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terça-feira, 28 de setembro de 2021

CONTO: O GATO PRETO - EDGAR ALLAN POE - COM GABARITO

 Conto: O Gato Preto

          Edgar Allan Poe

        Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. [...]

        Desde a infância, tornaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tornava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. [...]

        Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes-dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.

        Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia frequentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. [...]. Pluto assim se chamava o gato era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. [...]

        Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento enrubesço ao confessá-lo sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tornava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo [...]. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim que outro mal pode se comparar ao álcool? e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tornara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.

        Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. [...] Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! [...]

        Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. [...] Uma manhã, a sangue-frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. [...]

        Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de fogo!. As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. [...]

        [...] No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. [...] Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em torno do pescoço do animal. [...]

        Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme tão grande quanto Pluto e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pelo branco em todo o corpo e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito. Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. [...]

        Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse à casa, tornando-se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.

        De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que não sei como nem por quê seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. [...]

        Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. [...]

        Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. [...] Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, frequentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher pobre dela! não se queixava nunca, convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.

        Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar, o gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.

        Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. [...] Finalmente, tive uma ideia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas. [...]

        O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. [...] Transcorreram o segundo e o terceiro dia e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro fugira para sempre de casa.

        Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.

        No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. [...]

        -- Senhores – disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada – é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída... (Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes – os senhores já se vão? –, estas paredes são de grande solidez.

        Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.

        Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.

        Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.

        Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco.

        Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba! 

POE, Edgar Allan. Histórias extraordinárias. São Paulo: Martin Claret, 2000.

Fonte: Livro – Tecendo Linguagens – Língua Portuguesa – 7º ano – Ensino Fundamental – IBEP 4ª edição São Paulo 2015 p. 189-192.

Entendendo o conto:

01 – O narrador-personagem anuncia que vai contar uma história “sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica.” Que expectativa é criada no leitor devido ao uso desses dois adjetivos?

      O leitor espera que a história seja um acontecimento inesperado entre a rotina e os elementos cotidianos.

02 – Releia o primeiro parágrafo e responda: Por que razão ele decidiu tornar pública sua história?

      Porque pode morrer em breve e quer desabafar, aliviar o espírito.

03 – A partir do segundo parágrafo, o narrador-personagem conta um pouco de sua infância e do início do seu casamento. Que mudança podemos perceber em sua personalidade no decorrer da história?

      Na infância, a personagem era dócil e de bom caráter. Aos poucos, foi se tornando uma pessoa cada vez mais irritadiça e violenta. Primeiro, maltratava apenas os animais, com exceção do gato preto. Depois, passou a agredir o gato a ponto de matá-lo. Por fim, acabou assassinando a esposa.

04 – Por duas vezes, a personagem maltrata o gato preto. Releia os trechos que relatam esses dois episódios. De que maneira esses relatos contribuem para o clima de tensão da narrativa?

      Os trechos mostram a mudança no caráter do narrador e acentuam o caráter de terror do conto.

05 – O conto sugere que o gato encontrado pela personagem, em uma de suas saídas à noite, num antro mais do que infame, era o mesmo gato que havia sido enforcado. Que semelhanças entre ambos foram apontadas?

      “Ambos eram pretos, enormes, não tinham um olho e eram afeiçoados ao casal. Acima disso, contudo, há o relato do narrador: [...] tão grande quanto Pluto e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele.”

06 – A quem, principalmente, o narrador atribui a culpa por sua mudança de caráter, incluindo o assassinato de sua esposa? Justifique com trechos do texto.

      Ao gato preto: “seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. [...] Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom.”; “O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo.”; “O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo.”; “Transcorreram o segundo e o terceiro dia e o meu algoz não apareceu.”; “[...] achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco.”

07 – A que outro fator poderíamos atribuir a mudança de caráter do narrador? Justifique com um trecho do texto.

      À bebida: “Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento – enrubesço ao confessá-lo – sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior.”; “Meu mal, porém, ia tomando conta de mim – que outro mal pode se comparar ao álcool?”.

08 – Copie no caderno a alternativa que melhor justifica a presença do foco narrativo em primeira pessoa nesse conto:

a)   O narrador-personagem tem conhecimento dos fatos e os narra com total isenção de envolvimento, deixando claro ao leitor sua culpa no crime que praticou.

b)   O narrador-personagem, devido à sua aproximação com os fatos narrados, seleciona situações para convencer o leitor de que uma força sobrenatural o obrigou a praticar os atos de violência.

09 – Que recurso o narrador utiliza para tentar convencer o leitor de que a história de fato aconteceu?

