segunda-feira, 10 de agosto de 2020

REPORTAGEM: A HORA DO ENCONTRO - FLÁVIO DIEGUEZ/IVANI VASSOLER - COM GABARITO

 REPORTAGEM: A hora do encontro

         Astrônomos acham que a grande descoberta dos próximos 100 anos será a da vida fora da Terra. O Universo está cheio de ETs, avaliam, e já não parece tão difícil encontrar um deles por aí

       Por Flávio Dieguez, com Ivani Vassoler, de Washington

        Agosto de 2099. A voz do computador, na sala principal de um grande observatório anuncia que o telescópio captou raios de luz incomuns, que não poderiam ter sido emitidos por nenhuma estrela conhecida. Observações posteriores confirmam a suspeita – a luminescência, vinda de um mundo incrivelmente longe da Terra, só pode ter sido enviada por uma criatura inteligente tentando fazer contato com outros seres.

        A cena é fictícia, mas provavelmente acontecerá na realidade, nas próximas décadas. O Universo contém muitos ETs – essa é a constatação geral que, nos últimos anos, aumentou a confiança de que vamos achar alienígenas em outros planetas. Não demora muito. A expectativa é fazer contato no século XXI. “Essa será a mais importante façanha científica do próximo século e a probabilidade de isso acontecer é muito alta”, disse à SUPER um dos gurus da Astrofísica, o americano Alan Dressler, dos Observatórios Carnegie, em Washington.

          Para ele, a aposta mais segura é em algum tipo de micróbio extraterrestre. Só que as chances não param aí. O cerco para captar sinais enviados do espaço por possíveis ETs inteligentes aumentou. Durante muito tempo essa missão foi encarada apenas pela Sociedade Planetária, na Califórnia, Estados Unidos, com o seu Programa de Busca de Inteligência Extraterrestre, conhecido pela sigla em inglês, Seti. Este ano, várias outras instituições se integraram à tarefa. Entre elas estão a Universidade Harvard e da Califórnia, nos Estados Unidos, o Observatório Medicina, na Itália, e a Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália. Com o reforço, será possível investigar, nos próximos vinte anos, cerca de 5 000 estrelas. É dez vezes mais do que o Seti pôde fazer, sozinho, em uma década e meia de existência.

        A busca fica mais emocionante à medida que aumenta o número de planetas descobertos em torno de outras estrelas. Agora, cada vez que um deles é detectado, à taxa de cinco por ano, antenas e telescópio se voltam para lá na expectativa de captar uma mensagem inteligente. Outra novidade é que, em vez de ouvir apenas sinais de rádio, como sempre fez, o Seti também passou a captar sinais codificados na forma de luz. A ideia foi do físico americano Charles Townes, um dos inventores dos aparelhos de laser (veja página 83), atualmente na Universidade da Califórnia.

        Todos os cientistas concordam que estimar a quantidade de civilizações existentes no Universo não é brincadeira. Os mais otimistas, como os astrônomos do Seti, acreditam que pode haver até quarenta espécies desenvolvidas apenas na nossa Galáxia, a Via Láctea. É um cálculo ponderado se pensarmos que existem mais de 100 bilhões de estrelas na Via Láctea, e ela é somente uma entre as 100 bilhões de galáxias que giram pelo espaço. Ou seja, deve haver 10 000 quintilhões de astros. Sobre uma estimativa assim, não há como ter certeza. Mas não devemos ser os únicos seres vivos dessa multidão de mundos.

        É assim que o problema é visto pela astrônoma americana Jill Tarter, diretora do mais importante projeto do Seti, chamado Fênix. “A única maneira de saber se existem ou não é procurar por eles”, disse ela à SUPER. Lúcida e serena, ela argumenta que deve demorar até serem captados indícios certos de uma mensagem alienígena. Apesar disso, afirma ter esperança de que isso vai acontecer nos próximos 100 anos. “Sim, achar um ET inteligente é uma possibilidade concreta”, confirma a pesquisadora.

