segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

SONETO: SETE ESTUDOS PARA A MÃO ESQUERDA I - (FRAGMENTO) - PAULO HENRIQUES BRITTO - COM GABARITO

 Soneto: Sete estudos para a mão esquerda I – Fragmento

             Paulo Henriques Britto            

Existe um rumo que as palavras tomam

como se mão alguma as desenhasse

na branca expectativa do papel

 


Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiuKUlCv5y4HEqBPrZhED5dH22VSpk_eMO9rEtoX2zVLY3e9ZtxNL06nSheTLRdtAjVlWVEqGBYXOcZEpPRBKQJPvxK_4gDMelY7wrKqbwpx1YFE236G6NuWzseuITtRYS46xJV49pYKKSqy1-Dyrg_8ZQypviwvwS7LwNINPPwq0NjzZke4JfaVoa1vnE/s320/leia-somente-as-cores-nao-as-palavras.png

porém seguissem pura e simplesmente

a música das coisas e dos nomes

o canto irrecusável do real.

 

E nessa trajetória inesperada

a carne faz-se verbo em cada esquina

resolve-se completa em tinta e sílaba

em súbitas lufadas de sentido.

 

Você de longe assiste ao espetáculo.

Não reconhece os fogos de artifício,

as notas que ainda engasgam seus ouvidos.

Porém você relê. E diz: é isso.

Paulo Fernando Henriques Britto – Rio de Janeiro RJ 1951.

Entendendo o soneto:

01 – Qual é a principal ideia explorada no soneto?

      O soneto explora a ideia de que as palavras têm um rumo próprio, como se fossem guiadas pela "música das coisas e dos nomes", e não por uma intenção consciente do autor. O processo de criação poética é apresentado como algo que acontece quase que organicamente, revelando o "canto irrecusável do real".

02 – Que metáforas o autor utiliza para descrever o processo de criação poética?

      O autor utiliza várias metáforas para descrever o processo de criação poética. As palavras são comparadas a algo que "segue pura e simplesmente" a "música das coisas e dos nomes", como se tivessem vida própria. A "carne faz-se verbo" sugere uma transformação do físico em linguagem, e as "súbitas lufadas de sentido" evocam a ideia de insights ou revelações inesperadas.

03 – Quem é o "você" mencionado no soneto? Qual o seu papel?

      O "você" mencionado no soneto é um observador do processo de criação poética. Seu papel é o de testemunha que, apesar de não reconhecer de imediato o significado ou a intenção por trás das palavras, ao relê-las, tem um momento de epifania e exclama "é isso", reconhecendo a verdade ou a beleza expressa no poema.

04 – Qual é o significado da expressão "a carne faz-se verbo"?

      A expressão "a carne faz-se verbo" é uma metáfora poderosa que sugere a transformação da experiência física e sensorial em linguagem poética. A "carne" representa o mundo concreto, as emoções e sensações do poeta, enquanto o "verbo" simboliza a palavra, a capacidade de expressar e comunicar essa experiência.

05 – O que o autor quer dizer com "Não reconhece os fogos de artifício, / as notas que ainda engasgam seus ouvidos"?

      Com essa passagem, o autor sugere que o observador ("você") pode não compreender de imediato a beleza ou o significado profundo do poema, talvez porque esteja preso a expectativas convencionais ou a uma compreensão superficial da linguagem. Os "fogos de artifício" e as "notas que ainda engasgam" representam os elementos mais óbvios ou superficiais do poema, que podem não revelar sua verdadeira essência. No entanto, ao reler o poema, o observador tem um insight e finalmente compreende a mensagem do poeta.

 

CONTO: DONA MARIA - MANOEL DE BARROS - COM GABARITO

 Conto: DONA MARIA

            Manoel de Barros

        Dona Maria me disse: não aguento mais, já estou pra comprar uma gaita, me sentar na calçada, e ficar tocando, tocando…

        — Mas só pra distrair?

        — Que mané pra distrair! O senhor não está entendendo? – Entendo. A senhora vai ficar sentada na calçada, de vestido sujo, cabelos despenteados, esquálidos, a soprar uma gaitinha rouca, não é?

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjCoUQ4RLxaQdeOdAi722cDBtJ8G844L2GOJkFq7DAFzgeeqKqy34l82r_OdIMSfPQgy9lt4WTafATPIJa92FfmPVZ3j9ore3gTtESeRJU3tIM2_4yCrnj-aCr22v2qMybI1vdYcTcAUkBW2OIwiC2nxIsgZ8fQmhHh22RxzGUoNODk74cy_SRK-5-1M7s/s1600/GAITA.png


        Depois as pessoas ficarão com pena da sua figura esfarrapada, tocando uma gaitinha rouca, e jogarão moedas encardidas em seu colo encardido, não é?

