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sábado, 6 de junho de 2026

MAIO LARANJA - PROTEGER É DEVER DE TODOS! - LUCAS CESAR - COM GABARITO

 MAIO LARANJA

PROTEGER É DEVER DE TODOS!


 O dia 18 de maio é conhecido em todo o Brasil como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes. Essa data foi criada para lembrar a importância da proteção das crianças e adolescentes e para conscientizar a sociedade sobre esse problema.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg0X32_IlLVE2_9-iccs25Pq1haeDwOhelnoPpNq8gJuiBdOvnKE1qzZd1MKwAOxWGkofB6eJrTk46z27s7gY2IFYGjBKDkkN-n12K1AvnRinVS47T9v3tW1Mj_iqHdKt-ZcfjyY682X4T3g6DMFnyesFATNhq-FLRKp0qwjhAQhULe_ACttgcswenHpAA/s320/maiolaranja_fb.jpg


A campanha Maio Laranja surgiu para fortalecer a luta contra todo tipo de violência sexual infantil. O dia 18 de maio foi escolhido em memória da menina Araceli Crespo, de apenas 8 anos, que desapareceu no Espírito Santo, em 1973, sendo encontrada dias depois vítima de violência. O caso chocou o país e se tornou símbolo da luta pelos direitos das crianças.

Todas as crianças já nascem com direitos garantidos por leis importantes, como a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Essas leis existem para garantir proteção, respeito, saúde, educação, segurança e infância feliz.

O abuso sexual infantil coloca em risco o bem-estar e o futuro de crianças e adolescentes. As vítimas podem apresentar medo, tristeza, ansiedade, dificuldade de aprendizagem, isolamento e outros problemas emocionais.

A família, a escola, o governo e toda a sociedade têm a responsabilidade de proteger as crianças. Por isso, é importante observar sinais, ouvir com atenção e denunciar qualquer situação suspeita.

Em casos de violência, o Disque 100 é um serviço gratuito e sigiloso que recebe denúncias e ajuda na proteção das vítimas.

Combater o abuso e a exploração sexual infantil é dever de todos!

 

INFÂNCIA: UM LUGAR DE FLORESCER

18 de maio é lembrança
Pra memória não morrer.
É lembrar de um passado
Que não se pode esquecer.
Toda criança violentada,
Toda história silenciada
Precisa reaparecer.


Maio veste o laranja
Pra o país todo entender:
Proteger é compromisso
Que a gente deve ter.
Não se lava essa ferida
Com desculpa mal fingida,
Mas com ato de acolher.

Se a criança pede ajuda,
Não é pra desmerecer.
A escuta é um abrigo
Que a pode socorrer.
Mais que lei ou papelada,
Ela quer ser respeitada
E poder sobreviver!


No jardim da esperança,

Flor laranja vem dizer:

Criança é vida delicada,

Há espaço pra crescer.

Não é enfeite ou fantasia,

Mas um símbolo de empatia,

Você precisa reconhecer.

É dever da sociedade
Acolher e proteger.
Seja pai, vizinho ou tia,
Todos podem perceber.
Se há algo “suspeitado”,
Ligue, fale, é o recado:
Disque 100 sem se esconder!


Que os versos se espalhem
Pra quem queira aprender
Que criança não se cala,
Que criança é pra viver
Com amor e consciência,
A infância (sua existência)

É um lugar de florescer.


  COMPREENSÃO DOS TEXTOS E REFEXÃO

1)   Qual é o tema principal dos dois textos?

O tema principal é o combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, destacando a importância da campanha Maio Laranja e a responsabilidade de toda a sociedade em proteger a infância.

 2)   O que é a campanha Maio Laranja?

É uma campanha nacional criada para fortalecer a luta contra todo tipo de violência sexual infantil, conscientizar a população e lembrar a importância de proteger os direitos das crianças e adolescentes.

 3)   Quem foi Araceli Crespo e por que ela é lembrada no dia 18 de maio?

Araceli Crespo foi uma menina de 8 anos que desapareceu no Espírito Santo em 1973 e foi encontrada morta, vítima de violência. O dia 18 de maio foi escolhido em sua memória, tornando o seu caso um símbolo nacional da luta pelos direitos da criança.

4)   Cite duas leis mencionadas no primeiro texto que protegem crianças e adolescentes.

As duas leis são a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

 5)   Segundo os textos, quem deve proteger as crianças e adolescentes?

A responsabilidade é de todos: a família, a escola, o governo e toda a sociedade (incluindo pais, vizinhos, tias, etc.).

 6)   Quais problemas o abuso sexual pode causar às vítimas?

Pode causar problemas emocionais e comportamentais como medo, tristeza, ansiedade, dificuldade de aprendizagem, isolamento e traumas (as "feridas" mencionadas no poema).

 7)   O que podemos interpretar destes versos do cordel: “Não se lava essa ferida / Com desculpa mal fingida, / Mas com ato de acolher.”?

Significa que a dor e o trauma causados pela violência não desaparecem com justificativas vazias ou negação do problema. A verdadeira reparação e ajuda começam quando a vítima é acolhida com empatia, respeito, escuta e proteção de verdade.

