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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CRÔNICA: COM O LIRÓ - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: COM O LIRÓ

            Lima Barreto

 

        Ultimamente só tenho nas minhas estrebarias um único animal: é a égua Scherazade. Antigamente, porém, isto é, há uns anos passados, havia nela, além dos animais de tiro, mais dois de sela: a Elisabeth e o Zadig. Scherazade é uma linda égua negra de meio sangue, com grandes olhos e porte altivo. Comprei-a ao conhecido criador e cronista esportivo Brioni Júnior por dez contos de reis, no que fiz bom negócio. Elisabeth era uma linda peça de um pelo alazão, liso e brilhante; era de um quarto de sangue. O Zadig não tinha sangue algum.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7v50aS8-8CIfE8M_lCLumLHdqr7zJtoEOopaojjQAcDmlzTGWikS9zSwqthGX-c1dB-Y49fshlx27BlBP_OyZZosOUlsz4vzc_edKVDuOu1jSfzAjelSqos78-fj6O56nEv9IUw0SYRVab7rtyrWTYa6dQGHdA-a0V_4J43RLi_JItDtj7Dn0qrDt_6M/s320/images.jpg


        Por causa deles, vim a conhecer o Liró, meu vizinho, funcionário público, também amador de animais; mas ao jeito da terra. Ele só gosta de animais nacionais – crioulos; e dessas nossas selas rebarbativas, cheias de pelegos e anteparos, e dos nossos arreios faiscantes de prata.

        Habitualmente, passeamos a cavalo, pela manhã, pelos arredores das nossas casas. Uma manhã destas brumosas e frias, saímos nós a dar uma volta nas nossas alimárias. Ele, no Caboclo – um “pampa” marchador que devia ser magnífico, se não estivesse ao lado da soberbia da minha Scherazade. Era uma manhã feia, úmida e nublada. O Rio, cheio de Sol e luz, é uma alegria; mas, como estava naquela manhã, é uma sepultura.

        Seguimos o nosso destino que era ir até a cachoeira dos Urubus, na Boca do Mato. O subúrbio, em geral, é feio; mas, a parte que entesta com a montanha, tem trechos surpreen­dentes. Fomos e íamos conversando. Eu lhe contava histó­rias de cavalos célebres, do famoso Bayard, do paladino Ro­lando, do Bucéfalo de Alexandre; do Rocinante de d. Quixote, etc., etc. Pareceu-me, entretanto, que ele não me ouvia com atenção a conversa. Perguntei-lhe:

        – Liró, em que pensas?

        Nós atravessamos um resto de capoeira em que as raras árvores eram enriquecidas de verdura pela folhagem dos cipós abundantes.

        Ao ouvir a minha pergunta, Liró sobressaltou-se e logo disse:

        – Nesse negócio de candidaturas.

        – Tens interesse em algum dos candidatos?

        – Nenhum.

        – Então porque pensas nesse desinteressante negócio?

        – Porque dizem que o novo presidente vai demitir em massa os funcionários públicos.

        – Estás doido, Liró! Ele não fará isso...

        – Porque?

        – Porque não há Estado sem um grande corpo de funcio­nários.

        Desde o Império Romano até o Britânico que se tem verificado que a existência do Estado supõe a de uma chusma de funcionários.      Ainda mais: o duque Audiffret-Pasquier disse até: “Morrem os impérios, nascem as repúblicas; mas as se­cretarias ficam”. Deve ser isto mais ou menos. O que, po­rém, ressalta do pensamento do duque, sejam quais forem as suas palavras, é essa capacidade da burocracia, em atravessar regimes diversos, com uma inalterabilidade que lhe dá o aspecto de um verdadeiro fenômeno natural.

        – Dizem também que ele quer acabar com a aposentadoria. E possível?

        – Liró: a aposentadoria é coisa constitucional. Para que ele acabasse com a aposentadoria, teria que violar a Constituição. O Senhor Bernardes, por mais capaz, não terá esse to­pete. Ele é mineiro e não mete mão em cumbuca. Irá para o Catete, se for; aparará mais os seus fraques, aumentará o número dos seus pince-nez e assinará decretos de... nomea­ções.

        – Irá mesmo? Ou será o Nilo?

        Ia dizer “não sei”, quando um porco, subitamente, atravessou na nossa frente, de um lado para outro da estrada.

        Nossos cavalos se espantaram. Liró foi ao chão; eu, porém, fiquei firme na sela.

        Depois que Liró recavalgou, eu lhe disse:

        – Vê tu como são as coisas. Montas muito melhor do que eu. Tua sela, à mexicana, é cheia de segurança no arção e no sant’antônio. Entretanto, tu foste ao chão e eu fiquei em cima da Scherazade. Como é isto?

        – Não sabes de uma coisa que o povo diz por aí: mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga.

Careta, Rio, 23-7-1921.

Entendendo a crônica:

01 – Como a crônica contrapõe o perfil do narrador ao de seu vizinho Liró no que diz respeito à montaria e aos hábitos de passeio?

      O narrador possui uma inclinação mais cosmopolita e literária, montando uma égua de meio-sangue negra (Scherazade) e citando montarias históricas e mitológicas ao longo do trajeto. Já Liró é retratado como um apreciador das tradições locais: é funcionário público, prefere cavalos crioulos nacionais (como seu pampa Caboclo) e utiliza selas rebarbativas ornamentadas com pelegos e prata ao estilo tradicional do país.

 

 

02 – Qual é o motivo da preocupação de Liró durante o passeio e de que forma o narrador busca tranquilizá-lo?

      Liró demonstra apreensão em relação às disputas presidenciais por conta do boato de que o futuro presidente demitiria os funcionários públicos em massa e extinguiria as aposentadorias. O narrador o tranquiliza recorrendo à história e à teoria política, citando a célebre máxima do Duque Audiffret-Pasquier de que as repúblicas e impérios passam, mas a burocracia das secretarias permanece inalterada como uma força permanente do Estado.

 

03 – De que maneira o narrador caracteriza a figura do candidato Arthur Bernardes e sua relação com a Constituição?

      O cronista ironiza o perfil cauteloso do político mineiro Arthur Bernardes, afirmando que ele jamais violaria a Constituição para extinguir a aposentadoria por ser um homem prudente que "não mete a mão em cumbuca". Com humor, o autor prevê que, caso assumisse o Palácio do Catete, Bernardes se limitaria a ajustar a vestimenta, usar seus pince-nez e assinar decretos ordinários de nomeação.

 

04 – Qual incidente interrompe a conversa política dos cavaleiros e quais foram as suas consequências imediatas?

      A discussão sobre a eleição entre Bernardes e Nilo Peçanha é bruscamente interrompida quando um porco cruza a estrada na frente dos animais. O susto faz com que os cavalos se espantem, arremessando Liró ao chão, enquanto o narrador consegue se manter firme sobre a sela de sua égua Scherazade.

 

05 – Qual é a ironia contida na queda de Liró e como ele justifica o acontecimento?

      A ironia reside no fato de Liró ser um cavaleiro muito mais experiente do que o narrador e utilizar uma sela no estilo mexicano, projetada para dar maior firmeza e segurança ao montador. Diante do paradoxo de ter caído mesmo sendo superior na arte da montaria, Liró recorre ao saber popular e encerra o debate citando o ditado: "mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga".

 

 

 

 

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