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terça-feira, 12 de maio de 2026

CRÔNICA: ANALFABETISMO - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Crônica: Analfabetismo

            Machado de Assis

        Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjKM3pNp0uYyECWqdaJOwebxKIGzYPM_QnpGDqmiwIO3UqTmvqkXeo7bU_Nh3l5SC5I12LbqqOkhsX9u-h13ikmL__dKzb24V2af1e9taDBz7glimNl55pE5qnKWQuQPH9ihwWpGVNfJGIYJyklFC739wQKLgCMRMRXQFvPrd54gOO4lBEm-anRoRFQfzg/s1600/aNAL.jpg


        Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:

        — Quando uma Constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.

        A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:

        — A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não leem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, — por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.

        Replico eu:

        — Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições…

        — As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas — “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.

        E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.

Machado de Assis. 15 de agosto de 1876. In: Obra completa, vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. Disponível em: http://www.cronicas.uerj.br/home/cronicas/machado/rio-de-janeiro/ano1876/15ago76.htm. Acesso em: 1º mar. 2021.

Fonte: linguagens. EJA. Ensino médio. Caderno 3 – 1ª edição. SEDUC – FGV – SESI – p. 34-35.

Entendendo a crônica:

01 – Por que o narrador afirma que gosta dos algarismos em comparação às letras?

      O narrador prefere os algarismos porque eles são diretos, sinceros e francos. Diferente das letras, que são usadas para criar frases e retórica (muitas vezes para disfarçar a realidade), os algarismos dizem as coisas pelo nome, sem "meias medidas" ou metáforas.

02 – Qual é a crítica central que o "Sr. Algarismo" faz em relação à democracia brasileira daquela época?

      A crítica central é que a democracia é fictícia, pois a grande maioria da população (70%) é analfabeta. Para o algarismo, não se pode falar em "vontade da nação" quando a maior parte dela não sabe ler, não conhece a Constituição e não entende as propostas dos políticos.

03 – Segundo o texto, como os 70% de cidadãos que não sabem ler exercem o direito ao voto?

      Eles votam de forma inconsciente, "do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê". O texto compara o ato de votar dessas pessoas a ir a uma festa popular (Festa da Penha), ou seja, por mero divertimento ou impulso, sem compreensão política.

04 – Qual é a "reforma no estilo político" proposta pelo algarismo?

      Ele propõe que se pare de usar a palavra "nação" e se use "os 30%". Como apenas essa minoria sabe ler e participa efetivamente da vida política, o correto seria dizer "representantes dos 30%" ou "poderes dos 30%", para ser condizente com a realidade estatística.

05 – O que o narrador conclui ao final do diálogo com o algarismo?

      O narrador conclui que não há como argumentar contra o algarismo. Enquanto os discursos políticos são feitos sobre bases frágeis e retóricas, o algarismo tem o apoio de dados concretos e reais, como o recenseamento (o censo populacional).

 

 

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