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domingo, 12 de abril de 2026

MÚSICA(ATIVIDADES): SEMENTES - FRAGMENTO (PART. DRIK BARBOSA) - EMICIDA - COM GABARITO

 Música (Atividades): Sementes – Fragmento (part. Drik Barbosa)

            Emicida

Se tem muita pressão
Não desenvolve a semente
É a mesma coisa com a gente
Que é pra ser gentil
Como flor é pra florir
Mas sem água, Sol e tempo
Que botão vai se abrir?
É muito triste, muito cedo
É muito covarde
Cortar infâncias pela metade
Pra ser um adulto, sem tumulto, não existe atalho
Em resumo
Crianças não têm trabalho, não, não, não
Não ao trabalho infantil

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEghdBI4rburCRpSl7RwnW6FpYI7Hpv6rjzb5TvgMSiJNA7V3-umuDp3fLejYo9msio2WkQUwQUXMhAJlEAiRCPGJAq19zL552tfXPacpz_juhxC13V5-S8cFcQWgm2jDmt9ZrLKInEBzc8bHx_W1un1VCJaYCAIyz8LH-ChV8oFw4NHMR0RPH5_1_oA9xE/s320/EMICIDA.jpg


Desde cedo, 9 anos, era um pingo de gente
Empurrado a fórceps, pro batente
O bíceps dormente, a mão cheia de calo
Treme, não aguenta um lápis, no fundão de São Paulo (puts)
Se a alma rebelde se quer domesticar
Menina preta perde infância, vira doméstica
Amontoados ao relento, sem poder se esticar
Um baobá vira um bonsai, é só assim pra explicar
Que o nosso povo nas periferia
Precisa encher suas panela vazia
Dignidade é dignidade, não se negocia
Porque essa troca leva infância, devolve apatia
E é pior na pandemia
Sobra ferida na alma
Uma coleção de trauma
Fora a parte física
E nóis já tá na parte crítica
Pra que o nosso futuro não chore
A urgência é: Precisamos ser melhores, viu?

[...]

SEMENTES. Intérpretes: Emicida, Drik Barbosa. Composição: Emicida; Drik Barbosa; Nave; Thiago Jamelão. Sementes: single de Emicida, Drik Barbosa. São Paulo: Laboratório Fantasma, 2020. Digital (3min56s).

Fonte: Coleção Rotas. Língua Portuguesa. Ensino fundamental. Anos finais. 8º ano/Sandra Moura Severino (org.) – Brasília – Editora Edebê Brasil, 2020. p. 236.

Entendendo a música:

01 – No início da letra, o autor utiliza uma metáfora comparando o desenvolvimento humano ao de uma planta. O que a 'semente' representa nesse contexto?

a) A semente é uma referência direta à agricultura, tema principal da música.

b) A semente simboliza o dinheiro que as famílias ganham com o trabalho infantil.

c) A semente representa o trabalho pesado que a criança deve realizar desde cedo.

d) A semente representa o potencial de uma criança que precisa de condições adequadas para crescer.

02 – O que o trecho 'Cortar infâncias pela metade' significa em relação ao trabalho infantil?

a) Dividir o tempo da criança entre a escola e o trabalho doméstico.

b) Uma técnica de amadurecimento precoce incentivada pelos autores.

c) A interrupção do desenvolvimento natural e do direito de viver a infância plenamente.

d) O ato de crianças ajudarem os pais em tarefas simples de casa.

03 – A música afirma categoricamente: 'Crianças não têm trabalho'. Qual é a principal mensagem dessa afirmação?

a) Que não existem vagas de emprego para menores de idade no Brasil.

b) Que as crianças são preguiçosas e não gostam de obrigações.

c) Que as crianças não sabem realizar tarefas de forma eficiente.

d) Que a única função da criança deve ser o estudo e o brincar, livre de exploração laboral.

04 – Na estrofe de Drik Barbosa, ela diz: 'Um baobá vira um bonsai'. O que essa comparação simboliza?

a) A adaptação necessária para sobreviver em apartamentos pequenos.

b) A limitação forçada do potencial de uma pessoa devido às condições sociais.

c) A beleza de se tornar um adulto resiliente nas periferias.

d) O crescimento natural de árvores em diferentes ambientes.

05 – De acordo com a letra, por que muitas famílias nas periferias acabam submetendo crianças ao trabalho?

a) Para que os filhos aprendam o valor do dinheiro desde cedo.

b) Porque o trabalho é visto como uma forma de lazer na comunidade.

c) Por falta de interesse dos pais na educação dos filhos.

d) Pela necessidade urgente de combater a fome e 'encher as panelas'.

06 – Quais são as consequências físicas e emocionais do trabalho infantil mencionadas no fragmento?

a) Apenas o cansaço passageiro que se resolve com descanso.

b) Melhora na caligrafia e no desempenho escolar nas escolas de São Paulo.

c) Mãos com calos, bíceps dormentes e traumas na alma.

d) Maior força física e amadurecimento emocional precoce.

07 – O que a letra sugere quando diz que 'Dignidade não se negocia'?

a) Que os direitos básicos de uma criança não devem ser trocados por sobrevivência econômica.

b) Que as negociações salariais devem ser feitas apenas por adultos.

c) Que o trabalho infantil é aceitável se o salário for digno.

d) Que a dignidade só pode ser alcançada por meio do trabalho árduo.

