terça-feira, 23 de outubro de 2018

POEMA: OS ESTATUTOS DO HOMEM - THIAGO DE MELLO - COM GABARITO

Poema: Os Estatutos do Homem 
              Thiago de Mello
         
 (Ato Institucional Permanente) 

Artigo I 
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
Como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não pode dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem. 
                            Thiago de Mello, Santiago do Chile, abril de 1964.
Entendendo o poema:

01 – A última estrofe do poema, a respeito da linguagem usada no fragmento citado é correto afirmar que:
I – Predomina a linguagem coloquial para que o texto se torne claro e objetivo.
II – Trata-se de uma linguagem técnica já que o poeta faz uma alusão à Declaração Universal dos Direitos Humanos.
III – O autor aproveita poeticamente o formato e a linguagem do texto normativo para escrever o seu poema.
        Está(ão) correta(s) apena(s) a(s) afirmativa(s).
a)   I e II.
b)   III.
c)   II.
d)   I.
e)   I, II e III.

02 – Os versos presentes no artigo X nos chamam a atenção para um grande problema que aflige a sociedade: a violência. Assim, considerando que “uso do traje branco” representa, sobretudo, o culto pela paz, por que você acha que ela está sendo tão difícil de ser conquistada nos dias atuais?
      Por muitos motivos. O grande desafio das pessoas hoje é encontrar um modo pacífico de conviver. A vida em sociedade torna-se cada vez mais difícil, onde os conflitos e as intrigas marcam sua presença, não permitindo que a paz social seja alcançada. O grande problema é que as pessoas não se respeitam, mas procuram derrubar-se entre si, através do sentimento de inveja que se lança sobre aqueles que são ou possuem mais.

03 – Gradação é a distribuição progressiva de uma série de elementos, em ordem ascendente ou em ordem descendente. Thiago de Mello utiliza, no texto, esse recurso em: fica decretado, estabelecido, permitido, proibido.
      Assinale abaixo a única alternativa que NÃO apresenta gradação.

    a)   Um homem se humilha / Se castram seu sonho / Seu sonho é sua vida / E vida é trabalho... / E sem o seu trabalho / O homem não tem honra / E sem a sua honra / se morre, se mata (...) Gonzaquinha.
b)   Tudo começou no meu quarto, onde concebi as ideias que me levariam a dominar o mundo.
c)   Amou daquela vez como se fosse a última / Beijou sua mulher como se fosse a última / E cada filho seu como se fosse o único / E atravessou a rua com seu passo tímido.
d)   Meu caro, para mim, você é um simples roedor. Que digo? Um verme (...) menos que isso. Uma bactéria! Um vírus! (...)
e)   O primeiro milhão possuído excita, acirra, assanha águia do milionário. Olavo Bilac.

04 – Podemos afirmar que há comunicação entre O Estatuto do Homem e outros textos, ou seja, intertexto.
Assinale a alternativa em que fica claro esse diálogo.
a)   Fica estabelecida, durante dez séculos, / A prática sonhada pelo profeta Isaías, / E o lobo e o cordeiro pastarão juntos / E a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
b)   Fica proibido o usa da palavra liberdade, / A qual será suprimida dos dicionários / E do pântano enganoso das bocas.
c)   Fica decretado que o dinheiro / Não poderá nunca mais comprar / O sol das manhãs vindouras.
d)   Fica decretado que os homens / Estão livres do jugo da mentira. / Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio.
e)   Fica decretado que o homem / Não precisará nunca mais / Duvidar do homem.