      No primeiro parágrafo, o narrador conversa com os leitores e afirma que não espera que acreditem em sua história, já que até mesmo seus sentidos se negam a acreditar, mas que vai conta-la mesmo assim.

10 – De que maneira os substantivos e os adjetivos contribuem para criar um clima de terror e mistério? Cite exemplos retirados do texto.

      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Muitos dos adjetivos e substantivos do texto procuram descrever o ambiente e os seres, além de narrar os fatos de uma forma que provoque medo nos leitores.

      “Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco.

        Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!”

11 – Que diferenças poderíamos apontar entre uma narrativa de enigma e uma narrativa de terror?

      A narrativa de enigma trabalha com um mistério a ser desvendado, enquanto a narrativa de terror trabalha com um fato sobrenatural.

 

 

terça-feira, 2 de julho de 2019

CONTO: O RETRATO OVAL - EDGARD ALLAN POE - COM QUESTÕES GABARITADAS

Conto: O Retrato Oval
      
                           Edgar Allan Poe

     O castelo no qual meu criado estava decidido a entrar à viva força, não consentindo que eu, ferido como estava, tivesse que passar a noite debaixo da chuvarada, era um grande edifício senhorial e melancólico, que durante muitos e muitos séculos, fora grito de guerra nos Montes Apeninos. Segundo nos disseram, tinha sido abandonado temporariamente por seus donos.
        Acomodamo-nos numa das salas menores, que era também a mais modestamente mobiliada. Estava situada num torreão um tanto afastado do corpo principal do castelo; seus móveis, seus adornos, ricos e luxuosos, pareciam maltratados pela ação do tempo e apenas conservavam poucos vestígios do antigo esplendor.
        Sobre as paredes caíam tapeçarias e troféus heráldicos, bem como grande quantidade de quadros modernos encerrados em molduras de ouro e madeiras finíssimas. Devido talvez ao delírio que me produzia a alta febre, senti crescer dentro de mim um grande amor por aqueles quadros que como prodigioso e estranho museu, tinha diante dos olhos.
        Mandei o criado fechar as pesadas portas e as altas janelas, pois era noite cerrada, e acender o candelabro de sete braços que encontrara sobre a mesa. Descerrei, em seguida, os cortinados de cetim e veludo que rodeavam o dossel de minha cama.
        Queria assim, se por acaso não chegasse a conciliar o sono, distrair-me ao menos na contemplação dos quadros na leitura de um livro de pergaminho que havia encontrado sobre a almofada, o qual parecia conter a descrição e a história de todas as obras de arte que se achavam encerradas naquele castelo.
        Passei quase toda a noite lendo. Naquele livro estava realmente a história dos quadros que me rodeavam. E as horas transcorreram rapidamente e, sem que eu percebesse, chegou a meia-noite. A luz do candelabro me feria os olhos e, sem que meu criado o notasse, coloquei-o de tal modo que somente projetasse seus tênues raios sobre a superfície escrita do livro. Mas aquela troca de luz produziu um efeito inesperado. Os resplendores das numerosas velas projetaram-se então sobre um quadro da alcova que uma das colunas do leito até então tinha envolto numa sombra profunda. Era o retrato de uma jovem quase mulher. Dirigi ao quadro uma olhadela rápida e fechei os olhos.
        Não o compreendi bem a princípio. Mas, enquanto minhas pupilas permaneciam fechadas, analisei rapidamente a razão que mas fazia cerrar assim. Era um movimento involuntário para ganhar tempo, para assegurar-me de que minha vista não me tinha enganado, para acalmar e preparar meu espírito para uma contemplação mais serena. Ao cabo de alguns momentos olhei de novo para o quadro, desta vez fixa e penetrantemente.
        Já não podia duvidar, ainda que o quisesse, de que então via muito claramente. O primeiro esplendor da chama do candelabro sobre a tela tinha dissipado a confusão de meus sentidos e chamara à realidade. O retrato era de uma jovem. Um busto; a cabeça e os ombros pintados nesse estilo que chamam, em linguagem técnica, estilo de “vinheta”; um tanto da “maneira” de Sully em suas cabeças prediletas. O seio, os braços e os cachos de cabelos radiantes fundiam-se imperceptivelmente na sombra que servia de fundo ao junto. A moldura era oval, dourada e trabalhada ao gosto moderno. Como obra de arte não se podia encontrar nada mais adorável do que a própria pintura. Mas pode ser que não fosse nem a execução da obra nem a beleza daquele semblante juvenil que me impressionou tão súbita e fortemente. Devia acreditar ainda menos que a minha imaginação, saindo de um sonho, tivesse tomado aquela mulher por uma pessoa viva.
        Vi, em primeiro lugar, que os pormenores do desenho, o estilo e o aspecto da moldura não me deixariam nenhuma ilusão, ainda que momentânea, dissipando imediatamente semelhante encantamento. Fazendo estas reflexões, permaneci estendido uma hora inteira, com os olhos cravados no retrato.
        Tinha adivinhado que o “encantamento” da pintura era uma expressão vital, absolutamente adequada à própria vida, que primeiro me tinha feito estremecer e que finalmente me subjugara, aterrorizado. Com um terror profundo e insopitável, coloquei de novo o candelabro na sua primitiva posição.
        Tendo ocultado assim a minha vista a causa dessa profunda agitação, procurei ansiosamente o livro que continha a análise do quadro e sua história. Fui em busca do número que designava o retrato oval e li o seguinte relato:
        “Era uma jovem de rara beleza e cheia de jovialidade. Maldita foi a hora em que viu e amou o artista, casando-se com ele! Ele, apaixonado, estudioso, amava, mais do que sua esposa, a sua Arte; ela, uma jovem de rara beleza e não menos amável do que cheia de jovialidade – nada mais do que luz e sorrisos – ágil como a lebre solta no campo – amando e acariciando todas as coisas – não odiando mais do que a Arte, que era sua rival – não temendo mais do que a palheta e os pincéis. Foi uma coisa terrível para ela ouvir o pintor falar do desejo de pintar sua esposa. Mas esta era obediente, e sentou-se com doçura durante longas semanas no sombrio e alto “atelier” da torre, onde a luz penetrava por uma claraboia de cristal. Mas ele, o pintor, punha seu destino e sua glória no retrato, que avançava em cores de hora para hora e de dia para dia…
        E ele era um homem apaixonado e estranho, que se perdia em sonhos, tanto que “não queria” ver que a Luz que filtrava tão lugubremente naquela torre afastada, extenuava a saúde e a alma de sua mulher, que enfraquecia visivelmente aos olhos de todo o mundo, exceto aos dele.
        Contudo, ela sorria sempre, sem se queixar, porque via que o pintor sentia um prazer doido e ardente na sua tarefa e trabalhava noite e dia para pintar aquela que amava tanto, mas que se tomava de dia para dia mais lânguida e mais débil. E, na verdade, os que contemplavam o retrato falavam em voz baixa da extrema semelhança do original como de uma prodigiosa maravilha e como de uma prova não menor do talento do pintor do que de seu profundo amor por aquela a quem pintava ato milagrosamente bem.
        Todavia, mais tarde, quando a tarefa se aproximava de seu fim, já ninguém podia visitar a torre: o pintor tinha enlouquecido com o ardor de seu trabalho e não tirava os olhos da tela senão para ver a fisionomia da mulher. E “não queria” ver que as cores que gravava na tela ele as ia tirando das faces daquela que estava sentada à sua frente. E quando, decorridas muitas semanas, já faltava muito pouco trabalho – nada mais do que uma pincelada sobre os lábios e uma sombra sobre os olhos – o espírito da mulher palpitou como a chama próxima a extinguir-se palpita numa lâmpada; e então o pintor deu a pincelada sobre os lábios e a sombra sobre os olhos e, durante um momento, quedou em êxtase ante o trabalho que tinha realizado; um minuto depois, quando o olhava extasiado, um estremecimento de terror percorreu seu corpo e começou a gritar com voz aguda e destemperada.
        – É a vida, é a própria vida que eu aprisionei na tela!
        E, quando se voltou para contemplar sua esposa, viu que ela estava morta.”
                    Edgar Allan Poe. O gato preto e outros contos. São Paulo: Hedra, 2008. p. 65-9.

