: esforçar-se, empenhar-se.

      -- Molecoreba: molecada.

      -- Cambembe: desajeitado, desastrado, sem importância.

      -- Nordeste: vento.

02 – Quem é o narrador e protagonista do romance?

      O narrador e protagonista é Paulo Honório, um homem de negócios ambicioso e de origem humilde que enriquece à custa de muito trabalho e de métodos nem sempre éticos.

03 – Qual é o principal tema do romance?

      O principal tema do romance é a trajetória de Paulo Honório, desde a sua ascensão social e econômica até a sua decadência moral e pessoal. A obra também aborda temas como a ambição, o poder, a solidão, o arrependimento e a crítica à sociedade agrária e escravista do início do século XX.

04 – Qual é o papel de Madalena na história?

      Madalena é a professora que se casa com Paulo Honório e que representa a consciência crítica do romance. Ela é uma mulher sensível e idealista que se contrapõe à brutalidade e ao egoísmo do marido.

05 – O que representa a fazenda São Bernardo para Paulo Honório?

      A fazenda São Bernardo representa o símbolo da ascensão social e do poder de Paulo Honório. Ele a adquire com muito esforço e a transforma em um próspero negócio, mas também em um lugar de solidão e de conflitos.

06 – Qual é a relação de Paulo Honório com os outros personagens do romance?

      Paulo Honório mantém relações complexas e ambivalentes com os outros personagens. Ele se mostra um homem frio e calculista, capaz de usar e manipular as pessoas para atingir seus objetivos. Ao mesmo tempo, ele demonstra ter momentos de arrependimento e de fragilidade.

07 – Qual é o papel da linguagem no romance?

      A linguagem de Graciliano Ramos é marcada pela concisão, pela objetividade e pela expressividade. O autor utiliza uma linguagem crua e realista para retratar a vida e os costumes da sociedade sertaneja.

08 – Quais são os principais conflitos enfrentados por Paulo Honório?

      Paulo Honório enfrenta diversos conflitos ao longo do romance. O principal deles é o conflito entre a sua ambição e a sua consciência. Ele também enfrenta conflitos com Madalena, com os outros personagens e com a própria fazenda São Bernardo.

09 – Qual é o desfecho do romance?

      O romance termina com a morte de Paulo Honório, que se isola cada vez mais em sua fazenda e se torna um homem amargurado e solitário. O seu fim trágico é uma reflexão sobre os limites da ambição e do poder.

10 – Qual é a importância de "São Bernardo" na obra de Graciliano Ramos?

      "São Bernardo" é considerado um dos romances mais importantes de Graciliano Ramos e da literatura brasileira. A obra marca uma nova fase na produção do autor, com uma narrativa mais intimista e introspectiva.

11 – Qual é a mensagem principal do romance?

      A mensagem principal do romance é a de que a ambição e o poder podem levar à destruição do ser humano. A história de Paulo Honório é um alerta sobre os perigos do egoísmo, da brutalidade e da falta de consciência.

 

 

POEMA: O ENGENHEIRO - A ANTÔNIO B. BALTAR - COM GABARITO

 Poema: O engenheiro

             A Antônio B. Baltar

A luz, o sol, o ar livre
envolvem o sonho do engenheiro.
O engenheiro sonha coisas claras:
superfícies, tênis, um copo de água.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiEMQ1JsRrxPwzi0AI_sKQWPA59ZPd1qzjqLV0e0NaW6nK6vyQa6MannAZr0UC-srmXpd62P4QHk9dQWHH-dOyeukQUkP4iaXJfLnVoxFKHcumAmFXI8gEIEr2Gu9hIt5dHjSjpKPuGBcRDq7KLMiLeIKVWDlrSfck8ZbanS7_pwrqBzjjrbwcHWU_KAps/s320/ENGE.jpg



O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre.

(Em certas tardes nós subíamos
ao edifício. A cidade diária,
como um jornal que todos liam,
ganhava um pulmão de cimento e vidro.)

A água, o vento, a claridade,
de um lado o rio, no alto as nuvens,
situavam na natureza o edifício
crescendo de suas forças simples.

Poesias completas. 3. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1979, p. 344.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, Vol. Único. William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. Ensino Médio, 1ª ed. 4ª reimpressão – São Paulo: ed. Atual, 2003. p. 467.

Entendendo o poema:

01 – Qual é a principal imagem que o poema evoca em relação ao trabalho do engenheiro?

      O poema evoca a imagem do engenheiro como um sonhador prático, que transforma ideias abstratas em realidades concretas. Ele é um profissional que lida com elementos tangíveis como lápis, esquadro e papel, mas que também possui uma visão idealista de um mundo justo e ordenado.

02 – Como o poema relaciona o trabalho do engenheiro com a natureza?