05 – Em relação ao poema, assinale a opção INCORRETA:
a)   Nos versos apresentados pelo Artigo I, o poeta faz uma alusão aos versos: O presente é tão grande, não nos afastemos. / Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas, escritos por Carlos Drummond.
b)   Ainda enfatizando o Artigo I, pode-se dizer que a vida verdadeira é aquela em que há fraternidade, solidariedade e identidade de ideias.
c)   Ao longo dos versos, o poeta utiliza a linguagem predominantemente conotativa, expressando-a por meio de figuras de linguagem, entre as quais podemos perceber algumas, como a metáfora, a prosopopeia e a metonímia.
d)   No primeiro verso do Artigo Final, o autor proíbe o uso da palavra liberdade, fato que contraria o decreto do Artigo V. Todavia, após a leitura dos demais versos da estrofe, ocorre bem o contrário. O poeta alega que a palavra estava apenas na boca dos homens, mas não no coração. Para ele, a vivência da liberdade deve ser concreta e não abstrata, assim como os elementos da natureza são concretos.
e)   A palavra estatutos, título do poema, reporta-nos a um conjunto de regras que deveria nortear a vida do homem e, além disso, alguns termos, como Artigo, Parágrafo único, fica decretado, remetem-nos aos textos legais.

06 – Leia o trecho do poema, e responda às perguntas:
“Artigo Final o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.”

a)   A estrofe acima expressa uma posição contrária à liberdade?
Não, a estrofe acima não expressa uma posição contrária à liberdade. Ela reafirma a necessidade de que a liberdade seja mais que um simples conceito, que uma garantia legal abstrata e vazia, e que passe a ser algo que seja efetivamente presente, experienciado, vivido, pelos próprios sujeitos.

b)   Explique qual é a relação entre esse poema e a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
A estrofe, se relaciona com a Declaração Universal dos Direitos Humanos na medida em que cria uma “cláusula” que serve para todas as pessoas, garantindo para todo sujeito um direito básico e inalienável: o direito a experienciar a liberdade, viver sem ser oprimido.

07 – Que significa Estatuto?
      É uma lei orgânica que expressa formalmente os princípios que regem a organização de um Estado, Sociedade ou Associação; conjunto de normas; código ou regulamento que tem valor de lei ou norma.

08 – Nos versos: “Fica decretado que os homens / Estão livres do jugo da mentira”, o sentido figurado da palavra destacada “jugo” só não está correto em:
a)   Força.
b)   Submissão.
c)   Obediência.
d)   Opressão.
e)   Sujeição.




PARÁBOLA: RETRATAR A PAZ - COM QUESTÕES GABARITADAS

Parábola: Retratar a paz


        Um rei queria adquirir para o seu palácio um quadro que representasse a paz. Para isso, convocou artistas de diversas partes do mundo e lançou um concurso por meio do qual seria escolhido o tal quadro e premiado o seu autor.
        Logo começaram a chegar ao palácio quadros de todo tipo. Uns retratavam a paz através de lindas paisagens com jardins, praias e florestas; outros a representavam através de arco-íris, alvoradas e crepúsculos.
        O rei analisou todos os quadros e parou diante de um que retratava uma forte tempestade com nuvens pesadas, redemoinhos de ventos e uma árvore arqueada abrigando, dentro de seu tronco, um pássaro que dormia tranquilamente.
        Diante de todos os participantes do concurso, o rei declarou aquele quadro da tempestade o vencedor do concurso. Todos ficaram surpresos, e alguém protestou dizendo:
        -- Mas... Majestade! Esse quadro parece ser o único que não retrata a paz!
        Nesse momento o rei respondeu com toda a convicção:
        -- O pássaro dorme tranquilamente dentro do tronco apesar da tempestade lá fora. Esta é a maior paz que se pode ter: a paz interior.
        Paz não é a ausência de agitação no ambiente em que vivemos, mas o estado de tranquilidade interior que cultivamos diante das tempestades da vida.
Maria Salete A. Silva, Wilma Ruggeri, Jota Lima.
Para que minha família se transforme.
Título original: Mantenha sempre a calma. p.75
Campinas, SP: Verus Editora. 4ªed. 2003.
Entendendo a parábola:
01 – Do que fala o texto?
      O texto fala de como ter paz na vida.

02 – Para que o rei promoveu o concurso?
      Para adquirir um quadro que representasse a paz.

