terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

CRÔNICA: MULHER DE SEGURAR NAVIO - FERNANDO SABINO - COM GABARITO

CRÔNICA: MULHER DE SEGURAR NAVIO

                     Fernando Sabino

                Prometi apanhá-lo com meu carro às duas e meia em ponto. Às três e quinze sai da estação de Saint Pancras o ônibus que o levará às docas de Londres. Ele embarca para Portugal hoje, com tod a família.

            Encontro-o já à porta do edifício onde mora, em Kensington, cercado de malas por todos os lados. Começo a rir, digo-lhe que desista: no meu carro não caberá tanta mala. Ele me olhou com um sorriso desalentado de quem acha que brincadeira tem hora. Com jeito  vai - assegura-me.

             Para começar, não sabe o que fazer com o embrulho quadrado e chato que tem na mão - um quadro que está levando de presente para o pai. Acaba deixando-o à porta do edifício, e, com minha ajuda, põe-se a transportar a bagagem para dentro do carro.

            Em pouco já não há quase espaço vazio: mala traseira, bancos, tudo abarrotado. E neste instante surge à porta sua jovem mulher, cmo sempre tranquila, repousada e repousante, com aquela suavidade das antigas mães de família, para quem tudo há de dar certo. Não se preocupem, que vamos todos aí dentro - assegura-nos, quando o marido já sugeria um táxi suplementar, difícil de se conseguir assim à última hora.

             Chegam agora a governanta e as duas crianças, que se multiplicam por três, correndo e brincando. Ele não perde tempo e vai tratando de enfiá-las no carro. Depois chega a vez dos adultos. Tira-se uma mala, entra um, ajeita-se, entra outro, todos se acomodam, agora é o carrinho da criança, a porta não se fecha. Sobrou uma mala, não têm importância, vai no colo - e ele desaparece a meu lado sob um imenso saco de viagem. Há nessa partida um vago ar de fita cômica que atrai a atenção do leiteiro junto ao caminhão, sorrindo do outro lado da rua. Mal consigo me mexer na direção, ao movimentar o carro. Mas estaremos na estação às três e quinze. Deus seja louvdo. A menos que ...

               - Vamos voltar  - exclama ele, já a meio caminho.

               Era o que eu temia.

               -  O quadro. Esquecemos o quadro, lá na porta da rua.

               A mulher comparece com a solução.

                - Não há tempo. Toma um táxi que  a gente vai indo e te espera lá. Eu seguro o ônibus.

           Esta extraordinária observação, feita com tamanha naturalidade, me deixa assombrado. Ele , sem uma palavra, sai do carro e se manda pela rua atrás de um táxi. Enquanto prosseguimos, ponho em dúvida a capacidade de quem quer que seja de interferir no horário de um ônibus na Inglaterra: segura o ônibus como?

                    - Já segurei um navio, então não posso segurar um ônibus?

              Conta-me então que seu tio deveria embarcar num transatlântico italiano, foi despedir-se dele no cais. E até o último momento, nada do tio. Telefona para ele do próprio navio, ficou sabendo que não lhe haviam avisado uma antecipação da hora de partida. Mas  isso é um desaforo - decidiu ela:  pois pode vir que o navio espera. Quis falar com o comandante, não foi atendida. Os alto-falantes de bordo pediam a retirada imediata dos visitantes, era o último sinal. Os oficiais mandaram retirar a  escada. Antes que a escada fosse completamente recolhida, ela se precipitou, desceu alguns degraus e se viu suapensa no espaço, como num imenso trampolim. Lá embaixo a multidão, já acenando despedidas,  completava, nariz para o ar, aquele espetáculo de circo: a mulher era passageira?  Queria subir ou descer? Ela não queria nada, e era o que repetia teimosamente para oficiais e marinheiros que a intimavam aos berros a sair dali: daqui  não saio, daqui ninguém me tira - esperam chegar meu tio. Tiveram de esperar: tirá-la à força era perigoso, acabria todo mundo n'água. Esperaram meia hora até que chegasse o tio, com a mulher, filhos, carrinho de criança, gaiola de papagaio - mais ou menos como hoje. E, envergonhadíssiomo, por pouco desiste de embarcar quando finalmente lhe baixaram a escada, sob aplauso da multidão.

                     Olho-a furtivamente  pelo espelhinho do carro. Vejo uma confusão de malas, embrulhos, crianças cercando o rosto familiar desta brasileira tranquila. Nunca pensei que ela fosse mulher de segurar navio. Quanto mais se vive mais se aprende.

