Conto: As cores do crepúsculo – Fragmento
Rubem Alves
[...]
Mas a melhor coisa que pode acontecer
na velhice é voltar a ser criança. Os velhos, tolos, querem continuar a ser
úteis. Coitados! Ainda estão sob o domínio do olhar dos outros! Melhor seria se
percebessem que o objetivo da vida não é ser útil. Útil é martelo, serrote,
vassoura, fio dental, bicicleta. As coisas úteis, quando velhas, ficam inúteis.
Inúteis, são jogadas fora.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhsImalFJsGLo-tsW9zBNmJvaLUXTyzTXKl8cjpTSbMAa4LN0Iq-W-HnDjAoyAEDWPVy7ZGuYy64BtkDAjZsK_8L07lWSq-xk142BVKwRpzfzlIxh3sqimuNI6yoq3Wnz4DAbhaN7EItg9XsCXiJXVNyUFeAenfiMj3ulbxGA9rQdHv9d7sbVKGPgikNzY/s1600/SOL.jpg [...]
Mas o objetivo da vida não é a
utilidade. É a feliz inutilidade do brincar. Brinquedo é uma atividade inútil a
que nos entregamos por causa da alegria que ela nos dá. Pode ser formar
quebra-cabeças, empinar pipas, ouvir música, ler literatura, cozinhar,
caminhar, viajar, chupar sorvete, conversar, ver livros de arte, escrever,
sonhar, cantar… E, acima de tudo, brincar com as crianças. Melhor ainda se
tiver netos com quem brincar. Há mesmo os velhos que, na velhice, descobrem o
amor. Amar é brincar com a pessoa amada. Tão bonito, o amor dos velhos.
Lembro-me de uma cena do filme Doutor Jivago, a que mais me comoveu: um
velhinho dando um beijo no rosto enrugado e velho da sua mulher, adormecida…
Fiquei mais velho. Mas sou grato. Na
velhice estou tendo felicidades com que nunca sonhei, quando jovem. [...]
Rubem Alves. As cores
do crepúsculo: a estética do envelhecer. Campinas, Papirus, 2001.
Fonte: Língua
portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD.
São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 175-176.
Entendendo o conto:
01
– De acordo com o autor, qual é a "melhor coisa" que pode acontecer
na velhice e por que ele sente pena dos velhos que insistem em querer continuar
sendo úteis?
A melhor coisa
que pode acontecer na velhice é "voltar a ser criança". O autor sente
pena dos idosos que tentam se manter úteis porque afirma que eles ainda estão
presos e sofrendo "sob o domínio do olhar dos outros", sem perceber
que o verdadeiro sentido da vida na maturidade não está ligado à produtividade
ou à utilidade.
02
– Rubem Alves faz uma analogia entre pessoas que buscam a utilidade e objetos
de trabalho. Como essa comparação é utilizada para alertar sobre os perigos de
se viver apenas em função de ser útil?
O autor compara a
utilidade humana a objetos como martelo, serrote, vassoura e fio dental. Ele
alerta que a lógica das coisas úteis é cruel: quando elas envelhecem, tornam-se
inúteis e, consequentemente, são jogadas fora. Ao basear o valor da vida na
utilidade, o idoso corre o risco de se sentir descartável quando o tempo
passar.
03
– Como o autor define o conceito de "brinquedo" no texto e quais
exemplos de atividades ele cita como formas de "brincar"?
Rubem Alves
define o brinquedo como "uma atividade inútil a que nos entregamos por
causa da alegria que ela nos dá". Para ele, o objetivo da vida é essa
"feliz inutilidade". Como exemplos, ele cita: montar quebra-cabeças,
empinar pipas, ouvir música, ler literatura, cozinhar, caminhar, viajar, chupar
sorvete, conversar, ver livros de arte, escrever, sonhar, cantar e brincar com
crianças/netos.
04
– De que maneira Rubem Alves relaciona o sentimento do amor na velhice com o
ato de brincar e qual cena cinematográfica ele utiliza para ilustrar essa
beleza?
O autor afirma
que "amar é brincar com a pessoa amada", integrando o amor na mesma
categoria de atividades prazerosas e "inúteis" (livres de obrigações)
que trazem pura alegria. Para ilustrar a beleza do amor na velhice, ele resgata
uma cena emocionante do filme Doutor Jivago, na qual um velhinho dá um beijo
carinhoso no rosto enrugado de sua esposa adormecida.
05
– No fechamento do fragmento, o autor expressa um sentimento de gratidão. O que
justifica esse agradecimento em relação à sua própria velhice?
O autor é grato
porque, ao envelhecer, ele descobriu e experimentou felicidades com as quais
nunca havia sequer sonhado quando era jovem. Isso demonstra que, ao desapegar
da cobrança pela utilidade e abraçar a leveza da infância recuperada, a velhice
se tornou um período de surpreendente satisfação e contentamento.
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