 

 

CARTA AO LEITOR: O FUTURO DA EDUCAÇÃO - FRAGMENTO - VEJA - COM GABARITO

 Carta ao Leitor: O futuro da educação – Fragmento

          É caminho sem volta: recursos tecnológicos precisam urgentemente ser aplicados com inteligência na instrução de crianças e jovens brasileiros

        “Eduquem as crianças, e não será necessário punir os adultos”, escreveu o filósofo e matemático grego Pitágoras (570 a.C.-495 a.C.), numa frase que atravessou milênios sem nunca ter perdido sua perturbadora relevância. A educação, não há dúvida, é o melhor termômetro para medir o avanço de qualquer sociedade, longa estrada a ligar o passado, o presente e o futuro das civilizações. A pandemia do novo coronavírus, que tem forçado a humanidade a se reinventar, mexeu com os alicerces de quase tudo, na economia, no trabalho, na diversão — mas poucas transformações foram mais ruidosas do que a transposição das salas de aula para a casa dos alunos. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiYuKmI5LHGWZpyIr9iIu82dTUXAGDw63BVZdGwMA3i4T7EDSvT2uWqpYqj8j21qb7HS68uN_3dS5YlSibv48I7baBQG_ynwqSoJNJZbMdTl2RuVj48Y5sttTw8S7-8Vhk3Hrazb9TTXJoFXk4-_GASJ2839NVVQtVQMTFcTwkhi4CBLo_ACypLcEXmQ7o/s1600/LEITOR.jpg


O ensino on-line, compulsório e emergencial, pegou de surpresa as instituições educacionais, professores e pais — e expôs, inapelavelmente, as mazelas históricas do sistema brasileiro, da infância à idade adulta. [...] Uma pesquisa do Instituto Península com 7 700 professores do ensino fundamental ao médio mostra que 83% deles se sentem despreparados para preleções a distância. Vire-se a câmera de videoconferência para o outro lado, e o que se percebe, no cotidiano doméstico, são famílias tensas, estudantes desatentos, cansados, invariavelmente distraídos com outros atrativos – sobretudo os menores. É assim nos colégios privados, e pior, muito pior, nos públicos. [...].

        Os tropeços, contudo, podem servir de amarga experiência para o que virá em seguida, com correções e um olhar inédito, mais cuidadoso [...]. Não será fácil, e desde já há uma indagação: como recuperar o conteúdo perdido? Uma reportagem desta edição de VEJA, coordenada pela editora Sofia Cerqueira, mergulha nas dificuldades atuais e mostra as saídas possíveis do que virá amanhã. Sabe-se que a rotina será feita de medidas de segurança, com máscaras, distanciamento, revezamento de presença etc. Mas haverá uma outra mudança, inevitável: o uso de recursos tecnológicos, estes com os quais ainda não aprendemos a lidar — e que precisam urgentemente ser aplicados com inteligência na instrução de crianças e jovens brasileiros. É caminho sem volta, que países como a Finlândia e a Coreia do Sul já trilham há algum tempo, muito antes do surto. Trata-se, enfim, de aproveitar o momento para iniciar o salto educacional tão esperado, eternamente adiado, como se a máxima de Pitágoras pudesse ser apagada. Não pode. Não há futuro para um país sem educação de qualidade.

Carta ao leitor: O futuro da educação. Veja, Edição 2693, 1 jul. 2020. Disponível em: https://veja.abril.com.br/revista-veja/carta-ao-leitor-o-futuro-da-educacao. Acesso em: 16 out. 2020.

Fonte: Coleção Rotas. Língua Portuguesa. Ensino fundamental. Anos finais. 8º ano/Sandra Moura Severino (org.) – Brasília – Editora Edebê Brasil, 2020. p. 222.

Entendendo a carta:

01 – Como a frase de Pitágoras é utilizada para fundamentar o argumento central do texto?

      A frase "Eduquem as crianças, e não será necessário punir os adultos" serve para enfatizar que a educação é a base de qualquer sociedade civilizada. O autor a utiliza para mostrar que investir no ensino não é apenas uma escolha pedagógica, mas a única forma de garantir o futuro e o progresso de um país, evitando problemas sociais maiores no futuro.

02 – Segundo o texto, o que a pandemia do novo coronavírus "expôs inapelavelmente" em relação ao sistema de ensino brasileiro?

      A pandemia expôs as mazelas históricas do sistema educacional brasileiro, da infância à idade adulta. O ensino on-line emergencial revelou a falta de preparo das instituições e dos professores, além das dificuldades das famílias e a desigualdade profunda entre o ensino público e o privado.

03 – Quais dados o texto apresenta para ilustrar o despreparo dos docentes e as dificuldades dos alunos com o ensino a distância?

      O texto cita uma pesquisa do Instituto Península, indicando que 83% dos professores de ensino fundamental e médio se sentem despreparados para dar aulas remotas. Além disso, descreve o lado dos alunos como um cenário de famílias tensas e estudantes desatentos, cansados e distraídos, especialmente os mais novos.

04 – O autor defende que o uso de recursos tecnológicos na educação é uma escolha temporária ou definitiva? Justifique.

      É defendido como uma mudança definitiva e inevitável, um "caminho sem volta". O autor afirma que esses recursos precisam ser aplicados com inteligência na instrução de crianças e jovens, seguindo o exemplo de países como Finlândia e Coreia do Sul, que já adotavam essas tecnologias muito antes da crise sanitária.