        O mesmo pensa o biólogo Christian de Duve, Prêmio Nobel de Medicina em 1974. “É possível que esse encontro se dê no século que vem”, afirmou à SUPER. Para ele, a existência de ETs é quase obrigatória no Cosmo. “Acredito que, onde houver as condições adequadas para o surgimento de seres vivos, eles irão aparecer, de um jeito ou de outro.” Essas condições são, basicamente, água em forma líquida e calor, como a Terra tinha ao se formar há 4,5 bilhões de anos. O entusiasmo de Duve deve-se ao fato de que esses ingredientes são muito abundantes no Universo.

        Trata-se de um dado novo, que está alterando a visão da ciência de maneira radical, de acordo com o americano Alan Dressler. “Há menos de duas décadas, acreditava-se que pouquíssimos lugares do Cosmo seriam convenientes ao desenvolvimento de organismos.” Vários achados recentes contribuíram para mudar essa avaliação.

        [...]

        Com os novos dados, até os mais céticos começam a vacilar. É o caso do celebrado astrofísico americano Alan Sandage, dos Observatórios Carnegie, em Washington. Ele duvida de uma demonstração definitiva da existência de alienígenas e acredita que sempre haverá muitas “evidências” de ETs que poderão ser explicadas por outras razões que não a sua efetiva presença. “Apesar disso”, declarou à SUPER, “estou convencido de que não somos os únicos. Penso que os seres vivos, inclusive os inteligentes, surgem naturalmente no Universo.”

             Superinteressante, n. 12, dez. 1999, p. 76-80. (Fragmento).

                          Fonte: Português – Uma proposta para o letramento – Ensino fundamental – 8ª série – Magda Soares – Ed. Moderna, 2002 – p. 18-22.

Entendendo o texto:

01 – Observe a data de publicação da revista e explique as referências ao tempo:

a)   Reveja a capa da revista, na p. 17: ela se refere ao “século 21”. Quando a revista foi publicada, seus leitores já estavam nesse século ou ainda iam chegar a ele?

Os leitores ainda estavam no século XX (dezembro de 1999).

b)   Segundo os autores da reportagem, a cena fictícia descrita no início “provavelmente acontecerá na realidade, nas próximas décadas”. A que décadas se referem os autores da reportagem?

Às primeiras décadas do século XXI.

c)   Recorde as palavras do biólogo Christian de Duve: “É possível que esse encontro se dê no século que vem”. A que século ele está se referindo?

Ao século XXI.

02 – Ets – seres extraterrestres – podem ser:

·        Seres com formas elementares de vida – microrganismos, micróbios.

·        Seres com vida inteligente.

Ao mencionar ETs, a reportagem se refere aos primeiros ou aos segundos?

Às vezes se refere a microrganismos, outras vezes a seres com vida inteligente (neste último caso, quase sempre o adjetivo inteligente acompanha a abreviatura ET).

03 – Recorde o título da reportagem: “A hora do encontro”. O título pode ser completado de duas formas diferentes:

·        A hora do encontro de extraterrestres.

·        A hora do encontro com extraterrestres.

a)   Qual é a diferença de sentido entre essas duas frases?

Encontro de extraterrestres = descoberta, pelos terrestres, de extraterrestres; Encontro com extraterrestres = reunião, interação entre terrestres e extraterrestres.

b)   Qual das duas frases expressa o foco central da reportagem?

A hora do encontro com extraterrestres.

04 – Localize este trecho na reportagem: “Sobre uma estimativa assim, não há como ter certeza. Mas não devemos ser os únicos seres vivos dessa multidão de mundos”.

a)   A que estimativa se refere a frase?

A estimativa de que pode haver até quarenta espécies desenvolvidas, entre os 100 bilhões de estrelas da Via Láctea, que é uma entre 100 bilhões de galáxias.

b)   “... uma estimativa assim” – assim como?

Assim tão pequena, considerando o número de astros que deve haver no Universo.

c)   “... não devemos ser os únicos seres vivos...” – em que se fundamenta essa conclusão dos autores da reportagem?

