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terça-feira, 15 de setembro de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: OS MENINOS DO BRASIL - CLÓVIS ROSSI - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Os meninos do Brasil

         Clóvis Rossi

 

        SÃO PAULO – Primeiro, foi o "arrastão" nas praias do Rio. Logo depois, nas praias de Fortaleza. Um pouco mais adiante, na festa do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Desceu, em seguida, para a praça da Sé em São Paulo. Chegou ontem a Londrina, no norte do Paraná, cidade em que uma dúzia de lojas foi "arrastada" por bandos de menores movidos a cola de sapateiro.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhx-jUCykB2LfiYYHoM-4SwUUQ_VclhwwqompXW0uK8oPy6qejAoc1a14XpYRe7hbwU1ypKe4B3Yo3bF8SCABk_hyzJKzDjyp9_yOesYtyLcqRBIo6A9dWX14qaCRtAMhxqxcywlXbFiLB0Q3yg2px7zDao3gSKMi6o8i5VK3g76AA497B-MpfPpNz8m8Q/s320/images.jpg


        Vê-se que já não dá sequer para o tolo conformismo de achar que essa espécie de guerrilha urbana está restrita aos grandes centros, depósitos habituais de todos os problemas do subdesenvolvimento. Londrina parece ser apenas uma dessas cidades médias abençoadas pela alta qualidade de vida interiorana.

        É evidente que deve haver, nessa onda de "arrastões", um pouco de modismo. O pessoal vê pela televisão um grupo "arrepiando bacanas" no Rio de Janeiro e resolve fazer a mesma coisa na sua própria cidade. Copiar comportamentos alheios, muito divulgados pela mídia, é um fenômeno até certo ponto corriqueiro.

        O problema é que a matéria-prima para a repetição dos "arrastões" sobra no país. O Brasil, que sempre foi exemplo extremo de má distribuição de renda, tornou-se selvagem nestes muitos anos de estagnação econômica. Se há alguma indústria nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados. Da marginalização à marginalidade e dela à brutalidade, a distância costuma ser curta.

        Consequência inevitável; os "bacanas" já estão todos arrepiados. Pior: tornam-se cada vez mais inúteis os discursos sobre a miséria, sobre a infância desamparada, sobre as injustiças sociais. A fábrica de produzir retórica sobre essa temática é, aliás, outro setor que não entrou em recessão.

        Seria altamente conveniente que admitíssemos de uma vez por todas que estamos, todos, desequipados para agir, em vez de discursar a respeito. Não é um problema que se possa resolver apenas por meio do poder público. Não é um problema que a filantropia de meia dúzia vá sequer atenuar. É uma guerra. Não serve de consolo saber que produziu poucas vítimas fisicamente até agora. Todo o país é vítima quando seus "bacanas" começam a odiar os meninos do Brasil.  

Folha de S. Paulo, 30/10/92.

Entendendo o artigo:

01 – O autor cita eventos em praias do Rio, Fortaleza, Belém, São Paulo e Londrina. Qual a intenção do autor ao mapear essa sequência de acontecimentos?

      Demonstrar que os "arrastões" e a violência praticada por jovens marginalizados deixaram de ser um fenômeno exclusivo dos grandes centros urbanos e se espalharam pelo país, atingindo até mesmo cidades médias conhecidas pela boa qualidade de vida.

 

02 – Segundo Clóvis Rossi, qual é o papel da mídia e da televisão na expansão dos "arrastões"?

      A mídia atua como um difusor de comportamentos (um "modismo"). Ao divulgar exaustivamente os episódios ocorridos nas grandes metrópoles, estimula a cópia da ação por grupos de jovens em outras regiões do país.

 

03 – O que o autor quer dizer com a metáfora "a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados" e qual sua relação com a estagnação econômica?

      A metáfora indica que a desigualdade, a má distribuição de renda e a crise econômica geram continuamente uma massa de pessoas na extrema pobreza. A falta de oportunidades (marginalização) aproxima esses jovens da criminalidade (marginalidade) e da violência.

 

04 – Qual é a crítica que o jornalista faz em relação aos discursos e às tentativas tradicionais de solução para o problema social da infância desamparada?

      O autor critica a "fábrica de produzir retórica", afirmando que os discursos políticos e teóricos tornaram-se inúteis e vazios. Além disso, aponta que o problema não será resolvido apenas pela ação isolada do poder público ou pela filantropia pontual de poucos.

 

05 – Por que o autor afirma no final do texto que "todo o país é vítima" dessa situação, mesmo quando há poucas vítimas físicas nos episódios?

      Porque o avanço da violência e da desigualdade corrói o tecido social, gerando um ambiente de medo e ruptura moral em que a elite (os "bacanas") passa a cultivar o ódio e o preconceito contra os jovens pobres (os "meninos do Brasil").

 

 

MÚSICA(ATIVIDADES): UM DEUS ATEU - GUILHERME ARANTES - COM GABARITO

 Música (Atividades): Um Deus Ateu

          Guilherme Arantes

Quem
Te roubou o inocente jardim
Tuas faces de rubras maçãs
Teu condão
Talismã
Quem levou
Nossas verdes manhãs de sol
Tardes sem fim

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEglN1JaJZOe2NH6mYo3wzyrSQhXG5fZZ2xHfH1urIcM9RonF2Vj6_P5a9MkHzBQQpQjO9J1RlQyrn6yKYvbCuOhYB59Uy2xDp-5yQNvN47ByB9PvW91iRHG3SII0g7nYXL3WyLT_8HxjlQWPYToRA6yNpCoyoGYiil0G0WMZorTD4kFGQZ6ZktLT9MZG5U/s1600/images.jpg 


Inventou a distância cruel
Levou a linha, a vareta e o papel
Lavou o céu
Secou o mar
Jogou nuvens de areia nos olhos
Muralhas de pedras
Brilhantes que furtam a visão
Como um deus ateu
Vaguei vagabundo
Morei num barril
Andei condenado
A viver buscando
Cana de açúcar
Duna de sal
Moinho de sonho
Usina do amor
No torvelinho
Na febre no frio
Não se perdeu
Nosso ébrio navio.

