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quinta-feira, 4 de junho de 2026

CONTO: AS CORES DO CREPÚSCULO - FRAGMENTO - RUBEM ALVES - COM GABARITO

 Conto: As cores do crepúsculo – Fragmento

            Rubem Alves

         [...]

        Mas a melhor coisa que pode acontecer na velhice é voltar a ser criança. Os velhos, tolos, querem continuar a ser úteis. Coitados! Ainda estão sob o domínio do olhar dos outros! Melhor seria se percebessem que o objetivo da vida não é ser útil. Útil é martelo, serrote, vassoura, fio dental, bicicleta. As coisas úteis, quando velhas, ficam inúteis. Inúteis, são jogadas fora.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhsImalFJsGLo-tsW9zBNmJvaLUXTyzTXKl8cjpTSbMAa4LN0Iq-W-HnDjAoyAEDWPVy7ZGuYy64BtkDAjZsK_8L07lWSq-xk142BVKwRpzfzlIxh3sqimuNI6yoq3Wnz4DAbhaN7EItg9XsCXiJXVNyUFeAenfiMj3ulbxGA9rQdHv9d7sbVKGPgikNzY/s1600/SOL.jpg


        [...]

        Mas o objetivo da vida não é a utilidade. É a feliz inutilidade do brincar. Brinquedo é uma atividade inútil a que nos entregamos por causa da alegria que ela nos dá. Pode ser formar quebra-cabeças, empinar pipas, ouvir música, ler literatura, cozinhar, caminhar, viajar, chupar sorvete, conversar, ver livros de arte, escrever, sonhar, cantar… E, acima de tudo, brincar com as crianças. Melhor ainda se tiver netos com quem brincar. Há mesmo os velhos que, na velhice, descobrem o amor. Amar é brincar com a pessoa amada. Tão bonito, o amor dos velhos. Lembro-me de uma cena do filme Doutor Jivago, a que mais me comoveu: um velhinho dando um beijo no rosto enrugado e velho da sua mulher, adormecida…

        Fiquei mais velho. Mas sou grato. Na velhice estou tendo felicidades com que nunca sonhei, quando jovem. [...]

Rubem Alves. As cores do crepúsculo: a estética do envelhecer. Campinas, Papirus, 2001.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 175-176.

Entendendo o conto:

01 – De acordo com o autor, qual é a "melhor coisa" que pode acontecer na velhice e por que ele sente pena dos velhos que insistem em querer continuar sendo úteis?

      A melhor coisa que pode acontecer na velhice é "voltar a ser criança". O autor sente pena dos idosos que tentam se manter úteis porque afirma que eles ainda estão presos e sofrendo "sob o domínio do olhar dos outros", sem perceber que o verdadeiro sentido da vida na maturidade não está ligado à produtividade ou à utilidade.

02 – Rubem Alves faz uma analogia entre pessoas que buscam a utilidade e objetos de trabalho. Como essa comparação é utilizada para alertar sobre os perigos de se viver apenas em função de ser útil?

      O autor compara a utilidade humana a objetos como martelo, serrote, vassoura e fio dental. Ele alerta que a lógica das coisas úteis é cruel: quando elas envelhecem, tornam-se inúteis e, consequentemente, são jogadas fora. Ao basear o valor da vida na utilidade, o idoso corre o risco de se sentir descartável quando o tempo passar.

03 – Como o autor define o conceito de "brinquedo" no texto e quais exemplos de atividades ele cita como formas de "brincar"?

      Rubem Alves define o brinquedo como "uma atividade inútil a que nos entregamos por causa da alegria que ela nos dá". Para ele, o objetivo da vida é essa "feliz inutilidade". Como exemplos, ele cita: montar quebra-cabeças, empinar pipas, ouvir música, ler literatura, cozinhar, caminhar, viajar, chupar sorvete, conversar, ver livros de arte, escrever, sonhar, cantar e brincar com crianças/netos.

04 – De que maneira Rubem Alves relaciona o sentimento do amor na velhice com o ato de brincar e qual cena cinematográfica ele utiliza para ilustrar essa beleza?

      O autor afirma que "amar é brincar com a pessoa amada", integrando o amor na mesma categoria de atividades prazerosas e "inúteis" (livres de obrigações) que trazem pura alegria. Para ilustrar a beleza do amor na velhice, ele resgata uma cena emocionante do filme Doutor Jivago, na qual um velhinho dá um beijo carinhoso no rosto enrugado de sua esposa adormecida.

05 – No fechamento do fragmento, o autor expressa um sentimento de gratidão. O que justifica esse agradecimento em relação à sua própria velhice?

      O autor é grato porque, ao envelhecer, ele descobriu e experimentou felicidades com as quais nunca havia sequer sonhado quando era jovem. Isso demonstra que, ao desapegar da cobrança pela utilidade e abraçar a leveza da infância recuperada, a velhice se tornou um período de surpreendente satisfação e contentamento.

 

 

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