No número enorme de astros que existem no Universo: nossa multidão d mundos, não é possível que só no nosso haja seres vivos.

05 – Localize na reportagem este trecho do parágrafo que se refere à astrônoma Jill Tarter:

“Lúcida e serena, ela argumenta que deve demorar até serem captados indícios certos de uma mensagem alienígena. Apesar disso, afirma ter esperança de que isso vai acontecer nos próximos 100 anos.”

a)   “Apesar disso” – apesar de quê?

Apesar de ela prever que deve demorar até que sejam captados indícios de uma mensagem alienígena.

b)   Infere-se que os outros autores da reportagem consideram que 100 anos é muito tempo ou pouco tempo?

É pouco tempo: apesar da previsão da demora, o fato pode acontecer já nos próximos 100 anos.

c)   Em sua opinião: um período de 100 anos para encontrar ETs inteligentes é um período longo ou curto?

Resposta pessoal do aluno.

d)   Do depoimento da astrônoma Jill Tarter você pode inferir por que os repórteres a consideram “lúcida e serena”:

·        Lúcida por quê?

Porque avalia de forma clara, sensata, racional as possibilidades.

·        Serena por quê?

Porque é equilibrada, considera a questão sem radicalismo, sem paixão.

06 – A reportagem menciona “um dado novo”, “achados recentes” que vêm aumentando a possibilidade de que existam serres vivos extraterrestres.

·        Que dados, que achados são esses?

As condições para a existência de seres vivos são abundantes no Universo.

07 – Releia o parágrafo final, que apresenta o ponto de vista do astrofísico Alan Sandage.

a)   Por que a palavra evidência é colocada entre aspas, nesse parágrafo?

Para indicar que o autor está usando a palavra com ironia: na verdade, fatos que pessoas apresentam como prova de que existem ETs inteligentes não provam nada, são outra coisa, são o contrário de uma evidência.

b)   O astrofísico “duvida” e, ao mesmo tempo, “está convencido”:

·        Duvida de quê?

Duvida de que se chegue a uma prova definitiva da existência de ETs inteligentes.

·        Está convencido de quê?

Está convencido de que há seres vivos no Universo, podendo haver até extraterrestres inteligente.

08 – A reportagem cita quatro cientistas: Alan Dressler, Jill Tarter, Christian de Duve e Alan Sandage.

a)   Jill Tartes é astrônoma, os outros três são astrofísicos. Consultando um dicionário, encontre a diferença entre Astronomia e Astrofísica.

Astronomia = ciência cujo objeto é a observação e o estudo sistemático do Universo, com o fim de situar os corpos celestes no espaço e no temo, explicar seus movimentos.

Astrofísica = ramo da Física que estuda a constituição material, as propriedades físicas, a origem e a evolução dos astros.

b)   Quais dos quatros cientistas apresentam argumentos para fundamentar suas afirmações? Que argumentos são apresentados?

Alan Dressler, citado no início da reportagem, apenas afirma, não argumenta; citado no final, argumenta a favor de ETs com a descoberta de condições para a existência de vida, no Universo; o mesmo argumento é apresentado por Christian de Duve; Jill Tarter não apresenta argumentos, apenas afirma; Alan Sandage apenas afirma a existência de ETs, sem argumento, mas argumenta contra a demonstração de sua existência: as evidências apresentadas são falsas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TEXTO: A HISTÓRIA DO GIGANTE DE FERRO - A ARTE DA CONSTRUÇÃO - COM GABARITO

 Texto: A história do gigante de ferro

      Em meados do século XIX, Nova York é uma pequena cidade na ilha de Manhattan. Muita gente mora nas colinas de Brooklin em frente à ilha, mas trabalha em Manhattan, centro dos negócios. Eles cruzam todo dia o East River de barco, mas o serviço era, com frequência, interrompido pelo mau tempo... Projetos de pontes unindo a ilha ao continente são apresentados: ponte de barcos, ponte giratória, ponte pênsil.