Composição: Guilherme Arantes.

Entendendo a música:

01 – Qual é o significado da perda do "inocente jardim" e das "verdes manhãs de sol" no início da canção?

      Essa perda simboliza o fim da infância, da pureza e a nostalgia de um tempo mais simples e protegido. O "inocente jardim" e as "verdes manhãs" representam a beleza da juventude e a harmonia do passado que foram rompidas pela maturidade, pelo tempo ou pelo surgimento de uma separação dolorosa.

02 – De que forma a metáfora "Levou a linha, a vareta e o papel" se conecta com a mudança de estado do eu lírico?

      A junção de "linha, vareta e papel" faz referência lúdica à confecção de uma pipa (papagaio), brinquedo tradicional da infância. O desaparecimento desses objetos marca o fim da leveza e da liberdade infantil. Esse contraste prepara o leitor para o surgimento dos obstáculos da vida adulta, representados pela "distância cruel" e pelas "nuvens de areia nos olhos".

03 – Qual é o efeito do paradoxo construído na expressão "Como um deus ateu" para caracterizar a condição do eu lírico?

      O paradoxo une dois conceitos opostos: a figura do "deus" (símbolo de criação, poder e luz) e o qualificativo "ateu" (símbolo da ausência de fé, abandono e descrença). Essa imagem traduz a crise existencial do eu lírico que, apesar de possuir força criativa e sensibilidade poética, sente-se desamparado, solitário e sem um rumo espiritual ou afetivo a seguir.

04 – Qual é o significado cultural e filosófico da alusão ao verso "Morei num barril" e sua relação com a busca pessoal do eu lírico?

      A menção a "morar num barril" faz uma alusão ao filósofo grego Diógenes de Sínope (o Cínico), conhecido por viver em um barril e abdicar de todos os bens materiais. Na canção, a imagem reforça a vida despojada e errante do eu lírico, que prefere a simplicidade e a busca por elementos essenciais ("cana de açúcar", "duna de sal", "moinho de sonho") em vez dos luxos representados pelas "muralhas de pedras brilhantes que furtam a visão".

05 – Como a metáfora do "ébrio navio" na estrofe final expressa a resiliência do sentimento diante das adversidades?

      O "ébrio navio" (embarcação embriagada ou à deriva) representa a trajetória turbulenta da vida e das emoções, que navega sem rumo fixo por meio de tempestades ("torvelinho", "febre", "frio"). Ao concluir com a afirmação "Não se perdeu / Nosso ébrio navio", o eu lírico celebra a resistência da relação ou do próprio espírito, que sobreviveu aos percalços e manteve sua jornada viva.

 

 

RELATO DE MEMÓRIAS: TEMPO DE INFÂNCIA - FRAGMENTO - COM GABARITO

 Relato de memória: Tempo de Infância – Fragmento

 

        Quando se é criança, o mundo é apenas um grande parque de diversões. E são essas as primeiras lembranças que trago em mim.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhWaioTmsRJ-Mfh4GUvuENLVbPyT_ig2X7U8LULAZridVlDR0I-D_vd5MH6lrraVz9DY6YW6PLTktnKue9tYf-x2PBSCNdoqQwotXuftRztdQLiPBSkfZG-Phm7LfAIolPSYGlLUnvuIGkB69QcGBAAwaBGgk-ZN_w37C_K-J2KDcH1_07LwHI-T3BJQN4/s320/images%20(1).jpg

        Lembro que, ainda bem pequeno, gostava de sair correndo atrás de meus irmãos e primos maiores. Era uma corrida sem finalidade. Corria-se por correr ou, apenas, para repetir os gestos dos calangos que dividiam com a gente o espaço da aldeia. Meus irmãos e eu andávamos sem paradeiro e sem destino. Íamos a todos os cantos que nos eram permitidos pelos adultos. O igarapé era nosso principal objetivo, mas também tínhamos as árvores, enormes mangueiras que cresciam por toda a aldeia. As maiores subiam com destreza e depois me ajudavam a subir também.

        Passávamos horas ali, brincando de navegar nos galhos da velha árvore, comendo mangas com farinha de mandioca

        (...).

Daniel Munduruku.

Entendendo o relato:

01 – Que pistas nos dá o texto de que a criança era indígena?

      O texto apresenta pistas culturais e geográficas típicas do contexto indígena, especificamente a menção aos calangos (lagartos comuns na região), a convivência em uma aldeia, a referência ao igarapé (curso d'água amazônico) e o consumo de mangas com farinha de mandioca, um hábito alimentar tradicional da região Norte.

 02 – Qual era o principal objetivo das crianças na brincadeira?

      O principal objetivo das crianças na brincadeira era o igarapé, embora elas também aproveitassem as enormes mangueiras para brincar, correr sem destino e imitar os gestos dos calangos.

 03 – Este texto tem uma estrutura diferente. É um texto de memórias.

a) Quais são as memórias apresentadas?

      As memórias apresentadas referem-se à infância do autor na aldeia, destacando a liberdade para correr sem destino com os irmãos e primos maiores, as brincadeiras de navegar nos galhos das mangueiras e o hábito de comer mangas com farinha de mandioca.

 b) Retire do texto o trecho que exemplifica esta narrativa de memória.

      O trecho que exemplifica essa narrativa de memória é: "Lembro que, ainda bem pequeno, gostava de sair correndo atrás de meus irmãos e primos maiores." (ou qualquer outro parágrafo que inicie com o resgate de lembranças do passado, como "Passávamos horas ali, brincando...").

CRÔNICA: AS FORMIGAS E O PREFEITO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: AS FORMIGAS E O PREFEITO

             Lima Barreto

 

        Esse negócio de saúvas preocupa-me desde menino, quando o meu velho amigo Policarpo Quaresma narrou à minha infância curiosa os suplícios que elas o fizeram sofrer, ao         tempo em que se improvisou agricultor.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjTxDmIfMQrL4Rpki6jmvup9vh4p3fe3-nfOkO6KRDQCfKIz0eGFrkcIxg2YQDwX9_gLfelwEx5kZ_HJ8XAafTpeY8XJvDaz3cywW_366DcOdSW4_ygjUMNAshanx70dRvoiPmXWDi5oZDQZKsoFfqeO3rMpkrfbI6chdf7jOD3IBgvlw4arAJRtLFebPw/s320/images.jpg
 

        Já narrei alguns dos episódios da sua luta com elas, em um modesto livro onde expus grande parte de sua vida e descrevi o seu triste fim.