05 – Qual é a visão do autor sobre os "tropeços" e as dificuldades enfrentadas durante a transposição das salas de aula para a casa?

      O autor acredita que as dificuldades podem servir como uma "amarga experiência" para o futuro. O objetivo seria aproveitar o momento de crise para realizar correções, adotar um olhar mais cuidadoso e dar o "salto educacional" que o Brasil sempre adiou, visando finalmente uma educação de qualidade.

 

domingo, 29 de março de 2026

PARÁBOLA: O RAPAZ E O ESPELHO - COM GABARITO

 Parábola: O Rapaz e o Espelho


Certo dia, um rapaz desiludido resolveu seguir o exemplo dos "contos da infância". Colocou-se frente ao seu espelho e perguntou:
- Querido espelho, olhe para mim e me diga: Existe alguém mais infeliz do que eu?
- Com certeza, respondeu o espelho, existe alguém mais triste que tu neste momento. E este alguém sou eu.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhvvRauLiZv1pccXCwoBDOyYIAlsu4tuPr9Q5eOEgA8jvT8Tx_o2EcCGCnfofAYiieQAisYeX6G3PNXTk3tokXg5my6btyz4Fci4IOjHvDPPS8C-0Atdwcp8mX1tz5F0cgqb4YmXvUAhwQuFQz3LVc4a_zeHatd3mlqQfV7Ht9Ot_C5gCXuuNri3pVWzBM/s320/ESPELHO.jpg


O rapaz olhou espantado. Não esperasse que um espelho falasse, e ainda contra ele. Mas o espelho prosseguiu:
- Tu não imaginas a dor que eu sinto ao ver, no meu reflexo, uma pessoa que deixou seus problemas tomarem conta de sua vida, que não tem mais vontade de lutar e principalmente que não consegue ver dentro de si as suas qualidades suas capacidades, seu talento. Queria que estivesse no meu lugar pra ver.
- Tu és uma pessoa tão inteligente, que fala para todos que tem um Deus, e tantas vezes falou do amor de Deus, agora se mostra tão derrotado. Deus é tão pequeno assim em tua vida para que tu te sintas tão inferior assim?
- É pena que tu não vejas através de mim toda a tua facilidade em lidar com as pessoas, o quanto é expressiva a tua voz e tua palavra, quanto teu coração é forte, e o quanto as pessoas te amam. Olhe para ti! Levanta essa cabeça, pois dificuldades todos temos, assim como todos guardam dentro de si algo especial para dar, a capacidade de tornar a própria vida prazerosa.
Quantas são as pessoas que gostariam de ser como tu és: saudável, inteligente e com toda a vida pela frente! e no entanto, muitas delas são felizes e agradecem à Deus pelas suas vidas!
Fez uma pausa e continuou desabafando:
- Use a tua sensibilidade - ela é essencial para a vida. Motive-se: ao acordar pela manhã, pense algo do tipo: "hoje meu dia será produtivo, alegre e cheio de vida, pois tenho Deus comigo." . Faça isso com amor no coração e concentre em teus objetivos. De hoje em diante, quero ver outra imagem refletida em mim. Uma imagem de alegria interior.

***

A vida é tão curta. Não percas tempo com os momentos ruins. Faça deles experiências positivas para continuar tua vida. Ser feliz depende de uma vida em comunhão com Deus e em harmonia contigo mesmo. O que vem depois disso, são apenas resultados.

Tua postura diante da vida determina o rumo a tomar.

 

Entendendo o texto

 

01. Por que o espelho afirma estar mais triste que o próprio rapaz?

a) porque o espelho foi quebrado pelo rapaz em um momento de fúria e desespero.

b) porque o espelho se sente sozinho e abandonado em um quarto escuro.

c) porque ele sente dor ao refletir alguém que desistiu de lutar e não vê as próprias qualidades.

d) porque o espelho gostaria de ter uma vida humana e poder caminhar pelo mundo.

 

02. Qual é a crítica central que o espelho faz em relação à fé do rapaz?

a) o espelho afirma que Deus não existe e que o rapaz está perdendo tempo com orações.

b) o espelho questiona por que o rapaz se sente tão derrotado se ele sempre falou do amor de Deus.

c) o espelho sugere que o rapaz mude de religião para conseguir ser feliz novamente.

d) o espelho diz que Deus é pequeno demais para resolver problemas tão grandes.

 

03. De acordo com o espelho, quais são as características positivas do rapaz que ele mesmo não consegue enxergar?

a) a sua grande riqueza material e o sucesso em seus negócios internacionais.

b) a habilidade em lidar com pessoas, a voz expressiva e o fato de ser amado pelos outros.

c) a capacidade de realizar milagres e prever o futuro das pessoas ao seu redor.

d) o fato de ele ser o melhor lutador da região e ter vencido muitas batalhas.

 

04. Que conselho prático de motivação o espelho dá ao rapaz para o início de cada dia?

a) ele aconselha o rapaz a dormir até mais tarde para evitar enfrentar os problemas matinais.

b) ele sugere que o rapaz compre um espelho novo para ver uma imagem diferente.

c) ele indica que o rapaz deve pensar, ao acordar, que o dia será produtivo e alegre com a presença de Deus.

d) ele recomenda que o rapaz faça exercícios físicos intensos para esquecer as tristezas.

