Crônica: COM O LIRÓ
Lima Barreto
Ultimamente
só tenho nas minhas estrebarias um único animal: é a égua Scherazade.
Antigamente, porém, isto é, há uns anos passados, havia nela, além dos animais
de tiro, mais dois de sela: a Elisabeth e o Zadig. Scherazade é uma linda égua
negra de meio sangue, com grandes olhos e porte altivo. Comprei-a ao conhecido
criador e cronista esportivo Brioni Júnior por dez contos de reis, no que fiz
bom negócio. Elisabeth era uma linda peça de um pelo alazão, liso e brilhante;
era de um quarto de sangue. O Zadig não tinha sangue algum.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7v50aS8-8CIfE8M_lCLumLHdqr7zJtoEOopaojjQAcDmlzTGWikS9zSwqthGX-c1dB-Y49fshlx27BlBP_OyZZosOUlsz4vzc_edKVDuOu1jSfzAjelSqos78-fj6O56nEv9IUw0SYRVab7rtyrWTYa6dQGHdA-a0V_4J43RLi_JItDtj7Dn0qrDt_6M/s320/images.jpg Por
causa deles, vim a conhecer o Liró, meu vizinho, funcionário público, também
amador de animais; mas ao jeito da terra. Ele só gosta de animais nacionais –
crioulos; e dessas nossas selas rebarbativas, cheias de pelegos e anteparos, e
dos nossos arreios faiscantes de prata.
Habitualmente,
passeamos a cavalo, pela manhã, pelos arredores das nossas casas. Uma manhã
destas brumosas e frias, saímos nós a dar uma volta nas nossas alimárias. Ele,
no Caboclo – um “pampa” marchador que devia ser magnífico, se não estivesse ao
lado da soberbia da minha Scherazade. Era uma manhã feia, úmida e nublada. O
Rio, cheio de Sol e luz, é uma alegria; mas, como estava naquela manhã, é uma
sepultura.
Seguimos
o nosso destino que era ir até a cachoeira dos Urubus, na Boca do Mato. O
subúrbio, em geral, é feio; mas, a parte que entesta com a montanha, tem
trechos surpreendentes. Fomos e íamos conversando. Eu lhe contava histórias
de cavalos célebres, do famoso Bayard, do paladino Rolando, do Bucéfalo de
Alexandre; do Rocinante de d. Quixote, etc., etc. Pareceu-me, entretanto, que
ele não me ouvia com atenção a conversa. Perguntei-lhe:
–
Liró, em que pensas?
Nós
atravessamos um resto de capoeira em que as raras árvores eram enriquecidas de
verdura pela folhagem dos cipós abundantes.
Ao
ouvir a minha pergunta, Liró sobressaltou-se e logo disse:
–
Nesse negócio de candidaturas.
–
Tens interesse em algum dos candidatos?
–
Nenhum.
–
Então porque pensas nesse desinteressante negócio?
–
Porque dizem que o novo presidente vai demitir em massa os funcionários
públicos.
–
Estás doido, Liró! Ele não fará isso...
–
Porque?
–
Porque não há Estado sem um grande corpo de funcionários.
Desde
o Império Romano até o Britânico que se tem verificado que a existência do
Estado supõe a de uma chusma de funcionários. Ainda mais: o duque Audiffret-Pasquier
disse até: “Morrem os impérios, nascem as repúblicas; mas as secretarias
ficam”. Deve ser isto mais ou menos. O que, porém, ressalta do pensamento do
duque, sejam quais forem as suas palavras, é essa capacidade da burocracia, em
atravessar regimes diversos, com uma inalterabilidade que lhe dá o aspecto de
um verdadeiro fenômeno natural.
–
Dizem também que ele quer acabar com a aposentadoria. E possível?
–
Liró: a aposentadoria é coisa constitucional. Para que ele acabasse com a
aposentadoria, teria que violar a Constituição. O Senhor Bernardes, por mais
capaz, não terá esse topete. Ele é mineiro e não mete mão em cumbuca. Irá para
o Catete, se for; aparará mais os seus fraques, aumentará o número dos
seus pince-nez e assinará decretos de... nomeações.
–
Irá mesmo? Ou será o Nilo?
Ia
dizer “não sei”, quando um porco, subitamente, atravessou na nossa frente, de
um lado para outro da estrada.
Nossos
cavalos se espantaram. Liró foi ao chão; eu, porém, fiquei firme na sela.
Depois
que Liró recavalgou, eu lhe disse:
–
Vê tu como são as coisas. Montas muito melhor do que eu. Tua sela, à mexicana,
é cheia de segurança no arção e no sant’antônio. Entretanto, tu foste ao chão e
eu fiquei em cima da Scherazade. Como é isto?
–
Não sabes de uma coisa que o povo diz por aí: mais vale quem Deus ajuda do que
quem cedo madruga.
Careta, Rio, 23-7-1921.
Entendendo a crônica:
01 – Como a crônica contrapõe o perfil do
narrador ao de seu vizinho Liró no que diz respeito à montaria e aos hábitos de
passeio?
O narrador possui uma inclinação mais cosmopolita e
literária, montando uma égua de meio-sangue negra (Scherazade) e citando
montarias históricas e mitológicas ao longo do trajeto. Já Liró é retratado
como um apreciador das tradições locais: é funcionário público, prefere cavalos
crioulos nacionais (como seu pampa Caboclo) e utiliza selas rebarbativas
ornamentadas com pelegos e prata ao estilo tradicional do país.
02 – Qual é o motivo da preocupação de Liró
durante o passeio e de que forma o narrador busca tranquilizá-lo?
Liró demonstra apreensão em relação às disputas presidenciais
por conta do boato de que o futuro presidente demitiria os funcionários
públicos em massa e extinguiria as aposentadorias. O narrador o tranquiliza
recorrendo à história e à teoria política, citando a célebre máxima do Duque
Audiffret-Pasquier de que as repúblicas e impérios passam, mas a burocracia das
secretarias permanece inalterada como uma força permanente do Estado.
03 – De que maneira o narrador caracteriza a
figura do candidato Arthur Bernardes e sua relação com a Constituição?
O cronista ironiza o perfil cauteloso do político mineiro
Arthur Bernardes, afirmando que ele jamais violaria a Constituição para
extinguir a aposentadoria por ser um homem prudente que "não mete a mão em
cumbuca". Com humor, o autor prevê que, caso assumisse o Palácio do
Catete, Bernardes se limitaria a ajustar a vestimenta, usar seus pince-nez e
assinar decretos ordinários de nomeação.
04 – Qual incidente interrompe a conversa
política dos cavaleiros e quais foram as suas consequências imediatas?
A discussão sobre a eleição entre Bernardes e Nilo Peçanha é
bruscamente interrompida quando um porco cruza a estrada na frente dos animais.
O susto faz com que os cavalos se espantem, arremessando Liró ao chão, enquanto
o narrador consegue se manter firme sobre a sela de sua égua Scherazade.
05 – Qual é a ironia contida na queda de Liró e
como ele justifica o acontecimento?
A ironia reside no fato de Liró ser um cavaleiro muito mais
experiente do que o narrador e utilizar uma sela no estilo mexicano, projetada
para dar maior firmeza e segurança ao montador. Diante do paradoxo de ter caído
mesmo sendo superior na arte da montaria, Liró recorre ao saber popular e
encerra o debate citando o ditado: "mais vale quem Deus ajuda do que quem
cedo madruga".
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