Entendendo o conto:
01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:
·        À mourisca: ao estilo mourisco; estética originária de povos árabes do norte da África, cujo trabalho em relevo privilegia formas geométricas e arabescos.
·        Filigrana: espécie de renda de metal.
·        Apeninos: cordilheira do norte da Itália.
·        Arabesco: ornamento inspirado na arte islâmica.
·        Nicho: Cavidade feita na parede para colocar estátuas, livros, etc.
·        Bruxulear: mover-se fracamente.
·        Torreão: torre larga em castelo.

02 – Esse conto pode ser dividido em duas partes, e em cada uma se narra uma história passada em um tempo diferente.
a)   Quais são os principais acontecimentos de cada uma das partes?
1ª parte: um homem ferido se abriga em um castelo abandonado, onde vê um retrato e, em um livro que trata das pinturas expostas nas paredes do castelo, lê a história dessa pintura.
2ª parte: uma bela jovem casa-se com um pintor que coloca a arte acima de tudo. Ela aceita posar para um retrato. À medida que a pintura do retrato avança, a jovem vai perdendo a saúde, mas o marido se recusa a perceber isso. Quando ele dá a última pincelada e constata que há vida na pintura, percebe que a amada está morta.

b)   Qual é a mais antiga e qual é a mais recente?
A 2ª é a mais antiga. E a 1ª é mais recente.