05. Segundo a conclusão do texto, do que depende o ato de "ser feliz"?

a) depende de viver em comunhão com Deus e em harmonia consigo mesmo.

b) depende exclusivamente de ter sorte e não encontrar nenhuma dificuldade no caminho.

c) depende apenas de ter saúde física e inteligência superior aos demais.

d) depende de quanto tempo a pessoa gasta lamentando os momentos ruins da vida.

 

CONTO: OS SALTEADORES - HANZ CHRISTIAN ANDERSEN - COM GABARITO

 Conto: Os Saltadores

              Hans Christian Andersen

 

Um dia a Pulga, o Gafanhoto e a Cigarra resolveram verificar qual deles dava o pulo mais alto; convidaram todo o mundo e mais alguém que quisesse assistir ao espetáculo podia vir. Eram na verdade três saltadores famosos os que estavam ali reunidos!

 Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyyuoYvStDjQpkIayvhz3NiWejIYfq_PEFWCDnXa_SidH8-50N-jRfn40CtuQesYcv2saJpSuQ5sMm8bWeDOVhK-1HhPnN9Gk2SmTzMfGqBulavVTzhVQtHT3uix6Y00Xe8DlLzPbI3wRzmTgMCjkY3THhCvH6vNBjGEeC7ig26l2kLF8YOb56LMgnKV0/s1600/pulga.png


- Darei a minha filha ao que der o salto mais alto - disse o Rei - porque não teria graça nenhuma que esta gente desse pulos assim, por nada.
Foi o Pulgo quem saltou primeiro. Tinha muito boas maneiras; cumprimentou toda a assistência com muita elegância, porque tinha nas veias sangue nobre, que lhe vinha do lado materno e estava habituado à sociedade das criaturas humanas - o que traz muita diferença.
Veio depois o Gafanhoto. Era, está visto, um tanto pesado, mas ainda assim fazia muito boa figura, realçada por um uniforme verde, muito distinto. Além disso, aquele cavalheiro sustentava que pertencia a uma família do Egito, muito antiga, e que lá naquela terra era ele tido em muito alta conta. E tanto isso era verdade que tinham ido buscá-lo ao prado, e deram-lhe por moradia uma casa de campo de três andares, feita de cartas de baralho, com os lados das figuras virados para dentro. E as portas e janelas eram recortadas mesmo no corpo do rei de copas.
- Eu canto tão bem - dizia ele - que dezesseis grilos nativos, que tinham trilado desde a mais tenra infância, sem obter um chalé, emagreceram tanto que ficaram ainda mais finos do que já eram, depois de me ouvirem.
Pulgo e gafanhoto proclamaram, pois, no devido tempo, quem eram, e ambos declararam que se julgavam com direito à mão da princesa.
O Grilo nada disse, mas achava, é claro, que não lhes ficava atrás; e o Cão de Guarda, mal o farejou, declarou logo que o Grilo era de boa família, tirado do osso do peito de um ganso real. O velho Senador, que obtivera três mandados para ficar calado, sustentava que o Grilo era dotado do poder de profecia, e que por meio do seu osso a gente podia saber se o inverno iria ser suave ou rigoroso, coisa que ninguém podia deduzir dos ossos daquele que escreve o almanaque!
- Oh! Eu por mim não digo nada - disse o velho Rei - mas sigo meu antigo costume, e tenho cá minhas ideias, como as outras pessoas.
E chegou a hora da prova. O Pulgo saltou tão alto que ninguém pôde ver até onde chegou, e por isso teimavam que ele não tinha dado pulo algum, coisa digna de desprezo naquelas regiões. O Gafanhoto não chegou nem à metade daquela altura, mas pulou direto ao rosto do Rei - procedimento que sua majestade considerou altamente incorreto. O Grilo ficou quieto ainda um bom pedaço, ao que parecia, perdido em cismas; e já todos se inclinavam a crer que ele não podia dar salto algum.
- Tomara que ele não tenha adoecido! - disse o Cão de Guarda, farejando-o de novo.
Mas, vrrrrr! E lá saltou o Grilo, meio de lado, para o regaço da Princesa, que estava timidamente sentada em um tamborete de ouro.
Então o Rei declarou:
- O salto mais alto foi o que alvejou minha filha, porque significa um delicado cumprimento. Para ocorrer uma idéia assim, é preciso que a pessoa tenha cabeça! E o Grilo provou que tem cabeça. Foi, pois, o Grilo quem obteve a mão da Princesa.
- E, no entanto - dizia o Pulgo - eu saltei mais alto! Mas não faz mal... Ela que fique lá com o osso de ganso, com a caixinha de música e tudo! Quem deu o salto mais alto fui eu! Mas neste mundo a gente precisa ter um corpo volumoso, que apareça, é o que é. E o Pulgo foi servir no estrangeiro e dizem que por lá morreu.
O Gafanhoto sentou-se à beira de uma vala, meditando sobre os costumes do mundo. E também ele dizia:
- O corpo é tudo neste mundo! O corpo é tudo!
E pôs-se a cantar sua canção melancólica - que foi de onde tiramos esta história. Mas, ainda que ela tenha sido impressa, talvez não seja absolutamente verdadeira. Não é bom fiar!

 

Entendendo o texto

 

01. Qual foi a promessa feita pelo Rei para motivar a competição entre os saltadores?

a) O vencedor receberia um castelo feito de cartas de baralho.

b) O vencedor ganharia um título de nobreza e sangue real.

c) O Rei daria a mão de sua filha em casamento ao que desse o salto mais alto.

d) O vencedor seria nomeado o novo Senador do reino.