03 – Quais os tipos de quadros que mais apareceram no concurso?
·        Retratavam a paz através de lindas paisagens com jardins, praias e florestas.
·        Representavam através de arco-íris, alvoras e crepúsculos.
·        Representava uma forte tempestade com nuvens pesadas, redemoinhos de ventos.

04 – Como era o quadro escolhido pelo rei?
      Retratava uma forte tempestade com nuvens pesadas, redemoinhos de ventos e uma árvore arqueada abrigando, dentro de seu tronco, um pássaro que dormia tranquilamente.

05 – Por que alguns protestaram com a escolha do rei?
      Porque no quadro não tinha pinturas de cores e alegrias.

06 – Como os autores definem paz ao final do texto?
      Paz não é a ausência de agitação no ambiente em que vivemos, mas o estado de tranquilidade interior que cultivamos diante das tempestades da vida.

07 – O texto confirmou as nossas hipóteses sobre o retrato da paz? Comente.
      Sim. Pela paz e tranquilidade que aquele pássaro dormia, sem se preocupar com a tempestade.

08 – É possível, entender a paz desta maneira apresentada pela parábola? Explique.
      Sim. Porque mostra que a paz está dentro de cada um de nós.

09 – Como você define a paz? Depois da leitura do texto, mantém a mesma definição de antes dele?
      Resposta pessoal do aluno.

10 – Você já participou de algum concurso? Em que ele se pareceu com o do texto?
      Resposta pessoal do aluno.

11 – Você já visitou um palácio ou já viu um pela televisão? Como era?
      Resposta pessoal do aluno.

12 – Que situações da vida você considera tempestuosas?
      Resposta pessoal do aluno.

13 – A tranquilidade diante dos problemas ajuda as pessoas a viverem melhor? Justifique.
      Sim. Somente com tranquilidade é que conseguiremos resolver os problemas e vivermos melhor.

14 – Você vive ou já viveu alguma situação que tirou a sua paz? Como você age ou agiu?
      Resposta pessoal do aluno.

15 – Marque X nas afirmativas corretas sobre o texto.
(X) O rei queria um quadro que representasse a paz para colocar em seu palácio.
(X) A maioria das pessoas tentou representar a paz com paisagens, arco-íris, alvoradas e crepúsculos.
(X) O dono do quadro escolhido receberia um prêmio por isso.
(  ) Todas as pessoas concordaram com a escolha que o rei fez sem questionar, pois ele escolheu bem.
(X) O rei convocou para o concurso do quadro, artistas de todas as partes do mundo.
(X) O quadro escolhido retratava uma tempestade.
(X) O rei valorizou na escolha do quadro a paz interior que se podia perceber no pássaro que dormia.

16 – Segundo o texto, o que é paz?
      É a tranquilidade interior das pessoas. Esta é a maior paz que se pode ter.      


       

FÁBULA: O LENHADOR E A RAPOSA - ESOPO - COM QUESTÕES GABARITADAS

Fábula: O LENHADOR E A RAPOSA 
              ESOPO


        Um lenhador acordava todos os dias às 6 horas da manhã e trabalhava o dia inteiro cortando lenha, só parando tarde da noite. Ele tinha um filho lindo de poucos meses e uma raposa, sua amiga, tratada como bichano de estimação e de sua total confiança. Todos os dias, o lenhador — que era viúvo — ia trabalhar e deixava a raposa cuidando do bebê. Ao anoitecer, a raposa ficava feliz com a sua chegada.
        Sistematicamente, os vizinhos do lenhador alertavam que a raposa era um animal selvagem, e, portanto, não era confiável. Quando sentisse fome comeria a criança. O lenhador dizia que isso era uma grande bobagem, pois a raposa era sua amiga e jamais faria isso. Os vizinhos insistiam: Lenhador, abra os olhos! A raposa vai comer seu filho. Quando ela sentir fome vai devorar seu filho!
        Um dia, o lenhador, exausto do trabalho e cansado desses comentários, chegou à casa e viu a raposa sorrindo como sempre, com a boca totalmente ensanguentada. O lenhador suou frio e, sem pensar duas vezes, deu uma machadada na cabeça da raposa. A raposinha morreu instantaneamente.
        Desesperado, entrou correndo no quarto. Encontrou seu filho no berço, dormindo tranquilamente, e, ao lado do berço, uma enorme cobra morta.
        Moral da história: Nem sempre deve-se dar ouvido, ou seja, acreditar no que as pessoas dizem.
                                                                 Fábula ESOPO
Entendendo a fábula:

01 – Quem são os personagens da fábula?
      O lenhador, a raposa, o filho e os vizinhos.

02 – Qual era o argumento que os vizinhos insistiam em dizer ao lenhador?
      Lenhador, abra os olhos! A raposa vai comer seu filho. Quando ela sentir fome vai devorar seu filho.

03 – Assinale a alternativa correta:
(  ) O texto é uma narrativa em que o narrador participa da história.
(  ) O melhor amigo do lenhador era o vizinho que tomava conta do seu filho.   
(  ) Os vizinhos tinham confiança na raposa.
(X) A inveja dos vizinhos fizeram com que o lenhador atentasse contra a raposa.

04 – Como a raposa se sentia ao ver o lenhador chegando em casa?
      A raposa fica feliz com a sua chegada.

05 – O que os vizinhos diziam sempre ao lenhador? Responda com elementos do texto.
      Os vizinhos do lenhador alertavam que a raposa era um animal selvagem, e, portanto, não era confiável.     
 
06 – Nessa narrativa, os fatos são reais ou fictícios?
      Nesse texto o fato é real.

07 – Qual é o enredo na narrativa em estudo?
      Conta a história da raposa que cuidava da criança.

08 – Classifique o predicado das orações a seguir:
a) Um lenhador acordava todos os dias às 6 horas da manhã.
b) A raposa ficava feliz com a chegada do lenhador.
c) A raposa era um animal selvagem.
d) O lenhador chegou exausto do trabalho.

09 – Você concorda com a moral da história? Se NÃO, crie outra moral.
      Resposta pessoal do aluno.



CRÔNICA: MENINO DE CIDADE - PAULO MENDES CAMPOS - COM GABARITO

Crônica: Menino de cidade
                                           Paulo Mendes Campos