 8)   Qual serviço é citado nos textos para realizar denúncias?

O Disque 100, que é um serviço gratuito e sigiloso.

9)   Retire do cordel um verso que demonstre proteção ou acolhimento.

 “A escuta é um abrigo"

  "Mas com ato de acolher."

 "É dever da sociedade / Acolher e proteger."


10. Por que é importante denunciar casos de violência contra crianças e adolescentes?

Porque a denúncia interrompe o ciclo de violência, garante que a vítima receba o apoio necessário para se recuperar e pune os responsáveis, protegendo também o futuro de outras crianças.

 11)        O que significa a expressão “Faça bonito” presente na campanha Maio Laranja?

Embora a expressão exata não apareça escrita no corpo dos textos acima, ela é o slogan oficial da campanha nacional ("Faça Bonito. Proteja nossas crianças e adolescentes"). Significa agir com responsabilidade, não se calar diante de suspeitas, ser empático e cumprir o dever cidadão de proteger os mais vulneráveis.

 

12)        De acordo com os textos, quais sinais podem indicar que uma criança precisa de ajuda?

Sinais emocionais e de comportamento como: demonstrar medo, tristeza constante, ansiedade, apresentar dificuldade de aprendizagem, isolamento social ou quando a própria criança "pede ajuda" através da fala ou de mudanças bruscas.

 

13)        Na sua opinião, como a escola pode ajudar na proteção das crianças e adolescentes?

Sugestão: A escola pode ajudar promovendo palestras e conversas de conscientização, capacitando os professores para identificar mudanças no comportamento dos alunos, oferecendo um ambiente seguro onde a criança se sinta acolhida para falar e acionando o Conselho Tutelar sempre que notar algo suspeito.

 

14)        Escreva uma diferença e uma semelhança entre os dois textos lidos.

  Semelhança: Ambos tratam do mesmo assunto (a campanha Maio Laranja, o Disque 100 e o dever de proteger as crianças).

  Diferença: O primeiro texto é informativo/jornalístico (organizado em parágrafos, com linguagem direta e fatos históricos), enquanto o segundo texto é um poema de cordel (organizado em estrofes e versos com rimas, que utiliza uma linguagem mais emotiva e poética.

15)        Produza um pequeno verso, frase ou mensagem de conscientização sobre a campanha do Maio Laranja.

 

(Resposta pessoal, mas aqui estão duas opções criativas para você escolher ou se inspirar):

Opção de frase: "Proteger a infância é plantar um futuro de paz. No Maio Laranja e em todos os meses do ano, disque 100 e faça bonito!"

Opção de verso:

"A flor laranja no peito Vem o país lembrar: Criança merece respeito E nós devemos cuidar!"

 Proteger crianças e adolescentes é responsabilidades de todos!

Faça bonito: denuncie e ajude a combater qualquer forma de violência.

Denunciar é um ato de coragem, cuidado 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

CONTO: AS CORES DO CREPÚSCULO - FRAGMENTO - RUBEM ALVES - COM GABARITO

 Conto: As cores do crepúsculo – Fragmento

            Rubem Alves

         [...]

        Mas a melhor coisa que pode acontecer na velhice é voltar a ser criança. Os velhos, tolos, querem continuar a ser úteis. Coitados! Ainda estão sob o domínio do olhar dos outros! Melhor seria se percebessem que o objetivo da vida não é ser útil. Útil é martelo, serrote, vassoura, fio dental, bicicleta. As coisas úteis, quando velhas, ficam inúteis. Inúteis, são jogadas fora.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhsImalFJsGLo-tsW9zBNmJvaLUXTyzTXKl8cjpTSbMAa4LN0Iq-W-HnDjAoyAEDWPVy7ZGuYy64BtkDAjZsK_8L07lWSq-xk142BVKwRpzfzlIxh3sqimuNI6yoq3Wnz4DAbhaN7EItg9XsCXiJXVNyUFeAenfiMj3ulbxGA9rQdHv9d7sbVKGPgikNzY/s1600/SOL.jpg


        [...]

        Mas o objetivo da vida não é a utilidade. É a feliz inutilidade do brincar. Brinquedo é uma atividade inútil a que nos entregamos por causa da alegria que ela nos dá. Pode ser formar quebra-cabeças, empinar pipas, ouvir música, ler literatura, cozinhar, caminhar, viajar, chupar sorvete, conversar, ver livros de arte, escrever, sonhar, cantar… E, acima de tudo, brincar com as crianças. Melhor ainda se tiver netos com quem brincar. Há mesmo os velhos que, na velhice, descobrem o amor. Amar é brincar com a pessoa amada. Tão bonito, o amor dos velhos. Lembro-me de uma cena do filme Doutor Jivago, a que mais me comoveu: um velhinho dando um beijo no rosto enrugado e velho da sua mulher, adormecida…

        Fiquei mais velho. Mas sou grato. Na velhice estou tendo felicidades com que nunca sonhei, quando jovem. [...]

Rubem Alves. As cores do crepúsculo: a estética do envelhecer. Campinas, Papirus, 2001.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 175-176.