        Seu vestido ficará salpicado de mosca e lama

        A senhora de três em três minutos dará uma chegada no boteco da esquina e tomará um trago

        Com pouco a senhora estará balofa, inchada de cachaça, os lábios como cogumelos

        Sua boca vai cair no chão

        Uma lagarta torva pode ir roendo seus dias superiores pelo lado de fora

        Um moleque pode passar a esfregar terra em seu olho

        Ligeiro visgo escolha a crescer de seus pés

        Alguns dias depois sua gaita ficará cheia de formiga e areia

        A senhora estará cheia de lacraias sem anéis

        E ninguém suportará o cheiro do seu corpo, não é assim?

        Dona Maria teve um arrepio.

        — Epa moço! eu não queria dizer isso. Só pensei em comprar uma gaita, eu sentar na calçada e ficar tocando, tocando… até que a vida melhorasse. O resto o senhor que inventou. Desse jeito, já estou vendo os meninos passarem por mim a gritar: — Maria Gaiteira, fiu! Maria Gaiteira,

        Fiu Fiu!

        Por favor, moço, mande esses meninos embora pra casa deles. O senhor já me largou na sarjeta, já fez crescer visgo no meu pé, e agora ainda manda os moleques me xingarem…

Poesia completa Manoel de Barros. https://www.academia.edu.

Entendendo o conto:

01 – Qual é o desejo inicial de Dona Maria expresso no conto?

      Dona Maria expressa o desejo de comprar uma gaita, sentar-se na calçada e tocar, como uma forma de lidar com as dificuldades da vida. Ela busca na música uma maneira de encontrar distração e talvez até uma melhora em sua situação.

02 – Como o narrador reage ao desejo de Dona Maria?

      O narrador reage com uma descrição vívida e pessimista das possíveis consequências do desejo de Dona Maria. Ele pinta um quadro de decadência e miséria, mostrando como a situação poderia se deteriorar caso ela seguisse por esse caminho.

03 – Que imagens o narrador utiliza para descrever a possível decadência de Dona Maria?

      O narrador utiliza imagens fortes e desagradáveis, como vestido sujo, cabelos despenteados, gaita rouca, esfarrapada, moedas encardidas, moscas, lama, inchaço de cachaça, lábios como cogumelos, boca caída, lagarta roendo o corpo, terra nos olhos, visgo crescendo nos pés, gaita cheia de formigas e areia, lacraias sem anéis e mau cheiro.

04 – Qual é a intenção do narrador ao descrever de forma tão negativa o futuro de Dona Maria?

      A intenção do narrador é dissuadir Dona Maria de seu plano, mostrando-lhe as possíveis consequências negativas de sua escolha. Ele busca confrontá-la com a realidade de que sua situação pode piorar, caso ela se entregue à ideia de viver na rua tocando gaita.

05 – Como Dona Maria reage à descrição do narrador?

      Dona Maria se assusta com a descrição do narrador e percebe que ele interpretou seu desejo de forma muito diferente do que ela pretendia. Ela se arrepia e corrige o narrador, explicando que sua intenção era apenas tocar gaita para que a vida melhorasse, e não viver na miséria como ele descreveu.

06 – Qual é o significado da fala de Dona Maria sobre os meninos gritando "Maria Gaiteira"?

      A fala de Dona Maria sobre os meninos gritando "Maria Gaiteira" revela seu medo de ser ridicularizada e marginalizada pela sociedade. Ela teme que a imagem que o narrador criou se concretize e que ela se torne alvo de escárnio e desprezo.

07 – Que reflexão o conto nos propõe sobre a relação entre desejo e realidade?

      O conto nos leva a refletir sobre a complexa relação entre desejo e realidade. O desejo de Dona Maria por uma vida melhor através da música é confrontado com a dura realidade da miséria e da marginalização. O conto nos mostra como nossos desejos podem ser idealizados e como a realidade pode ser muito diferente do que imaginamos.