        De uns tempos a esta parte, toda gente, especialmente os agricultores da administração, deu em se preocupar com tão daninhos e inteligentes insetos; e, se Policarpo vivesse, ficaria exuberantemente satisfeito com isso.

        O senhor prefeito, em boa hora, deitou um regulamento, que cogita desse assunto, sobremodo importante para todas espécies de cultura.

        Não li todo o regulamento, mas os jornais deram extratos e, por eles soube que sua excelência por artigo do mesmo, manda o proprietário, o arrendatário ou o locatário extinguir os formigueiros que houver nas respectivas propriedades.

        Sem ser versado em leis, julgo que já existia uma velha postura municipal nos mesmos termos. Creio que foi Policarpo Quaresma quem me informou isso.

        Essa velha postura nunca produziu efeito, como o artigo do regulamento do senhor Amaro nada adiantará, e isto pelo simples fato de não determinar precisamente quem deve ma­tar as formigas.

        A lei cita três espécies de tenentes do terreno, mas não diz claramente qual deles é o responsável, de modo a estar sempre disposto o locatário a empurrar a bucha para o proprietário, e este para aquele; e, durante esse jogo de empurra, as formigas vão ficando em paz e devastando hortas, jardins, pomares e outras plantações.

        Nada entendo de leis, nem quero entender. Sou radicalmente contra elas, pois me julgo de algum jeito maximalista; mas estou disposto a transigir a esse respeito, algumas vezes. Vou ceder agora, neste caso...

        O senhor Amaro, que entende delas e foi o alto juiz, pode bem dar mais precisão ao artigo, indicando precisamente quem tem o dever de matar as saúvas que ocupam tal ou qual terreno.

        Podia o senhor doutor prefeito fazer ainda mais. Organizar uma brigada – não precisava brigadas: bastava um re­gimento de homens afeitos ao mister de extinguir formiguei­ros, acantoná-los em determinadas zonas e oferecer os servi­ços deles mediante módico pagamento, aos que tivessem a obrigação legal de exterminar dos seus terrenos os depredadores himenópteros.

        Não se faz e se fez isso com os mosquitos?

        Poder-se-ia, penso eu realizar modestamente o mesmo para guerrear as formigas.

        Então, desde que o regimento ou a brigada estivesse organizada e cantonada nas zonas que necessitam dos seus serviços, o governo municipal devia perseguir os refratários com todo o rigor da lei.

        Julgo tudo isso prático, porque, morando em pequena chácara, em Todos os Santos e tendo o porão da casa cheio de formigueiros, não os extermino por dois motivos: 1º) não as sei matar e não conheço quem saiba; 2ª) mesmo que soubesse matar saúvas muito humanamente, em face da lei dúbia, es­tava disposto a empurrar a bucha para o proprietário que pode mais do que eu. Eis aí.

Lanterna, Rio, 4-5-1918.

Entendendo a crônica:

01 – Como o narrador introduz a sua preocupação com as saúvas e qual é a figura literária do próprio autor que ressurge nessa lembrança?

      O narrador revela que a preocupação com as formigas saúvas vem desde a infância, período em que ouviu o seu velho amigo Policarpo Quaresma narrar os suplícios sofridos por elas ao tentar se tornar agricultor. Essa menção resgata diretamente o protagonista do romance mais famoso de Lima Barreto (Triste Fim de Policarpo Quaresma), servindo de gancho nostálgico e afetivo para introduzir a discussão sobre o combate a esses insetos.

 02 – Qual é a avaliação que o cronista faz sobre a nova medida adotada pelo senhor prefeito a respeito dos formigueiros?

      O cronista reconhece a importância do tema para a agricultura, mas aponta que a nova medida — um regulamento baixado pelo prefeito que obriga o proprietário, o arrendatário ou o locatário a extinguir os formigueiros — é ineficaz. Para ele, o texto legal repete o erro de velhas posturas municipais ao não definir com precisão de quem é a responsabilidade direta pela execução da tarefa.

 03 – Por que, segundo o texto, a indefinição da lei favorece a proliferação contínua das saúvas?

      A indefinição da lei gera o famoso "jogo de empurra". Como o regulamento cita três figuras diferentes ligadas ao terreno (o proprietário, o arrendatário e o locatário) sem apontar um culpado exclusivo, cada um transfere a obrigação para o outro. Enquanto os envolvidos discutem e evitam assumir o encargo, as formigas permanecem em paz, destruindo hortas, pomares e jardins sem qualquer interferência.

 04 – Como o narrador define sua própria relação ideológica com as leis e de que maneira ele ironiza essa posição no contexto da crônica?

      O narrador afirma de forma bem-humorada que nada entende de leis e que é radicalmente contra elas, considerando-se de algum modo um "maximalista". Contudo, ele ironiza sua própria postura ao dizer que está disposto a transigir e ceder exceções naquele momento específico, demonstrando que, apesar de sua repulsa teórica às normas, reconhece a necessidade de regras claras para solucionar problemas práticos da sociedade.

 05 – Qual é a solução prática e inovadora sugerida pelo cronista para que o poder público realmente ajude a combater as formigas na cidade?

      O cronista sugere que o governo municipal vá além da exigência legal e organize uma brigada ou um regimento de trabalhadores especializados na extinção de formigueiros. Esses profissionais deveriam ser acantonados em zonas críticas e oferecer seus serviços mediante um pagamento módico aos cidadãos que têm a obrigação legal de limpar seus terrenos, facilitando o extermínio prático dos insetos.

 06 – Qual analogia o autor utiliza para defender a viabilidade de sua proposta de combate às saúvas pela prefeitura?

