quarta-feira, 22 de abril de 2015

ANÁLISE DO DESENVOLVIMENTO DO FILME: O ENIGMA DE KASPAR HAUSER

 ANÁLISE DO DESENVOLVIMENTO DE KASPAR HAUSER


 Vygotsky que diz que “a imaginação depende da experiência, e a experiência da criança forma-se e cresce gradativamente, diferenciando-se por sua originalidade em comparação à do adulto.” (VYGOTSKY, 2009, p. 43). 

              Baseado em uma história real, Jeder für sich und Gott gegen alle é um filme de 1974, do diretor alemão Werner Herzog, que tem como tradução literal “cada um por si e Deus contra todos”, mas que foi traduzido para o Brasil como O enigma de Kaspar Hauser.
             Kaspar Hauser era um menino criado dentro de um pequeno espaço, escuro, sem qualquer contato com outro ser humano, apenas com um cavalinho de madeira. Mesmo antes de nascer, na perspectiva histórico-social de Vygotsky, o futuro de Kaspar já estava determinado:
             O ato biológico do nascer tem, no mundo humano, o caráter de um evento cultural, […]. Antes mesmo de ser concebido, o futuro ser já faz parte do universo cultural dos homens, seja como objeto do desejo de quem aguarda  ansiosamente sua chegada seja como objeto do medo ou da recusa de quem considera sua chegada uma eventualidade indesejada. De qualquer forma, é um fato inegável que a simples expectativa do nascimento de uma  criança sacode profundamente o mundo das relações sociais no âmbito do grupo familiar, o que permite afirmar que no imaginário social, antes mesmo do nascer, aquela ocupa já um lugar na sociedade humana, estando sua existência atrelada às condições reais de existência que lhe oferecerá seu meio cultural. (apud PINO, 2005, p. 151).
             Passados uns 15 ou 16 anos, o Sr. que lhe deixava a comida e a água, o tirou de seu enclausuramento e o ensinou a andar e a falar uma única frase: “quero ser cavaleiro, igual ao meu pai”. Mesmo pronunciando uma única frase e andando mal, o deixam, em 1828, em uma praça na comunidade de Nuremberg, onde, por não fazer parte do padrão que a sociedade via como certo, e assim chamando a atenção de todos, será ajudado e estudado pelas autoridades locais. Sentindo-se num  mundo estranho, Kaspar vai aprendendo a falar, mas ainda não consegue compreender o mundo. Essa compreensão de mundo só é possível se o desenvolvimento da criança for mediado por outro, fazendo com que ele, passe da condição de ser biológico para um ser cultural (VYGOTSKY, 1995). 
            Para que a  criança chegue a um ser cultural, ela deve ter acesso aos bens culturais, materiais e espirituais, necessários para a existência humana. Quando retirado de seu cativeiro, Kaspar é ensinado a andar e falar uma  única frase: “quero ser cavaleiro, igual ao meu pai”. Seguindo o pensamento  Saussuriano que diz que a língua é “um tesouro depositado pela prática da fala em  todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade, um sistema gramatical que  existe virtualmente em cada cérebro”, essa prática da fala não aconteceu com  kaspar, pois vivia sozinho, enquanto esteve preso no cativeiro ele não tinha contato  com a língua. Durante mais ou menos 15 anos de idade aprendeu, através da  repetição, poucas palavras sem atribuir-lhes sentido, ou seja, sem conseguir  entender os signos linguísticos daquela que deveria ser sua língua materna. Para  Saussure, o signo linguístico é a associação que fazemos em nosso cérebro de um  significante mais um significado. O significante é a imagem acústica, e o significado  é o conceito que damos ao significante, assim o signo é a união do significado mais um significante.
               Kaspar, quando chegou à praça da comunidade, trazia consigo uma carta, um livro com orações, um terço e algumas folhas de ouro. Os moradores, que não conheciam Kaspar, começaram a estranhar aquele jovem que estava imóvel na praça e foram perguntar-lhe o que desejava. Kaspar não soube responder corretamente o que estava fazendo ali, então o morador viu que a carta que Kaspar segurava era endereçada ao Capitão da Cavalaria, e o levou até a casa do capitão.
            Quando o capitão o recebeu, Kaspar só repetia a única frase que sabia. Sem encontrar respostas com o próprio Kaspar, o capitão decidiu ler a carta  que dizia que ele havia sido entregue aos cuidados de um homem muito pobre, que  o criou trancado em um cárcere para que ninguém soubesse de sua existência.
           Para encontrar respostas, o capitão examinou Kaspar, vendo que ele tinha a pele delicada e que tinha marcas idênticas nos tornozelos e nos pulsos, indicando que havia sido acorrentado. Kaspar também tinha a cicatriz de uma vacina o que  indicava que poderia ter origem nobre.
              Em virtude do cárcere em que viveu, desprovido de qualquer contato humano social e educacional, Kaspar não desenvolveu a capacidade da comunicação e não conseguia se comunicar com as pessoas, por isso foi levado para uma torre onde  era comum colocarem as pessoas que estariam à margem da sociedade. 