                       Tudo ajeitado no ônibus, fico à espreita, olho pregado na esquina. Ela não parece preocupada. Começo a temer pel sorte deste motorista alto, ossudo, de cabelos grisalhos e  extremamente  inglês que já consulta o relógio e vai se ajeitar ao volante, para dar partida. Mal desconfia ele que está correndo o risco de entrar para a História, como protagonista de um extraordinário acontecimento nos anais do império Britânico. São exatamente três e quinze.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhQnVcjK3BNB05xaNDEBg0xzE_463vjERHrvvw1G9IfVd3vtfm1F6Hd9WHOqZazF5CWOUY4q-kFasKJLGSwHid8tsdGwF-QKI8c-ee7uUgtcKQO9kGcUdx7PYkxr3638UGtVr4QmFRIjRLGQYzX-L9GU16LvdZYP2bxrM6FsQ5J1y5G7xlc-9qzvdyk2lk/s1600/NAVIO.jpg


                          Respiro com alívio, ao ver, no último segundo, meu amigo saltar de um táxi e vir correndo com o quadro na mão. Mal teve tempo de entrar, eo ônibus já se afasta, a família acenando alegremente.

                          Volto  para casa pensativo, com aquela esquisita sensação de quem fica. Mas em breve voltarão das férias. E então certamente ficarei sabendo, caso tenham esquecido mais alguma coisa, como o ônibus se desviou de sua rota para que fossem buscá-la em casa.

           Fernando Sabino. A inglesa deslumbrada. Rio de Janeiro. Sabiá, 1967. p. 41-5.


Entendendo o texto

01. O texto justifica o título? Por quê?

       Sim, porque  narrador-personagem ficou sabendo que a mulher do amigo conseguiu a façanha de segurar  a partida  de um transatlântico italiano.

02. Releia  o primeiro parágrafo  e responda: que meio de transporte levará a família  de Londres a Portugal? Como você chegou a essa conclusão?

      O narrador-personagem fala que o ônibus  sairá  da estação de Saint Pancras e os deixará  nas docas  de Londres, portanto  conclui-se  que  a família  viajará de navio.

03. O homem  que levará a família até a estação de Saint Pancras já conhecia a esposa do outro? Justifique sua resposta.

      Sim, ao usar a expressão"como sempre" para dizer que ela estava "tranquila", repousada e repousante", ele  deixa  transparecer que já  a conhecia.

04. Ao afirmar que a mulher estava"...com aquela suavidade das antigas mães de família, para quem tudo há de dar certo", o narrador quis dizer que:

a) ela era mandona.

b) ela era delicada e mandona.

c) ela transmitia calma e segurança.

d) ela era velha e antiquada.

05. "...duas crianças, que se multiplicam por três, correndo e brincando." Por que o narrador faz esse comentário?

    O narrador  afirma isso porque  as crianças eram barulhentas e agitadas.

06. "Mas estaremos na estação às três e quinze, Deus seja louvado." A expressão em destaque pode ser substituída por:

     a) Graças a Deus!

     b) Que pena!

     c) Infelizmente!

     d) Que Deus nos ajude!

07. "Mal desconfia ele que está correndo o risco de entrar para a História, como protagonista de um extraordinário acontecimento nos anais do Império Britânico".

      a) Quem é esse ele que corre o risco de ser protagonista de um acontecimento?

           O motorista do ônibus.

       b) Que  acontecimento é esse? 

            A mulher poderá fazer o motorista atrasar a partida do ônibus  se o marido dela não chegar  a tempo.

        c) Por que a palavra História  foi escrita com inicial maiúscula?

             Porque esse acontecimento seria inédito e faria parte da História da Inglaterra, já que o povo inglês, em geral, cumpre rigorosamente seus horários e nunca se atrasa.



terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

EDITORIAL: INDIGNAÇÃO CIVIL - (FOLHA DE S.PAULO) -COM GABARITO

 EDITORIAL: INDIGNAÇÃO CIVIL

         Talvez exista algo de quixotesco nas tentativas de refrear por meio de recursos jurídicos os casos mais evidentes de desperdício e de abuso que se registram no poder público brasileiro. Ações populares contra os gastos motivados pela viagem de Sarney a Paris, recursos contra o selo-pedágio e contra as injeções de dinheiro público em fundos de assistência privada não deixam, entretanto, de refletir um inconformismo diante de uma administração que se mostra incorrigível no desrespeito à opinião pública e que, esgotando-se na própria incapacidade de fazer frente ao processo inflacionário, tende a desmoralizar não só a si própria, como ao Estado brasileiro em seu conjunto.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi_Oyijk13frMsEsHMbYrBrCxUkmErIqQmhqRbLu5Db96JfMM6ChdyrnPhdOsstlyPzq5BNyMaVIw4mcg-Js5t-zRGtRPqysLmCveA-RAx7dgAZATHLqSP5C0OYOme8XqxbcK9uFuKYinescY9aC0D_8_fOpKxH4krOMRZs24O-TWPOm6f9VcZm6y65u30/s1600/images.jpg


         Sem uma constante vigilância da opinião pública, sem esse esforço quase desesperado de inconformismo, sem uma pressão cotidiana em defesa dos recursos do contribuinte, dificilmente será possível superar a crise atual; por remotas que sejam suas possibilidades de sucesso, tentativas desse tipo só podem despertar a simpatia da população.  (Folha de S. Paulo)

Entendendo o texto

 01. Qual é o sentimento central que o texto atribui às ações populares e recursos jurídicos mencionados?

      A) Conformismo diante da gestão pública.