    -- Papai, você deixa eu ter um cabrito no meu sítio?
        -- Deixo.
  -- E porquinho-da-índia? E ariranha? E macaco? E quatro cachorros? E duzentas pombas? E um boi? Um rinoceronte?
        -- Rinoceronte não pode.
        -- Tá bem, mas cavalo pode, não pode?
        O sítio é apenas um terreno do estado do Rio, sem maiores perspectivas imediatas. Mas o garoto precisa acreditar no sítio, como outras pessoas precisam acreditar no céu. O céu dele é exatamente o da festa folclórica, a bicharada toda, e ele, que nasceu no Rio e, de má vontade, vive nessa cidade sem animais.
        Aliás, ele mesmo desmente que o Rio seja uma cidade sem bichos, possuindo o dom de descobri-los nos lugares mais inesperados. Se entra na casa de alguém, desaparece ao transpor a porta, para voltar depois de três segundos com um gato ou cachorro na mão. A gente vai andando por uma rua em Copacabana, ele some e ressurge com um pinto em flor. É chegar na Barra da Tijuca, e daí a cinco minutos, já apanhou um siri vivo.
        Localiza eletronicamente todos os animais da redondeza, anda pela rua em disparada, cumprimenta aqui um papagaio, ali um ganso, mais adiante um gato, incansável e frustrado.
        Não distingue marcas de automóvel, em futebol não vai além de Garrincha e Nilton Santos, mas sabe perfeitamente o que é um mastiff, um boxer, um doberman. Dá informações sobre as pessoas de acordo com os bichos que possuam: aquele é o dono do Malhado, aquela é a dona do Lord... Ao telefone, pergunta por patos, gatos, e outros cachorros, centenas, milhares de cachorros, cachorros que prefere aos companheiros, cachorros que o absorvem na rua, na escola, na hora das refeições, cachorros que costumam latir e pular em seus sonhos, cachorros mil.
        Sua literatura é rigorosamente especializada: livros coloridos sobre bichos. Engatinha mal e mal na leitura, mas fala com uma proficiência um pouco alarmante a respeito de répteis, batráquios etc. Filho de mãe inglesa, confunde forke knife, mas sabe o que é seal e walrus. Se pede um pedaço de papel é para desenhar a zebra ou a baleia.
        É claro que sua frustração causa pena. Por isso mesmo, há algum tempo, ganhou como consolo um canarinho-da-terra. Um dia, como lhe dissessem que iam dar o passarinho, caso continuasse a comportar-se mal, correu para a área e abriu a porta da gaiola.
        Deram-lhe um bicudo, mas o bicudo morreu de tanto alpiste. Ganhou, mais tarde, uma tartaruga, pequenina e estúpida, que recebeu na pia do banheiro o nome de Henriqueta. Nunca qualquer outro quelônio deu tanto serviço. Foi ao dentista na cidade, e, ao voltar, disse ao pai, pela primeira vez, uma palavra horrível: estou desesperado. Tinha perdido a tartaruguinha no lotação.
        Ficou o vazio em sua vida. O alívio era ligar o telefone interurbano para a avó e indagar pelos patos que “possuía” em outra cidade. Ou fazer uma visita à futura mãe de Poppy, este é um poodle que deverá nascer daqui a meio ano, prometido de pedra e cal para ele.
        Outro expediente: caçar borboletas, mariposas, grilos, alojar carinhosamente os insetos nas gaiolas vazias, chamar-lhes pelos nomes dos antigos bichos mortos ou desaparecidos.
        Um tio deu-lhe outra vez um canário, o carinho foi demais, o passarinho morreu. Não há nada a fazer, por enquanto, e ele dedicou-se à arte de desenhar bichos. De vez em quando, ainda se anima e entra em casa afogueado, mostrando alguma coisa invisível nas mãos: “Olha que estouro de grilo!”
        Mas os grilos e as borboletas legais morrem ou saem tranquilamente das gaiolas, e ei-lo novamente de mãos e alma vazias.
        Deu um jeito: arranjou alguns pires sem uso e plantou sementes de feijão. O banheiro está cheio de brotos verdes, tímidos. E ele já sabe que possui uma fazenda.
                  Fonte: Mello, M. A., org. 2003. Nossas palavras.
RJ, José Olympio.

Entendendo a crônica:
01 – O interesse do menino pelos animais é retratado logo nos primeiros parágrafos da crônica. O que, na fala do garoto, comprova esse fato?
        -- Papai, você deixa eu ter um cabrito no meu sítio?
        -- Deixo.
        -- E porquinho-da-índia? E ariranha? E macaco? E quatro cachorros? E duzentas pombas? E um boi? Um rinoceronte?
        -- Rinoceronte não pode.

02 – No sexto parágrafo, o narrador afirma que o sítio ao qual o menino se refere é apenas um terreno no estado do Rio de Janeiro.
a)   Levante hipótese: Por que o menino chama o terreno de sítio?
Porque gosta muito de animais e é um sonhador, tem muita imaginação.

b)   Para o narrador, “O garoto precisa acreditar no sítio, como outras pessoas precisam acreditar no céu”. Por que para o menino, o sítio é uma espécie de céu?
É algo que quer muito, por isso sonha com o sítio.