 

02. De acordo com o texto, qual era a origem da distinção e das boas maneiras do Pulgo?

a) O fato de ele ter vivido em uma casa de campo de três andares.

b) O sangue nobre que lhe vinha do lado materno e a convivência com humanos.

c) O uniforme verde e distinto que ele usava para saltar.

d) O poder de profecia herdado de sua família do Egito.

 

03. Como era a moradia do Gafanhoto e do que ela era feita?

a) Um osso de ganso real guardado em um tamborete de ouro.

b) Uma vala à beira da estrada onde ele meditava sobre o mundo.

c) Um chalé simples conquistado através do seu canto.

d) Uma casa de campo de três andares feita de cartas de baralho.

 

04. O que aconteceu durante o salto do Pulgo que gerou discussão entre os assistentes?

a) Ele saltou tão alto que ninguém conseguiu ver até onde ele chegou.

b) Ele errou o alvo e caiu diretamente no rosto do Rei.

c) Ele sentiu-se mal e não conseguiu sair do lugar.

d) Ele saltou de lado e caiu no regaço da Princesa.

 

05. Qual foi a atitude do Gafanhoto durante a prova que o Rei considerou "altamente incorreta"?

a) Ele recusou-se a saltar por se considerar pesado demais.

b) Ele saltou diretamente no rosto de sua majestade, o Rei.

c) Ele começou a cantar sua canção melancólica em vez de pular.

d) Ele tentou trapacear usando suas asas de família egípcia.

 

06. Por que o Rei decidiu que o Grilo foi o vencedor, apesar dos outros terem saltado?

a) Porque o Grilo provou ser o mais forte fisicamente entre os três.

b) Porque o salto do Grilo em direção à Princesa foi interpretado como um cumprimento delicado e inteligente.

c) Porque o Cão de Guarda confirmou que o Grilo tinha o osso de ganso real.

d) Porque o Grilo previu que o inverno seria rigoroso através de sua profecia.

07. Qual foi a conclusão amarga do Pulgo após perder a competição?

a) Que ele deveria ter treinado mais para o salto ser visível.

b) Que a Princesa não era bonita o suficiente para o seu sangue nobre.

c) Que, no mundo, é preciso ter um corpo volumoso que apareça para ser valorizado.

d) Que o Grilo tinha usado magia para conquistar o Rei.

 

 

sábado, 21 de março de 2026

RELATO AUTOBIOGRÁFICO: COMO E PORQUE SOU ROMANCISTA - JOSÉ DE ALENCAR - COM GABARITO

 Relato Autobiográfico: Como e porque sou romancista

                                         José de Alencar

 

Minha mãe e minha tia se ocupavam com trabalhos de costuras, e as amigas para não ficarem ociosas as ajudavam. Dados os primeiros momentos à conversação, passava-se à leitura e era eu chamado ao lugar de honra.

Muitas vezes, confesso, essa honra me arrancava bem a contragosto de um sono começado ou de um folguedo querido; já naquela idade a reputação é um fardo e bem pesado.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhp6aTwgfj6kDIrD5qTtWqNRNheH1qDkzPqZmJbKT6aBU27NYiYkimJ49Ygf7p2m-l82jjryof6tsAhQ1q0U6v_j6CJTX8_1NB3DFx6NI-iNdId78MKvjiwU0NkeWmz4MnHPOtTAjFBBdWu96N0Gz8ZFsnh2HLrFULoqtWL4P9a7tKunk6i9ayKGXNQxsE/s1600/JOSE.jpg


Lia-se até a hora do chá, e tópicos havia tão interessantes que eu era obrigado à repetição. Compensavam esse excesso, as pausas para dar lugar às expansões do auditório, o qual desfazia-se em recriminações contra algum mau personagem, ou acompanhava de seus votos e simpatias o herói perseguido.

Uma noite, daquelas em que eu estava mais possuído do livro, lia com expressão uma das páginas mais comoventes da nossa biblioteca. As senhoras, de cabeça baixa, levavam o lenço ao rosto, e poucos momentos depois não puderam conter os soluços que rompiam-lhes o seio.

Com a voz afogada pela comoção e a vista empanada pelas lágrimas, eu também cerrando ao peito o livro aberto, disparei em pranto e respondia com palavras de consolo às lamentações de minha mãe e suas amigas.

Nesse instante assomava à porta um parente nosso, o Revd.º Padre Carlos Peixoto de Alencar, já assustado com o choro que ouvira ao entrar – Vendo-nos a todos naquele estado de aflição, ainda mais perturbou-se:

- Que aconteceu? Alguma desgraça? Perguntou arrebatadamente.

As senhoras, escondendo o rosto no lenço para ocultar do Padre Carlos o pranto e evitar seus 1remoques, não proferiram palavra. Tomei eu a mim responder:

- Foi o pai de Amanda que morreu! Disse, mostrando-lhe o livro aberto.

Compreendeu o Padre Carlos e soltou uma gargalhada, como ele as sabia dar, verdadeira gargalhada homérica, que mais parecia uma salva de sinos a repicarem do que riso humano. E após esta, outra e outra, que era ele inesgotável, quando ria de abundância de coração, com o gênio prazenteiro de que a natureza o dotara.

Foi essa leitura contínua e repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito a tendência para essa forma literária [o romance] que é entre todas a de minha predileção?