 

NOTÍCIA: PARA IBGE, ENVELHECIMENTO TENDE A AUMENTAR - ROBERTA JANSEN - COM GABARITO

 Notícia: Para IBGE, envelhecimento tende a aumentar

        Pesquisa revelou que pessoas com 60 anos ou mais representam 8,7% da população

Roberta Jansen

        RIO – O número absoluto de idosos no Brasil já é um dos maiores do mundo: 13,5 milhões. De acordo com a pesquisa Síntese de Indicadores Sociais, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as pessoas com 60 anos ou mais representam 8,7% da população do País.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjFFqetpk1-23whrAPALQcJ_wHqJA0j8oNHeLO9l6h272ZosSvcJCRIHVzCs_m2CyzqveFkGl0kmSHOK76pnEPbdllfhG3DCXjKF-nuzZP_rdPNATW8crfsHiE8stgxvFfkzbSnsvnbr4PYPOgoD6lbTzUQwRaCZfWTiiWMC95EJU0_DQI842HmaJ65KX8/s320/IDOSOS.jpg


        Em países desenvolvidos, esse porcentual é, em média, superior a 15%. O estudo mostra, no entanto, que a tendência de envelhecimento da população brasileira é irreversível e tende a aumentar cada vez mais.

        Projeção do IBGE aponta que, em 2020, o número de pessoas com 60 anos ou mais deve dobrar, chegando a 27 milhões. “Isso muda não só o perfil da previdência, mas também o da saúde”, afirmou o diretor do Departamento de Pesquisas do IBGE, Luiz Antônio Oliveira, um dos organizadores da pesquisa. A redução das taxas de mortalidade e fecundidade e o consequente aumento da expectativa de vida são os principais responsáveis pela alteração da estrutura etária da população, segundo análise dos técnicos do IBGE.

        Enquanto na década de 70 a média de filhos por mulher era de 5,76, em 1996 esse número caiu para 2,24. Quanto menos instruídas, maior o número de filhos que as mulheres têm.

        Queda – entre as de escolaridade mais baixa, a média é de 3,4 crianças, contra 1,7 para as mais instruídas. Há diferenças também por regiões. No Nordeste, a média chega a 3 filhos ao passo que, no Sudeste, não passa de 2. A disparidade, no entanto, diminuiu muito. Nos anos 70, a média no Nordeste era de 7,5, ante 4,5 no Sudeste.  

        “A queda é generaliza em todas as classes e regiões”, constatou Oliveira. “E a tendência é irreversível”. A taxa de mortalidade infantil, por sua vez, também caiu muito. Na década de 80, para cada mil crianças nascidas no País, cerca de 75 morriam antes de completar um ano de vida. Em 1996, o número de mortes era de 37 em mil. A diferença entre as regiões, no entanto, permanece muito alta. Em alguns Estados do Nordeste, como Alagoas e Paraíba, os indicadores revelam uma mortalidade próxima à da década de 80: 70 por mil.

        A disparidade pode ser explicada não só pela pobreza da região, mas também pela desigualdade no acesso aos serviços de saúde, a má qualidade do atendimento médico e carências de saneamento básico.

        Em média, a expectativa de vida do brasileiro é de 67 anos e oito meses. As mulheres, no entanto, vivem bem mais que os homens: elas atingem em média 71 anos e sete meses, ante 64 anos e um mês do contingente masculino. Na região Sudeste, essa diferença é ainda maior: 73 anos e sete meses para as mulheres e 64 anos e seis meses para os homens. A razão para isso, segundo os técnicos, é a violência urbana, que vitima mais pessoas do sexo masculino.

      A pesquisa mostra ainda que a grande maioria dos idosos (85%) vive com algum parente e apenas uma pequena parcela (11,6%) mora sozinha ou com pessoas com as quais não tem nenhum laço de parentesco.

JANSEN, Roberta. O Estado de S. Paulo, 11/3/99. p. A9.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 203-204.

Entendendo a notícia:

01 – Qual é o número absoluto de idosos no Brasil e qual porcentual da população eles representam, de acordo com a pesquisa do IBGE?

      O Brasil possui 13,5 milhões de idosos, o que representa 8,7% da população do país.

02 – O que o estudo do IBGE revela sobre a tendência de envelhecimento da população brasileira?

      O estudo mostra que a tendência de envelhecimento da população brasileira é irreversível e tende a aumentar cada vez mais.

03 – Qual é a projeção do IBGE para o número de pessoas com 60 anos ou mais em 2020?

      A projeção do IBGE é que o número de pessoas com 60 anos ou mais dobre até 2020, chegando a 27 milhões.

04 – Quais são os principais fatores responsáveis pela alteração da estrutura etária da população brasileira, segundo o IBGE?

      Os principais fatores são a redução das taxas de mortalidade e fecundidade, e o consequente aumento da expectativa de vida.

05 – Como a taxa de fecundidade no Brasil se alterou ao longo do tempo e qual é a relação entre o nível de instrução e o número de filhos?

      A taxa de fecundidade no Brasil diminuiu de 5,76 filhos por mulher na década de 70 para 2,24 em 1996. Quanto menor o nível de instrução da mulher, maior o número de filhos, com uma média de 3,4 filhos para mulheres com baixa escolaridade e 1,7 para mulheres com alta escolaridade.