03 – Releia o início do conto:
a)   O que se informa sobre a identidade do narrador e sobre a circunstância que o levou a abrigar-se no castelo?
Quase nada, mais pode-se deduzir que o narrador seja um homem rico, pois viaja com um criado, e que a viagem seja pelos montes Apeninos, na Itália.

b)   Que sentidos essas informações ou a falta delas acrescentam a essa narrativa?
A falta de detalhes sobre o narrador e sobre os motivos de sua estada no castelo ajuda a criar o clima de mistério que está presente em toda a narrativa.

04 – O narrador é um elemento importante para marcar as duas histórias. Como esse recurso aparece no conto?
      O primeiro narrador é o homem ferido que pernoita no castelo. Sua narrativa em primeira pessoa soa como um depoimento, um relato. O segundo é um narrador em terceira pessoa, desconhecido, e sua narrativa é o registro escrito de uma história que teria se passado.

05 – Na narrativa, ocorre um fato inusitado.
a)   Que fato é esse?
A jovem perde a vida ao mesmo tempo que seu retrato ganha vitalidade.

b)   Em qual das duas histórias se passa esse fato?
Na segunda história.

c)   Por que ele pode ser considerado inusitado?
Porque há elementos irreais, como a transferência da vida da moça para o retrato.

06 – Em “O retrato oval”, uma combinação de fatores cria o suspense, elemento fundamental em seu enredo. Um desses fatores é a forma de apresentar o espaço ao leitor.
a)   Com base nas palavras do narrador, indique as características do castelo.
Antigo, comum nos Apeninos, grandioso, sombrio, abandonado.
b)   De acordo com o texto, quais são as características do quarto:
·        Caracterização geral: localizado em um torreão afastado do castelo, menor que os demais.
·        Paredes: cobertas por tapeçarias.
·        Quadros: pesados com molduras de arabescos dourados.
·        Forma de iluminação: iluminação a vela.
·  Cama: envolvido por um cortinado de veludo negro arrematado por franjas.

c)   Em geral, quais os traços predominantes nesses espaços?
Predominam, no castelo e no quarto, a escuridão e um ambiente pesado, soturno.

07 – Qual é a importância do trecho “As horas passaram céleres e agradáveis até que a meia-noite escura se instalou” para acentuar o clima de mistério do conto?
      No imaginário dos leitores, à meia-noite é um horário carregado de sentido. Em diversos contos, é a hora em que os feitiços se desfazem ou em que um encantamento se inicia.

08 – Outro elemento que contribui para construir o suspense nesse conto é a forma de apresentar o retrato ao leitor.
a)   Pela visão até a compreensão do efeito que o retrato produz no narrador, quanto tempo se passou? Quais são os parágrafos que narram esse acontecimento?
Desde a percepção até a compreensão do efeito que o quadro lhe causava, transcorre cerca de uma hora, segundo o narrador. Esse processo é narrado do parágrafo 3 ao 5.

b)   Como o quadro e sua imagem são descritos na narrativa: de uma vez ou de modo gradual? Que efeito isso gera?
O quadro e a imagem são apresentados aos poucos: primeiro, os aspectos gerais; depois, os detalhes. O leitor demora a saber o que causa sobressalto na personagem.

09 – A personagem, em determinado momento do conto, admite seu estado de delírio.
a)   O que causou impressão tão forte na personagem que ela julgou ser um delírio?
A extrema perfeição da expressão do rosto retratado, chegando a confundi-lo com o de uma mulher real.

b)   Por que, para a coerência do conto, essa informação é importante?
Ao final do conto, revela-se que a imagem do rosto era tão perfeita que o retrato sorvera a vida da moça que retratava.

10 – A personagem principal pode mencionar, com suas palavras, o conteúdo do que tinha lido no livro. No entanto, sua opção por transcrever o trecho tem uma função. Explique-a.
      A transcrição contribuiu para a verossimilhança interna do conto, pois confere autenticidade ao relato.

11 – A segunda história tem um papel na construção da narrativa como um todo. Qual é o papel dela no esclarecimento dos fatos?
      Ela esclarece a história do quadro que causa espanto no narrador. Com a morte da jovem, sua vida parece ter sido entregue ao quadro, o que, em princípio, justificaria a impressão do observador do retrato.