Não me animo a resolver esta questão psicológica, mas creio que ninguém contestará a influência das primeiras impressões.

 

JOSÉ DE ALENCAR

Como e porque sou romancista. Campinas: Pontes, 1990.

 Entendendo o texto

01. Qual era o papel do jovem José de Alencar durante as reuniões de costura de sua mãe e tia?

a. Ele ajudava a costurar os vestidos e franjas das clientes.

b. Ele ocupava o "lugar de honra" para realizar a leitura de livros em voz alta para as senhoras.

c. Ele era responsável por servir o chá e os doces para as convidadas.

d. Ele ficava brincando no jardim para não atrapalhar o silêncio da casa.

02. No segundo parágrafo, o autor afirma que "a reputação é um fardo e bem pesado". O que ele quis dizer com isso?

a. Que ele se sentia muito importante e orgulhoso por ser um leitor famoso.

b. Que a obrigação de ler para os outros muitas vezes o tirava de momentos de lazer ou de sono que ele preferia ter.

c. Que os livros que ele carregava eram fisicamente muito pesados para uma criança.

d. Que ele tinha medo de errar a leitura e ser castigado pelo Padre Carlos.

03. Como o "auditório" (as senhoras que ouviam a leitura) reagia às histórias lidas por Alencar?

a. Com indiferença, pois elas preferiam focar apenas no trabalho da costura.

b. Com muita emoção, fazendo recriminações aos vilões e torcendo pelos heróis perseguidos.

c. Com sono, pois as leituras eram muito longas e cansativas.

d. Com risadas constantes, pois os livros escolhidos eram sempre de piadas.

04. O que causou a cena de choro coletivo descrita no meio do texto?

a. Uma briga familiar que aconteceu durante o jantar.

b. A notícia real de que um parente próximo havia falecido naquela noite.

c. A comoção causada pela leitura de uma página triste do livro, que narrava a morte do pai de uma personagem (Amanda).

d. O medo que todos sentiram quando o Padre Carlos bateu à porta de repente.

05. Qual foi a reação do Padre Carlos ao descobrir o motivo de tanta aflição e choro na sala?

a. Ele ficou furioso porque as senhoras estavam perdendo tempo com bobagens.

b. Ele também começou a chorar, pois conhecia a personagem do livro.

c. Ele soltou uma "gargalhada homérica", achando graça da situação ao perceber que o choro era por causa de uma história de ficção.

d. Ele fez um sermão religioso sobre a importância de não ler romances.

06. De acordo com a parte final do texto, qual a importância que Alencar dá a essas leituras de infância?

a. Nenhuma, ele acredita que sua carreira de escritor não tem relação com o passado.

b. Ele acredita que essas "primeiras impressões" e a leitura contínua de novelas influenciaram sua tendência para ser romancista.

c. Ele acha que ler muito na infância o prejudicou nos estudos de psicologia.

d. Ele afirma que só começou a gostar de romances depois que ficou adulto e saiu de casa.

07. O texto menciona que Alencar lia com tanta "expressão" que chegava a ser interrompido por soluços. O que isso demonstra sobre a relação dele com o livro?

a. Que ele era um leitor mecânico e não entendia o que estava lendo.

b. Que ele se envolvia profundamente com a narrativa, sentindo a dor das personagens como se fosse real.

c. Que ele estava apenas fingindo para ganhar mais doces na hora do chá.

d. Que ele lia muito rápido para acabar logo e poder voltar a brincar.

 

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: OS MENINOS DO BRASIL - CLÓVIS ROSSI - COM GABARITO

 Artigo de Opinião: Os meninos do Brasil

                              Clóvis Rossi

          SÃO PAULO - Primeiro, foi o "arrastão" nas praias do Rio. Logo depois, nas praias de Fortaleza. Um pouco mais adiante, na festa do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Desceu, em seguida, para a praça da Sé em São Paulo. Chegou ontem a Londrina, no norte do Paraná, cidade em que uma dúzia de lojas foi "arrastada" por bandos de menores movidos a cola de sapateiro.

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          Vê-se que já não dá sequer para o tolo conformismo de achar que essa espécie de guerrilha urbana está restrita aos grandes centros, depósitos habituais de todos os problemas do subdesenvolvimento. Londrina parece ser apenas uma dessas cidades médias abençoadas pela alta qualidade de vida interiorana.

          É evidente que deve haver, nessa onda de "arrastões", um pouco de modismo. O pessoal vê pela televisão um grupo "arrepiando bacanas" no Rio de Janeiro e resolve fazer a mesma coisa na sua própria cidade. Copiar comportamentos alheios, muito divulgados pela mídia, é um fenômeno até certo ponto corriqueiro.

         O problema é que a matéria-prima para a repetição dos "arrastões" sobra no país. O Brasil, que sempre foi exemplo extremo de má distribuição de renda, tornou-se selvagem nestes muitos anos de estagnação econômica. Se há alguma indústria nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados. Da marginalização à marginalidade e dela à brutalidade, a distância costuma ser curta.

        Consequência inevitável; os "bacanas" já estão todos arrepiados. Pior: tornam-se cada vez mais inúteis os discursos sobre a miséria, sobre a infância desamparada, sobre as injustiças sociais. A fábrica de produzir retórica sobre essa temática é, aliás, outro setor que não entrou em recessão.