06 – Qual é a média de filhos por mulher nas diferentes regiões do Brasil e como essa disparidade evoluiu ao longo do tempo?

      A média de filhos por mulher é de 3 no Nordeste e 2 no Sudeste. Essa disparidade diminuiu ao longo do tempo, já que nos anos 70 a média era de 7,5 filhos no Nordeste e 4,5 no Sudeste.

07 – Qual é a expectativa de vida média do brasileiro e como ela se diferencia entre homens e mulheres e entre as regiões do país?

      A expectativa de vida média do brasileiro é de 67 anos e oito meses. As mulheres vivem mais do que os homens, com uma média de 71 anos e sete meses, enquanto os homens vivem em média 64 anos e um mês. No Sudeste, essa diferença é ainda maior, com as mulheres vivendo em média 73 anos e sete meses e os homens 64 anos e seis meses, devido à violência urbana que afeta mais o sexo masculino.

 

POEMA: DE ENCANTAÇÃO - JORGE DE LIMA - COM GABARITO

 POEMA: DE ENCANTAÇÃO

               Jorge de Lima 

Arraial d’Angola de Paracatu,

Arraial de Mossâmedes de Goiás,

Arraial de Santo Antônio do Bambe,

vos ofereço quibebê, quiabo, quitanda, quitute, quingombô.

Tirai-me essa murrinha, esse gôgo, esse urufá,

que eu quero viver molecando, farreando, tocando meus ganzás!

 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjBdMMDS8jqQR3lKHufal7HJcrszKzBcruRdOtzT-5Mw3S1tX3YLU5llfgNIx8llGFV9Zn-5x58s-4o7pzkW7VwnYQhqwhFAkEKnG2xixQT6PVSl9MPp44rbat829Zx_xxQ5J0spqt77b4TPocbPadIbstbkXWd11fCyhpCCKPKbQiFOAxNy2VaqsQHxWQ/s1600/PARACATU.jpg

Arroio dos Quilombos de Palmares,

Arroio do Desemboque do Quizongo,

Arroio do Exu do Bodocô,

vos ofereço maconha de pito, quitunde, quibembe, quingombô.

Assim, sim! 

Arraial d’Angola de Paracatu, 

Arraial do Campo de Goiás, 

Arraial do Exu do Aussá,

vos ofereço quisama, quinanga, quilengue, quingombô. 

Tomai acaçá, abará, aberém, abaú!

Assim, sim! 

Tirai-me essa murrinha, esse gôgo, esse urufá! 

Vos ofereço quitunde, quitumba, quelembe, quingombô.

LIMA, Jorge de. Poesia completa. v. 1. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1974, p. 173-174.

Fonte: livro Português: Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 231.

Entendendo o poema:

01 – Qual é o tema central do poema "De Encantação"?

      O poema "De Encantação" é uma invocação, um tipo de prece ou encantamento, dirigida a diversos arraiais (comunidades) de origem africana no Brasil. O eu-lírico oferece comidas e elementos típicos da cultura africana, pedindo em troca a cura de males (murrinha, gôgo, urufá) e a permissão para viver livremente, "molecando", "farreando" e expressando sua cultura através da música ("tocando meus ganzás").

02 – Quem é o eu-lírico do poema e qual sua intenção?

      O eu-lírico parece ser alguém que se identifica com a cultura africana e que busca uma conexão com suas raízes. Sua intenção é clara: através da oferta de elementos culturais (comidas, instrumentos), ele busca estabelecer uma troca com as entidades espirituais ou ancestrais africanos, pedindo por saúde, bem-estar e a possibilidade de viver livremente, celebrando sua cultura.

03 – Quais são os elementos culturais africanos presentes no poema?

      O poema é rico em referências à cultura africana, tanto na culinária (quibebe, quiabo, quitanda, quitute, quingombô, acaçá, abará, aberém, abaú) quanto em outros elementos (ganzá, maconha de pito, quitunde, quibembe, quisama, quinanga, quilengue). Esses elementos representam a força e a riqueza da cultura africana no Brasil, bem como sua presença em diversas regiões do país (Paracatu, Goiás, Palmares, etc.).

04 – O que significam as palavras "murrinha", "gôgo" e "urufá" no contexto do poema?

      Essas três palavras se referem a males ou doenças. "Murrinha" pode se referir a uma doença ou de espírito ruim. "Gôgo" é um termo popular para bócio, uma doença da tireoide. "Urufá" é uma palavra de origem africana que se refere a uma doença ou feitiço. Ao pedir para ser liberado desses males, o eu-lírico busca a cura e o bem-estar.