          Catedral dos tempos modernos

        Os obstáculos técnicos são enormes porque jamais se conseguiu projetar uma ponte sobre um braço de mar tão grande. De outro lado, é preciso deixar passagem para as embarcações que têm mastros muitos altos. Não faltam os problemas econômicos. Quem vai financiar um empreendimento deste porte? Afinal, a cidade de Nova York aceita o projeto de um engenheiro renomado, vindo da Alemanha para fazer fortuna: John Roebling. Ele não só encontra soluções para os numerosos problemas técnicos, mas dá a essa ponte um valor simbólico e quase poético: as armações metálicas em ogiva serão como uma catedral dos tempos modernos.

        À maneira das galerias de colunas dos tempos egípcios, esses pilares servirão de portas para a cidade moderna. A ponte, ligação entre os homens, será como um salto em direção ao oeste, sinônimo de esperança e desenvolvimento para os americanos.

          Uma ponte devoradora de homens

        Pobre Roebling! Jamais sentirá a alegria de ver sua obra terminada. Ele morre de tétano, contraído depois de um acidente na construção, alguns meses depois do começo dos trabalhos. Seu filho Washington o sucede. Mas, a partir de 1872, ele não aparece mais no canteiro de obras: sofre do “mal dos caixões”, uma doença provocada por acidente de descompressão, durante a construção das fundações. É da janela de sua casa no Brooklyn que ele supervisiona os trabalhos.

          Caixões sob o rio

        Para fazer as fundações, caixões de madeira são depositados no fundo do rio. Cheios de ar comprimido, eles permitem aos operários aprofundar as fundações dos pilares, até a rocha. Os que trabalham em caixão submetem-se a um calor sufocante, umidade, penumbra e aos perigos de incêndios provocados pela lâmpada a álcool. O pulso deles é muito rápido, mal podem falar. Muitos sofrem do “mal dos caixões” que provoca horríveis dores paralisantes.

          Operários trapezistas

        Em 1876 as torres estão prontas. Os operários, em posturas acrobáticas, devem instalar os cabos. Um dispositivo inteligente, uma caçamba móvel fazendo vaivém, ajuda nas operações perigosas. Ainda assim, os operários, imigrantes irlandeses na maioria, pagam com a própria vida. A ponte leva 14 anos para ficar pronta, com o custo da tragédia: pelo menos 26 pessoas morrem.

        Numerosas gravuras da construção mostram como o grande público se apaixona pela construção da ponte. Afinal, é inaugurada em 1883, com a presença do presidente dos Estados Unidos, Chester Arthur. Fogos de artifício são lançados da ponte, de muitos barcos e até de balões; ao todo 10.000 foguetes, dos quais 500 são acesos ao mesmo tempo para o efeito final!

        Todos querem testar a nova ponte e, para provar a sua solidez, o diretor do Circo Barnaum faz passar por ali 21 elefantes! Mas, nos dias seguintes, a massa de curiosos é tão densa que um trágico tumulto causa a morte de 12 pessoas.

                      A arte da construção – As origens do saber.

                                 Fonte: Livro – Encontro e Reencontro em Língua Portuguesa – 8ª Série – Marilda Prates – Ed. Moderna, 2005 – p. 224/6.

Entendendo o texto:

01 – Por que a ponte precisava ser construída? Quais os projetos apresentados para sua construção?

      Porque muita gente morava nas colinas de Brooklin e tinha que atravessar o East River de barco para trabalhar em Manhattan.

02 – Observe a manchete Catedral dos tempos modernos. Quem ousa assumir sua construção? Por quê?

      John Roebling apresentou um projeto para resolver todos os problemas que surgiriam com a construção da ponte.

03 – Comente o conteúdo da manchete Uma ponte devoradora de homens.

      Muitos homens morreram durante a construção da ponte.

04 – O que foi o “mal dos caixões”?