Entendendo o conto:

01 – De acordo com o autor, qual é a "melhor coisa" que pode acontecer na velhice e por que ele sente pena dos velhos que insistem em querer continuar sendo úteis?

      A melhor coisa que pode acontecer na velhice é "voltar a ser criança". O autor sente pena dos idosos que tentam se manter úteis porque afirma que eles ainda estão presos e sofrendo "sob o domínio do olhar dos outros", sem perceber que o verdadeiro sentido da vida na maturidade não está ligado à produtividade ou à utilidade.

02 – Rubem Alves faz uma analogia entre pessoas que buscam a utilidade e objetos de trabalho. Como essa comparação é utilizada para alertar sobre os perigos de se viver apenas em função de ser útil?

      O autor compara a utilidade humana a objetos como martelo, serrote, vassoura e fio dental. Ele alerta que a lógica das coisas úteis é cruel: quando elas envelhecem, tornam-se inúteis e, consequentemente, são jogadas fora. Ao basear o valor da vida na utilidade, o idoso corre o risco de se sentir descartável quando o tempo passar.

03 – Como o autor define o conceito de "brinquedo" no texto e quais exemplos de atividades ele cita como formas de "brincar"?

      Rubem Alves define o brinquedo como "uma atividade inútil a que nos entregamos por causa da alegria que ela nos dá". Para ele, o objetivo da vida é essa "feliz inutilidade". Como exemplos, ele cita: montar quebra-cabeças, empinar pipas, ouvir música, ler literatura, cozinhar, caminhar, viajar, chupar sorvete, conversar, ver livros de arte, escrever, sonhar, cantar e brincar com crianças/netos.

04 – De que maneira Rubem Alves relaciona o sentimento do amor na velhice com o ato de brincar e qual cena cinematográfica ele utiliza para ilustrar essa beleza?

      O autor afirma que "amar é brincar com a pessoa amada", integrando o amor na mesma categoria de atividades prazerosas e "inúteis" (livres de obrigações) que trazem pura alegria. Para ilustrar a beleza do amor na velhice, ele resgata uma cena emocionante do filme Doutor Jivago, na qual um velhinho dá um beijo carinhoso no rosto enrugado de sua esposa adormecida.

05 – No fechamento do fragmento, o autor expressa um sentimento de gratidão. O que justifica esse agradecimento em relação à sua própria velhice?

      O autor é grato porque, ao envelhecer, ele descobriu e experimentou felicidades com as quais nunca havia sequer sonhado quando era jovem. Isso demonstra que, ao desapegar da cobrança pela utilidade e abraçar a leveza da infância recuperada, a velhice se tornou um período de surpreendente satisfação e contentamento.

 

 

terça-feira, 2 de junho de 2026

CRÔNICA: A HORA CERTA - FRAGMENTO - OLAVO ROMANO - COM GABARITO

 Crônica: A hora certa – Fragmento

            Olavo Romano

        Maria Joana saiu da banda de fora da casa, olhou o céu, reparou na altura do Sol e disse pra filha:

        -- Já passa das três. Larga isso aí e refoga o arroz, senão vai atrasar a janta.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg1EGEb8ffYC92_3k5_-a5cpbXmG2GGBrzbTqklV0DP2rMRdHhU_DDHnhOqHFqiPT4dGL3_ktKT1WvKID65OFQ_k8XPX5A9vnm7JFoQMILnLMWaeTEfSQuNAASyZtt4d4IufYHOD6pJkJ-2-U7YXklmxzPW1CfQt6c03u-w9h5G-jNSxjKspBkiGJY5ZdY/s1600/SOL.jpg


        Nico brincava no terreiro-da-horta. Parou de tocar o carrinho de boi de sabugo e perguntou: –  Mãe, comé que a gente vê as hora pelo Sol?

        -- É fácil, uai. Questão de prática.

        O menino cresceu vendo a mãe medir o tamanho do dia pelo comprimento de uma sombra, pela altura do Sol nos dias mais claros ou só pelo jeitão quando o tempo ficava brusco [escuro, fechado].

        Rapazinho, Nico Pereira desistiu de aprender aquela arte da mãe. Virou foi catireiro. Excomungado de esperto, a fama correu mundo [...] O povo usava comentar: – “Deus é porque não dá asa a cobra. Analfabeto, é danado assim, imagina se soubesse ler e escrever. Aí ninguém ia poder com ele”.

        No começo, Nico cismou com animal. Cada hora montado num, trocava aquele por outro mais bonito, ficava todo intimado, com pose de fazendeiro forte, boiadeiro rico. Depois, parece coisa que enfarou, principiou lembrar do tempo de menino, recordar o velho Tertuliano, dono da fazenda onde foi criado.

        Aa coisa mais bonita que sempre achou no velho não era a barba branca, compridona. [...] Era o relógio de bolso, que ele puxava dum jeito todo especial, destampava, olhava assim meio de banda, via as horas, depois tornava a tampar. [...]  