      O poema estabelece uma conexão entre o trabalho do engenheiro e a natureza ao descrever o edifício como algo que "cresce de suas forças simples" e se integra à paisagem, com o rio de um lado e as nuvens no alto. A água, o vento e a claridade são elementos naturais que envolvem o sonho do engenheiro e influenciam sua criação.

03 – Qual é o significado do verso "o engenheiro pensa o mundo justo, mundo que nenhum véu encobre"?

      Esse verso revela a visão idealista do engenheiro, que busca construir um mundo mais justo e transparente através de seu trabalho. O "véu" que encobre o mundo pode representar a desigualdade, a injustiça e a falta de clareza, elementos que o engenheiro deseja combater com seus projetos.

04 – O que o poema sugere sobre a relação entre a cidade e o trabalho do engenheiro?

      O poema sugere que o trabalho do engenheiro é fundamental para o desenvolvimento da cidade. A construção de edifícios, como o que é descrito no poema, representa um avanço para a cidade, que ganha "um pulmão de cimento e vidro". O engenheiro, portanto, é um agente de transformação urbana.

05 – Qual é o tom geral do poema "O Engenheiro"?

      O tom geral do poema é de exaltação ao trabalho do engenheiro, destacando sua capacidade de materializar sonhos e transformar a realidade. O poema também expressa a admiração do poeta pela visão idealista do engenheiro e sua busca por um mundo mais justo.

 

MÚSICA(ATIVIDADES): TROPICÁLIA - CAETANOS VELOSO - COM GABARITO

 Música(Atividades): Tropicália

             Caetano Veloso

Quando Pero Vaz Caminha
Descobriu que as terras brasileiras
Eram férteis e verdejantes
Escreveu uma carta ao rei
Tudo que nela se planta
Tudo cresce e floresce
E o Gauss da época gravou

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjPJZtK4EdVJWOgYGY-vZbMUm02PnbGRh6hnrJNKmZ3X2q6Eye6CuupwCKC8rJF2WJAYwyZkIsjqTBKZv8J3I1iq6iBWqRvhWQ2IDioDLI1G1Vkh7h1J-0fS_o3rpHemCb5qdXm5pLBpd_SqBt-Ia7S5XhqJkZzBHW4XLqCF6k2hwq1zQw20ZeWGYRZugY/s320/trop.jpg

Sobre a cabeça, os aviões
Sob os meus pés, os caminhões
Aponta contra os chapadões
Meu nariz

Eu organizo o movimento
Eu oriento o Carnaval
Eu inauguro o monumento
No Planalto Central do país

Viva a Bossa, sa, sa
Viva a Palhoça, ça, ça, ça, ça
Viva a Bossa, sa, sa
Viva a Palhoça, ça, ça, ça, ça

O monumento
É de papel crepom e prata
Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde
Atrás da verde mata
O luar do sertão

O monumento não tem porta
A entrada é uma rua antiga
Estreita e torta
E no joelho uma criança
Sorridente, feia e morta
Estende a mão

Viva a mata, tá, tá
Viva a mulata, tá, tá, tá, tá
Viva a mata, tá, tá
Viva a mulata, tá, tá, tá, tá

No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina
E faróis

Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E no jardim os urubus passeiam
A tarde inteira entre os girassóis

Viva Maria, ia, ia
Viva a Bahia, ia, ia, ia, ia
Viva Maria, ia, ia
Viva a Bahia, ia, ia, ia, ia

No pulso esquerdo o bang-bang
Em suas veias corre
Muito pouco sangue
Mas seu coração
Balança um samba de tamborim

Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhoras e senhores
Ele põe os olhos grandes
Sobre mim

Viva Iracema, ma, ma
Viva Ipanema, ma, ma, ma, ma
Viva Iracema, ma, ma
Viva Ipanema, ma, ma, ma, ma

Domingo é o fino-da-bossa
Segunda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça
Porém

O monumento é bem moderno
Não disse nada do modelo
Do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno, meu bem

Que tudo mais vá pro inferno, meu bem

Viva a banda, da, da
Carmem Miranda, da, da, da, da
Viva a banda, da, da
Carmem Miranda, da, da, da, da
.

Composição: Caetano Veloso. São Paulo: Abril Educação, 1981, p. 46-47. Literatura Comentada.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, Vol. Único. William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. Ensino Médio, 1ª ed. 4ª reimpressão – São Paulo: ed. Atual, 2003. p. 493.

Entendendo a música:

01 – Qual é o contexto histórico e social da música "Tropicália"?

      A música "Tropicália" foi lançada em 1968, durante o período da ditadura militar no Brasil. A canção faz parte do movimento Tropicália, que buscava criticar a repressão e a censura através da música e da arte.

02 – Qual é a principal característica da letra da música "Tropicália"?

      A letra da música é marcada pela mistura de elementos diversos e aparentemente desconexos, como referências históricas, culturais, geográficas e personagens folclóricos. Essa mistura reflete a complexidade da cultura brasileira e a crítica à tentativa de homogeneização imposta pela ditadura.

