Artigo científico: O Jongo como tática de resistência e como elemento de construção da memória e identidade no território quilombola – Fragmento
Ione do Carmo
O jongo, entendido enquanto dança e
gênero musical-poético, foi inicialmente praticado pelos escravos de origem
bantu, que trabalhavam nas fazendas de café do Vale do Paraíba. Datam do século
XIX os primeiros registros dos jongos nessas fazendas através de relatos dos
viajantes. Praticado como diversão, mas abrangendo também aspectos religiosos,
é através dos pontos – melodia cantada nas rodas de jongo – que seus
praticantes expressam suas ideias e emoções. Em versos curtos, os jongueiros
transmitem mensagens ou enigmas a serem decifrados, nos quais a utilização de
metáforas e a mescla do português com expressões de origem africana transformam
os pontos em canções difíceis de serem interpretadas.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjlblJdbsq55iui3TKhZM1QRjbBDeiaIOhvT5ehCPCBqsMLwt0_bqpX6UotMgqytwdbghIWlfIyGzhEnvW7o_GPosSDmZr5Qs9ebhv1W-KtmmHUnBjJWXSPw6fKtklNTLpdPvLkSAQuD8NRHpUbNr-8JHa0MwBPV0bSUqRfmCEUUvy5jCInHZLNudXWTtA/s1600/JONGO.jpg No período da escravidão, as cantigas
ritmadas do jongo acompanhavam o movimento da enxada e, através dos pontos, os
escravos relatavam os acontecimentos do cotidiano, excluindo seus senhores e
feitores da compreensão de suas mensagens. As fugas, que muitas vezes foram
planejadas através dos cânticos do jongo, marcaram os limites da dominação e
proporcionaram a formação de comunidades de escravos fugidos, os quilombos.
Dessa forma, o jongo constituiu-se como um elemento importante para as fugas,
podendo ser interpretado enquanto tática de resistência ao cativeiro.
Essa manifestação cultural, que
continua sendo transmitido de geração a geração através dos africanos e seus
descendentes que o praticavam, é uma representação coletiva vivenciada em
determinados territórios ocupados pelas comunidades negras rurais e urbanas,
que remete diretamente a uma ancestralidade africana e quilombola. Essa
transmissão é parte da construção de uma memória coletiva de um grupo, onde os
acontecimentos passados, vividos pessoalmente ou “por tabela” são
significativos na formação de uma identidade no presente. [...]
Segundo o relato de Antônio Nascimento
Fernandes, líder da comunidade negra rural da Fazenda de São José da Serra, o
jongo antecede o quilombo, já que era através do cântico do jongo que o escravo
“combinava quem ia fugir, como ia fugir, com quem iria fugir. Mas os feitores,
que ficavam o dia todo nas lavouras de café não tomavam conhecimento daquilo.”
Considerando essa narrativa, recorre-se claramente a uma referência ao jongo
que referenda o seu papel da formação da comunidade de escravos fugidos, que
por sua vez resgata o papel do mesmo jongo referendando a comunidade atual
[...]
Dessa forma, as representações
coletivas da comunidade de São José da Serra traduzem um modo de vida
particular, que levam para além de sua dimensão espacial, um significado
simbólico que influi no processo de construção da memória e na afirmação da
identidade do grupo. As treze famílias que atualmente moram na comunidade têm
por descendência uma família negra em comum formada pelo casal Tertuliano e
Miquelina, escravos de José Gonçalves Roxo, proprietário da fazenda São José da
Serra na década de 1860. É importante
destacar que os laços familiares dentro da comunidade são mantidos entre os que
moram na fazenda, mas também com aqueles que saíram dela. Os familiares que
moram fora da fazenda São José da Serra ainda hoje vivenciam as práticas
culturais, através da participação nas comemorações, das práticas religiosas e
das rodas de jongo.
Ainda hoje, nessa comunidade, o jongo é
dançado em volta de uma fogueira e a mãe de santo – atualmente Mãe Tetê,
descendente da última geração de escravos – benze a fogueira e os
participantes, dando continuidade a uma tradição. É possível que a presença do fogo na roda de
jongo esteja ligada a forte influência cultural africana dos escravos bantus,
que constituíram a maioria dos escravos trazidos para o Centro-Sul do Brasil
entre o final do século XVIII e 1850. [...]
Dessa forma, a prática atual simboliza
a forte relação entre o jongo e a religiosidade, e relação da comunidade de São
José da Serra com os antepassados, representando a manutenção da memória
coletiva desse grupo e afirmando sua identidade quilombola.
[...].
CARMO, Ione do. O Jongo
como tática de resistência e como elemento de construção da memória e
identidade no território quilombola (1988-1999). In: XIV Encontro Nacional da
Anpuh-Rio Memória e Patrimônio, 2010, Rio de Janeiro: Unirio,2010. p. 2-3.
Disponível em: www.encontro2010.rj.anpuh.org/resources/anais/8/1278432815_ARQUIVO_texto-anpuhione.pdf.
Acesso em: 19 abr. 2021. Adaptado.
Fonte: linguagens. EJA.
Ensino médio. Caderno 3 – 1ª edição. SEDUC – FGV – SESI – p. 75-76.
Entendendo o artigo:
01 – Qual é a origem histórica
do jongo e em que região ele se consolidou inicialmente?
O jongo teve
origem com os escravos de origem bantu. Ele foi praticado inicialmente nas
fazendas de café do Vale do Paraíba, com registros que datam do século XIX
através de relatos de viajantes.
02 – O que são os
"pontos" de jongo e como eles eram utilizados para excluir os
senhores e feitores da comunicação?
Os "pontos" são as melodias cantadas nas rodas de
jongo. Eles utilizam versos curtos, metáforas, enigmas e a mistura do português
com expressões de origem africana, o que tornava a mensagem difícil de ser
interpretada por quem não pertencia ao grupo, como os senhores e feitores.
03 – Por que o jongo pode ser
interpretado como uma "tática de resistência" ao cativeiro?
Porque, além de
acompanhar o ritmo do trabalho, o jongo era usado para relatar acontecimentos
do cotidiano e, principalmente, para planejar fugas sem que os feitores
percebessem, resultando na formação de quilombos.
04 – De acordo com o texto,
qual é a relação entre o jongo e a formação de comunidades quilombolas?
O jongo antecede
e fundamenta o quilombo. Ele servia como ferramenta de articulação para as
fugas ("quem ia fugir, como ia fugir"). Atualmente, a prática do
jongo resgata essa história, legitimando a identidade e a ancestralidade dessas
comunidades.
05 – Como a memória coletiva é
mantida na comunidade da Fazenda de São José da Serra?
A memória é
mantida através da transmissão de geração em geração de práticas culturais e
religiosas. Isso envolve tanto as famílias que residem na fazenda quanto os
parentes que moram fora, que retornam para participar das rodas de jongo e
celebrações.
06 – Qual é o papel da
"mãe de santo" e do fogo nas rodas de jongo atuais?
A mãe de santo
(como Mãe Tetê) tem o papel de benzer a fogueira e os participantes, reforçando
o caráter religioso da tradição. A presença do fogo é uma herança cultural
direta dos escravos bantus e simboliza a conexão com os antepassados.
07 – Como o jongo influi na
afirmação da identidade quilombola no presente?
O jongo funciona
como um símbolo de resistência e união. Ao praticarem o jongo, os descendentes
reafirmam sua ancestralidade africana, mantêm viva a memória dos que lutaram
contra a escravidão e fortalecem os laços de pertencimento ao território
quilombola.
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