05 – Qual a importância do verso "Assim, sim!" que se repete no poema?

      O verso "Assim, sim!" é uma expressão de afirmação e de aceitação. Ele reforça a intenção do eu-lírico de estabelecer a troca com as entidades africanas e de receber as bênçãos desejadas. É como se ele estivesse dizendo: "Sim, é isso que eu quero! É assim que deve ser!". O verso também evoca a musicalidade e o ritmo do poema, aproximando-o de um cântico ou de uma reza.

 

SONETO: SETE SONETOS SIMÉTRICOS II - PAULO HENRIQUES BRITTO - COM GABARITO

 Soneto: SETE SONETOS SIMÉTRICOS II

             Paulo Henriques Britto

Tão limitado, estar aqui e agora,
dentro de si, sem poder ir embora,

dentro de um espaço mínimo que mal
se consegue explorar, esse minúsculo
império sem território, Macau

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgcRgti-FxAdbhra7oqn85wYjPTvdAULCHy9DWCyGTlRM-fHjliTkPYPKMNoo5Kv9WGw4lENG91acnK9Dv-5EhqxVqMukxQkwFgpo_25gpPa9HXQ8uyrYWFvWvqZNEMqQIBveq7RyMQEdUdgRvaxQAtm4A8-LzdAyMSwaqYGBXnmRfLxcF3w8BE7SRJv4s/s320/Macau-Las-Vegas-of-Asia.jpg



sempre à mercê do latejar de um músculo.
Ame-o ou deixe-o? Sim: porém amar
por falta de opção (a outra é o asco).
Que além das suas bordas há um mar

infenso a toda nau exploratória,
imune mesmo ao mais ousado Vasco.
Porque nenhum descobridor na história

(e algum tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu.

https://www.escritas.com.br.

Entendendo o soneto:

01 – Qual é o tema central do soneto "SETE SONETOS SIMÉTRICOS II" de Paulo Henriques Britto?

      O tema central do soneto é a limitação da experiência humana, focando na impossibilidade de transcender o espaço físico e psicológico individual. O "eu" é apresentado como um espaço limitado, um "minúsculo império sem território", do qual não se pode escapar.

02 – Que metáforas o autor utiliza para descrever a condição humana no soneto?

      O autor utiliza diversas metáforas para descrever a condição humana, como a comparação do "eu" com um "espaço mínimo" difícil de explorar, um "império sem território", e a cidade de Macau, que apesar de ser um lugar físico, é usada para representar a sensação de confinamento. Além disso, a metáfora do mar "infenso a toda nau exploratória" representa a vastidão do desconhecido e a impossibilidade de escapar da ilha metafórica que é o "eu".

03 – Qual é o tom geral do soneto?

      O tom geral do soneto é de melancolia e frustração. O autor expressa a angústia de estar preso dentro de si mesmo, sem poder explorar o mundo exterior ou transcender suas próprias limitações. A repetição da palavra "dentro" no início do soneto enfatiza essa sensação de confinamento.

04 – O que significa a expressão "Ame-o ou deixe-o? Sim: porém amar / por falta de opção (a outra é o asco)"?

      Essa expressão reflete a dicotomia entre o amor e o ódio, e como, na condição humana apresentada no soneto, o amor ao "eu" limitado surge não como uma escolha livre, mas como uma imposição. Amar a si mesmo torna-se a única opção viável, já que a alternativa, o "asco", é ainda mais repulsiva.

05 – Qual é a importância da referência a Vasco da Gama no soneto?

      A referência a Vasco da Gama, famoso explorador português, serve para contrastar a ousadia dos grandes navegantes com a impossibilidade de o "eu" explorar a si mesmo. Mesmo os maiores exploradores, sugere o poeta, não conseguiram escapar do "cais úmido e ínfimo do eu". Essa comparação reforça a ideia de que a maior de todas as explorações, a do "eu", é também a mais difícil e, talvez, a mais frustrante.

 

SONETO: SETE ESTUDOS PARA A MÃO ESQUERDA VI - (FRAGMENTO) - PAULO HENRIQUES BRITTO - COM GABARITO

 Soneto: Sete estudos para a mão esquerda VI – Fragmento

          Paulo Henriques Britto

Nenhuma lição nesta paisagem

que não o fartamente conhecido:

as coisas nos lugares, engrenagens

 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg3gvqEz8z4VMpFb8OYvt3VnODEfkkw_KhiftqSzKJjJ71nlmRJ3a4evjNfOrkDEup_MPm9Wrv6QX4sKSWsCRefD5q56QbnEMk3ESjcq4yEyY1a3pZDcaQbdgjOxL1mu-wWZiynaOj7fsqMRkcFj9J57xP0UzMBJdXLU1keMfrdBGkRHKkWv6VmY3Hcy2U/s1600/PAISAGEM.jpg

do estar-em-si, do tudo-é-relativo,

etc. A mesma grafitagem

inconsequente de sempre: rabisco

 

logo existo. — O mundo segue opaco,

imune à consciência e seus lampejos

de lógica, sua falta de tato,

sua avidez, seus deuses e desejos.