      Havia caixões de madeira, depositados no fundo do rio, cheios de ar comprimido, que permitiam aos operários aprofundar as fundações dos pilares, até a rocha. O pulso dos operários é muito rápido e o ambiente provoca terríveis dores paralisantes.

05 – Quanto tempo levou a construção da ponte? A que custo ela foi construída?

      Durou 14 anos. A custo de muita tragédia. Pelo menos 26 pessoas morreram.

06 – Como foi a festa da inauguração? Comente.

      Com a presença do presidente dos EUA, queima de fogos de artifício, muitos barcos e balões.

CONTO: CONTO OU NÃO CONTO? ABEL SIDNEY - COM GABARITO

 Conto: Conto ou não conto?

            Abel Sidney

        -- ...eu nem te conto!

        -- Conta, vai, conta!

        -- Está bem! Mas você promete não contar para mais ninguém?

        -- Prometo. Juro que não conto! Se eu contar quero morrer sequinha na mesma hora...

        -- Não precisa exagerar! O que vou contar não é nada assim tão sério. Não precisa jurar.

        -- Está bem...

        Depois de muitos anos, ainda me lembro em detalhes sobre o que eu e minha prima conversamos. Éramos muito pequenas e eu passava as férias em sua casa. Nunca brincamos tanto, quanto naqueles dias!

        Lembro-me do segredo que ela prometeu me contar.

        -- Olha, eu vou contar, mas é segredo! Não conte para ninguém. Se você contar eu vou ficar de mal.

        -- Eu não vou contar, já disse!

        O segredo não era nada sério, coisa mesmo de criança naquela idade. E ela acabou contando...

        -- Minha mãe saiu para fazer compras e eu fiz um bolo. Eu quebrei dois ovos, misturei com a farinha de trigo e o açúcar. Não deu nada certo. Com medo, eu arrumei tudo, joguei o bolo fora e até hoje minha mãe não sabe de nada...

        -- Meu Deus, sua doida! Você teve coragem de fazer uma coisa dessas?!

        -- Tive. Se a minha mãe descobrir, eu não quero nem imaginar o que ela fará comigo!! Posso ficar uma semana de castigo. Ou até mais...

        A minha língua coçou. Um segredo daqueles não poderia ficar guardado. Na primeira oportunidade em que eu fiquei sozinha, procurei minha tia, que estava preparando o almoço.

        -- Tia, preciso contar uma coisa pra senhora.

        -- Pois conte, que estou ouvindo. Não posso te dar mais atenção, senão o almoço não sai...

        -- É que eu tenho um segredo pra te contar e não sei se devo...

        -- O segredo é seu ou dos outros?

        -- Dos outros... Quer dizer, da prima!

        -- E por que você quer contar os segredos alheios?

        -- Bem, eu pensei que a senhora quisesse saber o que aconteceu...

        -- Ah, minha filha, deixa eu te fazer apenas uma pergunta: a dona do segredo te autorizou a contá-lo?

        -- Na verdade, não!

        -- E por qual motivo você me contaria, então?

        -- É que... Bem, o que ela fez não é muito certo...

        -- E você vai dedurar a sua prima? Se for alguma coisa muito grave ela ficará de castigo. E você não terá com quem brincar. Você já pensou nisso?

        -- Não...

        -- Pois pense. E depois volte aqui para conversarmos...

        Eu não sabia onde enfiar a cara, de tanta vergonha. E para que ninguém descobrisse os meus pensamentos, me escondi na casinha do fundo do quintal. Na hora do almoço, saí de lá, pois a fome, nessas horas, é uma sensata conselheira. E minha tia, com muito cuidado, voltou a tratar do assunto.

        -- Eu preciso contar uma coisa pra vocês... Minha avó, quando eu era pequena, me ensinou uma coisa que nunca mais me esqueci. E hoje, ouvindo uma notícia no rádio, lembrei-me dela. Ela dizia que nós temos uma boca e dois ouvidos; por isso, nós temos que mais ouvir do que falar. E mais: nem tudo o que ouvimos, devemos passar adiante, pois quem conta um conto, aumenta um ponto. E se o que se conta é um segredo, pior ainda. Por isso, nessas horas em que a nossa língua coça, o melhor é lembrar que boca fechada não entra mosquito...

