Crônica: A PESCARIA
Lima Barreto
O
Jorge era, apesar de boêmio, um bom chefe de família. A sua mulher que lhe
sabia cavalheiro e bom marido não se importava absolutamente com as suas
extravagâncias. Eles viviam na maior paz e harmonia. Chegasse ele às dez, às
onze ou às quatro horas da madrugada, a recepção era a mais cordial possível.
Um
dia pela semana santa, isto é, na quinta-feira da Paixão, Jorge chegou em casa
e disse à mulher:
–
Eugênia, amanhã vou pescar e você me acorde cedo. Da. Eugênia recebeu a
recomendação com todo o carinho e, no dia seguinte, logo pela manhã, pela
madrugada, despertou o marido.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhnxOi9yoAkhSpearxGwqfXwI_QfkQbLI92s_NwY-ZODGbqiYZr0Gx62rsNTOnGH38IWvLb4OI0veKY2XL5WeG61G-C40x9uw4JV12DOLDsALi1twYCumIIvpo3DqOMUZsV7BOFVqa9aaoH3CaHcJU1kmHdBQPUTIY3m3sh-NiXRZ20RW3_t-pvtywTX3A/s320/images.jpg Jorge
saiu lépido e contente com o prazer que ia dar à cara-metade.
Em
chegando ao primeiro botequim, porém, abancou e pôs-se a beber. Comer e beber,
a questão é começar; e ele tinha começado e continuou.
Quando
chegou aí pelo meio dia, lembrou-se da pescaria que tinha prometido à mulher.
–
Como havia de ser? pensou ele de si para si.
A
canoa e os companheiros já deviam ter partido, e precisava levar os peixes.
Entrou
em uma confeitaria e comprou camarões, postas de peixe, siris, ostras, etc.
Tomou
o bonde e foi para casa. Entregou os embrulhos à mulher e foi dormir, tão
cansado estava da pescaria. Às cinco horas, da. Eugênia veio-lhe despertar:
–
Jorge! Jorge! Vem jantar.
Ele
ergueu-se e foi para a sala de refeições. Quando lá chegou e viu aqueles
primores de confeitaria, perguntou à mulher:
–
Que diabo é isso? Estamos em piquenique? A mulher acudiu:
–
Isto é a pescaria que tu fizeste!
Careta, Rio, 13-8-1921.
Entendendo a crônica:
01 – Como é caracterizada a relação entre o
protagonista Jorge e sua esposa, Da. Eugênia, no início da crônica?
A relação do casal é descrita como harmoniosa, pautada por
paz e cordialidade. Apesar de Jorge ter um estilo de vida boêmio e cometer
certas extravagâncias, a esposa o enxerga como um bom marido e um homem
respeitável. Por essa razão, ela não se incomoda com os horários em que ele
chega em casa, acolhendo-o sempre com carinho.
02 – Qual foi o compromisso assumido por Jorge
na véspera da Sexta-Feira da Paixão e de que maneira sua esposa o auxiliou?
Jorge prometeu à esposa que iria pescar na Sexta-Feira da
Paixão e pediu a ela que o acordasse bem cedo. Da. Eugênia atendeu prontamente
ao pedido e o despertou logo pela madrugada para que ele pudesse aproveitar a
pescaria planejada.
03 – O que desviou Jorge de seu objetivo original
ao sair de casa para pescar?
Ao sair de casa, Jorge parou no primeiro botequim que
encontrou e começou a beber. O hábito de beber e comer acabou se prolongando ao
longo de toda a manhã, fazendo com que ele se distraísse, perdesse o horário
combinado com os companheiros e não fosse à pescaria.
04 – Qual foi a estratégia utilizada por Jorge
para tentar disfarçar seu fracasso e não decepcionar a esposa?
Percebendo que a canoa já havia partido e que precisava
retornar com o resultado da pescaria, Jorge entrou em uma confeitaria por volta
do meio-dia. Ele comprou diversos frutos do mar já prontos — como camarões,
siris, ostras e postas de peixe —, empacotou tudo e levou para casa como se
fossem o fruto do seu trabalho na pesca.
05 – Em que consiste o tom cômico do desfecho
da crônica durante o jantar do casal?
O tom cômico surge no momento em que Jorge acorda do sono do
falso cansaço e, ao se deparar com a mesa posta repleta de pratos elaborados de
confeitaria, esquece a própria mentira, e pergunta surpreso se estavam em um
piquenique. A esposa, revelando o absurdo da farsa, responde ironicamente que
aquilo era o resultado da pescaria que ele havia feito.
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