“A sociedade não é possível a não ser pela língua; e, pela língua, também o indivíduo.O despertar da consciência na criança coincide sempre com a aprendizagem da linguagem, que a introduz pouco a pouco como indivíduo na sociedade.” (BENVENISTE, 1976, p. 27).
           Por não representar uma ameaça, existe uma tentativa de inserção de Kaspar na sociedade. Nesta mesma época, um circo apresentando pessoas com algum  tipo de anomalia física ou psíquica chegou à comunidade. Kaspar foi apresentado, durante o show, como uma atração local. Isso acontece devido a visão que a comunidade tem dele, considerando-o um adolescente imaturo, comparável a uma criança inexperiente e selvagem.
         Nessa apresentação, o professor Daumer conhece Kaspar e o leva para casa no intuito de ensinar a ele os ritos de convivência social como linguagem, música e costumes e também estudar como acontece esse processo em um adolescente.
        A constituição da criança como um ser humano é, portanto, algo que depende duplamente do Outro: primeiro, porque a herança genética da espécie lhe vem por meio dele; segundo, porque a internalização das  características culturais da espécie passa, necessariamente, por ele, como  o deixa claro a análise de Vygotsky. (PINO, 2005, p. 154).
           Kaspar até mais ou menos seus 16 anos nunca interagiu com pessoas ou com a natureza, não tendo aprendido a assimilar conceitos e interagir de nenhuma maneira com pessoas, começando seu processo de aquisição da linguagem e de inserção na sociedade, na adolescência. Kaspar tem a audição e a visão muito aguçadas, o que o ajuda a aprender muitas coisas nos primeiros dois anos em que está com o professor Daumer, processo esse que acontece de uma maneira  parecida no aprendizado de uma criança.
          Com o passar de dois anos, Kaspar adquire a capacidade de comunicação e mostra interesse pela música, aprendendo a tocar piano. Em uma passagem, em que o professor Daumer fala com Kaspar sobre seu aprendizado que deve ser expandido através da sua socialização, Kaspar fala que: “os homens são como lobos”. Uma vez que a comparação é tão semelhante à metáfora, remetemos Cassirer (1972), que diz que a metáfora consiste, além de um fenômeno linguístico de natureza semântica, na representação da semelhança entre a significação e o objeto. Isso significa dizer que as semelhanças tão necessárias para as relações dos seres humanos com a natureza podem ser representadas pela metáfora, que pode transpor significados devido à capacidade criativa de cada indivíduo. Portanto, a utilização de metáforas permite ao indivíduo apresentar conceitos que as palavras com significado literal não poderiam, promovendo uma ligação entre a linguagem e o mundo e as suas relações.
               Para essa socialização, o professor Daumer leva Kaspar a vários locais, e o primeiro deles consiste na torre em que Kaspar ficou detido, enquanto o capitão da  cavalaria decidia qual seria o seu futuro. Nesse momento, Kaspar demonstra claramente uma falta de noção sobre distância, tamanho e proporcionalidade. Fala que apenas um homem muito grande poderia ter construído uma torre tão grande. O  professor Daumer afirma que ele entenderá como é possível construir uma torre tão  alta com a utilização de andaimes, mas que Kaspar só irá entender o dia em que  eles forem ver uma obra em construção. Isso reforça que o desenvolvimento cultural da criança é o processo pelo qual ela deverá apropriar-se, pouco a pouco, nos limites de suas possibilidades reais, das significações atribuídas pelos homens às coisas. (PINO, 2005, p. 152).
              Outra influência sobre a socialização de Kaspar é a da religião. Religiosos tentam descobrir qual a percepção que Kaspar tinha sobre Deus, ou qual força que lhe acalentava a alma durante o cativeiro. Kaspar responde que não entendeu a pergunta, visto que durante o cativeiro, ele não pensava em nada, e nem consegue imaginar o processo do criacionismo neste instante. Assim, tentam impor alguns dogmas, pelo simples acreditar pelo acreditar, admitindo os mistérios da fé sem procurar entender. Kaspar fala que, antes disso, precisa aprender a ler e escrever, para depois conseguir compreender outros conceitos mais complexos.
                O professor Daumer e um dos padres tentam explicar a Kaspar algumas  noções sobre tempo e espaço no pomar, onde eles mostram a diferença entre as maçãs verdes e vermelhas, e seu período de maturação. Quando o professor Daumer derruba uma maça e se abaixa para pegá-la, Kaspar os surpreende, falando que as maças precisam descansar. Fica claro nesta passagem que ele ainda não consegue distinguir ações características de cada objeto ou pessoa, associando características humanas a objetos inanimados e vice-versa. Outro comentário neste mesmo sentido ocorre quando Kaspar pergunta à governanta qual a função das mulheres. Em sua perspectiva, a função das mulheres seria ficarem sentadas fazendo tricô, ou cozinhando.
              O professor Daumer contou a Kaspar sobre o deserto do Saara. Kaspar ficou muito interessado pelo assunto, inventando uma história sobre o deserto. Porém, ele consegue, até este momento, apenas imaginar o início da história, pois lhe faltam experiências para que possa agregar novos fatos, locais e pessoas ao conto.