        E contou também histórias de outras gentes: mexeriqueiros, dedos-duros, fofoqueiros, enfim, a turma do leva-e-traz...

        Naquela tarde, ainda preocupada que lessem os meus pensamentos, fiquei murchinha, daqui para ali, inventando o que fazer...

        Só no dia seguinte, quando minha prima decidiu contar para mim outro dos seus segredos, foi que eu tomei coragem de me sentar ao seu lado, bem quietinha. Disse ela:

        -- Sabe, o outro segredo é mais sério que o primeiro...

        E fez suspense – disse, repentinamente que estava com sede e foi buscar água na cozinha... Depois de retornar, bebeu a água bem devagarinho, até recomeçar:

        -- Olha, eu tenho um grande defeito. Às vezes eu me escondo na cozinha, para ouvir a conversa de minha mãe com as outras pessoas. E por acaso eu estava ontem, tranquilamente sentada no meu cantinho secreto, quando alguém chegou para conversar com ela. Como esta pessoa é minha conhecida (e eu gosto muito dela), não posso contar o que aconteceu por lá... É uma pena! Eu só posso dizer que essa pessoa é uma língua de trapo, uma linguaruda...

        Nunca rimos tanto!

        Eu, na verdade, não sabia se me sentia agradecida ou envergonhada...

        E passado tantos anos, ainda hoje nós fazemos questão de relembrar este episódio.

        Nossos filhos compreendem, então, porque somos tão amigas e cúmplices. E olha que eles nem imaginam o que ocorreu anos depois, quando éramos jovens e começamos a paquerar, sem saber, o mesmo cara...

        Bem, mas isto é segredo e eu não posso contar!

 Abel Sidney.

Entendendo o conto:

01 – O conto lido, inicia-se com um diálogo entre duas personagens.

a)   Quem são essas personagens? Em que parágrafo elas se apresentam? Destaque no texto.

As personagens são a narradora – protagonista e a prima. A identificação poder ser feita logo após o diálogo que introduz a história: “Depois de muitos anos, ainda, me lembro em detalhes sobre o que eu e minha prima conversamos”.

b)   Logo no início do texto, para resgatar lembranças, o narrador se manifesta em primeira ou em terceira pessoa? Transcreva um trecho que ilustre sua resposta e destaque palavras e expressões que comprovem o foco narrativo.

O narrador manifesta-se em primeira pessoa, já que se apresenta também como personagem-protagonista. Os recursos linguísticos que comprovam o foco narrativo são, principalmente os pronomes e verbos na 1ª pessoa (singular plural), por exemplo em: “Depois de muitos anos, ainda me lembro em detalhes sobre o que eu e minha prima conversamos. Éramos muito pequenas e eu passava as férias em sua casa. Nunca brincamos tanto, quanto naqueles dias!

      Lembro-me do segredo que ela prometeu me contar.”

02 – Observe a expressão “morrer sequinha”? Que sentidos essa expressão pode ter no contexto do conto lido? E em outros contextos?

      No texto, a expressão pode produzir o sentido de punição, consequência dos atos: a personagem pode ficar sozinha, isolada, aborrecida, deprimida; pode “definhar”, “pagar” pelos atos.

03 – Para contar uma história, em geral, situa as ações e os acontecimentos no tempo e no espaço. Releia o texto, identifique e transcreva, abaixo os marcadores temporais e os marcadores espaciais.

      -- Marcadores temporais:

* Depois de muitos anos.

* Naqueles dias.

* Quando eu era pequena.

* Naquela tarde.

* Só no dia seguinte.

* Hoje.

-- Marcadores espaciais:

* (Férias) em sua casa (da prima)

* Na casinha do fundo do quintal (inferência) na cozinha da casa da tia.