03 – O que o "monumento" mencionado na música representa?

      O "monumento" na música representa a própria cultura brasileira, que é construída a partir da diversidade e da mistura de influências. Ele é descrito como "de papel crepom e prata", "sem porta" e com elementos que remetem tanto à natureza exuberante quanto à pobreza e à violência.

04 – Qual é a crítica presente na música em relação à sociedade brasileira da época?

      A música "Tropicália" de Caetano Veloso, lançada em 1968, é um marco do movimento tropicalista e apresenta diversas críticas à sociedade brasileira da época. A principal crítica se manifesta na colisão e no contraste entre elementos que representam o "Brasil tradicional" e o "Brasil moderno", revelando as contradições e a complexidade da identidade nacional.

Aqui estão os pontos-chave da crítica presente na música:

  • Contradição entre o arcaico e o moderno: A letra justapõe a visão idílica da carta de Pero Vaz de Caminha ("terras férteis e verdejantes") com a realidade urbana e tecnológica ("Sobre a cabeça, os aviões / Sob os meus pés, os caminhões"). Essa coexistência forçada aponta para um país que tenta se modernizar sem resolver suas raízes e problemas históricos.

  • Idealização versus realidade: A canção desconstroi a imagem de um Brasil homogêneo e paradisíaco. O "monumento" que "não tem porta" e a "criança / Sorridente, feia e morta" estendendo a mão simbolizam uma realidade de exclusão social e miséria que contrasta com a visão oficial e otimista do progresso.

  • Crítica à pasteurização cultural: A alternância entre "Viva a Bossa" e "Viva a Palhoça" (e outras oposições como mata/mulata, Maria/Bahia, Iracema/Ipanema, banda/Carmen Miranda) critica a superficialidade e a apropriação de elementos culturais. A "Bossa Nova", que era um símbolo de modernidade, é colocada ao lado da "Palhoça", representando o Brasil rural e simples, mas também a idealização do popular. A repetição dos "vivas" pode ser interpretada como uma forma irônica de exaustão diante da busca por uma identidade única.

  • Subversão da ordem e da lógica: A imagem do "monumento é de papel crepom e prata" e a descrição de uma "entrada é uma rua antiga / Estreita e torta" são metáforas para a fragilidade das construções sociais e políticas do país e a falta de uma direção clara.

  • Distanciamento da "verdade" oficial: O eu lírico, que "organiza o movimento" e "orienta o Carnaval", assume uma postura irônica, sugerindo que as narrativas oficiais sobre o Brasil são construções artificiais e nem sempre refletem a realidade. A frase "Não disse nada do modelo / Do meu terno / Que tudo mais vá pro inferno, meu bem" demonstra um desprendimento e uma crítica à futilidade de certas preocupações.

Em resumo, a música "Tropicália" critica a sociedade brasileira da época por sua ingenuidade, suas contradições, sua superficialidade e a incapacidade de lidar com a complexidade de sua própria identidade, misturando o arcaico e o moderno de forma caótica e, por vezes, dolorosa. É um questionamento profundo sobre o que significa ser brasileiro e as tensões inerentes a essa identidade.

05 – Qual é a importância da música "Tropicália" para o movimento cultural do mesmo nome?

      A música "Tropicália" é considerada um manifesto do movimento Tropicália, sintetizando seus principais conceitos e características. A canção representa a liberdade de expressão e a resistência cultural em um período de repressão, e se tornou um hino de contestação e de valorização da cultura brasileira.

06 – Quais são os principais elementos da sonoridade da música "Tropicália"?

      A sonoridade da música é marcada pela mistura de ritmos e estilos musicais diversos, como o samba, o rock, a bossa nova e elementos da música folclórica brasileira. Essa mistura reflete a proposta estética do movimento Tropicália, que buscava diferentes influências culturais.

07 – Qual é o legado da música "Tropicália" para a música brasileira?

      A música "Tropicália" é um marco na história da música brasileira, pois rompeu com os padrões tradicionais e abriu caminho para a experimentação e a liberdade criativa. A canção influenciou diversos artistas e movimentos musicais posteriores, e seu legado permanece vivo na música brasileira contemporânea.

 

NOTÍCIA: ADOLESCÊNCIA E VIOLÊNCIA - CESARE F. LA ROCA - COM GABARITO

 Notícia: Adolescência e Violência

            Cesare F. La Roca

        A expressão “violência” possui a mesma raiz do verbo “violar”. Qualquer manifestação de violência encerra em si o ato da violência encerra em si o ato da violação do direito de alguém. Ao observador atento não fogem as afinidades e as semelhanças que interligam os conceitos de violação, violência, transgressão.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg8HAYUQiO0zfwonDBs2Oge6fPfnGi3sAfyoDtyrUGN_nkapQqfkar3ijUNuRt5WEJsASwu7m4M7k8Yyjn8jAzaD8OX43fVFJ7LPCMwTkSco-znzmD28FlfUQEbgJnVGQfxg4fnFIaRYsAAwblCFCO0pdD_j84SX4enJK33xWNvm5gt6b1G2onvZgINUW4/s1600/VIOL%C3%8ANCIA.jpg


        Os estudiosos da adolescência observam que uma das características dessa estação da vida do ser humano é exatamente uma permanente tendência à transgressão, tendência a ir além da norma, além do limite representado pelo outro.