             Recorremos ao conceito de Vygotsky que diz que “a imaginação depende da experiência, e a experiência da criança forma-se e cresce gradativamente, diferenciando-se por sua originalidade em comparação à do adulto.” (VYGOTSKY, 2009, p. 43). Pode-se dizer que Kaspar não adquiriu experiência suficiente para fazer com que sua imaginação amadureça. Apesar de “ao longo do processo de desenvolvimento da criança, desenvolve-se também a sua imaginação, que atinge a sua maturidade na idade adulta” (VYGOTSKY, 2009, p. 44).
            Ele já está na idade adulta, mas a apendizagem não se deu quando era criança, fazendo com que não adquirisse a experiência necessária para o amadurecimento de sua imaginação.
          Ele fala ao professor Daumer que teve um sonho, e este fica feliz com o desenvolvimento de Kaspar, pois antes, este não conseguia diferenciar sonho de realidade. O professor afirma ser curioso que durante todo o tempo de cativeiro, Kaspar nunca tenha sonhado, mas agora tenha sonhado com o Cáucaso, talvez resultado de novas associações com a experiência.
          Kaspar parece estar deprimido com sua condição, pois fala ao professor Daumer que o único lugar em que se sente bem seria em sua cama. O professor pergunta se ele não gosta mais do jardim, do verde das plantas, das pessoas.
           Claramente, Kaspar mostra reconhecer as suas próprias limitações e questiona o seu lugar no mundo. O professor Daumer chama outro professor para avaliar o desempenho do raciocínio lógico de Kaspar. Este professor faz uma pergunta que teria apenas uma resposta correta, desde que o raciocínio não utilizasse uma hipótese que levasse  em consideração uma redução ao absurdo. Porém, é isso que Kaspar faz, apresenta uma resposta absurdamente incorreta para os padrões do professor, porém logicamente certa.
        Kaspar é apresentado à sociedade da época, como sendo um protegido de um nobre. Esta aparição causa bastante curiosidade sobre seu tempo no cativeiro. Kaspar diz que sua vida no cativeiro era melhor do que a de agora, pois acha que a única coisa interessante de sua vida é a sua própria vida. O nobre diz que existem muitas outras coisas que o enriquecem como ser humano, e cita a música como  uma delas. Assim, Kaspar diz que vai exprimir no piano o que sente em sua alma,  com uma clara alusão de que não consegue por palavras falar tudo que desejaria.
         Algumas escolhas individuais já podem ser vistas no comportamento de Kaspar, como na passagem em que ele saiu da igreja por achar que o canto dos fiéis parecem gritos. Devido a suas escolhas, bem como um comportamento incomum à sociedade da época, alguns moradores não o veem como integrante daquela comunidade.
        Assim, Kaspar sofre um primeiro atentado e fica acamado. Durante esse período, conta uma visão em que várias pessoas estão subindo uma montanha como se fosse uma procissão. Havia neblina e não era possível de se enxergar  claramente. E lá em cima da montanha, estava a morte.
         Segundo Freud (1996), o sonho com morte para a criança (estágio de desenvolvimento em que Kaspar se encontrava), não tem o mesmo significado para  nós, adultos. Para a criança,  estar 'morto' significa aproximadamente o mesmo que ter 'ido embora' – ter  deixado de incomodar os sobreviventes. A criança não estabelece nenhuma  distinção quanto ao modo como essa ausência é provocada: se é devido a  uma viagem, a uma demissão, a uma separação ou à morte. (FREUD, 1996, p. 176).
            Kaspar sofre um segundo atentado, este sim mortal. Em seu leito de morte, consegue contar toda a história sobre o deserto do Saara. A história é sobre uma caravana que deve atravessar o deserto sendo liderada por um velho cego. Em algum momento da sua travessia, a caravana parou achando que estavam perdidos,  pois tinham se deparado com montanhas. Eles não sabiam mais qual caminho seguir, até que o velho cego prova um punhado de areia e diz que não existem  montanhas, que são apenas imaginação. Então, a caravana prosseguiu para o  norte, chegando na cidade. Kaspar diz que a história continua na cidade, mas que  esta história ele não sabe. Uma possível interpretação desse sonho seria uma  alusão à cegueira imposta pela manipulação da sociedade sobre as pessoas, sem  questionamento, apenas aceitação.
           Seu corpo é estudado, e são notadas algumas características biológicas interessantes, tais como: figado aumentado, cerebelo muito desenvolvido e o hemisfério esquerdo do cérebro menos desenvolvido. Estas características biológicas do cérebro eram as que lhe davam habilidades para a música, embora apresentasse outras limitações. Podemos notar que existe uma tendência em colocar a culpa da falta de sociabilização de Kaspar em alguma causa biológica, em uma tentativa de isentar a sociedade da época bem como suas normas sociais que  determinavam um padrão a ser seguido.

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