      Para fundamentar sua ideia, o autor faz uma analogia direta com as medidas de saúde pública adotadas contra os mosquitos. Ele questiona se o mesmo esforço prático e organizado que já se fazia (e se faz) no combate aos vetores de doenças não poderia ser modestamente replicado para guerrear as formigas nas zonas urbanas e suburbanas.

 07 – Que motivos pessoais o próprio narrador utiliza para justificar o fato de não eliminar os formigueiros localizados em sua própria residência?

      Morando em uma pequena chácara no bairro de Todos os Santos com o porão cheio de formigueiros, o narrador justifica sua inércia com dois argumentos principais: primeiro, porque não sabe como matar formigas e desconhece quem saiba fazê-lo; segundo, porque mesmo que soubesse eliminá-las de forma humanitária, a ambiguidade da lei o faria preferir "empurrar a bucha" para o proprietário do imóvel, já que este detém maior poder financeiro ou jurídico.

 

 

 

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

CRÔNICA: BRASILEIRO NÃO GOSTA DE LER? LYA LUFT - COM GABARITO

 Crônica: Brasileiro não gosta de ler?

            Lya Luft


        Não é a primeira vez que falo nesse assunto, o da quantidade assustadora de analfabetos deste nosso Brasil. Não sei bem a cifra oficial, e não acredito muito em cifras oficiais. Primeiro, precisa ser esclarecida a questão do que é analfabetismo. E, para mim, alfabetizado não é quem assina o nome, talvez embaixo de um documento, mas quem assina um documento que conseguiu ler e... entender. A imensa maioria dos ditos meramente alfabetizados não está nessa lista, portanto são analfabetos – um dado melancólico para qualquer país civilizado. Nem sempre um povo leitor interessa a um governo (falo de algum país ficcional), pois quem lê é informado, e vai votar com relativa lucidez. Ler e escrever faz parte de ser gente.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiePwzsLyGSXY2ghv8dzeM2dPXAb03DT1avJM6y0pWrAnCrlSZ5hrwbe8iWsfwa3Vmd1Yq8NBs6uL2illWmqiBRCLicSPS7j6Gj2XyCFIgrNPeyq8IzLN9CVLKcS5sXkHIYFM18TQdcYsIiVhWxp8FHLET4o1rFleiBlgG3JHXNg6azHsIk5BuNY2jq62k/s320/images.jpg


        Sempre fui de muito ler, não por virtude, mas porque em nossa casa livro era um objeto cotidiano, como o pão e o leite. Lembro de minhas avós de livro na mão quando não estavam lidando na casa. Minha cama de menina e mocinha era embutida em prateleiras. Criança insone, meu conforto nas noites intermináveis era acender o abajur, estender a mão, e ali estavam os meus amigos. Algumas vezes acordei minha mãe esquecendo a hora e dando risadas com a boneca Emília, de Monteiro Lobato, meu ídolo em criança: fazia mil artes e todo mundo achava graça.

        E a escola não conseguiu estragar esse meu amor pelas histórias e pelas palavras. Digo isso com um pouco de ironia, mas sem nenhuma depreciação ao excelente colégio onde estudei, quando criança e adolescente, que muito me preparou para o mundo maior que eu conheceria saindo de minha cidadezinha aos 18 anos. Falo da impropriedade, que talvez exista até hoje (e que não era culpa das escolas, mas dos programas educacionais), de fazer adolescentes ler os clássicos brasileiros, os românticos, seja o que for, quando eles ainda nem têm o prazer da leitura. Qualquer menino ou menina se assusta ao ler Macedo, Alencar e outros: vai achar enfadonho, não vai entender, não vai se entusiasmar. Para mim esses programas cometem um pecado básico e fatal, afastando da leitura estudantes ainda imaturos.

        Como ler é um hábito raro entre nós, e a meninada chega ao colégio achando livro uma coisa quase esquisita, e leitura uma chatice, talvez ela precise ser seduzida: percebendo que ler pode ser divertido, interessante, pode entusiasmar, distrair, dar prazer. Eu sugiro crônicas, pois temos grandes cronistas no Brasil, a começar por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, além dos vivos como Verissimo e outros tantos. Além disso, cada um deve descobrir o que gosta de ler, e vai gostar, talvez, pela vida afora. Não é preciso que todos amem os clássicos nem apreciem romance ou poesia. Há quem goste de ler sobre esportes, explorações, viagens, astronáutica ou astronomia, história, artes, computação, seja o que for.

        O que é preciso é ler. Revista serve, jornal é ótimo, qualquer coisa que nos faça exercitar esse órgão tão esquecido: o cérebro. Lendo a gente aprende até sem sentir, cresce, fica mais poderoso e mais forte como indivíduo, mais integrado no mundo, mais curioso, mais ligado. Mas para isso é preciso, primeiro, alfabetizar-se, e não só lá pelo ensino médio, como ainda ocorre. Os primeiros anos são fundamentais não apenas por serem os primeiros, mas por construírem a base do que seremos, faremos e aprenderemos depois. Ali nasce a atitude em relação ao nosso lugar no mundo, escolhas pessoais e profissionais, pela vida afora. Por isso, esses primeiros anos, em que se aprende a ler e a escrever, deviam ser estimulantes, firmes, fortes e eficientes (não perversamente severos). Já se faz um grande trabalho de leitura em muitas escolas. Mas, naquelas em que com 9 ou 10 anos o aluno ainda não usa com naturalidade a língua materna, pouco se pode esperar. E não há como se queixar depois, com a eterna reclamação de que brasileiro não gosta de ler: essa porta nem lhe foi aberta.

                          Fonte: Educar pra Crescer.

Entendendo a crônica:

01 – O que significa ser verdadeiramente alfabetizado segundo a autora?

      Para Lya Luft, ser alfabetizado não é apenas conseguir assinar o próprio nome, mas sim ter a capacidade de ler um documento e compreender completamente o seu conteúdo.

02 – Qual é a crítica feita aos programas educacionais em relação à escolha das leituras escolares?