        Transgressão é sempre transgressão do outro, que representa o obstáculo para a realização do desejo do adolescente. E, muitas vezes, o ato de transgredir é um ato violento. Ou seja, requer o uso da força para que o obstáculo possa ser superado.

        Quando o adolescente encontra na família, na escola, na comunidade, um ambiente de compreensão que, longe de excluí-lo e marginalizá-lo, o inclui, mesmo na colocação gradativa de limites, ele consegue gerir sua tendência à transgressão e à violência. Ternura e firmeza são os dois polos entre os quais deve fluir o processo educativo do adolescente.

        Agora, a pergunta dramática: e o adolescente excluído? Ele pertence a uma família por sua vez vítima de exclusão. Foi expulso de uma escola incompetente que o rotulou de incapaz. Vive numa comunidade destituída em seus direitos fundamentais e que funciona como uma imensa incubadeira de violência, de ressentimento e de revolta.

        Longe de justificar os atos de violência dos filhos da pobreza e de fechar os olhos sobre a dor das vítimas e seus familiares, sinto porém o dever de alertar para que não se caia no outro extremo de criminalizar a miséria. O Estatuto da Criança e do Adolescente, tão desconhecido e por isso tão maltratado, prevê medidas socioeducativas para o adolescente autor de atos violentos e infracionais. A mais grave, para os atos mais graves, é a privação de liberdade. Portanto, não existe impunidade para o adolescente autor de violência. O que existe, por ser tratar de um ser em formação, é a “inimputabilidade”. Ele é punido, sim, e para os atos mais graves, como já dissemos, é retirado do convívio social para ser submetido a um processo socioeducativo em estruturas e com profissionais adequados. O adolescente infrator é privado do direito de viver em liberdade.

        Do outro lado, a questão da violência juvenil não pode ser encarada exclusivamente do ângulo da repressão. Sem diminuir em nada a responsabilidade do autor da violência, mesmo que seja um adolescente das camadas populares, é preciso que os Poderes Públicos aliem-se à sociedade civil para que a educação para a cidadania, a ética e os direitos humanos seja levada a efeito em todos os segmentos da sociedade, notadamente a infância e a adolescência.

        Reforço, aparelhamento, formação das polícias, como também policiamento ostensivo no centro e nas periferias das cidades, são mecanismos indispensáveis para a preservação e o controle da violência. Mas deve ficar muito claro que a violência juvenil é muito menos uma questão de polícia e muito mais uma questão de políticas. Ou seja, a solução desta questão passa necessariamente pelo fortalecimento das políticas públicas básicas, especialmente Educação e Saúde.

        Não se pode exigir de quem vive sua juventude sob o signo da exclusão uma atitude de permanente submissão e conformação. É evidente que o caminho não é o da violência e da desordem e sim da reivindicação dos direitos da cidadania. As crianças, os adolescentes, os jovens deste País devem sentir que seus governantes e a sociedade em que estão inseridos reconhecem, não apenas através de inócuas e românticas declarações de intenções, mas através da elaboração e implementação de políticas públicas, que eles são a parte mais preciosa de uma nação e que cidadania, ética, direitos humanos são os novos nomes da civilização.

        Do contrário, será o império da barbárie.

Cesare F. La Roca, advogado, diretor do Projeto Axé de Defesa e Proteção à Criança e ao Adolescente. Pais&Teens, nov./dez./jan. 1996/97.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, Vol. Único. William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. Ensino Médio, 1ª ed. 4ª reimpressão – São Paulo: ed. Atual, 2003. p. 474-475.

Entendendo a notícia:

01 – Qual é a relação entre violência, violação e transgressão, segundo o autor?

      O autor argumenta que a violência é uma forma de violação do direito de alguém. A transgressão, comum na adolescência, muitas vezes envolve a violação do limite imposto pelo outro, podendo se tornar um ato violento quando requer o uso da força para superar obstáculos.

02 – Como o ambiente familiar, escolar e comunitário influencia a tendência à transgressão e à violência na adolescência?

      Quando o adolescente encontra compreensão e inclusão nesses ambientes, mesmo com a necessária colocação de limites, ele consegue lidar com sua tendência à transgressão e à violência de forma mais saudável. A falta desse acolhimento pode levar à exclusão e marginalização, intensificando tais tendências.

03 – O que o autor quer dizer com a pergunta dramática sobre o adolescente excluído?