 

(Aqui termina o sonho. Fim das névoas,

caramelos e almofadas formidáveis.

Daqui pra frente, as portas sem remédio

e todas as maçãs assassinadas.)

Paulo Fernando Henriques Britto – Rio de Janeiro RJ 1951.

Entendendo o soneto:

01 – Qual é a principal ideia expressa no soneto "Sete estudos para a mão esquerda VI – Fragmento" de Paulo Henriques Britto?

      O soneto aborda a sensação de tédio e de repetição diante da mesmice da vida. O eu-lírico expressa a percepção de que a paisagem e as experiências se tornaram familiares e previsíveis, perdendo a capacidade de surpreender ou emocionar.

02 – O que significa a expressão "Nenhuma lição nesta paisagem / que não o fartamente conhecido"?

      Essa expressão sugere que a paisagem, tanto física quanto metafórica, perdeu a capacidade de ensinar ou revelar algo novo. Tudo se tornou "fartamente conhecido", repetitivo e previsível, sem novidades ou desafios a serem explorados.

03 – Qual é a crítica presente na referência à "mesma grafitagem inconsequente de sempre: rabisco / logo existo"?

      Essa referência critica a busca vazia por significado e reconhecimento através de ações superficiais e repetitivas. A frase "rabisco logo existo" ironiza a ideia de que a simples ação de deixar uma marca, um registro, garante a existência ou a importância do indivíduo.

04 – O que o eu-lírico quer dizer com "O mundo segue opaco, / imune à consciência e seus lampejos / de lógica"?

      Essa passagem expressa a frustração do eu-lírico diante da falta de sentido e da resistência do mundo à sua compreensão. O mundo é descrito como "opaco", ou seja, incompreensível e impenetrável à razão e à lógica. A consciência, com seus "lampejos" de racionalidade, é impotente para dar sentido ao caos e à complexidade da existência.

05 – Qual é o significado do último verso "Daqui pra frente, as portas sem remédio / e todas as maçãs assassinadas"?

      Esse verso final marca o fim do sonho e da ilusão, confrontando o eu-lírico com a realidade crua e implacável. As "portas sem remédio" simbolizam a falta de oportunidades e de saídas para a situação de tédio e frustração. As "maçãs assassinadas" representam a perda da inocência, da beleza e do potencial de renovação. A imagem da maçã, tradicionalmente associada ao conhecimento e à tentação, sugere que a busca por significado e a experiência da realidade levaram à desilusão e à morte simbólica.

 

SONETO: SETE ESTUDOS PARA A MÃO ESQUERDA II - (FRAGMENTO) - PAULO HENRIQUES BRITTO - COM GABARITO

 Soneto: Sete estudos para a mão esquerda II – Fragmento

              Paulo Henriques Britto

Tento dizer: a tarde tem o tom

exato de outra tarde que conheço,

mas qual? (Mas neste instante escuto o som

 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh2gX-iljm5oJy2MQfiVgDb8dWyMmHuu7mffy94jOEZG5E78aASbcn7d_ZpHa8irjH8MK1u1-05x-9Z_745Djs2eDhhDbw_ogxCNYOrVmIB4cAUfXMYRCFi7r136be-5OC9KmNh-zNxPN1V0yI1C09WuLl-QnZzCVX_r5CEEhNM6CRGO27vrWM4SCFya6Y/s320/TARDE.jpg

de uma outra voz, que é minha e desconheço,

e o que ela diz é belo, é certo e é bom.

Mas o que digo assim não reconheço.

 

É como um deus de bolso, esta presença

que o próprio gesto de negar evoca.

A voz é dela, embora me pertença

a música. E mais a mão que a toca.)

 

Naturalmente, enquanto isso a tarde

se apaga, anêmica, despercebida,

e vem a noite, com seu negro alarde.

Desde o começo a causa era perdida.

Paulo Fernando Henriques Britto – Rio de Janeiro RJ 1951.

Entendendo o soneto:

01 – Qual é o tema central do soneto "Sete estudos para a mão esquerda II – Fragmento" de Paulo Henriques Britto?