      A autora critica a obrigatoriedade de impor a leitura de clássicos da literatura brasileira (como Macedo e Alencar) a adolescentes imaturos. Para ela, apresentar obras complexas antes de despertar o prazer de ler assusta e afasta os estudantes dos livros.

03 – Que estratégia a autora propõe para atrair e seduzir os jovens leitores?

      Ela sugere iniciar a formação do leitor com textos mais acessíveis e dinâmicos, como as crônicas, além de permitir que cada pessoa escolha temas de seu próprio interesse (como esportes, artes, história, ciências ou revistas e jornais), mostrando que a leitura pode ser divertida e prazerosa.

04 – De acordo com o texto, qual é o papel do hábito de ler no desenvolvimento do indivíduo?

      A leitura exercita o cérebro, permite o aprendizado contínuo e torna a pessoa mais crítica, curiosa e integrada ao mundo. Além disso, ao informar o cidadão, a leitura o fortalece como indivíduo e possibilita escolhas mais lúcidas e conscientes, inclusive no momento do voto.

05 – Por que a autora considera os primeiros anos de escolarização cruciais para a formação do leitor?

      Porque é na infância que se constrói a base do aprendizado e a atitude em relação ao conhecimento. Se a porta da leitura não for aberta de forma estimulante e eficiente nos primeiros anos, o aluno dificilmente usará a língua com naturalidade, tornando injusto cobrar dele o hábito de ler no futuro.

 

 

 

 

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ROMANCE: A HORA DA ESTRELA - FRAGMENTO - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

 Romance: A hora da estrela – Fragmento

                Clarice Lispector

Trecho I

        Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer. [...]

        Como é que sei tudo o que vai seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. [...]

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhk5eE4nVXM9SVD2xwnEOVXKJsZeBPsS6-zUMyIZV_wyszsW8YJmJLAUZn3hXr2ilgLjhtM2V1KODQK2OYc8nxIYrGifSxiTBmrH8rv52ZcRJ1lnz2ANq23yJOl0eVp0ecDq9TR0sNVutqjVZuXlL2HgcOUXfGIMH08BgLGJr4zrnW5mcCkKjTp6JSzQH4/s320/images.jpg


        Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei. [...].

        O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. É dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida. [...]

        Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de perguntar “que sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “que sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.

Clarice Lispector. A hora da estrela. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981, pp. 16-20.

Trecho II

        Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – para que mais que isso? O seu viver é ralo. Sim. [...]

        Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-quê com o ar de se desculpar por ocupar espaço. [...] Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio. [...]

        Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para que, não se indagava. [...]

        Talvez a nordestina já tivesse chagado à conclusão de que vida incomoda bastante, alma que não cabe bem no corpo, mesmo alma rala como a sua.

Clarice Lispector. Idem, pp. 30-40.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 234.

Entendendo o romance:

01 – No Trecho I, o narrador expressa um sentimento de dever em relação à história da moça nordestina. Qual é a principal motivação apresentada por ele para escrever essa narrativa?

a) A necessidade de resgatar memórias autobiográficas de sua infância no Nordeste.

b) A intenção de criar uma obra de ficção complexa e repleta de mistérios insolúveis.

c) O desejo de demonstrar sua alta habilidade e virtuosismo técnico na arte literária.

d) O compromisso ético e a obrigação de dar visibilidade à vida da moça.

02 – De acordo com as reflexões do narrador no Trecho I, por que a pergunta 'que sou eu?' seria perigosa para a protagonista?

a) Porque a questionamento gera uma necessidade de sentido que a personagem não saberia como satisfazer.

b) Porque essa pergunta a faria perceber que era mais inteligente do que as pessoas ao seu redor.

c) Porque o autoconhecimento a levaria a abandonar imediatamente sua vida no Rio de Janeiro.

d) Porque o ato de se questionar exigiria dela o aprendizado de teorias filosóficas complexas.

03 – No Trecho II, a expressão metafórica 'ela era café frio' é utilizada para descrever a moça. O que essa metáfora sugere sobre a percepção social da personagem?

a) A sua total insignificância e invisibilidade aos olhos das pessoas que passavam por ela.

b) O seu temperamento calmo e controlado diante das adversidades do cotidiano.

c) O seu ressentimento silencioso contra as injustiças da grande cidade.

d) A sua constante busca por momentos de descanso e pausa durante o trabalho.

04 – A analogia entre a moça e um cachorro ('assim como um cachorro não sabe que é cachorro'), apresentada no Trecho II, tem como finalidade explicitar:

a) O desprezo e a agressividade com que ela costumava tratar as pessoas ao seu redor.

b) A ausência de autoconsciência da personagem, o que a preservava de se sentir infeliz.

c) A incapacidade biológica da moça de se comunicar com outros seres humanos.

d) A fidelidade incondicional da personagem em relação aos seus patrões e colegas.

05 – Qual opção sintetiza adequadamente o modo de existência da moça descrito ao longo do Trecho II?

a) Uma trajetória marcada pela busca constante de ascensão social e realizações pessoais.

b) Uma postura de confronto aberto e revolta permanente diante da exclusão social.

c) Uma vida dominada por angústias filosóficas profundas e dor existencial diária.

d) Uma vivência puramente biológica e alienada, pautada no simples ato de vegetar ou respirar.