      O autor levanta a questão do adolescente que é excluído pela família, pela escola e pela comunidade, que por sua vez também são vítimas de exclusão. Ele busca alertar para a complexidade da situação, sem justificar a violência, mas sim buscando entender suas causas.

04 – O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê alguma medida para adolescentes autores de atos violentos?

      Sim, o ECA prevê medidas socioeducativas, incluindo a privação de liberdade para atos mais graves. O objetivo é punir o adolescente infrator, mas também oferecer um processo socioeducativo adequado para sua formação.

05 – Qual a importância de aliar repressão com políticas públicas na questão da violência juvenil?

      O autor defende que a violência juvenil não pode ser encarada apenas sob o ângulo da repressão. É fundamental que os Poderes Públicos, em conjunto com a sociedade civil, invistam em educação para a cidadania, ética e direitos humanos, como forma de prevenir a violência.

06 – Qual o papel da polícia no controle da violência juvenil?

      O autor reconhece a importância do trabalho da polícia no reforço, aparelhamento e formação dos policiais, além do policiamento ostensivo. No entanto, ele ressalta que a violência juvenil é muito mais uma questão de políticas públicas básicas, como Educação e Saúde, do que de polícia.

07 – Qual a mensagem principal do autor sobre a juventude e a violência?

      O autor apela para que a sociedade e os governantes reconheçam a importância da juventude e invistam em políticas públicas que garantam seus direitos. Ele adverte que a falta de oportunidades e o sentimento de exclusão podem levar à violência e à barbárie.

 

CONTO: TRAGÉDIA CARIOCA - RAQUEL DE QUEIROZ - COM GABARITO

 Conto: TRAGÉDIA CARIOCA

              Raquel de Queiroz

        A menina vestia calças compridas e um casacão de malha, informe, de mangas arregaçadas. Sentou-se no sofá, cruzou as pernas longas, pediu licença para se servir um dos meus cigarros. O nariz arrebitado, a pele borrifada de sardas, o cabelo curto de rapazinho dão-lhe um ar de grande imaturidade – quinze, dezesseis anos não mais. Ela diz que tem dezessete e está grávida. Meu Deus, como é que estão casando meninas assim tão novas? Mas olhando a mão esquerda da moça, não lhe vejo aliança. E, antes que eu possa fazer qualquer pergunta, ela é que vai explicando:

        -- A senhora já ouviu falar em transviada? Pois está aqui uma. Pelo menos até o carnaval deste ano eu era das péssimas. Doida por garupa de lambreta, anarquia em inferninho, cuba livre, bolinha, camisa de homem...

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi6LVPchTAubqjAtOPJ55K5Zah10XLv8mWJbnVIEAP1Ia49z7GxHnH7W1K3AyjK8SA7WjSRH06BtR45uNKQ63I4QnZfTLO0XsbD72phL-28UsTTQRvK9yqAnlRGkTFtKtLmpMbUYURyp8c3PPqVG73A2umVFzwVQtKE5T8xELGXcJBoMNiq8wa2NLRNRjg/s320/LAMBRETA.jpg


        Meteu-se com uma turma forte que o pessoal do quarteirão chamava o “jardim-de-infância”... mas cada jardim-de-infância! Depois, fez par com um garoto da idade dela, um cretininho de cabeça de peruca, dizia que tinha vindo dos Estados Unidos mas nem falar inglês não sabia, só dizer “oh boy let’s go, golly”, essas besteiras, inglês mesmo de conversar com americano ele não pesca tusta. E nem lambreta dele mesmo tinha, era emprestada; bem, propriamente emprestada não, de condomínio; todo o grupo pagava um rateio e cada um tinha o seu horário de usar a máquina. O dele caía de tarde, na hora do rush, quando Copacabana fica infecta pra lambreta, então procuravam esses lugares mais desertos onde se pode dar uma chispada. E a gente andando assim os dois sozinhos, às vezes encosta a máquina, tem cada lugar lindo de floresta e montanha, não é mesmo? Este Rio de Janeiro não é à toa que se chama Cidade Maravilhosa. E depois com essa balda de geração em revolta, educação sexual, ninguém se lembra que pode vir criança. Pois foi logo o que apareceu.

        -- O povo lá em casa recebeu como se fosse o fim do mundo – quero dizer minha mãe porque a irmã não liga mesmo e pai não tenho mais. agora me diga, a gente é mulher, e para uma mulher ter um filho é fim de mundo? Minha mãe foi logo avisar ao pai dele que ia dar queixa na polícia, mas o pai dele tem um irmão que trabalha no Fórum e ele explicou para minha mãe que se nós déssemos queixa do garoto eles davam queixa de mim – que ele também sendo menor o crime é recíproco. A senhora sabia que nesses casos tem crime recíproco? Pois é.