03 – Na crônica lida, o narrador além de relatar fatos, também expressa opiniões.
a)   De quem é a opinião sobre a inexistência de animais na cidade do Rio de Janeiro?
Do autor da crônica.

b)   O menino também tem sua opinião? Por quê?
Não. Porque acredita no sítio e sempre encontra algum animal para fazer companhia.

c)   No penúltimo parágrafo, que trecho expressa, nas palavras do narrador, o sentimento de frustração do menino por não conviver com animais?
“Mas os grilos e as borboletas legais morrem ou saem tranquilamente das gaiolas.”

04 – O narrador se empenha em mostrar a maneira como o garoto vê o mundo.
a)   Que conhecimento o menino tem sobre marcas de automóvel? E sobre raças de cachorro?
O menino não distingue marcas de automóvel, mas sabe perfeitamente o que é um mastiff, um boxer, um doberman.

b)   O menino se refere às pessoas como “o dono do Malhado”, “a dona do Lord”, etc. o que isso revela sobre os interesses dele?
Revela que ele se interessa pelos animais, por isso sabe o nome dos animais e não do dono.

05 – Embora o narrador não informe a idade do menino, é possível notar que se trata de uma criança em fase de aprendizagem de leitura e da escrita. Que elementos do texto comprovam esse dado sobre o garoto?
      Sua literatura é rigorosamente especializada: livros coloridos sobre bichos. “... Engatinha mal e mal na leitura.”

06 – Na realidade, o menino ganha alguns animais, sendo um deles um canarinho-da-terra.
a)   Na sua opinião, por que, diante da ameaça de que, se continuasse a se comportar mal, ia dar o passarinho, o menino resolve soltar a ave?
Ele preferiu dar a liberdade ao passarinho, do que vê-lo preso na gaiola em outra casa onde talvez as pessoas não cuidassem tão bem, como ele.

b)   De que maneira o menino trata os outros animais de estimação que ganha?
Ele dá tanto carinho que os animais morrem.

07 – O menino vive em uma grande cidade e, por isso, não convive com animais tanto quanto gostaria.
a)   Quem é Poppy?
Poppy é um poodle que deverá nascer daqui a meio ano, prometido de pedra e cal para ele.

b)   Que importância tem os insetos para o menino?
Ele adora caçar borboletas, mariposas, grilos e aloja-los nas gaiolas vazias, chamando-os pelos nomes dos antigos bichos mortos ou desaparecido.

c)   As tentativas do garoto de conviver com animais o deixam satisfeito? Por quê?
Não. Porque agora dedicou-se à arte de desenhar bichos.

08 – No final do texto, o menino começa a plantar semente de feijão. Segundo o narrador, os brotos verdes que enchem o banheiro o levam a sentir-se dono de uma “fazenda”.
a)   O que a fazenda de brotos de feijão representa para o menino?
Representa as plantações do sítio.

b)   Do início para o fim do texto, o principal desejo do menino se modifica? Justifique sua resposta.
Sim. A princípio se interessava por animais e no final por plantas.

c)   O título da crônica, “menino de cidade”, é compatível com as características do garoto e com o final da história? Por quê?
Sim, é compatível. A criança criada na idade cria a fantasia dos animais e até das plantações.