        O Nico não queria saber de outra coisa. Vivia especulando, indaga daqui, indaga dali, não sossegou enquanto não apanhou [comprou] um relógio de bolso. Não era um patacão dourado, igual do velho Tertuliano, aquilo não era pro seu bico. Achou um Omega prateado, de duas tampas, bem conservado. Antes de fechar negócio, pegou o relógio com pose de entendido, abriu a primeira tampa, reparou no mostrador, um ponteiro maior e um menor, achou uma beleza o ponteirinho de segundo correndo disparado, os outros dois a gente nem via mexer. Depois abriu a segunda tampa, lá dentro o maquinismo movimentava parecendo fervura.

        Não demorou muito, todo mundo sabia daquele novo capricho do Nico Pereira. E o povo, sabe como é, tem lá sua maldade: logo descobriram que o Nico, aquela farrona toda [aquele contador de vantagens], nem olhar as horas sabia.

        Foi a conta. No primeiro domingo de missa, o arraial assim de gente, cada hora chegava um:

        -- Nico, vi falar que ocê tá de relógio novo?

        -- É devera. Uma beleza de relógio.

        Aí um outro, já combinado, perguntava:

        -- Falar nisso, quantas horas?

        Nico virava pro sujeito e devolvia a pergunta:

        -- Calcula?

        O interessado media a altura do Sol, pensava um pouco e respondia:

        -- Pode ser umas duas e meia, mais ou menos?

        Só então Nico abria o relógio, olhava sério e informava:

        -- Acertou. É duas e meia, exatinho.

        Aquilo funcionou bem com o primeiro, o segundo, o terceiro. Mas de repente o tempo começou a fechar, o céu escureceu, o Sol sumiu. Nico preocupou, resolveu escafeder, exalar do meio do povo. Não conseguiu. Foi pego pelo braço, mais um sujeito querendo saber as horas. Tentou sair correndo, disse que tinha pressa, ia fechar um negócio, depois informava as horas. O moço bateu o pé, insistiu. Apertando, Nico falou:

        -- Adivinha!

        Fazendo de nervoso, o rapaz disse:

        -- Adivinhar como? Deitei tarde, no maior pileque, acordei agora mesmo com gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Ainda por cima, esse dia feio, eu nem sei se é de manhã ou de tarde... Falam que ocê anda de relógio novo, pra que serve esse troço, afinal? Quem sabe ocê não sabe é olhar as hora?

        No mesmo instante Nico meteu a mão no bolso, tirou o relógio, destampou e ficou olhando o ponteirinho de segundo. Depois levou o relógio ao ouvido e, então, informou:

        -- As hora, mesmo, não tá dando pra ver não. Mas os minuto, ó! Tá freveno que dá gosto!

Olavo Romano. Minas e seus casos. São Paulo, Ática, 1984.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 32-33. Unidade 4 – Orientações Específicas.

Entendendo a crônica:

01 – No início da crônica, vemos Maria Joana determinando as horas pela observação do céu e do Sol, uma habilidade que o texto chama de "arte". Como essa forma tradicional de medir o tempo se contrasta com o desejo posterior de Nico Pereira de possuir um relógio de bolso? O que esse relógio representava para ele?

      O contraste se dá entre o saber tradicional/rural — baseado na observação direta da natureza e na experiência prática ("questão de prática") — e a modernidade urbana, representada pelo relógio mecânico. Para Nico, o relógio de bolso não era um instrumento utilitário para saber as horas (já que ele sequer sabia lê-las), mas sim um símbolo de status, poder e prestígio. O objeto remetia à figura do velho Tertuliano, o rico dono da fazenda de sua infância, funcionando como um sinal de ascensão social e vaidade.

02 – O povo comentava sobre Nico: “Deus é porque não dá asa a cobra. Analfabeto, é danado assim, imagina se soubesse ler e escrever.” Explique a ironia contida nessa fala e como o comportamento de Nico ao comprar o relógio confirma ou contradiz essa fama de "esperto".

      A ironia reside no fato de Nico ser extremamente astuto nos negócios ("excomungado de esperto" como catireiro) mesmo sendo analfabeto. No entanto, o episódio do relógio contradiz parcialmente sua fama de esperteza absoluta, pois sua vaidade o faz cair em uma armadilha óbvia criada pelo povo. Ao comprar um objeto que não sabe usar apenas para ostentar, Nico deixa sua vulnerabilidade e ingenuidade social expostas, permitindo que a comunidade brinque com seu orgulho.

03 – Quando as pessoas no arraial começam a lhe perguntar as horas, Nico utiliza uma estratégia específica para não ser desmascarado. Explique como funcionava esse "truque" de Nico e por que a mudança nas condições climáticas (o tempo fechar) arruinou o seu plano.

      O truque de Nico consistia em devolver a pergunta ao interlocutor dizendo "Calcula?". A pessoa, então, olhava para o Sol, estimava a hora e respondia. Nico apenas abria o relógio e fingia confirmar a estimativa, dizendo que estava "exatinho". Essa estratégia dependia totalmente da natureza: quando o céu escureceu e o Sol sumiu, as pessoas perderam a referência visual para estimar o tempo. Sem o palpite dos outros, Nico ficou sem ter como inventar ou confirmar a hora, sendo desarmado pelo próprio clima.

04 – A crônica de Olavo Romano é rica em marcas de oralidade e expressões regionalistas. Identifique pelo menos três exemplos dessas marcas no texto (palavras ou expressões) e explique qual é o efeito que esse tipo de linguagem causa na narrativa.