04 – Durante o desenvolvimento da história, ocorreram várias ações das personagens. Ao narrar essas ações, o enunciador as situa, predominantemente. Cite uma frase.

a)   No presente.

b)   No pretérito.

c)   No futuro.

      “A minha língua coçou.”

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

MÚSICA(ATIVIDADES): MEU LUGAR - ARLINDO CRUZ - COM QUESTÕES GABARITADAS

Música(Atividades): Meu Lugar

             Arlindo Cruz

O meu lugar

É caminho de Ogum e Iansã

Lá tem samba até de manhã

Uma ginga em cada andar

 

O meu lugar

É cercado de luta e suor

Esperança num mundo melhor

E cerveja pra comemorar

 

O meu lugar

Tem seus mitos e Seres de Luz

É bem perto de Osvaldo Cruz

Cascadura, Vaz Lobo e Irajá

 

O meu lugar

É sorriso, é paz e prazer

O seu nome é doce dizer

Madureira, iá laiá

Madureira, iá laiá

 

O meu lugar

É caminho de Ogum e Iansã

Lá tem samba até de manhã

Uma ginga em cada andar

 

O meu lugar

É cercado de luta e suor

Esperança num mundo melhor

E cerveja pra comemorar

 

O meu lugar

Tem seus mitos e Seres de Luz

É bem perto de Osvaldo Cruz

Cascadura, Vaz Lobo e Irajá

 

O meu lugar

É sorriso, é paz e prazer

O seu nome é doce dizer

Madureira, iá laiá

Madureira, iá laiá

 

Ai, meu lugar

A saudade me faz relembrar

Os amores que eu tive por lá

É difícil esquecer

 

Doce lugar

Que é eterno no meu coração

E aos poetas traz inspiração

Pra cantar e escrever

 

Ai, meu lugar

Quem não viu Tia Eulália dançar?

Vó Maria o terreiro benzer?

E ainda tem jongo à luz do luar

 

Ai, meu lugar

Tem mil coisas pra gente dizer

O difícil é saber terminar

Madureira, iá laiá

Madureira, iá laiá

Madureira

 

Em cada esquina, um pagode, um bar

Em Madureira

Império e Portela também são de lá

Em Madureira

 

E no Mercadão você pode comprar

Por uma pechincha, você vai levar

Um dengo, um sonho pra quem quer sonhar

Em Madureira

 

E quem se habilita, até pode chegar

Tem jogo de ronda, caipira e bilhar

Buraco, sueca pro tempo passar

Em Madureira

 

E uma fezinha até posso fazer

No grupo dezena, centena e milhar

Pelos 7 lados eu vou te cercar

Em Madureira

 

E lalalaia, lalaia, lalaia

E lalalaia, lalaia, lalaia

E lalalaia, lalaia, lalaia

Em Madureira

 

E lalalaia, lalaia, lalaia

E lalalaia, lalaia, lalaia

E lalalaia, lalaia, lalaia

Em Madureira

 

Iá, laiá, em Madureira.

                               Composição: Arlindo Cruz / Mauro Diniz.

Entendendo a canção:

01 – Em relação a canção é possível afirmar que a repetição do verso inicial “O meu lugar”, nas quatro primeiras estrofes do texto, tem por finalidade:

a)   Explicitar as mazelas do lugar onde ele vive.

b)   Apresentar a cultura popular da região ao leitor.

c)   Mostrar a origem do samba e dos mitos do lugar.

d)   Enfatizar a experiência de pertencimento do eu lírico.

e)   Destacar a sonoridade presente na palavra Madureira.