         Seria altamente conveniente que admitíssemos de uma vez por todas que estamos, todos, desequipados para agir, em vez de discursar a respeito. Não é um problema que se possa resolver apenas por meio do poder público. Não é um problema que a filantropia de meia dúzia vá sequer atenuar. É uma guerra. Não serve de consolo saber que produziu poucas vítimas fisicamente até agora. Todo o país é vítima quando seus "bacanas" começam a odiar os meninos do Brasil.  

(Folha de S. Paulo, 30/10/92.)

 Entendendo o texto

01. De acordo com o primeiro parágrafo, a ocorrência de "arrastões" em Londrina demonstra que:

a) O fenômeno está restrito apenas às capitais litorâneas do país.

b) A criminalidade juvenil deixou de ser um problema exclusivo dos grandes centros urbanos.

c) O policiamento no interior do Paraná é mais ineficiente que no Rio de Janeiro.

d) As cidades com alta qualidade de vida estão imunes aos problemas do subdesenvolvimento.

e) O uso de cola de sapateiro é a única causa da violência em cidades médias.

02. O autor atribui a rápida disseminação do comportamento dos "arrastões" por diversas cidades brasileiras principalmente ao(à):

a) Organização nacional de facções criminosas juvenis.

b) Falta de opções de lazer para os jovens no interior.

c) Influência da mídia e da televisão, que gera um efeito de "modismo" e cópia.

d) Aumento repentino do preço da cola de sapateiro.

e) Inexistência de leis que punam menores de idade.

03. No trecho "Se há alguma indústria nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados", o autor utiliza uma metáfora para criticar:

a) O crescimento do setor industrial brasileiro apesar da crise.

b) A eficiência do governo em gerar empregos para a população carente.

c) O agravamento das desigualdades sociais e da pobreza decorrentes da estagnação econômica.

d) A exportação de mão de obra desqualificada para outros países. e) A qualidade dos produtos fabricados nas periferias das grandes cidades.

04. Qual é a principal crítica feita pelo autor no penúltimo parágrafo em relação aos discursos sobre a miséria?

a) Os discursos são necessários para convencer os "bacanas" a serem filantropos.

b) A retórica sobre a injustiça social tornou-se inútil e repetitiva, sem gerar ações práticas.

c) Não existem intelectuais suficientes falando sobre a infância desamparada.

d) Os discursos ajudam a diminuir a violência nas ruas de São Paulo.

e) Apenas o poder público tem o direito de discursar sobre a marginalidade.

05. Ao concluir que "todo o país é vítima quando seus 'bacanas' começam a odiar os meninos do Brasil", Clóvis Rossi sugere que:

a) O ódio entre classes sociais é a solução para acabar com os arrastões.

b) A sociedade deve se armar para combater os menores carentes. c) O problema é meramente policial e deve ser resolvido com repressão física.

d) A ruptura social e o preconceito contra os jovens pobres representam uma derrota para toda a nação.

e) Os "bacanas" são as únicas vítimas reais da situação descrita.

 

 

 

sábado, 14 de março de 2026

CRÔNICA: EPIDEMIA POLISSILÁBICA - OTTO LARA RESENDE - COM GABARITO

 Crônica:  Epidemia polissilábica

                Otto Lara Resende

          RIO DE JANEIRO - Já se disse que a crise é de dicionário. Paulo Rónai denunciou a existência de uma geração sem palavras. Uma só, não, digo eu. Várias. A crise é semântica, disse um professor na Sorbonne, que convocou um seminário. Pode ser, diz o Pedro Gomes. Mas é também polissilábica. E me expõe a sua tese: nenhum país aguenta tantos palavrões como os que circulam agora por aí. Palavrão no sentido estrito de palavra grande.

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             A maior delas, como aprendemos na remota infância, tem até governado o Brasil. É essa mesmo: inconstitucionalissimamente. Depois deste advérbio, no seu hoje modesto pioneirismo, apareceram verdadeiros bondes vocabulares. Autênticos minhocões. São cada vez mais numerosos e compridos, como a composição ferroviária que transporta minérios. A perder de vista, todos têm de cinco sílabas para cima. São centopeias de tirar o fôlego e de destroncar a língua.

            Na porta do Jockey, depois do almoço, um sujeito conversava outro dia, sereno, sobre a atratividade do investimento superavitário. Temi pela sua digestão, se é que não foi vítima de uma congestão. Ou de um insulto cerebral. Mas há pessoas insuscetíveis de insulto, sobretudo cerebral. É o caso do cidadão que discorreu sobre o obstaculizado caminho que o Brasil tem de percorrer, se quiser alcançar um nível de competitividade num cenário de internacionalização do livre-cambismo.

                  Até a carta-testamento do Getúlio, obstaculizar não tinha feito a sua aparição triunfal. Dizem que foi ideia do Maciel Filho, que tinha este vezo nacionalista da palavra complicada. Na verdade, é difícil inovar o jargão político. Para atacar José Américo de Almeida, história antiga, Benedito Valladares lançou no mercado a palavra boquirroto. Logo os adversários disseram que era soprado pelo Orozimbo Nonato, um íntimo do Vieira e do Bernardes. Arrazoava com um cunho seiscentista.