      Exemplos de marcas de oralidade e regionalismo no texto incluem: "uai", "comé que", "devera", "exalar do meio do povo" (fugir), "pileque" e "tá freveno" (está fervendo). O efeito desse tipo de linguagem é conferir autenticidade e proximidade à narrativa, ambientando o leitor diretamente no universo caipira/interiorano de Minas Gerais. Isso humaniza as personagens e aproxima o leitor do ritmo e do tom de uma história contada "boca a boca".

05 – No clímax da crônica, pressionado por um rapaz em um dia nublado, Nico Pereira dá uma resposta surpreendente: "As hora, mesmo, não tá dando pra ver não. Mas os minuto, ó! Tá freveno que dá gosto!". Analise como essa resposta constrói o humor da crônica e salve o orgulho do personagem.

      O humor é construído pela resposta absurda e espirituosa de Nico, que subverte a lógica do uso de um relógio. Ao invés de admitir que é analfabeto e não sabe ler os ponteiros, ele usa uma metáfora visual baseada no movimento rápido do ponteiro dos segundos e no barulho do mecanismo interno (que ele já achava parecido com "fervura"). Com essa saída cômica e rápida, Nico tenta "sair por cima" e desviar o foco de sua ignorância, mostrando que, embora não saiba as horas, sua malícia e rapidez verbal continuam afiadas.

 

CORDEL: INFÂNCIA - UM LUGAR DE FLORESCER - COM GABARITO

 Cordel: Infância – Um lugar de florescer

18 de maio é lembrança
Pra memória não morrer.
É lembrar de um passado
Que não se pode esquecer.
Toda criança violentada,
Toda história silenciada
Precisa reaparecer.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjby_hXPagDFWAQL7vv9HcLk2dbE0pZiET6k9MYuYZX7Jp2KEYwemRY8xKfWRtjv87EAEUFboHZEo6p1qqXWk0kg91Zf278DebvxoD9SOtd45D67RbHA-O57BLhEFyiErdN3btow1RscOh5Xb1n6_TvtpR5uDvOeeVRwIr99NkMORIvxXMwfl-huiZ-Cb4/s1600/CORDEL.jpg

Entendendo o cordel:

 

01 – Qual é o principal objetivo desse cordel?

      O objetivo principal do cordel é conscientizar as pessoas sobre a importância de proteger as crianças e adolescentes contra a violência, reforçando o dever de denunciar abusos e acolher as vítimas.

 

02 – No poema, o que a cor laranja e a flor simbolizam?

      A cor laranja representa a campanha de combate ao abuso infantil (Maio Laranja) e a flor simboliza a infância como uma "vida delicada" que precisa de cuidados, afeto e espaço seguro para crescer e florescer.

 

03 – De acordo com a terceira estrofe, como devemos agir quando uma criança pede ajuda?

      Devemos acolher o pedido com respeito e empatia. O texto destaca que a "escuta é um abrigo", ou seja, é preciso ouvir a criança com atenção e seriedade, indo além de leis ou burocracias ("papelada").

 

04 – Quem, segundo os versos, tem a responsabilidade de perceber e denunciar situações suspeitas?

      A responsabilidade é de toda a sociedade. O cordel deixa isso claro ao citar que "seja pai, vizinho ou tia", todos devem ficar atentos e agir.

 

05 – Qual é o canal de denúncia indicado no cordel e como ele deve ser usado?

      O canal indicado é o Disque 100. Ele deve ser usado sem medo ("sem se esconder") sempre que houver qualquer suspeita de violência ou abuso contra crianças e adolescentes.

06 – Explique o significado do último verso: "A infância é um lugar de florescer".

      Significa que a infância deve ser um período de vida seguro, saudável e feliz, onde a criança receba amor, proteção e estímulos para se desenvolver plenamente, livre de traumas e violências.

 

CRÔNICA: AMORES GRISALHOS - FRAGMENTO - WALCYR CARRASCO - COM GABARITO

 Crônica: Amores grisalhos – Fragmento

            Walcyr Carrasco

        Quando cheguei em casa, minha mãe colocou o tricô de lado, ajeitou os óculos e disse, com voz trêmula:

        -- Preciso falar com você.

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiMBQYR_Oexk27pQWeEQRl4p5h4f8Gi3H41Tb_0HwmmxYGRv1Qe0tfVKFxKCEsuuKe3wBLXSlMgWNF7DBL7Q5kqasVqfUpaAPGm7JJwkLev6dt4YpTS9htwpV7Mc23jze9XE-AyzP_nlD6j2TFh3Dev8RLyQ78IKhl9_nJtE2qXh3ikgUnuh66YslLRk44/s320/46518006-costas-visao-velho-casado-casal-romantico-momento-homem-abracando-mulher-em-banco-dentro-parque-feliz-familia-grisalho-inteligente-masculino-femea-amor-abracando-abraco-relaxar-juntos-feriados-ao-ar-livr.jpg

        “Lá vem problema”, refleti, com a lógica dos filhos. Quando alguém com 65 anos, vem visitar o rebento [filho] e pede conversa séria, já se imagina algum achaque [doença sem gravidade/queixa] da velhice. Porém, quem quase teve um enfarte [ataque do coração] fui eu, ao ouvir a verdade dos fatos.