     B) Entusiasmo com as reformas administrativas.

  C) Inconformismo contra o desperdício e abusos no poder público. D) Indiferença em relação aos gastos do governo.

    E) Apoio irrestrito às viagens diplomáticas.

02. O autor utiliza o termo "quixotesco" para descrever as tentativas de frear abusos. Nesse contexto, o que essa palavra sugere?

    A) Que são ações extremamente lucrativas para os advogados.

  B) Que são tentativas ideais, mas que podem parecer vãs ou lutar contra forças muito maiores.

   C) Que são manobras políticas orquestradas pela oposição.

   D) Que são procedimentos jurídicos rápidos e de sucesso garantido.

   E) Que são atos de vandalismo contra o patrimônio público.

 03. Segundo o texto, qual é a consequência de uma administração que desrespeita a opinião pública e falha no controle inflacionário? 

     A) O fortalecimento das instituições democráticas.

    B) A valorização da moeda nacional.

   C) A desmoralização da própria administração e do Estado brasileiro como um todo.

   D) O aumento da confiança dos investidores estrangeiros.

   E) A extinção imediata de todos os recursos jurídicos.

04. De acordo com o segundo parágrafo, o que é considerado fundamental para superar a crise atual?

   A) A aceitação passiva das decisões governamentais.

   B) O aumento indiscriminado de impostos.

   C) A redução da vigilância sobre os gastos públicos.

 D) A constante vigilância da opinião pública e a pressão em defesa dos recursos do contribuinte.

  E) O isolamento do Brasil em relação a viagens internacionais.

 05. Qual é a postura da população em relação às tentativas de contestar os gastos públicos, segundo o autor?

   A) Hostilidade, por considerar que atrasam o governo.

  B) Simpatia, mesmo que as chances de sucesso das ações sejam remotas.

  C) Total desconhecimento, devido à falta de interesse em política. 

   D) Crítica severa, por acreditar que são recursos desperdiçados.

   E) Medo de represálias por parte do Estado.

 

 

SONETO: EMBORA SONETO - PAULO ALBERTO M. MONTEIRO BARROS - COM GABARITO

 Soneto: Embora soneto

 

Vivo meu porém

No encontro do todavia

Sou mas.


Contudo

Encho-me de ainda

Na espera do quando

Desando ou desbundo.

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEguIgcEoyHK7-lYINKW7DAb8xuQxp02xmWSO8992csbhFaJp_PG37NveYiaQeKa1PfGESYdkdpXchuEzn0eEbsi8OXXU-2gTnbWDfX3Zww_dVeNGu5ZkChbR7u5ArwdwoaVfT4ALZlW6hc-AxiiGxnZ_vPjR7ybijbZ_g6bZR3Bfrqh0wu_Hnu0T7ZGe18/s320/conjuncoes-mapa-mental-2.jpg 

Viver é apesar

Amar é a despeito

Ser é não obstante

Destarte


Sou outrossim

Ilusão, sem embargo

Malgrado senão.

 

(BARROS, Paulo Alberto M. Monteiro de Barros. (Artur da Távola) Calentura)

 

01.  O título do poema, 'Embora soneto', e a estrutura das estrofes sugerem um jogo com a forma literária. Qual característica gramatical predomina na construção do eu lírico?

          a. O uso de substantivos concretos para descrever sentimentos.

          b.   A predominância de verbos no imperativo para dar ordens ao leitor.

         c. O uso exclusivo de interjeições que expressam espanto.

        d. A substantivação de conjunções adversativas e concessivas.

 02.  Na segunda estrofe, os versos 'Viver é apesar / Amar é a despeito / Ser é não obstante' reforçam uma visão de mundo. Essa visão pode ser interpretada como:

         a.   A ideia de que a existência humana se dá em meio a contradições e superações.

        b.  A aceitação passiva de que a vida é fácil e sem obstáculos.

        c.  Uma perspectiva niilista onde nada faz sentido.

        d.  Nenhuma das alternativas.

 03.  No verso 'Sou mas.', o uso do ponto final logo após uma conjunção que normalmente exige continuidade sugere:

       a. Que o eu lírico se define pela própria condição de oposição ou incerteza.

       b.  Um erro de pontuação do autor.

       c.  Uma conclusão lógica e definitiva sobre a vida.

       d.  A interrupção do pensamento por falta de vocabulário.

 04.  O termo 'Destarte', utilizado na segunda estrofe, pertence a que registro de linguagem e qual sua função gramatical?

       a. Gíria moderna; serve para enfatizar uma emoção.

       b. Linguagem coloquial; indica uma dúvida.

       c.  Regionalismo; descreve uma ação física.

       d. Linguagem formal/culta; funciona como um conectivo conclusivo.

 05.  No último verso, 'Malgrado senão', as palavras indicam, respectivamente:

        a. Alegria e certeza.

        b. Início e fim de um processo.

        c. Concessão (apesar de) e exceção/defeito.

        d. Localização espacial e intensidade.