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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CRÔNICA: A PESCARIA - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: A PESCARIA

            Lima Barreto

 

        O Jorge era, apesar de boêmio, um bom chefe de família. A sua mulher que lhe sabia cavalheiro e bom marido não se importava absolutamente com as suas extravagâncias. Eles viviam na maior paz e harmonia. Chegasse ele às dez, às onze ou às quatro horas da madrugada, a recepção era a mais cordial possível.

        Um dia pela semana santa, isto é, na quinta-feira da Paixão, Jorge chegou em casa e disse à mulher:

        – Eugênia, amanhã vou pescar e você me acorde cedo. Da. Eugênia recebeu a recomendação com todo o cari­nho e, no dia seguinte, logo pela manhã, pela madrugada, despertou o marido.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhnxOi9yoAkhSpearxGwqfXwI_QfkQbLI92s_NwY-ZODGbqiYZr0Gx62rsNTOnGH38IWvLb4OI0veKY2XL5WeG61G-C40x9uw4JV12DOLDsALi1twYCumIIvpo3DqOMUZsV7BOFVqa9aaoH3CaHcJU1kmHdBQPUTIY3m3sh-NiXRZ20RW3_t-pvtywTX3A/s320/images.jpg 


        Jorge saiu lépido e contente com o prazer que ia dar à cara-metade.

        Em chegando ao primeiro botequim, porém, abancou e pôs-se a beber. Comer e beber, a questão é começar; e ele tinha começado e continuou.

        Quando chegou aí pelo meio dia, lembrou-se da pescaria que tinha prometido à mulher.

        – Como havia de ser? pensou ele de si para si.

        A canoa e os companheiros já deviam ter partido, e precisava levar os peixes.

        Entrou em uma confeitaria e comprou camarões, postas de peixe, siris, ostras, etc.

        Tomou o bonde e foi para casa. Entregou os embrulhos à mulher e foi dormir, tão cansado estava da pescaria. Às cinco horas, da. Eugênia veio-lhe despertar:

        – Jorge! Jorge! Vem jantar.

        Ele ergueu-se e foi para a sala de refeições. Quando lá chegou e viu aqueles primores de confeitaria, perguntou à mulher:

        – Que diabo é isso? Estamos em piquenique? A mulher acudiu:

        – Isto é a pescaria que tu fizeste!

Careta, Rio, 13-8-1921.

Entendendo a crônica:

01 – Como é caracterizada a relação entre o protagonista Jorge e sua esposa, Da. Eugênia, no início da crônica?

      A relação do casal é descrita como harmoniosa, pautada por paz e cordialidade. Apesar de Jorge ter um estilo de vida boêmio e cometer certas extravagâncias, a esposa o enxerga como um bom marido e um homem respeitável. Por essa razão, ela não se incomoda com os horários em que ele chega em casa, acolhendo-o sempre com carinho.

 

02 – Qual foi o compromisso assumido por Jorge na véspera da Sexta-Feira da Paixão e de que maneira sua esposa o auxiliou?

      Jorge prometeu à esposa que iria pescar na Sexta-Feira da Paixão e pediu a ela que o acordasse bem cedo. Da. Eugênia atendeu prontamente ao pedido e o despertou logo pela madrugada para que ele pudesse aproveitar a pescaria planejada.

 

03 – O que desviou Jorge de seu objetivo original ao sair de casa para pescar?

      Ao sair de casa, Jorge parou no primeiro botequim que encontrou e começou a beber. O hábito de beber e comer acabou se prolongando ao longo de toda a manhã, fazendo com que ele se distraísse, perdesse o horário combinado com os companheiros e não fosse à pescaria.

 

04 – Qual foi a estratégia utilizada por Jorge para tentar disfarçar seu fracasso e não decepcionar a esposa?

      Percebendo que a canoa já havia partido e que precisava retornar com o resultado da pescaria, Jorge entrou em uma confeitaria por volta do meio-dia. Ele comprou diversos frutos do mar já prontos — como camarões, siris, ostras e postas de peixe —, empacotou tudo e levou para casa como se fossem o fruto do seu trabalho na pesca.

 

05 – Em que consiste o tom cômico do desfecho da crônica durante o jantar do casal?

      O tom cômico surge no momento em que Jorge acorda do sono do falso cansaço e, ao se deparar com a mesa posta repleta de pratos elaborados de confeitaria, esquece a própria mentira, e pergunta surpreso se estavam em um piquenique. A esposa, revelando o absurdo da farsa, responde ironicamente que aquilo era o resultado da pescaria que ele havia feito.

 

 

 

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