CONTO: A CRIATURA - LAURA BERGALLO - COM QUESTÕES GABARITADAS


Conto: A criatura

        A tempestade tornava a noite ainda mais escura e assustadora. Raios riscavam o céu de chumbo e a luz azulada dos relâmpagos iluminava o vale solitário, penetrando entre as árvores da floresta espessa. Os trovões retumbavam como súbitos tiros de canhão, interrompendo o silêncio do cenário [...].
        Alimentadas pela chuva insistente, as águas do rio começavam a subir e a invadir as margens, carregando tudo o que encontravam no caminho. Barrancos despencavam e árvores eram arrancadas pela força da correnteza, enquanto o rio se misturava ao resto como se tudo fosse uma coisa só. Mas algo... ou alguém... ainda resistia.
        Agarrado desesperadamente a um tronco grosso que as águas levavam rio abaixo, um garoto exausto e ferido lutava para se manter consciente e ter alguma chance de sobreviver. Volta e meia seus braços escorregavam e ele quase afundava, mas logo ganhava novas forças, erguia a cabeça e tentava inutilmente dirigir o tronco para uma das margens.
        De repente, no período de silêncio que se seguia a cada trovão, ele começou a ouvir um barulho inquietante, que ficava mais e mais próximo. Uma fumaça esquisita se erguia à frente, e ele então compreendeu: era uma cachoeira! [...]
        Num pulo desesperado, agarrou o ramo de uma árvore que ainda se mantinha de pé perto da margem e soltou o tronco flutuante, que seguiu seu caminho até a beira do precipício e nele mergulhou descontrolado.
        A tempestade prosseguia e cegava o garoto, o rio continuava seu curso feroz e a cachoeira rosnava bem perto de onde ele estava. De repente, percebeu que a distância entre uma das margens e o galho em que se pendurava talvez pudesse ser vencida com um pulo. Deu um jeito de se livrar da camisa molhada, que colava em seu corpo e tolhia seus movimentos. Respirou fundo para tomar coragem.
         Se errasse o pulo, seria engolido pela queda-d’água... mas, se acertasse, estaria a salvo. Viu que não tinha outra saída e resolveu tentar. Tomou impulso e [...] conseguiu alcançar a margem. [...]
        Ficou de pé meio vacilante e examinou o lugar em torno, tentando decidir para que lado ir. Foi quando ouviu um rugido horrível, que parecia vir de bem perto. Correu para o lado oposto, mas não foi longe. Logo se viu encurralado em frente a um penhasco gigantesco, que barrava sua passagem. O rugido se aproximava cada vez mais.
        Estava sem saída. De um lado, o penhasco intransponível; de outro, uma fera esfomeada que o cercava pronta para atacar. Então, viu um buraco no paredão de pedra e se meteu dentro dele com rapidez. A fera o seguiu até a entrada da caverna, mas foi surpreendida. Com uma pedra grande que achou na porta da gruta, o garoto golpeou a cabeça do animal com toda a força que pôde e a fera cambaleou até cair, desacordada.
        Já fora da caverna, ele examinou o penhasco que teria que atravessar antes que o bicho voltasse a si. [...]
        Foi quando uma águia enorme passou voando bem baixo e o garoto a agarrou pelos pés, alçando voo com ela. Vendo-se no ar, olhou para baixo, horrorizado. Se caísse, não ia sobrar pedaço. Segurou com firmeza as compridas garras do pássaro e atravessou para o outro lado do penhasco.
        O outro lado tinha um cenário muito diferente. Para começar, era dia, e o sol brilhava num céu sem nuvens sobre uma pista de corrida cheia de obstáculos, onde se posicionavam motocicletas devidamente montadas por pilotos de macacão e capacete, em posição de largada. Apenas em uma das motos não havia ninguém.
        A águia deu um voo rasante sobre a pista, e o garoto se soltou quando ela passava bem em cima da moto desocupada. Assim que ele caiu montado, foi dado o sinal de largada.
        As motos aceleraram ruidosamente e partiram em disparada, enfrentando obstáculos como rampas, buracos e lamaçais. O páreo era duro, mas a motocicleta do garoto era uma das mais velozes. Logo tomou a dianteira, seguida de perto por uma moto preta reluzente, conduzida por um piloto de aparência soturna. [...]
        Inclinando o corpo um pouco mais, o garoto conseguiu acelerar sua moto e aumentou a distância entre ele e o segundo colocado. Mas o piloto misterioso tinha uma carta na manga: num golpe rápido, fez sua moto chegar por trás e, com um movimento preciso, deu uma espécie de rasteira na moto do garoto.
        A motocicleta derrapou e caiu, rolando estrondosamente pelo chão da pista e levantando uma nuvem de poeira. O garoto rolou com ela e ambos se chocaram com violência contra uma montanha de terra, um dos últimos obstáculos antes da chegada.
        A moto negra ganhou a corrida, sob os aplausos da multidão excitada, e o garoto ficou desmaiado no chão.
        Com um sorriso vitorioso, Eugênio viu aparecer na tela as palavras FIM DE JOGO. Soltou o joystick e limpou na bermuda o suor da mão. [...]