      O tema central do soneto é a dificuldade de expressar a própria experiência e a complexidade da relação entre o eu e a linguagem. O poeta tenta descrever a tarde, mas se depara com a descoberta de uma voz interior desconhecida, que parece ditar suas palavras. Essa voz, embora seja sua, é experimentada como algo externo, quase divino.

02 – Que recursos poéticos o autor utiliza para expressar a dualidade entre o eu e a voz interior?

      O autor utiliza vários recursos poéticos para expressar essa dualidade. A contraposição entre o "eu" que tenta dizer e a voz interior que fala ("Mas o que digo assim não reconheço") é central. A metáfora do "deus de bolso" evoca a ideia de uma presença divina íntima, mas também incontrolável. A distinção entre a música, que pertence ao eu, e a voz, que é "dela", reforça a separação entre o eu consciente e a voz interior.

03 – Qual é o significado da expressão "a tarde / se apaga, anêmica, despercebida"?

      Essa expressão metaforiza a passagem do tempo e a perda da experiência inicial. Enquanto o poeta se debate com a tentativa de expressar a tarde, ela se esvai, "anêmica" e "despercebida". A imagem da tarde que se apaga sugere a fragilidade da memória e a dificuldade de capturar a essência do momento.

04 – O que significa a frase "Desde o começo a causa era perdida"?

      Essa frase expressa a frustração do poeta diante da impossibilidade de expressar plenamente o que sente. A “causa perdida” refere-se à tentativa de traduzir a experiência em palavras, que desde o início está fadada ao fracasso. A consciência dessa derrota permeia o soneto, conferindo-lhe um tom melancólico.

05 – Qual é a relação entre o título "Sete estudos para a mão esquerda" e o conteúdo do poema?

      O título "Sete estudos para a mão esquerda" sugere um exercício de habilidade e técnica, como os estudos musicais. No entanto, o poema revela a complexidade e a dificuldade da expressão poética, que vai além da técnica. A "mão esquerda" pode simbolizar o lado mais intuitivo e inconsciente do poeta, que se manifesta através da voz interior. Os "estudos" seriam, então, tentativas de compreender e dominar essa voz, mesmo que a "causa" seja "perdida" desde o começo.

 

 

SONETO: SETE ESTUDOS PARA A MÃO ESQUERDA III - (FRAGMENTO) - PAULO HENRIQUES BRITTO - COM GABARITO

 Soneto: Sete estudos para a mão esquerda III – Fragmento

             Paulo Henriques Britto            

Sou uma história, a voz que a conta, e o imenso

desejo de contar outra diversa,

que porém não deixasse de ser essa.

 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgIbgfyM8N0AiA-ydCwf1XqqNF6MUkDZwKBXZ9GbHSrpY6mg1S3_iZuruX0nY-YErP_u2q6jgEqQvTmfgEmtrE_UOokjUT3zqgtq9apz07ssCWRWOhiaxzlIAJOkHDSe3SuYPnpdlxfdy5lW_JBQ6uKMdo5sLDSNepvq_vr7vSMOoNr_ZcM_FK15vnUHDo/s320/MAOSSS.jpg

Palavra que não digo e que não penso

e no entanto escrevo — eu sou você?

(Mas não era isso o que eu ia dizer,

 

e sim uma outra coisa, obscura e bela,

que sei, com uma certeza visceral,

ser a verdade última e total —

e só por isso já não creio nela,

 

pois a certeza, tal como a memória,

é por si só demonstração sobeja

da falsidade do que quer que seja —)

Mas isso já seria uma outra história.

Paulo Fernando Henriques Britto – Rio de Janeiro RJ 1951.

Entendendo o soneto:

01 – Qual é a principal reflexão apresentada no soneto?

      O soneto reflete sobre a natureza da narrativa, a relação entre o narrador e a história, e a busca por uma verdade que se revela elusiva. O eu-lírico expressa o desejo de contar uma história diferente, mas que ainda seja parte da sua própria história.

02 – O que significa a frase "Palavra que não digo e que não penso / e no entanto escrevo — eu sou você?"?

      Essa frase revela a complexidade da relação entre o eu-lírico e o "você" do poema. Sugere que as palavras que ele escreve podem não ser totalmente conscientes ou intencionais, mas sim uma manifestação de outra pessoa ou de outra parte de si mesmo. A pergunta retórica expressa a dúvida sobre a própria identidade e a autoria da narrativa.

03 – Qual é a importância da "outra coisa, obscura e bela" que o eu-lírico menciona?

      Essa "outra coisa" representa uma verdade profunda e visceral que o eu-lírico sente que existe, mas que não consegue expressar em palavras. É uma intuição, uma certeza que reside no plano do indizível. A beleza e a obscuridade dessa verdade a tornam ainda mais intrigante e desafiadora.