        -- Estou namorando.

        -- O quê, mamãe?

        -- Por que esse espanto, sou viúva, não tenho o direito?

        Suspirei, surpreso com as voltas que o mundo dá. Tivemos a mesma conversa, com os papéis trocados, quando eu tinha uns 12 anos. Na época, ela se revoltou com a minha escolha:

        -- Justo aquela? Uma menina sem sal e sem açúcar!

        Agora cabia a mim opinar. Quis saber quem era.

        -- Um senhor do prédio vizinho. Foi ferroviário, como seu pai. Ele me tata bem: todo dia me traz um agrado. Ontem me deu três mamões papaia.

        “Pelo menos, esperto ele é”, pensei intimamente. “Ela sempre foi prática. Nunca gostou de flores”. Resolvi.

        -- Você gosta dele, mãe?

        -- Adoro.

        -- Então vá em frente. Muitas amigas minhas de 30 têm menos sorte.

        Ela retomou o tricô com um sorriso no rosto enrugado. Mais tarde, encontrei com uma amiga. Narrei o episódio. Ela espantou-se.

        -- Você não ficou preocupado?

        -- Se fosse um surfista de 25, talvez eu estivesse, e muito. Mas ele tem 63.

        Nos dias que se seguiram, surpreendi-me com o choque das pessoas.

        -- Mas como, namorando com 65 anos? Não faz mal? – gritou uma conhecida.

        Um amigo cortara relações com a mãe viúva quando ela se casou de novo.

        -- Não piso mais na casa dela. Não suporto aquele homem.

        -- Quem tem de suportar é ela, não você – retruquei.

        Outro me confessou que, quando a mãe quis casar-se, há dez anos, foi tal o escândalo provocado por ele e pelos irmãos que a pobre senhora desistiu. Atualmente, ela não se aguenta de solidão, porque os filhos jamais podem visita-la. O rapaz gemeu:

        -- A gente devia ter permitido. Teria sido melhor.

        Também ouvi falar de vários casais que se apaixonam depois dos 70. [...]. É algo que ocorre apenas nas grandes cidades, como São Paulo, onde ninguém tem tempo para ninguém, e os velhos acabam sozinhos. Não é à toa que gente de cabelo branco anda em busca de novas emoções.

        O grande problema são os filhos. Gente séria que, na adolescência, andou queimando sutiã e ouvindo rock and roll, agora reclama quando os pais entram num grupo da terceira idade e renascem. [...]

        Revolta pelas repressões do passado ou inveja porque a vida dos pais está ficando muito mais interessante do que a própria? Por que não, afinal?

        O melhor de tudo é que as histórias de amor provectas [avançadas (no tempo)] tendem a ser mais duradouras. Nessa fase, ninguém tem disposição para ficar namorando e separando, e um tende a relevar [não dar importância às] as manias do outro. Quem criou filhos como eu e meus amigos deve ter mesmo uma paciência inesgotável.

        Por falar nisso, e minha mãe?

        A história que contei tem cinco anos.

        Tirou a roupa escura, pintou as unhas e continua apaixonada.

        Sempre, muito feliz.

Walcyr Carrasco. O golpe do aniversariante e outras crônicas. São Paulo, Ática, 2000.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 43-44. Unidade 9. Orientações específicas.

Entendendo a crônica:

01 – No início da crônica, o narrador relata que esperava ouvir de sua mãe de 65 anos um desabafo sobre algum "achaque da velhice", mas é surpreendido pela notícia de que ela está namorando. Explique qual preconceito social em relação à terceira idade essa reação inicial do filho (e da sociedade) revela.

      A reação revela o preconceito de que pessoas idosas devem se limitar a papéis passivos, doenças e solidão, como se o desejo afetuoso, o romance e a busca pela felicidade cessassem com o envelhecimento. Ao associar a conversa séria automaticamente a uma doença, o narrador demonstra que a sociedade tende a enxergar o idoso através da fragilidade, ignorando sua vida emocional, afetiva e o direito de recomeçar.

02 – O narrador menciona que teve a mesma conversa sobre namoro com a mãe quando ele tinha 12 anos, mas com os "papéis trocados". Como o texto constrói essa ironia da inversão de papéis e como o filho reage de forma diferente da mãe no passado?

      A ironia reside no fato de que, na infância do narrador, era a mãe quem julgava e opinava sobre as namoradas dele (reclamando que a menina era "sem sal e sem açúcar"). Agora, adulto, o filho se vê na posição de "autorizar" ou avaliar o relacionamento da mãe. No entanto, ele reage com maturidade e apoio, deixando o preconceito de lado ao perguntar se ela gosta do senhor e incentivando-a a ir em frente, mostrando-se mais compreensivo do que ela fora no passado.

03 – Ao descobrir quem era o namorado de sua mãe, o narrador descobre que ele a conquistou oferecendo "três mamões papaia", e conclui: "Pelo menos, esperto ele é. Ela sempre foi prática. Nunca gostou de flores". O que esse detalhe revela sobre a natureza do amor na maturidade em comparação aos romances da juventude?