02 – O trecho da canção que apresenta, segundo a norma culta da Língua Portuguesa, inadequação em relação à concordância verbal é:

a)   “Doce lugar

          Que é eterno no meu coração

          E aos poetas traz inspiração

          Pra cantar e escrever”.

b)   “Ai, meu lugar

          A saudade me faz relembrar

          Os amores que eu tive por lá

          É difícil esquecer”.

c)   “O meu lugar

          Tem seus mitos e Seres de Luz

          É bem perto de Osvaldo Cruz

          Cascadura, Vaz Lobo e Irajá”.

d)   “O meu lugar

          É caminho de Ogum e Iansã

          Lá tem samba até de manhã

          Uma ginga em cada andar”.

e)   “E uma fezinha até posso fazer

          No grupo dezena, centena e milhar

          Pelos 7 lados eu vou te cercar

Em Madureira”.

03 – Pelo título “Meu lugar” o eu lírico fornece uma série de elementos para se pensar sobre o quê?

      Sobre o lugar cantado, o título carrega consigo uma explícita relação de pertencimento entre o compositor e o lugar que retrata na canção.

04 – A canção retrata uma série de elementos que o enquadram geograficamente, como seus bairros vizinhos. Cite os versos.

      “É bem perto de Oswaldo Cruz / Cascadura, Vaz Lobo, Irajá”.

05 – Em que versos o eu lírico fala sobre os jogos populares?

      “Tem jogo de ronda, caipira e bilhar / buraco sueca pro tempo passar”, e jogos de azar, “E uma fezinha até posso fazer / no grupo dezena, centena e milhar”.

06 – Nos versos:

“É caminho de Ogum e Iansã”,

“O meu lugar / Tem seus mitos e Seres de Luz”

“Vó Maria o terreiro benzer”; percebe-se que a canção é carregada de que significados?

      Significados que ligam o lugar à aspectos de religiosidade afro-brasileira.

07 – Existe uma crítica social na canção? Confirme com um verso.

      Sim. “O meu lugar / é cercado de luta e suor / esperança num mundo melhor”.

08 – Em que trechos da canção o eu lírico remonta um sentimento de memorialismo e saudade, de um lugar o qual o compositor se sente pertencido?

      “Ah que lugar / a saudade me faz relembrar / os amores que eu tive por lá / é difícil esquecer”, “Doce lugar / que é eterno no meu coração”.

 


POEMA: UNI-VERSO - MÁRIO QUINTANA - COM GABARITO

Poema: Uni-Verso

             Mário Quintana

 

“Treme a folha no galho mais alto" – escrevo.

Paro e sorvo, de olhos fechados, o cheiro bom da terra, do capim chovido...

Parece que quer vir um poema...

Abro os olhos e fico olhando, interrogativamente,

a linha que escrevi no alto da página.

Depois de longo instante, acrescento-lhe três pontinhos.

Assim não ficará tão só enquanto aguarda as companheiras.

O vento fareja-me a face como um cachorro.

Eu farejo o poema.

Ah, todo o mundo sabe que a poesia está em toda parte,

mas agora cabe toda ela na folha que treme.

Por que não caberia então em um único verso?

Um uni-verso.

Treme a folha no galho mais alto.

(O resto é paisagem...)

Mário Quintana

Entendendo o poema:

01 – Observe que o texto foi escrito em 1ª pessoa.

a)   Quem é o narrador-personagem? Justifique sua resposta.

O poeta, conforme este verso: “... Abro os olhos e fico olhando, interrogativamente, a linha que escrevi no alto da página”.

b)   Qual é o assunto do texto?

Como surgiu um poema.

02 – Em determinado momento o narrador imagina que as palavras estão prestes a surgir. Onde ele parece buscar inspiração?

      Na natureza, pois inicia com o seguinte verso: “Treme a folha no galho mais alto”.

03 – Segundo o narrador, a poesia está em toda parte. O que é a poesia para você?

      Resposta pessoal do aluno.

04 – Por que ele diz que a poesia poderia estar inteira em seu único verso?

      Porque em apenas um verso o poeta pode expressar o que sente.

05 – Observe o título do texto: “Uni-verso”. Relacione-o ao conteúdo, explicando o significado.

      O significado é que uma poesia pode caber em apenas um único verso.

06 – O que a última frase, “O resto é paisagem...”, sugere?

      Sugere a fonte de inspiração do poeta.