04 – Por que o eu-lírico afirma que "a certeza, tal como a memória, / é por si só demonstração sobeja / da falsidade do que quer que seja"?

      Essa afirmação paradoxal sugere que a certeza, assim como a memória, pode ser uma construção subjetiva que não corresponde necessariamente à realidade. A memória é seletiva e moldada pelas nossas emoções e experiências, o que a torna passível de distorção. Da mesma forma, a certeza pode ser uma ilusão que nos impede de ver a complexidade e a incerteza do mundo.

05 – Qual é a relação entre o último verso "Mas isso já seria uma outra história" e o restante do poema?

      O último verso indica a consciência do eu-lírico de que a busca pela verdade e a tentativa de narrar sua história são um processo contínuo. A "outra história" que ele menciona representa a possibilidade de novas narrativas e novas descobertas sobre si mesmo e sobre o mundo. O poema termina com a abertura para novas explorações e reflexões.

 

 

 

 

SONETO: SETE ESTUDOS PARA A MÃO ESQUERDA V - (FRAGMENTO) - PAULO HENRIQUES BRITTO - COM GABARITO

 Soneto: Sete estudos para a mão esquerda V – Fragmento

            Paulo Henriques Britto

Não é assim: os dias claros, noites límpidas,

cada gaveta satisfeita em seu lugar,

e a consciência administrando tudo isso —

 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhKcAn68C_1xF1bXPz6b7FK2MzoGEPLXi5ZVVgxhndtX9VKJLdKdfIVgdUo1L6KGh28sN7jaXjgIpugvutUNDcfr37vgglZFpJc9eN498WKqG2JfnD5OBglTS2lOHirF3mBjGCPcuKZcDkIR6JMIu8pzE3YAynkC3d110_6Cm-5ZBmKZHoQjlb7rombHOQ/s320/MAO.jpg

Nada é assim. Nada é tão bom. Na hora H

algum detalhe escapa, talvez uma vírgula

fatal, ou falta o risco no meio do A,

 

e o mundo vira um caos de músculo e metal.

Ou então o dia até que cumpre sua rotina

sem aporias nem contradições, mas mal

a noite desce as velhas dúvidas cretinas

 

levam de volta ao estribilho inicial,

ao X do problema: as coisas fora de esquadro,

o desajuste entre o desejo e o vegetal

da consciência, complacente, amputada.

Paulo Fernando Henriques Britto – Rio de Janeiro RJ 1951.

Entendendo o soneto:

01 – Qual é a principal ideia expressa no soneto "Sete estudos para a mão esquerda V – Fragmento" de Paulo Henriques Britto?

      O soneto explora a frustração e a desilusão diante da discrepância entre a ordem idealizada e a realidade caótica. O eu-lírico expressa a constatação de que a vida não se encaixa em padrões perfeitos e que, por mais que se tente controlar e organizar tudo, sempre haverá algo que escapa e desequilibra o sistema.

02 – Que imagens o autor utiliza para contrastar a ordem idealizada e a realidade caótica?

      O autor utiliza imagens contrastantes para expressar essa dualidade. A ordem idealizada é representada por "dias claros, noites límpidas", "cada gaveta satisfeita em seu lugar" e a "consciência administrando tudo isso". Em contraposição, a realidade caótica é descrita como um "caos de músculo e metal", onde "algum detalhe escapa, talvez uma vírgula fatal, ou falta o risco no meio do A".

03 – Qual é o significado da expressão "Na hora H / algum detalhe escapa, talvez uma vírgula fatal"?

      Essa expressão sugere que, mesmo quando tudo parece estar perfeito e sob controle ("Na hora H"), um pequeno detalhe, um erro aparentemente insignificante ("uma vírgula fatal"), pode ser suficiente para desencadear o caos e a desordem.

04 – O que representam as "dúvidas cretinas" que assombram o eu-lírico durante a noite?

      As "dúvidas cretinas" representam as inquietações e incertezas existenciais que retornam à noite, após um dia de aparente normalidade. São dúvidas sobre o sentido da vida, a inadequação do mundo e a fragilidade da consciência.

05 – Qual é o significado do último verso "o desajuste entre o desejo e o vegetal / da consciência, complacente, amputada"?

      Esse verso final expressa a tensão entre o desejo, a pulsão vital, e a consciência, que se mostra complacente e incapaz de conciliar as aspirações do indivíduo com a realidade. A consciência é descrita como "amputada", sugerindo que ela perdeu a capacidade de agir e transformar o mundo de acordo com os desejos do eu-lírico.