 

BIOGRAFIA: SE A MEMÓRIA NÃO ME FALHA - A HERANÇA - FRAGMENTO - CLAUDIA ORTHOF PEREIRA LIMA - COM GABARITO

 Biografia: Se a memória não me falha – A herança – Fragmento

        Mamãe nasceu no Rio, no Hospital dos Estrangeiros, em 03 de setembro de 1932, filha de um casal de judeus austríacos, que tinham deixado Viena entre as duas guerras, em busca de paz e trabalho. Seu pai, Vovô Geraldo (Gerhard Orthof), era de uma família de artistas, ele próprio pintor. Seu tio materno foi o músico Arnold Schoenberg, e a mãe, Malvine, era casada com um letrista de operetas vienenses. Esta avó, Vovó Malva, como mamãe dizia, influenciou muito a adolescente Sylvia, com sua irreverência e liberdade. A mãe de Mamãe, Vovó Trude (Gertrud Alice Goldberg, depois Orthof), foi pintora e ceramista. Era de uma família burguesa e rica de Viena, que perdeu tudo na guerra e veio para o Brasil, fugindo do nazismo. Sua mãe, a Vovó Clara de Mamãe, tocava piano e cantava... e chorava a perda de sua terra natal.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhQb5iLvf8FuRlmwc0kxi1f8xahggJU9FfXpfjlc86lYGuW1ZGIq73W2YqNPRF9VMvGv6_JUWf97XztHQ7BXCs6SN9egLAJ7QqG6Lf4aR0UifgpO7cDW32fAhQZvMnwQackPhSe-EXwRQ-RY7ceZ7HqX7N079o2e1N61jY8cpizQA1KOoslUQduJM7CBZA/s320/images.jpg


        Mamãe teve uma infância difícil. Aprendeu a falar primeiro alemão e falava português com sotaque e errado até a idade escolar. Filha única, numa família de imigrantes pobres, que recebia seus avós e tios, chegados da Áustria em guerra. Além de tudo, quando tinha sete anos, seus pais se separaram, numa época em que isto era muito incomum. Meu avô se casou e a sua segunda esposa tinha uma filha da idade de Mamãe. Ela ficou vivendo com Vovó Trude. Não falavam para a menina Sylvia que ela era judia, por temer o preconceito, não falavam alemão na rua para não serem confundidos com nazistas, num Brasil então em guerra, lutando com os aliados. Na escola, as meninas faziam Primeira Comunhão e Mamãe também quis... e fez, sendo batizada por uma família não religiosa.

        Adolescente, conheceu o Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno, e aos quinze anos foi a “Julieta” de Shakespeare. Tio Paschoal, como nós o chamávamos, foi uma figura paterna para Mamãe, e para nós um avô louco e divertido, que telefonava sempre com um apelido diferente, geralmente impublicável. Quando crianças, saíamos do Planalto Central, em Brasília, onde moramos, para fazer as visitas montanhosas aos avós: Vovô Geraldo, pai de Mamãe, em Petrópolis, Vovó Trude, mãe de Mamãe, em Teresópolis, Vovó Adalgisa, mãe de Papai, em Petrópolis, e Paschoal em Santa Tereza.

        Aos 18 anos foi estudar teatro em Paris, onde estreitou os laços com a única irmã de Vovó Trude, a famosa Tia Hedy, que havia fugido para a França durante a guerra. Tia Hedy, depois da morte de vovó, ficou sendo a mãe de Mamãe, e hoje ainda vive em Paris, aos 95 anos, e me falou ontem, por telefone, que estaria agora reunida a nós, em pensamento. Seu filho, Harry, hoje vivendo em Milão, foi o irmão que a Mamãe não teve. Um primo que a ajudou muito pela vida afora, inclusive nos últimos tempos da doença.

        Um ano depois voltou ao Brasil e trabalhou como atriz no Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo (o TBC), e no Rio com os grandes nomes do teatro e da TV, como Cacilda Becker, Walmor Chagas, Ziembinsky, Sérgio Britto, Cleyde Yáconis, Sérgio Cardoso e muito mais.

        Aos 25 anos, falava com Cacilda, no camarim, que estava cansada daquela vida de teatro de noite, ensaio de madrugada, dormir de manhã, televisão (ao vivo – sem videoteipe) à tarde. Queria casar e ter filhos. Papai, Sávio Pereira Lima, estava na plateia. Era um médico amigo de artistas, e Cacilda os apesentou. Pouco depois, Mamãe deixou o teatro e, apaixonada, acompanhou meu pai para uma aldeia de pescadores, Marobá, hoje Nova Viçosa, no sul da Bahia, onde viveu seus primeiros anos de casada, e eu meu primeiro ano de vida. Papai tinha 40 anos, tinha ficado viúvo muito jovem, com um filho pequeno, tinha se casado, tido outro filho e se separado. Com esta vida atribulada, desgostoso com seu destino, se refugiou em Nova Viçosa, onde trabalhava como médico de uma empresa madeireira, único médico da região. [...]

        Dois anos depois fomos morar em Petrópolis, onde nasceu meu irmão Geraldo, e onde conheceu os amigos Pola e Tato Gostkorzewicz e Zilah e Luís Tranin, amigos da vida inteira.

        Em 1959, Juscelino anunciava a construção de Brasília e a mudança da capital. O espírito aventureiro de Papai fez com que nos mudássemos para lá, o início de 60, onde vivemos a vida dos candangos pioneiros de Brasília. Lá nasceu meu irmão Pedro. Papai era médico pediatra da Câmara dos Deputados, foi secretário de Saúde do Distrito Federal, e nossa vida se estabilizou, dentro do que era possível para aquela família ser estável. Mamãe tinha 32 anos, três filhos, dois enteados, um marido respeitado profissionalmente e uma enorme insatisfação profissional.

        Começou a usar sua criatividade na TV Brasília com um programa infantil de fantoches, o Teatro do Candanguinho. Contava histórias infantis na Rádio MEC, era júri do concurso de Miss Brasília e desenhava fantasias para o cabeleireiro Augusto, nos bailes carnavalescos, onde ele ganhava todos os prêmios da categoria “originalidade”. Foi professora na UnB, sem nunca ter sido universitária, e criou um grupo de teatro amador com operários, no SESI, onde encenou “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, numa montagem com atores operários que entusiasmou Paulo Autran, que viajava com a mesma peça numa turnê nacional. [...].

        Nas férias, íamos para o Festival de Inverno de Ouro Preto, onde Mamãe dava cursos de teatro, ou para Festival de Arcozêlo, com Paschoal Carlos Magno e suas inacreditáveis irmãs italianas, tia Aurora, tia Orlanda e a terceira? “Se a memória não me falha...” Era divertido, mas não era fácil. Conciliar o inconciliável... Ser filho de Sylvia Orthof era mais divertido para quem via de fora. De dentro, tivemos tempos difíceis. A liberdade cerceada, a censura dificultava o trabalho de Mamãe. A pressão aumentava e em 1966, aos 34 anos, ela fugiu para Paris, com Vovó Trude, Geraldo e eu, para os braços da Tia Hedy. Mamãe “deu um tempo”, como se diz hoje em dia. Pedro, com 2 anos, e Papai ficaram em Brasília. [...]