        Aí minha mãe ficou com medo, quem sabe me mandavam para o presídio, aquele em que botam as moças-mães do SAM, que saiu a reportagem na revista, uma coisa pavorosa. O garoto diz que não precisa fazer show, que ele casa e pronto. Isso ele queria! Mas eu que não quero. Que é que eu ganho casando com aquele boboca? A senhora me diga, eu posso ter algum futuro? O cara ainda não fez nem dezoito, se sabe ler esconde, quanto mais ganhar a vida direitinho, está bem? Eu quero ser aeromoça ou modelo, mas casada não posso ser nada disso, em qualquer dessas profissões não permite casamento. A senhora me vendo agora não diz, mas tenho mesmo todas as medidas de manequim – altura 1,68, cintura 56, 80 de quadril e 81 de busto. Já disse pra minha mãe aguentar a mão até a criança nascer, depois a gente resolve. E ela aí me enche de tapa, diz que estou completamente perdida, que aquele cara ou casa comigo ou casa com o juiz de menores. Imagine tanta loucura!

        Sei que a senhora não tem nada com isso, mas não podia dar um conselho? Não falo pra mim, mas para minha mãe, que ela disse que ia telefonar à senhora, pedindo para botar uma reportagem contando como é que está sendo esse caso de mocidade transviada e que a filha dela é uma vítima da dissolução da família. Mas o que ela quer mesmo é o casamento, e eu já disse pra ela que se fizer o casamento vai ver – tem que sustentar a mim, à criança e ao mustafá do genro. Louco pra isso está mesmo ele! Eu, hein?

        Mas minha mãe diz que prefere, contanto que eu fique com o nome limpo. A senhora acha que ser esposa de um tipinho cafajeste daqueles é ter nome limpo? Ah, eu não entendo a minha mãe! Parece uma criança, o que o pessoal diz pra ela logo ela acredita.

        Eu vim na frente pra pedir à senhora que explique a ela, porque eu dizer não adianta. Que esse negócio de casar pro bem da honra foi no tempo do Dom João Charuto. Ela aguenta a mão agora, depois eu fico emancipada, e se a profissão de modelo não der certo sempre posso tentar o rebolado.

        E, por favor, não bote essa reportagem que ela quer, a turma até pode achar ruim, desacatar a velha, eles são loucos – imagina se acontece aí um acidente, atropelam a minha mãe, quero ver se eu tenho a culpa!

        Ai, quanto problema nesta vida, a senhora vê, eu estou só com dezessete anos, mas me parece que já vivi foi uns cento e sete! E com essa mãe que eu tenho – me dá licença pra tirar outro cigarro?

In: A palavra é... mulher. São Paulo: Scipione, 1990, p. 86-89.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, Vol. Único. William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. Ensino Médio, 1ª ed. 4ª reimpressão – São Paulo: ed. Atual, 2003. p. 397-398.

Entendendo o conto:

01 – Qual é o tema central do conto?

      O conto aborda a gravidez precoce e suas consequências na vida de uma jovem carioca de 17 anos. Através da narrativa da personagem principal, o texto discute temas como a irresponsabilidade dos jovens, a falta de educação sexual, a dissolução familiar e a busca por soluções para os problemas decorrentes da gravidez.

02 – Quem é a personagem principal do conto?

      A personagem principal é uma jovem de 17 anos que engravida após se envolver com um rapaz irresponsável. Ela é descrita como uma menina com aparência imatura, mas que demonstra ter uma visão pragmática da situação.

03 – Qual é o conflito central do conto?

      O conflito central do conto é a decisão da jovem sobre o que fazer com a gravidez. Ela se recusa a casar com o pai da criança, pois não acredita que ele tenha condições de sustentar a família. Ao mesmo tempo, ela enfrenta a pressão da mãe para se casar e "limpar seu nome".

04 – Quais são os principais personagens do conto, além da protagonista?

      Mãe da jovem: Uma mulher preocupada com a reputação da filha e que pressiona-a para se casar.

      Pai do bebê: Um rapaz irresponsável que não tem condições de sustentar a família.

      Irmã da jovem: Uma pessoa que não se importa com a situação da irmã.

      Pai da jovem: Já falecido.

      Pai do rapaz: Um homem influente que tenta evitar que o filho seja processado.

      Irmão do pai do rapaz: Um advogado que ajuda o pai do bebê a evitar o processo.

05 – Qual é o papel da mãe da jovem no conto?

      A mãe da jovem representa a figura materna tradicional, preocupada com a honra da família e com o que os outros vão pensar. Ela pressiona a filha para se casar, mesmo que isso signifique se unir a um homem irresponsável e sem futuro.

06 – Qual é a crítica social presente no conto?

      O conto faz uma crítica social à falta de educação sexual e à irresponsabilidade dos jovens, que muitas vezes não têm consciência das consequências de seus atos. Além disso, o texto também critica a pressão social para que as jovens se casem, mesmo que não queiram, apenas para "limpar seus nomes".

07 – Qual é o desfecho do conto?

