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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

TEXTO: CONVERSA COM O MAR - FRAGMENTO - ANÍBAL M. MACHADO - COM GABARITO

 Texto: Conversa com o mar – Fragmento

         Aníbal M. Machado

        “Hoje vim mais cedo continuar a nossa conversa. Trouxe banana e sanduíche, posso ficar mais tempo”.

        Abriu o embrulho de comestíveis: “Vim como ontem, tal como me vês.” Estranho que outros não estejam aqui a te contemplar. Nem me lembro bem como foi a nossa conversa de ontem, pois a noite veio tão depressa e o sono, que até pensei que a mamãe estava perto. Eu deixei meus pais, um avô e três tias no planalto e ainda não sei dizer se fico por aqui. Sonhei com um peixe que me chamava. Foi quando escureceu que eu senti tua noite mais profunda que as noites da montanha. Agora vejo por que os namorados abusam tanto de teu luar. Mas não sei o teu mistério... 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgpRQYwOEdQz1xEiym1weB-icBxyFyOKqk-r6yfWk3YbHfBaG4d8yNwkv2Kf0Aywpi-f6fnwSFqV8hTQCGm5T7P0-QYnkeWOsZ0ZZZm5xAaDyZ9OGPu3TtkqgJPzlTN-pL2IHCPThV_oA-fTqBrHXc9O1C5azCwwqEDxON8NKZVFxv1a0NRlvnNiK4kGYM/s320/images.jpg 


Será que vais guardar esse jeito assim tão novo? Lá em casa, quando se ouvia a palavra mar, meu avô se levantava agitado e perguntava se não estávamos sentindo cheiro de maresia. E quando vinha o temporal, a casa boiava entre os vagalhões da Mantiqueira. Ah, meu avô nunca disse por que se afastou de tuas águas!... Tu, agora, tão perto, tão perto!... Os astros passam alto, as nuvens correm longe, o vento a gente nem vê... Tu, não... tu chegas pertinho, e ficas. Agachar e brincas nas tuas águas assusta. Custo acreditar que esteja tocando a tua pele. Pensar que terminas nos meus dedos!... Outro dia me assustei também quando levantei os olhos da pedra de uma igreja enorme. Mar, o que eu queria te dizer é que pertenço a uma espécie aborrecida que não escolhi. Posso um dia optar pelas tuas águas? Mergulha-se e fica... Ninguém vai notar a ausência...

        As ondas mudando de cor. Ou seria perturbação da vista. Começou a mastigar outra banana.

        “Acho que aí no fundo, nas raízes do rochedo, não há dor nem alegria. Se o rochedo falasse!...”.

Anibal M. Machado. João Ternura. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 143.

Entendendo o texto:

01 – O texto é construído a partir da fala direta de uma personagem com o oceano ("Hoje vim mais cedo continuar a nossa conversa..."). Qual recurso estilístico fundamenta esse tipo de interlocução e de que maneira ele revela o estado emocional e o isolamento da personagem?

      O recurso estilístico fundamental é a prosopopeia (ou personificação), em que o mar é dotado de capacidade de escuta e presença quase humana ("Custo acreditar que esteja tocando a tua pele"). Essa conversa unidirecional evidencia um profundo isolamento e solidão: distante da família que ficou no planalto, a personagem não encontra interlocutores humanos e busca no mar um ouvinte para suas angústias, incertezas e desejos de evasão.

02 – Analise como o texto estabelece uma oposição entre o espaço de origem da personagem (o planalto e a Mantiqueira) e o novo espaço em que ela se encontra (a beira-mar). Qual é o significado simbólico do mar nessa transição?

      O espaço de origem (a montanha/Mantiqueira) representa a memória familiar, as raízes e a proteção do lar ("Lá em casa..."). Em contrapartida, o mar representa o desconhecido, o fascínio e o mistério ("não sei o teu mistério..."). A transição do interior para o litoral simboliza uma ruptura com o passado familiar e a atração por um elemento dinâmico e tátil ("tu chegas pertinho, e ficas"), que contrasta com a distância imutável dos astros e das nuvens.

03 – No trecho final do diálogo, a personagem faz uma reflexão profunda sobre a sua condição humana e o fundo do mar ("Posso um dia optar pelas tuas águas? Mergulha-se e fica... Ninguém vai notar a ausência..."). Como essa fala pode ser interpretada sob a perspectiva da evasão da realidade?

      A fala expressa um desejo de evasão radical e anulação do sofrimento. A personagem declara pertencer a uma "espécie aborrecida" e vislumbra o fundo do mar como um lugar neutro, pacífico e livre de angústias ("não há dor nem alegria"). O ato de mergulhar e "ficar" surge como uma ideia de refúgio definitivo ou dissolução da existência, no qual o esquecimento social ("Ninguém vai notar a ausência") funcionaria como libertação do peso de viver.

04 – Qual é a importância da figura do avô nas lembranças trazidas pela personagem e como essa memória se conecta com a presença do mar no presente?

      O avô surge como uma figura de conexão ancestral e misteriosa com o mar. Mesmo vivendo no interior, a palavra "mar" o deixava agitado e à procura do "cheiro de maresia", fazendo com que a própria casa parecesse boiar nos "vagalhões da Mantiqueira". A lembrança do avô, que nunca explicou por que se afastou das águas, lança uma aura de herança psicológica sobre a personagem: ela parece dar continuidade à mesma atração enigmática que o avô sentia, vivendo agora fisicamente a proximidade que ele apenas evocava na memória.

05 – Identifique no fragmento dois recursos de linguagem que reforçam a dimensão sensorial da experiência da personagem ao lado do mar.

      A Sensopercepção Tátil: O uso de metáforas que atribuem ao mar características físicas e biológicas, como em "tocando a tua pele" e "terminas nos meus dedos", tornando concreta e íntima a relação do corpo com a água.

      A Percepção Visual e Cromática: A observação do dinamismo das ondas e da luz ("As ondas mudando de cor", "abusam tanto de teu luar"), aliada a atos cotidianos simples como "mastigar outra banana", que contrapõem a grandiosidade da natureza ao gesto humano comum.

 

 

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