Laura Bergallo. A criatura. São Paulo: SM, 2005. p. 37-44.
Entendendo o conto:

01 – Podemos classificar esse texto como:
a)   Uma narrativa de ficção.
b)   Uma narrativa de aventura.
c)   Uma descrição.
d)   Um conto.

02 – O personagem principal da história a quem também chamamos de protagonista é quem vivencia muitas aventuras. Em sua opinião, quem é o protagonista do texto acima? Explique.
      O menino que está jogando joystick.

03 – Qual é o foco narrativo apresentado no texto?
a)   Primeira pessoa.
b)   Terceira pessoa.

04 – Observe o trecho extraído do texto: “Num pulo desesperado, agarrou o ramo de uma árvore que ainda se mantinha de pé perto da margem e soltou o tronco flutuante, que seguiu seu caminho até a beira do precipício e nele mergulhou descontrolado...” Esse trecho apresenta narrador:
a)   Personagem.
b)   Observador.

05 – O texto apresenta dois cenários diferentes. Abaixo escreva (A) para descrições que representam o primeiro cenário e (B) para descrições que representam o segundo cenário.
(B) O piloto misterioso.
(A) A tempestade tornava a noite ainda mais escura e assustadora.
(B) O sol brilhava.
(A) Raios iluminavam os céus e a luz do relâmpago iluminava o vale.
(A) Garoto exausto e ferido lutava para se manter consciente.
(B) As motos enfrentavam obstáculos.

06 – Descreva o desfecho, ou seja, o fim da narrativa “A criatura”.
      O menino após viver aventuras vence o jogo.

07 – Assinale quais descrevem os problemas causados pela insistente chuva?
(X) As águas do rio começavam a subir e a invadir as margens.
(   ) Como não havia árvores, o terreno desmoronava e aumentava a erosão.
(   ) Doenças eram transmitidas para a população daquele local.
(X) Barrancos despencavam e árvores eram arrancadas pela força da correnteza.

08 – Releia: “De repente, no período de silêncio que se seguia a cada trovão, ele começou a ouvir um barulho inquietante, que ficava mais e mais próximo. Uma fumaça esquisita se erguia à frente, e ele então compreendeu: era uma cachoeira! [...]”
        Quais informações descritas no texto acima antecipam ao leitor que algo ameaçador se aproxima?
(   ) O barulho inquietante.
(   ) O animal horrível.
(X) A fumaça esquisita.
(   ) A cachoeira.

09 – No trecho “limpou na bermuda o suor da mão”, o autor quis passar ao leitor a impressão que o jogador estava:
(   ) com calor pelo dia quente.
(   ) tenso pelo jogo.
(   )preocupado com o fim do jogo..
(X) feliz pela vitória.

10 – Numere os acontecimentos na ordem que aconteceram na história.
(5) O animal foi golpeado na cabeça com toda força.
(6) A águia foi agarrada pelos pés.
(1) Era uma forte tempestade numa noite assustadora.
(4) Depois de um impulso, a margem foi alcançada.
(2) Agarrou-se num tronco grosso.
(7) Depois de dada a partida, todos aceleraram e enfrentaram obstáculos.
(3) Para fugir da queda, agarrou em um ramos de árvore que ainda estava em pé.

11 – Relacione cada palavra da primeira coluna com seu significado, na segunda coluna. Consulte o dicionário.
a – Intransponível.
b – Páreo.
c – Rasante.
d – Retumbar.
e – Ruidosamente.
f – Soturno.

(c) Voo muito próximo ao solo.
(a) Que não pode atravessar.
(d) Fazer eco.
(f) Assustador.
(b) Competição, disputa.
(e) Barulhento.