      O conto termina sem um desfecho definitivo. A jovem decide esperar o bebê nascer para tomar uma decisão sobre o que fazer. Ela demonstra ter uma visão pragmática da situação e não se deixa levar pela pressão da mãe para se casar. O futuro da jovem e do bebê fica em aberto, deixando o leitor com uma reflexão sobre os desafios da maternidade precoce.

 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

ROMANCE: SOLFIERI - CAP. II - (FRAGMENTO) - ÁLVARES DE AZEVEDO - COM GABARITO

 Romance: Solfieri cap. II – Fragmento

                  Álvares de Azevedo

        Sabei-o. Roma e a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio a convulsão do amor, o beijo lascivo a embriaguez da crença!

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhWD5z9kCpm3FTDKM_-RsSzLHYyOUDLfZzLBJ4IGcXnyaDH6DSqs49fOzeDjy3sdKIkBZ2VboieGKvRRlkly2PH_VpHe4APmwf632pzQ3iggBg4xHS-qkb20vFwJOVZKp2BlY21PnTzvyhYk5NJlF3N6xmMbTwIeu4jBfPQPA_JUquqFl65OptRs1DBNss/s320/1867-solfieri-e-o-casarao-sombrio-1080.jpg


        Era em Roma. [...]. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de... As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se fazias ermas, e a lua de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. A face daquela mulher era como a de uma estátua pálida a lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.

        Eu me encostei a aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela... e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do vento a noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.

        Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas. Não viu ninguém: saiu. Eu segui-a.

        [...]

        Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estávamos num campo.

        Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.

        Não sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo a criatura pálida não fora uma ilusão; as urzes, as cicutas do campo-santo estavam quebradas junto a uma cruz.

        O frio da noite, aquele sono dormido a chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo...

        Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono da saciedade me vinha aquela visão...

        Uma noite, e após uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa Barbara. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia volutuosa do amor. Saí. Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: aos lábios daquela criatura eu bebera até a última gota o vinho do deleite...

        Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal apertados... Era uma defunta! ... e aqueles traços todos me lembraram uma ideia perdida... Era o anjo do cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo. [...]. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela como o noivo os despe a noiva. [...]. O gozo foi fervoroso — cevei em perdição aquela vigília. A madrugada passava já frouxa nas janelas. Àquele calor de meu peito, a febre de meus lábios, a convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos empanados [...]. Não era já a morte; era um desmaio. [...]

        [...] Nunca ouvistes falar da catalepsia? E um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que se sentem os membros tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas alheias, sem poder revelar a vida!

        A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário como uma criança. Ao aproximar-me da porta topei num corpo, abaixei-me, olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja que aí dormia de ébrio, esquecido de fechar a porta...

        [...]

        Caminhei. Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo: e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço...

        [...] Dois dias e duas noites levou ela de febre assim... Não houve sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.

        A noite saí; fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera, e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.

        Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto, e com as mãos cavei aí um túmulo. Tomei-a então pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito muda e fria, beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o lençol de seu leito. Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele.

        Um ano — noite a noite — dormi sobre as lajes que a cobriam... Um dia o estatuário me trouxe a sua obra. Peguei-lha e paguei o segredo...

        — Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te respondi que era uma virgem que dormia?

        — E quem era essa mulher, Solfieri?

        — Quem era? seu nome?

        — Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho queima assaz os lábios? Quem pergunta o nome da prostituta com quem dormiu e sentiu morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?

        Solfieri encheu uma taça e Bebeu-a. Ia erguer-se da mesa quando um dos convivas tomou-o pelo braço.

        — Solfieri, não é um conto isso tudo?

        — Pelo inferno que não! Por meu pai que era conde e bandido, por minha mãe que era a bela Messalina das ruas, pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vo-lo juro! — guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. Ei-la!

        Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.

        — Vede-a? Murcha e seca como o crânio dela!

Noite na taverna, São Paulo: Martins, 1965, p. 39.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, Vol. Único. William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. Ensino Médio, 1ª ed. 4ª reimpressão – São Paulo: ed. Atual, 2003. p. 227-228.

Entendendo o romance:

01 – Qual é o cenário inicial do fragmento e o que ele revela sobre a atmosfera da narrativa?

      O cenário inicial é Roma, descrita como uma cidade de "fanatismo e perdição", onde a religião e a libertinagem se misturam. Essa descrição estabelece uma atmosfera de mistério, pecado e erotismo, que permeia toda a narrativa.

02 – Quem é o narrador do fragmento e qual é sua relação com os acontecimentos narrados?

      O narrador é Solfieri, um personagem que relata suas próprias experiências em Roma. Ele se apresenta como um homem atormentado por fantasmas do passado, buscando redenção ou expiação através de sua narrativa.

03 – Qual é a primeira visão que Solfieri tem da mulher misteriosa e o que essa visão evoca?

      Solfieri avista uma mulher pálida e solitária em uma janela, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Essa visão evoca mistério, melancolia e sofrimento, despertando a curiosidade do narrador.