             Enfim, tudo hoje em dia gera distorções. Gerar é um verbo-ônibus. Serve para tudo. Confiemos, porém, que a seu tempo, a nível de país, na expressão abominável que hoje é corrente, a solução seja equacionada. A desestabilização extrapola de qualquer colocação. Longe de mim o catastrofismo, mas no caminho polissilábico em que vamos, a ingovernabilidade é fatal. E talvez passemos antes pela platino-dolarização contingencial.   (Folha de S. Paulo, 22/07/91)

 

Entendendo o texto

 

01. No início do texto, o autor cita Paulo Rónai e um professor da Sorbonne para introduzir o tema da "crise". Segundo a tese de Pedro Gomes, apresentada e defendida por Otto Lara Resende, qual é a natureza específica dessa crise?

a. Uma crise de falta de termos técnicos para descrever a economia moderna.

b. Uma crise semântica causada pela ausência total de palavras no vocabulário dos jovens.

c.  Uma crise "polissilábica", caracterizada pelo uso excessivo de palavras muito longas e complexas.

d. Uma crise política gerada pela incapacidade de traduzir dicionários estrangeiros.

 

02. O autor utiliza metáforas como "bondes vocabulares", "autênticos minhocões" e "centopeias de tirar o fôlego" para se referir a certas palavras. O que essas figuras de linguagem revelam sobre a opinião do autor?

a. Admiração pela criatividade da língua portuguesa em criar termos extensos.

b. Crítica ao tamanho exagerado e à artificialidade de certas palavras modernas.

c. Apoio ao uso de termos ferroviários dentro do jargão político brasileiro.

d. Desejo de que a língua se torne mais complexa para alcançar o nível internacional.

 

03. Ao mencionar expressões como "atratividade do investimento superavitário" e "internacionalização do livre-cambismo", qual é a intenção principal do cronista?

a. Demonstrar erudição e conhecimento sobre o mercado financeiro.

b. Exemplificar como o discurso técnico e burocrático se tornou refém da "epidemia" de palavras longas.

c. Defender que o Brasil só alcançará competitividade se utilizar um vocabulário mais robusto.

d. Mostrar que a digestão humana é afetada pela leitura de jornais de economia.

 

04. O texto menciona que o verbo "gerar" tornou-se um "verbo-ônibus". O que essa classificação significa no contexto da crítica de Otto Lara Resende?

a. Que é um verbo que deve ser usado apenas por pessoas que utilizam transporte público.

b. Que é uma palavra de movimento que impulsiona a economia do país.

c. Que é um verbo de sentido vago e genérico, usado excessivamente para substituir termos mais precisos.

d. Que é a palavra mais comprida e difícil de pronunciar encontrada no dicionário.

 

05. Qual é a conclusão satírica (irônica) que o autor apresenta no último parágrafo sobre o futuro do Brasil diante desse cenário linguístico?

a. O país se tornará uma potência se adotar o "livre-cambismo" linguístico.

b. A simplificação do dicionário é a única forma de salvar a economia.

c. O uso de termos como "desestabilização" e "ingovernabilidade" levará o país a uma "platino-dolarização contingencial".

d. A solução para os problemas do país será finalmente "equacionada" através de seminários na Sorbonne.

 

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

POEMA: VOZES-MULHERES - CONCEIÇÃO EVARISTO - COM GABARITO

 Poema: Vozes-Mulheres 

                      Conceição Evaristo

A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.

 
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhOgcTJgKQIlJb4UfIx7JYbV06jk88J01Ftm-2QxbfChkhgvGnzvEuWCUl42X-7EOIX54BK5sZgCKD5qO2dKedOSvqAV0pj5Jzydeo_VDDE3tGr-iOtNz8beLGE2JxTynUaF792_8m2ff7eMFd6YwHTmSi7DAHTry8k9eBl_fFtV2f-JdPKrIao6EZTeTA/s320/VOZES.jpg

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
        e
        fome.

 

A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
O eco da vida-liberdade.
   
(In: Poemas de recordação e outros movimentos, 3.ed., p. 24-25)

 

Entendendo o texto

O poema percorre vários tempos históricos.

 

01. A partir de qual estrofe revela-se o tempo presente?

Quarta estrofe.

02. Quais situações vividas pela população negra, principalmente pelas mulheres, estão retratadas nas estrofes iniciais?

A vinda para o Brasil nos navios negreiros, o trabalho escravo e a permanência na condição de pobreza.

03. Na terceira estrofe, retrata-se uma condição da mulher negra que persiste em nossa sociedade. Que condição é essa? Por que ela ainda ocorre?

A condição de empregadas domésticas e de lavadeiras, funções muito exercidas pela mulher negra, que tem menos condições de estudar e por isso não consegue trabalhos que lhe  propiciem uma renda melhor.

04. As situações retratadas parecem referir-se apenas à família do eu lírico?

Não. São situações que se referem a grande parte das mulheres negras do país.

 

05.  Na quarta estrofe, o eu lírico diz “A minha voz ainda/ecoa versos perplexos”

a.   Que palavra foi usada nesses versos para remeter aos versos anteriores?

Ainda.

b.   Em sua opinião, que sentimento o eu lírico transmite por meio desses versos?

O eu lírico experimenta os sentimentos de dor r indignação vivenciados por sua mãe, avó e bisavó.

06. Na última estrofe, o eu lírico demonstra confiar em sua filha como agente da mudança. O que há de diferente no comportamento dessa filha?

A voz da filha do eu lírico está associada à ação (“o ato”), como diz o trecho “A voz de minha filha/ recolhe em si/ a fala e o ato”.