      Esse detalhe revela que o amor na maturidade tende a ser mais pragmático, maduro e focado nas pequenas atenções do cotidiano, em vez de idealizações românticas tradicionais (como dar flores). O pretendente demonstrou conhecer a personalidade prática da namorada e agradou-a com algo útil e concreto, mostrando que o afeto nessa fase se manifesta no cuidado mútuo, na cumplicidade e na simplicidade das ações diárias.

04 – O cronista aponta uma forte contradição no comportamento dos filhos que hoje criticam os pais idosos, escrevendo: "Gente séria que, na adolescência, andou queimando sutiã e ouvindo rock and roll, agora reclama quando os pais entram num grupo da terceira idade e renascem". Explique que contradição é essa apontada pelo autor.

      A contradição está no fato de que os filhos pertencem a uma geração que, na juventude, lutou por liberdade, quebrou tabus sociais e contestou regras rígidas (simbolizado pelo "queimar sutiã" e "ouvir rock"). Contudo, ao se tornarem adultos e lidarem com seus próprios pais idosos, essas mesmas pessoas adotam uma postura conservadora, moralista e controladora, reprimindo o desejo de liberdade e o renascimento afetivo de seus pais.

05 – Perto do final, o narrador levanta duas hipóteses para explicar a resistência dos filhos em aceitar os namoros dos pais: "Revolta pelas repressões do passado ou inveja porque a vida dos pais está ficando muito mais interessante do que a própria?". Com base no texto, explique como o egoísmo dos filhos pode prejudicar a velhice dos pais.

      O egoísmo dos filhos se manifesta no desejo de controlar a vida dos pais ou de mantê-los disponíveis apenas para os interesses familiares. O texto exemplifica isso de forma trágica ao contar a história da mãe de um amigo que desistiu de casar devido ao escândalo provocado pelos filhos e, anos depois, vivia em profunda solidão porque os próprios filhos não a visitavam. Assim, a interferência egoísta dos filhos sabota a felicidade dos pais, condenando-os ao isolamento.

06 – De acordo com o texto, por que as histórias de amor na terceira idade (chamadas pelo autor de "provectas") tendem a ser mais duradouras e estáveis do que os relacionamentos de pessoas mais jovens?

      O autor explica que, nessa fase da vida, as pessoas não têm mais paciência ou disposição para o ciclo instável de "namorar e separar". Além disso, os idosos possuem maior maturidade para relevar as manias e imperfeições do outro. O narrador acrescenta, de forma bem-humorada, que quem já passou pela experiência exaustiva de criar filhos desenvolveu uma "paciência inesgotável", o que ajuda a manter a harmonia e a estabilidade na relação.

07 – No último parágrafo, o cronista revela que a conversa inicial aconteceu há cinco anos e descreve o estado atual de sua mãe: "Tirou a roupa escura, pintou as unhas e continua apaixonada. Sempre, muito feliz". Interprete o significado simbólico das ações de tirar a "roupa escura" e "pintar as unhas" dentro do contexto da crônica.

      As ações têm um forte valor simbólico de renascimento e resgate da autoestima. A "roupa escura" representa o luto, o recolhimento e a resignação associados à viuvez e à velhice tradicional, que dita que o idoso deve ser invisível. Ao tirar o vestuário sombrio e pintar as unhas (um ato de vaidade e autocuidado), ela reconecta-se com sua feminilidade, com a cor e com a vivacidade. O desfecho mostra que o amor e o namoro devolveram a ela o entusiasmo e a alegria de viver.

 

sábado, 16 de maio de 2026

CONTO: SORTE PARA O PINTASSILGO - ANTÓNIO TORRADO - COM GABARITO

 Conto: Sorte para o pintassilgo

              António Torrado

 

Era uma vez um velho lenhador. Andara a vida inteira a percorrer a floresta e, agora que as forças já lhe faltavam para empunhar o machado, passava os dias, tristemente, à porta do seu casebre.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjkVuf0oe3TrZom_-u5NZsVLAvRblkiDI8EOI67ZM3pXuUqp86xYGdYHHxS4kIN1NvPxvr-VdoQ1vGb6tPqZ3dgYCTs__sPinX_EcfR4YrjRtER4EBYyR-tnJcobOa-rNZMQOnImx23T4QSMLzO2Ylfsxaae62ZuZHdvDya3l4p-1i0ZE0hMLjSIcSb-CA/s320/pitassilgo.jpg