        Depois de 4 meses, Papai foi nos buscar. Voltamos à vida familiar em Brasília. Prosperamos junto com a “corrente pra frente, Brasil”, mudamos para uma casa no Lago, mas o cerceamento da liberdade, o cerco militar, a censura e a tortura não deixavam nossa família ser feliz. [...]

        Mais tempos duros vieram. Papai descobriu que estava com câncer e resolveu devolver Mamãe e os filhos ao velho Orthof. Mudamos em 1971 para Petrópolis. Nossa casa em Brasília foi vendida e o dinheiro aplicado na Bolsa, que ruiu naquele ano. Retomamos o convívio familiar com as famílias Orthof e Pereira Lima, e os velhos amigos de Petrópolis. Por pouco tempo, pois alguns meses depois Tato perdia sua mulher e as duas noras num trágico acidente de automóvel. Mais alguns meses e nós voltávamos à Brasília para tentar atender às necessidades da doença de Papai. Mamãe ficou viúva aos 40 anos. Voltamos à Petrópolis, e então os dois amigos viúvos, Mamãe e Tato, se encontraram e se casaram.

        Começou aí a segunda etapa da vida de Mamãe. Recém-casada com Tato, voltou ao Rio e retornou sua vida profissional. Escreveu e dirigiu no MAM (Museu de Arte Moderna), do Rio, a premiada peça infantil “A Viagem do Barquinho”, em que toda a família trabalhava. Do teatro passou à literatura infantil e começou a sua carreira de sucesso como escritora. O casamento fez com que Tato, aposentado como arquiteto, e também ele um artista, retomasse a pintura e o desenho, passando a ilustrador da maioria dos livros de Mamãe. Alguns foram ilustrados por ela própria, outros por meu irmão Gê, e outros por vários desenhistas. [...]

        Mamãe tinha a vida cada vez mais voltada para a literatura, sendo reconhecida como escritora. Pedro cresceu, Mamãe e Tato mudaram para Petrópolis e produziram mais de cem livros. [...]

        Mamãe teve uma vida plena e rica, e neste inevitável inventário, é bom ver que ela fez a sua parte, o seu melhor possível. Foi casada por 15 anos com Papai, e por 24 com Tato. Fez o melhor que pôde o papel de madrasta dos dois filhos de cada marido. Foi sincera e tentou superar as dificuldades. Teve nós três, seus filhos, seus quatro netos e mais todos os outros emprestados, filhos dos enteados, do genro, da nora. Foi generosa. Criou, trabalhou, usou seu potencial, não desperdiçou seu talento, foi coerente com sua ideologia de liberdade e de paz.

        Agora, no início do ano passado, quando descobrimos o câncer que a levou, imaginávamos que teria poucos meses de vida. Ainda viveu um ano e meio e nesse tempo escreveu vários livros, enfrentando a quimioterapia, os exames, duas cirurgias e três internações hospitalares. Foi pena ter ido agora, com tanto ainda por fazer. [...]

Trechos da biografia lida por Claudia Orthof Pereira Lima, filha de Sylvia Orthof, na  Missa de 7º dia da mãe, realizada na igreja de São Conrado, no Rio de Janeiro, em 31 de julho de 1997. Fonte: www.docedeletra.com.br

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 11-15.

Entendendo a biografia:

01 – Justifique o título da biografia de Claudia Orthof.

      A autora é filha de Sylvia Orthof e está narrando fatos que lhe foram contados pela mãe e outros que ela mesma vivenciou. “Se a memória não me falha” porque foram muitos os momentos importantes e marcantes vividos pela família e talvez ela pudesse se esquecer de citar algum fato, algum nome de pessoa... “A herança” porque para ela todas as experiências vividas ao lado da mãe e o modelo positivo deixado por ela foram o melhor legado que Claudia, como filha, pode receber.

02 – Por que Claudia Orthof usa as iniciais maiúsculas nos nomes Mamãe, Papai, Vovô, Vovó e Tia?

      Porque estão no lugar dos nomes próprios e foram pessoas importantes na vida de Claudia.

03 – Aos 25 anos Sylvia Orthof conheceu Sávio Pereira Lima no Rio de Janeiro. Os dois se uniram e foram morar em Nova Viçosa. Sobre esse fato responda:

a) Em que ano isso aconteceu?

      Em 1957.

b) A partir dessa data, quantas mudanças de cidade aconteceram na vida de Sylvia? Faça um pequeno esquema das mudanças para comprovar sua resposta. Comece assim: Nova Viçosa – 

      Foram 10 mudanças: Nova Viçosa – Petrópolis – Brasília – Paris – Brasília – Petrópolis – Brasília- Petrópolis – Rio – Petrópolis.

04 – Quais figuras importantes do meio artístico e cultural foram fundamentais na formação de Sylvia Orthof durante a sua adolescência?

      Sylvia foi muito influenciada por Paschoal Carlos Magno, criador do Teatro do Estudante, que funcionou como uma figura paterna para ela (aos 15 anos, ela atuou como "Julieta"). Além disso, aos 18 anos, ao estudar teatro em Paris, estreitou laços com sua Tia Hedy, outra referência marcante em sua vida.

05 – Quais fatores tornavam o ambiente familiar de Sylvia bastante atípico e desafiador durante a sua infância?

      Ela era filha única de imigrantes austríacos pobres fugidos do nazismo, que não falavam alemão na rua por medo de preconceito e escondiam a origem judaica. Além disso, enfrentava barreira idiomática (falava português errado até entrar na escola) e lidava com a separação dos pais aos sete anos, algo muito incomum para a época.

06 – Como Sylvia Orthof conseguiu canalizar a sua criatividade e insatisfação profissional no período em que viveu como pioneira em Brasília?