04 – O que acontece quando Solfieri segue a mulher misteriosa pelas ruas de Roma?

      Solfieri segue a mulher até um cemitério, onde ela se ajoelha e parece soluçar. Ele tem um sono misterioso e, ao acordar, encontra sinais de que a mulher esteve ali, mas ela desapareceu.

05 – Qual é o efeito que o encontro com a mulher misteriosa tem sobre Solfieri?

      O encontro com a mulher misteriosa deixa Solfieri perturbado e febril. Ele é atormentado por lembranças e delírios, nos quais a imagem da mulher se mistura com um canto melancólico.

06 – O que Solfieri faz um ano após seu encontro com a mulher misteriosa?

      Um ano depois, Solfieri retorna a Roma e se entrega a uma vida de libertinagem, buscando em vão saciar o vazio que sente. Ele se envolve com a condessa Barbara, mas nem mesmo os prazeres carnais conseguem apagar a imagem da mulher misteriosa de sua memória.

07 – O que acontece quando Solfieri encontra um cadáver em uma igreja?

      Após uma noite de orgia, Solfieri encontra o cadáver de uma jovem em uma igreja. Ele tem a impressão de reconhecer a mulher misteriosa do cemitério e, em um momento de delírio, remove o corpo do caixão e o leva para seu quarto.

08 – Qual é a reação de Solfieri ao perceber que a mulher não está morta, mas sim em estado de catalepsia?

      Ao perceber que a mulher está viva, Solfieri a leva para seu quarto e cuida dela até que ela se recupere. Ele demonstra um misto de obsessão, amor e arrependimento, revelando a complexidade de seus sentimentos.

09 – O que acontece com a mulher após ser levada para o quarto de Solfieri?

      A mulher tem um período de delírio e febre, durante o qual Solfieri cuida dela. No entanto, ela não resiste e acaba morrendo. Solfieri, então, manda fazer uma estátua de cera da mulher e a coloca em um túmulo que ele mesmo cava em seu quarto.

10 – Qual é a revelação final de Solfieri sobre a mulher misteriosa?

      No final da narrativa, Solfieri revela que a mulher misteriosa era uma virgem que dormia e que ele a amava obsessivamente. Ele guarda a grinalda de flores da mulher como um amuleto, simbolizando seu amor e sua culpa.

 

POEMA: À BEM-AMADA - JORGE DE LIMA - COM GABARITO

 POEMA: À BEM-AMADA

               Jorge de Lima

Amada, não penses,

escutemos a chuva que o inverno chegou. 

Sejamos as árvores que Deus semeou 

sem nunca O ouvir, sem nunca O olhar 

serenos, morramos sem nos separar.

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Renunciemos, amada, os vãos pensamentos, 

cumpramos apenas a lei do Senhor 

sem nunca O ouvir, sem nunca O tocar, 

sem nunca duvidar, duvidar, duvidar.

 

Soframos, amada, sem nos lamentar. 

Sejamos as árvores que Deus esqueceu, 

que o vento abalou e o raio abateu.

 

Amada! Amada!

Bem-aventurado quem já morreu. 

Escutemos a chuva, 

que a chuva é de Deus!

LIMA, Jorge de. Poemas Negros. Rio de Janeiro: Alfaguará, 2016, p. 158.

Entendendo o poema:

01 – Qual é o tema central do poema "À Bem-Amada"?

      O poema reflete sobre a aceitação do destino e a entrega à vontade divina, mesmo diante do sofrimento e da incerteza. Através da metáfora das árvores, o poeta expressa a ideia de uma existência passiva e resignada, que se cumpre sem questionamentos.

02 – Qual o significado da repetição do verso "sem nunca O ouvir, sem nunca O olhar"?

      A repetição enfatiza a ideia de uma fé cega, desprovida de contato ou compreensão. As árvores, que servem de metáfora para o casal, representam a crença sem questionamentos, a aceitação do destino sem a necessidade de entender os desígnios divinos.

03 – Que papel a natureza desempenha no poema?

      A natureza, representada pela chuva, pelas árvores, pelo vento e pelo raio, assume um papel central no poema. Ela simboliza tanto a força implacável do destino quanto a presença divina. A chuva, em particular, é vista como uma manifestação de Deus.

04 – Qual a importância da figura da "Bem-Amada" no poema?

      A "Bem-Amada" é a interlocutora do poeta, a quem ele dirige suas reflexões sobre a vida, a fé e o sofrimento. Ela representa a companheira ideal para compartilhar a jornada de aceitação e entrega ao destino.

05 – Qual o tom geral do poema "À Bem-Amada"?

      O poema possui um tom de resignação e entrega. O poeta convida a amada a aceitar o destino com serenidade, sem lamentações, assim como as árvores que "morrem sem se separar". Há, no entanto, um vislumbre de esperança na crença de que a chuva é uma manifestação divina.