Entre as lembranças mais antigas que lhe preenchiam a memória, recordava-se de uma história que o tinha encantado, na infância. Nela se contava que havia, na floresta, anõezinhos tão pequenos que nem um palmo mediriam. Os anões ou gnomos, tanto faz, guardavam, num esconderijo, pedras de ouro puro, acumuladas, ao longo de séculos pelo trabalho incansável de várias gerações de mineiros anõezinhos.
O lenhador, que conhecia a floresta de lés a lés, nunca vira um gnomo nem, a bem dizer, acreditava que a história correspondesse à verdade.
- Invenções para entreter meninos. E velhos... - dizia ele de si para si, com um sorriso desencantado.
Mas não é que, um dia, descobriu mesmo um gnomo?
Um gnomo a dormir, de boca aberta, junto à raiz de um pinheiro da floresta, era uma descoberta fantástica.
O lenhador agarrou-o pela cintura como quem agarra um gafanhoto e gritou-lhe:
- Afinal, sempre é verdade. Agora, só falta saber o segredo do tesouro dos gnomos...
O homenzinho, preso entre o polegar e o indicador do homenzarrão, debatia-se e protestava que nunca tinha ouvido falar em tal tesouro.
- Se não me dizes, onde o esconderam, aperto-te a barriga, que nem tempo tens para dizer ? Chega - ameaçou o lenhador.
E era bem capaz... A possibilidade imprevista de vir a ficar rico, riquíssimo, quase o enlouquecia.
- Diz-me onde está o tesouro ou esborracho-te - insistiu o lenhador.
O gnomo, não tendo outra alternativa, acabou por apontar uma árvore, confessando que, debaixo da raiz da árvore, numa loca, estava, agasalhado entre musgos, o maior tesouro do mundo.
- Já vamos saber se é como contas - disse o lenhador.
Mas entardecia. Era Inverno, estação do ano em que, como se sabe, a noite cai cedo e depressa. O lenhador, contrariado por ter de guardar para o dia seguinte o que queria resolver naquele dia, fez uma cruz a canivete, no tronco da árvore indicada, e disse:
- Amanhã voltamos cá e, pelo seguro, tu hoje à noite vais ficar hospedado em minha casa.
Maneira de dizer... Hospedado no casebre, isto é, prisioneiro na gaiola, donde despejou um pintassilgo. Sorte para o pintassilgo.
O lenhador, nessa noite, dormiu mal. Quanto ao gnomo, nunca saberemos se dormiu bem ou não, visto que, na manhã seguinte, o lenhador deu com a gaiola vazia.
- Mas o tesouro há-de estar onde ele apontou - animou-se o lenhador.
De enxadão ao ombro, avançou para a floresta.
- Cá está a árvore que eu marquei - exclamou.
Efectivamente, a árvore tinha uma cruz, no tronco, riscada a canivete. Mas outras árvores perto e outras longe tinham uma cruz igual. Não havia uma única árvore da imensa floresta que não exibisse uma cruz, em cheio, no dorso do tronco.
Os gnomos, pela calada da noite, tinham trabalhado bem.
O lenhador, a sentir-se ainda mais velho e ainda mais cansado, deixou o enxadão encostado a uma das árvores, e voltou para casa, de cabeça baixa. Nada ganhara e até o pintassilgo da gaiola ele tinha perdido...

 

António Torrado

Entendendo o texto

01. O que o velho lenhador costumava fazer nos seus dias atuais, agora que as forças já lhe faltavam para o trabalho?

a) passava os dias tristemente à porta do seu casebre, pois não conseguia mais empunhar o machado.

b) percorria a floresta inteira à procura de pistas sobre o tesouro dos gnomos.

c) divertia as crianças da região contando histórias que ouviu na sua infância.

d) dedicava o seu tempo a criar e cuidar de um pintassilgo em uma gaiola.

 

02. Como o lenhador reagia, inicialmente, à história sobre o tesouro dos gnomos que tinha ouvido quando era criança?

a) ele acreditava piamente e passou a vida inteira cavando buracos sob os pinheiros.

b) ele achava que eram apenas invenções para entreter meninos e velhos, demonstrando desencanto.

c) ele tinha medo dos gnomos e evitava entrar nas partes mais densas da floresta.

d) ele procurava os gnomos apenas para pedir que libertassem as aves da floresta.

 

03. Para garantir que encontraria o tesouro no dia seguinte, já que estava escurecendo, quais medidas o lenhador tomou?

a) amarrou o gnomo no pinheiro e cobriu a raiz da árvore com musgo para ninguém ver.

b) levou o enxadão para a floresta e começou a cavar imediatamente, mesmo no escuro.

c) fez uma cruz a canivete no tronco da árvore indicada e levou o gnomo preso para casa.

d) desenhou um mapa detalhado da floresta e soltou o gnomo como recompensa.

 

04. Por que o título do texto faz uma referência à "Sorte para o pintassilgo"?

a) porque o pintassilgo ganhou o tesouro dos gnomos no final da história.

b) porque o lenhador resolveu soltar a ave por pura bondade antes de ir dormir.

c) porque o gnomo ajudou o pássaro a fugir da gaiola durante a madrugada.

d) porque o lenhador despejou o pássaro da gaiola para poder prender o gnomo lá dentro.

 

05. Qual foi a estratégia utilizada pelos gnomos para proteger o tesouro e enganar o lenhador durante a noite?

a) eles mudaram o tesouro de lugar e o esconderam em uma loca sob outra raiz.

b) eles apagaram a marca que o lenhador tinha feito no tronco da árvore com o canivete.

c) eles fizeram uma cruz idêntica no tronco de absolutamente todas as árvores da imensa floresta.

d) eles prenderam o lenhador dentro do seu próprio casebre para que ele não voltasse à floresta.