      Sylvia criou o programa infantil de fantoches "Teatro do Candanguinho" na TV Brasília, contava histórias infantis na Rádio MEC, desenhava fantasias carnavalescas premiadas, foi professora na UnB sem curso superior e dirigiu um grupo de teatro amador com operários no SESI.

07 – O que motivou a fuga de Sylvia Orthof com seus dois filhos e sua mãe para Paris no ano de 1966?

      A fuga ocorreu devido à forte pressão do regime militar instaurado no Brasil, que resultou na perda de liberdade, no cerceamento de suas atividades e na censura que dificultava seu trabalho artístico.

08 – De que maneira se deu o surgimento da carreira de Sylvia Orthof como escritora de literatura infantil?

      Após ficar viúva aos 40 anos e se casar com Tato Gostkorzewicz, Sylvia voltou ao Rio de Janeiro e escreveu/dirigiu a premiada peça infantil "A Viagem do Barquinho" no MAM. O sucesso nos palcos serviu de transição para que ela começasse a escrever e publicar literatura infantil.

09 – Qual foi o papel de Tato, segundo marido de Sylvia, na produção literária da autora?

      Tato, que era arquiteto aposentado e artista, passou a ilustrar a grande maioria dos livros infantis escritos por Sylvia durante a fase em que moravam em Petrópolis.

10 – Como a autora do texto descreve a postura de sua mãe durante o último ano e meio de vida, após o diagnóstico do câncer?

      A autora destaca que Sylvia viveu de forma plena e produtiva até o fim. Mesmo enfrentando o tratamento do câncer — incluindo quimioterapia, cirurgias e internações —, Sylvia manteve o ritmo e escreveu vários livros nesse período.

ARTIGO DE OPINIÃO: PSICOLOGIA DA ADOLESCÊNCIA - DESPERTAR PARA A VIDA - FRAGMENTO - FERNANDA PAROLARI NOVELLO - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Psicologia Da Adolescência – Despertar Para A Vida – Fragmento

        Fernanda Parolari Novello

        [...]

        Crise da adolescência, fase difícil, idade ingrata... são as taxações mais comuns. Você começa a ter reações que lhe são estranhas. Vêm à tona milhares de dúvidas inesperadas e persistentes que passam a martiriza-lo.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh-DHeCH9Xc71oKP8uXSVrF4wA1FUUndnkhsmpWFOw_q2DCdzNg8RA8LEzG-IOEA_jVaa9FQq1VP9RjO5L2j7wuLJYnTGGu6ToNQZamC9-SJFLF6O-AbPtoRV5e_3Wjo1XpDvhJxYNuofqXvdrdS9wCfkFQamGrJq6XiPnDnZk7TUvhYy3mQ1CuQQmvJSA/s1600/images.jpg


        Durante a infância foi absorvido, sem valorização, seleção ou crítica, todo um cabedal de conhecimentos. Como uma semente, começa a germinar, a brotar uma força interior muito forte que necessita sair de dentro de você para a formação de seu Eu individual.

        Mudam as manifestações afetivas, você adquire maior capacidade de especulação, aguça-se o espírito crítico, a sexualidade evolui, surgem os problemas existenciais e a revolta contra os valores preestabelecidos pelos educadores.

        Tudo isso é natural, pois existe dentro de você a importância da criação de uma filosofia de vida sua, particular, que esteja de acordo com o que você é.

        A confiança e o apoio nos pais desaparecem repentinamente, pois você sempre sente necessidade de se diferenciar deles. Ao tentar adquirir segurança em si mesmo, tudo parece embaralhar-se.

        Você não aceita o que lhe foi imposto, mas também não possui ainda ideias próprias. Contudo, as experiências passadas devem ser aproveitadas quando válidas, levando em conta os prós e os contras vivenciados.

        Você, que deixou de ser criança mas não é ainda adulto, começou uma longa caminhada para ao amadurecimento, que vem lento e gradual. Num entreabrir-se sereno.

        Em fase, embora às vezes lhe pareça uma barreira intransponível, passará mais depressa do que você imagina. Não desanime, tenha paciência e confiança em você. Nada é tão difícil nem impossível que não possa ser bem vivido.

        A convivência continuada com você, adolescente, e com o processo da psicologia moderna, permitem afirmar que as dificuldades são, em linhas gerais, as mesmas para todos os adolescentes, variando apenas de intensidade e duração.

        Indubitavelmente, se acompanhada de esclarecimentos físicos e psicológicos, esta evolução pode ser mais tranquila. Trata-se de preparar-se para enfrentar as dificuldades e prevenir-se contra problemas que podem atingir tanto você, adolescente, como seus pais.

        [...]

Fernanda Parolari Novello. Psicologia da adolescência: o despertar para a vida. São Paulo, Paulinas, 1990. p. 41-3.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 21-22.

Entendendo o artigo:

01 – Quais são as rotulações ou taxações mais comuns atribuídas à adolescência citadas no início do texto?

      As taxações mais comuns são "crise da adolescência", "fase difícil" e "idade ingrata".

02 – Como a autora descreve o processo de transformação interna que o adolescente vivencia em relação aos conhecimentos absorvidos na infância?

      Ela explica que o conhecimento absorvido na infância começa a germinar como uma semente, fazendo brotar uma força interior necessária para a formação do "Eu individual".

03 – Segundo o texto, o que acontece com a relação de confiança e apoio que o jovem tinha com os pais?

      A confiança e o apoio nos pais desaparecem repentinamente, pois o adolescente sente uma necessidade constante de se diferenciar deles para adquirir segurança própria.

04 – Qual é a justificativa da autora para o fato de o adolescente se revoltar contra os valores preestabelecidos?

      Ela afirma que essa revolta é natural, pois existe no jovem a necessidade de criar uma filosofia de vida própria e particular, alinhada com quem ele é.

05 – De acordo com o texto, o que pode tornar a evolução da adolescência um processo mais tranquilo?

      A evolução pode ser mais tranquila se for acompanhada por esclarecimentos físicos e psicológicos, ajudando a prevenir problemas tanto para o adolescente quanto para seus pais.